A falsificadora - Maria Amelia Favale



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A falsificadora
Maria Amelia Favale


Francine gostava de parecer que era da alta sociedade, de educação refinada, caminhava rebolando pra lá e pra cá. Mas, na verdade, Francine era uma ladra de mão cheia, e quase foi desmascarada na loja de eletroeletrônicos onde fazia compras, pagando com cheque frio.

Foi assim, o gerente ao vê-la toda ligeira na loja, desconfiou de sua índole e manteve-se por perto. E, quando ela decidiu pagar, esticou o tal cheque frio de congelar os dedos. O homem ligou para o banco, que por coincidência era onde ele mesmo mantinha conta, e constatou que não havia tal pessoa como correntista e que a tal conta bancária não existia naquela agência. “É falso esse cheque, Humberto”, garantiu o gerente seu amigo.

Humberto ficou roxo de raiva e a ameaçou esbravejando: “Vou chamar a polícia para resolver essa tramoia! ”, mas, imediatamente, ela tirou das orelhas os brincos de brilhantes e, determinada os ofereceu ao comerciante como forma de quitar a dívida.

Quem falsifica um cheque, pode falsificar joias também, disse ele em alto tom. Os clientes todos se voltaram para Francine.

Mas, um dos clientes que assistia a cena, percebendo que o gerente duvidava da originalidade das peças, apresentou-se como joalheiro. “Desculpe me intrometer, eu estou aqui fazendo minhas compras e estou admirado com esses brilhantes. Um bom joalheiro logo os identifica como verdadeiros””. E ali mesmo o homem certificou serem verdadeiros os brilhantes daquelas peças.

Francine que aguardava tudo pacientemente, empinou o nariz diante da certificação e da demonstração de interesse do desconhecido em comprar as peças. “Esses brilhantes são verdadeiros, senhor, e se quiser vendê-los estou interessado em comprá-los, pago 5 mil”.

Humberto não venderia para um estranho, é claro. Francine, com tanto crédito que ela agora tinha na loja, ampliou suas compras até não dar mais. Comprou tanto que ultrapassou o valor da joia.

Seu Humberto fez a somatória e mostrou que ela não tinha credito para tanto. Francine, ainda de nariz levantado perante tal desconfiança, disse que levaria na hora somente o Smartphone, e o restante poderiam enviar para seu endereço. E para cobrir a diferença ela abriu a carteira recheada de notas de 100 reais, e pagou a conta.

Humberto pensou “Essas notas são falsas”...

Para acabar a confusão, ele segurou o dinheiro e os brincos, afinal a loja não estava vendendo bem naqueles dias, mas pediu o endereço da freguesa para entrega da compra. E disse: “Se estas notas forem falsas a senhora verá a polícia bater à sua porta, e sua compra não será entregue”.  

“Sim, eu sei. Mas se vai ficar com minha joia, eu levo pelo menos o celular agora, como garantia”. E ele concordou entregando-lhe o aparelho, mas alertou-a: “Se essas notas forem falsas a senhora vai sair no prejuízo, entendeu? ”

Ela deu de ombros e saiu com sorriso sarcástico.

Mais adiante encontrou com o falso joalheiro seu parceiro, e agradeceu o laudo.

“Mas, Francine, você deu seu endereço de residência para eles?” – Perguntou o cúmplice.

“Não, dei o endereço do hospício. Eu só precisava do celular mesmo” – disse dando de ombros.

Amizade - Maria Verônica Azevedo


        


Amizade
Maria Verônica Azevedo



        Faísca era neve e Veludo era bronze. O contraste entre eles reforçava sua amizade.

        Divertiam-se os dois juntos em longas cavalgadas, ora atravessando as areias do deserto, ora correndo loucamente na praia. Não tinham limites. A amizade era reforçada por uma corrente de cumplicidade. Um era a segurança do outro. Até que Veludo tropeçou numa pedra e caiu machucando uma perna.

