A CASCA DE NOZ - Maria Luiza de C. Malina

 

A CASCA DE NOZ  - CONTO DE NATAL 
M.luiza de C.Malina

O mês de dezembro é uma época curta demais para as aguardadas atividades corriqueiras transformadas em tradições de aromas e sabores das especiarias.
A neve fofa aumenta a cada dia. Agasalhos coloridos espalham a alegria na montagem de bonecos para servir de boliche com os trenós. Nesta ocasião somos personagens em nossos contos de fadas e duendes.

As previsões através de simpatias são as preferidas das meninas com as ideias recheadas de sonhos juvenis, tal qual bolachas recheadas de geleias. A criatividade dos avós atravessa gerações para entreter as crianças à espera dos presentes.

A brincadeira da casca de noz é a mais curiosa, por vezes intrigante.

Dentro de uma bacia cheia de água são colocadas várias cascas de nozes. Em seu interior uma pequena vela. Cada um escolhe uma casca e acende a vela. Se ela apenas girar indica que a pessoa continuará na casa. Se ela se afastar do meio, indica que a pessoa sairá de casa para uma viagem, estudar ou casar-se.

A minha casca de noz todos os anos se reunia junto a outras duas, assim as três afastavam-se das demais.  Nunca soubemos o significado. A cada ano este fato se repetia.

Muitos dezembros se passaram. Já não me importava com a casca da noz desde que me conscientizei que, as embarcações não foram feitas para permanecerem atracadas no porto e, muito menos para uma navegação solitária. A minha casa de noz teria algum sentido.

Recostada à decorada janela do hotel, observo a neve avolumar-se, com uma caneca de chá nas mãos. Absorta em pensamentos na procura de uma alma gêmea, até mesmo no calor de uma caneca de chá, não percebi o grande salão avolumar-se de hóspedes para o coquetel que prenuncia ceia.

Um toque no ombro. A realidade retoma com a mesma agilidade de um assentimento da surpresa de um sorriso. Aqui está ele, a minha frente,  em seu traje de gala. O príncipe desaparecido a que tanto amei no branco silêncio da neve. Acompanhado de menino de oito anos aproximadamente. Oferece-me o braço. Aceito.

A simpatia que me acompanhou  finalmente realizou-se.


As cascas de nozes estavam reunidas. Entendi tudo. Senti-me feliz, olhando pela mesma janela da vida, embaçada pelas tantas xícaras de chás solitárias.

O Planeta Azul - Suzana da Cunha Lima



O PLANETA AZUL
Suzana da Cunha Lima

Ele saiu de seu “bunker”, 30 metros abaixo da superfície, e suspirou ao ver aquela desolada região.   Era um deserto de pedra e ele não sobreviveria ali nem dez minutos,  não fosse a roupa especial que usava.

Ainda havia sol, esplendoroso e mortal, pois os humanos haviam destruído toda a camada de ozônio e praticamente todas as florestas.  Seus raios e o calor que irradiavam, sem a necessária barreira, eram extremamente letais.

Os remanescentes do Grande Cataclismo  moravam nas calotas polares, como animais, tentando se adaptar às terríveis condições de frio excessivo e calor insuportável.  Estavam fadados ao extermínio, pois a natureza humana, a despeito das mutações, não fora feita para suportar por muito tempo variação tão absurda do clima.

Mas, ele pertencia à pequena e seleta comunidade do Povo do Meio.  Foram prudentes  e sensatos por terem escutado a sabedoria dos Grandes Mestres, e haviam se  preparado para a Grande Seca.   Ao acreditar nas  previsões da desertificação da terra, e sem poderes para sustá-la,  buscaram logo caminhos alternativos, sem se preocuparem com o escárnio dos outros que os chamavam de apocalípticos  terroristas.  

Desceram às profundezas da terra. Aprenderam a fabricar água e oxigênio utilizando a formidável energia do magma e descobriram como extrair proteínas e sais minerais das rochas. E agora, havia pelo menos, o essencial para que pudessem viver e procriar em  seus lares profundos.

Mas, nada se comparava à natureza estelar,  ao piscar intermitente das estrelas, ao cair e nascer do sol, e a estupenda visão de uma enorme lua, cuja luz chegava pura e esplêndida à terra desprotegida. A questão não era apenas sobreviver, isso já tinham conseguido. Não bastava para seres que possuíam inteligência, a memória de como era a Terra antes do aquecimento global. A falta de espaços abertos, a visão do céu que lhes conferia a sensação de pertencimento ao universo, estava acarretando graves sequelas psicológicas.

