DUPLA PERSONALIDADE - Antonia Marchesin Gonçalves






DUPLA PERSONALIDADE
Antonia Marchesin Gonçalves


                Desde criança Valentina tinha comportamento diferenciado de outras crianças. Sendo filha única e tendo boa vida financeira, os pais faziam-lhes todas as vontades, e ela tornou-se uma criança mimada. À medida que crescia ela sofria constantes mudanças de humor, de manhã tratava a babá com carinho e educação, quando chegava à tarde a transformação era enorme, mal-educada, acusava a babá de tê-la agredido, armava situações para deixá-la em maus lençóis com os pais. Dessa maneira, era grande a troca de serviçais na casa.
                Na escola acontecia o mesmo. Durante um período era uma excelente aluna, educada com os professores e colegas, cativando a todos com atitudes de demonstração de interesses nas matérias e até saindo-se bem quando perguntada. Com as colegas demonstrava ser a melhor das amigas, prestativa e companheira. Ao ingressar na Faculdade de Psicologia os transtornos de personalidade começaram a desenvolver com mais intensidade, demonstrava uma inteligência acima da média, tendo o corpo docente muito respeito por ela.  A noite Valentina se transformava, era Pegy, uma verdadeira prostituta, vestia-se seminua, pintava-se exageradamente, usava perucas diversas, mascando chicletes ia para os bares à caça de homens, cobrava alto pelos programas, bebia com os clientes, chegava de madrugada e dormia.

                Ao acordar, não se lembrava de nada e não entendia aquela parafernália toda, voltava a ser Valentina. Os surtos às vezes demoravam mais, outras não, sendo mais frequentes. A transformação era tanta de personalidade que até a forma de falar alterava, a expressão do rosto se transfigurava.  Foi quando ela conheceu o Carlos, um apaixonado, ao qual foi correspondido. Encontravam-se durante o dia quando tudo corria normalmente para a moça Valentina. Até que ele a convida para um jantar em família em sua casa, pois ele morava ele com os pais. Na noite combinada às oito horas toca a campainha e Carlos vai atender com a certeza de ser Valentina, mas ao abrir a porta ele vê Pegy. De imediato não a reconheceu, chegou a dizer que havia um engano, mas ela audaciosa entrou para espanto de todos, que surpresos não sabiam como agir.

                Sentou-se no sofá mostrando quase tudo de tão curta a roupa e foi pedindo bebida. O constrangimento foi maior quando ele percebeu ser Valentina. Carlos não entendeu nada. Ainda assim o jantar estava transcorrendo quando do nada Pegy some e volta como Valentina. Notando o que havia se passado, ela desatou a chorar e foi embora. Como aluno de Psicologia dois anos mais avançado, ele havia estudado casos de dupla personalidade, foi pesquisar a respeito e consultou o seu professor especialista nessa área.


                Graças a ele, ela foi tratada, ficou com a doença sob controle pôde levar uma vida normal, casando-se com ele. Tiveram dois filhos, enfim uma família feliz, sempre com acompanhamento psicológico.
O amor verdadeiro faz milagres.
       

A difícil arte de ser taxista - Suzana da Cunha Lima




A difícil arte de ser taxista
Suzana da Cunha Lima



- Para onde, doutor? Pergunta gentilmente o taxista.

O homem entrou no carro, soltou a gravata, estava suando em bicas.

- Pro hospital, depressa. Não estou me sentindo bem. Não vê como estou suando?

- AH, deve ser porque desliguei o ar condicionado. Gasta muito combustível. Vou por um arzinho. Temos bala e água ai. Sirva-se à vontade.

- Não quero bala nenhuma. Quero ir para o hospital, não estou me sentindo bem, deve ter um hospital aqui perto.

- Tem dois, muito bons. Vou deixá-lo no hospital, se acalme. Tome um pouco de água. Qual deles prefere?

- Qualquer um que esteja mais perto. Vamos, acelere!

- Estou no limite da velocidade, doutor. O tráfego está ruim porque é saída de colégio.

- Pois, comece a buzinar e avance os sinais. – o homem estava ofegante - Acho que estou tendo um AVC.

- Doutor, me desculpe. Não vou fazer isso: posso ser multado e ainda haver um acidente sério e coloco nós dois em perigo.

-  já estou em perigo, arre! E daqui a pouco é você que vai estar também. Sabe o que é um AVC?

