A CONVOCAÇÃO - Ledice Pereira




 A CONVOCAÇÃO
Ledice Pereira

Família reunida. Todos tinham atendido à convocação de tio Raimundo. Veio gente de toda parte: de Belo Horizonte, de Florianópolis, de Maringá, de São Paulo, de Barra Grande  na Bahia.

Foram chegando durante o dia todo. Alguns sozinhos, outros traziam a família.

E a casa da fazenda foi se enchendo daquele zum, zum, zum, do burburinho das crianças e do cunhé, cunhé dos bebês.

Tio Raimundo e tia Margarida eram só sorrisos. Ela era um doce, sempre muito carinhosa e receptiva.

Até os pássaros com seus piopios demonstravam estranhar aquele movimento.

Meu bisavô fundou a fazenda em 1910, recém-chegado da Europa, com mulher e dois filhos. Lá viveu, e morreu os 96 anos.

Teve mais quatro filhos que, por sua vez, tiveram filhos.

Meu pai, nascido em 1930, faleceu em 2005.

E agora, nosso tio, o mais novo dos irmãos e único sobrevivente, nos chamava para aquela reunião. Estávamos todos curiosos.

Ele sempre tinha sido o tio agregador, o tio conciliador, o tio mais novo e amigo de todos.

Alguns primos especulavam pelos cantos sobre a razão daquele encontro:

- Iria tio Raimundo dividir a herança, dividir a fazenda, dividir seus pertences, seu gado -  indagavam.

Eu, que tinha ficado tão feliz com a iniciativa do tio de reunir a família, que estava curtindo rever gente, que há tanto tempo, eu não via, fiquei uma fera:

“Meu Deus, que falta de sensibilidade, que ganância, que absurdo”.

Fugi para um canto do pomar, onde costumava me isolar quando criança e chorei rios de lágrimas. 

Só depois de ficar ali durante muito tempo, voltei pra dentro da casa e fiquei sabendo o motivo do encontro.

Meus tios estavam doentes, tinham perdido a fazenda para pagar dívidas e precisavam que um de nós os abrigasse. Não tinham para onde ir, além de precisarem de cuidados médicos.

Cada um foi se desculpando e saindo de fininho.

Apenas eu e uma prima mais nova nos oferecemos para cuidar deles.

Eu espumava de raiva daquele bando de urubus.

“Como pode o ser humano ser assim tão interesseiro? E com pessoas que sempre nos acolheram com tanto carinho?”

Eu percebia a decepção de tio Raimundo, embora ele não comentasse.

Trouxemos os dois para São Paulo e não poupamos esforços para que se sentissem bem e fossem bem cuidados.


Na verdade eles, que não tinham filhos, precisavam apenas de carinho. Inventaram a história da perda da fazenda para avaliar quem seriam os verdadeiros merecedores daquela herança.

CALA A BOCA! - Oswaldo U. Lopes


CALA A BOCA, CARA. VOCÊ SÓ CONTA MENTIRA! NÃO PERCEBE QUE NINGUÉM ACREDITA MAIS EM VOCÊ?

Oswaldo U. Lopes

       Havia sido muito duro com o Ricardo, mas ninguém mais suportava aquela história da computação gráfica em Londres. Todo mundo sabia que o único curso que o Ricardo fizera em Londres fora o de lavar pratos no restaurante grego. Até o dia em que foi parado por um Bob, a paisana, que lhe perguntou, depois de um encontrão, aonde vai  com tanta pressa?

        — Vou pro restaurante e sai da frente que já estou atrasado.

        Foi dali mesmo para a delegacia! E deportado logo a seguir. Terminara a aventura londrina e nem mesmo aprendera um bom inglês que a maioria do restaurante era de gregos mesmo e falavam grego. Aprendeu um pouco de grego e já podia contestar a frase:

- Isto é grego para mim. O problema era para que serviria o pouco grego em São Paulo.

        Em computação gráfica ele até que não era ruim, quer dizer era bom mesmo, mas autodidata. Em vez de se orgulhar disso o idiota inventara essa história que fizera cursos e aprendera em Londres. Era um exemplo vivo do subdesenvolvimento mental que acometia os brasileiros em geral. Pra ser bom tinha que ter feito lá fora. Fora, no caso, sendo no mínimo Europa Ocidental, Portugal e Espanha não contam, dependendo da área pode ser Itália (humanas, sobretudo arte).

        Coisa mais pesada só vale Inglaterra, Alemanha e ali escapando França.

        Não fora injusto com o Ricardo, fora cruel. Mas, todo mundo da rodinha estava cheio com aquela maneira idiota de aparentar grandeza. Alguns também viveram na comunidade anglo-brasileira no exilio, o conjunto dos jovens aventureiros que aprendiam a lavar pratos em Londres e , portanto,  sabiam das coisas.

