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Fria vingança - Vera Lambiasi

Fria
vingança
Vera Lambiasi
Anacleto, funcionário público do
Estado do Amazonas, deu para agarrar na bebida.
Cumpria o horário da repartição, e
se mandava para o bar.
Dali, para os jogos de azar, foi um
pulo. Desde a fezinha logo cedo no bicho, até a roleta clandestina das
madrugadas.
Esta vida desregrada acabou abalando
o seu casamento.
Dona Esmeralda, até então plenamente
dedicada, começou a se cansar da vida a dois.
Anacleto, verdadeiramente estúpido,
colocou-a na rua.
Largada na sarjeta, coitada, começou
a fazer programas como meretriz.
Anacleto a amaldiçoava, dizia não
ser aquela sua esposa.
De mão em mão dos clientes
violentos, Esmeralda, alcunhada na ocasião Jaqueline, adoeceu.
Foi parar no hospital público, até
apodrecer de vez.
Anacleto, orgulhoso, não quis
reconhecer o cadáver.
Anos mais tarde, transferido para
outra região, conheceu Dolores, rica fazendeira dos seringais.
Propôs-lhe casamento.
Mas quando pediu o atestado de óbito
em Manaus, foi-lhe negado, por inexistência do corpo.
Assim vingou-se a ex-esposa
messalina.
Anacleto jamais conseguiu casar-se
de novo.
Nem com rica, nem com pobre.
P.S. Exercício de classe baseado no conto de Lima
Barreto, “A Mulher do Anacleto”
A CADEIRA DE BALANÇO - Jeremias Moreira

A CADEIRA DE BALANÇO
Jeremias Moreira
Zé
Costa passava tanto tempo dormindo na cadeira de balanço que até deixou dois
sulcos no piso de concreto da beneficiadora. Em tom de piada, essa situação
absurda corria pela vila.
Quando
Armando Costa morreu deixou a Beneficiadora de Cereal Progresso de herança para
o filho. Antes o tivesse preparado para enfrentar as agruras do dia a dia e não
viver na flauta, como sempre fizera.
Zé
Costa, ou Zezinho para sua mãe, nunca pegou no pesado e nem quis saber de
estudar. Sempre gozou a vida, desde que não desse muito trabalho.
“Pra que trabalhar se tenho tudo?” −
pensava.
A
conta da indolência chegou quando se viu a frente dos negócios. Não entendia
nada de nada e não tinha o menor ânimo para aprender.
Mas,
encontrou uma solução: chamou Tonico Bastos para gerenciar a empresa.
Tonico
era um trator e de cara pôs-se a visitar os antigos clientes e prospectar
novos. Deu resultado. Os negócios voltaram a prosperar.
Enquanto
isso, Zé Costa passava os dias com a bunda na cadeira de balanço. Tirava longos
cochilos e mal tinha disposição para examinar os relatórios que Tonico apresentava.
Só se interessava pelas retiradas, que ocorria quase que diariamente.
O
outro não demorou em perceber que os clientes eram seus e não da empresa.
Manhoso,
decidiu que não passaria a vida trabalhando para Zé Costa.
Exigiu
uma mudança na relação de trabalho e apresentou uma proposta de arrendamento da
beneficiadora. Zé Costa apenas conseguiu entender que, se não aceitasse ficaria
na mão. Sem alternativa, aceitou.
Rolo
compressor, Tonico atropelou a concorrência. Modernizou a empresa, comprou
novos maquinários, mas investia sempre em seu nome.
Com
o passar dos anos restou a Zé Costa apenas o imóvel, que Tonico não tomou de
pena. E, ele passou a viver desse
aluguel.
Com
a ilusão de que ainda era sócio, todos os dias comparecia na beneficiadora. E,
tirava seu cochilo na cadeira de balanço.
Maria Comprida - Vera Lambiasi

Maria
Comprida
Vera Lambiasi
1ª
Parte
Nascida de família simples lá do
interior do Paraná, Maria sempre foi bonita, metida, e sonhava com a riqueza.
Seu corpo longilíneo a levou às
passarelas, e o disputado mundo da moda.
Soberba, não dava ouvido aos pais,
nem aos preceitos da religião deles, o catolicismo.
Cuidava de sua própria vida, e só.
Aos 16, mudou-se para Curitiba, onde
estudava, modelava, e vivia cada vez mais enfurnada em sua solidão.
