O viúvo, quem diria... - Oswaldo U. Lopes


O VIÚVO, QUEM DIRIA...
Oswaldo U. Lopes

José Eduardo, 50 anos incompletos, executivo bem sucedido, três filhos  já encaminhados na vida, enviuvou subitamente. Uma febre alta, manchas pelo corpo e Isabel morreu. Resultou uma dor que pareceu infinita, que não tinha remédio e nem o dolorido parecia querer livrar-se dela.

Mas, estimado leitor, muito do que vivemos e para os mas...O tempo encarregou-se de envolve-lo e tirá-lo das trevas e sombras da perda. Fez os cinqüenta anos que não comemorou e logo começou a pensar nela de outra maneira. Nas coisas que ela implicava ou tinha medo e não queria que ele fizesse.

Correr de moto, fazer rafting, pular do alto preso numa corda com elástico etc. E pensem, no Brasil, com exceção da moto, não há esportes radicais com características de colocar a vida em risco. Alguns hão de argumentar que nos vôos solitários tem havido situações graves e mortais, mas esse tipo de esporte José Eduardo evitava, dizendo que não tinha estrutura de pássaro.

Uma coisa que não se podia dizer de José Eduardo é que fosse culto, daquela cultura que se consome na Europa ocidental, ou meditativo e calado o que o levaria para o oriente distante. Gostava mesmo era dos desafios da natureza, corredeiras, montanhas, vales profundos e rios caudalosos, por essa e por outras é que embarcou para a Nova Zelândia. Arranjou um mês e se foi.

O rafting foi exatamente como ele queria e Isabel temia. Estavam em quatro no barco. Um guia experiente que acreditara que todos eram da categoria sênior, um jovem que mal passava dos vinte anos e uma bela moça que tinha aquela idade indefinida, tipo categoria Balzac, embora já tivesse deixado os trinta anos para traz. Sentiu os calafrios e a barriga gelada, sobretudo na corredeira inclinada,  e até pensou em Isabel e no fato de que poderia encontrá-la, logo, logo.

O body jumping  foi legal, começou pelos vinte metros e acabou nos oitenta metros, com direito a entrada na água antes que o elástico o puxasse de volta. Lamento informar aos mais românticos que já não pensava tanto em Isabel. Ah! Ia me esquecendo a jovem balzaquiana chamava-se Chris, conhecia o Rio e fez questão de acompanhá-lo em todos os saltos.


         Não é, como diriam os cínicos, quem morreu foi a mulher do viúvo, e não o viúvo?  Isabel compreenderia?

A maldita febre - Fernando Braga


A maldita febre
Fernando Braga

Era maio de 1988, ocasião em que um rapaz de 35 anos fora transferido de um hospital da periferia de nossa capital para o hospital escola, onde trabalhávamos. Fui informado pelo residente de plantão, de que se tratava de mais um caso de hemorragia meníngea, ocorrida há cinco dias, o paciente estava bem, apenas com dor de cabeça e que já trazia um exame de imagem mostrando aneurisma intracraniano da circulação anterior do cérebro. Como o paciente estava bem, pedi que marcasse a operação para o primeiro horário do dia seguinte, colocasse  esta, no lugar da cirurgia de coluna que  estava marcada. Pensei:

- Este paciente teve sorte de não ter tido um ressangramento, o que é mais comum nos três primeiros dias, não podemos dar chance ao azar, não podemos bobear.

Na manhã seguinte, fomos direto ao centro cirúrgico para fazer a cirurgia que deveria excluir o aneurisma da circulação cerebral, fechando seu colo com em clipe. O paciente estava bem, esperando para ser anestesiado e ao chegar o anestesista, comunicou-me ele, que a cirurgia deveria ser suspensa, adiada, porque no momento, o paciente estava com 40 graus de temperatura corporal. Verificou novamente a temperatura e me mostrou, confirmando.

Discuti com ele, propondo que a cirurgia teria que ser realizada mesmo assim, porque o paciente estava bem, exceto pela temperatura. O anestesista pediu um momento, para ouvir a opinião de um colega, seu superior. Ambos disseram que a cirurgia não podia ser realizada naquele momento, que o sangue seria retirado novamente para exames, e novo exame clínico detalhado seria imediatamente feito. No momento nada explicava a alta temperatura, mas a lógica era não anestesiar um paciente com 40 graus! Acedi.

Em um dia, todos os exames foram feitos, repetido o exame clinico geral e nada foi encontrado de anormal, que explicasse aquele achado. A febre havia desaparecido apenas com antipirético. Como o paciente continuasse bem, a cirurgia foi novamente marcada para a manhã do dia seguinte, no primeiro horário.

À noite, estava eu em minha casa, terminando o jantar, quando recebi uma ligação da UTI do hospital, dizendo que aquele paciente da cirurgia, estava entubado, em estado de coma grave, consequência provável de nova hemorragia. Logo após, ele entrou em estado de morte cerebral.

Foi muito grande o desespero da família, que acompanhara de perto todo a evolução do caso.

Mais uma arapuca traçada pelo destino.

Consta que o anestesista que acompanhara o caso se desesperou e resolveu abandonar a anestesia, tornando-se um intensivista de UTI.


C´est la vie!

