SE EU NÃO TIVESSE VINDO PARA O BRASIL - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 



SE EU NÃO TIVESSE VINDO PARA O BRASIL

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Se eu não tivesse vindo para o Brasil como seria minha vida? Outro dia vendo um vídeo sobre a Itália, recebo muitos pelo WhatsApp, parei e tentei imaginar minha vida na minha cidade Jesolo, com todos os parentes por perto, dez tios entre os do pai e mãe, uns trinta primos no mínimo, e todas às vezes que voltei lá, não cheguei a conhecer nunca todos. Minha cidade, por ser centro turístico, com 10 km de praia, só tem trabalho oito meses ao ano. Como pertence à Veneza, talvez fosse lá que eu estaria trabalhando. Teria feito faculdade?

                Não acredito. Dos trinta primos nenhum se formou, só dois são contadores, mas não trabalham nessa área. Com tantos primos eu fico imaginando como a fofoca correria solta, s minha mãe dizia que corria muita fofoca. Todas às vezes que chegava à cidade e ia fazer a primeira visita, já sabiam que eu chegara. A maioria das vezes eu e meu marido alugávamos carro em Roma ou na Suíça, aproveitando trabalho e férias, e conhecíamos outros países e cidades. Sempre fiquei em hotéis, nunca hóspede de parente. Eles se espantavam ao chegarmos de carro e ainda mais sendo carro do ano.

                Uma vez um primo se admirou de ver o nosso carro ser igual ao dele, que foi lançado naquele ano! Outro episódio pitoresco quando fomos de férias com os três filhos ficando quarenta e cinco dias rodando pela Europa, e passamos uma semana na minha cidade. Primeiro o espanto de termos feito de carro tanto países. Fomos visitar uma tia irmã de minha mãe, ela não parava de olhar para os meus filhos e inconformada falou como pode? Eles parecem uns dos nossos. Quase todos não conheciam outros países da Europa, no máximo a Suíça, porque iam trabalhar nas estações de esqui no inverno. Naquela época quase ninguém sabia sobre o Brasil. Graças! Agora não é assim, até a minha cidade se desenvolveu muito.

                Se eu não viesse para o Brasil, provavelmente pela minha aparência estaria trabalhando em alguma loja de souvenir ou talvez recepcionista de hotel, pois a cidade é lotada de hotéis grandes e pequenos e até acampamento para temporada de verão. Casaria cedo, morando com meus pais três gerações na mesma casa, o que lá é considerado normal ter esse conceito de família. Quando penso, o meu pai foi muito esperto em vir para cá, enxergou ser um país do futuro, com mais oportunidade para ele e filhos. Não temos nenhum parente aqui, mas sim fizemos muitos amigos.

                Faço questão de ser chamada de nona pelos meus netos, mas não me considero velha como com certeza eu seria lá, cuidando da casa e netos, jamais teria lançado um livro para estar contando esses episódios da minha vida.

OTIMISMO X PESSIMISMO - Sergio Dalla Vecchia

 






OTIMISMO X PESSIMISMO

Sergio Dalla Vecchia

 

 


Dois antagônicos,

Pensamentos guerreiros,

Incansáveis na rivalidade,

Disputando sorrateiros,

A glória e inglórios de atos,

Utilizando  como rinque

Cérebros carentes confusos,

Na busca da sobrevivência

em tempos opacos de lucidez.

A INSTIGANTE CASA 33 - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

A INSTIGANTE CASA 33

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                        Às tardes na varanda junto com a esposa, ele se enamorava cada vez mais pela casa 33. Aproveitava para pesquisar sobre os moradores idosos. Ficou sabendo que eram imigrantes italianos e muito traumatizados pela segunda guerra mundial. Ela contou que quando chegou ao Brasil e os aviões sobrevoavam no céu ela se escondia debaixo da escada, por ser sobrado era onde se sentia segura.

                        Com a morte dos italianos Edu conseguiu comprar o tão sonhado sobrado. Na reforma,  o imprevisto, um imenso porão com uma entrada secreta aguçou que sua curiosidade. Procurou vestígios de materiais que pudessem ter sido estocados ali, nada encontrou. A curiosidade era tanta, que ele foi ao Consulado Italiano e cartórios para saber mais sobre os dois idosos e a casa. Lá para ser atendido teve que se munir de muita paciência, mas o seu instinto o fez persistir.

                        Conseguiu saber que chegaram ao Brasil já casados em 1949 e que o tal sobrado tinha pertencido a um senhor israelita, que deixou como herança em nome deles. Ele conseguiu saber sobre os herdeiros, tinham um casal de filhos.  Através disso ele entrou em contato com o filho mais velho do casal, pois a compra tinha sido feita com a procuração do corretor, sendo que o casal herdeiros morava na Argentina, por isso puseram à venda o sobrado. Marcelo marcou com Edu videoconferência, no dia marcado Edu estava ansioso para conhecer Marcelo e desvendar o segredo do porão.