        Faísca queria ajudar. Ficou ao lado do amigo. Não saía dali. Até que avistou, ao longe, uma caravana vinda em sua direção.

        Correu ao encontro dela. Então começou a andar em círculos ao redor da carroça. Depois parou e ficou a relinchar e a arranhar o chão com a pata.

        Na carroça da frente, ia um senhor idoso tendo ao seu lado o filho e a neta. A menina assustada, logo entendeu a mensagem de Faísca. Então gritou a plenos pulmões:

        — Vovô, o cavalo está pedindo socorro! A gente precisa acudi-lo. Vamos atrás dele.

        Ao que o velho atendeu.

        — Vamos, Letícia! Podemos ajudar!

        Com o movimento adequado da rédea, fez a carroça ir adiante seguindo o belo cavalo branco. O avô sabia como agir. Quando avistou veludo deitado, rasgou a barra da camisa para improvisar uma bandagem. Andou alguns metros para dentro do bosque e logo voltou com algumas ervas. Abaixou-se ao lado de Veludo. Fez o curativo. Em poucos minutos o animal se acalmou.

         Faísca, ali de pé, esperava calmamente. Não sairia dali enquanto o amigo não pudesse segui-lo.

        Satisfeito, o velho seguiu viagem com a família.



BOM DIA! - MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.




BOM DIA!
MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO.


Hoje é o dia! A cada semana esperado com muita ansiedade: é dia de ir ao CAP participar do EscreViver para ler e ouvir atentamente textos escritos pelos amigos e colegas. Somos 12 ou 13 sentados ao redor de uma mesa orientados pela coordenadora Ana Maruggi.

Frequento o CAP há anos, mais de 20. Vi muito sócio chegar e outros deixarem de frequentar as instalações. O ambiente sempre foi e ainda é cordial, alegre e respeitoso. É sadio para todas as idades.

Sempre disse “BOM DIA” ao entrar em qualquer ambiente ou instalação, mas surdinho que era e ainda sou, não ouvia a resposta. Isso me fazia pensar: não escuto mesmo ou não respondem. O chato é que era a última alternativa. Por que? Não sou bicho do mato, sou discreto, visto-me de acordo com os parâmetros da decência. Que diacho! Mantive a saudação. Bem, nós nos acostumamos a muitas coisas e eu me acostumei a não ouvir respostas aos meus cumprimentos. O caso é que ficava triste.

Esse sentir foi sufocado certa ocasião ao ouvir em alto e bom som um BOM DIA! Dito por sócio vindo da portaria. Dias após fui saudado pelo mesmo sócio. Tornamo-nos mais conhecidos, e por minha sugestão passou a frequentar o EscreViver.

Somos colegas, mas acima de tudo somos amigos. Ele escreve muito bem, é piadista de mão cheia.
  
É o Fernando Braga, médico, professor emérito que me dá a liberdade de chama-lo de Fernadinho.



Uma recordação de 1974 - Fernando Braga



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Uma recordação de 1974
Fernando Braga


Dias atrás vendo a gravura de um equilibrista caminhando sobre um cabo armado de aço entre dois prédios altos em uma grande cidade, imediatamente veio em minha mente, aquela cena inédita que presenciei aos meus 34 anos, quando pela primeira vez visitei os EEUU, indo conhecer a capital do mundo, após um congresso. Fiquei deslumbrado com a grandeza da cidade, o prédio mais alto do mundo na ocasião, o famoso Empire States, a sede da ONU, o Central Parque, a Quinta Avenida e outras coisas mais. Após almoçar, por volta das 15,00 horas, caminhando, fui visitar, o que era quase uma obrigação, a Wall Street e quase ao lado, a Twin Tower, ou Torres Gêmeas, quase em término de sua construção.

