A RELÍQUIA - M.luiza de C.Malina



A RELÍQUIA          
M.luiza de C.Malina

Brenda, conhecida como Dra. Brenda. Enfermeira de padrão dedica sua vida ao trabalho. Ostenta sua beleza nos já adiantados 50 anos com a mesma simplicidade de quem inicia uma nova história a cada dia.

Acostumada à eficácia e modernidade dos instrumentos cirúrgicos, Brenda esconde seu lado nostálgico. Um gaveteiro de veludo negro expõe as poucas joias herdadas.

Ao abri-lo, seus dedos acariciam os dois curiosos relógios, que pertencera a sua mãe. Não a conhecera, falecera alguns meses após seu nascimento. A jovem avó a acompanhara por toda uma vida com os pequenos fragmentos enfeitando uma imagem conhecida apenas por fotografias.

Brenda, saudosa, entrega-se na tentativa única, em tê-la junto a si.  Sente-a frágil como a pequena peça. A medida do pulso nada mais é do que 14 centímetros. Tenta colocá-los em vão, em diversos momentos de saudades a fim de captar o registro da passagem do tempo entre os vendavais. Observa-os de maneira diferente.

 Mais do que uma joia que representa o símbolo de uma aristocracia, para Brenda é mais do que isto. No pulso, eles sentiram o pulsar do coração de sua mãe. Imagina-a numa tarde sol com vestido esvoaçante, passeando de mãos dadas com o marido ostentando o relógio com duas abelhas douradas de olhos de rubi e o corpo em pérolas, reluzindo o ouro com o movimento de seu braço. O que conversariam! Talvez planejassem o futuro de sua filha... O que conversariam num passeio a dois...

Devolve-o ao gaveteiro  apanhando o outro, de prata. Pesado. Com dois dragões como a guardá-la. Entre safiras, rubis e esmeraldas, conta e reconta as pedras, são em número de 28. Sobressalta-se com um pensamento. Será?
Corre ao encontro da avó, com o relógio na mão.

- Vovó!  Quantos anos a mamãe tinha mesmo quando faleceu?

- Vinte e oito anos, minha querida! Por que isso agora? Responde a avó surpresa.

- Nada Vovó, e você se lembra a que horas aconteceu?

- Sim minha querida. Eram 15:30 horas. Ela usava este relógio que você tem nas mãos. Estávamos todos juntos, ela tinha você nos braços. Havia te amamentado há alguns minutos. Fixou o olhar. Sorriu–me e disse:
- Pegue-a Mamãe, ela é sua.

Ao reclinar-me para te apanhar, percebi um longo suspiro. Logo entendi. Deixei-os a sós. Seu pai atento, do outro lado da cabeceira, chorava em silêncio. Assim ficou até que médico chegou para levá-la. Foi um momento difícil para ele. Retirou-lhe a corrente, a aliança e o relógio. Neste momento constatou que eram 15:30 horas. O relógio havia  travado momento de seu último respiro.  

Passados alguns meses, seu pai faleceu, como você soube, num desastre de avião. Nunca havia contado a você o detalhe da morte de sua mãe, e do relógio.

Deixei que sua mãe e você, juntas escolhessem o momento. Observava os dias em que você remexia o gaveteiro.  Sofria pensando “será que é hoje o dia que deverei contar?” e mais um dia, meses, e anos se passaram.

Brenda senta-se no colo da avó. O abraço não é solitário. São quatro pessoas a se reencontrarem no íntimo balanço da cadeira. O doce choro é de saudade e agradecimento. O momento é forte.



UM TREM MUITO ESPECIAL! - Carlos Cedano


UM TREM MUITO ESPECIAL!
Carlos Cedano

Mrs. Laura Keynes e Mrs. Mary, companheiras de muitas aventuras, estavam muito felizes nesta viagem costa a costa nos Estados Unidos. Trem muito luxuoso, serviço excelente e de extremo conforto, justificavam amplamente o preço pago, mesmo na segunda classe onde estas características se mantinham em elevado padrão. Seriam seis semanas de muitas expectativas.

— Sabe, Mary -disse Mrs. Laura - Esta viagem tem algo diferente, nunca estive numa que em apenas cinco dias os passageiros tivessem um entrosamento tão espontâneo, parecem amizades de muito tempo!

— Eu também percebi isso, e acho muito bonito. Respondeu Mrs. Mary.

