UM VOO INESQUECÍVEL - Carlos Cedano



Um voo inesquecível
Carlos Cedano

Ricardo estava preocupado, seu voo de Frankfurt para Zurique estava atrasado e temia perder a conexão para São Paulo, chegou em cima da hora.  Respondendo a sua pergunta a funcionaria da companhia o informou que o avião estava totalmente lotado sem chance de trocar de lugar.

Caminhou até a área de embarque onde esperava  descansar um pouco. Estava redondamente enganado. O lugar estava cheio de garotos na flor da idade gritando e rindo sem preocupações.  Sentou no único lugar  disponível junto a uma senhora que, sem delongas,  perguntou-lhe com inconfundível acento baiano:
— O senhor parece ser brasileiro, vai de férias para o Brasil?

         — Sim, vou ao Brasil  de férias, estive  na Europa a serviço, trabalhei intensamente durante quatro messes e agora só penso morgar nos próximos quinze dias numa praia, quero sol e água fresca, acho que mereço.

A senhora concordou com um sorriso. Nesse momento  se iniciava a chamada pra embarcar: primeiro idosos, senhoras grávidas, senhoras com crianças de colo e pessoas com limitações físicas!  Entre as pessoas desse grupo havia um casal que chamou atenção de Ricardo, além dos dois serem idosos também eram obesos mórbidos. Não deve ser bom pra ninguém sentar perto deles, pensou.

Entrou no avião já lotado. Foi caminhando até o fim, sua fileira era a última. À medida que andava ia ficando apavorado. Será?... Era! Seus companheiros de viagem seria o casal de idosos que tinha visto na fila de embarque. Ganhei o número premiado! - Disse pra si com resignação. O casal o recebeu com um sorriso cordial, trocaram breves palavras: tinham ficado dois meses em Zurique conhecendo e visitando os netos.

Nosso viajante, que tinha penado pra arrumar sua mala de bordo no bagageiro, sentou-se e teve outra surpresa, a volumosa senhora “transbordava” para sua poltrona invadindo seu espaço, causando-lhe desconforto. Cutucou-a de leve mais a dona nem se tocou. Cutuco-a novamente  mais energicamente desta vez. A senhora virou-se “Estas poltronas são muito estreitas, não acha?” E desconversou.

O avião decolou e duas horas depois começaram a servir o jantar, porém nesse intervalo o esposo da senhora já tinha ido duas vezes ao banheiro, Ricardo começou a pensar o pior e “ligou uma luz amarela”, acomodou-se pra dormir mais agora era a esposa que pedia licença para ir ao banheiro, com suas últimas gotas de paciência Ricardo esperou que voltasse e após o que se acomodou novamente, desta vez com a esperança de poder dormir, estava realmente esgotado
Ledo engano, o pior ainda estava por vir!

Passados poucos minutos subitamente acenderam-se as luzes e o capitão da aeronave pediu aos passageiros que colocassem seus encostos na posição vertical e abrochassem os cinturões, a nave entraria numa área de turbulência nos próximos minutos, mas confiava que não seria muito forte e não duraria muito tempo, era uma mentira “piedosa”.

O avião começou a balançar fortemente alternando subidas e descidas, parecia um surfista manobrando sobre as ondas de um mar agitado. As crianças começaram a chorar e as aeromoças em desespero, não conseguiam atender às insistentes chamadas dos passageiros.  Malas e objetos começaram a cair tanto na área de serviços de bordo como dos bagageiros o que aumentou o caos já instalado.

O casal de idosos entrou em pânico, queria abandonar seus lugares, a aeromoça pediu para Ricardo não os deixar sair, de jeito nenhum! Sobrou pra mim, hoje não é meu dia! Pensou enquanto a duras penas conseguia segurá-los. Mais  adiante um senhor de media idade gargalhava com clara evidência de bebedeira e tinha uma garrafa de uísque na mão, perto dele uma freira rezava acelerando e aumentando sua voz cada vez mais e dando a impressão de que estava perdendo sua fé. A gritaria era geral e contagiava a todos. 

Lentamente os solavancos diminuíram e os passageiros, no meio de um cenário que evocava um campo de batalha, se acalmavam. As mães consolavam seus filhos dizendo-lhes que o perigo já tinha acabado. Os comissários de bordo iniciaram a limpeza colocando tudo  em seu lugar.