La chegando na grande praça, deparei com uma multidão olhando para cima, apontando seus dedos em direção àquela construção. Parei, calibrei meus olhos e maravilhado vi, naquela altura um homem usando um traje avermelhado, andando sobre um fio de aço, tendo em suas mãos uma comprida vara na horizontal. Perguntei quem era e me responderam: - A Crazy! A fool man! Has no protection!

Realmente, não tinha qualquer proteção e por 45 minutos, o vi atravessar de um lado para o outro, algumas vezes. Parece que o homem não cansava. Finalmente, desapareceu!

No dia seguinte os jornais mostravam grandes fotos, comentários em letras garrafais, na primeira página, daquele homem se equilibrando sobre um fio, a 400 metros altura.

Comprei um jornal e fiquei sabendo tratar-se de um equilibrista francês, Phillipe Petit, já bem conhecido por demonstrações anteriores iguais, sem qualquer proteção em alguns prédios famosos. Já havia atravessado entre as duas Torres da Catedral de Notre-Dame em Paris, da Ponte da Baia de Sidney a um prédio lateral.

Contavam ainda que a sua travessia presente, não tinha qualquer autorização e que havia sido preso logo após ter executado sua proeza. Ele contou na delegacia, que com ajuda de amigos haviam conseguido estender o fio de aço de 250 quilos, em uma distância de 417 metros, usando para tal arco e flecha. Não entendi como conseguiram fazer isto, porque nenhuma flecha atinge tal distância. Conseguiram fazê-lo entre a torre sul e a torre norte, em uma altura de 400 metros.

Sua prisão foi por pouco tempo, saiu após concordar em fazer uma travessia em menor altura dentro do Central Park, beneficente para crianças. Guardei este jornal que era de 1 de outubro de 1970.

Este francês ficou muito famoso, no mundo inteiro, após esta proeza na Twin Tower.  Tornou-se um conferencista dando palestras e workshops, sobre criatividade. Após este acontecimento, Petit escolheu os EEUU para moradia fixa.

É para meditar um pouco. A maioria da humanidade tem pavor das alturas, não daquela de prédios altos, torres, pontes, montanhas, precipícios, mas que trazem o risco de queda, como pular de paraquedas, fazer alpinismo, subir o Everest. Sempre existem aqueles muito corajosos e que eu gostaria de ser um deles, mas pensando bem, prefiro meus pés no chão. Sou um homem de pés no chão.

E pensar que vi as Torres Gêmeas no final de construção e ainda após ser destruída no dia 11 de setembro de 2001 por aqueles dois jatos enormes, naquele ato de terrorismo idealizado por Bin Laden!

Até que já vivi muito e vi muitas coisas, neste mundo de Deus.


A ESPERA - MARIA VERÔNICA AZEVEDO

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A espera
Maria Verônica Azevedo


        Fazia quase meia hora que eu estava esperando por ela. Tinha ficado combinado que a esperaria no ponto do ônibus, na esquina perto de casa.

        Fiquei impaciente. O ônibus 42 que ela sempre pegava passou sem parar.

        Aí eu desanimei... Ia demorar mais quinze minutos para vir o próximo.

        O céu estava cinzento. Começou a garoa. E eu sem guarda-chuva.

        Olhei em volta a procura de uma árvore para me abrigar.

        A garoa foi engrossando. Virou uma tempestade. Do outro lado da rua, vi uma padaria. Rumei para lá em busca de abrigo.

        O cheiro de café e pão fresquinho era irresistível. Abandonei meu posto de observação e rumei em direção ao balcão.

        Quando a chuva parou, sai de novo... Eu já não sabia se ela tinha chegado. Caminhei pela calçada pensando nela... Se ela tivesse chegado enquanto eu estava na padaria, teria ficado decepcionada. Eu fui um tolo. O povo costuma dizer que paciência é uma virtude... Mas eu não tive paciência. Vai ver que ela chegou e não me vendo ali, foi embora andando pela chuva... Ela nem ao menos tinha saído com o guarda-chuva. Eu sempre falo para ela pegar e levar... A gente nunca sabe se vai chover nessa cidade maluca.