Continuaram caminhando ao longo do trem, então Laura  - acenando  discretamente para um senhor que parecia ser o avô de um menino sentado a seu lado – disse:

— Ele está sempre com o rosto triste e parece carregar uma amargura profunda.

—  Você sempre me surpreende Laura Keynes, como conseguiu chegar a essa conclusão? - Perguntou Mary.

—  Eu mesmo não sei,  talvez intuição. -  foi a resposta de Laura.

A viagem era cheia de surpresas com uma nova cada dia. Nesse dia teria lugar um concerto de Rock com uma pequena banda formada por quatro jovens que se conheceram no trem. Foi um sucesso!

Outra noite foi a vez de um concertista de violão clássico, um francês  foi “descoberto” por uma moça que se interessou por ele,  e que quando soube de sua profissão, espalhou a noticia e a pressão foi imediata. O jovem aceitou,  e o comentário geral era que se tratava de um “virtuosi”.

Cada apresentação consolidava a integração do grupo, as pessoas vivenciavam sentimentos inéditos, e os sorrisos de felicidade  afloravam facilitando novas relações de amizades.

Num jantar Laura e Mary tiveram a companhia de Selma, jovem senhora recentemente divorciada. Ela não lamentava a separação, tinha sido necessária – dizia - porém não conseguia evitar o sentimento de culpa que a invadia.

Durante a conversa, Selma confessou que tinha conhecido na viagem um senhor alegre, divertido, e muito atencioso. Porém, alguma coisa dentro dela travava sua espontaneidade. As amigas se entreolharam, e Laura disse:

— Pelo que falou até agora Selma, sua vida foi um processo continuo de repressão de  sentimentos. Parece que esta faltando um pouco de loucura na sua vida!

— Eu também acho! Disse Mary.

As três riram, e como já era tarde foram dormir.

Os dias passavam sempre com alguma novidade que podia ser desde uma atividade artística de alguém ou grupo de passageiros, até torneios de bridge, xadrez, canastra entre outros. Não faltaram palestras oferecidas pelos próprios passageiros.

Um encontro agradável para as duas amigas foi com o grupo de teatro que discutia o tema da  peça que apresentariam aos passageiros. Ainda não existia consenso, mas um casal de jovens propunha apresentar a famosa cena do balcão de Romeu e Julieta. Deixaram a reunião no momento que se iniciava a votação do grupo.
  
No dia seguinte no café da manhã, elas tiveram uma surpresa: aquele avô de rosto sempre triste não existia mais, tomava seu lugar um sorriso amplo, alegre e descontraído, algo ou alguém era responsável por isso! Nesse momento chegou Selma e sentou-se com elas perguntando:

— O que vocês estão comentando?

— Olhe o senhor que está com o menino. Ele está totalmente mudado,  parece estar feliz! – espantou-se Mary.

— Graças a Deus - disse Selma – ele é viúvo e um ano atrás perdeu seu filho e a nora num acidente de aviação. Seu neto é agora quem dá sentido a sua vida.

Em quanto falavam apareceu uma senhora dona de uma postura elegante e trazendo da mão uma linda menina. O neto do viúvo correu e abraçou a menina com muito carinho e alegria. A dama disse:

— Bom dia Mark, descansou bem? Perguntou com um sorriso ligeiramente insinuante.

— Muito bem Anastácia! Sonhar com uma mulher como você é como reencontrar o lado bonito da vida!

Riram e continuaram conversando enquanto as agora três amigas observavam e comentavam:

— Que acham vocês? Perguntou Laura.

—Parece promissor! Respondeu Mary.

—Muito promissor e com final bem feliz! Confirmou Selma.

Uma semana antes de acabar a viagem foi anunciada a apresentação dos  jovens de teatro. Seria sobre a cena clássica do balcão de Romeu e Julieta.

No dia do evento Laura e Mary chegaram cedo e ocuparam dois lugares perto do palco improvisado com um beliche decorado com originalidade e bom gosto. Começou o espetáculo no meio de um silencio beirando o absoluto. Aos poucos foram emergindo as emoções acompanhadas de lagrimas e soluços contidos.

Na sua fala final Julieta disse:

                        Oh! Romeu, Romeu, por que razão és tu Romeu?
                        Quem és tu que, encoberto pela noite, vens descobrir meu segredo?
                        Meu receio é que sendo noite, isto não passe de um sono. (1)

Esse final liberou uma explosão de aplausos, choros e alegria, os meninos não representaram, foram mesmo Romeu e Julieta.

Na véspera da chegada e arrumando as malas as amigas conversavam:

— Então Selma decidiu assumir seu pretendente! Falou Laura.