Bem, se arrependeu, ia ter que dar um jeito. Talvez a Lucinha ajudasse. Era a própria alma mater do grupo. Sempre generosa e, porra, a única que de fato fizera um curso legal e solido de software e voltara falando inglês com aquele maravilhoso acento de quem tem uma batata quente na boca. Ela trabalhava muitas vezes com o Ricardo e aproveitava bem o talento dele na computação gráfica.

Valha-me Deus, arranjo encrenca ate tomando chope!

MEU REFÚGIO - M.Luiza de Camargo Malina


MEU REFÚGIO
Vou embora para: Ilha de Páscoa
M.Luiza de Camargo Malina

Decidiram por mim. Ilha de Páscoa.

Sem poder de escolha. A mala está de boca aberta, tão aberta quanto a minha. O problema não é o que levar, e sim, o que deixar. Não tenho tempo, preciso ser rápido. A passagem, qual o horário? A ampulheta não consegue parar. Escoa. Escoa meu pensamento restringindo-me ao nada e ao tudo ao mesmo tempo. Um calafrio me orienta na precisão do fazer para o futuro, não, não posso pensar no que estou deixando, é minha vida; se me encontrarem será pior, a notícia ainda não vazou. 

O dia continua adormecido nos braços da noite; rápido, todos os sentidos me levam a esta única salvação: fugir. Vou deixar comida suficiente para Toby, já pressentiu o meu distanciar, acredito que ele consiga ler os pensamentos. Enquanto me preparo, eu vou... O que... O que é que eu vou... Talvez... Pensar numa garota para ficar com ele. Já sei vou deixar a porta entreaberta. Ele ao menos poderá decidir o que fazer.

Minhas coisas. Preciso me concentrar. Um farol de carro piscando, são eles. Não há mais tempo, fui. Nem olho para Toby que resmunga um adeus. Atropelo os degraus da escada de serviço. Silêncio absoluto. O porteiro cochila. Ótimo. Consegui. Entro no carro, não bato a porta. Sumi.

O voo no jatinho foi o único som que ouvi; nem um bom dia ou boa viagem do ocupante do carro foi dito, para que eu não o identificasse. Relaxo. Foi melhor.

Ilha de Páscoa. Deveria beijar o chão? Não. Tenho certeza de que não serei o “homem pássaro”. Ficarei um dia no hotel. Novo hóspede. Novo nome. Nova pessoa. Novo investidor. O solitário dono da pousada Orongo, sem número e sem nome de rua, que apenas proporciona visitas aos cerimoniais que definem o líder da ilha, no topo do vulcão Rano Kau.


Vivo e vivo.  A cada sol torno-me mais vivo na testemunha da cumplicidade dos moais tatuados e observando a perseverança das ondas do mar, onde o recuo transforma-se num novo avanço.

LA VEM BALA! - Oswaldo U. Lopes



LA VEM BALA!
Oswaldo U. Lopes

       Hiroito sentiu o cheiro de confusão pelo tratamento empregado pelo chefe, Dr. Fabricio:

— Sergio o cara levou três tiros à queima roupa, e não morreu. Esta internado na UTI, entre a vida e a morte, e não esta falando nem com o padre. O cara não é pouca coisa e está todo mundo perplexo querendo saber da polícia, vê se faz alguma coisa, aceito até milagre!

Sergio, milagre, o que mais faltava no tratamento: Benzinho me ajuda!! Só você pode me salvar! Bem se falhasse o benzinho ia ficar p... da vida. Era melhor se apressar ver o que se podia fazer.

Três telefonemas depois configurou a história:

Elpidio Siqueira era diretor financeiro de um banco para lá de importante. Estava entre os cinco maiores bancos privados do país. Dono de quantidade nada desprezível de ações do banco, era funcionário exemplar, detestava ser chamado de banqueiro, queria ser bancário embora isso só provocasse risos no povo diretamente dele dependente. Chegava cedo e saia tarde. Chegava antes de D. Clara, a fiel secretária de 20 anos que no momento estava também em estado de choque. Todo mundo sabia que ele tinha a chave da porta e mais, já a usara quando chegara mais cedo que o próprio guarda.

Não fora o caso em pauta, mas as câmeras só tinham sido acionadas mais tarde que o necessário pra que se visualizasse qualquer informação. Hiroito sabia que nada causava mais constrangimento e aborrecimento que a polícia acusar o banco de desleixo e falha grave. O que o benzinho lá de cima queria era solução do caso de modo rápido e eficiente.

O fato de a vítima não poder falar, estando entre a morte já ou daqui a pouco, o fato da câmera não estar ligada, o fato do guarda ter ido tomar café depois do Dr.Elpidio ter entrado, o fato de D. Clara estar fora de combate, os fatos e mais fatos que se acumulavam não ajudavam muito Hiroito na elucidação dos fatos.

Homicídio ou tentativa de homicídio tinham sempre as motivações de costume:

Passional, droga, negócio não muito limpo, divida grande que não se paga, dinheiro de modo geral, família.