Escolhas - Fernando Braga


Escolhas
Fernando Braga

Se passou na década de 80.

Eu era o chefe da Disciplina de Neurocirurgia e trabalhava em um hospital escola, onde tinha assistentes docentes e muitos residentes. Nas segundas-feiras pela manhã após passar a visita na enfermaria e na UTI, fazia a tradicional reunião de discussão dos casos. Naquele dia indo à UTI, havia sido internados dois novos pacientes, que tiveram hemorragia intracraniana, onde o cateterismo cerebral havia mostrado a presença de aneurisma intracraniano em ambos. A cirurgia se impunha e ambos seriam operados no dia seguinte, na terça, um pela manhã e outro à tarde. Dia da semana que eu escolhera para operar o dia todo. Estes pacientes eram jovens, ele um rapaz de 31 anos, solteiro e ela uma moça de 34, casada e tinha dois filhos. Ambos estavam bem, após a hemorragia, conscientes e sem déficit neurológico.

Na reunião após a apresentação destes dois casos específicos e análise das imagens, perguntei à assistência:

— Quem vocês operariam primeiro, ele ou ela? A maioria respondeu:

— Dá na mesma, uma vez que ambos sejam operados no mesmo dia.

Outro retrucou: — Eu operaria primeiro o rapaz, porque o aneurisma tem melhor localização, a cirurgia deve ser mais curta.

Após pensar, resolvi marcar a operação da moça pela manhã e à tarde, a do rapaz. Dei esta preferência pelo fato da moça ter dois filhos.

No dia seguinte, no primeiro horário iniciei a cirurgia microscópica, que realmente foi tranquila, com fechamento perfeito do chamado colo, excluindo a entrada do sangue no aneurisma.

Quando já ia me retirar, deixando o fechamento da abertura cirúrgica para os residentes, chegou esbaforido outro residente, que comunicou que o paciente da cirurgia da tarde havia tido um novo sangramento e estava bastante mal. Saindo do centro cirúrgico fui até a UTI   para examiná-lo e qual não foi minha decepção ao encontrá-lo, já em estado de morte cerebral. Nada mais a fazer.

A paciente que acabávamos de operar, teve alta após uma semana, em ótimo estado.

E se eu tivesse operado o paciente pela manhã e a paciente à tarde, teria mudado toda história? Para mim, certamente teria. Ele teve enorme azar!

O que é o destino! C´est la vie!

A carta reconciliadora - Fernando Braga


A carta reconciliadora
Fernando Braga

Meu caro e  ex- amigo  Bonfas.

Nunca trocamos, em nossas longas vidas uma única carta. Estou aproveitando este grande momento, quando me sinto muito tranquilo, calmo, próprio para filosofar, para escrever-lhe e analisar sua reação, frente a esta missiva. Como dizia o poeta da Vila: Espero, que estas mal traçadas linhas, em estilo rude e na intimidade, encontrem-lhe gozando saúde, na mais completa .....

  Sempre que me lembro ou ouço uma canção de Noel, não posso deixar de me associo de você, um amigo que realmente trouxe grandes momentos de alegria a todos nós, quando cantava, com seu timbre próprio e marcante: Flamboyant, a cair, a cair, a espalhar pétalas no chão... ou então: A deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua, procura se embriagar....ou ainda: Minha vida, era um palco iluminado...Você era realmente, o nosso Silvio Caldas, o caboclinho querido, o Orlando Silva, o cantor das multidões e ... por aí vai. Todos nós tínhamos uma grande admiração por você, não somente por cantar bem, mas também por ser o menino Bauer, center half de nossos times de futebol, por ser aquele cara alegre, falante, apesar de todas as suas invencionices. Amigos desde os oito ou dez anos de idade, passamos muito momentos juntos após as aulas, jogando bolinhas de gude, botões, matinês, vendo os filmes em série do Zorro, Capitão Marvel, os matinês dançantes, os bailinhos no clube, enfim hoje, apenas recordações remotas. Adultos jovens, ainda solteiros, quantas vezes não viajamos juntos para passar os carnavais em Santos, Poços de Caldas e na cidade, que nos viu nascer, no longínquo oeste paulista. Éramos um grupo de bons amigos, todos devotados aos estudos, todos com muita pretensão em ser excelentes profissionais, de vencer na vida. Não dá para esquecer aquela saudosa viagem para Buenos Aires em 1959, de navio, com a turma de nossos amigos, se formando no Mackenzie. Nós dois dominamos o ambiente, seja namorando todas as moças, a Nenli, a Paquita Valderes, a boate Tabaris, e, quando chegávamos ao hotel na Calle Callao, às seis da matina, o nosso grupo estava tomando café para sair a passeio. Na volta nós dois no navio como croupies no jogo de Roleta, com as camisas azuis, cheias de estrelinhas! Tudo vem em nossa memória, como se fosse ontem. Os nossos caminhos foram sempre paralelos, você tornando-se o maior arquiteto do ABC e eu um médico, devotado aos pacientes. Você casou-se primeiro, com a mulher de sua vida, escolhendo-me para ser um de seus padrinhos, junto com sua avó e, teve dois filhos maravilhosos, igualmente capacitados e vitoriosos. Por minha vez, eu também tive a sorte de encontrar a mulher de minha vida, após percorrer uma grande distância de namoricos, todos eles muito bons. Fomos lentamente envelhecendo, cinquenta, sessenta, setenta anos...e durante todo este tempo, conseguimos manter nossa simples e boa amizade, baseada na empatia que sempre tivemos, na empatia de nossas esposas, enfim, dois casais amigos, que ocasionalmente se reunia fins de semana ou para um acontecimento familiar importante, como os casamentos de nossos filhos, aniversários ou mesmo visitas a nossa terra natal.

