Mistérios nem sempre são Solucionados - Silvia Maria Villac Vicente de Carvalho

 




Mistérios nem sempre são Solucionados

Silvia Maria Villac Vicente de Carvalho

 

Mr. Burman, o típico escocês, fumava cachimbo na aula com uma classe única e todas as mulheres – a maioria na turma de literatura inglesa – tinha uma queda por ele. Ou seja, era disputadíssimo!

Denise, no caso, uma professora de compreensão em inglês, era particularmente interessada e estava sempre tentando dar umas investidas para cima dele, jogando seu charme e sorriso cativante, mas ele se mantinha distante e se fazia de desentendido, porque corria solto entre o corpo docente que ela não era flor que se cheirasse.

Mr. Burman, como era chamado por todos, independente de seus dotes físicos, era um professor excelente e muito querido, porém extremamente reservado. E havia a história da tal aliança na mão esquerda que intrigava a todos. Seria uma maneira dele tentar brecar as investidas? Ou seria ele viúvo e ainda apaixonado por sua mulher? Era um mistério que os alunos do curso de letras queriam desvendar. O que será que havia por detrás daquele homem de barba cerrada e olhos azuis-celestes?

Ana Luiza, aluna do último semestre, era uma pessoa que, apesar de não gostar de se socializar e apreciar o isolamento, parecia ser a única que mantinha um pouco de contato com o escocês. Porém, era um túmulo e não se arrancava uma palavra daquela boca. Quando não estava em aula, passava a maioria do tempo no laboratório.  Uma vez ou outra, os dois eram vistos juntos na biblioteca, mas nunca em atitude suspeita.

Em uma manhã de setembro, logo após o feriado da independência, Mr. Burman não apareceu para dar aula e a classe ficou em polvorosa, já que era a primeira vez que isso acontecia.  Os alunos nem aproveitaram a folga porque ficaram preocupados com a ausência do querido professor.

Passou-se uma semana, muito se falou e se especulou, mas nada de concreto se apurou. O fato é que ele retornou para a faculdade com um ar mais jovial, bronzeado e relaxado. Apesar dos alunos estarem com vários pontos de interrogação no rosto, ninguém ousou perguntar nada e, após a aula, ele saiu da classe do mesmo modo que entrou – sem dar qualquer deixa do que tinha ocorrido.

Lembro que era uma sexta-feira e que havíamos combinado um almoço no dia seguinte com um casal de amigos em um restaurante francês tradicional, no Largo do Arouche.

Quando chegamos ao La Casserole, o manobrista foi logo se desculpando pelo barulho, pois havia uma mesa grande que estava comemorando um casamento. Meu marido ficou aguardando o ticket do carro e o Maître me fez entrar.

Assim que adentrei o recinto, senti aquele cheiro de fumo de cachimbo familiar e, imediatamente, me deparei com meu professor. Por um segundo houve aquele momento constrangedor, quebrado por uma mulher morena, bonita, também bronzeada, na faixa de seus 45 anos.

─ “Muito prazer, eu sou a noiva!”, erguendo uma taça de champanhe com a mão esquerda.

─ “E essa é minha aluna na faculdade”, ele disse, sem mencionar meu nome porque acho que nem sabia como eu me chamava.

Ainda surpresa, enxergo, logo ao lado da cabeceira da mesa, Ana Luiza, a estudante tímida que costumava ficar no laboratório ou biblioteca. Ela veio me cumprimentar, explicando que era a filha da Laura, com quem Mr. Burman tinha acabado de se casar. Agora estava explicado o porquê deles se encontrarem ocasionalmente e nunca em atitude suspeita, eu pensei. No canto oposto, lá, no fundo, avisto mais um rosto familiar. É Denise, a professora charmosa, mas que hoje, ao invés daquele sorriso exuberante, vejo um sorriso amarelo, como que tentando disfarçar seu desapontamento.

Nisso, meu marido chega acompanhado de nossos amigos, dou um abraço e beijo no casal recém-casado, desejando-lhes felicidade e, em seguida, nós quatro nos dirigimos para nossa mesa. Não sem antes eu notar que havia uma nova aliança no dedo anelar do professor, dessa vez de ouro branco, igual à da noiva, que vi quando ela levantou a taça de champanhe.