-  Claro que sei, doutor, mas o senhor está querendo que eu infrinja as leis de trânsito, eu que nunca infringi lei nenhuma.  Tenha calma, respire fundo. Já estaremos nas Clínicas, que é mais perto.

- Clínicas? Está longe à beça. Pare no 9 de julho, é pertinho daqui.

- Mas não vou poder virar à esquerda.  Vou ter de dar uma volta enorme e o senhor, neste nervoso, não ajuda muito.

- Tenho mesmo que ficar nervoso. Estou passando mal e você preocupado com sinal de trânsito. Já lhe disse. Se começar a buzinar, todo mundo entende que é uma emergência.

- Menos os radares e o guarda que fica escondido nas esquinas. Tem uns três nesta avenida.  Conheço bem o tráfego, sou motorista há 25 anos...

- Pois acho que sua carreira vai terminar agora, se não fizer o que estou dizendo. – E o homem tirou um 38 do bolso e encostou no pescoço do taxista.

- Ande, vire à esquerda ali, não importa se é contramão, ou tem radar e guarda. Importa minha vida que está por um fio se eu não for atendido agora.

- O senhor pode atirar em mim. O que vai acontecer é que o carro se desgoverna e não sei onde vai parar. Nós dois morremos. 

O homem no desespero, atira. O carro começa a fazer zigzag e bate no primeiro poste. O guarda apita e pede ambulância.  Ela vem rápido.  Os paramédicos retiram os dois do carro.

- Deixe esse aqui para o IML levar. Está morto. Vou levar o taxista para as Clínicas. Este se safou bem. Só tem ferimentos superficiais.

A ESQUINA - Sérgio Dalla Vecchia



Mulher assustada, cobrindo a boca Foto gratuita


A ESQUINA
Sérgio Dalla Vecchia



Tantas são as esquinas, mas existe uma intrigante no bairro onde resido.

Há mais de trinta anos passo diariamente por ela.

É uma construção antiga de dois pisos, onde ao nível da rua existe um comércio e no superior um apartamento residencial.

Desde que me instalei no bairro, até o presente, pude acompanhar a evolução das construções verticais de alto padrão, bem como as do comércio se adaptando para tal progresso.

Nessa esquina havia um bar e mercearia simples e no andar superior morava o dono com a família.

Para acompanhar à atual conjuntura do bairro, o dono iniciou uma reforma, mas não chegou a usufrui-la, foi assassinado no próprio local, levando com ele o sonho do progresso.

Nunca se soube o motivo de sua morte, vingança, desentendimento com o pessoal da obra, dívidas, tudo uma incógnita.

Foi brutal! Chocou toda vizinhança na época.

Por tempos, vez ou outra surgiam relatos de gemidos vindos da parte superior do imóvel. Houve gente que mudava de calçada para não passar em frente.

Entretanto, após algum tempo, um corajoso comerciante adquiriu o ponto e montou um armazém. Durou pouco, o negócio não vingou!

Outros anos se passaram, um novo empresário investiu numa bela padaria, moderna e bem projetada. Tinha tudo para o sucesso. Também não foi para a frente!

Mais algum tempo, outro investidor do ramo de eletrônica e afins surgiu. Montou seu negócio muito discreto, portas fechadas, atendendo por televendas. Estranhamente pintou a fachada com cores escuras de mau gosto, parecendo não querer ser convidativo aos transeuntes.

Acontece que deste modo, o negócio está funcionando normalmente há algum tempo, para espanto da vizinhança.

Assim, com a esquina descarregada, o bairro desencantou.

Parece que o falecido simpatiza muito com informática!

Só faltava essa! - Fernando Braga




Só faltava essa!
Fernando Braga



Sexta feira fria, 23,00 horas, quando nos despedíamos uns dos outros, naquele conhecido bar, onde por anos nos reuníamos quinzenalmente, nós os amigos sexagenários, com a amizade vinda dos bons tempos de universidade.

Bebíamos sempre caipirinhas, caipiroscas, cerveja e até uísques, conforme a preferência antiga de cada um, ao lado de gostosos petiscos, bem preparados.

Uma vez que consumíamos bebidas alcoólicas, íamos e voltávamos de Uber, para nossa tranquilidade!

No final, fui ainda ao banheiro, onde também lavei o rosto, as mãos e procurei a saída, após ter contatado o Uber. Fui o último a me despedir alegremente dos garçons, nossos conhecidos, que muito bem nos serviam, saindo então para a rua, aguardando a condução.