Enquanto isso, nosso herói se recuperava do esforço realizado com a contenção, fechou os olhos e dormiu. Mas, de fato não era seu dia, sentiu a mão pesada da senhora de “sempre” pedindo licença, seu marido precisava ir pra o banheiro.

Nas últimas quatro horas de vigem foram cinco pedidos de licença, três pra o marido e dois pra ela, durante esse período nosso amigo não dormiu, já estava sofrendo de pesadelos cada vez que fechava os olhos.

O avião pousou, o desembarque foi calmo e rápido, nosso sofrido passageiro viu quando o casal de idosos com passos lentos se dirigia ao banheiro.  Ricardo sorriu  sabendo que nunca esqueceria essa viagem.


Xeque-Mate - Vera Lambiasi



Xeque-Mate
Vera Lambiasi

Fernando, meu filho mais novo, com uns 6 anos, foi viajar com os amigos do Santa, para a praia.

Lá, aprendeu a jogar xadrez.

Quando voltou, foi ensinar o irmão mais velho a jogar.

Explicou como dispor as peças no tabuleiro, conforme as figuras, claras ou escuras.

Indagado sobre as utilizações de bispos, cavalos e rainhas, foi esclarecendo o passo a passo.

Depois de muita conversa, partiram para o jogo.

Diversas partidas corridas, deu-se o inevitável. Marcelo, 3 anos mais velho, começou a ganhar do irmão.

No que Fernando, indignado, desabafou:

— Ensinei melhor do que aprendi

Fênix - José Vicente J. de Camargo


Fênix
José Vicente J. de Camargo


Levada pelo burburinho ensurdecedor do vai e vem de carros, motos e de pessoas apresadas no desafio constante de vencer a hora que nunca se deixa perder, Sueli caminha carregando no corpo o fardo da mente que incessantemente a provoca com aquele assunto cuja resposta ela busca em vão encontrar entre seus mais íntimos sentimentos.

Avenida chega, a rua corta, a calçada tropeça e nada do alívio chegar trazendo a solução do problema.

De repente um grito corta o ar seco da estiagem fustigante:

- Cuidado! Pare!

Tarde demais, a motocicleta não respeita a desatenção do inconsciente:

Bate!

Sueli rodopia e é jogada na sarjeta poeirenta.

Passantes correm, se aglomeram, na maioria curiosos preenchendo o vazio do dia. Um, dentre todos, mostra iniciativa e chama o Samu.

Longa espera! O corpo estremece no grito da dor.

Deitada na maca, ela acompanha assustada os movimentos cuidadosos da equipe socorrista.

Nisto, sem esforço algum, lhe vem da alma a resposta aguardada.

Sueli, entre suspiros, esboça um sorriso monaliseano...


Enfim da dor, emerge a Fênix salvadora!

CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR - Eduardo Galeno


CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR

Eduardo Galeano
Jornalista e escritor uruguaio


O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Entregaram-se, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.

Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.

Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.

Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

É mais! Compravam-se para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.

E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que havia em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.

Estão nos incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar.

Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.

Aonde estão os sapateiros fazendo meias-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava..

Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor.... É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo".

Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado... E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... por amor de Deus!

Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Educaram-me para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?

Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos...

Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette até partidas ao meio se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisas para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de bastos".

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: custava-nos muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!

Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.

Mordo-me para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.

Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.

Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.


Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à bruxa, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o entregue... 

O HINO NACIONAL BRASILEIRO E SUA COMPOSIÇÃO







CN-NOTÍCIAS "Jornalismo a serviço da vida e da esperança". Matéria exibida 01 de julho de 2010. Reportagem: Fernanda Postigo. Produção: Sidinei Fernandes e Luciana Sales. Imagens: Raílson. Edição: Luis Carlos Guedes.