Quanto à antiga, bem, essa é uma questão que permanecerá sem resposta. Mesmo porque, a quem interessa não é mesmo? Apenas concluo que, por estarem ambos bronzeados, tinham viajado em lua de mel antes da cerimônia no feriado prolongado de 7 de setembro.

 

 

OS AMIGOS - Antonia Marchesin Gonçalves

                            





OS AMIGOS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             Vera, querida filha, sai do quarto, pare de estudar e escrever, vem dar um mergulho na piscina, está muito calor, disse sua mãe. A mãe de Vera não se conformava com a filha sempre sozinha e, o pior, estava no último ano da faculdade de literatura e escrevia crônicas polemicas e boas para uma revista, ganhando bem, não assumia a autoria, usava pseudônimo, tamanha timidez. Só confiava no professor Eduardo, que ela desconfiava ser gay, ele usava aliança na mão esquerda, sem ser casado.

             A única amiga de Vera era a Sandra, o oposto total dela. A mãe Iolanda, experiente psicóloga, sabia quem era a verdadeira Sandra. Pela sua experiência, Iolanda sabe que a filha estava sendo usada pela amiga. Por ser muito estudiosa, sua filha despertava o interesse de sua amiga que, com a certeza, sem estudar muito, a ajudava nos textos de literatura, para poder passar e se formar. Cativante, era muito requisitada para as festas, ela fazia questão de participar e dizia que o social era importante para o sucesso na vida.

             Iolanda sabia também que, quando ela dormia em sua casa, à noite, ela mexia nas pastas de Vera e fotografava, depois mudava algumas frases, com isso disfarçava a cópia, ficava indignada. Várias vezes ela alertou a filha, que respondeu não se importar, eu escrevo tantas e até ganho, apesar de eu assinar com o pseudônimo de Nunes e com a supervisão do prof. Eduardo, estou muito bem e feliz.  Iolanda também se preocupava com da queda de sua filha pelo professor. Renomado, atraente, palestrante e premiado, tendo sua preferência pela música clássica, refinado, os dois se entendiam, mas aquela aliança de casado sem ser se sentia desconfortável. Nunca o vira com acompanhado, nada dizia sobre sua vida pessoal, isso a intrigava demais.

            


                   Para seu espanto, após a formatura, Vera contou à mãe que iria se casar com o Eduardo, ele a pedira em casamento. Mas ele não é casado? Perguntou Iolanda, não mãe, é viúvo, mas nunca quis tirar a aliança. A Sandra vai ser a minha madrinha. Feliz, a mãe providenciou o casamento perfeito, igreja, bufê, flores, a festa regada a vinho e champanhe. Vera não precisou se preocupar com nada. O casal foi morar no apartamento do professor, grande, espaçoso e bem decorado, que deixou a mãe mais tranquila. Meses se passaram, ela visitava sempre a filha, por ser única, sentia muito a sua falta.

             Sempre que ia, encontrava a Sandra, que dizia que, quando saía do escritório tarde, dormia lá, ficava menos estressante. No dia do aniversário de Vera, Iolanda resolveu fazer uma surpresa logo cedo, tinha a chave do apartamento, pois uma vez por semana levava a sua faxineira para fazer a faxina. Tudo em silêncio, entrou no quarto e, qual não foi a sua surpresa, encontrou os três dormindo juntos, nus e agarradinhos. Ela saiu do quarto e esperou que acordassem.

             Ao acordarem e viram a mãe resolveram se explicar. O Eduardo na realidade era totalmente sem interesse sexual por mulher ou homem, por isso usava a aliança, Sandra e ela eram amantes desde solteiras, apaixonadas desde a faculdade e para manter as aparências combinaram o casamento, assim não despertavam a atenção da mídia.

                   Com toda a sua experiência de psicóloga, foi difícil digerir essa situação. Abraçou a filha, deu o presente e desejou a todos que é isso que os faz felizes, assim seja.


QUE COISA! - Ledice Pereira

 


QUE COISA!