Uma vez na calçada, senti como uma punhalada do lado esquerdo do peito que me fez dobrar, dor forte que correu para minha mandíbula, igualmente para o braço esquerdo. A dor me prendia a respiração, se acentuava, tive que encostar em uma árvore. Logo imaginei que devia estar tendo uma angina, talvez um enfarte do coração!

Olhando para o lado oposto, vi táxis parados, e dirigindo-me a um deles, pedi para levar-me imediatamente a um hospital, talvez ao Einstein, que estaria próximo. Estávamos em uma travessa da avenida Cidade Jardim!

O chofer vendo a situação, procurou atender ao meu pedido e saiu em velocidade. Telefonei à minha mulher contando o ocorrido, pedindo a ela para dirigir-se ao PS do Einstein, nosso conhecido.

Como a dor cada vez se mostrava pior, comecei propositalmente a tossir, a tossir forte, conforme orientação conhecida, de revistas populares.

Como o trânsito não estava tão intenso, o chofer do táxi corria a solta, chegou a atravessar alguns sinais no amarelo, buzinando fortemente, como se fosse uma ambulância.
Iniciamos o cruzamento do rio Pinheiros sobre a ponte da Cidade Jardim, em velocidade, quando foi percebida a presença de uma blitz da PM, fechando o trânsito, parando os carros em fila única, onde vários guardas pediam os documentos e faziam o teste do bafômetro.

Nesta hora, eu tossia e suava frio intensamente, recostado no banco traseiro, vendo a situação, implorando ao chofer que fosse em frente e não parasse. Um guarda no meio da ponte ergueu seu braço, um sinal para parar e encostar, mas o chofer abriu sua janela e gritou ao guarda, que estava levando um doente que não passava bem, para o Einstein.

O guarda veio, olhou no banco traseiro do carro, eu com as mãos no peito, olhar estatelado, tossindo, mas ele disse: 

- Não queira bancar o engraçadinho, o espertinho! Percebi que vinham veloz e para despistar, combinaram deste cara aí atrás, fingir-se doente! Esta é a desculpa, o teatrinho mais comum e esfarrapado que usam, mas não somos bobos, temos experiência! Documentos e espere para lhe trazer o bafômetro. 

Comecei a urrar de dor! O chofer do táxi ao invés de estacionar lateralmente, puxou a direção para a esquerda e saiu em disparada. Foi aquela correria. Apitos, mais apitos! Guardas situados mais à frente tentaram nos impedir, mas em vão. O guardas se movimentaram e dois deles saíram em direção às suas motos, para iniciar nossa perseguição. O chofer, em alta velocidade, ia tocando a buzina, cortando aqui e ali, ultrapassando perigosamente os demais carros, atravessando alguns sinais fechados, pegando a avenida Morumbi, até chegar na rua do Einstein. Em todo caminho, o chofer olhava para o banco de trás e perguntava como me sentia, demonstrando muita preocupação. Foi quando as motos nos alcançaram, emparelhando conosco. Os guardas percebendo que realmente íamos em direção ao hospital, seguiram-nos, até querendo ajudar, tocando sirenes. 

Entrando no pátio do PS, o chofer desceu e dirigiu-se correndo ao atendimento, solicitando uma maca de urgência, dizendo que trazia um paciente com enfarte. Atendido imediatamente, fui levado à uma sala onde o médico plantonista examinou-me, medicando-me com vaso dilatador cardíaco, analgésico forte e aspirina, que em cinco minutos me deram grande alívio. Rapidamente fez um ECG, confirmando o enfarte.

O chofer do táxi teve que ficar esperando fora, mas pedindo informações sobre do meu estado!  Observou também que os dois guardas das motos, vendo que entramos no PS, apenas deram meia volta.

Foi quando chegou minha esposa, acompanhada por um de meus filhos, ambos muito aflitos. O médico veio conversar com eles e informou que eu estava melhor, havia tido um enfarte e que já estavam preparando o meu cateterismo.
O chofer se identificou e ao perguntarem se eu o havia pago, disse que já estava tudo certo!

Meu caso evoluiu bem, foram colocados três stents, um deles na artéria principal do coração e hoje estou recuperado.

Após três meses, estávamos novamente nos reunindo no mesmo bar. O que primeiro fiz foi procurar aquele chofer humano, inteligente, corajoso, e o encontrei. Perguntei-lhe se havia recebido alguma multa e quanto lhe devia. Apenas disse: - Nada!! Foi uma enorme satisfação poder ajudá-lo, meu querido! Estimo que esteja bem!