Diante desta nova questão que se avizinhava, o Conselho dos Mestres designara Gael para buscar soluções.  E conferiram a ele o dom da imortalidade, contido numa pequena pedra azulada, oriunda de um meteoro.

No começo seu maior dilema era como começaria sua busca. A imortalidade não lhe dera asas, nem poderes especiais.  Continuava a ser apenas um ser humano que agora  não envelheceria nem morreria.

Gael caminhou para um pequeno monte ali próximo, e se lembrou de  que ficava perto do monte Ararat,  lugar bíblico onde a arca de Noé tinha aportado após o Grande Dilúvio.  Lá chegando, usou seus poderes mentais, para chamar por algum ET que estivesse no mesmo circuito telepático.

Tinha-se aperfeiçoado neste exercício durante seus longos dias solitários, e era um dos poucos que sabiam se valer da imensa capacidade do cérebro.

Logo veio a resposta.  Ali mesmo, sentiu a presença da Energia, travestida na forma humana que quis saber a razão daquele chamado.

Gael perguntou se haveria alguma possibilidade de a Terra voltar a ser aquele Planeta azul, cercado de mares e verde, onde tantos humanos haviam nascido e morrido.

A Energia lhe informou que naquele ponto onde estavam, naquela desolação imensa, sem água e cada vez mais quente, a Terra não seria mais um planeta habitável para seres humanos.  Eles mesmos, que viviam nas profundezas, iam acabar enlouquecendo e  matando uns aos outros.

Só haveria duas alternativas viáveis:

Gael voltar no tempo, para impedir a insanidade dos povos, exortando-os a proteger a natureza, florestas e mananciais, mares e fontes, ar e solo. Tinha dúvida se conseguiria isso. De qual autoridade se revestiria para que acreditassem nele?

Ou, tentar dali mesmo, com o que pudesse juntar de material e conhecimentos, sair da Terra em busca de outro planeta, que tivesse condições mínimas para sobrevivência da raça humana.

— Nós podemos  ajuda-lo nesta alternativa. Conhecemos o universo e há, pelo menos, dois corpos celestes que oferecem possibilidade de sobrevivência neles. No entanto, os humanos vão  preferir  o exílio, saindo para sempre de sua terra natal, em busca de viver no desconhecido?

Gael respondeu que não sabia, mas precisava tentar primeiro reverter o tremendo desastre que colocara a Terra naquela posição de total inviabilidade.  Se não conseguisse convencê-los, voltaria, e iria conversar outra vez com seus irmãos da comunidade. A Energia lhe forneceu poderes especiais, além de asas nos pés. De que adiantava não morrer, se ficasse para sempre dentro de uma masmorra? Agradeceu, e mentalmente se transportou para 50 anos antes da Grande Seca. O que viu, foi desolador:

Fábricas poluindo o céu, motosserras destroçando as florestas, mercúrio envenenando os rios, detritos de toda espécie arrasando toda vida marinha.

Resolveu não perder tempo! Foi direto ao Capitólio falar com o Presidente dos Estados Unidos. Só foi recebido porque balas e granadas não o mataram, e nem conseguiram interromper sua marcha. Assim, conseguiu chegar ao Poder máximo da Terra debaixo do medo e desconfiança.  

 Era um Presidente simpático, que o recebeu muito bem, embora tivesse ordenado ao Serviço Secreto que investigasse o que havia por detrás daquele homem invencível, agora, à sua frente.

Gael contou-lhe da Grande Seca e da Grande Catástrofe. De como estavam sobrevivendo agora e da possibilidade real da terra e seus habitantes se acabarem para sempre.  Era um futuro negro, porém muito distante ainda na cabeça deles.

— Quem vier depois de mim, vai arranjar algum jeito para impedir este Apocalipse - respondeu-lhe o poderoso homem, ironicamente.

— Se a natureza não for protegida agora mesmo, nada do que fizerem vai dar resultado.  Vocês chegaram ao ponto de não retorno. É agora ou nunca! Encare sua responsabilidade!

Mas, nada adiantou. Não o prenderam porque não conseguiram.  A Energia o havia tornado mesmo invencível.  Desanimado, já querendo voltar para sua época e enfrentar o que fosse, diante de seus mestres, Gael percebeu que um homem, na multidão que se formou na frente da Casa Branca, todos ávidos em ver o Homem do espaço, como o chamavam,  se adiantou para ele.

— Podes dar alguma prova se o que dizes é verdade? – perguntou ele.

