CARTAS NA MESA - Ledice Pereira

 




CARTAS NA MESA

Ledice Pereira


Aquela curva fechada não estava nos planos de Magda. Viu a sinalização em cima do trecho que virava para a esquerda a noventa graus. A batida foi indefensável. Magda ficou ali desacordada, enquanto carros paravam e ligavam para o resgate que demorou a chegar.

Ainda foi levada ao hospital mais próximo, aonde chegou sem vida. A equipe médica não pode fazer nada. A morte encefálica foi constatada.

Avisada, a família dirigiu-se para o hospital, sem acreditar. Magda, cinquenta anos, tinha a vida pela frente. Gostava de viver, de viajar, de sair, de receber amigos. Era alegre. Como era possível acontecer isso, logo com ela. Estavam todos inconformados.

Reuniram-se numa sala do hospital, para resolver sobre a doação de órgãos. Ela sempre dissera que era uma doadora. 

Assinados os trâmites, o hospital tratou de providenciar a retirada e o envio dos órgãos para os lugares em que eram aguardados.  

O marido e os filhos estavam perplexos. O que teria acontecido. Magda dirigia bem, era extremamente cuidadosa. No outro carro, parece que todos haviam se salvado. Que fatalidade! 

Passado o velório, a semana, a missa de sétimo dia, cada um tentava assimilar a tragédia. Ela era muito presente. Era difícil continuar ali sem sua presença marcante.

Muito tempo se passou, sem que alguém tivesse a coragem de mexer no armário cheio de roupas que lembravam várias ocasiões. A escrivaninha continha papéis e papéis que deviam significar coisas importantes, mas ninguém queria botar a mão ali.

Meses e meses depois, Fred, um dos filhos, achou que precisavam organizar as coisas. Não poderia ficar tudo ali, sem que se desse um destino. 

As roupas foram doadas na igreja próxima. O duro era examinar os arquivos de contas pagas, de fotos, de documentos que ela guardava em pastas e que teriam que ser examinados para talvez serem jogados fora ou guardados para sempre. Richie juntou-se ao irmão. Era mais emotivo e tinha dificuldade para colocar a mão em coisas que lhe traziam tantas lembranças.  As esposas os ajudaram no que era possível.

Cris era muito organizada. Foi escolhida para verificar a importância dos objetos guardados. Yara ficou com as pastas de documentos.

Como todos tinham seus trabalhos, tiveram que reservar algumas noites e alguns fins de semanas sem compromisso.

Após meses, ao remexer uma das caixas, Cris encontrou um pacote de cartas, amareladas pelo tempo, amarradas com uma fita cor de rosa, com a letra de Magda. Curiosa, tirou uma para ler.

Era dirigida a um tal de Francisco. Parecia uma declaração na qual a sogra declarava seu eterno amor. Algumas palavras pareciam ter perdido algumas letras que fizeram Cris concluir haverem sido molhadas. Seriam lágrimas? 

Todas eram dirigidas ao mesmo indivíduo. Não havia carimbo, nem sinal de que tivessem sido entregues. 

Cris mostrou a Yara e ambas relutaram em revelar a descoberta aos seus maridos e ao sogro que, certamente, se sentiriam traídos. Observaram que se tratava sempre do mesmo dia e mês, embora os anos fossem diferentes. 

Clovis, o marido, não soube explicar quando lhe contaram a respeito. Aquela data correspondia ao dia e mês em que se conheceram. Os filhos ficaram surpresos e pensativos.

O assunto era sempre o mesmo. Um amor não correspondido mas que parecia mexer muito com ela. Havia sempre uma mágoa muito grande. Talvez ela necessitasse colocar no papel o que sentia para exorcizar aquele sentimento guardado.

Tentaram pesquisar, em vão, entre os velhos conhecidos, sobre a existência de algum Francisco. 

Ao chegar à última carta do monte, entretanto, deram com uma observação escrita em vermelho.

“Sempre imaginei alguém, que tivesse tido um amor impossível, mandando cartas para a suposta paixão. Inventei essas cartas para um Francisco qualquer, pois quem sabe ainda publicarei um livro com um título de ‘Cartas na mesa’, ‘Cartas não enviadas’, ‘Cartas que Francisco não recebeu’, ‘ou algum outro título’.

A emoção tomou conta de todos. Ela tinha uma vontade íntima, que escondera de todos. Clovis e os filhos, aliviados, resolveram publicar as cartas para satisfazer aquele desejo guardado.

Encaminharam para uma editora que fez a revisão e editou. Na noite do lançamento, todos os amigos da família foram convidados e compareceram em massa.

Foi uma noite de muita emoção em que Magda foi muito lembrada por sua personalidade marcante, sua simpatia, seu poder de agregar os amigos.

Apesar de sua vida ter sido ceifada antes de ter realizado tantas coisas, sua vontade foi satisfeita e o livro recebeu um dos títulos sugeridos por ela, Cartas na Mesa.

Clovis, os filhos e as noras, tiveram a certeza de que Magda, onde quer que estivesse, e eles pressentiram sua presença, devia estar contente com aquela homenagem póstuma.  


Nenhum comentário:

Postar um comentário