Simpatia e amizade são as formas mais queridas, dos humanos seres. Tornamo-nos simplesmente bons amigos! Mais um para nos dar a satisfação de jantar, ocasionalmente conosco!

Na velhice conhecemos melhor os homens e as coisas! Amigo certo, conhece-se nos momentos incertos!



Estratégia não é Fake - José Vicente J. Camargo



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Estratégia não é Fake
José Vicente J. Camargo


A secretária, elegante e de boas maneiras, já lhe havia servido água e cafezinho. Agora aproxima-se novamente dizendo:

Por favor, pode entrar, o Dr. Siqueira o aguarda.

Antes de entrar na sala, Romeu apruma-se, levanta o peito, encolhe a barriga, abre a porta e se vê diante do Dr. Olavo Siqueira, dono da Editora Mundial, uma das maiores do país, sentado numa mesa de madeira de lei, talhada com figuras de frutas e plantas tropicais e diz:

Bom dia, trouxe o manuscrito do meu livro conforme solicitou.

Ótimo! Conseguiu dar um bom suspense envolvendo grupos mafiosos, crime, sexo, vingança misturado com personagens extraterrestres? O mercado agora só pede isso. O resto é difícil vender.

Creio que sim, responde Romeu sem demonstrar sua indecisão.

Meu assessor dará uma olhada e daqui há alguns dias lhe comunicaremos as chances de edição.

No carro, Romeu reflete sobre a tendência do mercado editorial e o fato de seu livro ir na contramão. Trata-se de um romance de amor com ciúme doentio, mas sem ódio, tiros e crime. Sexo tem, mas sem exageros e termina até com um final feliz. À medida que revisa mentalmente o texto, comparando com as sugestões do Dr. Siqueira, vê suas chances de ter o livro publicado, diminuir. Só uma boa “estratégia publicitária” poderia mudar a situação. Parado no vermelho do semáforo, vê, no alto de um prédio, uma mulher se equilibrando no peitoril de uma janela limpando a vidraça. A imagem penetra como um raio no seu cérebro e nasce a ideia...

Dia seguinte visita um casal de velhos amigos, atores de teatro, e se abre:

Preciso da ajuda de vocês! Questão de sucesso ou depressão aguda. Meu livro, que estou tentando editar, tem uma cena de ciúmes que se passa na sacada de um apartamento no 20 andar. A mulher, ao par da infidelidade do marido, aos berros ameaça pular. O marido em desespero a agarra tentando evitar. O eco dos gritos reúne na calçada da rua abaixo, um crescente amontoado de curiosos que mirando a cena gesticulam, assobiam e se polarizam:

Pula, pula...de um lado.

É fake, é fake, de outro lado

Não demora muito e a polícia e o corpo de bombeiro de sirenas ligadas, esmagando o ar quente do meio dia, se fazem presente. Segue-se a mídia com os caminhões de tv e afoitos entrevistadores a procura de um “furo” que os promovam.

Quero que vocês façam essa cena! Completa Romeu. O apartamento com terraço é o do Jorge, o mesmo que utilizei na montagem da minha história. Já falei com ele, está de acordo e avisará o síndico, os porteiros e os vizinhos para não se alarmarem com a cena “fake”. Trouxe o manuscrito do livro para vocês treinarem a cena. Quanto mais real ao texto, melhor.

O “day after” fica por minha conta. Insiro nas redes sociais uma notícia que a tão comentada “cena de terror” no terraço de um edifício, acontecida no dia anterior, no centro da cidade, é uma réplica tirada do meu livro. Para aumentar o sensacionalismo da notícia, digo que vou pedir ao casal envolvido na cena, uma indenização por plágio.

Tudo saiu como Romeu planejou! A repercussão do fato bombou nas redes sociais. Teve milhares de clicagem. Choveu pedidos de maiores informações sobre o conteúdo do livro, locais de venda, solicitação de entrevistas, etc. Ele nem precisou retornar ao Sr. Siqueira, este mandou avisar que o livro seria editado com urgência. Tiragem e valores iguais aos de “best sellers”, pois já havia interesse de emissoras de tv e de produtoras de filmes na compra dos direitos autorais.