        Ali vem um casal...  Espera ai, eu estou reconhecendo! Não é que ela arrumou companhia? Desgraçada. E eu aqui feito bobo esperando por ela na chuva.

PEGAR OU LARGAR - Sérgio Dalla Vecchia



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PEGAR OU LARGAR
Sérgio Dalla Vecchia



Era um cruzeiro para Buenos Aires partindo do Porto de Santos, S. P.

Navio lotado de turistas animados para o Réveillon na cidade dos bons ares.

Tudo pronto, check-in aprovado.

O capitão, impecável na cabine de comando, ordena ao contramestre empurrar a alavanca forward, e o grande navio zarpa lentamente, atapetando o mar com a tradicional passarela de espumas brancas.

Lentamente singra o mar. Os passageiros felizes, espalhados pelo convés, abanam as mãos despedindo-se de quem ficou em terra, enquanto a rotina da tripulação avançava a pleno vapor pelos bastidores.

Nico era um dos garçons que atendia o imenso restaurante com quatro turnos de refeições, dois para o almoço e mais dois para o jantar.

O trabalho era exaustivo, principalmente para o novato Nico, em se tratando de um navio daquele porte.

Ele como bom nordestino simpatia não lhe faltava, alegria e boa conversa eram consequência.
Assim, com seu jeito desinibido passou com louvor pelo primeiro dia de viagem.

No dia seguinte, já estava se engraçando com uma bonita passageira. Fazia de tudo para vê-la sorrir. Esgotou até o estoque de bichinhos, que fazia muito bem com guardanapos.

A moça abria um lindo sorriso a cada graça do entusiasmado Nico. Os encontros nas refeições estavam cada vez mais desinibidos, até que com muita coragem, ousou o apaixonado garçom, convidar a moça para um encontro no convés, após os serviços.

Quando sussurrou o convite num dos ouvidos dela, sentiu imediatamente a reciprocidade pelo arrepio que nela causou.

Terminado o trabalho, ele voou para seu alojamento para um banho e vestir-se com a melhor roupa. Abriu um frasco de perfume lacrado que o acompanhava há tempos, mas nunca teve uma oportunidade de usá-lo. Agora chegou o momento.

Eram 23h em ponto quando os olhos de Nico encontraram os olhos dela, que da amurada do convés o convidavam para o amor.

Um longo beijo aconteceu. Nico estava nas nuvens de tanta felicidade. Nunca foi tão correspondido por uma moça como agora. Ainda mais pertencendo a uma classe social mais elevada que a dele.

Risadinhas, carícias, outro beijo e o amor crescendo. Nico precisava levá-la para local com privacidade, mas onde?

A moça percebendo a situação e que era o momento de privacidade, convidou Nico para ir ao seu camarote beber um champagne.

Ele, mesmo desconfortável com o convite, não tendo uma saída, de pronto aceitou.

Lá chegaram, Nico nunca havia estado num camarote antes. Era no andar superior, com vista para o mar, deslumbrante.

Abriu  champagne com classe, pois disso ele entendia. Despejou a dose certa do aveludado vinho espumante em duas taças de cristal.

Houve um brinde, dançaram na varanda ao som de Diana Krall e o céu como plateia.
Foram para a cama, beijos, caricias até que um volume nela o incomodou.

E agora, pensou Nico com seus botões!

Lembrou da sua solidão, da vida dura que levava trabalhando. Agora instalado num camarote com uma linda mulher, bebendo, comendo do melhor e ainda mais recebendo atenção que nunca teve. Parou para pensar! Analisou bem a situação, e assim convicto, respondeu para si mesmo.

— Sigo em frente, não será um mísero apêndice que me fara recuar!

Foi o Réveillon mais feliz que Nico e Juvenal passaram em suas vidas.