Ledice Pereira

 

Tenho percebido que, com o passar dos anos, o esquecimento bate cada vez mais e a gente começa a se utilizar da palavra “COISA” com mais frequência.

– Pega aquela COISA ali pra mim. Ou ainda:

– Vem cá. Vou te mostrar uma COISA.

E quando o neto chega:

– COISA linda da vovó!

E por aí vai.

O pior é quando a gente quer falar rapidamente de um objeto que não nos vem à cabeça. Outro dia me peguei falando para meu filho:

– Aquela COISIQUINHA tava ali. Ele ficou me olhando, como se eu tivesse falado um palavrão, hahaha.

E COISA vai, COISA vem, a gente vai usando essa palavrinha mágica que significa tanta COISA.

É que a cabeça da gente, com o tempo, vai ficando cheia de COISA. É muita COISA pra pensar. COISA que até Deus duvida.

E digo pro meu marido:

– Vamos até o Shopping comprar umas COISINHAS? E ele, que detesta ir ao shopping, me responde:

– Que tanta COISA você precisa comprar que precisa ir ao Shopping?

Concluo que realmente não é tanta COISA assim e desisto de ir longe.

Posso resolver todas as COISAS por aqui mesmo, afinal aqui perto tem muita COISA!

Além disso, vai sobrar tempo pra fazer tanta COISA!

Mas, sabe de uma COISA?

A COISA que eu mais quero nesse momento, é não fazer COISA nenhuma.

 

A ERA DA ALEGRIA - Deonísio da Silva * - TEXTO PARA LEITURA





A ERA DA ALEGRIA

Deonísio da Silva *

 

Uma coisa era uma coisa.

 

O povo do livro se recolhia para ler e estudar, ouvir outros tipos de música. Havia livros, revistas, jornais, bibliotecas, livrarias e enfim parecem mais vívidas em minha memória as coisas escritas e os silêncios.

 

Todavia é preciso dar o devido desconto porque o barulho e os ágrafos nunca foram tão poderosos quanto o são hoje, pois os bárbaros voltaram e querem subjugar a todos, restando-nos o refúgio até que passe a tempestade.

 

Nas galerias e museus, havia quadros, pinturas e esculturas que falavam ou até soluçavam, dependendo do repertório da vida interior de cada pessoa.

 

Sim, vocês podem não acreditar, mas a vida interior das pessoas não era assim tão escassa e seu fogo era atiçado pelo que viam, ouviam, liam e contemplavam, recolhidas, sós ou agrupadas em teatros, cinemas, salas de música, igrejas, templos etc. Ou por outros ventos, como passeios, excursões, viagens, férias, fins de semana. E sobretudo na vida escolar ou universitária.

 

Outra coisa era outra coisa.

 

Na hora de outras alegrias, como a da dança acompanhada de canções, talvez aparecessem pernas e calcinhas, mas este não era o propósito.

 

Imperava o gosto por outras músicas, que eram ouvidas enquanto o corpo falava de outros modos e sem o controle ou orientação de nenhum "personal music" ou "personal dance". Você não estava treinando para depois se exibir e, sim, para divertir-se. Suar, você suava, como no trabalho para ganhar e manter a vida.

 

Cada pessoa se mexia ou se sacudia como melhor lhe aprouvesse, com naturalidade.

 

Seios e bumbuns estavam guardados em lugares que lhes garantiam que a porta somente seria aberta a quem as mulheres escolhessem ou acolhessem, caso escolhidas.

 

Aves, tais como pintos ou pintainhos, rolas ou outros pássaros, que não fossem do galinheiro ou da campina, estavam guardados e protegidos em cuecas onde poderiam crescer e viver viçosos, sem o escândalo e sem o exagero de calças muito apertadas.

 

Não era de bom tom designar a mulher ou partes destacadas de seu corpo por palavras semelhantes às dirigidas aos bichos de terreiros e pastos (galinha, vaca) ou dos banhados (perereca). Não! As comparações vinham com certas flores do jardim ou frutas do pomar.

 

Afinal, no arquétipo dos mitos, Adão, mesmo tentado por cobra, mas não por perereca, comera uma fruta: a maçã oferecida, não tomada das mãos e posse de Eva, que a recebera por doação indevida da serpente, que a roubara de um pomar que não era dos três. O dono era Deus.