— Eu sou uma prova, rapaz.  Sou um dos sobreviventes da Grande Seca e vivo num buraco no solo de mais de 30 metros de profundidade Só posso olhar o céu por dez minutos e usando uma roupa especial.  Não há verde onde moro, nem água potável, nem rios, mares ou lagoas ou qualquer espécie de bicho.  É isso que desejam para seus filhos?

— Dá uma pequena prova para o povo aqui conseguir acreditar e pressionar os dirigentes para que tomem providências.

Então Gael retirou sua roupa toda, desnudando-se diante do público.

E eles viram um homem pequeno, de pernas finas, braços curtos, com grande cabeça onde não havia um fio de cabelo sequer, o rosto todo enrugado como se tivesse mais de cem anos.  Quase um monstro.  Foi uma gritaria geral, de consternação e surpresa.

Ai Gael tornou a se vestir, lentamente e proferiu suas últimas palavras, antes de voltar para seu tempo.

- E eu tenho 30 anos e sou considerado até bonito, sabem?  Não há substituto para a água e o ar, enquanto formos seres humanos.  E se houver mutação, com certeza vamos virar lagartos ou desaparecer para sempre.  Eu sou o futuro que não deve acontecer. Acreditem pelo amor de Deus!

E  desapareceu diante de todo mundo, embasbacando-os.  

 Foi uma revolução. Invadiram a Casa Branca e todas as sedes de poder, do Oriente ao Ocidente.  Pela primeira vez tinham visto  o que aconteceria com eles, se nada fosse feito para proteger a terra da insensatez humana.

 O progresso foi lento, mas aconteceu.  Não deu para salvar toda a Mata Atlântica, mas a Amazônia ficou de pé. Foi duro acabar com os motosserras, com os exploradores da madeira, e com os poluidores do ar e do mar.

Foi uma luta incessante, com muitas reuniões das altas cúpulas para que a emissão de gás carbono cessasse, que se buscassem outras fontes de energia limpa,  e aos poucos, a camada de ozônio se restabeleceu.

Quase 50 anos depois do aparecimento de Gael, a Terra passou a ser, outra vez, o Planeta azul, a lua voltou ao poder dos namorados. E era possível tomar água de qualquer córrego e aspirar ar incrivelmente limpo.


Foi por este tempo que Gael acordou, abriu a janela de sua casa e sentiu a leveza da brisa perpassando por seu rosto, diante do céu mais azul que um dia poderia imaginar.

O pássaro sem cor - Acácia Lima


O pássaro sem cor
Acácia Lima

Ele era um pássaro triste. Vivia separado dos demais pássaros.   Escondia-se nos galhos das árvores, ou atrás das montanhas.

Não gostava de ser visto, porque não tinha cor.

Suas penas eram transparentes, fazendo com que sobressaísse o seu bico alaranjado e os olhos pretos.

Sempre recordava o tempo em que foi feliz.

Naquele tempo era verde,  tinha algumas penas das asas avermelhadas e o bico alaranjado. Sua companheira, também era colorida, bem amarelinha.

Voavam juntos para lá e para cá. Cortavam o vento em zig zag. Ora voavam rápido, ora voavam bem devagar, conversando e saboreando o voo.

Raramente se separavam, procuravam alimentos de todo tipo, e abrigavam-se em diferentes lugares.

Um dia,  quando voavam em uma floresta, encontraram outros pássaros e brincavam de se esconder.  Ela se perdeu, e nunca mais foi encontrada.

Houve muita procura. Dia e noite, semanas inteiras procuraram. Até que desistiram. Ninguém sabia explicar como ela se separou dos outros pássaros, e se perdeu.

Ele sentiu uma dor enorme em seu peito. A dor o partiu ao meio, sequer podia respirar.  Sua tristeza foi tão grande que as cores de suas penas foram desaparecendo, desparecendo, até que sumiram de vez.  

Então ele ficou muito feio, calado, sozinho e choroso.

Chorou, chorou e chorou.

Voou para bem longe! Para os quatro cantos do mundo! Avistou neve e geleiras, florestas fechadas, montanhas altíssimas. Sobrevoou  mares e rios, levado pela  dor da perda.

Então encontrou um pássaro preto. Logo ficaram amigos e  conversavam enquanto voavam.

Brincavam de se esconder, quando pássaro preto foi atingido por um caçador.
Caiu machucado. Não conseguia mais voar.

O pássaro sem cor, cuidou de cada machucado do pássaro preto. Tinha medo de perdê-lo. Não podia sentir novamente a dor da perda.

Alimentava-o com carinho, e dava-lhe todo tipo de plantinha medicinal.

Quando o pássaro preto se recuperou, passou a ajudá-lo a voar.

