A ansiedade não é boa mestra Ana Maria Pinto

Resultado de imagem para menina esperando adoção

A ansiedade não é boa mestra
Ana Maria Pinto


Há muito tempo que ela esperava ser adotada. Mas estava muito difícil, já tinha passado da idade ideal, pais adotivos buscam um bebê que não tivesse referências anteriores.

Isso não acontecia com ela: tinha bem presente o que tinha sofrido quando começou a entender as coisas e a ver que além da miséria em que seus pais viviam, era um ambiente muito ruim com muitas desavenças e brigas que a deixavam quase em estado de choque. As pessoas acham que crianças não entendem o que se passa à sua volta, mas elas não só entendem como têm muita sensibilidade para avaliar a situação.

Tinha sido retirada da convivência com os pais e estava morando num abrigo da Prefeitura e esperando pela adoção.

A vida não era ruim lá, mas a espera é que tornava as coisas piores :a ansiedade era terrível e ela ainda não sabia lidar com isso.

Até que um dia veio para o abrigo um professor novo, com quem ela se identificou imediatamente, parecendo que o conhecia desde sempre. Ele se interessou pela menina e começou a dar-lhe uma atenção especial e, em breve, ficaram grandes amigos.

O professor conseguiu que a menina não ficasse tão presa à ideia da adoção, que deixasse tudo fluir, tendo em mente que o que tem que acontecer acontece independente da nossa vontade. Não mandamos nas nossas vidas, elas são determinadas por vários fatores, que nem sempre sabemos quais são.


Assim a menina seguiu a sua vida, mais feliz, menos ansiosa e quando menos esperava o professor e a esposa se dispuseram a ficar com ela e fazer a adoção.

O espírito do Natal - Ises de Almeida Abrahamsohn


Resultado de imagem para senhora olhando pelo retrovisor do carro

Espírito do Natal
Ises de Almeida Abrahamsohn

Ruth parou no semáforo. Era hora do almoço, mas parecia final de tarde. Mais gente na rua, mais carros piorando o trânsito. Era sempre assim nos meses de dezembro. Todo mundo se queixava. Fora do carro, calor de 37 graus. Ainda bem que tenho ar condicionado. Olhou para a caminhonete de entregas ao seu lado e ficou com pena do motorista. Um senhor já perto dos sessenta anos com o rosto vermelho e o suor escorrendo da testa.

Acho que mexeram de novo no tempo do farol, pensou irritada.

Do asfalto via subir tênues nuvens de vapor. Uma delas parecia um fantasminha.

Parece uma miragem no deserto. Acho que estou no Saara. Daqui a pouco verei camelos atravessando a rua. O vendedor de água deve estar contente. O único no meio destes rostos mal humorados. O locutor do rádio já anuncia os corais e concertos de Natal. É mesmo, faltam apenas duas semanas. Cadê o espírito de Natal? Nenhum rosto descontraído à minha volta. Finalmente vai abrir o sinal. Pronto, o idiota atrás de mim já buzinou. Só faltava essa ... Por que raios meu carro morreu?  O cara agora calcou a mão na buzina! Meu carrinho, nada! Nega fogo!  O imbecil continua buzinando... Não aguento mais. Sei que não devo, mas vou. Quero ver a cara do sujeito.

O nervosinho abaixou a janela e Ruth, engolindo a raiva, sugere educadamente:
— Senhor, vamos trocar de lugar. O senhor faz meu carro andar e eu fico aqui apertando a buzina!

Por essa ele não esperava!

Nos encaramos, um rapaz de uns trinta anos e eu, que podia ser mãe dele. Achei que ia soltar um palavrão! 

Ele deu  uma risada e respondeu:

— Desculpe, senhora. Todo mundo fica nervoso com esse calor. Vou ajudar a desviar o trânsito enquanto a senhora tenta ligar o carro.

Surpresa, Ruth agradece. Com algumas tentativas o carro enfim pega.  O sinal fica de novo vermelho. Ela acena para o motorista que sorri.

Gentileza faz tão bem! Este deveria ser o espírito do Natal!

APRECIANDO AS BELEZAS DO CAMPO - Oswaldo Romano


Imagem relacionada

APRECIANDO AS BELEZAS DO CAMPO

Oswaldo Romano

        Estava na Fazenda das Três Barras, sentado no varandão, apreciando em agradáveis momentos o buliço da vida no campo.