                        Edu contou seu encantamento pelo sobrado e de como estava feliz por tê-lo comprado. Marcelo agradeceu e de boa vontade respondeu todas as perguntas de Edu. Soube então que seus pais estavam na segunda guerra na Itália e ajudaram um casal israelita a fugir dos nazistas alemães. Em Veneza existe até hoje um bairro só deles, eles fugiram para a cidadezinha vizinha onde moravam seus pais que os esconderam e conseguiram passagem de navio para o Brasil. Passaram a ser alvos de gratidão, e o casal israelita deixou o sobrado como herança para os italianos.

O porão? A pergunta que não queria calar.

                        Esse porão era usado para esconder refugiados israelitas fugidos da Europa, que ali ficavam até seguirem os seus destinos. Edu então entendeu o seu encanto pelo sobrado 33, seu pai foi um deles.

AVUELA (AVÓ) JOANITA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



AVUELA (AVÓ) JOANITA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Sou de origem de origem espanhola, meus antepassados chegaram aos Estados Unidos da América (USA) em 1.850. Foram para a cidade de Louisiana, ao encontrarem muita dificuldade em aprender a língua inglesa, souberam que no Estado do Texas, por ter pertencido ao México, falava-se espanhol. O Texas tinha sido colonizado pelos espanhóis, só em 1845 foi agregado aos Estados Unidos da América.

                Com as economias conseguiram comprar pequeno rancho. Região árida, deserta, pouca vegetação e muito calor perto da cidade de São Domingos. O cultivo na terra seria quase impossível e partiram para a criação de gado de corte. Tiveram cinco filhos e deram exemplo de determinação e muito trabalho, o meu avô era o mais velho. Bernadino era o nome dele, inteligente e trabalhador conseguiu estudar, mas não pode fazer faculdade tinha que ajudar os pais na fazenda. À medida que os outros irmãos cresciam todos trabalhavam e com determinação e competência conseguiram transformar a propriedade numa grande fazenda de gado, num verdadeiro império na região.

                Naquela época a lei que imperava era a bala de um rifle ou revólver. Vô Bernardino casou-se com Joanita, uma jovem mui linda, como era falada na família, foi amor à primeira vista, logo casaram e tiveram seis filhos. Joanita, além de bonita, tinha personalidade forte, autoritária, ajudava na administração da fazenda com punho de ferro. Andava sempre armada e atirava bem. Na cidade tinha outro grande fazendeiro, um rival de Bernadino, que tudo fazia para dominar toda a região. Os dois por serem os mais ricos, tinham muita influência com o povo. Bernadino já era Alcaide, era como era chamado o Prefeito da cidade, sendo candidato a continuar no cargo, o povo o apoiava na sua totalidade.  Carlito o rival era prepotente não muito seguidor de regras e nem respeitava a leis, vendo que perderia a disputa, e como mau perdedor que era, armou uma emboscada para o meu avô. A emboscado foi certeira, e o matou. Joanita sofreu muito, passou a usar só preto da cabeça aos pés, o meu era ainda pequeno pai na época mas lembra de sua mãe chorando muito no quarto e ele, caçula dos seis,  nada podia fazer Eram quatro mulheres e os menores meninos. 

                Após seis meses Joanita, passou a treinar tiro todos os dias, fazia longas cavalgadas com o alazão e os cachorros, alegando que ia caçar. Realmente sempre trazia uma lebre ou pássaros grandes e entregava para a cozinheira, meu pai dizia que os assados eram deliciosos. Como não tinham provas de ter sido o rival Carlito e o seu bando os armadores da emboscada contra vovô Bernardino, foi considerado como assalto malsucedido, que ao tentar se defender foi morto.  Minha avó não aceitava essa linha de pensamento, ela tinha ela a certeza da emboscada. Nas suas cavalgadas levava consigo tanto o rifle, como também um pequeno revólver na cintura, ambos carregados, fisionomia séria ela ia e voltava com aparência pensativa.

                Certa manhã a cavalgada foi mais demorada, chegou ela na hora do almoço com uma leveza na fisionomia quase sorrindo, almoçou com apetite e depois foi para a varanda, sentou-se na cadeira de balanço olhando para o horizonte, tranqüila. Naquele mesmo dia no final da tarde conta o meu pai, receberam a visita de amigos, como era de costume sempre a casa era aberta para os amigos que às vezes faziam as refeições com a família. Chegaram alvoroçados para contar que Dom Carlito, rival do vovô tinha sido encontrado morto. Ele tinha o costume de pescar no lago nas redondezas e foi alvejado pelas costas com tiros certeiros e não sobreviveu, o seu cavalo preferido havia desaparecido. O xerife deduziu que fora provavelmente assalto.