Pelas características de vida do Dr. Elpidio eram passiveis de eliminação: droga, negócio não muito limpo, divida. Sobravam passional, família e dinheiro.

O relatório do investigador de plantão no hospital não deixava dúvida, tiros a queima roupa. Queima roupa como dizia a expressão literalmente, a roupa devia estar queimada pela explosão da pólvora. Isso só acontecia com o revólver ou arma de fogo colocada a menos de 40 cm de distância.

Como Hiroito apurou na investigação in loco, um guarda do banco em frente havia presenciado a entrada de uma pessoa jovem, sexo masculino, no prédio em questão, e mais que havia saído apressado, não decorridos mais de 15 minutos.

O quadro geral estava montado, tiro a queima roupa, implicando num certo relacionamento entre agressor e vitima. Suspeito do sexo masculino, jovem e nervoso. O calibre usado, automática 38, também falava para elemento do sexo masculino, dada o peso e as características da arma. Uma das balas fora retirada da poltrona onde estava sentado o Dr. Elpidio.

Hiroito descobriu num giro rápido pelos tabeliões de notas a existência de um testamento. Não foi difícil obter de um juiz a necessária autorização para conhecer o seu teor.

La estava o conflito e o jovem. Uma parte substancial do patrimônio do Dr. Elpidio era deixada para uma tal de Ernestina e seu filho Joaquim. Havia recursos suficientes para a família digamos numero um, mas havia ali o reconhecimento explícito da existência da família dois!

Não foi somente como banqueiro que Amador Aguiar fez escola entre os colegas, ali estava gente que herdaria um volume apreciável de bens e ações do banco.

Não foi difícil levantar a ficha do tal Joaquim. Seu registro constava apenas com o nome da mãe e como era comum nessas condições. Com pai ausente, tornara-se menino problema, mudara varias vezes de escola e concluíra a duras penas um curso de administração em escola de má reputação.

Era evidente que conhecia o Dr. Elpidio. Havia entrado no banco com segurança e eficiência, sabia claramente onde ficava a sala dele e como a ela chegar e sair rapidamente. Os tiros a queima roupa demonstravam à socapa bastante intimidade do criminoso com sua vitima.

A posição econômica de Joaquim também era conhecida. Quando e como descobrira seu parentesco como Dr. Elpidio era sabido, como confirmou D. Clara naquela tarde quando começou a se recuperar do choque. Pequenas quantias de dinheiro eram comumente depositadas na conta bancária de Joaquim, pequenas bem se vê que o Dr. Elpidio estava longe de ser mão aberta, mesmo com a família número um.

A cortina começava a se fechar, filho fora da família, fruto de caso vivido anos antes, rapaz com vida complicada, criado sem figura paterna, soube em algum momento de sua existência e dele tentava tirar proveito, em algum momento necessitara de quantia vultosa por dividas de origem a esclarecer e ante a negativa firme do banqueiro não hesitara em atirar a queima roupa.

Foi preso em Guarulhos com uma passagem internacional só de ida, cujo pagamento provavelmente envolvia sua mãe D. Ernestina. Mãe é sempre mãe, pensou Hiroito. Pensou também como Benzinho iria receber a noticia do esclarecimento do caso, decorridas menos de 48 horas do fato.

Registre-se, a medicina de guerra que agora era tão comum no Brasil, conseguira mais um milagre, parecia que o Dr. Elpidio escaparia dessa, Joaquim, não.


INFERNO GÉLIDO - Carlos Cedano

INFERNO GÉLIDO
Carlos Cedano

O velho ônibus que me leva para Bolívia percorre um caminho muito sinuoso e ninguém sai vivo!  Os precipícios são enormes e o ônibus não chegaria inteiro ao fundo do abismo.

Fechei os olhos e tratei de dormir, estava cansado e a altitude parecia contribuir para isso, mas meus pensamentos sempre me levam a meu passado recente:

O canalha de meu sócio me deixou na miséria, houve descuido de minha parte, eu sei que confiei demais nele, mas nada justifica o que me fez tínhamos ambos uma vida boa e ele quis ficar rico numa jogada só! Pensou que ia escapar né Seu cretino! Mas consegui achar-te e muito a meu pesar tive que matar sua mulher e seu filho mas é você  o verdadeiro culpado do que aconteceu, eu sempre fui direito contigo e você me pagou assim você mereceu, mas as mortes sua mulher e de seu filho é uma conta que acertarei lá encima!

Passamos por La Paz e fomos direto a Guaqui, o porto Boliviano no Lago Titicaca,  tomamos numa pequena embarcação e nessa mesma tarde em Puno que fica à beira do lago.  Uma hora depois pegamos um pequeno ônibus que nos levou até La Rinconada num percurso total de quase duzentos quilômetros. Após cinco horas chegamos a nosso destino. A rota era muito difícil e a velocidade neste percurso é muito baixa. Se a viagem até Puno foi cansativa, a de Puno até La Rinconada, passando por Juliaca e outros povoados perdidos na imensidão dos Andes, foi extenuante!