Desnorteada - Vera Lambiasi


Desnorteada
Vera Lambiasi

Luzia caminhava na larga calçada da avenida Paulista, alheia à alternância de freadas e aceleradas.
Par de pés aproximavam-se, e ultrapassavam sua silhueta cambaleante.
Aglomerados de carros e pessoas não se davam conta de suas preocupações.
Seguia rumo ao Banco onde pegaria suas joias.
Não as via há 20 anos, desde a morte do marido.
O cofre forte fora cancelado e tudo deveria ser retirado.
Era o último dia, não havia saída.
Resolvera ir à pé, para pensar onde colocá-las.
Engraçava-se com a vida, quando poderia andar sossegada na ida, e tensa na volta.
Sentia-se livre, nada expondo.
E depois? Carregaria na bolsa? Tomaria um taxi? Esconderia no armário? Mostraria aos filhos? Repartiria? Ou ostentaria, como faziam as amigas?
A cabeça saltitava, os pés fincaram o chão.
Estava inerte.
Acudida por uma policial, soltou seu drama.
Seus filhos foram chamados.
Chegaram com seus motoristas, carros blindados e seguranças armados.
Luzia, aturdida, ainda não havia contado nada sobre as joias aos familiares.
Dirigiram-se ao Banco, e tudo resolveram.

A velha senhora continuaria sem ver suas riquezas.


A MÃE VITÓRIA - Oswaldo Romano


A MÃE VITÓRIA
Oswaldo Romano

        Vitória era a mulher mais organizada que conheci. Sua casa, um espelho de limpeza. Suas coisas obedeciam lugar determinado. Escolhia também o lado e o ângulo de como deviam permanecer.  Muitas pequenas lembranças ocupavam seus moveis, cuidadosamente encerados e polidos. Não sobrava espaço sequer para pensamento.

        Quem tirasse algo do lugar deveria devolvê-lo à sua posição anterior.  Mas, não convencia Vitória. Ela  aproximando-se tinha de recoloca-lo.

        Certa vez seu filho chamou-a  de bipolar. Ela matutou, não sabia como reagir, desconhecia o significado:

        — Você sempre aumenta as coisas. Agora só porque valho por duas, o que você quer de mim? Respeite sua mãe. Sou uma mulher honesta!

Depois avaliou a situação, e:

— Sabe de uma coisa, vou sair, agora mesmo. Vou levando esse sol na cabeça!

        Foi assim que Vitória ganhou a rua, nervosa pela falta de consideração dos seus familiares.  Caminhava num conturbado trânsito de gente e carros, Seguia pensativa, cabisbaixa. De repente ouve o toque de seu celular. Era seu filho, talvez pedindo desculpas. Uma boa sensação de alívio a acudiu:

        — Oi filho. Filhooooooo

Num “zapt” o gatuno lhe avançou na mão larapiando seu telefone.

— Ih, Ladrão, ladrão!  - gritava - F.d.p... levou meu celular! – e seguiu atônita.

Assim Vitória amargou a segunda derrota do dia.   



Um milagre para Eva - Fernanda Torres



Um milagre para Eva
Fernanda Torres

Nos últimos tempos a história dos Lopes fervilhava entre os vizinhos. Todos acompanhavam o dilema e, consequentemente, a aflição que abateu esta tão querida família.

É que Evinha, filha caçula do casal, criança esperta e brincalhona, acordou manhosa com febre altíssima. O médico do posto de saúde, porém, ao analisar os exames nada constatou.
O medo começou a tomar contar dos pais da menina. A fé em Deus dava-lhes força! Amigos e vizinhos aconselhavam  algum tratamento caseiro. O temor já os abatia. Apesar de a menina permanecer em tratamento, sua doença ainda era uma incógnita. A pequena Eva minguava. As forças dos pais cresciam e se misturavam a rezas e promessas. Algo lhes dizia que deveriam seguir para São Paulo, lugar de muito recurso cientifico.  Talvez fosse um sinal divino que lhes impulsionava para a salvação. 

Depois de tanto tempo acamada e febril, a filha querida estava muito magrinha e debilitada. Os olhinhos claros lacrimejavam, e boquinha ressequida já não sorria.  

Enquanto os pais sofriam pela filha no quarto do famoso hospital, os laboratoristas investigavam seu sangue e sua urina em busca de respostas. Eva contraíra um vírus bastante resistente, através picada de um mosquito.

Um ar de alívio se assentou sobre o peito cansado do jovem pai, enquanto Mônica implorava à equipe médica que se iniciasse imediatamente  o tratamento contra tão definhadora doença.