                Na família tem-se a certeza que nossa vovozinha Joanita vingou-se com perfeição, continuava as suas cavalgadas matinais caçando ou não, até morrer anos depois dormindo em paz.

               

               

               

               

               

       

JEITO DE DIZER - poesias de - JEREMIAS MOREIRA



Jerê


Para homenagear  nossos amigos, que mesmo não frequentando o EscreViver, afinaram com a escrita e prosseguem na lida literária.

Aqui temos algumas poesias criadas por Jeremias Moreira, trabalho que ele vem realizando para dizer aos colegas que ele está na ativa. Além das poesias ele tem um livro de contos que acabou de ser publicado. 


JEITO DE DIZER 

Jeremias Moreira



SOMBRAS E FLORES


UMA SOMBRA ALCANÇOU MINHA VIDA,

NESTES TEMPOS EM QUE O TEMPO CESSOU.

VIVO A PERCORRER

CAMPOS DE FLORES,

SEM PODER TOCÁ-LAS

E ME ASSEMELHO

AO LEITO DE UM RIO SECO,

QUE ANSEIA POR CHUVAS.


NO QUE ACONTECE

NÃO HÁ ACASO.

A ESCURIDÃO,

POR CERTO,

É OBRA MINHA.

QUE DESCONHEÇO

O SEGREDO DA CHUVA

E CAREÇO DE JEITO

AO LIDAR COM FLORES.




AUSÊNCIA NÃO SENTIDA

O rei não veio...

A cidade se preparou toda.

Uma a uma as casinhas se enfeitaram.

A de amarelo, astuciosa, deixou manchas.

Eram manchas alaranjadas, mais escuras,

que faziam as mais claras brilharem mais.

A de azul usou um tom profundo,

tal qual ao do manto da Virgem

do altar da capela.

A capela, com a mistura

das duas tintas, ficou verde.

Era um verde de doer na vista

mas, de alegrar a alma.

E o rei não veio...

Então, eles ficaram com a de lilás,

que parecia jambolão,

quando a molecada esmaga com os pés.

Lilás, se consegue na mistura

do azul com vermelho.

Vermelho usou o casarão da esquina.

Ficou igual aos pagodes da China.

Os batentes ficaram pretos.

E o rei não veio...,

Também, ele só ia passar...

A cadeia, caiada de branco,

acenava para um tácito acordo de paz:

nenhum delito, nenhuma detenção.

A cidade era a rua, e lembrava

as colchas que faz Dona Nena,

que escolhe os retalhos de mais cor.

A alegria das fachadas contagiou a vila

e penetrou noite adentro.

Nos quartos, pintou

a cor do desejo

e nunca as molas das patentes

rangeram tanto.

Na rua, a lua brilhou mais

e a madrugada teve mais serenatas.

E o rei não veio...

Que pena, não sabe o que perdeu!



UM DIA A MENOS

AS RETAS PERFEITAS,

DAS GOTAS DA CHUVA,

DESENHAM NO ESPAÇO,

RISCOS CRISTALINOS.


AS RODAS LIGEIRAS,

COM AGUADO RUÍDO,

DOS CARROS QUE PASSAM,

RESPINGAM

ÁGUA BARRENTA

ACUMULADA NAS POÇAS.


NO PASSEIO,

A LAMA INVADE,

COM EXTREMO CUIDADO,

O TRAÇO APAGADO

DA AMARELINHA.


A BONECA DE PANO,

ESQUECIDA NUM CANTO,

IGNORA O QUE PASSA.

NO MEIO DA RUA,

A BOLA DE MEIA

MEIO ENCHARCADA.


O CONGA RASGADO,

DE MUITA PELADA,

QUE VAI NA ENCHURADA.

SEGUE O BARQUINHO.

DOBRADURA IMPERFEITA,

DA CRIANÇA EM RETIRO,

QUE, COM OLHOS MIÚDOS,

NA JANELA EMBAÇADA,

OBSERVA VEXADA

O DIA PERDIDO!



DRAMA MECÂNICO

POR UMA SIMPLES

ROSCA IMPERFEITA,

O ÓLEO DO CARTE,

VAZOU INTERINHO

E FERROU A BIELA,

DO CARRO VERMELHO.


COM O HUMOR ALTERADO,

A SERETONINA ESCASSA,

A VISTA CANSADA,

QUASE SEM FOCO,

E A RAZÃO AFETADA,

O VELHO ALENCAR

NÃO PERCEBEU,

QUE ERA FERIADO

E FOI TRABALHAR.