Os misteriosos assassinatos da Rua Mênfis - Ises A. Abrahamsohn


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Os misteriosos assassinatos da Rua Mênfis
Ises A. Abrahamsohn



Carla soube da morte do gato da Dona Feliciana pela mãe. O coitadinho ainda se arrastara até a porta da cozinha antes de esticar as quatro patas no capacho. A vizinha estava inconsolável. O bichano era a sua companhia mais constante depois que a filha tinha se mudado para Minas. Era o segundo caso de assassinato felino na vizinhança. O primeiro tinha sido na casa de Adélia, a professora de piano de Carla que morava no fim da rua. A moça ainda tentara levar o moribundo até a clínica mais próxima, mas sem resultado.  A veterinária lhe disse que o gato tinha ingerido veneno de rato de maneira acidental ou tinha sido envenenado. Adélia tinha certeza que fora envenenado. Carla adorava gatos e tinha dois, Mina e Tino. Prometeu para a professora que iria investigar. A menina adorava histórias de detetive. Tinha aquele pendor para elucidar acontecimentos misteriosos. Sabia aos doze anos que mistérios não resistem a uma boa investigação. A notícia do segundo gaticídio requeria ação.

Carla foi falar com Dona Feliciana para colher informações. A boa senhora lhe disse com lágrimas nos olhos que Petisco provavelmente também morrera envenenado. O assassino devia ter colocado o veneno dentro de um bolinho de peixe. Petisco era louco por peixe. Ainda cheirava a peixe quando o encontrou e a saliva abundante na boca era sinal de envenenamento. Quanto ao possível criminoso a velha senhora disse suspeitar do vizinho do outro lado da rua que se mudara recentemente com várias gaiolas de passarinhos.

Acredite minha filha, esse pessoal que tem passarinho odeia gatos. Eles acham que os gatos estão de tocaia para atacar os passarinhos deles. Eu, aliás, acho uma crueldade manter as avezinhas em gaiolas.  É claro que gatos caçam passarinhos, mas no jardim, não dentro de gaiolas e os nossos gatos aqui da rua todos têm dono e são bem alimentados.

Carla ainda não sabia o nome do vizinho passarinheiro, mas logo iria saber. Ao voltar para casa aproveitou que o rapaz estava cuidando do jardim à frente do sobrado e parou para conversar, assim como quem não quer nada. Logo soube que o rapaz, de fato, tinha muitos passarinhos que ele repetiu que tinham nascido em cativeiro. Carla viu no quintal várias gaiolas de periquitos australianos coloridos. Mesmo sabendo serem de cativeiro não gostava de ver os bichinhos em gaiolas. De passagem reparou na estante da área. Viu formicida e também um saquinho com grânulos azulados e uma caveira estampada.

Puxa, você achou muitos insetos na casa?

O rapaz respondeu que não, mas na casa anterior onde morara havia camundongos, formigas e baratas e agora tinha que se livrar desses venenos. Não podia jogar no lixo porque seriam perigosos para o ambiente e eventuais animais.  A garota contou dos gatos desaparecidos e perguntou se ele os vira. A negativa foi enfática.

Ou ele é um mentiroso de marca, ou de fato não tem nada a ver com o caso.

Carla voltou para casa pensando como poderia identificar o matador dos gatos e como agir para impedir novas mortes. Decidiu fazer um impresso para distribuir aos moradores avisando aos donos de gatos do perigo. Essa parte foi fácil, escreveu o texto, imprimiu trinta cópias que colocou em envelopes marcados com o aviso: 

“Cuidado com seu gato! Há um envenenador de gatos à solta.”

No início tinha pensado em colocar nas caixas de correio, mas decidiu distribuir pessoalmente. Assim poderia dar uma boa olhada nos moradores e identificar alguns suspeitos. Ainda bem que a rua era curta com apenas quatro quarteirões.

Carla fez no caderno uma lista das casas e respectivos números. Assim, após falar com os vizinhos, poderia assinalar as impressões sobre os suspeitos. Ela achava que em três tardes conseguiria mapear os moradores da rua. Na verdade, demorou bem mais. Trabalho de detetive é duro.