 

Ainda assim, Adão e Eva tinham buscado outros sabores, cores e odores do saber, sem excluir o sexo, naturalmente, que, embora, incluído, não é eterno como o saber.

 

A aproximação podia ser visual, olfativa, tátil ou por outra química. E talvez por outros propósitos naturais, alguns inconscientes, mas nenhum ofensivo à mulher, que, claro, sempre teve atrações em seu parquinho, com entrada grátis a quem ELA escolhia, pois a entrada deveria ser concedida por amor ou algum sentimento assemelhado, tudo mediado por outras afinidades mais abrangentes, como as nossas inevitáveis transcendências.

 

O homem, feito do pó da terra, ao pó voltará, mas o Espírito sempre vai soprar sobre ele neste breve intervalo entre o berço e o túmulo. O mistério é se haverá vida depois da morte, mas já há bilhões de provas de morte depois da vida, sobejamente documentadas.

 

Nesses tempos dos verdes anos de nossa idade, nossa força e nosso vigor, tomava-se cuidado para evitar a vulgaridade. E o mimeógrafo ficava na secretaria das escolas, não no meio das pernas.

 

As orientações sexuais escolhidas não eram proclamadas. Diziam respeito à vida privada de cada qual, outro território sagrado, não proibido à bisbilhotagem, mas era recomendado respeitar a vida alheia.

 

Era imperdoável apenas o oitavo pecado capital, que, aliás, nem tinha sido previsto, de tão abominável por prejudicar o próximo, não o pecador. Os outros pecados capitais prejudicam apenas a quem os comete, de que são exemplos sobretudo a inveja, a avareza e a gula. O invejoso perde muito tempo no afã inútil de impedir o êxito do próximo. O avarento comporta-se como se fosse néscio e desconhecesse que, se "time is money", "money is not time": mesmo de posse de muito dinheiro, este lhe permitirá viver sem trabalhar, mas não lhe vai acrescentar nenhum minuto de vida.

 

Quem lê não o faz apenas por prazer. Com quem escreve dá-se algo semelhante. Todos lemos ou escrevemos por outros motivos, alguns dos quais permanecem ocultos para uns e outros.

 

Resta-nos proclamar que, se ouvir é essencial para falar, ler é igualmente indispensável a escrever.

 

Neste dia de Pentecostes e do Defensor Público, lembro por fim que escritores têm também este papel iluminador: defender o recolhimento e o convívio social, que, diferentemente do que podem pensar os vulgos, não se opõem.

 

A boca fala do que é abundante no coração. Em latim, "ex abundantia cordis os loquitur". E o Espírito sopra onde e sobre quem quer, sem se preocupar com aqueles que o ouvem ou leem, que estes são livres para escolher.

 

Lalá, a calopsita, sempre cantou até partir. Foi meu modelo para muitas coisas, incluindo a alegria de viver. Sabia também a hora de recolher-se a seus penates.

 

* DEONÍSIO DA SILVA é professor e escritor. Seus livros são publicados no Brasil e em Portugal pelo Grupo Editorial Almedina.

 


A MULHER DO ANACLETO - LIMA BARRETO - TEXTO PARA LEITURA

 




A MULHER DO ANACLETO

LIMA BARRETO

 

Este caso se passou com um antigo colega meu de repartição.

Ele, em começo, era um excelente amanuense, pontual, com magnífica letra e todos os seus atributos do ofício faziam-no muito estimado dos chefes.

Casou-se bastante moço e tudo fazia crer que o seu casamento fosse dos mais felizes. Entretanto, assim não foi.

No fim de dous ou três anos de matrimônio, Anacleto começou a desandar furiosamente. Além de se entregar à bebida,  deu-se também ao jogo.

A mulher muito naturalmente começou a censurá-lo.

A princípio, ele ouvia as observações da cara metade com resignação; mas, em breve, enfureceu-se com elas e deu em maltratar fisicamente a pobre rapariga.

Ela estava no seu papel, ele, porém, é que não estava no dele.