Arrogante, não gostava de receber
ordens, e tinha para si ser a melhor manequim da agência.
Fazia desfiles, tirava fotos, e
sentia-se autossuficiente perante sua família, nunca pedindo sequer um favor.
Os parentes sofriam com a falta de
humildade de Maria Comprida, apesar do sucesso na mídia.
Acabado o colegial, partiu para Nova
York, deslanchando a carreira internacional.
Estava no casting das melhores
marcas mundiais.
A família foi saber da mudança pelos
jornais.
Famosa, nariz empinado, dizia nas
entrevistas não ter sido ajudada por ninguém.
Seu coração de pedra ainda não havia
encontrado um amor verdadeiro.
Não sentimentalizava sua existência,
fazia sexo amigável, e pouco envolvente.
Magra de ruim, foi pega de calças
curtas no primeiro inverno rigoroso.
Adoeceu, e de pneumonia avançada
jazia só em seu pequeno apartamento.
Seu ego gigantesco a impedia de
clamar por ajuda aos vizinhos.
Estes, só a tinham como a moça
esguia que batia forte a porta do prédio quando entrava.
Atrás dela, os murmúrios de
desaprovação enquanto passava impávida.
Delirando sozinha, ensopada em
suores, começara a gritar de desespero. Não a Deus, que nunca a acolhera, mas
ao serviço de saúde.
Foi ouvida por Matthew, advogado
atraente do apê da frente, que correu chamar uma ambulância.
Com a chegada dos paramédicos,
acompanhou-a ao hospital, preencheu fichas, apresentou-se como amigo da
paciente.
Maria mergulhou em sono anestésico
por dois dias.
Acordada e fortalecida, finalmente
começou a agradecê-lo. E, dada a alta, voltaram para casa.
Maria ainda engatinhava num árduo
caminho de gratidão, quando Matthew convenceu-a a ligar para os pais dando
notícias.
O rapaz, aos poucos, abria o coração
de Maria para um novo mundo.
Daí, para o romance entre os dois, foi
um pulinho.
Vencido o primeiro ano de aluguel,
decidiram morar juntos, para economizar.
A família de Maria só tinha a
endeusar Matthew.
2ª
Parte
Conheci Maria Comprida em Nova York,
ambas nos preparando para a mais famosa maratona do mundo.
Treinávamos lado a lado no Central
Park quando tropecei na raiz de uma árvore.
Faltavam três semanas para a prova e
me desesperei, achando que teria de desistir antes mesmo de tentar.
Xinguei em português bem alto e
pornográfico, e só Maria compreendeu, me acudindo às gargalhadas.
Tínhamos vinte e poucos anos, e logo
nos tornamos amigas.
Insisti muito para Maria seguir seu
treino naquele dia, mas ela me convenceu a não ser orgulhosa, e aceitar que me
levasse tirar uma radiografia.
No final, era só uma torção. Coloquei
gelo, pomada, tomei remédio, e depois de três dias já começava a caminhar.
Foi no hospital, aguardando pela
consulta, que Maria me contou o quanto era arrogante com os pais, e as lições de
humildade que teve com Matthew, seu namorado, no dia que o conheceu. Ou melhor,
dias e dias de vigília dele quando ela teve a primeira crise de bronquite.
Ela fazia corridas diárias pelo
parque como parte do tratamento. E a primeira maratona era sua meta.
Curada do meu pé, nos preparamos
juntas para o grande dia.
Largamos lado a lado, como no dia
que nos conhecemos, e Matthew, ansioso, era o nosso único torcedor na fria
manhã de outono, naquela multidão.
Fomos vagarosas, ela com sua
bronquite, eu com minhas limitações. Nos perdemos por vários quilômetros, num
vai-e-vem engraçado, para nos encontrarmos na chegada, extasiadas.
Matthew era pura alegria ao avistar
a amada.
Maria Comprida ainda tinha um pedido
a me fazer neste dia. Queria que eu a acompanhasse ao Brasil, à casa dos pais,
no interior do Paraná.
Prontifiquei-me a ir nos feriados do
Natal, quando visitaria minha própria família em São Paulo. Eu trabalhava há
dois anos sem férias, num banco de investimentos, e a viagem seria magnífica
esticando depois para Maraú, na Bahia.
E a mágica aconteceu. Maria, naquele
ano, pediu perdão aos pais, que nem se deram tanta conta dos sentimentos
encubados dela.