        Batia um papo com o tio Chico, o orgulhoso proprietário daquelas terras férteis, que emanavam perfume a qualquer chuvinha.

        Enquanto matutava clareando seus contos, contados com vocabulário caipira, meus olhos corriam pelo horizonte.  
        Muito perto quem dava as cartas era o galo. Com enormes cristas vermelhas mostravam as pontas manchadas, testemunho da sua defesa de rei do galinheiro. As galinhas disputavam sua atenção. Envergonhadas, rodeando-o, balançavam-se ao som dos seus gargarejos.

        Ele, supremo e único chefe do seu pedaço, investido de realeza, mostrando toda sua pose, ali ciscava.

Podia ficar horas ouvindo as gostosas palavras do tio Chico, olhando aquele chamego.

        Mas, fui alertado pelos berros de cabritos que levantavam as cabeças chamando do além, possíveis mães.

        Tio Chico, admirando minha atenção, interveio:

        —Escuite, cê tá me ouvindo?

        —Claro, tio.

        —Tenho um segredo p’ra te dize. Wado, dois passos depois daquele pé de Carnauba, ocê dando deis passos p’ra direita e quinze p’ra esquerda, cavando ira descobrir uma caixa com segredos desta fazenda.

        —Tio, porque não só cinco para a esquerda?

        —Wado, tem que seguir o rituar. Ocê enxerga lá um homem?

        —Enxergo, tio.

        —Então responda p’ra eu: O que pode fazer um homem no campo a “cavá-lo”?

        —Tio, eu sei. Era uma brincadeira na escola. Se ele não cavouca, está galopando.


—Oi! Ocê é danado da peste. Puxou seu tio...

SE EU FOSSE UM GRAVETO = Sérgio Dalla Vecchia

Resultado de imagem para graveto

SE EU FOSSE UM GRAVETO
Sérgio Dalla Vecchia


Seria o embrião da fogueira,
Seria a salvação dos perdidos,
Seria o calor,
Seria a proteção,
Seria a sobrevivência,
Seria o sinal do resgate,
Seria cinzas nutrindo o solo,
Seria uma árvore,

Renascendo como tronco. 

Se o mundo fosse acabar amanhã - Angela Barros


Resultado de imagem para correndo com varinha mágina na mão

Se o mundo fosse acabar amanhã
Angela Barros


        Se o mundo fosse acabar amanhã eu pegaria minha varinha mágica e sairia por aí mudando o mundo.

        Começaria já, hoje, não amanhã, quem mandou avisar com antecederia? Passaria a noite em claro. Aliás, transformaria a noite em dia para aproveitar cada precioso segundinho da centelha da vida.

        Já de cara me dotaria de super poderes, todos os possíveis e imagináveis, nada de modéstia nessa hora. Não vou dar uma de hipócrita, já de cara me daria de presente dez centímetros de altura, pelo menos no último dia da minha vida eu sentiria o gostinho de ser alta sem um sapato de salto alto.

        Como o mago da lâmpada de Aladim ofereceria a todos que encontrassem pela frente um segundo para desejar um desejo, nesses momentos não dá para ficar pensando muito, se deseja muito uma coisa, sabe exatamente o que quer.

        Daria um giro ao passado para conhecer as sete maravilhas do mundo antigo. Subiria na grande pirâmide de Gizé, passearia nos jardins suspensos da Babilônia, apreciaria a estátua de Zeus e o templo de Ártemis. Visitaria o  Mausoléu de Halicarnasso. Subiria nos ombros da gigantesca estátua do deus do sol, Hélios, conhecida como o Colosso de Rhodes. Reconstruiria o Farol de Alexandria tido durante muito séculos a maior construção erguida pela humanidade.

        Ainda no passado, iria ao encontro e beijaria com carinho meus pais queridos que viveram tão pouco.

        Voaria à Marte, a Vênus, e a Lua.

        Jogaria todos os homens maus de colarinhos brancos num fosso infinito de um vulcão em erupção para que virassem carvão, bem devagarinho.

        E, com um sopro de quem deu origem a vida eu traria a primavera  para florir o último dia do globo terrestre. Nada de gelo, tempestades ventos ou ciclones, apenas uma brisa fresca perfumada acalentaria a terra.