O pássaro preto voou alto, bem alto, e de lá, olhou para o amigo e não acreditou.

 — Pássaro sem cor!!! Hei!! Hei!!!
 — Você está colorido!!! Posso ver suas cores.
 — São muitas cores. São lindas!!! Lindas !!!!

Ao se sentir feliz com a cura do amigo,  ficou totalmente colorido.

Agora não precisava mais se esconder, estava curado da dor da perda.

Voaram e voaram felizes, cortando o céu, fazendo zig-zag no vento e sentido o arzinho gelado do amanhecer. 

Real xícara de chá - José Vicente J. de Camargo



Real xícara de chá
José Vicente J. de Camargo

Estava ela soberana na vitrine de um famoso antiquário londrino com uma tarjeta informando ser da dinastia Ming, e que já pertencera ao Duque e Duquesa de Windsor. Após o falecimento do casal, a peça foi leiloada junto com outros pertences em disputados lances de alto valor.

Toda em fina porcelana chinesa tipo “casca de ovo” pintada a mão em delicados filigranas de ouro, retratando um jardim chinês com rouxinóis e borboletas dançantes.

Quantos lábios já não devem ter tocado sua borda sorvendo o chá quente extraído de ervas aromáticas vindas da China, Índia, Ceilão? E esses lábios seriam carnudos, sensuais? Ou juvenis de cor carmim vivo? Ou quiçá senis e doentes? Estariam eles falando numa reunião formal ou familiar? Ou num diálogo amoroso? Talvez numa reunião de ódio e vingança? 

— Sim, Incrível! Como um objeto pode ser o ponto de partida para tantos devaneios e conjecturas podendo até se transformarem  contos, romances e poesias...

Entrona loja e pergunto ao vendedor a origem da xícara e se pertence a um jogo de chá ou se tem um par faltante...

 Surpreso pelo meu interesse, já descartando a possibilidade de uma venda dado que minha aparência é muito mais de curioso do que de colecionador, responde:

— Triste história! Era um par de xícaras, presente do embaixador chinês ao Duque, quando este ainda era rei de Inglaterra antes da sua abdicação ao trono por amor a americana plebeia.

Liberto das obrigações reais, ele se casa com seu amor que vira Duquesa e levam consigo, ao exílio, o par de xícaras que a Duquesa, de imediato, adotou como seu utensílio favorito, por ser nelas que ambos tomaram seu primeiro chá na nova vida conjugal.

 A partir de então, dizem os amigos mais íntimos do casal, eles faziam questão de só tomar o chá nessas xícaras e, quando em viagem,  levavam-nas  num estojo apropriado. Talvez uma forma de renovar,  em cada gole, as juras de amor eterno um dia trocadas...

E assim viveram felizes, um para o outro, já que não tiveram filhos, por mais de cinquenta anos...Até que a morte natural chegou para o Duque, e a Duquesa, levada por sua paixão por ele, enterra sua xícara, como  se parte dela fosse, junto ao Duque.

Nos anos seguintes de solidão, a Duquesa continua com o ritual de tomar seu chá na xícara do Duque, como se em cada gole, trouxesse parte dele para si.

Quando ela falece, e não deixando nenhuma vontade por escrito, a xícara restou para contar a história...

— Sim, realmente uma história muito bonita! Obrigado por contar-me...

Deixo a loja com um olhar de despedida na xícara solitária que parecia implorar que alguém a levasse para voltar aos tempos gloriosos da nobreza, ou pelo menos ter de volta seu objetivo de proporcionar prazer aos apreciadores da reconfortante bebida de infusão de ervas.

Esta imagem  desperta em mim uma grande vontade de saborear uma xícara de chá inglês de limão com gengibre acompanhado de biscoitos amanteigados, ou melhor, quebrando o jejum, de um bom pedaço de apple-pie.

— Ah, lógico! Numa xícara de porcelana chinesa...

AS FIGUEIRAS DO CLUBE - Oswaldo Romano



AS FIGUEIRAS DO CLUBE
Oswaldo Romano               
                                                              
Tínhamos uma sensação de frescor quando depois de estacionar o carro, abrigávamos na sombra dos galhos que avançavam sobre o passeio externo do Clube. Eram das frondosas figueiras vintenárias, que além da proteção nos oferecia leve cheiro das suas folhas, fazendo-nos diminuir os passos para senti-las.