Chegamos ao amanhecer. A paisagem é de extrema beleza e de cima dá pra ver os glaciares que contornam um lado da lagoa. A cidade em frente aos glaciares, as casas de material improvisado e as precárias construções estão inseridas num ambiente de mau cheiro e sujeira, a miséria é generalizada. Os rostos tristes e os olhares perdidos dos habitantes transmitem a sensação de solidão.

Onde fui me meter? As noticias que me deram deste lugar não falavam das condições da cidade: sem esgotos, sem serviços públicos e, ainda pior, sem perspectivas de melhoria! Só vim aqui por que me disseram que no meu caso o lugar é o ideal para passar “despercebido”, sem policia, nem perguntas sobre quem é você ou que faz?

Ficaria uns dias para ver as possibilidades que a cidade e a mineradora podiam oferecer a um cara como eu cuja única experiência era em vendas e comércio. Como suspeitava o lugar não oferecia nada pra mim “salvo se quisesse trabalhar no garimpo ou nos túneis” me disseram com certa ironia.

Quando conheci os garimpos vi que os trabalhadores além de longas jornadas de trabalho sofriam com a intoxicação do mercúrio e outros gases, mas isto não se comparava com as condições dos mineiros que trabalham nos túneis, são homens de vida curta pela falta de ar nos túneis e poluição. La Rinconada está a cinco mil e cem metros sobre o nível do mar e o ar é rarefeito contribui para tornar o lugar ainda mais tenebroso.

Os mineradores trabalham no sistema dito de cachorreo isto é, trabalham trinta dias corridos, e no trigésimo primeiro dia eles têm “direito” a levar terra das escavações até o limite que seus ombros podem suportar. Se o minério contém ouro ou não, é uma questão de sorte! Direitos sociais e trabalhistas, férias? Esqueçam, aqui é outro mundo!

Mas as mulheres sempre levam a pior! Elas não podem trabalhar na mineração, há a crença de que o ouro vai desaparecer se elas fizerem isso. Além do machismo que prevalece no país a crença é reforçada por tradições muito antigas. As mulheres só podem trabalhar além das entradas das minas onde procuram ouro nos resíduos que os caminhões jogam nas encostas das perigosas ribanceiras, são chamadas de pallanqueras.

No total fiquei quinze dias em La Rinconada e fui embora com a certeza de ser um lugar caótico, corrupto e brutal!

Parti para Juliaca a quatro horas de La Rinconada de ônibus, me hospedei num pequeno hotel barato perto da Plaza de Armas onde há muitos bares. Caminhei bastante, conheci a cidade que não é muito grande e fui dormir cedo.

Acho que estou me arrependendo de ter fugido, sinto constante ansiedade com a certeza de que alguém me esta observando e acordo com pesadelos e medos. Hoje no ônibus que me trouxe de La Rinconada tive o desejo de pegar outro imediatamente, ir para Puno e fazer a viagem de volta para São Paulo.  Estou com um conflito interno e não consigo separar as coisas na minha cabeça!

Alguns dias depois num bar que conhecia, me deparei com uma pessoa que tinha visto antes, nos olhamos e com aceno de cabeça nos saudamos, senti medo e tratei de me controlar, estou ficando paranoico, pensei. Na próxima vez ele aproximou-se e me disse:

        — Bom dia, meu nome é Yuri Hassan, sou marroquino nascido na Argentina e vim para cá para montar um pequeno negócio de tecidos. Você esteve no inferno gélido? - Perguntou com espanto o marroquino e emendou - Eu estive, mas dois dias depois voltei correndo, esse lugar é um pesadelo, é dantesco e desumano!

        —  Sou Ramiro e penso instalar um negócio, mas ainda não sei onde, estive em La Rinconada sim, mas também não o achei um bom lugar!


Fizemos boa amizade, com o tempo me aceitou como sócio e começamos amplia-lo, minha experiência na área de comercio e vendas ajudou bastante e em poucos anos já tínhamos crescido e já  vendendo para outras cidades as roupas simples para mulheres e crianças. Após quinze anos de trabalho intenso não podíamos queixar-nos, as coisas continuavam indo bem, ampliamos ainda mais os negócios, até tínhamos uma pequena loja em La Rinconada e uma grande em Puno.

Estou com medo e ansioso tenho impressão de que uma ameaça está perto de mim, os pesadelos continuam e os fantasmas de meu passado me “visitam” com mais frequência. Meus remorsos e temores agora martelam minha cabeça persistentemente. Que posso fazer? Acho que preciso enfrenta-los.

Hoje é um dia feliz, meu amigo Hassan casa-se com uma linda moça chamada Marisol, eu serei padrinho dele e teremos uma bela cerimonia e uma festa ainda melhor. Eu já preparei todas as coisas necessárias para que meu presente faça a felicidade do casal. Tudo saiu como previsto e todos os familiares da moça e amigos do noivo estivemos muito felizes, O casal é uma promessa de amor eterno!