Em várias casas não havia ninguém, os donos trabalhando, e em outras não quiseram falar com ela.  Em oito das vinte moradias havia gatos e as pessoas ficaram agradecidas pelo aviso.  Em outras seis, havia cachorros. 

Carla raciocinou que o matador de gatos não devia ter nenhum pet.

Os donos dos cães não foram descartados, mas não lhe pareceram serem inimigos de gatos. Resolveu concentrar-se nas dez casas restantes.  Já estava chegando aos números do começo da rua quando ouviu alguém tocar violino. Puxa, pensou Carla, que rua mais musical. Numa ponta mora uma pianista e aqui tem alguém que dá aulas de violino. O violino era bastante desafinado. Deve ser um aluno, como eu. Vou esperar. Enquanto esperava a aula acabar para tocar a campainha, Carla conseguiu falar com o pessoal de três casas próximas. Não obteve nenhuma informação em duas, porém noutra bem em frente ao violinista, morava um lindo gato amarelo, Charlie, cujo dono era Rodrigo, um garoto que conhecia da escola, um ano à sua frente. Foi Rodrigo que lhe avisou para ficar de olho no músico.

Rodrigo disse que não queria acusar ninguém, mas sabia que o homem não gostava de gatos porque por duas vezes o ouvira xingar Charlie quando este tinha entrado no jardim da casa do músico. Porém daí a envenenar gatos....

Carla apertou a campainha da casa do violinista. Um homem alto, de cabelos grisalhos amarrados na nuca e mal-humorado abriu a porta. A garota começou a explicar, mas o irritado violinista nem quis ouvir.

Não quero saber de gatos! Não gosto de gatos! Me infernizam a vida! Fora daqui.... E bateu a porta com violência. A garota assustada com a reação do homem saiu correndo na direção da casa de Rodrigo que ficara olhando pela janela.

Tenho certeza de que é ele o matador, disse ela, mas, como posso provar?

Enquanto tomava um copo d’água, para se acalmar, Carla teve a ideia.

Rodrigo, se você descobrir o nome dele podemos checar na loja de plantas do bairro se ele comprou algum veneno. No dia seguinte o garoto descobriu o nome do violinista ao ver uma revista meio para fora da caixa de correio. Belarmino Guedes, era o nome. Mais difícil foi Carla verificar se ele tinha comprado veneno de rato. A dona da loja de plantas não lembrava de ter vendido. Desapontada, a garota ia saindo quando o balconista a chamou:

Cara mal-educado e impaciente, lembro bem.... Comprou veneno de rato e quando eu quis explicar os cuidados a tomar com o produto o desaforento disse não precisar de lição como usar.

Carla e Rodrigo resolveram confrontar o violinista. Armaram-se de coragem e na mesma tarde lá foram. Quando o músico abriu a porta disseram imediatamente:

  Sabemos que foi você quem envenenou os gatos da Adélia e da Dona Feliciana. Se não confessar vamos à polícia denunciar.

O homem tentou fechar a porta, mas os dois impediram. Possesso, começou a gritar.

Não aguento mais os gatos! Malditos gatos!  Quando começo a tocar, às vezes um, outras vezes dois ou três se põem a miar e uivar no muro de casa. Estou ficando louco! Quando eu era estudante meu professor dizia e repetia que eu só produzia o que ele chamava de Katzenjammer.  Em alemão quer dizer uivo de gatos. Toda hora, era Katzenjammer! Por mais que eu me esforçasse lá vinha... Katzenjammer! Podem imaginar? E agora vêm esses gatos malditos miar no meu muro. Não aguento mais!  Sempre os gatos! E o violinista sentou na soleira da porta e começou a chorar. Não parava de chorar e entre soluços balbuciava: eu sei tocar ... não é Katzenjammer... odeio aquele professor... odeio gatos...!