Quanta coisa se passou e nós dois sempre juntos, amigos sinceros, companheiros confiáveis.

Um certo dia, você teve um cataclismo em sua vida, quando sua mulher adoeceu, com uma enfermidade extremamente grave, com consequência desastrosa. Dava para perceber sua intensa angústia, em perder a companheira de sua vida e todos nós, seus amigos, presentes, percebíamos as mudanças que isto traria à sua vida. Você resistiria? Era uma grande dúvida que todos nos guardávamos em nosso íntimo.

Mais algum tempo se passou. Conseguimos manter os telefonemas mútuos, os encontros para almoços do grupo de amigos de infância, todos já idosos. Em um desses almoços, aventamos a hipótese de voltarmos juntos à nossa cidade natal, o que se realizou plenamente. Viajamos, dias perfeitos, de recordações, encontro com velhos amigos daquela cidade, quando então, deu-se o que nunca poderia acontecer, nossa briga. Por motivo banal, nós dois nos desentendemos e você, no momento, rejeitou uma reconciliação e se retirou asperamente para a casa de um parente, após declarar em voz alta que, naquele momento, estava se partindo, terminando, se desfazendo, uma amizade de 70 anos.

Desde aquela ocasião, quando já se passaram três anos, nunca mais nos vimos, nunca mais nos falamos, ficou uma magoa. Sei que errei ao falar bruscamente com você, quando você não esperava, mas sua reação foi extremamente exagerada, desproporcional. Conversando com os demais colegas presentes, após você se retirar, todos achamos que sua atitude deveria certamente estar relacionada à sua maior perda, a de sua esposa, que sempre o orientava, acalmava em momento como este, que são, relativamente, frequentes na convivência de amigos.

Bem, há muito tempo tenho ensaiado falar com você pelo telefone para voltarmos à boa. Quando sua querida nora faleceu, ainda jovem, cheguei a pegar o telefone para transmitir minhas condolências a você e seu filho, mas pensei: -estas coisas não se faz pelo telefone. Pensei em mandar um E.mail, uma carta, mas não deu certo. Pensei em encontrá-lo em uma reunião dos amigos, para refazermos nossa antiga amizade, mas isto não ocorreu.

Somente agora, completando os oitenta anos como você, peguei coragem para escrever estas poucas linhas. Pensei: - Agora, ou talvez não dê tempo!

Espero, que note bem, estou agora sem um vintém, podendo mande-me algum...

São Paulo, 27 de julho de 2015.  Responda, que eu pago o selo!

Homem que é homem... - Mario Tibiriçá


HOMEM QUE É HOMEM
Mario Tibiriçá

Quando entrou na minha sala pela primeira vez para a entrevista inicial    desde  logo fiquei encantado.   Era linda a moça Lucy, corpo escultural, alta, tez amorenada, lindos cabelos  negros e expressivos      olhos  verdes investigativos,ainda com um sorriso absolutamente  devastador.
 
Além dessas qualidades estéticas maravilhosas, destra em datilografia, mostrou-se inteligente, com a indispensável cultura necessária para o cargo que pleiteava. Atenciosa e  educada, foi contratada para ser a minha   secretária executiva, eis que  como diretor  e sócio majoritário da empresa  eu  estava totalmente  comprometido com os assuntos comerciais.    
                                                                                                                No claustro do meu isolamento, pela  recente  viuvez, entorpecido pela  avalanche de serviços, sem duvida  a  jovem  seria o  indispensável  pilar   para  o desenvolvimento do meu trabalho e  sucesso da empresa.   Além  do trabalho  desenvolvemos forte amizade, fui conhecer sua família, sem chefe mas com a mãe e irmãs trabalhadoras.    

Sem duvida, evidentemente  aconteceu o interesse pela moça,  e a justa pressão por  momentos  felizes e  despreocupados tornaran-se inadiáveis.      Mantendo uma postura educada,  as palavras com eventuais ressonâncias    íntimas e sentidos divergentes, tinham o sabor  do nada.  Meu  desejo     me enlouquecia, mas mantive a educação e a cordialidade.  

Até que em determinado feriado ´prolongado, a família    da jovem resolveu  viajar   e  Lucy pediu-me dois dias de folga, que infelizmente não   poderia conceder, face a  entrega de serviços urgentes com receitas fundamentais para a Empresa.
                                                                                                                         No  dia seguinte veio á mim,  para dizer   que não tinha condições  de ficar sozinha  na sua casa, receios e medos  a     intranquilizavam, não descansaria, não dormiria nem  viria trabalhar. Quase  desmaiei de susto quando minhas pernas tremeram face a pergunta  surpresa : “ Posso  dormir no seu apartamento ?     Antevendo  dias felizes e emocionantes, acentí, informando-a que seria      recebida como uma princesa, embora ela tenha deixado claro e alertado-me que  não tivesse outras ideias e interpretações.