De repente era dia de novo, e os pequenos olhos azuis de Eva já se abriam como sol que brilhava através da janela, agora escancarada. Os pequenos lábios, antes quebradiços e quietos, agora já demonstravam alegria através de um riso pacificador.

André e Mônica já sorriam. As rezas, agora nem tão assíduas,  eram de agradecimento. Cessaram as súplicas.

Os dias passaram correndo, e Eva já teve alta. Podiam finalmente respirar tranquilos, rir do desespero que se lhes abateu, sabendo que tinham muita história para contar à família, vizinhos e amigos.

Era um  final de tarde quando os Lopes  rangeram o portão branco de sua casa em frente da praça.  Imediatamente todos tomaram conhecimento do retorno do casal. A paz voltou a reinar no lar dessa família. Os risos voltaram aos moradores de Pedreiras. O assunto já poderia ser o Natal que chegaria em breve.   


A lua agigantava-se no céu azul esmaecido, ressaltada pelo brilho de tantas estrelas. Foi quando um riso alto e contagiante pode ser ouvido vindo da residência de número 117 da Rua Chile. Parecia que finalmente, a fantástica história daqueles simpáticos moradores, estava tomando um rumo harmonioso. Pela varanda podiam ser vistas sombras que se formavam com o clarão da lua, sombras que caminhavam disformes. Brincavam, de tão felizes.  

Dodge Dart vermelho rumo ao Chile - Vera Lambiasi



Dodge Dart vermelho rumo ao Chile
Vera Lambiasi


Em 5. Jesus Maria José!

Atravessamos a Argentina.

A qué hora empieza la revolución? A las ocho.

Íamos seguindo, desviando das tachinhas jogadas nas estradas. Que guerrinha mais tosca.

Muitas empanadas, gaseosas e medialunas depois, chegamos a Mendoza.

E veio a infeliz ideia de atravessar a Cordilheira de carro, no inverno.

Lógico que o carro foi até certo ponto e parou. Mucha nieve. Nem as cadenas resolviam.

Estávamos no meio do nada. Lembram do filme, Sobreviventes dos Andes?

Meu irmão, sócrates como ele só, reparou que havíamos passado por um quartel com a bandeira da Argentina, há alguns quilômetros.

Pegamos o essencial, largamos o carro lá, e voltamos à pé, à procura da bandeira azul e branca. 8 Km de gelo escorregadio na estrada, ou neve fofa pelas beiradas.

Menos 22 graus durante a madrugada, mas já acolhidos pelo Exército Argentino, com sopa e cama. Até rebocaram o dart de volta. Amo Argentinos!

Dia seguinte, retornamos para Mendoza, rumo ao Chile de avião. Como a neve é linda de cima!

Tudo maravilha, Santiago, Valparaíso, centollas de Viña del Mar, Farellones, Portillo e amigos chilenos queridos, responsáveis por tantas viagens pelo país.

Ahhh ... mas na volta de avião ...

Quase ficamos pelos Andes de novo, e, dessa vez, seria para sempre. Sabe aquela? Gosta tanto, por que não fica?

O avião jogou, meu cinto arrebentou, tudo voava. Balançou e não caiu.Tô aqui.
Desistimos dos Andes? Jamais!

Regressamos muitas vezes, meus filhos adoram Portillo e Valle Nevado.

Aquela água de geleira deve ter ficado no sangue.

História para Boi Dormir - José Vicente Jardim de Camargo



História para Boi Dormir           
José Vicente Jardim de Camargo


As férias de fim de ano na fazenda do Vô Tino era o que mais forçava Tico a estudar e passar de ano na escola, pois, caso contrário, o castigo seria ficar os meses de verão na cidade grande vazia de amigos.

Na fazenda a primarada se reunia numa algazarra total, iniciando o dia com a tirada do leite das vacas, ajudar a Sinhá no preparo do pão de queijo, no ralar do milho e da mandioca para o preparo do curau e do biju. Depois a pelada no campinho de pasto aparado,  sob o apito e os cuidados atentos do velho Bento para evitar palavrões e briga, banho de rio na corredeira do Poço Fundo, empinação de pipas. E, no final da tarde a pescaria com vara de bambu verde valendo como premio para o maior peixe fiscado, pedir ao Vô a história da noite.