Dois dias depois, quando já estaria viajando de volta pra São Paulo, Hassan e Marisol receberiam de meu advogado a escritura e a procuração que transferia pra eles todas minhas propriedades e direitos. Na minha carta agradecia a Hassan sua amizade e desejava pra o casal as melhores felicidades!


Parti para defrontar-me com meus temores e remorsos, tinha um encontro marcado com eles no Brasil!

PROCURANDO LONGE O QUE ESTA PERTO - Oswaldo U. Lopes



PROCURANDO LONGE O QUE ESTA PERTO
Oswaldo U. Lopes

        A discussão toda começara com a ideia de que para fazer turismo era preciso viajar para lugares distantes. Antônio e Cândida se opuseram ao conjunto dos outros seis e firmaram pé, é possível.

Procurar longe o que está perto desafiaram e ainda empregaram a palavra serendipidade é o que vamos fazer se vocês não acreditam. O Taj Mahal fica virando a esquina e vamos prová-lo.

Bem, até ai foi fácil. Difícil foi passar do ato ao fato. Decidiram todos que o mundo acabava aos 60 km de distância do Marco Zero de São Paulo, aquele da Praça da Sé.

— Embu não vale! - gritou Berenice.

Como o grupo era todo chegado a viajar começou uma rodada de vale não vale. Os quatro casais adoravam viajar e já o tinham feito a perder de vista. Engraçado, a regra era:

Mais de dois é mil, quer dizer não iriam nunca em grupos nem de quatro, sabiam e praticavam a ideia que mesmo indo em dois e casados, às vezes a coisa esquenta, imagina em oito. Reuniam-se toda quinta-feira para falar de viagens ou coisas afins. Preferiam a quinta-feira porque na sexta ficava tudo cheio inclusive o boteco.

 A bem da verdade, chamar de boteco aquele lugar amplo e charmoso era mais por petulância do que por realismo. Berenice achava que apesar do chops ótimo tirado com glória e dos petiscos excelentes, sobressaindo a carne frita e a coxinha tão em moda ultimamente, o lugar era machista. Olhando em volta você ia ver muito mais moças do que rapazes,  quer dizer, era implicância dela. Explica-se, no banheiro numa porta estava escrito Blá e na outra havia dezenas de Blás espalhados pela porta inteira.

Nenhuma outra indicação e mesmo assim nunca se registrara nenhuma confusão de gênero ou uso inadvertido dos banheiros. Machismo ela confirmava implacável.

Enfim resolveram que cada par podia indicar um lugar perto de São Paulo que não podia ser utilizado pelo casal desafiante. La se foram: Embu, São Roque e Pirapora. Também foi excluído tudo que era dentro da cidade de São Paulo que todos já tinham explorado aos cântaros. Por isso Jardim da Luz e arredores, Convento da Luz, Liceu de Artes e Ofícios, Ibirapuera e seus prédios, Freguesia do Ó, estavam fora de cogitação.

Antônio e Cândida pareciam ter nervos de aço olhando tudo aquilo com extrema superioridade, esperando o momento certo para puxar o az da manga.  E lá veio ele:

PARANAPIACABA !

É claro que não exibiram o az naquele momento, a aposta era percorrer um determinado roteiro marcá-lo, fotografá-lo para que pudesse ser contestado ou seguido pelos outros casais.

Marcada a reunião para dai uma quinzena, numa quinta-feira é certo, encontraram-se para ver o que o casal desafiante tinha feito e qual era o lugar serendipidado.

Começaram as projeções fotográficas e o roteiro:

1- Estrada Guarujá São Sebastião. Não se preocupe de olhar para o mar, olhe para a esquerda e entenda porque Dinah Silveira  Queiroz chamou seu romance de: A Muralha.

É uma pequena confusão, chamar de Serra do Mar, na verdade é um planalto de 800 metros de altura que se precipita para o raso do mar. É uma queda enjoada que não tem brecha, não tem passagem não tem estrada.

A subida para São Paulo foi sempre difícil o mais das vezes feita com mulas ou burros carregados por caminhos íngremes e escorregadios. Quando a cultura cafeeira explodiu nos meados do século XIX, havia motivação e dinheiro para tentar alguma coisa. Quem era que entendia mais de estradas do que os ingleses? Foram convidados e aceitaram. Criou-se a SPR (São Paulo Railway) e os ingleses tomaram conta do alto do planalto e construíram desde habitações, vilas até casa de máquinas e estações. O café vindo da alta Paulista, chegava a Jundiaí e de lá a SPR por um engenhoso sistema funicular levava a carga ao porto de Santos.