Acertaram quando há muitos anos, carinhosamente ali foram plantadas para a formação do nosso verde. Na manhã daquele plantio, sob salva de palmas, dobrados da banda e foguetes, destacado associado às batizavam, acreditando  no sucesso, e no verde do AP. Acompanhou seu crescimento, de um pequeno caule viu seu tronco aumentar e ser protegido por cipós que o abraçavam, e as famosas bengalas dando-lhe apoio.

Exalando clorofila, demonstravam sua utilidade ao nosso meio ambiente. Lindas raízes esparramadas como cobras na superfície garantiam a umidade, absorvendo as primeiras chuvas.

Quando pequeninas, plantadas e batizadas, seu padrinho já apresentava fios brancos nas têmporas. Chegou a vê-las grandes, viçosas, impondo ao longo seus galhos que ofereciam protetora sombra em toda sua volta.

Antes de deixar nosso mundo, o padrinho orgulhava-se e agradecia a Deus o sucesso do seu plantio.

Felizmente digo, não viu o que eu vi. Certa manhã, quando eu chegava ao Clube para as costumeiras partidas de tênis, levei um susto!!  Algum infeliz inocente, ignorando valores, vendo as raízes como cobras, e as refulgentes Figueiras sustentando-se nas bengalas, o incomodou. Mandou cortá-las!

Em seu lugar, construíram um enorme buraco revestido de cimento. Os jovens da cidade, com seus barulhentos carrinhos de ferro, abafados com estridulosas músicas,  ficam raspando-o no seu arrebatado sobe e desce. São inocentes. Nasceram numa floresta de concreto. Querem desconhecer o que é aspirar o perfume das flores, sentir no ar a envolvente clorofila, a fotossíntese da nossa vida.

Um clube, não precisa ser uma selva de pedras. Têm na prioridade os esportes, mas sem os jardins, fica desprovido de vida, seco e triste.  Não podem faltar os espaços floridos onde os idosos, antigos jovens  que  os idealizaram, devem andar ao acaso, admirando a natureza, a que mais se aproxima de Deus.



“OLHANDO SEU JARDIM, SEI QUEM É VOCÊ”

Férias Escolares de Verão no Clube - José Vicente J. de Camargo



Férias Escolares de Verão no Clube
José Vicente J. de Camargo


Inicio de dezembro, verão chegando, férias começando,
Juventude no clube!

Reunidos em grupos, desfilam alegres, indo e vindo, subindo e descendo, mostrando sorrisos de brancos dentes...

Olhares vivos vasculham o ambiente a procura de algo, que só a eles, em segredo, confidenciam.

Meninos com bolas esticam os membros, exercitam os músculos mirando os alvos. Nos chutes mais fortes, nos saltos mais longos, a força precoce da disputa vencer...

Meninas em multicores dedilham, ávidas, seus celulares, olhando, nos vidros estampadas, as silhuetas em formação. Não escondem nos rostos a vontade incontida de ser moça amanhã...

Os gracejos, cochichos e trejeitos alegres estampam nas aparências sadias pilares de força, educação e conhecimento necessários para vencer os desafios que a vida trará...

Os raios fortes do sol a pino obrigam os cansados olhos do observador a se curvarem e o ar abafante o desafia a um banho de piscina, emergindo na borda oposta a visão do moleque sapeca que um dia ele foi e que o tempo levou...


O SÓTÃO - M.Luiza de C.Malina

 

O SÓTÃO
M.Luiza de C.Malina

O sótão, sim o sótão.

O sótão sempre foi um lugar muito especial. O sótão, que a geração de apartamentos pouco conhece. O sótão é o espaço de uma casa que fica escondido, próximo ao telhado, baixo o suficiente, que é usado como depósito.
O sótão e suas surpresas. Sótão sem caixas, ou os famosos baús, não é sótão.
Foi assim que encontrei as cartas de vovô Eurico. Estavam guardadas no sótão. Eu as abri com o cuidado de quem está prestes a desvendar segredos bem guardados.

Eu as abri com cuidado. Papel amarelado e ressecado, datadas de 1856. Ao final da leitura, ao depara-me com a carta junto ao peito, o coração pesando feito chumbo, refleti sobre a noção do tempo esfarelado entre  toda a geração familiar que havia se iniciado com a promessa de um país do futuro, trazendo em sua bagagem apenas os dois baús  Com grande exaustão física de verdadeiros desbravadores com uma enxada, foice, determinação e um quinhão de terra a ser paga pelo próprio trabalho, onde nada era recebido gratuitamente.

Valorizo a imensa fortuna formada, e desprezo a quem o tenha chamado de latifundiário. A leva de imigrantes que não desistiram era formada de homens fortes.

“Estimado Pai, Amada Mãe!