Foi assim merecido que naquela noite, Tico, por ter pego o maior piau, pediu ansioso ao velho a história da “Alma Penada” que vagava na serra assustando e, pondo pra correr, tropeiros valentes de derrubar touro no muque, e caçadores destemidos acostumados a abater onças pintadas.

Vô Tino acende o cigarro de palha, dá uma baforada, pigarreia e inicia:

— Era uma vez um casal muito pobre que vivia na beira do rio num casebre de porta e janela, chão de terra, paredes de taipa e telhado de sapé. A única riqueza que possuíam era a prole de seis filhos, fora os três já idos, vencidos pela maleita e mal de chagas.

Zé Chico, nascido Francisco tal qual o pai, era o primogênito. Ajudava no trabalho da roça, capinando as pragas daninhas e lutando com as formigas e cupins pelo melhor pedaço de terra. Da colheita pobre, ia socar o pilão, para tirar o farelo grosso, sustento  de toda a família.

A mãe, de tanto parir, já demonstrava pelo tossir constante, sinais de doença brava, e se arrastava pelo peso de ver a filharada minguando.

Zé Chico, que de longe era de todos o mais forte e corajoso, resolveu um dia partir a procura de emprego que desse alguns trocados para salvar a família do destino fatal.

Sua mãe, devota do Menino Jesus, deu-lhe  ao partir uma medalha do santinho que trazia ao peito e que servia de imagem na hora da reza do terço:

—  Meu filho, nunca se separe desta medalha. Em dificuldades aperte-a nas mãos e peça ajuda do Jesus menino.

Zé Chico, contendo as lágrimas, despediu-se da mãe sem saber se voltaria a vê-la; do pai, sabendo da falta que faria na lida da roça e soluçou ao dar adeus ao irmão caçula que ajudara a criar.

Com a trouxa nas costas contendo uma muda de roupa, nacos de cana, bananas e uma mistura de farinhas de mandioca e milho, saiu às pressas do casebre entristecido morro acima pela trilha dos macacos desaparecendo na curva do mandiocal. No bolso da calça surrada levava o canivete e o isqueiro que pertencera e herdara do padrinho querido e dos quais nunca se separava como se fossem partes integrantes dele.

O caminho da trilha lhe era desconhecido. Já ouvira relatos dos mascates que paravam em sua casa para beber água fresca, que era o inicio da subida da serra, mata fechada povoada por onças pintadas, suçuaranas, jaguatiricas, cobras e aranhas de diferentes tipos. Três dias de caminhada até o topo da serra de onde se via o descampado da fazenda Boa Vista, de propriedade do coronel Siqueira.

Apertando a medalhinha na palma da mão, entrou na mata se livrando dos cipós espinhentos e mirando fixo para ver se nenhuma jararaca lhe armava o bote atrás da folhagem ou camuflada nos troncos das árvores.

Com o cair do dia, o que de comida lhe faltava, sobrava o cansaço e o tormento das picadas de borrachudos e abelhas. Já estava a procura de alguma gruta ou de um tronco caído onde pudesse se encostar e tentar repousar sem pegar no sono para não ser atacado por algum animal selvagem.

Foi então que viu uma clareira na mata e se aproximando viu uma casinha de aspecto sombrio, que pelas portas e janelas escancaradas notava-se que estava abandonada. Ao entrar, Zé Chico vislumbrou uma cama quebrada coberta com trapos de roupa, uma cadeira de três pernas, uma pilha de tijolos sobrepostos formando uma mesa e ao lado um braseiro de pedras. Aproveitando-se dos últimos raios do dia, catou lenha ao redor da casa e com o isqueiro do padrinho acendeu o braseiro que iluminou e aqueceu a noite entrante. Abocanhou a última porção da mistura de farinhas, esvaziou o cantil de água que enchera na bica do caminho e desmaiou de sono  sobre a cama empoeirada.
Não se deu conta do tempo corrido quando ouviu um vozeirão rouco em tom choroso e lastimoso dizer espaçadamente:

- Eu caio, eu caio!

Zé Chico pensou ouvir coisas pelo cansaço da caminhada intensa e se deixou levar pelo sono novamente quando o vozeirão quebra outra vez o silêncio da madrugada:

— Eu caio, eu caio!