Agora aparecia o segundo ponto do roteiro:

2- Pela manhã caminhada a pé ao longo da estrada Caminho do Mar com parada nos principais pontos turísticos e visita aos que estiverem abertos:
Pode-se, pela Via Anchieta, ir de carro até um amplo

estacionamento que marca o inicio da estrada e de sua parte aberta a visitação, porém somente para caminhantes.

Ao longo da descida vamos ver a Casa das Visitas, o Reservatório do Rio das pedras, o Pouso Paranapiacaba, o Pouso Circular, o Monumento do Pico, o Padrão Lorena, o inicio da Calçada do Lorena, famosa estrada calçada de pedras que é a primeira estrada pavimentada do estado de São Paulo, o Rancho da Maioridade e outros pontos além, é claro, da incrível vista que se tem do mar.

Em cada canto uma história, um nome a ser lembrado, a presença do homem e seus desafios. Um trem que sobe e um que desce como se fosse um elevador em que um conjunto sobe puxado pelo peso que desce. É possível ver fotografias do famoso Serra Breque a máquina que deslizava morro acima e morro abaixo levando o café para a exportação.

Os ingleses sempre muito ciosos dos costumes e tradições locais mantiveram o nome de Paranapiacaba que na linguagem indígena quer dizer lugar de onde se vê o mar. Nos dias claros isso não só é verdade como é deslumbrante. Paraná é uma raiz conhecida de palavras de origem indígena denotando sempre grande quantidade de água.

 Ainda estão lá o alojamento dos casados de um lado e o dos solteiros do outro, bem como a casa do mandachuva que vigiava e impedia a passagem dos solteiros para o outro lado. O local de moradia ficou conhecido como Vila dos Ingleses e era regido por costumes e hábitos totalmente ingleses.

A engenharia moderna, o concreto foi tirando o lugar dos trens no transporte do café. A SPR  durou de 1867 até 1946 quando terminou o contrato da concessão e a estrada foi encampada pelo governo do estado. Outros pontos de escoamento foram construídos e concorriam com o sistema criado pela  SPR  que por fim foi desativado restando, no entanto, inúmeras lembranças, máquinas e lugares para serem visitados.

A inauguração da Via Anchieta em 1947, criou uma excelente rodovia que esta lá ate hoje, mas antes disso era pelo Caminho do Mar que as cargas e automóveis atingiam o litoral. Tomar um lanche no Rancho da Maioridade era um passeio lindo para os felizes proprietários de um automóvel.


Ao fim da exposição e da vista do maravilhoso conjunto de fotografias, tiveram todos que dar parabéns ao casal Antônio e Cândida e a sua percepção de que era possível fazer turismo e viagens de qualidade logo ali, virando a esquina.

O MEU CURIÓ - M.Luiza de Camargo Malina


O MEU CURIÓ
M.Luiza de Camargo Malina

Ora bolas! As coisas acontecem no momento errado. Dólar em alta e eu os comprei. Tempo de necessidade e o dólar cai. Comigo é assim, ao contrário. Estou deslanchando e aí chega a bola e bate na canela. E como dói. Já fiz de tudo, menos trabalhar, é claro. A herança foi dita que era para toda uma vida. Pois é! Mas não esperavam que eu fosse viver tanto. A vida é cheia de surpresas, uns com tanto e outros que não sabem administrar nada. Não nego fui um bon-vivant. Mas meu Curió... ah! Meu Curió. Tinha cento e sessenta, todos bem trinados. Acho que foi inveja do vizinho. Começaram a morrer. Não, não, deve ter sido a falta do mato. Também, resolvi criá-los em confinamento. 

Por que é que eu fui fazer isto. O espaço era grande, mas também entre eles apareceram uns cabeça mole e rápido mudaram seu trinar. Que trabalho, tive que separar todos. Ouvir de um a um a canção e isolá-los em outro galpão. Lá foi mais outro tanto de investimento. Cabeça mole de um lado e os perfeitos nas notas, de outro, quase que enclausurados, assim o som não iria interferir nos outros. É foi aí que começou o furo no saco. Tira dinheiro daqui e dali. Vendi uma parte da fazenda, depois outra. Fiquei com a mais bonita, perto do lado, tudo por causa dos curiós. Apareciam muitos. Eu não contava com uma coisa, a inveja, a cobiça de outros criadores. Aos poucos foram rareando e acabar por sumir. Alcançavam preço alto no mercado. Arrisquei vender um, apenas um pensei. Afinal tenho cento e setenta e oito curiós em três galpões. Que falta me fará um. A quantia foi boa. Boa mesmo! É acertei na vida. Vou viver dos curiós já que as terras já se foram.
O primeiro Curió, Oryzoborus angolensis, bonito nome científico, mas o que eu mais gostava era o significado indígena “Amigo do homem”. Este tipo de amizade preenchia minha s musicalidade da minha vida solitária.
Precisava vender um, apenas um. Escolhi, escolhi e escolhi. Estava difícil. Fiquei com dó. Em frente a gaiola eu ficava e eles se apresentavam. No traje preto estufando o peito avinhado movimentando as leves penas brancas das asas, disputavam no trinar querendo ser o escolhido. Ah! Coitado! Mal sabia qual seria o destino! De que adiantaria ser o dominador, o melhor se afastado de mim! Que situação a minha! Foi difícil, não nego.