Foi para a Bahia comigo, Matthew, e
meu antigo affair americano.
Curou-se completamente da bronquite.
Hoje corremos por puro prazer nas
trilhas do Central Park.
Maratona?
Nunca mais.
Isso é coisa de louco!
Um Pé de Carro - Vera Lambiasi
Um Pé de Carro
Vera
Lambiasi
Nos
campos de canola em Cotswolds paramos para fazer um pic-nic de torta de carne e
cervejas.
Alimentados
e deitados no chão de palha batida, avistamos ao longe um automóvel brotando de
um cipreste.
A
brincadeira de adivinhar marca e modelo tomou nossos pensamentos.
Apertávamos
os olhos marejados de riso e sonolência, rolando para mais perto, nos
deliciando de curiosidade.
Aparência
de furgão, cor de ferrugem, nenhum distintivo.
No
alto da montanha, um castelo em ruínas.
Mais
abaixo, um celeiro.
Podíamos
ter o deleite de encontrar outros carros mais bacanas, pelo aperitivo.
Piauí em Paris - Jose Vicente J. de Camargo

Piauí
em Paris
Jose Vicente J. de Camargo
Tenho bem guardado na
memória os passeios que fazia aos domingos com meus pais e irmãos no sitio
arqueológico de São Raimundo Nonato na caatinga piauiense. O ponto alto era a
visita ‘as grutas e cavernas com as
pinturas rupestres nos quais nossos antepassados de milhares de anos atrás deixaram
registrados vestígios de seus costumes, hábitos e animais com os quais
conviviam e caçavam, formando o mais importante patrimônio pré-histórico das
Américas. Meu pai, filho da terra, mostrava com orgulho os desenhos pintados
nas paredes, que eu admirava por serem bem parecidos aos que desenhava nos
cadernos da escola e, portanto, por ligação, ficava feliz com o orgulho paterno.
E foi numa dessas visitas,
que tomei a decisão de que queria estudar Paleontologia ─ palavra difícil que
decorei sem gaguejar de tanto meu pai repeti-la como a mais bela e culta das
profissões.
O pobre velho, humilde
funcionário público da prefeitura de São Raimundo, não mediu esforços ─
hipotecou os poucos bens que tinha ─ e minha mãe ─ aumentou as horas junto ao
tacho de cobre na feitura dos doces caseiros vendidos aos visitantes do Parque Arqueológico
─ para ter pelo menos um de seus filhos com o diploma da ciência que estuda os
homens primitivos.
Quando voltava da capital,
onde cursava a faculdade, para visitar a família ─ somente possível nas festas
de fim de ano dado ao custo da passagem e aos vários bicos que fazia para ajudar
na despesa financeira ─ meus pais faziam
questão de desfilarem comigo pelas casas dos parentes e amigos como se fosse um
estandarte bordado a fios de ouro estampando a máxima cátedra acadêmica. Sentia
que esse orgulho dos dois compensava todas as dores físicas e dificuldades financeiras
que passavam e, portanto não os podia negar.
Mas minha vontade mesmo
era estar analisando nos mínimos detalhes as pinturas rupestres gravadas nas
rochas, principalmente descobrir novos sítios escondidos nas inúmeras cavernas
da região. Sonhava em encontrar vestígios que ajudassem na teoria ainda incerta
de onde e por quais rotas entraram os homens pré-históricos na América: se da Ásia
pelo estreito de Bering, ou da África quando os continentes eram unidos.
E foi com esses desejos
que, ao concluir a faculdade, apresentei um trabalho de mestrado que foi
aprovado com louvor e, graças a ele, ganhei uma bolsa de estudo do governo
francês para um doutoramento na universidade de Paris.
Viajar é bom, mas a
experiência de viver num país com quase tudo diferente do que estava acostumado
antes, não tem preço. E essa era a minha sensação, após alguns meses já vivendo
na cidade luz, quando numa noite, uma amiga francesa me convida para um bistrô do
Quartier Latin.
─ Uma surpresa! Me diz, sem querer entrar em maiores detalhes.
Lá chegando me apresenta
um brasileiro de passagem, a procura de conterrâneos que possam lhe dar
informações sobre a adaptação longe da pátria mãe. Apresentou-se como carioca ─
fazendo questão de frisar da gema, legítimo posto 6 ─ e possuidor de vários prêmios jornalísticos
recebidos por reportagens em diversas partes do planeta. Acabara de chegar de
um périplo por diversas capitais europeias onde entrevistara a nata da intelectualidade
acadêmica brasileira, já que sua reportagem foi contratada por uma famosa rede
televisiva nacional.