Não é que há males que vem para o bem? Indaga Romeu consigo. Não sinto culpa por ter utilizado essa estratégia para editar meu livro. As verdadeiras “fake news” prejudicam as pessoas, mas a minha, falsa, só trará benefícios, pois aumentará o número de leitores. Se Guimarães Rosa dispusesse dessa estratégia, não duvido que a utilizaria, denunciando nas redes sociais que o escândalo armado que pegou em flagra Riobaldo, machão do sertão, beijando Diadorim no meio do buritizal, é parte intrínseca do seu livro “Grande Sertão Veredas”.

Aí é que o sertão viraria mar mesmo...

NICO. - MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.



sapato,mulher,fêmea,perna,dança,Primavera

NICO.
MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.



Desde bebê Nico gostava de se movimentar. Quando pequeno, era verdadeiro pendulo, balançava as perninhas sem parar. Por gozação, os parentes diziam que o corpo dele tinha falta de magnésio. O pai entrava na brincadeira e dizia que ia comprar uma mina de magnésio. O problema, dizia, era “onde”?

Maiorzinho acrescentou os pés ao seu moto contínuo. Erguia as pernas mantendo-as como grudadas no céu ficando assim por horas. Rindo diziam as “comadres” Logo, logo vai ter varizes.

Seu pai tudo fazia para afastar o garoto da perdição a que ele mesmo se propunha: queria ser bailarino. Imagine! Bailarino! Nunca! Nem morto! Mas, não tinha jeito. Observava seu filho, o seu Nico andar como deslizando nas nuvens, sorrindo, alegre e contente da vida correndo tal qual gazela fugindo do predador. Era assim. Nada a fazer.

A vida de Nico corria sempre alegre, risonha e franca como num conto de fadas. Era vulcão em eterna erupção. Gostava da correria de ir à escola, ao balé, e fazer outras coisas. E foi correndo numa dessas idas e vindas que tropeçou num pedregulho, caiu e quebrou os tornozelos.

No atendimento exames revelaram osteoporose em ambas as pernas. Aos amigos que o visitavam dizia:

“Tenho caruncho nos ossos. Vou passar a vida andando pelos cantos qual barata fugindo de inseticida. ”

Ria-se, mas quando sozinho abria suas comportas e inundava suas lembranças.   

DOCE - MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.





 
DOCE
MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.



Correndo à sua frente, Bete dava a Alex a impressão de palmeira vergada açoitada pelo vento.

“Espere por mim” - Gritou.

Bete, fingindo não escutar corria a não mais poder para cumprir com seu objetivo: chegar ao cimo do morro um minuto antes de Alex. Nada mais importava. O premio era a ampla visão da pequena vila cortada pelo rio modorrento, o colorido dos abrigos do sol alugados pelos turistas postados enfeitando a pequena faixa ribeirinha de areia muito branca. Pareciam confeitos espalhados na cobertura açucarada de um bolo pronto para acompanhar o chá de fim de tarde.

Ofegante, chegava Alex quando Bete exclamou:

“Veja! Não parece torta de Pascoa?”

Apesar da fome Alex não disse nada. Não gostava de bolo com cobertura. Queria outro, isso sim. Aquele que Bete fazia. Aquele que o levava ao algodão doce das nuvens.

ZÉ DAS BEXIGAS - Sérgio Dalla Vecchia





ZÉ DAS BEXIGAS
Sérgio Dalla Vecchia



Bexigas multicoloridas eram como vida para o pacato Zé.

Gostava tanto, que adotou como profissão, vende-las nos parques da cidade grande.

Embaralhava o sorrisos das crianças, os cantos dos pássaros, o burburinho do povo e os descartava em formas de bexigas.

Cada freguês recebia a bexiga com a cor que o próprio Zé pressentisse que correspondesse a ele.

Certo dia, empolgou-se tanto que adquiriu uma quantidade imensa delas, convicto que as venderia.

Assim, bem cedinho foi enchendo de gás uma a uma. Perdeu a conta da quantidade. Quando percebeu, havia decolado segurando no imenso feixe de bexigas.

Assustado, olhava para baixo percebia a altura cada vez maior, mas o inusitado fato, transformou seu medo em pura alegria.

Quanto mais ascendia, maior o campo de visão e mais aleluia brotava no coração sonhador.

Assim, ao sabor dos ventos sobrevoou o Brasil, entusiasmado com o cenário, presenteou-o liberando bexigas verde, amarela, anil e branca.

Passou pelos Estados Unidos, encantado pela pujança ofereceu-lhe  bexigas azul, branca e vermelha.

Soprou um vento forte de través e o levou rápido para o Velho Continente.