Foi aí que começou. Resolvi vender o melhor. O mais dominador. Outro tomaria a posição. Preciso do dinheiro. Ela será o chamariz. Outros compradores virão. Multiplicando por uns vinte, por aí que venderei, fico bem, posso aguentar por mais um ano. Crio mais, Faço outra seleção, se preciso, mais um galpão. Sim! É isso aí. Vou vender.

O Curiozinho... ôh meu curiozinho! Que dó.

Lá fomos nós para a cidade. O aviário me aprontou uma. Avisou aos criadores que eu iria vender o primeiro Curió. Sabiam da minha criação secreta. Ninguém lá entrava para não contaminá-los. Eram sadios. A procura foi tão grande que ele organizou um leilão.

Que susto! Ao chegar o que eu vi! Gente apinhada na porta. Parei. Olhei aquilo tudo. E eu vi:

- Ele chegou. Depressa, Vamos começar. Qual o primeiro lance?

-Eu, eu 50 mil dólares.

- 80.000

- 100.000!

Comecei a ficar estonteado. O que estava acontecendo? Estão vendendo o aviário?

- É meu, bradou uma voz arrouqueada baforando uma boa leva de charuto cubano: três mil dólares e não se fala mais nisso.

Nisso? Que nisso é esse? Será que o caso é comigo? Meu curió. Ué! Vale tanto! Bom, vamos ver o qual é o furdunço dos amigos. A grana é boa. Ao me aproximar ouvi alguém gritar:

- Polícia!


Foi um corre-corre danado. Onde é que eu iria me esconder com a baita gaiola! O carro estava com pouca gasolina. Que situação. Armaram para mim. Meu Curió é meu. Pois é! Foi assim.

PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA DOS CLUBES




PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA DOS CLUBES

Concurso Literário - Inscrições abertas até 31 de junho de 2016.
Concorra com Conto, Crônica ou Poesia.
Apenas 1 obra por autor.
Veja todo o regulamento e premiação no link abaixo:



Marias - Ises de Almeida Abrahamsohn


Marias  
Ises de Almeida  Abrahamsohn


Maria das Dores era uma máquina! Levantava-se às quatro e meia da manhã, fazia o café ralo servido com pão e margarina aos três filhos  cambaleantes de sono. Às cinco e meia, café tomado e  cara lavada  saíam todos naquele breu. Andavam quinze minutos até o ponto de ônibus.  O dia já clareava.  A rotina era  a mesma  todos os dias: sol ou chuva, chuva ou sol,  pegavam o primeiro  ônibus para a cidade. Uma hora sacolejando, o motor velho resfolegando.... Será que não vai quebrar no caminho?

Sete horas em ponto, Maria deixa a criançada na porta da escola. Bendita escola onde finalmente conseguira o tempo integral para os piázinhos.  Dia passado, viria buscar a cria na hora da Ave-Maria, já escolada e alimentada, pronta para a cama.
Maria pega a segunda condução. Consegue entrar na lata de sardinha à  custa de seu guarda-chuva.

_ “ Guarda- chuva dos bons este. Paguei dez  real no camelô, caro, mas  de muita serventia, não contando  a de   aparar  as águas.  Escolhi um de ponta fina. Falei para a Joana: _ tem que ter ponta fina senão não presta .  A gente  aperta  ele sobre o pé dos marmanjos que bloqueiam a porta e o cara já sai de banda prá gente subir  no degrau. Tem  que fazer  a abordagem com classe e falar : _ desculpe, moço, que é pro cara não zangar.  Agora, têm aqueles sem vergonha  que vêm  por trás se encostar na gente.  Aí , eu finco a ponta no pé sem piedade.  Daí  precisar mesmo um  de  ponta fina.  O camarada  só não grita de dor para não se avexar  e  se afasta logo, logo. “ 

Mais cinquenta minutos até Maria chegar ao trabalho. Na loja moureja até duas da tarde.

_ Das Dores, traz os pratos do depósito!  Das Dores,  arrume na estante, não vá quebrar nenhum ... Das Dores pega as caixas de  vasos, das Dores  isto, das  Dores aquilo .....

No intervalo da manhã, Maria tira da sacola o pão com margarina e a garrafa de café.  A barriga roncando se acalma.

_ “Não aguento mais esse nome, das Dores, que ideia, por que me deram esse nome? Põe a gente prá baixo! Nunca tive dor na vida, tirando as de parto. Nem dor de corno  que, graças a Deus,  o Zequinha nunca foi de ir atrás de rabo de saia. Coitado, esticou as canelas ainda  novo. Mal de Chagas,  foi o que o doutor disse.  Nem conheceu o último moleque. Sozinha com os três não está fácil, o dinheiro  não dá  pra nada. Se ficar doente,  quem vai acudir ?”