Enquanto expunha os
perigos que já passara nas reportagens de guerra, me lembrei de meu pai, que
quando deparava com um sujeito muito garganta, que só conta lorotas, dizia:
─
Esse é daqueles que come sardinha e rota garoupa!
Ou então minha mãe, quando
via uma senhora com andar bamboleante no seu salto Luiz XV:
─ Amanhã tá de tamanco na barraca da feira!
Percebendo minha abstração
─ com certeza decepcionante para ele ─ me pergunta:
─ Diga-me, de que parte do Brasil você é?
Ao ouvir de São Raimundo
Nonato no Piauí, põe-se a rir de uma forma extravagante e pedante:
─ Hahahahahaha...
Hahahahaha... De Piauí? Hahahahaha...
Olhei para a minha amiga
que, como eu, não entendia o que havia de tão cômico para se de rir daquela
maneira, como se a piada, se é que existisse uma, fosse das bem cabeludas...
─ De Piauí, Hahahaha... Mas,
o que tem Piauí para uma pessoa formada como você viver lá? Me indaga
E convicto retruco:
─ Tem um povo muito
gentil, acolhedor, lindas praias, boa comida, rico folclore, e uma coisa que me
agrada muitíssimo, principalmente numa hora como essa, que me dá vontade de lá
estar:
─ Não tem carioca! E os
raros que chegam, o pessoal gentilmente oferece o prato típico: buchada de bode
refogada com óleo de dendê e pimenta malagueta.
─ É tiro e queda... O
bichinho cospe fogo e corre que nem foguete pro banheiro mais próximo. Nunca
mais volta...
O visitante encerrou ali a
entrevista. Disse não poder ir mais ao show combinado do “Cirque du Soleil” por
ter se lembrado de última hora de um rendevou
e saiu de fininho...
Foi a vez de minha amiga e
eu rirmos as gargalhadas degustando um excelente Bordeau e pedirmos a
especialidade da casa :
─
Garçon! Un quiche Lorraine
s’il vous plaît...
Feito Escravo - Vera Lambiasi

Feito
Escravo
Vera Lambiasi
Geraldo cuidava da casa da fazenda
de sol a sol. Suas mãos trincadas de trabalho exalavam o cheiro forte da cera
vermelha. Preferia o serviço doméstico, junto a sua esposa Dora, que cuidava da
cozinha.
Zombado pelos homens dos cafezais,
que achavam seus afazeres menores, não se abalava, as flores do jardim lhe
traziam paz. E a arrumação e limpeza do solar o gratificavam. Queria tudo
brilhando, do assoalho ao teto, e não encerrava a jornada antes de consegui-lo.
Geraldo perdera um dedo do pé na
infância, ajudando o pai no arado, e a sua permanência junto a família do barão
foi como um agrado.
Era um menino especial, asseado, e
de bons modos.
Logo foi apresentado a Dorinha,
filha da Dona Marta Confeiteira.
Casamento arranjado, e dado certo,
diziam os patrões orgulhosos.
Dali vieram os dois filhos varões,
paus pra toda obra.
Bons braços, cuidavam da lavoura.
Geraldo sabia de sua permanência
eterna na fazenda, mas sonhava a liberdade dos filhos.
Queria os fazer estudados, com
outras chances na vida. Não desejava vê-los repetir seus passos e de Dora,
acorrentados emocionalmente àquela família.
Ao fazerem 16 e 18 anos os chamou
para uma conversa, propondo que fugissem para a cidade grande. Lá teriam novos
documentos, trabalhariam como empregados, e custeariam suas escolas.
Aprenderiam a ler, escrever, e se formariam doutores.
Deu o pouco que havia juntado de
suas economias, e marcou a noite da escapada para dois dias. Tempo de Dora
arrumar roupas e limpar sapatos.
A mãe concordava pesarosa, já
antecipando as saudades dos rebentos.
Saíram pela noite, cavalos
emprestados até a estação de trem.
Geraldo trouxe os animais de volta à
fazenda, e deixou os filhos no banco frio a espera do apito pela manhãzinha.
Dora choramingava ao ter o marido em
seus braços.
Partiram os meninos.
O administrador, complacente, não os
denunciou. Até explicou aos patrões pedindo compreensão.