Motivos secretos e muito íntimos, talvez explicassem a sua transformação; a mulher, porém, é que não queria entrar em indagações psicológicas e reclamava. As respostas a estas acabaram por pancadaria grossa. Suportou-a durante algum tempo. Um dia, porém, não esteve mais pelos autos e abandonou o lar precário. Foi para a casa de um parente e de uma amiga, mas, não suportando a posição inferior de agregada, deixou-se cair na mais relaxada vagabundagem de mulher que se pode imaginar.

Era uma verdadeira "catraia" que perambulava suja e rota pelas praças mais reles deste Rio de Janeiro.

Quando se falava a Anacleto sobre a sorte da mulher, ele se enfurecia doidamente: — Deixe essa vagabunda morrer por aí! Qual minha mulher, qual nada! E dizia cousas piores e injuriosas que não se podem pôr aqui.

Veio a mulher a morrer, na praça pública; e eu que suspeitei, pelas notícias dos jornais, fosse ela, apressei-me em recomendar a Anacleto que fosse reconhecer o cadáver. Ele gritou comigo: — Seja ou não seja! Que morra ou viva, para mim vale pouco! Não insisti, mas tudo me dizia que era a mulher do Anacleto que estava como um cadáver desconhecido no necrotério.

Passam-se anos, o meu amigo Anacleto perde o emprego, devido à desordem de sua vida. Ao fim de algum tempo, graças à interferência de velhas amizades, arranja um outro, num Estado do Norte.

Ao fim de um ano ou dous, recebo uma carta dele, pedindo-me arranjar na polícia certidão de que sua mulher havia morrido na via pública e fora enterrada pelas autoridades públicas, visto ter ele casamento contratado com uma viúva que tinha " alguma cousa", e precisar também provar o seu estado de viuvez.

Dei todos os passos para tal, mas era completamente impossível. Ele não quisera reconhecer o cadáver de sua desgraçada mulher e para todos os efeitos continuava a ser casado.

E foi assim que a esposa do Anacleto vingou-se postumamente. Não se casou rico, como não se casará nunca mais.

 

 Saiba sobre esse autor:

https://youtu.be/O7tA6_gtoQ0?si=e5mx0KOR-x3E30EM


VOZES DO PERSONAGEM - TEXTO PARA LEITURA

 


Há momento de sua trama em que 
a voz do seu personagem 
precisa ser descrita:









Temos certeza de que há outros tantos adjetivos 
que podem descrever vozes.
Se você conhece outras descrições, 
comente este post.




O ANTES E O DEPOIS - Suzana da Cunha Lima

 


O ANTES E O DEPOIS 

Suzana da Cunha Lima


Lúcia estava nas nuvens. Acabava de se graduar como Engenheira de Projetos e sentia-se como se o mundo fosse seu. E foi na USP! Gabava-se.

Seu projeto de vida caminhava conforme planejado e logo ela conseguiu um bom emprego. Com muita dedicação ao trabalho, alguns meses depois, até mesmo o amor havia surgido em sua vida, após tantas cabeçadas que havia dado.

Apaixonou-se por Júlio, seu chefe direto, totalmente encantado com aquela mineirinha esperta de olhos grandes e vivazes.

Fizeram antes um pacto. De só encomendarem filhos quando ela estivesse com vida profissional já firmada.  Mas nem sempre as coisas acontecem como queremos. Lúcia ficou grávida antes do planejado e tiveram seu bebê. Ainda estava em licença maternidade quanto recebeu uma boa proposta de emprego. Ia até ganhar mais do que o marido!

Júlio não se conformou: não queria que ela aceitasse, queria que ficasse em casa ou voltasse para seu antigo lugar, onde era seu chefe, debaixo de seu olhar ciumento. Quando a ameaçou de se separar e ficar com o filho, entornou de vez o caldo.

Lúcia ficou atarantada e sem saber direito o que fazer.  Mas ficar com Júlio não queria mais.  Logo que ele saiu, arrumou umas roupas numa sacola, pegou sua criança, foi ao banco, retirou todo o dinheiro e fechou a conta.

Estava irritadíssima. Entrou no carro disposta a tudo: ia para a casa da mãe e depois pensaria melhor. Com os olhos marejados de raiva, acabou avançando num sinal e foi logo atingida por um caminhão que nem sequer parou para verificar os estragos.