Zé Chico, levado mais pelo inconsciente sonolento reponde bravo:

— Então caia logo, diabo desgraçado, que medo de lobisomem não tenho não. Trago Menino Jesus no coração, apertando nas mãos a medalhinha da mãezinha protetora.

De repente ouve-se um estrondo como se uma pedra caindo batesse e rolasse pelo chão duro:

- Bum prolumbum bum bum!

Zé Chico num pulo só se põe de pé, e desperto agarra um tição do braseiro fumegante e mira em direção do barulho misterioso. Arregala os olhos, se aproxima, e vê algo horripilante: um pé e uma perna retorcidos, deformes como se tivessem sido roídos por ratazanas famintas.

Mas, seu corpo cansado com nada se assusta. Quer dormir mais, recompor as forças em direção ao seu destino. Estica-se novamente na cama torta e assim que fecha os olhos, ouve novamente a vozeirão choroso:

— Eu caio, eu caio!

— Vai-te Satanás, do inferno não tenho medo não! Trago a força do Divino comigo.

E o barulho – Bum prolumbum bum bum!- se repete.

Com o tição nas mãos, Zé Chico volta o brilho para o lugar fatídico e vê outro pé e perna retorcidos com aparência de carniça. Faz o sinal da cruz, pensa em fugir, mas a noite escura, o caminho desconhecido o faz relutar. Nas mãos o canivete do padrinho de lâmina pronta para o que der e vier,  e a medalha sagrada.

— Eu caio, eu caio!

A ladainha se repete e – Bum prolumbum bum bum...

Desta vez rolam o tronco e a cabeça, buracos no lugar de olhos e nariz; dentes negros emergem da boca.

De repente os pedaços esparramados começam a se mover. Zé Chico se lembra do recado da mãezinha de nada temer. As partes vão se aproximando uma das outras formando um corpo disforme que aos poucos vai se levantando. Um cheiro forte de enxofre infesta o ar.

Zé Chico se afasta. Corre pra porta. Prefere a escuridão que aquela coisa nojenta, quando a voz se faz ouvir:

— Moleque valente! Há tempos aguardo este momento de me recompor, de virar homem novamente e poder descansar em paz. Zé Chico, não sabendo se é miragem ou real, vê a coisa falante desaparecer no meio de uma nuvem negra e fedorenta. Recupera-se do espanto, afasta a cama, encontra uma enxada encravada no chão, começa a cavar. Aos poucos uma caixa de couro cru vai surgindo e ao abri-la, a recompensa prometida: uma fartura de moedas de ouro brilha na escuridão.

Atordoado pelos acontecimentos, sai bamboleando, esquecido do cansaço rumo ao caminho de volta. No pensamento o desejo forte de beijar a mãezinha doente, os irmãos que largou chorando, o pai curvado pelo peso da roça.
Nada mais de pernoite na mata. Direto ao lar, esse sim agora será verdadeiro, sem sofrimentos, comida farta, alegria reinante.

No caminho cruza com um caixeiro viajante, mula carregada. Na conversa fiada pergunta se conhece a casinha abandonada na clareira da mata.

— Sim - diz o ouvinte - era a morada do Dominguinhos, velho solitário e avarento. Diziam que tinha tesouro escondido, e por tal boato perdeu a vida. Na calada da noite assaltantes arrombaram sua porta a procura do tal tesouro. Como tudo negasse  esquartejaram seu corpo em pedaços. Quem depois viu a matança, não podia acreditar. Pernas, braços e cabeças separados do corpo espalhados pelo chão ensanguentado. Como era sovina  tinha muitos desafetos e por vingança lhe enterraram as partes em diferentes covas. Deste então o local é tido como mal assombrado. Gente que quis lá pernoitar, diz ter ouvido vozes e ruídos, e saíram correndo. Quando vou por aqueles lados, desvio o caminho e me benzo três vezes pras almas me protegerem. Até a mula teimosa acelera o trote.

Zé Chico ri consigo mesmo que pensa: Eh, todo boato tem um fundo de verdade!


 E apressa o passo na ansiedade de logo desfrutar de seu novo destino...


Vô Tino acende mais um cigarrinho de palha de fumo de corda e olha a netaiada estendida por todos os cantos do quarto grande da fazenda. Alguns adormeceram, mas a maioria, de olhos arregalados, se entreolham entre si para ver quem primeiro confessa estar com medo de dormir e sonhar com lobisomem.
Tico cochicha com o primo ao lado:

— Tenho uma grande ideia!