Depois de três meses uma missiva
chegava aos olhos de Geraldo.
Tarcísio e Teófilo trabalhavam numa
fábrica de louças em São Paulo, e já frequentavam o curso de alfabetização para
adultos.
Dora finalmente conseguiu dormir uma
noite inteira.
EU TAMBÉM - Maria Luiza de C.Malina

EU
TAMBÉM
Maria
Luiza de C.Malina
Amélia.
Ah! Amélia, nada tinha a ver com a tão
cantada em versos e prosa “Amélia, a mulher de verdade”.
Não
fosse tão intrometida, até merecia um desconto, mas a inveja...Ah! Minha Nossa! Essa
era desvairada.
Tinha mania de doença. Até das doenças dos outros ela tinha
inveja. Começava-se uma conversa séria sobre um caso diagnosticado e quando o
amigo tomava fôlego para explicar sobre uma nova cura, ela imediatamente o
interrompia e dizia:
—
Eu também tenho isso! - E explicava todo o seu caso em mínimos detalhes,
incluindo o fulano, beltrano e sicrano, e assim o então contador da história
interrompida, dizia um tanto constrangido:
—
Onde foi mesmo que eu parei?
Sem
qualquer noção retrucava:
—
A vida é assim mesmo, uns com tanto outros sem nada!
Amélia
era uma mulher bonita. Inteligente. Vivia só em um grande apartamento. O que
faltava era um companheiro, talvez, amigos que a suportassem nesta concentração
contida no “eu também”, ou eu já sei
disso, e descambava na exorcização de um mestrado no assunto. Os ouvidos tiniam
nas cabeças estonteadas, entre trocas de olhares em que mal se conseguia abrir
a boca para interrompê-la.
O
suspiro alongava-se entre os bocejos.
Uma
palavra apenas, já iniciava outro discurso.
Inshallah - Vera Lambiasi Vera Lambiasi

Inshallah
Vera
Lambiasi
O
show do Hotel Mamounia, em Marrakesh, começaria em cinco minutos.
Odaliscas
invadiriam o pequeno tablado, ao lado do restaurante, onde os comensais,
satisfeitos, degustavam o chá de menta.
Fuad
não se aguentava de curiosidade. Fora avisado que sua musa, Sania,
apresentava-se ali todas as sextas.
Lembrava-se
dela menina faceira, correndo pelo bazaar. Na época, suas sobrancelhas
fanfarronas piscavam com apetite a ele, um jovem casado.
O
tempo passou ligeiro, Sania havia atravessado o Gibraltar, fora trabalhar no
velho mundo, fugindo da repressora família.
E
agora voltava à terra de origem.
Atrás
da cortina avistou Fuad na plateia.
Ele
suava.
Ela
tremia.
Ele,
viúvo.
Ela,
sofrida.
Sentado
numa mesa escondida, viu entrar Sania, mulher madura.
De
cima do palco, alcançou Fuad, petrificada.
Longo
espetáculo, e um jogo de olhares interminável.
Já
no camarim, gargalhadas gostosas prenunciavam um caso amoroso.
Os tapetes de Smita - Ises A. Abrahamsohn

Os
tapetes de Smita
Ises A. Abrahamsohn
Na oficina de tapetes Shankar trabalhavam pelo menos uma centena de
mulheres. Desde os sete anos de idade as meninas permaneciam horas e horas na
frente dos teares passando e repassando as agulhas pela trama. No início,
desenhos simples e fios de algodão; as habilidosas teciam os fios de seda.
Precocemente adultas, as meninas saiam da infância sem brincadeiras, direto
para o casamento. Casamentos sem
alegrias. Apenas mais trabalho, em casa
e no tear. Smita era uma delas, mas não se conformava com a sina que avistava e até então conseguira escapar do casamento
porque não tinha dote.
Smita era devota de Lakshmi
deusa da sorte, riqueza e fertilidade. Toda semana levava uma fieira de flores,
aquela que conseguia pagar com apenas 3 rupias, e falava com Lakshmi. Contava a
sua dura vida e pedia conselhos à deusa. Lakshmi aparentemente a ignorava, mas
Smita não desistia. Tinha planos para melhorar de vida. Sabia que era
uma tecelã de primeira. Seus tapetes de seda conseguiam os melhores preços na
loja, mas pouco disso chegava a seu bolso. Queria ter a própria oficina de
tapetes. O dono da oficina ria da sua pretensão.