Sobre a França, liberou azul, vermelha e branca. Para a Alemanha, preta, vermelha e amarela.

Mais um vento forte o levou para o leste, onde maravilhou-se com a Áustria, deixando lá uma vermelha e outra branca.

Mais ao norte sobrevoou a Rússia de geografia pitoresca e de clima marcante, sobre o rio Volga soltou bexigas, vermelha, azul e branca.

Desceu um pouco para a China, deslumbrou-se com a quantidade pessoas e pelos monumentos milenares, liberou uma vermelha e outra amarela.
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Mais a leste chegou ao Japão, terra do sol nascente e ofuscado pela cor carmesin liberou uma vermelha, outra branca.

Desceu para o Novo Continente e na Austrália soltou azul, vermelha e branca.

Assim correu os quatro cantos do mundo respirando história, visionando amanhãs, sentindo as intempéries na sua viagem colorida.

Porém, a quantidade de bexigas liberadas, desequilibrou a sustentação do depenado feixe e o Zé começou a descer, foi quando encontrou uma superfície totalmente branca denominada Antártica.

O branco era único, não existiam cores. Encantado, mais uma vez o sonhador Zé, esquecendo-se da própria situação, soltou todas as bexigas brancas restantes, como homenagem à aquelas terras imaculadas.

Caiu !

De tão alto, fez um buraco no gelo, sepultando com ele todos os significados transvestidos nas três cores primárias; vermelho do sangue derramado, amarelo do ouro cobiçado e verde das matas dizimadas.

Protegido pelo  branco da Paz, sonha eternamente Zé das Bexigas, o colorido mais incolor dos homens.

A velha figueira - Fernando Braga






A velha figueira
Fernando Braga

Entardecer magnífico, o sol iniciando seu declínio no distante horizonte, o céu junto ao poente vestindo-se com cores belíssimas intercaladas, projetadas nas nuvens próximas: vermelho, azul, verde, roxo, mostrando a supremacia da exuberante natureza

Eu, sentado na varanda de minha casa do sítio no interior, que tem aproximadamente 100 anos, absorto, ouvindo a quinta e sexta sinfonias de Tchaikovsky, sentia-me, apesar de minha idade provecta, no superlativo da vida! Naquele momento, fim de mais um dia maravilhoso, sinto minha vida iluminada, plena

Aquela paisagem bucólica, deliciosa, reconfortante, deu asas à minha mente que, rapidamente, esvoaçava pelo passado, presente e incógnito e confiante futuro. Era um silêncio absoluto, com apenas algumas aves piando, latidos longínquos e aquela música divina!

Em minha longa vida, quantas e quantas vezes no mesmo lugar, tive as mesmas sensações gostosas, indescritíveis, não deixando de dizer que, com esta mesma visão já senti amor, tristeza e até ódio.

De repente, sem qualquer aviso, um enorme estrondo ecoou próximo, tomando conta de tudo, para meus ouvidos como o de um prédio desabando, o estouro de potente bomba. Este forte ruído desapareceu em alguns segundos, seguindo-se o silêncio absoluto, naquele início de noite.

Pulei da cadeira por instinto e caminhei na varanda, em direção ao som ouvido.  

- Meus Deus! O que poderá ter acontecido, pergunto a mim mesmo!

No final da varanda visibilizei, a uns sessenta metros, o ocorrido. Metade de minha figueira, daquela antiga e frondosa árvore, com a mesma idade da casa, havia se partido em dois e a metade de seu enorme tronco, galhos proximais, jazendo ao solo.

Incrédulo, aproximando-me lentamente, desgostosamente vi exatamente a metade da rainha de minhas árvores, vencida, derrotada em sua batalha de vida!  Sozinho, tristonho, apreciando a cena, aproximou-se lentamente meu empregado e sua família, mulher e filhos.

Seu primeiro e único comentário:
- Ainda bem, que ninguém estava sentado nos bancos de madeira, colocados embaixo do tronco que caiu. Verdade!

No dia seguinte, logo cedo, revendo a cena, lá estava o enorme e grosso tronco caído sobre a área cimentada, onde frequentemente nos sentávamos, reunidos para aperitivos, churrascos ocasionais. Percebi que embora no chão, mantinha-se ainda preso, em uma parte, ao tronco principal, ereto.

Aqueles dois bem-te-vis saltitantes sobre os galhos inertes, ciscando, mais pareciam estarem beijando, acariciando aquela frondosa árvore, que muitas e muitas vezes, certamente lhes havia dado abrigo.