O acidente foi muito sério e perigoso.  Juntou gente querendo ajudar. Ligaram para a polícia e ambulância e logo perceberam a dificuldade de se retirar quem estava lá dentro. E ouviam o choro desesperado de uma criança, com certeza assustada e talvez muito machucada, mas as portas emperradas dificultavam muito o resgate.

Previa-se um incêndio, pelo combustível derramado no chão.  Um senhor idoso que depois se identificou como Gregório, tentava desesperadamente entrar no carro. Cenas de puro desespero.

O jovem Bento, que por ali passava, notou algo anormal naquela esquina. Parou seu carro perto do carro todo retorcido e logo percebeu o perigo iminente que se aproximava. Combustível quente no chão e portas emperradas. O idoso não estava dando conta de abri-las.

Bento pegou uma ferramenta no seu carro e quebrou as janelas, porém as portas permaneciam fechadas. Viu a criança chorando e, quase sem pensar, se esgueirou pela janela e conseguiu, com muito custo, retirá-la de sua cadeirinha.  Gregório queria também entrar, mas Bento lhe entregou a criança e ordenou. Corre daqui, vai explodir!

Mas ao sair pela janela estilhaçada, notou um leve movimento de mão na mulher que estava no banco dianteiro, debruçada no volante e que nem mesmo percebera no afã de salvar a criança.

— Tem uma mulher aqui, gritou, tentando puxá-la para fora pela janela por onde entrara.  Ela está viva!

— Cai fora! Alertou Gregório, ofegante, já longe do perigo, com o menino nos braços – Isso tudo vai explodir agora.

E realmente explodiu.

E lembrando dessa cena macabra anos depois, ao passar claudicante por aquela fatídica esquina, Bento não conteve as lágrimas.  Ainda não se acostumara com sua perna mecânica, herança daquela tarde de heroísmo e lamentações. Seus projetos de vida tinham virado pó. Futebol, esportes radicais, escaladas, dançar tango, levar uma mulher nos braços. Nada disso seria possível para Bento. 

Salvara uma vida, verdade, e uma vida é uma vida.  Mas saber depois da história toda, da crise de histerismo de Lúcia e sua irresponsabilidade ao guiar desvairada pelo trânsito de São Paulo, tinha o dom de ressuscitar o ódio que sentira ao olhar para o lugar vazio no lençol quando lhe amputaram a perna.

A única satisfação que sentia era por salvar a vida da criança, Daniel, agora um menino forte, de quatro anos.

Até mesmo Gregório tinha ido embora.  Seu coração não aguentara o pavor de ver o carro explodir, com sua filha dentro.  Não percebera que Bento a tinha salvo. E mais ainda, que por conta de seu heroísmo, não livrara a perna a tempo daquele automóvel em chamas.  Até achou que ele também explodira junto.

Mas Gregório não tinha perdas a lamentar. Sua filha e seu neto haviam se salvado.

Bento, no entanto, que nem conhecia a família e tinha um futuro promissor, acabou pagando uma conta que não era sua e não havia vida suficiente pela frente que lhe compensasse tamanha perda.

 

 

A REVELAÇÃO - Silvia Maria Villac V. de Carvalho

 

 


A Revelação

Silvia Maria Villac V. de Carvalho

 

 

Mais uma vez, ela se certifica de que está sozinha no escritório de casa, para então puxar a gaveta do arquivo, afastar as pastas suspensas e retirar o fundo falso.

Com o suor escorrendo pela nuca, naquela manhã de outono extremamente quente para a época e com a mão um pouco trêmula pelo nervosismo, ela gira a pequena chave e ouve o “clique” do cofre sendo destrancado.

Lá dentro está o tal do envelope lacrado, conforme seu pai havia lhe confidenciado. Com ele, há outros papéis que ela decide que lerá depois que tiver mais tempo. Retira-o do pequeno compartimento, coloca-o em seu bolso e, mais do que depressa, tampa o cofre novamente, arruma as pastas suspensas e fecha a gaveta a tempo de sua irmã entrar no recinto e lhe perguntar o porquê de estar sentada ali na cadeira do papai.