Passado o primeiro susto, Carla e Rodrigo olhavam até com certa pena o infeliz músico. Amedrontado, ele repetia:

Não vão chamar a polícia, não é?  Não posso perder meus alunos. Juro que não mexo mais com os gatos!

Vontade a gente tem, respondeu Carla. Você merece! É crime, sabe disso, não é?  Só queremos que pare de envenenar os gatos.... Eles não têm culpa. Só respondem ao som do violino. Por que você não toca viola?

Sem saber o que mais fazer ou falar e nem esperar resposta do neurótico violinista, os dois jovens correram para a casa de Rodrigo. Carla, amedrontada, esperou ainda algum tempo antes de voltar para casa. Passou a dar uma grande volta para evitar passar pela casa do violinista. Porém, Rodrigo, alguns dias mais tarde, a acalmou. Contou que o tal Belarmino de fato passou a tocar viola. Nenhum gato vinha mais miar perto da casa e também nenhum gato mais morreu na rua Mênfis.



Ação entre amigos - Ises A. Abrahamsohn





Ação entre amigos
Ises A. Abrahamsohn




Como qualquer judeu praticante sabe, ser convidado para tocar o Shofar por ocasião do Ano novo é uma grande honra. Os influentes na direção da congregação se reúnem um mês antes das grandes festas para decidir a que m caberá a honraria. Efraim tinha certeza que dessa vez seria o escolhido. No ano anterior tinha sido Isaías e no retrasado fora Daniel. Os três eram amigos de longa data, mas a o fato de ter sido preterido duas vezes tinha magoado Efraim e azedado a antiga amizade. Agora mal se falavam.

Raquel, mulher de Efraim, tentou muitas vezes convencê-lo de que não valia a pena se afastar dos amigos por essa razão. Porém para o marido tornara-se uma questão de honra. Um mês antes, dia sim, dia não, ele repetia ao jantar: Esse ano é a minha vez, eles vão ver. Se eu não for indicado, vou mudar de congregação. Afinal eu sempre apoiei a atual direção e contribuí muito para a Casa da Juventude. E você, que ajuda tanto no grupo de costura e no lar dos velhos.... Eles têm que reconhecer... E Efraim se exaltava, o que deixava Raquel muito preocupada. Ele já tinha tido um infarto e várias intervenções, e ela temia que ele tivesse outro se não fosse o indicado. Ela sabia que o marido às escondidas dava a entender a quem encontrasse que agora era a vez dele.

Raquel foi falar com o rabino. Este não lhe deu nenhuma dica mas alertou-a de que agora Isaias e Daniel faziam parte do comitê de escolha. Ela sabia que o marido jamais iria procurar os antigos amigos para fazer, digamos, um lobby em seu favor. Ao ouvir pela enésima vez a falação do marido, e ver ele se exaltar e a pressão subir, Raquel se decidiu. Era uma mulher prática. Iria procurar os dois. Ambos a receberam gentilmente, porém foram cautelosos. Vamos ver o que pode ser feito, disseram.

Chegou finalmente o grande dia. Era o segundo dia e ao cair da noite se encerraria a celebração do Ano Novo, Rosh Hashaná.  Efraim estava tenso, aguardava de pé com o manto ritual e o livro de orações na mão.  Já tinha sido lido o trecho da Torah correspondente ao dia e agora ainda havia algumas rezas. Raquel, do mezanino reservado às mulheres olhava preocupada para o marido lá embaixo. Percebia como ele estava nervoso.   De vez em quando ele lhe lançava um olhar angustiado. Ela fazia sinais com as mãos para ele se acalmar. Os dois amigos, Isaías e Daniel já estavam à frente ao lado do parlatório e junto do cantor. O rabino se aproximou do microfone para o tão esperado anúncio. Efraim não se aguentava de tanta ansiedade. Porém o rabino iniciou um preâmbulo sobre o significado do toque do Shofar e a sua importância no ritual. Efraim irritado pensou: Blá, Blá, blá, vamos logo ... chega de conversa mole. Diga logo o nome...