Mais tarde vamos brincar de ‘Eu Caio” na janela do quarto das meninas. O primo, com um sorriso safado, concorda e esfrega as mãos com satisfação já visualizando a gritaria de horror que o susto trará.


O avô percebe a travessura planejada e recorda, no passado distante, quando também incitava os amigos às mesmas brincadeiras, e pensando agradece àqueles entes queridos que lhe contaram essa e outras histórias de folclore, as quais, enriquecidas por suas próprias fantasias, lhe permitem agora desfrutar da admiração e das alegrias dos netos agradecidos...



CARTA PARA SARA - Mario Augusto Machado Pinto

CARTA PARA SARA
Mario Augusto Machado Pinto

Sara, meu benzinho,

Estou no quarto do hospital em que está nosso sargento que acabou de receber a Medalha de Mérito com louros. Ficou levemente ferido numa “loucura” feita há uns dias. Nós todos do destacamento fomos condecorados pelo resultado. Claro que participamos da ação,  mas só ele se feriu.

É como expliquei na carta do outro dia: devido ao regulamento não posso lhe dizer onde estou exatamente. Antes de embarcar dei uma ideia de qual seria meu destino. Continua o mesmo.

Sinto muito frio, não tanto pela temperatura, mas pelo fato de não estar com uniforme apropriado para inverno. Dizem que chegará no próximo embarque.

Passamos por treinamento para nos adaptarmos à situação que viveremos aqui. Disseram que aí não havia possibilidade, acho que estão certos. É só pensar na roupa, na comida que na cantina é servida em bandeja,  e no campo é enlatada e ainda tenho que esquentar. A primeira vez que fiz, esqueci de fazer um buraco na tampa da lata e quando abri – como nas nossa latas de sardinha – foi comida pra todo lado. Queimei os dedos. Pensa que me afastaram do treinamento? Nem pensar! Deram-me  luvas de couro e toca pra frente! Foi meu primeiro ferimento!

Depois do cursinho rápido, já estamos na ativa e o negócio é bem diferente. Não é cada um por si, mas é quase. Depois em conto.

Outro dia tinha uma turma do lado de lá – tá entendendo? – que não deu folga durante três dias e noites. Nosso sargento disse que estava ficando de saco cheio daqueles caras e ia resolver o assunto. Foi um upa pra ele entender que sozinho não ia conseguir. Além disso, era pra ficarmos no nosso  “fox hole”, buraco, até ordem em contrário. O que ele queria? Vencer sozinho a parada?  Tava loco de pedra!

Uns dias depois chegaram a ordem e uns novatos. Todos de uniforme limpinho e bem passado. Tinha um com vinco feito à máquina na calça! Imagina! Demos um esbarrão nele,  se esborrachou na lama. O cara reclamou de todo jeito, só faltou chorar, mas dissemos pra ele que tudo foi feito com carinho, pra dar as boas vindas. O cara fez que acreditou, sorriu e abraçou todo mundo. Apelidamos ele de Lamas, nome igual ao do café no Rio.

Mas, o caso é que durante a noite a gente tem que estar muito atento. Vai que um cara de lá resolve nos visitar! Vai ser... Não escrevo o nome, mas você sabe. Então a gente fica de sentinela por quatro horas. É chamado “o nosso quartinho”. Depois é dormir quando não há pipoca estourando pra todo lado que nem no panelão. É aí que a porca torce o rabo.

À noite fico pensando em você. No que já falamos, fizemos e sonhamos fazer... Vejo seu rosto como luas em diversos lugares do céu. Falo com elas, e no sussurro do vento escuto sua voz. E, juro! Sinto você aqui ao meu lado! O “sarja” diz que sou um sonhador e pro lado de lá, a plenos pulmões,  ele canta  a música que mais gosta:

— Acuerdate de Acapulco de aquella noche Maria Bonita, Maria del Alma...

Todas às vezes os protestos se fazem ouvir: estouram pipocas mandando calar...Calamos.

Tanto ele canta que passei a cantar junto com ele.