— Sim, e me pareceu muito feliz quando me apresentou Bernard, o engenheiro que trabalha para o Governo - respondeu Mary – E parece que ira visitá-lo em Kansas.

Caminhando ao longo do trem as duas amigas aproveitaram para os últimos contatos com as novas amizades estabelecidas. Encontraram o casal que interpretou Romeu e Julieta e o parabenizaram, os meninos de mãos dadas, estavam radiantes e felizes e longe deste mundo.

O fim da viagem causou nas amigas um pouco de tristeza, tinham vivido uma aventura tendo a sensação de que o trem era especial e a viagem infinita:

— O que é bom acaba né Laura? Comentou Mary.

— É verdade, porém nossa amizade nos ajudará a manter vivas as lembranças que foram tão fortes e especiais. Conto com você Mary?

— Com certeza minha querida amiga.


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(1)   Inspirado nos diálogos do filme “SHAKSPEARE APAXIONADO”         

O mistério de Aschely - Acacia Lima



O mistério de Aschely
 Acacia Lima

Naquele dia nublado Aschely empatava o tempo. Estava com raiva, tinha travado uma briga com sua irmã mais velha.

Entrou rapidamente em seu quarto e bateu a porta. Fez um estrondo que estremeceu a parede. Queria sumir. Entrou no armário e sentou bem no fundo. Lá no meio das roupas, sapatos e bugigangas, sentia-se seguro.

A escuridão e o silêncio acalmavam o garoto.

De repente começou a prestar atenção no barulho da casa. Aquele barulho ficava cada vez mais distante. E percebeu que estava sozinho. E depois,  já não havia som para ser ouvido.

Passou a respirar devagar imaginando alguém em seu quarto. Sua imaginação brincava com ele.

Ouviu a porta do quarto abrir.

Já não mais respirava.

Atento, pode ouvir uma doce voz.

E, resolveu espiar por uma frestinha da porta do armário.

Ora, mas aquele não era seu quarto! Tudo estava tão diferente!

Havia uma menina de tranças conversando com a imagem refletida no espelho.

Então, surpreso, o menino resolveu olhar melhor, e perguntou:

O que você faz em meu quarto?

A menina se espantou, e desapareceu.

De repente tudo mudou. Era novamente o seu quarto.

Dois dias depois, ainda não tinha esquecido a menina, e o mistério de seu quarto.

Estava curioso.

Resolveu entrar no armário de novo. Ia esperar que ela aparecesse.   

Passado algum tempo, sua atenção foi despertada para o ruído  no quarto.

 Sentiu de novo  dificuldade de respirar.

E, curioso, olhou pela frestinha da porta.

Lá estava ela!

A menina se olhava atentamente no espelho e arrumava as tranças loiras.


O garoto examinou o quarto e viu que não era o seu. Tinha longas cortinas cor de rosa com babados.

Ele não se conteve, e perguntou:

— Quem é você? – abrindo a porta do armário.

Olhando  curiosamente para Aschely, ela respondeu:

 — Eu sou a Sam.

Ele se apresentou:

— Eu sou Aschely. E o que você faz aqui?

— Eu moro aqui,  sempre morei aqui!

— Ah, então você é um fantasma!?     

— Fantasma? Como assim?

Foi quando o menino ouviu alguém lhe chamando.

Era sua mãe.

Não queria que ela descobrisse o segredo de seu quarto.

Então, ele voltou correndo para o armário.

E, ainda pode ouvir a menina gritar:

— Volte logo para conversarmos...

       


Viagem Fantástica Maria - Amélia Bragatto Favale

Viagem Fantástica
Maria Amélia Bragatto Favale


Ana,   era uma menina travessa, tentou subir no armário da cozinha para pegar uma lata de biscoitos.

Assim que ela a alcançou, a lata virou e os biscoitos  se espalharam pelo  chão.

Com medo que a mãe visse a arte, saiu correndo para o quarto,  entrou no guarda roupa, e fechou a porta.

O armário ficou escuro, aconchegante, parecia estar segura ali, e pensou:

Ninguém vai me encontrar aqui dentro!

Depois de algum tempo acabou dormindo, e sonhou que estava dentro de uma casinha feita de bolachas. Avistou uma linda fada que lhe oferecia biscoitos que eram tirados de dentro de uma lata. Ana estava maravilhada! Ela aceitou um biscoito, e comeu. O sabor era excelente.