─ “Estava tentando lembrar quando foi a última vez que ele esteve aqui trabalhando e falando ao telefone com seus clientes. Afinal de contas, depois de todos esses meses de idas e vindas do hospital e mais os intervalos para a convalescença, parece uma eternidade!”. Ao dizer isso, ela olhou para baixo e viu que havia se esquecido de colocar de volta o fundo falso, que estava bem visível sob seus pés. Se a irmã desse a volta na mesa, com certeza também notaria e ela seria descoberta! Para sua sorte, nesse momento um celular tocou e a irmã saiu ao encalço de seu aparelho.

Dessa vez, a operação foi bem mais simples: abrir o arquivo e deslizar o pedaço de madeira por baixo das pastas. Feito isso, ela deixou imediatamente o escritório e foi para seu quarto, certificando-se de trancar a porta para manter a privacidade.

Cuidadosamente, e ainda tensa com a situação do cofre, da carta em si e de ser pega pela irmã, recostou-se na cabeceira da cama e abriu o envelope. Dentro havia uma folha de papel.

Avidamente, começou a lê-la, onde tudo estava explicado. Sua mãe havia engravidado e o homem não quis assumir a paternidade. Faz-se, então, um casamento arranjado com esse que seria chamado por pai em troca de um cargo na empresa do futuro sogro.

A família era muito tradicional, da alta sociedade e extremamente católica e, apesar de os tempos não serem mais como antigamente, a ideia de ter uma filha grávida em casa e, posteriormente, uma criança bastarda era impensável. Então, após uma semana extremamente tumultuada e noites sem dormir, o homem da casa apareceu com a solução que parecia ser a mais adequada: ele havia arranjado um pretendente para a filha em troca de um cargo de executivo em sua fábrica para o “genro”, que lhe prometera honrar e respeitar o trato. O tal do sujeito, “bon vivant”, bem-apessoado e educado, havia sido entrevistado no mês anterior para a vaga de diretor administrativo, mas o cargo tinha sido preenchido por outro.

No início, foi, de fato, apenas um negócio e ele visava apenas ter uma vida boa, cheia de regalias, mas confessa que, com o tempo, aprendeu a amá-la como sua e não fazia distinção de gestos ou sentimentos em relação à sua outra filha de sangue. Constituir uma família ajudou-lhe a ver a vida de um modo mais humano e menos egoísta e mercantilista e que sua mulher muito lhe ajudou nessa empreitada, sempre o respeitando e o enaltecendo diante dos olhares maldosos daqueles que gostavam de falar que ele havia dado o “golpe do baú”. E, por sua vez, as duas irmãs se davam muito bem e eram grudadas uma na outra!

Partia feliz, ele escreveu, com o sentimento do dever cumprido, uma vez que suas duas filhas já “caminhavam com suas próprias pernas”, tinham suas carreiras, e eram independentes. Terminava a carta dizendo que lhe devia essa revelação porque achava justo que ela soubesse a verdade, “Eu te amo, filha querida”. Assinado, Papai.


Joaquim e o objeto estranho. - Oswaldo U. Lopes

 





Joaquim e o objeto estranho.

Oswaldo U. Lopes

 

Joaquim era um jovem e promissor advogado. Conhecia leis e suas aplicações como ninguém. Não era o primeiro da turma, era mais do que isso. Era capaz de produzir textos brilhantes defendendo pontos de vista diferentes dos corriqueiros, mas tinha hábitos no mínimo estranhos. Andava sempre de terno com um coldre vazio debaixo do braço. Quem já viu um filme do 007 sabe do que estou falando. A Beretta 9mm, que cabia lá dentro, morava num cofre de banco. Além de uma conta muito recheada, ele tinha sempre consigo a chave do pequeno cofre onde a Beretta morava. Eu e todo mundo que sabia, achava estranho, muito estranho. Poucos ousavam perguntar e no mais das vezes ouviam um rugido de volta.

       Cidade violenta? De acordo, mas e daí? O coldre estava quase sempre vazio, o banco tinha horário, abre e fecha. Os assaltos, a vida doida da cidade não tinha. Que raios ia Joaquim fazer com a pistola que só via no máximo uma vez por mês?