Preparei-me  para o dia, levei-a  para  jantar, até dançamos um pouco   e  finalmente fomos para meu  apartamento.  

— Então Décio, chamando-me pela primeira vez sem  o  Dr. onde é o meu    quarto?    Mostrei-lhe  todo o  apartamento e ela verificou que havia apenas um quarto.

— Deixe,  vou dormir naquele bonito sofá da sala, apenas quero um   cobertor. 
— Vai sentir muito frio além de ser muito desconfortável, não      permitirei seu desconforto e sentenciei: DORMIRÁ  COMIGO ! 

— Não ouse ter ideias Decio - pegando a bolsa  disse - vou para a rua.....                                                                                                        
— Calma menina,  afinal sou  um cavalheiro, não um estuprador, só teremos     algo mais, se  quizer.    

— Bem ! sei que é um homem sério e educado e que não trairá suas palavras, mesmo porque se ousar, sairei correndo, mesmo de camisola, afim de provocar um escândalo.     

Embora enlouquecido de desejo represado há tempos, aceito  a condição.    

Nervoso, deitei-me na  cama de casal espaçosa   sempre esperando que pudesse haver uma reviravolta e noite dos sonhos.       A  linda  jovem vestindo  uma camisola sem transparência, deitou-se  ao  meu lado, desejou-me uma boa noite, virou-se e apagou sua luz de cabeceira.
                                                                                                        Viúvo  há alguns anos, muitíssimo excitado, nervoso, com o cérebro  a   ponto de explodir, os dilemas poluíam  minha cabeça. Avanço? Na marra, será o que ela espera, ela vai gostar? É tudo um joguinho? Sou um bobo  da corte,  idiota, conseguiria a gloria noturna não sendo nada?     As dúvidas que me assaltavam enlouqueciam, e as horas passavam lentas  e vazias, fui encontrar a personalidade com a perda dela,  tinha  os olhos   cansados  do choro que não tivera, mas a fraternidade tem sutilezas.  Ou bem sou um  homem, mesmo  tolo, enfrentando possível joguinho, ou um crápula aproveitador.........                                            

Esta jovem está enganada, sou  um homem, enfiei minha cabeça  no fofo  travesseiro,  enterrei  minhas unhas nos braços para me segurar e adormeci.
Quando acordei-me pela manhã, Lucy já estava no chuveiro e o  pequeno banheiro trancado. 
                                                                                               
Fui para meu banheiro barbear-me, tomei uma ducha fria e ainda de chambre apresentei-me na sala. A mesa do café posta, suco pronto,  o      leite fervido, e no meu pratinho  um papel que apenas dizia:
                         
— É  mesmo um homem, obrigado. Agora somos realmente amigos, tem a sua vida e eu a minha. 

— Mas, estou apaixonado - disse eu.

— Paciência -  respondeu ela. O tempo será  o melhor remédio. 
   
Na semana seguinte entregou-me o pedido de demissão.

— Serei eternamente sua amiga para qualquer coisa, a qualquer hora estarei  á sua disposição, porque sei que é um homem com agá maiúsculo. Passados  cinco anos,  nos falamos quase sempre, tornou-se amiga fiel e preciosa, além  de compadres, pois sou padrinho de um de seus  filhos.    
      
Sempre penso que valeu ser homem com agá maiúsculo, fiquei enriquecido com o episódio.

Meu amigo Renan - Carlos Cedano


MEU AMIGO RENAN
Carlos Cedano

Renan era meu melhor amigo na turma, eu tinha doze anos de idade e ele quatorze. Seu apelido era vitrolinha, pois falava até pelos cotovelos e só parava sob os protestos dos amigos, porem tinha muitas virtudes, entre elas sua enorme bondade, era amigo pra todas as horas e se fazia querer por todos nos!

Tinha outra característica. Era um romântico empedernido, já tinha se apaixonado por todas as meninas do bairro com as correspondentes decepções. Ingenuamente tomava suas fantasias por realidades e confundia cada gesto, sorriso ou palavra gentil de uma menina como sinal de namoro e o anunciava pra todos. Renan sofria muito, mas nunca aprendia!

Durante os muitos anos que fomos amigos, até eu ir morar na capital, nossa amizade foi uma diversão constante: além das brincadeiras clássicas como “esconde-esconde”, empinar pipa entre outras, tínhamos as “peladas”, nadar e pescar no rio e derrubar favos de vespa para comer a parte com mel e vender os pedaços com larvas pra os donos de pássaros. Essa nossa vida era a gloria, uma total despreocupação!

Mas o momento mais esperado do ano era a seca do rio. Os adultos podiam solicitar à prefeitura a concessão temporária de chácaras em seu leito. Plantavam-se verduras e legumes aproveitando que a terra estava molhada e fértil.  Quando os frutos estavam quase no ponto, na calada da noite aproveitávamos pra fazer nossa própria “colheita”, Renan relutava em ir, mas sempre acabava indo. Uma vez fomos pegos por três guardas que estavam a nossa espreita, fomos levados os cinco amigos pra a delegacia, nossa sorte foi que um dos meninos presos era justamente filho do concessionário da chácara e fomos liberados. O susto foi muito grande e nosso negocio foi pra o brejo!