        Se o mundo fosse acabar amanhã …


        

SE EU FOSSE UM RIO - Sérgio Dalla Vecchia

Resultado de imagem para rio manso 

SE EU FOSSE UM RIO
Sérgio Dalla Vecchia

Seria inteligente,
Forte como Megawatts,
Venceria obstáculos,
Ora contornando,
Ora caindo.
Seria incansável,
Calmo nos remansos,
Esperto pelo caminho das pedras
E glorioso ao abraçar o mar.

SE EU FOSSE UM RIO - Carlos Cedano

Resultado de imagem para rio de sonhos

SE EU FOSSE UM RIO
Carlos Cedano

Desde uma colina olhava esse belo e caudaloso rio que se deslocava sereno e majestoso a procura dos mares de seu destino. Essa visão povoou minha cabeça de fantasias e aventuras e pensei: E se eu fosse um rio?

Ah!... Se eu fosse um rio agradeceria aos Deuses as gotas que  me mandam e revigoram meu caminhar.

Ah!... Se eu fosse um rio andaria  pelos desertos formando nas areias grandes oásis onde a vida abriria espaço a paraísos na terra.

Ah!... Se eu fosse um rio daria albergaria nas minhas águas a  esses seres fantásticos que enfeitiçam  homens para que vivam em harmonia e paz.

Ah!... Se eu fosse um rio levaria crianças a navegar à procura das terras onde se fosse sempre criança.

Ah!... Se eu fosse um rio minha magia transformaria o egoísmo em solidariedade.

Ah!... Se eu fosse um rio vibraria numa sinfonia de amor invadindo o mundo todo.

Ah!... Se eu fosse um rio não deixaria poluir minha águas preservando-as sempre puras e cristalinas.

Ah!... Se eu fosse um rio faria com que a maldade se afogasse  para sempre nas cavernas mais profundas do Hades.

E quando chegasse ao meu destino me juntaria aos outros rios e com os oceanos para cantarmos num coro infinito o milagre da vida!

SE EU FOSSE UM RIO - Oswaldo Romano


Imagem relacionada

SE EU FOSSE UM RIO

Oswaldo Romano

        Se eu fosse um rio, não descansaria enquanto não conhecesse minha nascente. Subi-lo até lá, sozinho seria impossível.

        Quero imaginar-me chegando, qual seria minha surpresa? Um fio d’água, debilitado, lutando para vencer as tantas pedrinhas perdidas entre matos.

        Não. Não. Melhor ficar onde estou.  

Admiro imaginar minha aventura contornando montanhas até chegar aqui. Parte do meu volume continuaria contornando outros tantos montes, mas teria sido aqui que aprendi a contorná-los.

        Sinto-me calmo, tranquilo, sábio. Desempenharia garbosamente meu papel, se eu fosse um rio, um aquário de peixes listrados, coloridos, de grandes nadadeiras.

        Pena que nem tudo são flores. Haveria sim algumas brancas brotadas nas marginais, agredidas pelos gravetos. Folhas secas se arrastando, formariam círculos indecisos, juntando sujeiras que seria obrigado acolher.

        Se eu fosse um rio.




SERGIO DALLA VECCHIA - NO RESTAURO DA AV. 9 DE JULHO


SOLTE SEUS CUPINS - Humberto Wernewck - Jornal O Estado de São Paulo

SOLTE SEUS CUPINS

O cronista está longe de ser um bom exemplo, mas não tem dúvida: escrever é cortar.

·         O Estado de S. Paulo.
·         10 Oct 2017
·       Humberto Werneck

Quem foi mesmo que disse que escrever é cortar palavras?, pergunta um colega. Seria Carlos Drummond de Andrade?

Como sempre que me sinto desafiado, parei tudo e fiz da dúvida alheia uma questão pessoal.

Meu cupincha se lembrava de ter lido uma crônica em que Maria Julieta Drummond de Andrade, filha do poeta, reuniu conselhos literários do pai. Eu também me lembrava, e, entre nuvens de ácaros, voltei ao recorte de jornal. Lá estava, de fato, a recomendação, repetida, conta Maria Julieta, “sem cessar e com razão’: “Escrever é cortar palavras”.