E assim iam decorrendo os tempos, ele trabalhando muito, tendo muito sucesso. Como é que a história conseguiu seu término ou pelo menos que parte do mistério fosse desfeita? L’amore sempre ele, gostou da moça, de nome Rosa Maria, ela gostou dele. Profissão a mesma. Prédio onde trabalhavam, o mesmo. Pensaram o mesmo, uma boa hora para casar, mas havia o mistério, pelo menos para ela ele ia ter que revelar o mistério da Beretta no banco.




E foi o que ele fez, foram juntos ao banco, cadastrou-a, entraram juntos na parte dos cofres. O cara que acompanhava pôs a chave dele e saiu. Ela viu, além da famosa pistola, um papel amarelado nos fundos da caixa. Ele pegou o papel e desdobrou-o para que ela lesse. Apesar de alguma dificuldade, como todo paulistano, ela pode ler o notável escrito em italiano culto ou quase.

 É um fato curioso. Em São Paulo, a população de classe média, quase toda, descende ou tem relações com os italianos e acha que pode conversar ou se fazer entender na língua de Dante. A vida para eles segue assim até que chega uma correspondência do Consulado Italiano a respeito da próxima eleição. Já vi muita gente, de uma bela ascendência peninsulare, tropeçar na corrida para o dicionário. Que bela cosa... Não se vota na Itália cantando canções italianas.

Bem, ela pegou o papel que não era um papel comum, mas mais lembrava um pergaminho desses antigos, e foi lendo numa escrita linda feita à mão com tinta Nanquim, desde cima, onde se viam dois escudetos:

No canto esquerdo, um amarelo com cruz azul com os dizeres “Avia Pervia” Província de Modena, lembrou da Ferrari, mas não notou cavalinho.

O outro no canto direito, num azul mais leve, bonito, coroa ducal onde se lia Comune de Montese e tem umas folhas entrelaçadas embaixo. Se tivesse feito agronomia e não direito, talvez pudesse identificar, achou bonito e só.

Aí vinha o texto, como já dito, muito bem escrito, com caligrafia a tinta:

“A todos quantos este virem, saibam que no dia 15 de abril de 1945 a comuna de Montese foi libertada dos brutais invasori tedeschi, pela Força Expedicionária Brasileira, que era comandada pelo major Joaquim Santino Rodrigues. Ele contou com a ajuda dos Partigianni locais comandados pelo capitão Enzo Salvatore. O major participou e comandou o assalto final, levando consigo a pistola Beretta que o capitão Enzo lhe dera, reforçando ainda mais a extraordinária amizade que se formou, entre os expedicionários brasileiros e seus companheiros italianos. Montese, 8 de maio de 1945.”

       Seguiam-se assinaturas que lhe pareceram de autoridades locais. Muita coisa ainda precisava ser entendida, mas a maior parte já era visível. Porque Joaquim chamava-se Joaquim Santino Rodrigues Neto, porque a Beretta era tão estimada. Porque até hoje as crianças de Montese cantam no dia 15 de abril o Hino do Expedicionário Brasileiro e agitam bandeiras brasileiras com a cobra fumando. Um porquê mais lindo que o outro, apesar dos horrores e misérias da guerra.

 


MEU PRIMEIRO AMOR - Silvia Maria Villac V. de Carvalho

 

 


MEU PRIMEIRO AMOR

Silvia Maria Villac V. de Carvalho

 

Que coisa é essa que mexe com a gente e deixa tudo atrapalhado na mente?

Essa coisa que faz o coração acelerar, a mão transpirar e a perna balançar?

Já disseram que é calor, outros, que é pavor, mas acho mesmo que é um grande amor!

O primeiro e grande amor de adolescente, entende? Aquela coisa de sonhar acordado, com o coração disparado, só de pensar no amado.

Podem dizer que é bobeira, coisa de mulher solteira, mas não ligo para nenhuma palpiteira.

O tal do Luiz Vicente, que não sai da minha mente, tenta ser convincente, para eu deixar de ser inocente!

 

P.S.: Casei com meu 1° e único namorado.

Algo impensável nos dias de hoje.