 Antes de tomar qualquer medida fui até um posto do Ibama na grande cidade próxima pedir orientação. Mais tarde, vieram ver o ocorrido e constataram que a árvore estava infiltrada por cupins, junto ao enorme tronco principal. Cupins, quando presentes, destroem aos poucos tudo que tem pela frente, de madeira. Sugeriram várias medidas, entre elas cortar toda a figueira, metade dela, ou então deixa-la como estava, pois, a metade caída, mantendo ligação ao tronco principal, poderia sobreviver por algum tempo com suas folhas verdes. 

Decidimos mantê-la como estava, para ver como ficaria! Pagar para ver! Era uma árvore velha, agora hemiplégica! Um AVC provocado pelos cupins!

 Antes, por dez décadas, mostrou-se majestosa, três pessoas para abraçarem seu tronco. Na época que produzia seus pequenos figuinhos, era o local preferido pelos milhares e milhares de morcegos, esvoaçando entre seus galhos. Quando meus filhos ainda eram pequenos, cheguei a construir uma pequena casinha de madeira entre dois grossos troncos principais, mas posteriormente foi retirada, com medo de alguém dela caísse, uma grande altura, observada quando a visitei.

Filhos, netos, amigos ao voltarem àquele sítio, frequente local de reuniões em feriados, férias, deploraram a queda da figueira. Referiram que quando estavam na sombra desta árvore, aspiravam seu suave cheiro, sentiam gosto da deliciosa comida, feita pela vovó.

Meus filhos, hoje acima dos 50 anos, lembraram dos seus tempos de criança, quando eu dizia ser aquela uma árvore mágica, habitada por fadas e duendes. Realmente, no tempo em que ainda acreditavam em fadas, bruxas e Papai Noel, os reunia embaixo desta árvore com seus primos e amiguinhos. Em uma noite de lua cheia, pedia para darem as mãos, uns aos outros e em coro cantarem o Misclofe. Haviam decorado, como um pertence da família! Assim: Misclofe, dará-dara, triloliro, clsi clas clof dará-dara fru fru, cataflau,cataflau, cataflau!  Agora em voz bem forte: Clamfe, Katapariú, Misclofe. Depois Abracadabra tic,tec,toc. Eram as palavras mágicas necessárias para o aparecimento das figuras míticas e fazerem os seus pedidos.

Embaixo da figueira, nesta hora, combinado com meu empregado, acendia-se débeis luzinhas em parte da figueira, tocava um som, com musiquinha infantil e descia uma bruxa de meio metro e presa por um barbante escuro, que havíamos comprado em Praga. Ao se assoviar forte ou gritar, a bruxa movia-se, seus braços e pernas balançavam em vária direções, acendia seus olhos e gargalhava: Quá,quá,Quá...quáquá.   Uma vez, um coleguinha presente, de uns seis ou sete anos, ficou tão tenso com a cena, que urinou na roupa e saiu correndo de medo chamando pelo pai. Após estas cenas, cada um emitia o seu pedido para a bruxa boa, mas feia. Era a bruxa Madrinha.  Meus filhos, tudo recordavam com muita saudade e até há pouco tempo repetiam o mesmo cerimonial para seus filhinhos, sempre pedindo a ajuda do vovô, quando presente.

Para mim, sempre as crianças representam o amor que se tornou visível. Elas são alegres como os raios do sol, que nos dá esperanças!

Não tendo coragem de cortar a árvore, coloquei pedra enormes, que se vende por toneladas, embaixo e ao lado do tronco caído, que até hoje mantem os galhos verdes. Depois enchi os vãos com terra e plantamos ervas trepadeiras e muitas flores no local. Fizemos pequeno chalé ao lado. Hoje, novamente, tornou-se novamente, um recanto para saborearmos aquele churrasco, sempre preparado por um dos filhos.

A outra metade do tronco se cair, deve cair fora desta área, que tem cadeiras de preguiça e redes para dormi. 

Segundo meus filhos e netos maiores, o velho espírito da fada e de seus duendes continuam habitando a velha, mágica e centenária figueira. Que o espírito destas figuras mitológicas, conserve aí, sua morada para sempre e para nossas alegrias.