Então era mesmo Drummond o autor da frase, para mim familiar há mais de meio século. Salvo engano, a ela fui apresentado num auditório escolar em que pontificava uma autoridade em economia verbal. Mal o mestre, invocando o poeta, receitou tesoura, um dedo juvenil (até hoje morro de inveja) levantou um aparte: mas esta frase tem um rabicho supérfluo. Como assim?, estranhou o palestrante –e o moço, triunfante: “Escrever é cortar”, simplesmente – “palavras” fica óbvio. O mestre embatucou, mas teve a humildade de pedir aplausos.

Reli, ia dizendo, a crônica de Maria Julieta, e a leitura me levou a outra, de Armando Nogueira, em que o jornalista (muito dado, aliás, a embaixadinhas estilísticas) conta ter passado anos na certeza de que o autor da “preciosa máxima” era Drummond. Um dia, tocou no assunto com ele, e o poeta negou autoria. Armando ficou desapontado, pois “a sentença tinha a cara do mestre Drummond, cuja prosa é um exemplo de concisão”.

A dúvida, portanto, meu caro colega, persiste. Ainda não dispensa interroga- ção numa seleta de frases sobre concisão que venho acumulando e que, admito, deveria consultar mais amiúde.

Aquela, por exemplo, em que Graciliano Ramos compara o trabalho do escritor ao de uma lavadeira que esfrega e torce incansavelmente, até que da roupa já não pingue uma gota, pois a palavra foi feita para dizer, não “para enfeitar, brilhar como ouro fácil”. Na mesma linha, Hemingway a nos ensinar que texto é arquitetura, não decoração de interiores. Ou Mark Twain, para quem escrever é fácil – basta cortar o que ali não deve estar.

Ainda ouço Moacyr Scliar dizer, numa entrevista, que deletar é tão ou mais importante do que digitar. E García Márquez lamentando não se lembrar quem foi que disse que “um bom escritor é mais apreciado pelo que rasga do que pelo publica”. Para não falar em João Cabral de Melo Neto, em cuja poesia não acho vírgula sobrante, tão certo estava ele de que escrever é como catar feijão: Jogam-se os grãos na água do / alguidar / e as palavras na da folha de papel; / e depois joga-se fora o que boiar”. Se o cronista José Carlos Oliveira recomenda “não se derramar”, visto que “palavra é sangue”, Cabral, diz o mesmo com imagem inaudita: “... nem deve a voz ter diarreia”.

Já que a conversa me levou às vizinhanças da escatologia, me permita, em boa causa, baixá-la ainda mais, e, em defesa do texto bem podado, descarregar a lembrança prosaica, porém instrutiva, de algo que vi no banheiro, sim, no banheiro de uma redação onde trabalhei.

Andava eu saudavelmente obcecado pela ideia do texto enxuto, ao ponto de haver criado uma Teoria da Vênus de Milo, segundo a qual qualquer texto melhora se cortado com rigor. Por que Vênus de Milo? Pode ser, respondi, que a moça da estátua tivesse mãos e braços menos belos. A esse esforço de limpeza, no qual cada palavra esteja em condições de justificar presença, chamo “soltar os cupins”, cupins benignos, cuja dieta consistisse exclusivamente em madeira ruim.

Mas estávamos, perdoe, no WC, e havia ali um toalheiro onde se lia: “Bastam duas folhas deste papel para secar suas mãos. Portanto, evite o desperdício”. Logo notei que alguém, munido de caneta, levava àquele cubículo necessidades também estilísticas, pois aos poucos o aviso foi perdendo banha. No final, estava assim: “2 folhas secam suas mãos. Evite desperdício”. Acho que dá para cortar a segunda frase. Ou a primeira?

Antes que você, tendo chegado até aqui, passe a tesoura e reduza a zero a prosa do cronista, convém fechá-la com ilustração mais elevada, que vou colher naquele texto de Armando Nogueira. Fala-se ali de um conto de John Ruskin em que um sujeito, numa feira, implica com este cartaz: “Hoje vendo peixe fresco” – e, aos poucos, convence o vendedor a cortar pelancas verbais.

“Hoje” não precisa, argumenta ele, pois para o freguês qualquer dia é hoje. “Vende” também é dispensável – o que mais se faria uma banca de feira? Quanto a “fresco”, bem... alguém poria anúncio de pescado que não estivesse nessas condições?

Restava, àquela altura, “peixe” – mas não seria o caso de descartar essa palavra, já que ali não se vende outro tipo de mercadoria? A chance de algum comprador se equivocar é zero – até mesmo um cego, que tem no olfato um guia certeiro.