Já perto de minha viagem pra a capital houve uma situação que balançou minha amizade com Renan. Ele ganhou um cachorrinho de apenas quinze dias e de tão magro que era, o batizamos de Palito. Ficamos encantados  e quando regressávamos da escola ficava na sua casa brincando com ele até a hora do jantar.

Um dia desses houve outra bonita surpresa na casa de Renan. Sua pata tinha chocado sete lindos patinhos! Era um espetáculo em amarelo intenso ver os patinhos correndo, mexendo as bundinhas e apressados atrás da orgulhosa mãe. Curtíamos muito essa bela cena!

Numa oportunidade que fui brincar com Palito, Renan tinha saído para comprar coisas pra sua mãe. Com o cachorrinho nos braços cheguei para perto dos patinhos e fiz que os cheirassem durante um bom tempo, na minha ingenuidade achava que assim ficariam amigos. Acredito que a partir desse momento se desencadeou a situação desagradável que comprometeu nossa amizade.

Estava na minha casa preparando-me para ir pra escola quando escutei bater na porta, abri e me deparei com Renan que constrangido e com a cabeça abaixada me disse:

 — Chayo me desculpe o que vou lhe dizer, mas cada vez que você vai pra nossa casa desaparece um patinho e agora só restam dois! Minha família acha que você tem a ver com isso!

Curiosamente não me senti ofendido pelo que disse Renan, mas estava triste pela dor que essa situação estava causando nele. Respondi que nunca faria isso, falei com a tranquilidade de quem se sabe inocente, mas mesmo assim, me senti machucado e fiquei triste também! Vitrolinha não falou mais nada e foi embora, tenho certeza de que voltou pra sua casa chorando, na minha eu também chorei!

Aconteceu que um dia desapareceu o sexto patinho e eu não tinha estado na sua casa! De repente a família percebeu que Palito também estava desaparecido. Procuraram por ele e foi encontrado escondido quietinho, quietinho num canto do pátio e com restos de penugem amarela em seu focinho!

Renan me procurou rapidamente e me explicou a descoberta: 

— O culpado era Palito!

Pediu desculpas mil e disse que estava contente por que o mais importante pra ele era nossa amizade, senti que falava de coração. Eu, também contente o abracei e disse-lhe pra esquecer o acontecido e foi embora feliz e aliviado!

Falando comigo mesmo disse: Oh! Cachorrinho safado, ele comeu os patinhos e ainda quis me fazer passar por culpado, onde já se viu, e sorri incrédulo!


A dança das estrelas - José Vicente J. de Camargo




A Dança das Estrelas
José Vicente Jardim de Camargo
                       
Não é programa de televisão! Mas sim a fantástica dança dos astros no espaço incomensurável do cosmo. As grandezas dos  números são de tal magnitude que nos paralisa o pensamento. Exemplo desse para nós ainda maravilhoso mundo novo, são os recentes dados enviados pela nave espacial “New Horizon”. Viajou seis bilhões de quilômetros a uma velocidade de setenta e cinco mil km por hora, durante nove anos, para nos enviar de seu minúsculo corpo, um quase nada nas proporções celestes, magníficas imagens de Plutão e suas luas.

Este último planeta do sistema solar, hoje desconsiderado como tal pelos astrônomos por não ter determinas características, se revela em todo seu esplendor cósmico mostrando inclusive, em sua superfície, uma cratera em forma de coração como a dar as boas vindas aos terráqueos aventureiros.

Outra nave espacial, como a “Voyager”, que leva consigo o  sofisticado telescópio Kepler e que já ultrapassou as fronteiras do sistema solar, nos vem surpreendendo com fotos de rara beleza de novas galáxias dentre as bilhões que sabemos existir, cada qual por sua vez, aprisionando em sua esfera gravitacional outros bilhões de estrelas. Todas numa dança frenética de explosões de nascer e morrer, criando entre si os indecifráveis, até hoje para a ciência, “buracos negros” dotados de uma quantidade incalculável de energia comprimida.

A última novidade recebida de Kepler, foi a de um planeta considerado primo distante da Terra, por estar a 1400 anos-luz e por possuir condições propicias à vida, como água líquida e atmosfera estável.

Porém, toda vez que tomamos conhecimento desse universo de  dimensões bem acima da nossa compreensão média, nos sentimos, na proporção inversa, diminuídos na nossa pequenez  de seres humanos.

Por outro lado,  constatamos que esse desequilíbrio se iguala, quando analisamos o avanço gigantesco da inteligência humana no desenvolvimento de tecnologias de ponta, necessárias para a exploração do cosmo na busca da sua origem e da sua evolução, já que  sabemos que está em permanente expansão.

Nesse contesto nos damos conta, quão destemida é a natureza humana, que desde o homo sapiens se caracteriza pelo ímpeto de desbravar o desconhecido.

Da sua origem na África, migrou para terras desconhecidas  vencendo toda sorte de obstáculos, na procura continua de novos espaços, iniciando assim a povoação dos demais continentes.

Depois tivemos os navegantes, que mesmo considerando o mundo de então plano, se aventuram na tentativa de descobrir novos horizontes até comprovarem que o precipício final não existia.