Hoje a monotonia do dia levou-me a casa do Dr. Athur. Ele já me esperava na porta. Entrei e já fui para o escritório, fica na primeira sala da casa. Olhei para a escrivaninha encontrei a remessa postal com meu nome. A alegria transformou-se em lágrimas de saudades, pois há 10 meses não recebia notícias.  Soube que a tarifa é convidativa para enviar correspondência no próximo navio.

Tenho trabalhado muito, arranjei um operário para me ajudar. Fiquei um pouco doente. Ainda não me aclimatizei, mas estou feliz. A comida é muito cara, quase não como carne. Planto milho, batatas e feijão.  A Cana de açúcar deu-me preocupação, mas agora já entendi as coisas. Uma trovoada molha a terra diariamente. É só preciso saber melhor os meses para cada plantação.

Já tenho três alqueires de roça, estou desmatando mais um. A madeira é usada para fazer as casas e quando é, um tipo diferente que esqueci o nome, fazemos canoa. Houve um grande temporal. Era de dar medo. Com a enchente perdi uma canoa. Foi um bom prejuízo, mas vou recuperar com a colheita de 40 sacos de feijão e uns 60 sacos de batata.

O Dr. Arthur Hanke é pessoa boa e séria. Não é mentiroso, se não é bom trabalhador ele manda embora. Não gosta que venham pessoas que bebem ou que não gostam de trabalhar na terra. Quem trabalha consegue comprar um pedaço de terra.

Aconselho que não estimule muito Peter a vir com Guisela, porque depois se ficar descontente, pode me culpar e me trazer aborrecimentos. Já enviei a vocês as condições de trabalho aqui.

Agradeço o dinheiro que o senhor me emprestou, foi de grande valia. Logo posso começar a lhe devolver. Resolvi usar para comprar mais um pedaço de terra, pois soube que estão chegando mais 23 famílias no próximo navio e a terra vai aumentar o preço.


Termino aqui. Ano da graça de Deus de 1856. Seu filho Erwin, que agradece por ter concordado com esta minha partida para um futuro melhor. Que Deus os protejam!”

MEU NOME É BONZÓ-PASSO PELO ANO 2050 - Oswaldo Romano


MEU NOME É BONZÓ-PASSO PELO ANO 2050
Oswaldo Romano       
                                                                      
        — Meu nome é Bonzó. Não tenho idade. Passo pelo ano 2050.
        Acompanhei vocês nos últimos anos. Guerra de 1914, guerra de 1939. Guerras regionais. Tudo por nada, digo por quê: Todos vocês, seres vivos, de corações bombeando o sangue que os alimenta, morreram ou vão morrer antes de aqui chegar. É certeza o que vos digo!

        — Ora, ora Bonzó. Pare com esse agouro. Estamos no ano 2014, e aqui construímos o futuro.

Pelo ar mandamos aviões que transportam centenas de pessoas. Um deles leva 500! Pelo ar, mandamos todas as imagens conhecidas e em cores, todos os sons desde um tique taque de relógio.

Hospitais salvam vidas, concertamos ou trocamos corações. Produzimos alimentos que sustentam nosso povo.

Agora vem você ai, com esse horrível nome de Bonzó, botar minhoca em nossas cabeças?

        — Oi, pare, pare por ai, acredite em mim, disse Bonzó. Vocês são cegos. Tudo que vocês tinham, estão destruindo. Hoje vocês são uma espécie em extinção. São movidos por marqueteiros, e suas crias são os políticos inebriantes, corruptos.

Aqui só chegarão os honestos. Passarão por uma severa triagem. Serão reciclados. Os filtros são peneiras de nano milímetros. Com a transformação, ficarão como estou.

        — Mas como, como você está?

        — Somos alimentados pelo vento. Não temos gordura nem sangue. Não temos coração. Não conversamos. Nada de metrô, ônibus, seus barulhentos aviões, carros.

        — Sim, mas como?

        — Você pensa aonde quer ir. Basta um vai. É online. Não temos relógio. Quer saber a hora? — Pense. Quem você chamar, aparece na sua frente. E claro, inicia-se uma silenciosa conversa. Tenho que admitir: Nesse caso estamos um pouco atrasados, não conversamos a distância.

        — Escute aqui Bonzó. Em tão pouco tempo, não pode haver tamanha alteração?

        — Você que acha. Trinta e cinco anos para vocês é muito tempo. Deus fez o mundo em sete dias! A terra vai simplesmente secar. Vocês se acham tão sabidos e não perceberam  isso. Vejam os planetas que giram ao redor do sol no mesmo ritmo da Terra: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno. São todos secos. Secos sim senhor! A Terra será a última, caminha para seu fim.