  Quinze para as duas da tarde, Maria se apronta para sair.  Desodorante, que o calor está de rachar, batom discreto, escova para alisar o cabelo preso com fivela de tartaruga. _ Tartaruga legítima, pois sim, que acredito, respondeu  ao vendedor enxerido.  Olha-se no espelho  do banheiro, sorri , faz pose de modelo ....

 _ Ainda dou pro gasto!

Pega a maleta com os produtos de beleza e vai visitar as freguesas. Vende de tudo: Avon, Natura, perfumes, bijuterias, calcinhas. Tudo comprado na Vinte e cinco de março. As freguesas, outras tantas Marias: mulheres de zeladores, as empregadas e as babás nas praças,  mocinhas do escritório que fazem lanche da tarde na barraquinha. Caderninho na mão anota os pedidos, os pagos e os fiados. Vende as ilusões: há cremes para tudo.  Para alisar rugas ou  cabelos , para emagrecer ou anti-espinhas:  todos  com resultados garantidos em  quatro semanas.

Juntando os dinheirinhos daqui e dali Maria consegue pagar   o aluguel  da casinha e alimentar a si e às crianças.

Naquela tarde não conseguia vender muita coisa.  O calor afugentou  as freguesas.  Ao caminhar na calçada do bairro chique, os saltos  marcam  o seu progresso:  tloc, tloc... Com os pés doendo, aproveita a sombra da sibipiruna  para um gole da garrafinha d´água. Já está na hora de voltar e buscar os pequenos na escola. De repente, vê a maleta marrom entre as azaleias que margeiam as  grades do prédio. Nem viv’alma por perto. Olha para todos os lados: ninguém!  Pega a maleta. Nova,  couro  legítimo . Só pelo couro já vale a pena. Sai andando, agora com os dois braços ocupados.  As maletas pesam demais nos braços que se movem alternadamente: para frente, para trás,  para frente , para trás...

Chega enfim ao ponto de ônibus ainda temerosa de ter sido seguida por  alguma testemunha.  Suspira aliviada. Conseguira um  improvável  lugar sentada. A  maleta  marrom mantém apoiada sobre os joelhos,  escondida pela sua já surrada maletinha  preta.  Não iria correr o risco de despertar  cobiça  de algum desonesto. Só iria abri-la em casa.  O  cheiro de couro novo  se somava   a  um estranho calor  a  aquecer-lhe as coxas.

_” Deve ter dinheiro dentro.  Será mesmo ?... Que sorte se tiver alguma grana. Estou tão precisada.  Mudar  para uma casinha ou apartamento  meu  e das crianças... Perto  do serviço, longe  das ruas  perigosas...  Se der,  pagar escola melhor para eles....Vai ver que não tem nada dentro,  apenas papéis e celular.  Terei que jogar fora senão ainda me descobrem e prendem por uma bobagem destas..”

Os meninos já esperavam  a mãe no portão da escola.Acharam um banco livre  no ônibus. Que sorte!  Mandou a meninada tomar banho, por os pijamas  e ver televisão no  único cômodo que servia de dormitório e sala para mãe e filhos.  Das Dores colocou a maleta na mesa da cozinha.  A fechadura resistiu. Ainda hesitou, mas  meteu-lhe uma chave de fenda.  Havia dinheiro,  muito dinheiro ! Dinheiro em três cores: o nosso só em notas de cem,  notas verdes  que ela sabia serem dos Estados Unidos – dólares, tinha visto na TV -  e outras maiores, azuis,  também marcadas como cem e quinhentos . E que cheiro  !

_ “Perfume este  dos bons , cheiro de dinheiro novo.”

  Maria respirou fundo. Sabia o que ia fazer.

Não seria mais Maria das Dores. Doravante  seria  Maria das Graças, Maria da Glória, Maria da Felicidade – será que existia tal nome ? Qualquer  outra Maria,  com menos dores. E os filhos  não seriam mais  os moleques  da “das Dores”.  Teriam casa  nova, escola das boas  e lanche de pão com manteiga e queijo. E aquelas verdinhas perfumadas, sabia que podia trocar no shopping. Tinha visto o pessoal naquelas casas  de nome esquisito e com a palavra câmbio.  Teria que fazer aos poucos. Por enquanto,  na vida,  tudo igual para não chamar atenção. Depois, melhor mudar de cidade, para onde não a conhecessem.

Maria  escondeu  o dinheiro e guardou a maleta vazia . As crianças, curiosas, perguntaram.

_” Estava vazia. Amanhã vou levá-la para o serviço. Talvez  alguém compre”.
Nas férias de julho a família mudou-se para  o interior. Maria deu entrada numa casa  e montou  uma lojinha de artigos domésticos – afinal tinha experiência no ramo.  O nome?  Simplesmente, Bazar das  Marias.