Logo depois ouviu uma voz que lhe chamava com insistência:

— Ana! Ana!

Reconheceu a voz de sua mãe:

E agora?

Ficou deitada e fingiu que dormia.

Sua mãe abriu a porta do armário e viu a filhinha que dormia languidamente.

Pegou a menina no colo e para surpresa de Ana, a mãe lhe deu beijos.

A menina abriu os olhos, abraçou a mãe, e quase chorando, murmurou:

— Você me perdoa?


E tudo parecia bom de novo...

Neco, o burrico falante - Acacia Lima


Neco, o burrico falante
Acacia Lima

Numa floresta bem distante, vivia um burrico muito tagarela. Todos o chamavam de Neco.

Naquele dia Neco estava sozinho. Não encontrou ninguém para conversar. Andou de um lado para o outro, sem saber o que fazer.

Até que resolveu ir até o lago.

Lá encontrou uma jovem vestida de azul clarinho. Tinha os cabelinhos amarelos encaracolados.  Parecia um anjo.

Ela olhava para o lago, e chorava. Neco se aproximou, e tentando animá-la.

- Não chore!!! Você é tão linda!

Ela olhou para ele, mas parecia que chorava ainda mais.  Neco continuou:

— O que posso fazer para ajudá-la.

—Eu estou muito triste. Não tenho amigos, não tenho ninguém. Meu pai é muito bravo e não me deixa sair de casa. Agora mesmo tive que escapar. Queria ver o lago e passear, sou jovem quero viver.

— Ah! Mas, agora você arrumou um amigo.

—  Ora, você é só um burrico, como pode entender os meus problemas.

—Mesmo um burrico tem seus problemas. Aliás, nem os queira saber. São bem complicados .

— Que problemas “complicados”, pode ter um burrico? Você pode andar livremente, fazer amigos, passear no lago.

— É. Mas, eu também quero viver. Certa vez, encontrei aqui na floresta uma bruxa malvada, que me prendeu aqui. Nunca mais pude sair da floresta. Não posso ver  meus pais, nem meus irmãos. Você não sabe como isso é triste! Você ainda vê seu pai, mesmo ele sendo bravo. Por isso eu converso, para esquecer essa que sou um burrico da floresta.  

— Nossa! Não pensei que um burrico pudesse ter problemas.

Com pena dele, Sam lhe beijou o rosto. Nesse instante uma faísca de luz clareou o lugar. E Neco, imediatamente, se transformou em um galante rapaz loiro, com muitas pintinhas no rosto.

— Ora, você não era um burrico?

— Não, não era. A bruxa malvada me transformou em burrico.

Sam agora já sorria.

Ambos se abraçaram e caminharam lentamente pela floresta.

Agora seriam amigos.

        

Um amigo de verdade - Carina Lima Erbetta


Um amigo de verdade
Carina Lima Erbetta

Era uma vez uma menininha chamada Júlia.

Ela era muito pequena, mas muito sabida.

Ela sabia jogar queimada, futebol, e mais um monte de coisas.

Mas, Júlia um dia percebeu que a única coisa que não sabia fazer era amigos.

Mas, aí ela disse a si mesma:

— Quem é que precisa de amigos, se você pode desenhar um?

Então, Júlia pegou um papel e um lápis e começou a desenhar.

Júlia pensou muito no que desenhar.

Desenhou uma melancia.  Um cachorro. Mas, não gostou.  

Ai pensou muito, e então começou a desenhar um canário.

Esse passarinho era um desenho, e desenhos não se mexem.

Mas, esse canário começou a se mexer.

E a menina tomou um susto!

O canário era um passarinho muito rápido, e mais esperto que a garota.

Ele entrou num buraquinho do armário, e Júlia foi atrás.

Mas, aconteceu uma coisa...

Ela foi tão afoita atrás do passarinho que acabou ficando presa dentro do armário.

Como ela estava presa, começou a chorar.

Ela se sentia sozinha, mesmo o passarinho estando ao seu lado.

Ela achou que ele não era um amigo fiel.

Mas, foi ele quem ficou ao lado dela.

De repente, ele começou a acariciar a cabeça dela.

Ela acabou percebendo que ele era seu primeiro amigo verdadeiro.


"Moral da história: confie na pessoa que sempre te ouve e te ajuda."

HOMEM NÃO CHORA. - Mario Augusto Machado Pinto

 

HOMEM NÃO CHORA.
Mario Augusto Machado Pinto

Ai, Ai, Ai! Está queimando. Ai pai! Dói muito! – choramingava.  