— Quando você
conseguir tecer um tapete de seda por dia, aí sim, veremos. Tinha os olhos miúdos, cobiçosos e escarnecia
das suas pobres empregadas.
Tecer um tapete de seda
por dia era impossível. Talvez em um mês, se duas pessoas nele trabalhassem.
Smita levou para Lakshmi além das
flores, a sua agulha preferida. Deixou-a aos pés da deusa junto às outras
oferendas. No dia seguinte, estava muito cansada. Sentou-se no banquinho em frente à trama e escolheu os fios de seda para o
próximo tapete. O desenho era floral e intricado.
Com o calor e o zumbido das moscas Smita adormeceu. Caminhou até a janela da
oficina pela qual avistou, em vez da viela poeirenta e suja, Lakshmi em seu trono em meio a árvores de frutos brilhantes, folhagens
douradas e flores que pareciam esculpidas
de pedras preciosas. Smita cruzou o portal da janela e entrou nos domínios da deusa.
Deslumbrada, examinava aquela profusão inimaginável de tesouros. Viu
azaleias talhadas de rubis. Os estames das flores eram filetes de metal
dourado. Olhando de perto, Smita percebeu que tinham uma fenda na extremidade.
Hesitante, puxou um estame. Era de fato uma agulha de ouro. Olhou em volta temerosa
de ser acusada de roubo. Neste momento, toda a paisagem desapareceu. Viu-se em frente
à janela de batente escuro e sujo da oficina. Saltou para dentro e, de repente,
acordou suada em seu banquinho de tecelã. Tinha nas mãos uma agulha das antigas
suas, de cobre. Enfiou o primeiro fio de seda na agulha e passou pelo orifício da trama. A agulha adquiriu vida própria. Bastava
colocar o fio de uma cor que ela seguia a
preencher os vazios da tela. Trocando-se a cor, lá ia a agulha a entrar
e a sair da trama completando os
desenhos mais complexos. Smita se beliscou; não podia acreditar no que via.
Várias vezes teve que disfarçar para que o capataz nada percebesse. Após
algumas horas, Smita fingiu-se doente e foi
para casa. O tapete já estava pela metade.
Smita mudou-se do
vilarejo para a cidade levando consigo a
mãe e a irmã. Conseguiram um barracão que servia ao mesmo tempo de casa e
oficina. No inicio, conseguiram algumas encomendas de oficinas para fazer os
tapetes em casa. A agulha continuava o seu trabalho encantado. Tinham que
disfarçar e não entregar o trabalho tão rápido para não despertar suspeitas.
Com o tempo, Smita montou a própria oficina e loja. Empregava outras tecelãs,
mas reservava para si as tramas mais complexas que executava apenas em casa.
Ah ! Sim ! é claro que
Smita enriqueceu. Continuou devota de
Lakshmi a quem levava oferendas todas as semanas. Agora não precisava mais de
dote, mas não queria nenhum marido bisbilhotando a origem de sua riqueza. Em vez disso, abriu uma escola para meninas
dedicada a Lakshmi e também a Sarasvati,
a deusa da sabedoria . Nela, as crianças
brincavam, aprendiam a ler e a escrever
e, se quisessem, aprenderiam as artes da tapeçaria.
TONHÃO. - Mario Augusto Machado Pinto

TONHÃO.
Mario Augusto Machado Pinto
Tonhão, mestiço de preto e índia, baixinho, forte na capoeira apesar de
magricela, pensava ter feito alguma trapalhada pra Nhô Zeca mandar Sôquim ir acordá-lo antes do amanhecer. Enfrentaria,
de certo, a raiva de Nhô Nhô e seria
acusado de algumas coisas que não entenderia, e receberia castigo de dez lambadas com
chicote de couro de cobra sucuri - a que mais corta a carne e deixa dores
fortíssimas quando banhada as costas com água e sal – o que fez aumentar sua
revolta contra o tratamento que estava recebendo do Nhô Zeca e do feitor Sôquim.
— Da próxima, vai de quinze,
viu? Vê se toma jeito! Berrou Nhô Nhô. E o Sôquim com
o seu vozeirão aproveitou para acrescentar:
- E vai ficar um par de dias ao
sol, no tronco.
Sua cabeça não aceitava o que disse o feitor. Estava malvado, o que
nunca foi. Alguma coisa estava errada.