UM ENCONTRO MACABRO - NUM MUNDO FÚNEBRE - Oswaldo U. Lopes



Dom de tocar violão


UM ENCONTRO MACABRO - NUM MUNDO FÚNEBRE
Oswaldo U. Lopes





        Leandro era ótimo no violão, melhor ainda na viola, embora com esta precisasse de outros músicos acompanhando.  Tocava os instrumentos melhor do que tocava o estetoscópio, e olha que já estava no quarto ano de medicina.

        Ninguém entedia, nem ele explicava, mas gostava de tocar canções do tipo macabro ou assustador e o fazia tão bem que muitos ao ouvi-lo ficavam arrepiados. Era possível dividir seus ouvintes em dois tipos: os que ao perceberem a cantoria aceleravam o passo para longe e os que ficavam, como que grudados no chão, ao som daquele vozeirão ecoando num canto do famoso porão da faculdade:

  Vai alta a lua na mansão da morte
  Já meia noite com vagar soou
  Que paz tranquila, dos vaivéns da sorte
  Só tem descanso quem ali baixou

  Que paz tranquila!... Mas, eis longe, ao longe
  Funérea campa com fragor rangeu;
  Branco fantasma semelhante a um monge,
  Dentre os sepulcros a cabeça ergueu


        Será que o poeta, ultrarromântico, português Soares Passos, vindo da segunda metade do século XIX, podia imaginar seus versos cantados no porão da Faculdade de Medicina e assustando os passantes? Era difícil explicar, talvez os cadáveres da anatomia, talvez o túnel dos defuntos que vinha do HC para a Faculdade, talvez a magistral interpretação do cantor artista, tudo isso junto cria-se o macabro cenário em que os versos ecoavam.

        Leandro impressionava porque até em músicas que eram famosas paródias, como a história das Duas Caveiras que se amavam, de Alvarenga e Ranchinho, criava um tom fúnebre que estourava em risos nervosos com os dois versos finais:

   Por causa dessa ingrata caveira

   Que trocou ele por um defunto fresco.

        A coisa ia bem nesse tom, tom de aterrorizar, ele rindo por dentro e assustando os circunstantes por fora, até que um dia veio o desafio:

 Quero ver você cantando essas músicas e dedilhando o violão a meia noite lá dentro do Araçá.

— Marque o dia e a hora

        Todos em volta concordaram com o desafio, porque bastava atravessar a rua e pular um muro baixo. A noite veio rápida e os que foram se espalharam, escondidos, entre túmulos e árvores, observando Leandro e seu violão sozinhos a cantar no adro central perto da capela.

        Quando soou a meia noite um vulto escuro e etéreo surgiu do nada caminhando, se é que podia chamar-se de caminhar aquele deslizar flutuante.

        Aproximou-se de Leandro e fitando-o ficou a escutá-lo, pensativo e fantasmagórico como toda boa aparição.

        O restante da história teve pouquíssimas testemunhas. A enorme maioria, quase a totalidade, escapuliu-se muro acima sem nem olhar para trás. Os malévolos contavam que era possível seguir o caminho percorrido pelo cheiro que era forte.

        Quem não fugiu, porque ainda tinha um átimo de coragem ou porque lhe faltavam pernas para correr, estando estas trêmulas e bambas, ouviu o impressionante diálogo:

— Você sabe quem eu sou?

— Não faço a mínima ideia, você não se apresentou.

        A frieza de Leandro era cortante, parecia feito de gelo.

— Eu sou o espirito do cadáver da anatomia e estou aqui para exigir, pedir, implorar por mais respeito ao meu corpo mutilado.

— Posso até levar tua mensagem, mas além de um discreto cantarolar sob teus restos, não me lembro de faltar-lhe o devido respeito.

— Nem quando cantavas “Era uma vez duas caveiras” em cima de meus ossos?
— Bem, aquilo foi num canto e não havia cadáveres na sala, apenas poucos ossos espalhados.

— E achas pouco?

— Se procuras respeito, farei o possível, se achas que venceras pelo medo, não creio que iras muito longe.

— Os teus colegas que já pularam o muro, não tinham essa coragem que esbanjas. Podemos vir muitos, contando todos tanques de formol, formamos uma legião.

— Pois seja, como disse, serei portador de tua mensagem. Vai ser difícil conseguir uma crença unanime, nem eu mesmo que te vejo, tenho certeza da tua existência. Podes bem ser uma alucinação coletiva.

— Nós voltaremos a falar e a nos ver. Dito isso, o vulto desapareceu, deixando Leandro no átrio, cantando enquanto olhava o luar:

— Vai alta a lua na mansão da morte...