Melhor cortar neste ponto. Agora é com você – aqui & alhures, empunhe a tesoura, solte seus cupins!


O cronista está longe de ser um bom exemplo, mas não tem dúvida: escrever é cortar.

O DESTINO DE FRANCISCO SALES - Oswaldo Romano


Resultado de imagem para homem ao telefone


O DESTINO DE FRANCISCO SALES
Oswaldo Romano


        Jane nasceu numa família de origem italiana.

        Chamava muita atenção pela beleza e agradável sorriso dessa criança. Quando ainda menina, era notada e admirada pelo singular sotaque característico da língua, fruto da convivência familiar.

        Isso fez com que, querendo se aperfeiçoar, se dedicasse aos estudos mais aplicados do português. Sua frequência nas melhores escolas trouxe junto o conhecimento de outras matérias que a destacou.

        Aos vinte anos, formada, foi procurada e contratada pelo Dr. Francisco Sales, homem abastado, filho do conhecido major Feliciano Sales, aquele sequestrado no Bairro Alto dos Pinheiros. Em razão disso, assim que livre distribuiu sua herança, premiando seu filho.

        Depois de muitos anos prestando seus serviços ao Dr. Francisco, certa manhã seu chefe não apareceu no escritório como o fez durante tantos anos.

        Preocupada, Jane recorreu aos meios que dispunha, tentando localiza-lo. O passar das horas, com seus familiares assustados, Jane, amiga de Luizão, competente investigador, uniram-se nas buscas. O experiente policial  levou-a  ao Instituto Médico Legal.

        Essa atitude abalou a secretária ao extremo. Era tudo o que não desejava.

        Foram informados de que lá havia um corpo com suas características.

Tomada de pânico seu mundo rodou. Segurando-se o que pode no Luizão, foi ao chão. Socorrida, abanada e aplicado com cuidado um lenço embebido com clorofórmio, sempre disponível na porta do IML, voltou a si.

        Recuperando-se logo foi informada, de que o corpo não era dele, tinha outra identidade.

        Jane estava exausta. Pediu a Luizão que a levasse para casa.

        Quando em casa, jogou-se no sofá, doída como tendo levado uma surra, sentia-se chocada. Pressentimentos rolavam em sua cabeça. Os piores. Até então nada clareou, nada ficou sabendo.

        Dominada pelo sono, acordou as vinte e uma horas com o toque do seu celular. Tremeu, procurou recompor-se, aturdida atendeu.

        — Alô, pronto...

E ouviu:
        — Não desligue o telefone e ouça com atenção.

        — Sim, tá bom, mas quem é?

        — Seu patrão é nossa presa. Se chamar a polícia ele será devolvido, já viu como, né? Temos gente de olho na sua casa e na dele. Está me ouvindo?

        — Sim, mas...

        — Não tem, mas... aguarde um novo contato.

Desligou.

        E agora? O que ela deve fazer? Ficou estática, imóvel, pensava. Nisso toca o celular. Tremendo susto! Vê quem é. Ainda bem, é o Luizão. Atende, trocam palavras, ela corta dizendo:

        — Me ligue em cinco minutos.

        Era o tempo que achou necessário para resolver como proceder.

De novo toca o telefone. Ela atende, já vem falando:

        — Estou preocupado. Fala, o que aconteceu?

Faz silencio... mas fala em seguida:

        — Eu vou até o clube tomar um café.

Desliga o telefone e prepara-se para sair. Luizão que mora nas proximidades, percebe o recado, acostumado a correrias, faz o mesmo e se amoita a distancia da casa dela, esperando-a sair. Até então, com muito cuidado, apenas observa, não sabe de nada, quer proteger, quer assuntar.

        Não a perdeu de vista até o clube. Ela entra e vai direto para o sanitário.

        — Opa! Aqui tem coisa, fala Luizão com seus botões. Mão no bolso, ajeita o revólver, entra no corredor de acesso.

Ela o vê, chama-o para uma cabine. Conta o acontecido. Conversam por um bom tempo.

Olha o movimento e dá condições dele sair, entrar no sanitário dos homens de onde vê sua retirada.

        Na casa do Dr. Francisco o clima é outro. Foram orientados manterem-se afastados obedecendo orientações dele que já havia se entendido com a Delegacia de Sequestros. Não deviam tomar qualquer iniciativa e ficarem em absoluto silencio.