DO TERRAÇO VAZIO

A CIDADE LÁ EMBAIXO,

ASSIM A DISTÂNCIA,

PARECIA BONITA,

ERA ATÉ ATRAENTE!

PARECIA UM CONVITE,

QUE DEPOIS DE UM VACILO,

ALENCAR ACEITOU.


O CORPO VELHO,

DO VELHO ALENCAR

PERCORREU O ESPAÇO,

DE DOZE ANDARES,

A DUZENTOS POR HORA.

BATEU CONTRA O TETO

DO CARRO VERMELHO,

QUE JUSTO ALI,

A BIELA PIFOU.



A MULHER DO ALFAIATE


O DORSO COMPACTO,

COM GOSTO CARNUDO

DE MANGA ROSA,

DA MULHER DO ALFAIATE,

DESLOCA-SE GRACIOSO

COM LUCHO GATICA,

MUI CALIENTE,

EM ALTO VOLUME.


NO COLO BRONZEADO

DA MULHER DO ALFAIATE,

COMO MAÇÃS PROIBIDAS,

OS SEIOS ARFAM

NO RITMO DA MÚSICA.

LEVANDO À LOUCURA

OLHOS ABELHUDOS

DE SORRATEIROS PIVETES.


AGORA, É BIENVENIDO GRANDA

COM SUA VOZ LAMENTOSA,

QUEM EMBALA A DANÇA:

NO UM PRÁ LÁ, DOIS PRÁ CÁ.

E, COMO O SUBLIME

SABOR DO PÊSSEGO,

O CORPO AVELUDADO

DA MULHER DO ALFAIATE

INCORPORA O LAMENTO.


MAS, QUANDO GREGÓRIO BARRIOS

OCUPAVA A VITROLA,

O CORPO LÂNGUIDO

DA MULHER DO ALFAIATE

EXALAVA ABSOLUTA SENSUALIDADE!

É, COMO ESTIVÉSSEMOS,

NUMA CEIA ROMANA,

SORVENDO, GULOSAMENTE,

UVAS TINTAS SERVIDAS NOS LÁBIOS.


A DANÇA LASCIVA,

COM SENSUAL SABOR

DE CASSÍS COM PAPAIA,

NAQUELE VERÃO,

ALIMENTOU A FANTASIA

DA PATOTA DA RUA,

QUE SONHAVA, CADA UM,

SER O AMANTE SECRETO

DA MULHER DO ALFAIATE.


Encontros na floresta - Ises de Almeida Abrahamsohn.

 




Encontros na floresta

Ises de Almeida Abrahamsohn.

 

Quando Renata chegou perto da casa da tia Lu viu em frente à porta uma menininha um pouco menor que ela vindo na sua direção. Quando chegou mais perto percebeu que era uma menina muito estranha. Nunca tinha visto igual. A cabeça era grande e tinha duas orelhas também grandes e pontudas. E mais, os olhos eram enormes, arregalados e o cabelo que aparecia perto da testa era branco como o da bisavó Ida.

Quem é você, perguntou Renata?

Sou uma elfa.

Elfa ? O que é elfa?

Bem, você já ouviu sua tia Lu contar histórias sobre nós, que vivemos na floresta. Somos assim pequenos, como você vê e vivemos muito, muito. Eu sou uma mulher elfa e sou muito velha. Muito mais que sua avó e bisavó. Mais de cem anos.

E onde moram? quis saber Renata.

Moramos nos ocos de  árvores muito antigas e cuidamos da floresta e dos animais que lá vivem.

Minha mãe diz que as histórias que tia Lu conta são inventadas. Que não existem elfos, nem fadas, nem dragões de verdade. Mas você parece ser muito de verdade.

Pois é, Renata. A maioria das pessoas do seu mundo não consegue ver a gente. Só algumas, como sua tia Lu e você conseguem nos ver. E nós temos muito cuidado para não sermos vistos. Já imaginou, as pessoas iam querer vir nos espiar, e até levar para casa achando bonitinho.

E era isso mesmo que Renata estava pensando fazer. Seria legal ter uma elfa ou elfinha, só sua, para brincar e conversar. Mas a elfa era muito esperta e sabia o que Renata estava pensando e falou:

Nem pense nisso, menina. Eu sempre ajudei sua tia desde que ela veio morar aqui na casa no meio da floresta. Fui eu que trouxe de volta o gato Bilú quando ele se perdeu e ajudo a Lu a achar bons cogumelos depois da chuva.