Uma noite depois da cantoria interrompida, disse que devíamos dar um jeito na turma  de lá. Era a ordem recebida, ia dar uma espiada no terreno, daria sinal com a lanterna e depois a gente armava um plano. Saiu rastejando na neve.  Pipocamos pra todo lado sem parar pra proteger ele. Eu acompanhava com os binóculos. Tava errado! Eu via, então os outros também! Não deu outra. Pipoca de todo lado deles; ele avançando e de repente dois estouros. Parou o pipocar de lá, e ele cantou: 

— Acuerdate de Acapulco...

Foi formidável. Todos nós ganhamos medalha por que nossos companheiros puderam avançar.    


O PROCESSO - Carlos Cedano



O PROCESSO
Carlos Cedano

Nos cartazes espalhados na pequena cidade anunciavam,  com grandes letras e pompa,  a próxima apresentação no Teatro Variedades do filme “O PROCESSO” baseado no livro homônimo de Franz Kafka. O cartaz enfatizava o filme como sendo de mistério, intrigas, suspense e com um final inesperado.

O anuncio causou grande expectativa no município e os comentários estavam em todos os lugares  invadiam os próprios lares. Entretanto, as maiores especulações giravam em torno do desfecho da história.

No domingo desde cedo, por volta das dezoito horas, as pessoas foram dirigindo-se ao cinema que em pouco tempo ficou lotado. A ansiedade para ver o filme era tanta, que os quinze minutos antes de seu inicio pareceram uma “eternidade”.

Finalmente, às dezenove horas em ponto, as luzes se apagaram e começou a sessão sem apresentar previamente os costumeiros trailers, tal era a pressa da plateia.

Durante os primeiros dez minutos ouviu-se um silencio sepulcral. Os expectadores estavam concentrados para não perder nenhum detalhe do enredo. Os personagens eram enigmáticos e as situações absurdas longe do esperado pelos espectadores. Os diálogos com perguntas sem respostas ou fora do lugar contribuíam para criar a sensação de “non-sense”.

— Isso deve fazer parte do mistério - Disse baixinho uma mulher em tom condescendente.

Nos minutos seguintes intensifica-se a decepção das pessoas com a persistência de situações surrealistas e simbolismos: decorações extravagantes, corredores que criavam sentimento de estar num labirinto e o réu, totalmente perdido, sem saber por quem ou de que era acusado.

A esta altura o público desiste de entender o enredo e perde definitivamente as esperanças de ver as cenas clássicas de um filme policial: nada de crimes, nem cenas de tiroteio entre bandidos e policiais, sem interrogatório de testemunhas e menos ainda, o esperado confronto entre defesa e acusação.

Começa o ranger das poltronas indicando que as pessoas estão inquietas e nervosas. Aos poucos os sussurros se transformam em brados que expressam a raiva até esse momento contida, no fundo do cinema alguém grita: isso não é um filme é uma porcaria, quero que devolvam meu dinheiro, fomos enganados! É..., concordaram os outros espectadores gritando repetidamente: queremos nosso dinheiro de volta! Isto é um estelionato! É o conto do vigário!

Pronto! Os ingredientes para o desastre estavam completos!

Iniciou-se o quebra-quebra com cadeiras e de todo o que era de madeira. A destruição ameaçou agravar-se quando os mais exaltados intentaram botar fogo no prédio, que a duras penas, foi evitado pelo bom senso de algumas pessoas, mesmo assim o local ficou praticamente no chão e até o projetor quedou imprestável.

Com muito esforço e com muita persuasão e tempo, o delegado e os poucos policiais da cidade conseguiram controlar a situação.

O delegado não quis protelar a investigação, nessa mesma madrugada foi aberto inquérito para estabelecer as devidas responsabilidades; foram convocados como depoentes cidadãos conhecidos e presentes na sessão, o proprietário não foi encontrado, mas pouco depois apareceu seu advogado dizendo representa-lo.
Após ouvir as testemunhas e à defesa, o delegado concluiu que já tinha todos os elemento e provas para preparar seu informe e envia-lo ao promotor público da comarca para os indiciamentos cabíveis.

— Ora! - disse o delegado para os presentes com um sorriso irónico e mostrando o cartaz de propaganda -  Como podem ver pelo menos tivemos o final inesperado, como foi prometido.