Ficou definido que Luizão seria o ponto inicial de qualquer atitude. Os telefones fixos da casa do Dr. Francisco, foram desligados.

        Jane volta para seu apartamento e no sofá vai passar a noite aguardando novo contato dos bandidos.

        Luizão, movimentando-se, providencia de que grampeiem todos os telefones envolvidos, e lhe mantenha informado. Também, acomoda-se em seu sofá.

        Dez horas da manhã. Jane recebe o esperado contato.

        — Vá ao escritório. Entre a correspondência, um envelope azul lhe dará as informações.

        — Sim, mas... — Desligam o aparelho. O chamado veio de um telefone de rua. Luizão não precisa ser informado. Tem on line pelo grampo. Já sabe de onde veio e qual aparelho. Fica na Freguesia do Ó.

Para um investigador qualquer, os sequestradores disfarçando estariam do outro lado da cidade. Mas, para Luizão, não. Estão mesmo na Freguesia. Um golpe de malandros, há muito manjado pelos decanos da polícia.

        Jane no escritório, com mãos trêmulas, separa e abre o envelope azul. A carta diz: “Não somos pés de chinelos. Deu para entender? Separem três milhões em notas de cinquenta. Logo daremos prova de vida. Aguardem novas instruções.”.

Na casa do Dr. Francisco, sua mulher Letícia sem qualquer notícia, esta ficando louca. Luizão, lembrando-se dela, faz-lhe uma visita. Apela a tudo que tem direito, para que fique vivendo seus dias normalmente, e não converse com estranhos. Informa seu marido estar vivo e bem. Lhe dá um celular diferente dos demais, mostra um grande botão vermelho e ensina:

        — Qualquer importante anormalidade, aperte-o. Eu atenderei. Caso queira minha presença, aperte duas vezes.

A propósito, a senhora tem a senha do banco, se precisar?

        — Claro, nossa conta é conjunta.

        Jane encontra-se de novo com o amigo no clube. Montam o próximo passo. É instruída esperar novo chamado. Provavelmente darão instruções sobre o dinheiro. Dinheiro que ela já cuidava.

        Jane, diga somente que você já tem quase toda grana. Peça que quer uma foto dele colorida, segurando o Estadão do dia, primeira página e olhando para a câmara. Eles certamente já esperam isso.

        Agora enquanto aguardamos, vou montar com o DI o momento da ação. Devem suspender algumas folgas. Estão procurando possíveis cativeiros. Todos os informantes foram alertados.

— Jane, fique calma. Nada vai acontecer com ele.

        — Como você tem tanta certeza?

Será mais um dia atormentado de espera, certamente sem notícias do paradeiro do Dr. Francisco Sales.

Manhã seguinte, 10 horas, toca o telefone:

        — Está pronto o dinheiro?

        — Praticamente sim. Queremos uma foto dele, colorida, com o Estadão do dia em suas mãos e olhando para a câmara.

        — Estamos perdendo a paciência. Vocês querem mais, vamos mandar um dedo.

        — Escute moço. Estamos colaborando. O mínimo que estamos querendo é uma prova de vida. Você disse não ser pé de chinelos. Deve saber o procedimento.

        — Tá bem. Amanhã procure no escritório o envelope azul. Chega de enrolar.

        Jane encontra-se com Luizão e vão aguardar o amanhã. Enquanto isso alguma coisa precisa ser feita. Difícil, porque fazer o que?

        Luizão sugere esconder-se no prédio do escritório e abordar o entregador do correio. Sabia que o horário era por volta das 11 horas.

Desde as 9:00 conforme prometeu, montou o plantão. No horário previsto chega o entregador com todas as cartas do prédio que era ocupado só por escritórios. Luizão puxa o estafeta para dentro da cabine do guarda. Mostra o distintivo:

        — Senta aí. Que caminho você fez com esse malote?

        — Moço o que é? O trajeto de todos os dias.  

        — Nesse trajeto, você para em algum bar, padaria para um café?

        — É normal oferecerem. Hoje mesmo parei na padaria do Manoel, lá da praça. Ali ficam muitas cartas. É ponto de correspondência de trabalhadores da região e de muitas empregadas.