Essa ansiedade de sempre ir um passo além, é parte intrínseca do ser humano, que, sem dúvida, o distingue dos demais seres vivos.

E neste sentido, continua a pairar no ar a resposta que esperamos do cosmo:
Somos os únicos seres vivos no universo? Os únicos dotados de inteligência?

 Se não o somos, como serão nossos vizinhos?

Que aparência terão?

Serão mais inteligentes, mais bélicos?

Que comportamento terão quando contatados?

Respostas que para nós, dentro do nosso diminuto tempo de existência, só servem para matar a curiosidade momentânea da nossa imaginação. Deixemo-las, portanto para os astrônomos e outros cientistas que aos poucos, com o apoio crescente da tecnologia, as irão desvendando para a admiração de nossos sucessores.

Ficando na realidade do nosso frágil planeta Terra, continuemos a mirar maravilhados o firmamento e que, na observação de sua dança equilibrada de ordem-desordem, na grandeza de suas dimensões, possamos encontrar nosso próprio equilíbrio na convivência com nossos semelhantes, tão conturbada por conflitos de toda natureza.


Pois a mente que desbravou tão imponente cenário e alcançou tão longínquas distâncias, não pode ser capitulada por fanatismos religiosos nem por mesquinhos interesses políticos.

Que dancem as estrelas e que dialoguem os homens!...

A dança das estrelas - José Vicente J. de Camargo




A Dança das Estrelas
José Vicente Jardim de Camargo
                       
Não é programa de televisão! Mas sim a fantástica dança dos astros no espaço incomensurável do cosmo. As grandezas dos  números são de tal magnitude que nos paralisa o pensamento. Exemplo desse para nós ainda maravilhoso mundo novo, são os recentes dados enviados pela nave espacial “New Horizon”. Viajou seis bilhões de quilômetros a uma velocidade de setenta e cinco mil km por hora, durante nove anos, para nos enviar de seu minúsculo corpo, um quase nada nas proporções celestes, magníficas imagens de Plutão e suas luas.

Este último planeta do sistema solar, hoje desconsiderado como tal pelos astrônomos por não ter determinas características, se revela em todo seu esplendor cósmico mostrando inclusive, em sua superfície, uma cratera em forma de coração como a dar as boas vindas aos terráqueos aventureiros.

Outra nave espacial, como a “Voyager”, que leva consigo o  sofisticado telescópio Kepler e que já ultrapassou as fronteiras do sistema solar, nos vem surpreendendo com fotos de rara beleza de novas galáxias dentre as bilhões que sabemos existir, cada qual por sua vez, aprisionando em sua esfera gravitacional outros bilhões de estrelas. Todas numa dança frenética de explosões de nascer e morrer, criando entre si os indecifráveis, até hoje para a ciência, “buracos negros” dotados de uma quantidade incalculável de energia comprimida.

A última novidade recebida de Kepler, foi a de um planeta considerado primo distante da Terra, por estar a 1400 anos-luz e por possuir condições propicias à vida, como água líquida e atmosfera estável.

Porém, toda vez que tomamos conhecimento desse universo de  dimensões bem acima da nossa compreensão média, nos sentimos, na proporção inversa, diminuídos na nossa pequenez  de seres humanos.

Por outro lado,  constatamos que esse desequilíbrio se iguala, quando analisamos o avanço gigantesco da inteligência humana no desenvolvimento de tecnologias de ponta, necessárias para a exploração do cosmo na busca da sua origem e da sua evolução, já que  sabemos que está em permanente expansão.

Nesse contesto nos damos conta, quão destemida é a natureza humana, que desde o homo sapiens se caracteriza pelo ímpeto de desbravar o desconhecido.

Da sua origem na África, migrou para terras desconhecidas  vencendo toda sorte de obstáculos, na procura continua de novos espaços, iniciando assim a povoação dos demais continentes.

Depois tivemos os navegantes, que mesmo considerando o mundo de então plano, se aventuram na tentativa de descobrir novos horizontes até comprovarem que o precipício final não existia.

Essa ansiedade de sempre ir um passo além, é parte intrínseca do ser humano, que, sem dúvida, o distingue dos demais seres vivos.

E neste sentido, continua a pairar no ar a resposta que esperamos do cosmo:
Somos os únicos seres vivos no universo? Os únicos dotados de inteligência?

 Se não o somos, como serão nossos vizinhos?

Que aparência terão?

Serão mais inteligentes, mais bélicos?

Que comportamento terão quando contatados?

Respostas que para nós, dentro do nosso diminuto tempo de existência, só servem para matar a curiosidade momentânea da nossa imaginação. Deixemo-las, portanto para os astrônomos e outros cientistas que aos poucos, com o apoio crescente da tecnologia, as irão desvendando para a admiração de nossos sucessores.

Ficando na realidade do nosso frágil planeta Terra, continuemos a mirar maravilhados o firmamento e que, na observação de sua dança equilibrada de ordem-desordem, na grandeza de suas dimensões, possamos encontrar nosso próprio equilíbrio na convivência com nossos semelhantes, tão conturbada por conflitos de toda natureza.


Pois a mente que desbravou tão imponente cenário e alcançou tão longínquas distâncias, não pode ser capitulada por fanatismos religiosos nem por mesquinhos interesses políticos.