Mas a menina Renata  não desistiu. Queria muito levar a elfa para casa. Correu em sua direção com os braços abertos pronta para agarrar a elfa. Mas, antes que pudesse chegar perto, ouviu uma risada estranha e viu uma nuvenzinha azul. Puff, a elfa tinha sumido no meio da nuvem azul. No seu lugar ficaram só algumas flores vermelhas. Tia Lu as chama de papoulas e diz que são os elfos da floresta que plantam essas flores.

As extraordinárias Girafas - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



As extraordinárias Girafas

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Celina entrou na sala do museu de História Natural onde estavam os esqueletos dos grandes animais. Segurou com força a mão da tia Lu.

Aquilo era muito estranho. Os ossos dos enormes animais que ela tinha visto no zoológico,  arrumadinhos e de pé sem caírem. Como eles fazem para que os ossos fiquem assim de pé? Perguntou a menina curiosa. A tia explicou que tinha um fio de arame grosso que segurava os vários ossos do jeito que são no animal vivo. A menina parou fascinada ao lado do esqueleto de uma girafa. Comparou a sua altura com a perna da girafa. O alto da cabeça batia pouco acima do meio da perna da girafa. Eram mesmo muito altas. Tinha visto como elas se alimentavam de capim colocado bem no alto na altura das cabeças delas.

E aí Celina perguntou para a tia

Como elas fazem para beber água lá onde elas vivem? Lá não tem ninguém quem coloca comida e água no alto.

Bem, comer é fácil elas comem as folhas de árvores na altura delas mas beber é mesmo difícil. Mas elas conseguem se abaixar e ajoelhar. Está vendo esses dois ossos compridos da perna. Entre eles tem um joelho, como nós temos. Então elas podem dobrar um pouco as pernas para se abaixar e a boca alcançar a água num riacho ou poça. E elas também podem abrir as pernas da frente e assim abaixar. Mas não é uma posição boa para elas. É muito desajeitado.

Então elas comem só folhas? E bebem muita água? 

Bem, elas não precisam beber muita água porque já tem alguma nas folhas.

A menina olhou para o enorme esqueleto de altura maior que a de uma casa e disse. Eu acho elas muito simpáticas. Devem correr muito com essas pernas. Como fazem para se defender dos leões e leopardos que vivem por lá?

As girafas com suas pernas longas e fortes tem o mais forte coice entre todos os animais. Você sabe o que é coice, não. É quando um animal bate para trás com força usando uma ou as duas patas traseiras. O coice de uma girafa adulta atira longe um leão ou outro felino que chegue mais perto. Eles não se metem com um bando de girafas.

Cada vez gosto mais das girafas, respondeu Celina.

DECLAMAÇÃO DE NATAL - JOSÉ VICENTE J. DE CAMARGO



DECLAMAÇÃO DE NATAL 

JOSÉ VICENTE J. DE CAMARGO


 Queridos amigos do Escreviver,


 Virtualmente abraçado a todos, 
envio meus votos de FELIZ NATAL E VENTUROSO 2021 
acompanhado de uma  declamação:


"Natal e Pandemia"

Sufoquei a tristeza no peito 
Pedi a saudades parar
De querer o abraço apertado
Que neste Natal não vai ter...

Da mente recebo o conselho:

Sois um pequeno grão de areia!
Aprisione a ansiedade que te aflige
E procures na imensidão sideral 
O milagre do beijo dos astros

Desta junção nasce a mais brilhante Estrela
Jamais vista no celeste firmamento 
E a denominam "Natal de Belém"...

A siga e encontrarás o Menino Salvador 
Que acalma a alma 
E traz a todos o amor
Que tanta falta nos faz...

FELIZ NATAL
VICENTE

ENTÃO, É NATAL - Oswaldo U. Lopes

                              1º colocado

CONCURSO DE NATAL 2020





ENTÃO, É NATAL

Oswaldo U. Lopes

 

 

        Nos textos dos evangelhos há pouca referência à noite de Natal. Lucas assim relata o nascimento de Jesus:

Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na hospedaria. ”

        José Antônio leu o pequeno trecho do Evangelho em plena noite de Natal, de plantão no Hospital das Clínicas, e pensou:

— Que mulher extraordinária!

        Não era obstetra, aliás não gostava muito dessa especialidade.  Era um eminente cirurgião torácico, dos bons, já fizera e participara de inúmeras operações cardíacas.

        Mas, durante a residência cirúrgica, tivera seu quinhão de obstetrícia e aquela descrição de uma primogênita que dera luz seu filho e o envolvera em faixas, reclinando-o numa manjedoura, não era nada parecido com o que costumava ver. Gritos e por vezes desespero, não eram incomuns nas parturientes de primeiro filho. Um pouco mais abaixo no mesmo Livro de Lucas leu:

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade

        Era noite de Natal e as ocorrências eram as de sempre, como se os homens de boa vontade estivessem de folga, e os tiros, atropelamentos e confusões habituais não se importassem muito com a Virgem que dera luz seu primogênito.