Deixa disso! Homem não chora! - respondia papai.

Ele telefonou sugerindo irmos tomar sorvete na padaria da esquina.
O calor tornava o convite quase irrecusável, mas como eu o conhecia imaginei que estava com algum problema e queria conversar o assunto. Fui.

Foi direto, afobado. Falou bastante tempo sobre fatos de sua vida. Estava desopilando o fígado de maneira franca e aberta, o que para mim era total novidade. Só escutava.

— Você pode imaginar a cena? Eu, nove anos, canela esfolada sangrando, meu pai aplicando percloreto de ferro para estancar o sangue e desinfetar o machucado? O líquido era tão corrosivo que vinha acondicionado em frasco de vidro, tinha como aplicador um bastão, também de vidro. Caindo na roupa a mancha não saia jamais, era perda total.

Cresci com esse e vários outros princípios de “filosofia comportamental”: estuda, diga sempre a verdade, ajuda os outros, estuda, estuda e estuda! Eram certos, mas ouvir já era de raspar a coroinha!

Os colegas diziam que eu era durão, gemia, mas não chorava. Isso, às vezes, me fazia sofrer violência desnecessária, me levava ser verdadeiro saco de pancadas nos jogos de futebol e bola ao cesto; queriam me ver chorar, derramar lagrimas pelo menos. Não dava esse gostinho para ninguém.

Fui levando a vida, chorando escondido na Igreja pedindo afeto, mas sem receber,  e me escondendo pelos cantos. Ficava olhando os colegas sendo abraçados e beijados, morria de inveja. Família e parentes não compareciam para me ver ganhando uma medalha ou um premio qualquer. Modéstia, modéstia! Sofria muito, engolia os sentimentos e não me queixava. Foi assim a minha vida até agora.

Ele falou muito mais, não parava, contorcia-se na cadeira, amassava guardanapos, olhava para os lados, passava as mãos pelos cabelos. Estava descontrolado. Sem saber a finalidade última das lembranças procurei ganhar tempo para que se acalmasse e perguntei o que ele pretendia com esse monologo triste quando devia estar contente, alegre, ia receber o diploma de Doutor em Medicina, classificado em 1º lugar, ganhou bolsa para Ph.D. em Boston. Respondeu: É ai que está o problema. Minha irmã me disse que meu pai vai me dar o anel de Doutor. Mandou fazer especialmente para mim usando a aliança de ouro de quando se casou e eu não sei se vai aparecer e como me comportar, agradecer. Nunca abracei meu pai ou beijei sua face. Como é que faço? É por isso que estou aqui falando com você. Diz alguma coisa, por favor. Minha cabeça está a mil. Ajuda-me! Fala, homem, fala! O que você acha que eu devo fazer e como é que eu faço?

O desespero era verdadeiro. Nunca vi meu amigo assim tão ansioso, sentindo-se tão perdido, tão só, mas ao mesmo tempo tão comovido, quase chorando. Olhava para mim apreensivo pela minha resposta. Demorei um pouco para me recompor, lembrei-me “do homem não chora” e disse:

Bom, acho que você... 


Sorriso Fiado - Vera Lambiasi

Sorriso Fiado
Vera Lambiasi


Teresa era a paixão do verdureiro Vitório.

Japonês risonho, gostava de vender à vista, mas o privilégio do fiado era dado à sua amada, cozinheira dos Araujos, na pacata cidade de Tupã.

Passava logo cedo, com seu carrinho, pela rua Guaianazes, para que Teresa escolhesse as melhores hortaliças.

— Tê! Gritava do portão. — Venha ver o seu Vitório!

Mas Teresa se guardava para o seu noivo Nilson, que trabalhava na fábrica de baterias Heliar.

Para Vitório, ela só mostrava o sorriso torto, na hora de assinar a caderneta.

O japonês insistia para que sua musa largasse Nilson, aquele branquelo de cabelo de tiro de guerra, e abrisse com ele uma quitanda.

— Ficaremos ricos! Eu, plantando, e você cozinhando, para oferecermos pratos prontos.

Por fim, Nilson cansou-se da castidade de Teresa, e foi visto na zona, com outras mulheres.

Vitório, arrumou uma sócia japonesa, pau pra toda obra, e montaram um sushi bar.

E a Teresa, linda morena, mudou para a capital, com a família Araujo, por conta da  transferência de trabalho do patrão e estudos dos filhos.