        Será que você vai passar pelo filtro? Eu já estou aqui.

Meu Velho Tio Me Jurou Ser Um Netuniano.


2050. A era do desespero. - Fernando Braga



2050. A era do desespero.
Fernando Braga

Estamos começando o ano de 2050, metade do século XXI. Nasci em 1985, tenho hoje 65. A sobrevida média do homem, que era de 80 anos em 2020, passou para 130,140.

Quero neste momento, fazer um relato da vida do ser humano em nosso planeta, da vida nas grandes cidades, uma vez que os antigos campos verdejantes, os campos com plantações de cereais, os campos com criações de bovinos, caprinos, das matas e florestas com sua fauna e flora, tornaram-se tão raras, que podemos dizer não existirem mais. Lembro-me do meu tempo de criança, adolescência, de adulto jovem, quando tudo era bonito em nosso planeta, cheio de vida, alegria, harmonia, musica, amor, tudo realmente, muito bom.

Tudo começou no início deste século, com o enorme progresso em todos os setores humanos. A medicina deu um pulo extraordinário após 2025, com o advento da Ressonância Magnética com 20 Teslas, o uso do estudo dos genomas, compulsório a todos os indivíduos, o regime balanceado, o uso de medicamentos melhores no combate às infecções e principalmente a descoberta de fatores que passaram a agir eficazmente sobre a chamada apoptose, ou morte celular programada  de nossos tecidos mais importantes(cérebro, fígado, rins, coração e outros)que proporcionou aos homens, desde a década de 2030,  viver tão bem mais. O combate à arteriosclerose, através de medicações e dietas alimentares compulsórias, a prevenção de doenças congênitas e do aparecimento de tumores corporais malignos e benignos, pelo controle genético através do estudo perfeito dos genomas, o melhor conhecimento das doenças psiquiátricas com suas lesões cerebrais, enfim o progresso em todos os setores médicos. As cirurgias ficaram restritas unicamente ao tratamento de traumas, cada vez mais frequentes devido ao grande aumento da criminalidade, agressividade, roubos, nas cidades de qualquer país do mundo.

Toda desgraça em nosso planeta, começou com a guerra nuclear de agosto de 2031, entre Israel e o Estado Islâmico, estado este que passou a dominar todos os estados árabes, incluindo a Turquia e o Afeganistão. Bombas nucleares caíram no Oriente médio, em países da Europa, da Ásia  e mesmo da América do Norte, subtraindo a metade da população terrestre, transformando em imprópria a  atmosfera em  todos os continentes, grande aumento da camada de ozônio, degelo nos polos, contaminação de rios, lagos e dos próprios oceanos, com desaparecimento quase completo das  matas e florestas. O degelo nos polos produziu um grande aumento do nível dos oceanos, com tsunamis e desaparecimento da maior parte das cidades litorâneas. O Rio de Janeiro, foi inundado, permanecendo apenas os bairros altos, as favelas nos morros. Os rios até 2025 eram limpos, águas claras, cheios de peixes, mas uma água escura, quase preta, tomou conta, com desaparecimento da fauna aquática. O mesmo quanto aos mares e oceanos, que ainda sofreram mais, com a precipitação de partículas radioativas vindas da atmosfera.

 Pelas notícias, a vida em países da Europa, da América, da Ásia encontra-se em estado deplorável, um pouco melhor no continente sul-americano, e no Brasil. Em nosso país, a vida rural praticamente desapareceu, uma vez que os campos transformaram-se em desertos pela grande ausência das chuvas, morte da vegetação e contaminação do ar. As colheitas existem somente em determinados pontos, que foram preservados, e que estão agora, isolados por cercas eletrificadas e fortemente protegidos pela guarda nacional.