Que dancem as estrelas e que dialoguem os homens!...

Antes de partir - Oswaldo U.Lopes


ANTES DE PARTIR
Oswaldo U. Lopes


         Quem vê o pequeno filme não tem como não se lembrar do grande filme que foi ANTES DE PARTIR ( The Bucket List) do diretor Rub Reiner e que tinha no elenco Morgan Freeman e Jack Nicholson.

 Muitos choraram ao ver o grande filme outros o acharam sentimentalóide, mas à sua maneira, marcou época. Não que seu diretor não tivesse méritos nem história. É também dele outro filme  marcante: A Few Good Men que tinha no elenco o mesmo Jack Nicholson, Tom Cruise e Demi Moore.

Bem voltemos ao nosso pequeno filme. O cenário e um quarto de Hospital, com duas camas e dois personagens principais. Um, relativamente jovem, negro e cego. Não nos é dado saber se ele esta em tratamento para cegueira, mas o curativo que ele tem na cabeça, toma-a por completo e bloqueia seus olhos. O outro é um branco, bem mais velho e parecendo fisicamente mais abatido.

 Ambos conversam sobre um suposto parque visível da janela e onde um jovem casal se encontra de vez em quando. Na descrição do velho que enxerga, ele vai ao encontro dela levando flores. O jovem negro pergunta do anel.

É uma primeira identificação de um filme feito na cultura americana. O anel de pedido de casamento é distinto da aliança. Geralmente é um solitário de tamanho e preço variável que a mulher usará com muito orgulho. Por isso o jovem negro tanto fala que ele quer o anel. No ultimo dialogo entre eles, como só depois saberemos, o velho descreve, por fim, a presença do esperado anel e o rosto do jovem negro se irradia.
Há outros elementos da cultura americana, mais sutis, mas não menos presentes. Uma certa frieza e distanciamento das pessoas de enfermagem. Os latinos certamente acharão estranho, mas os anglo-saxônicos tem como traço forte esse distanciamento. Mesmo no conjunto hospitalar, onde se esperaria maior achego e participação, dado o sofrimento presente e constante, mais ele é notado.

No mesmo contesto a fala da enfermeira sobre a morte do velho, simples é direta: ele não conseguiu, é outro exemplo desse distanciamento. Se quisermos até a expressão, parede de tijolo no lugar do tão sonhado parque tem traços da cultura americana. Uma casa de tijolos ( brick house) é algo que você até coloca no anúncio para vender uma casa. Quando você fala em parede de tijolo ( brick wall) esta falando em paredão para contrastar com um parque verde.

Esse é talvez o ponto culminante do pequeno filme. O jovem negro percebe que foi enganado o tempo todo pelo velho a respeito do casal de namorados e do parque. Por segundos pensamos em qual será sua reação. Raiva por ter sido enganado, revolta pela própria cegueira, angustia de quem não pode ver por si próprio? Não, ele ri, ri muito e nos faz entender que gostou, amou e compreendeu a descrição do querido parque da maneira que o velho fazia. E para sempre naquele hospital, daquele lado em vez de uma parede de tijolos estará presente um belíssimo parque e um jovem casal de”promesi sposi”, como diriam os italianos.


O mistério da Rua do Frade - Carlos Cedano



O MISTÉRIO DA RUA DO FRADE
Carlos Cedano

Seu Mário, Chefe de Investigações Criminais, desligou o telefone e permaneceu em silencio alguns minutos, depois chamou seu assistente de confiança e lhe disse: Raul! Acharam vários cadáveres na Rua do Frade. Eles estão num galpão abandonado que é abrigo de mendigos. Vai lá investigar e me mantenha informado.

No local do crime o assistente conversou com a pessoa que tinha ligado para a delegacia. Ele disse que nos dois últimos dias sentia um cheiro muito desagradável vindo do galpão. Quando Raul entrou contou oito cadáveres, ligou para o chefe e pediu a presença urgente de um legista e da equipe de pericias.

Procurando mais informações na vizinhança Raul soube que ao lado do galpão havia uma pequena igreja demolida após  o padre Manolo, o pároco, ter largado a batina. A maioria das poucas pessoas que assistiam à missa dominical eram mulheres, mais interessadas pelo padre Manolo que por devoção e onde se destacava uma que tinha uma tatuagem de ancora no braço esquerdo! Disse uma mulher.

Seu Mariano o antigo sacristão disse que o padre Manolo dava aos mendigos assistência material e espiritual. Quando partiu a única pessoa que os ajudava era uma misteriosa dama que uma vez por semana trazia mantimentos e remédios, deixava as coisas na calada da noite e logo ia embora. Ninguém a conhecia, ninguém nunca a viu de perto e sempre vestia de preto fechado e tinha um enorme chapéu preto, era como uma aparição!

Em relato preliminar de Raul disse para o Chefe que todas as vítimas eram da terceira idade e sem documentos.  As mortes parecem ter sido causadas por intoxicação aguda devido à ingestão de peixe em conserva com data vencida e outros alimentos estragados. Estamos esperando confirmação dos resultados dos exames toxicológicos e análise dos poucos objetos encontrados, ah! Estava esquecendo, também visitei a sede da ordem onde falei com o Padre Superior.

