Joana - Carla Di Sessa

 



Joana

Carla Di Sessa


Há quem cresça à sombra de árvores ou de arranha-céus, ou então de irmãos mais inteligentes, mais bonitos, enfim, há quem cresça ali apagadinho por algo ou alguém. Sou um desses. No meu caso a sombra era Joana, a amiga de infância, linda, olhos verdes, meiga e encantadora.

Uma borboleta… com alma de vespa.

Por trás de sua expressão ingênua havia uma mente calculista e muito, muito egoísta. Mas, era encantadora demais, atraía qualquer um para perto de sua luz, cegava, enganava e era perdoada.

E eu não percebia nada disso pois era um dos atraídos pela sua luz.

Pois bem, um dia Joana encasquetou de estudar fora, mais precisamente em São Paulo. Vinha arrastando um curso de computação no Senac de nossa cidade e o único motivo pelo qual não desistia era o incentivo do professor. Pois foi justamente esse professor quem indicou o tal curso para ela.

Joana tinha um namorado, apaixonado, enfeitiçado, totalmente à sua mercê e disposição. Ela flertava com todos os amigos dele indo até o último passo antes de pôr tudo a perder e mantinha todos, o namorado oficial e os outros, pendurados na pontinha do seu dedo. Tudo muito discreto, como uma sombra que a gente pensa que viu, mas, não, foi só impressão.

E depois, aquela carinha linda, aqueles olhos meigos, aquele sorriso, não mentiriam jamais.

E lá se foi Joana para a capital fazer o tal curso e, vejam só, o professor, aquele que a incentivava tanto, também ia, uma dessas felizes coincidências que ninguém mais sabia, só eu. Como ele era de São Paulo, provavelmente ia visitar a família ou algo assim.

O namorado ficou para trás em nossa cidade, perdido nas provas da Faculdade e nos deveres da fazenda do pai. Logo que fosse possível iria a São Paulo visitar Joana. Mas, havia sempre uma questão pendente, uma urgência, uma prova e ele ia adiando a visita. Recorriam ao telefone (naquela época WhatsApp, Zoom e afins não existiam) e passavam muito tempo conversando, sentindo saudades e jurando amor eterno.

E chegou o dia da volta. Fomos todos esperar Joana na rodoviária. Era um dia frio de agosto e eu vesti uma calça de veludo e um casaco de lã, e, com a minha família, a família de Joana e o namorado apaixonado, fiquei em pé no frio esperando o ônibus chegar.

Quando ele chegou, os passageiros começaram a descer e lá pelas tantas apareceu Joana na porta, de vestido branco, sem mangas, vaporoso, chapéu combinando, como se fosse verão e ela fosse o Sol sorrindo. Não havia frio ou vento cortante que desafiasse aquela imagem. 

E, em seguida, apareceu o professor, igualmente sorridente. 

Joana havia passado um lindo mês com ele na capital, conhecendo todos os caminhos das dobras do lençol da cama deles, desfrutando a liberdade de conhecer o corpo do professor todinho e se perdendo no que podia fazer com ele e ele com ela. 

Mas, voltou como se nada houvesse, uma menina feliz, o encanto da família e a razão de viver de seu namorado.

O professor a levou até os pais e disse:

— Vejam só a coincidência, voltamos no mesmo ônibus. Prazer em vê-los, até logo. 

Joana sorriu e se virou para abraçar os pais com a saudade que conseguiu trazer das profundezas. 

Depois, foi até o namorado e se abraçaram. Pude ouvi-la sussurrando para ele:

— Senti tanto a sua falta! 

E vi o pobre desmoronar de tanto amor.


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