        Foi quando ouviu um ruído claro e alarmante, vindo da entrada. O enfermeiro, empurrava uma maca, transtornado. História simples. Teresa, jovem, recém-casada e grávida estava no supermercado do bairro, quando começou a confusão e vários tiros foram disparados. Caso grave, estava com pressão baixa. Tentou acalmá-la:

— D. Teresa vamos ter que operá-la, a bala furou o abdômen e vamos ter que abrir para ver os estragos.

— E o meu bebê? Perguntou ela.

        Começou a gostar dela, “e o meu bebê”, fora o primeiro pensamento.

— Faremos o possível e o impossível para salvá-lo.

Sabia que as chances não eram grandes, queda de pressão, laparotomia, tudo conspirava contra aquele feto.

        Noite de Natal, resolveu no rugir de sua agnosticidade, apelar para aquela mulher jovem que numa noite igual a essa dera luz seu primogênito.

        Operou, ajudado pelo residente, com toda tranquilidade de que foi capaz. A hemorragia era brava, veia porta pega de raspão, uma alça intestinal perfurada, hematoma lombar posterior. Conseguiu resolver tudo e ela continuava bem, saira do choque e respirava ainda com a ajuda dos aparelhos, mas já estava acordando. Delicadamente, levou a mão ao útero no abdômen inferior e percebeu-o grande e pulsando. Tirou a mão e rezou mais uma vez.

        Acompanhou-a carinhosamente. Que força interior, não se queixava nem reclamava. Teve uma recuperação como ele nunca vira, e alta tranquila com seu bebê intacto, e com uma cara ótima.

        Quando ela foi embora ele pensou... É, Maria era forte e destemida, mas não era a única. Aqui estava Teresa, primigesta e decidida. Agradeceu à Maria com seu restinho de fé pelo milagre de salvar Teresa e, pelo fato de existirem tantas Marias neste mundo, dando Graças a Deus.


A PEQUENA ALICE E O NATAL - Antonia Marchesin Gonçalves

2º colocado

CONCURSO DE NATAL 2020



A PEQUENA ALICE E O NATAL

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

                Acordei cedo e a primeira coisa que sinto é um perfume de comida gostosa no ar, um misto de assados e bolos que enchiam aos poucos todos os cantos da casa (como aquelas nuvens brancas do céu que devagar enchem todo ele). Nos meus cinco anos, acabados de fazer, hoje é festa, pensei.

                Calcei os chinelos e chegando à cozinha com fome para o café com leite e biscoitos feitos por Francisca, já a encontrei de avental branco sorridente me dando um beijo de bom dia e me dizendo:  hoje não posso contar história procê, Alice, tenho muito que fazer querida é Natar disse ela. O que é natar Francisca? É uma historia linda muito comprida, antes do fim do dia te conto.

                Fui procurar a mamãe para perguntar sobre o tal de natar. Ela estava atarefada separando a louça mais bonita para a festa, e também disse mais tarde me explicaria: Estou muito ocupada agora filha, vai brincar no quintal.

Adultos, nunca têm tempo para nós crianças. Saí amuada e fui brincar, mas querendo que alguém pudesse me contar sobre o famoso natar. Depois do almoço meus avós chegaram, estavam bonitos, cheirosos com travessas que deixaram na cozinha e voltaram para me beijar.

                Amo os dois e sempre estão prontos para fazerem as minhas vontades. Fui logo perguntar ao vovô, que adora contar histórias, sobre o tal de natar. Para a minha felicidade ele me levou à varanda; Aqui não atrapalhamos ninguém. Sentou na cadeira preferida e eu no seu colo, e começou a me contar.

“Primeira coisa Alice o nome desta festa de hoje é Natal, não natar. Tudo começou há muitos e muitos anos. Antes de você nascer vovô? Sim, querida Alice bem antes, nos tempos mais antigos, longe daqui, havia um casal, sendo ele marceneiro, tiveram que abandonar sua casa e aldeia, porque um homem poderoso que se dizia rei soube através de um bruxo, naquele tempo havia muitos bruxos adivinhadores, sabe, Alice? Pois bem, o bruxo disse que naquele ano nasceria o verdadeiro rei do mundo.