Após mais alguns torturantes minutos o rabino finalmente anunciou: Efraim Rabinovitch.

Um imenso alívio percorreu seu corpo e a alegria invadiu sua alma. Sem   disfarçar o contentamento, ereto, sorrindo à esquerda e à direita andou devagar até onde estavam os amigos. Isaías cerimoniosamente lhe passou o longo chifre de carneiro. Daniel ficou também a seu lado.

Efraim tomou fôlego e soprou. Uma vez, depois respirou fundo, encheu de novo os pulmões e soprou uma segunda vez. Os sons saíram perfeitos. Efraim sorriu levemente para seus dois amigos enquanto fazia uma breve pausa para se recuperar. Com esforço soprou pela terceira vez e o som rude e áspero ecoou forte até a abóbada e para todos os cantos da sinagoga.

Ainda teve tempo de escutar do rabino a frase final: No próximo ano em Jerusalém! Depois veio aquela dor aguda no peito, tão insuportável que não aguentou e caiu amparado pelos amigos. O médico de plantão acudiu com todos os recursos enquanto outros chamavam a ambulância. Não adiantou, após quinze minutos estava morto.




UM SONHO, UMA SOLUÇÃO - Ledice Pereira










UM SONHO, UMA SOLUÇÃO
Ledice Pereira



O que estariam tramando Cidinha e sua inseparável boneca Lili?

Boa coisa não era.

A menina, de cinco anos, com cara de santa, vivia aprontando.

Eugênia, a mãe, já não sabia mais o que fazer.

Cada vez que a menina sumia, a pobre senhora se punha a rezar para todos os santos. Os coitados eram impotentes para conter tanta imaginação.

Superativa, apesar da pouca idade, ela vivia a buscar novas e fortes emoções.

Da última vez, pescou todos os peixes que conseguiu, colocou-os num pequeno balde, com água insuficiente, e os trouxe para casa, arrastando como podia.

A coitada da mãe teve que carregá-los de volta, correndo o suficiente para despejar o cardume novamente no habitat.

Alguns já sentiam a falta do oxigênio e quase estrebuchavam.

A mulher esbaforida precisou se refazer, sentando-se sobre as folhas secas que margeavam o riozinho.

Ali, chorou copiosamente. Estava desanimada.

Tinha criado a menina sozinha depois que o marido a abandonou.

Acabou adormecendo. A cabeça pendeu para o lado, o corpo se ajeitou como pôde e ela sonhou.

No sonho, ela colocava a filha numa escola próxima dali e a menina se enturmava. Arranjava tantos amigos que até se esquecia da boneca, companheira de todas as horas.

Quando despertou, teve a certeza de que havia encontrado a solução para o problema.

Sempre achara que, por ser uma criança problemática, deveria crescer sozinha, ao seu lado. Percebeu, no entanto, que estivera enganada todo o tempo. Estava impedindo que a filha se desenvolvesse e conhecesse outras crianças.

Naquela mesma tarde, dirigiu-se à escola onde conseguiu uma entrevista.

Explicando a situação, foi muito bem atendida. Disseram-lhe que ali a garota teria como descarregar as energias, com jogos, trabalhos manuais, cerâmica, desenhos e brincadeiras.

Além disso, iria conviver com crianças de todos os tipos, fundamental para o seu desenvolvimento.

Cidinha ficou muito feliz quando a mãe contou a novidade. Ficou excitada com a ideia de ter amigos para brincar e conversar.

Correu para o quarto e a mãe a encontrou entretida, num papo com a boneca Lili, tentando explicar para a amiga que nunca a abandonaria. Que tinha no coração um lugar reservado para ela. Que continuariam a dormir juntas para sempre, mas que a partir daquele dia ela iria viver uma nova experiência. Iria frequentar uma Escola de verdade.