Tinha que descobrir o quê. Só pensava em falar com ele, mas como? Da
última vez levou um safanão, que o fez rolar no barro sujando a roupa branca de
brim. Foi um upa pra Terna lavar. Resmungou o tempo todo dizendo que não era
minha mucama. Ora, ora, mucama de ninguém, mas gostava de dormir junto e não
tinha vergonha de pedir.
Há quase dez anos na Fazenda do Lago, não estava muito certo disso, mas
achava que havia chegado com dez anos, mais ou menos. É Gegê Nagô, mas mesmo
assim tem medo de mandinga. Nesse tempo todo aprendeu a língua do Nhô Zéca, a
fazer pra família dele o melhor e o mais disputado Mugunzá da região com o mais
delicioso puré de milho branco cozido na água com sal e coco. Seu segredo? O
caldo açucarado no ponto, coisa que ninguém conseguia.
Cuidava de Nhô Nhô como se fora seu pai. Uai, como pai, sim! Sim. Pois,
não brincou como irmão com a filharada do homem? Não fazia tudo certo? Não
ensinou a molecada a caçar e a pescar? Não guardava a sinhazinha, não fazia
todas suas vontades? Então por que vinha sendo castigado seguidamente? Não era
por desleixo nem pouco caso. Por coisas que aconteciam? Que coisas? Por quê?
Seguiu cuidando das galinhas, das cabritas, das verduras e frutas no
terreno perto do casarão, mas não deixava de pensar no porquê do mau tratamento
que vinha recebendo, e do seu esforço não ser prezado como antes.
Sempre que possível andava por perto do Sôquim ou rodeando o lugar onde
ele ficava; desse modo ouvia as conversas do feitor falando do que acontecia na
fazenda. Aproveitava toda informação pra não fazer lambança.
Essa escuta deu resultado. Um dia ouviu uma parte da conversa de Nhô
Zeca com o Sôquim e ouviu Nhô Nhô gritando dizer que Tonhão tinha feito coisa muito errada: tinha ido até o rio de mãos
dadas com a Sinhazinha! Não tolero isso! Dá um trato e some com ele daqui!
Daí em diante ao trabalharem juntos não tirava os olhos do feitor. Tinha
medo, mas não demonstrava. Foi assim até a noite em que descobriu que Sôquim tava
querendo agarrar a Terna, mas ela fugiu. No dia seguinte falou com ela e soube
que ele não dava sossego pra ela.
- Deixa estar. Vou cuidar disso,
mas você fica quieta. Deixa ele falar uma vez com Você. Não abre o bico,
recomendou.
Tonhão ficava na moita todas as noites até que Sôquim apareceu, chamou a
Terna e convidou ela pra ir até o rio. Tonhão começou a cantar:
“Sussu, sossegue,
Vai dormir seu sono,
Deixe o amor dos outros
Que já tem seu dono.” (*)
Sôquim reconheceu a voz de Tonhão:
- Amanhã te pego, moleque,
mas antes vou pedir ajuda ao Mané Maneta; aí, quero ver só!
Tonhão estremeceu. O Maneta! O medo apossou-se dele. Resolveu enfrentar
Sôquim ali mesmo, na hora. Correu atrás dele, encontrou-o e deu-lhe uma
rasteira, derrubando-o. Sacou do seu porrete e deu-lhe na cabeça, só parando
quando, cansado, viu que Sôquim estava quieto. Não reagia. Estava liquidado.
— Agora é fugir. Pegar o rio,
sumir. E pra atravessar como vai ser?
Foi até o cercado, pegou a barrigada do cabrito do jantar e colocou num
saco, pegou um rolo de corda forte, a faca grande e correu pra juntar tudo em
cima da barriga do Sôquim. Puxou o corpo até o rio, fincou uma estaca no chão,
nela amarrou uma ponta da corda. Envolveu o corpo do feitor com várias voltas
da mesma corda e entrou com ele no rio. Lançou a barrigada bem longe na
água. Deixou a correnteza levar o saco e
o corpo. E ficou escutando... Ai ouviu o barulho dos peixes. Entrou devagarinho
mais adentro do rio. Mais um tempinho e começou a nadar lentamente até chegar à
margem do outro lado, subiu o barranco e olhou o rio: fervilhava de
peixes.
- Esta noite as piranhas vão
ter banquete! Exclamou.
Virou-se e tomou a direção do seu novo destino.
(*) Spis und Martius –
Reise in Brasilien – Zeiter Theil, pag. 664
apud…
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