                Ele ficou muito bravo e então mandou expulsar da cidade todas as mulheres grávidas, sabe aquelas com bebê na barriga, com medo que nascesse o homem que roubasse o seu reinado. O casal João e Maria grávida era um deles, que tiveram que fugir. Ela montada num burro e ele a pé pelo deserto até encontrarem uma choupana de palha para passarem a noite, naquela madrugada nasceu o menino. Quando ele nasceu apareceu no céu uma grande estrela com muita luz e uma cauda grande iluminando o encantadoramente o lugar, tanto que de muito longe se via. E, aí começaram a chegar pastores, com suas ovelhas e até reis, pois todos sabiam que esse menino não era o rei como nós conhecemos, mas sim o homem que iria ensinar o mundo a palavra de Deus, enviado pelo pai do céu, aquele para quem eu rezo e agradeço toda noite antes de dormir, pedindo a sua benção como a mamãe me ensinou. O nome dele era Jesus Cristo. É por isso que todo dia vinte e quatro de dezembro se comemora em sua memória o aniversario dele, como eu comemoro todo ano o meu. Natal é a data natalícia de Jesus.

 

O menino que não gostava do Natal - Maria Verônica Azevedo

3º colocado

CONCURSO DE NATAL 2020





O menino que não gostava do Natal

Maria Verônica Azevedo

 

       — Natal! De novo?

       Era sempre assim. Nenhuma ilusão, sem visitas, sem escolhas, sem cartas.

       Ficava a olhar, pela janela, as ruas enfeitadas.

       Nisso entra a supervisora do orfanato. Era muito severa. Mas trazia uma boa notícia. Finalmente uma família queria conhecer Fabrício. 

       Esses não se importavam com a cor da sua pele.

       Estavam convidando Fabrício para  passar a noite de Natal com eles e os dias que antecediam o Ano Novo. O menino ficou perplexo.

       Jamais imaginara que isso pudesse acontecer. Ansioso, correu para se aprontar.

       Nunca havia andado de carro. Não que se lembrasse...

       Quando via crianças nas calçadas de mãos dadas com adultos... pensava que seriam os pais. Os dele ele não conhecera, não que  se lembrasse.

       Mais encantado ficou com a casa. Era grande, iluminada e toda enfeitada com coisas que lembravam o Natal.

       O portão abriu sozinho!

       Duas crianças alegres vieram correndo em sua direção. Nas mãos, presentes para ele.

       O carro parou. Abriram a porta. Fabricio encabulado se encolheu no banco do carro. Não sabia o que fazer. A menina, bem mais crescida do que o garotinho, logo entendeu o braço e puxou Fabrício pela mão.

       Sem oferecer qualquer resistência, Fabrício acompanhou a menina.

       — Eu sou Verena. Tenho oito anos e você como se chama.

       — Eu? Sou Fabricio.

       — Prazer. Este aqui é meu irmão Bert.

       O menino, muito louro, o rosto coberto de sardas, aparentava uns três anos de idade. Olhava curioso, porém não dizia nada.

       Aí ouviu-se uma voz de mulher que parecia chamar com uma fala estranha. Fabrício perguntou:

       — Por que ela está falando tão esquisito?

       Verena   começou a rir.

       — É normal. Somos alemães. É a nossa mãe chamando. Vamos entrar logo. Temos uma surpresa.

       Seguiram pela alameda do jardim. Cruzaram um extenso gramado ladeado por flores variadas. Fabricio se sentia no Céu, mas bem encabulado. Tudo aquilo era muito novo para ele. Levava  nas mãos os pacotes dos presentes. Estava no mundo da lua.

       Enfim chegaram à porta da casa. A senhora que Fabrício concluiu ser a mãe, os recebeu com um abraço discreto. Fabricio imaginava que uma mãe fosse mais simpática e carinhosa.

       Ficou pensando se ela era assim mesmo ou fazia cerimonia por ser alemã. Lembrou da merendeira do orfanato que era alemã e muito fechada. Era difícil vê-la conversar com estranhos. Nem o rapaz da padaria que vinha trazer o pão todo dia conseguia quebrar o gelo dela.

       Parado ali, imerso em seus pensamentos, o menino não se mexia. Foi preciso  Astrid cutucá-lo para ele voltar a atenção ao que se passava. Aí todos se dirigiram para a sala de jantar onde o almoço estava servido.

       Fabrício, bem encabulado, ficaria ali como convidado, durante as festas até depois do Ano Novo. Foi acomodado numa cama extra, no quarto das crianças.

       No segundo dia, após o Ano Novo, Astrid, a mãe de Verena, chamou Fabrício para conversar. Sentados embaixo da grande paineira do jardim, o menino não dizia nada. Então Astrid com voz suave e carinhosa perguntou:

       — Fabrício, você gostaria de ficar aqui conosco para sempre? Quer fazer parte da nossa família?

       Ele ficou um instante boquiaberto sem saber o que dizer. Depois disse emocionado?

       — Sim. Eu quero muito. Mas como isso será possível?