  — E dai? Perguntou o chefe.

  — O último que soube dele é que viajou para Porto Alegre, seu nome completo é Manolo Murilo Martines de trinta e cinco anos de idade! O Padre Superior me deu algumas fotos dele.
— Acho que o eixo de nossa investigação passa pelo padre Manolo e pela misteriosa mulher e ver se existe conexão entre eles, mas antes devemos saber mais do padre Manolo. Amanhã cedo vamos para Porto Alegre! Disse seu Mario pra seu colega.

A conversa com o Diretor Geral da Policia de Porto Alegre foi intensa e promissora, acordaram distribuir cartazes com fotos do padre Manolo em todas as delegacias do Estado junto com suas características físicas.

Dois messes depois.

Seu Mário chegou à sua delegacia e Raul o informou que tinha noticias do padre Manolo. Um investigador gaúcho de férias em Florianópolis, viu na praia da Solidão um rosto que reconheceu. Após visitar muitos hotéis, num deles sua foto foi reconhecida pela recepcionista, estava registrado com o nome de Paulo Roberto Linhares.

Chefe e assistente voaram até Florianópolis e no hotel, quando os investigadores ficaram frente a um casal, seu Mário dirigindo-se ao homem disse:

  — Bom dia padre Manolo, faz tempo estamos procurando pelo senhor e sua esposa ou devo dizer sua cumplice?

O casal ficou estupefato e sem reação, seu Mario aproveitou para separar o casal. A estratégia era jogar um contra o outro comunicando a cada um deles que o outro o acusava de ser o único responsável pelos crimes!

Foram todos para São Paulo onde o Investigador Chefe recebeu o relatório final da pericia! Ele o leu calmamente e decidiu interrogar primeiro o padre Manolo. Com habilidade  conseguiu respostas para as perguntas que lhe fez e logo foi a interrogar a mulher em outra sala. Entrou e foi logo perguntando:

— Com certeza seu verdadeiro nome não é Maria Ramos né, Dona Julia?

         — Não!  Sou Julia Barbieri e vejo que o padre já abriu o bico né?

A estratégia funcionou e o que era uma dúvida passou a ser uma certeza, agora só faltava confirmar o motivo. Sem dar-se o trabalho de responder à indagação da mulher seu Mário continuou com outra pergunta:

  — Qual era o “tamanho” do motivo que os levou a matar oito idosos?

 — O Velho Piero, que era o mecenas do grupo, falava pra todos que possuía muito dinheiro em títulos ao portador e valiosas joias no cofre de um banco, mas que como não tinha família deixaria a grana par uma instituição de caridade. Foi por isso que Manolo pensou que alguém podia dar com a língua nos dentes e logo me disse que todos deveriam morrer!

 — Você o conhecia o padre muito tempo?

— Nos já éramos amantes há quase dois anos, planejamos tudo, mas faltava saber o nome da agencia do banco, o código do cofre e ter a posse da chave.

  — E como conseguiram essas informações?

  — Foi um trabalho de paciência do Manolo. Como os mendigos se confessavam semanalmente aos poucos conseguiu saber do próprio líder o tamanho da fortuna: era grande, muito grande! Juntando as informações do Piero com os comentários dos outros mendigos, soubemos que os dados bancários e a chave estavam sempre com o próprio.

Enquanto a mulher falava, o Chefe se abaixou e pegou um pacote que foi desembrulhando sob o olhar ansioso da interrogada! Seu Mario tirou uma sólida bengala, um velho cachimbo e um estojo de óculos, objetos encontrados junto a um cadáver.

Acho que agora posso responder a suas indagações, disse seu Mário. Nossos peritos acharam os dados bancários e o código do cofre num rolinho de papel colocado com cuidado no cachimbo; quando tiramos a empunhadura da bengala ficamos surpresos de não achar a chave do cofre! Como se explica isto dona Julia?  Não, não precisa me responder disse seu Mario! Eu vou explicar e me corrija se estiver errado!

Copiar os dados da conta e do cofre e depois recolocar o rolinho no cachimbo foi fácil; já para abrir o cofre vocês precisavam da chave de segurança. Quando você voltou ao galpão nossa equipe já estava trabalhando na cena do crime e você não teve como recoloca-la na bengala!  Hoje nos confirmaram seus saldos bancários, ambos com vultosos saldos decorrentes da venda dos títulos. Agora falta saber onde estão as joias! Mas você vai no dizer né dona Julia?

 — Eu falei pra o Manolo que não era necessário recolocar o rolinho no cachimbo nem a chave na bengala, mas ele insistiu tanto em fazer de seu jeito que veja no que deu! Achava que isso despistaria a investigação noutro sentido!

 — Obrigado dona Julia, escutando sua confissão o padre Manolo confessará rapidamente, caso contrario temos as impressões digitais que vocês deixaram com generosidade em toda a bengala! Ah! A senhora tem uma tatuagem de ancora no braço esquerdo? Dona Julia respondeu sim e desabou! Chorou tão intensamente que as secretárias não conseguiram deixar de sentir dó dessa moça tão bonita.


O Chefe Mario disse, falando com sua secretária, foi um trabalho de amadores! E saiu da sala.