Um pouquinho antes da partida, Teresa conheceu João bonitão, vindo da importante cidade de Lucélia, que também queria trabalhar em São Paulo.


Foram todos.

Quando a tragédia nos separa - Luisa Helena Rodrigues Alves


Quando a tragédia nos separa
Luisa Helena Rodrigues Alves

Não dá para apagar aquela cena! 
Jenuino não se conforma! 
Mas, como é que pode meu Deus!

Aquela mulher tão bondosa cuidou de seu filho a vida toda. Jenuino chora como nunca tinha chorado. Calejado pela lida dura do campo, as mãos grossas de trabalhar na roça... Ainda não acredito no que vi com meus olhos. O menino rapazinho, sufocando a própria mãe!  Conferiu quando a levantou e ela tombou de novo com o peso do corpo sem forças... O menino assustado apertou o pescoço da mulher errada! É de arrepiar, querendo roubar acabou como assassino. O menino assustado gritava: O que foi que eu fiz? Jenuino trabalhava há muitos anos de ajudante na fazenda, dia  a dia via o esforço daquela mãe para criar o filho sozinha. Jenuino ajudava no que podia: Foi ele quem o ensinou a pescar, a cuidar dos cavalos, a roçar.


Não acredito! Que desgraça! Que fatalidade! Esse menino me apronta uma dessas, agora eu perco  a mulher que de longe eu amava e a família que eu queria ter um dia....Chora mas não se esquece, a policia chega e leva o menino para a delegacia. Como é a vida: que impasse, protege o menino ou o deixa ser castigado severamente? De qualquer jeito ele perde... Perde o amor de sua vida, perde o  menino, perde a fé no ser humano. Sente-se perdido!

A CHALEIRA - Suzana da Cunha Lima




A CHALEIRA
Suzana da Cunha Lima

A empregada da casa morava na favelinha perto do morro.  Mulher bem fornida de carnes, de riso fácil e constante bom humor. Sua conversa saborosa,  refletia sua maneira pitoresca de  viver a vida

Naquela tarde  quente,  o dia se arrastava para a noite, sem brisa e sem cores.  Sufocante como o coração da patroa  que  sentou-se à mesa da copa para tomar um cafezinho. Amargurada e desnorteada, contou para Maria que o  marido não a procurava mais e se mantinha distante e frio.  Os sinais de alerta pipocavam em sua mente.  O que fazer?

Apreciava os comentários de sua empregada, calcados sempre no bom senso e praticidade e que resolvia suas dificuldades de maneira simples, mas eficaz.

—O que eu posso fazer, Maria? Não quero me separar dele, eu ainda o amo.

Maria sentou-se à mesa também, com sua caneca de café ainda fumegante. E orientou-a baseada em sua própria experiência.

— Não há mulher do mundo, rica ou pobre, bonita ou feia que não tenha passado por esta situação, patroa. E segredou à patroa que, quando percebeu que o seu Pedrão estava se bandeando para o lado da periguete da padaria, chamou-o para uma conversinha.

Ao jantar, preparado e servido com a maior meiguice, contou-lhe uma historinha, assim como quem não quer nada.

— Sabe o Zezinho da serralharia, Pedrão?

O homem grunhiu qualquer coisa, mas ela não se deu por achada,  continuou a prosa.

— A mulher dela, a Bel, que trabalha na loja do Sr.Nestor, soube que ele andava pulando a cerca e o encostou na parede.

O Pedrão quieto, mastigando devagar, mas  já com as antenas ligadas na lenga-lenga da Maria.

— Claro que ele negou tudo, mas a Bel é paraibana meio macho, daquelas que não aguentam desaforo.  De noite, na hora de dormir, ela pegou uma chaleira com água fervente e despejou no ouvido dele.  Assim de leve, para assustar, ela não queria matar ele.

Pedrão deu um pulo: Como é isso, mulher? Que coisa mais louca!

— Pois é, veja só – respondeu Maria candidamente – Eu que tenho sempre esta chaleira aqui de noite para fazer o chá, nunca pensei nisso.

Tanto a patroa quanto Maria começaram a rir, diante do absurdo do caso.

— E você teria coragem para fazer o mesmo, Maria?

— Bom, coragem  eu não teria não, patroa, mas isso ele não precisa saber, não é?
Levantou-se e foi para o fogão ultimar o jantar.

— O que eu sei é que quando eu levanto de noite para qualquer coisa, ele já me pergunta para onde estou indo, de olho na chaleira. – disse rindo.

— Acho que a senhora deve dar um susto parecido no patrão também.