       — Eu vou adotar você como meu filho.

       Ela o abraçou sem dizer mais nada. E ele se aninhou naquele abraço.

Presente de Natal - José Vicente J. Camargo

 

4º colocado

CONCURSO DE NATAL 2020






Presente de Natal                                                       

José Vicente J. Camargo

 

Vou driblando o corona vírus passando a pandemia na minha casa de praia revezando as caminhadas pela  natureza pujante com a novidade do Home Office, despreocupado com eventual contágio, uma vez que o local está isolado no meio da  Mata Atlântica, abraçado ao mar aberto e despovoado de outros semelhantes a não ser minha esposa, o que me leva a supor que dificilmente o corona me achará.

Nesta manhã ouço surpreso, vindo do silêncio da mata, os primeiros acordes do canto melodioso e forte do sabiá laranjeira, a anunciar que a primavera chegou e que ele está à procura de uma companheira para dar continuidade a sua espécie. Minha mente dá um estalo! Primavera, Já? Cada ano passa mais rápido...e esse pensamento leva a outro: “Então significa que o Natal está chegando. Não demora muito e já estaremos festejando! ” Minha mente estala novamente, Festejando? Em plena pandemia? Estão proibidas as aglomerações!

Meu consciente que reluta em não aceitar esta imposição, dá um mergulho no passado e traz lembranças, desde a infância, de tantos Natais festejados entre as famílias parentes quando era costume se assistir primeiro a Missa do Galo – pontualmente a meia noite para depois ter a ceia comemorativa que reunia, na maior casa do clã, todos os pais, avós, tios, primos e amigos. Lembranças saudosas destas festas ainda trago comigo que me incentiva, na terceira idade, repeti-las no âmbito da minha família com a presença dos filhos, noras, genros e netos que chegam em casa hoje a missa foi antecipada para antes da comemoração abraçados a pacotes de papéis e laços coloridos espalhando-os ao redor da árvore de natal para depois, bebericando as borbulhas do champagne, iniciar o “diz que diz” das novidades e fofocas aguardando o chamado da Vó para se sentar à mesa aromatizada de apetitosos e fumegantes quitutes, que serão degustados após a oração pelas graças recebidas neste e as desejadas para o próximo ano.

Mas, e o Natal deste ano com o Corona vírus ainda solto fazendo vítimas, como fica? Com o tal “distanciamento social” sem abraços nem beijinhos, entrará para a história assim como o ano, perdido, triste, que poderia ser arrancado da folhinha que não faria falta. Porém Natal significa esperança que renasce com o Menino Deus, que traz nova luz a iluminar nossos caminhos, a orientar-nos e, portanto, deve ser festejado com alegria e confraternização. Para amenizar a situação do “não deixei passar em branco”, vou ligar para meus três netos e perguntar o que querem de presente de Natal. Pelo menos não sentirão tão abandonados do espírito natalino pois, o presente do avô é, segundo eles, o melhor de todos (pudera, sempre pergunto antes o que querem ganhar e nunca falho, apesar das broncas da avó que acha que os acostumo mal).

Enquanto procuro o número dos celulares penso: “ainda bem que gostam de tudo que é de última geração, pois assim posso comprar pela internet e pedir para entregarem na casa deles. Creio que vão pedir o novo celular 5G ou o último jogo eletrônico que acaba de estrear no mercado. A neta, que quer estudar astronomia, acho que vai querer um telescópio eletrônico, bem mais potente do que o último que lhe dei. Ainda bem que meus dois filhos economizaram na linha sucessória permanecendo nesses três netos, senão meu décimo terceiro não daria para cobrir o desejo da avó de fazer um cruzeiro de navio no réveillon ...

O resultado dos três telefonemas foi inesperado! Quando os indaguei sobre minhas sugestões de presentes, foram unânimes na resposta, parece até que combinaram:

“Vô! Que adianta novo celular, jogo eletrônico, vasculhar a Via Láctea atrás do rabo do cometa se não tenho com quem compartilhar, torcer, brincar. Com distanciamento social não dá! Não há presente que substitua o convívio dos amigos, o “cara a cara, peito a peito”! Portanto o que mais quero de presente de Natal é:

“A Maldita Vacina!” Não importa de que país venha, mas tem de ser o mais rápido possível para liberar minhas energias e principalmente o rosto dessa porcaria de máscara, não aguento mais ficar sem fazer esporte, academia e de dar meus abraços e beijinhos na galera ansiosa...”

Bem! Dever de avô eu cumpri, perguntando! O presente desejado, que é o de toda a humanidade, vai ter de esperar as complexidades dos poderosos. Eu, particularmente, não sou Santo pra fazer milagres...