        — Bem, sobre minha investigação você vai ficar calado. Isto que investigo não aconteceu. Se abrir a boca, você é quem vai em cana. Agora pode ir.

Olhando o volume da correspondência, pede ao porteiro que faça logo a distribuição. Não da abertura ao porteiro do que se trata.

        Jane certamente já estaria no escritório. Funcionários entravam do lado oposto, com controle digital. Luizão, tinha acesso.

        Na rua fez seus contatos, muitos com seu grupo policial.

Com Jane no escritório, aguardava a entrega da correspondência, enquanto ela resolvia problemas acumulados.

Chega o pacote de envelopes, ambos apressam-se removendo-os.

        Nenhum envelope azul.

Procuram de novo, abrem alguns envelopes suspeitos, nada. Sentem-se na estaca zero.

        Em casa Jane recebe novo chamado. Agora o telefone usado vinha da Chácara Flora:

        — Eu disse para não botar polícia. Você brinca com fogo. O tempo esta se esgotando. Amanhã você vai receber a prova que quer. Depois fique de plantão em sua casa e aguarde.

        Manhã seguinte, Luizão de bengala caracterizado de velho posta-se na Padaria e numa mesa próxima a que o carteiro usa, acomoda-se tomando café. Quando o carteiro chega, pessoas que o esperavam entregam e recebem cartas. Antes de sair deixa algumas no caixa.

Desilude-se. Deu um tempo e foi para o escritório. Jane quando o viu, deu um grito. Foi momentâneo, logo o reconheceu. Chegou a correspondência, lá estava o envelope azul. Trazia a foto e as instruções seriam dadas pelo telefone.

        Foi o que aconteceu a tarde:

        — Coloque o dinheiro num saco de lixo preto e amarre a boca com fita azul. O lixeiro vai passar como de costume por volta das dez da noite. Deixe junto aos demais, recolha-se e não quero ninguém por perto.

        Jane se entendeu com Luizão. Este acionou mais investigadores e um camburão. Alguma distancia antes da casa, local mais ermo, renderam os garis e dentro do veículo vestiram suas roupas. Seguiram com o caminhão, deixando no camburão os lixeiros que apanhavam para contar a trama.

        Sem demonstrar alarme, continuaram recolhendo os sacos. Esperavam prende-los no caminho do lixão. Provavelmente renderiam os lixeiros e fazendo barreira com o caminhão fugiriam.

        Mas, nada disso aconteceu. Na descarga, já clareava a noite,  procederam de modo normal, todos atentos. Alguns catadores estão por perto. Um deles se aproxima da nova carga. Parece que está disfarçado de garimpo. A equipe do Luizão, antenados, olham-se, ele dá sinais para esperar.

Começa a remexer nos sacos, descartando abrindo espaço. Escutam a pouca distancia uma caminhonete que vem acelerada, com homens na caçamba. Os policiais se preparam para um confronto. Luizão destaca um para vigiar o catador. Ela, aproximando-se não diminui a velocidade, mas passa direto. Foi um alivio.

 Toca o telefone de Luizão:  

        — É você Jane? Chegamos no lixão. Vamos resgatar o saco.

— Me deixe falar, interveio Jane quase gritando.  O Dr. Francisco Sales acaba de chegar em casa. Veio de táxi.

        — Que bom, ótimo. Preciso desligar nos falamos depois. Toda atenção estava fixa nos acontecimentos do momento.

Outros maltrapilhos vasculham ligeiramente a nova carga. Logo se afastam.

Luizão põem os demais atentos e vai pegar o saco conhecido pelo amarrado.

Abrem

Só tem papel, jornais rasgados. Um banho incrédulo apodera-se de todos. Olham-se. sentem-se idiotas. Olham para o Luizão, não demonstra culpa, fala desiludido:

— Onde foi que erramos?

— Erramos não - ouviu de um deles.

        Toca seu telefone, é Jane.

—Posso falar?

—Pode Jane. Papel, papel, papel.

— Luizão, o que você está dizendo?

—O que você está ouvindo Jane. O saco só tem papel.

        Jane emudece.

—Ele completa - depois nos falamos, ok?

        Nesse momento paira no ar uma desconfiança descontrolada.

Chega o camburão com os lixeiros.

Desanimados, vendidos, incrédulos, desfazem a equipe.

Há duzentos metros da casa de Jane, é encontrada uma bicicleta abandonada. Começam as suposições.