Vivo como sempre vivi, em São Paulo, uma capital que até 2030 tinha 18 milhões de habitantes e hoje não passa de cinco. Apesar dos progressos da medicina relatados acima, 13 milhões desapareceram devido à fome, doenças contagiosas, que não puderam se beneficiar com tratamento. A cidade hoje, é dividida em dois grandes grupos: os mais abastados, afortunados, ricos, vivendo em verdadeiras fortalezas, em áreas especiais da cidade, a maior parte na zona sul e oeste e os miseráveis, cerca de 3,5 milhões, vivendo precariamente nas ruas do centro da cidade e em bairros que tornaram-se extremamente pobres, perambulando pelas ruas, morando em casas e prédios abandonados, sem elevadores, sujos, convivendo com ratos, gatos e cães famintos. A sujeira faz parte do cenário, lixo revirado pelos cães, falta d água e de comida. Não existe emprego. Diariamente, carros fortificados, blindados, da prefeitura, com guardas fortemente armados percorrem estes bairros pobres para distribuir água e uma alimentação, constituída por bolinhos, que segundo o governo, são ricos em proteínas sintéticas e muito nutritivas. A briga é grande para adquirir alguns destes bolinhos! A criminalidade neste meio tornou-se tão comum, que a polícia não mais dá atendimento. Todos os dias caminhões mortuários percorrem as ruas para colher os cadáveres, muito deles já putrefatos, para serem queimados. Uma estranha neblina ocupa a cidade e o sol, raramente é visto. Mesmo sem sol, o calor é estafante e o cheiro é nauseabundo. O progresso da medicina, realmente, não atingiu a esta classe pobre e a grande maioria continua morrendo em idade jovem, em crimes e ainda, quando é seu desejo de se submeter à eutanásia, que se tornou moda. Existem grandes casas que aceitam os pretensos suicidas, os que desejam desaparecer desta vida, por não terem mais objetivos, nenhum prazer em continuar a lutar. Na realidade, o desejo do governo é que eles desapareçam da face da terra, pois não cooperam com nada, só trazem problemas e confusões. Algumas estatísticas falam que devem desaparecer em uns 10, no máximo, 15 anos.

Faço parte do outro grupo, daqueles que tem seu apartamento, pequeno, mas limpo onde vivo com minha mulher e filho de 35 anos. Estamos cercados por uma grande muralha, guardas por todos os cantos, o que nos dá garantia e graças a meu trabalho mal remunerado, consigo manter minha família e alimenta-la. Podemos tomar banho uma vez por semana e alimentar-nos uma vez por dia. A base alimentícia é regida principalmente por produtos sintéticos e bolinhos de proteínas, bem melhores do que os fornecidos gratuitamente aos pobres. Ocasionalmente podemos adquirir algumas verduras, um pedaço de carne, leite, que veem das chamadas fazendas governamentais. Todos são obrigados a usar um chip debaixo da pele, através do qual podemos ser controlados pelo governo, que monitora assim a nossa posição e nossos atos diários. Atualmente existe apenas um partido, o PT ou Partido Totalitário, representado por um raio dentro de uma pequena bola roxa e a polícia é contundente. Não existe mais eleições.

 Entre nós, existe uma convivência comunitária, algumas reuniões festivas onde algum vinho pode ser consumido, em pequenas quantidades e todos se sentem relativamente bem.

 Não existe nenhuma perspectiva de melhora, por enquanto. Minha mulher sempre me pergunta:

— Porque não vamos para o interior, para São Jose do Rio Preto, onde tínhamos um belo sítio, com 5 lagos cheios de peixe, vaquinhas no pasto, centenas de passarinhos na arvores, manga, jabuticaba, jaca, laranja, abacate!

— Porque esta cidade está em enorme decadência, está com apenas 10000 habitantes, todos famintos, sem comida, sem água e campos, que se modificaram em um deserto.

— Como você sabe disto?

— Conhece o Alfredo? ele veio de lá e conseguiu um apartamento aqui perto, com muito custo, investindo quase toda a sua fortuna, que não era pequena, comprando caro a autorização para penetrar em nossa área e para tomar posse de sua moradia. Converse com ele e veja se quer voltar para lá.

— Mulher, o melhor é ficarmos por aqui mesmo e bem quietinhos, senão a polícia do PT vai nos  pegar.

— Marido, me explica uma coisa. Qual a vantagem de vivermos tanto tempo? O bom mesmo era morrer com 80 anos como nossos pais, não é? O que adianta esta longevidade, se não vamos ter, dentro em pouco, condições de sobrevida. Nosso planeta está ficando igual a Marte! O bom mesmo era ouvir o canto dos pássaros, ouvir o som dos regatos de água límpida, passando pelos seixos, tomar banho de mar, cavalgar pelas colinas, as cachoeiras, enfim, pequenas coisas essenciais à vida.

— Mulher, a esperança é a última que morre! A descoberta já anunciada, de um planeta, como o nosso, cheio de água, oxigênio puro, sol, chuva e que está a apenas a trinta anos luz daqui é a grande chance de um dia podermos conseguir uma vaga nas astronaves, para irmos para lá e não se esqueça da grande vantagem, que viajando à velocidade da luz, não envelhecemos, o tempo praticamente para, deixa de existir. Vamos esperar para ver!