DICA DE ESCRITA - Traços de caráter de personagens

 

 



Traços de caráter de personagens 

Sugerimos abaixo inúmeros adjetivos que podem qualificar seu personagem:


AFETUOSO

AGRESSIVO

ALEGRE

AMÁVEL

AMBICIOSO

AMIGÁVEL

AMOROSO

ANSIOSO

AUDIENTE

APLICADO

APOLOGÉTICO

APRESENTÁVEL

ARROGANTE

ARROGANTE

ARTICULADO

ASTUTO

ATENCIOSO

ATENCIOSO

AUTÊNTICO

AVENTUREIRO

 

BANAL

BANDIDO

BÁRBARO

BÁSICO

BATALHADOR

BENÉVOLO

BENFEITOR

BENQUISTO

BITOLADO

BOÇAL

BOM

BRILHANTE

BRINCALHÃO

BRAVO

BRONCO

 

CALMO

CARISMÁTICO

CAUTELOSO

CIUMENTO

COMPASSIVO

COMPLACENTE

CONFIANTE

CONFIÁVEL

CONFIÁVEL

CONSCIENCIOSO

CORAJOSO

COVARDE

CRÍTICO

CRUEL

CUIDADOSO

CURIOSO

 

DECISIVO

DEPRESSIVO

DESAGRADÁVEL

DESAJEITADO

DESARRUMADO

DESCONFIADO

DESCUIDADO

DESONESTO

DESPREOCUPADO

DESRESPEITOSO

DESTEMIDO

DETERMINADO

DISSIMULADO

DITATORIAL

DIVERTIDO

DOMINADOR

DURO

 

EDUCADO

EFICIENTE

EGOÍSTA

ENCANTADOR

ENÉRGICO

ENGRAÇADO

ESPIRITUOSO

ESTÁVEL

ESTRITO

EXIGENTE

EXIGENTE

FELIZ

FIEL

 

GAIATO

GALANTE

GANANCIOSO

GARANHÃO

GAUDÉRIO

GÉLIDO

GENEROSO

GÊNIO

GENTIL

GENTLEMAN

GOLPISTA

GRACIOSO

GROSSEIRO

GROTESCO

GUERREIRO

 

HÁBIL

HABILIDOSO

HABITUAL

HEDIONDO

HESITANTE

HERMÉTICO

HERÓI

HÍBRIDO

HIPÓCRITA

HISTÉRICO

HONESTO

HONRADO

HOSPITALEIRO

HUMANITÁRIO

HUMILDE

HUMORÍSTICO

 

IDEALISTA

IMAGINATIVO

IMPACIENTE

IMPENSADO

IMPRUDENTE

INDELICADO

INDEPENDENTE

INGÊNUO

INOCENTE

INQUIETO

INSTÁVEL

INTELIGENTE

INTERESSEIRO

INTROMETIDO

IRÕNICO

 

JACTANCIOSO

JOVEM

JOCOSO

JUBILOSO

JULGADOR

JUVENIL

JUSTICEIRO

 

LABORAL

LAMURIENTO

LASCIVO

LEAL

LEVIANO

LÍDER

LIGEIRO

LIMITADO

LISO

LISONGEIRO

LIVRE

LOQUAZ

LÚCIDO

LÚGUBRE

 

MAÇANTE

MADURO

MAL-EDUCADO

MALANDRO

MALVADO

MANDÃO

MANIPULADOR

MATERIALISTA

MELANCÓLICO

MESQUINHO

MISERÁVEL

MISTERIOSO

 

NABABESCO

NAMORADOR

NÃO AMIGÁVEL

NEBULENTO

NERVOSO

NÍVEO

NOBRE

NORMAL

NOTÁVEL

NOTÍVAGO

 

OBEDIENTE

ODIOSO

OPINATIVO

ORGULHOSO

OTIMISTA

OUSADO

OUSADO

 

PACIENTE

PARASITA

PASSIVO

PENSATIVO

PERIGOSO

PERVERSO

PETULANTE

PIONEIRO

POSSESSIVO

PREGUIÇOSO

PRESUNÇOSO

 

RACINAL

RADIANTE

RADICAL

RÁPIDO

REALSTA

REALIZADO

REBELDE

RECATADO

RECEPTIVO

REDENTOR

REFINADO

REFLEXIVO

RELIGIOSO

RENOMADO

RESERVADO

RESILIENTE

RESOLUTO

RESPONSÁVEL

RESPEITADOR

RIDÍCULO

RICO

RÍGIDO

RIJO

RISONHO

ROMÂNTICO

 

SÁBIO

SÁDICO

SARCÁSTICO

SECRETO

SEGURO

SEDUTOR

SELVAGEM

SENSÍVEL

SENSUAL

SENTIMENTAL

SÉRIO

SERENO

SEXY

SILENCIOSO

SIMPÁTICO

SINCERO

SINISTRO

SISUDO

SOBERBO

SOCIÁVEL

SONHADOR

SOLÍCITO

SOLITÁRIO

SUBMISSO

 

TALENTOSO

TÁTICO

TEATRAL

TEIMOSO

TEMEROSO

TEMPERAMENTAL

TENSO

TENTADOR

TERAPÊUTICO

TERNO

TÍMIDO

TÍMIDO

TOLERANTE

TOLO

TRABALHADOR

TRADICIONAL

TRANSIGENTE

TRANSPARENTE

TRAQUEJADO

TRANQÜILO

TROPICAL

TURBINADO

 

UNIFICADOR

URBANO

ULTRAJANTE

ULTRAPASSADO

ÚNICO

USURPADOR

ÚTIL

URGENTE

 

VAIDOSO

VADIO

VAGABUNDO

VALENTE

VALIOSO

VAZIO

VELHACO

VIVAZ

 

ZANGADO

ZELOSO

ZEN

ZOMBADOR

O trem - Yara Mourão

 



O Trem

Uma saudade que eu gosto de ter

Yara Mourão

 

Não era uma Maria Fumaça.

Não era um Trem Bala.

Era uma locomotiva a diesel, que cortava as planícies apitando alto como um pássaro silvestre.

Era o Trem de Prata, o mais bonito da Central do Brasil, que ia de São Paulo ao Rio de Janeiro em 8 horas e do Rio a Belo Horizonte em outras tantas.

Saindo de São Paulo de manhãzinha, à noite havia uma baldeação para o trem noturno que vinha do Rio para Belo Horizonte. Era na cidade de Barra do Piraí onde, horas e horas de atraso infernizavam a vida de todos. Menos a minha.

As estações eram, simplesmente, um mundo. Gente por todo lado, numa procissão desencontrada, sem pressa, com um destino certo ou com um destino incerto.

O ruído das ferragens nos trilhos e os chamados do alto falante anunciavam que a aventura ia começar.

Nos vagões, os bancos eram confortáveis e as janelas amplas, panorâmicas. O garçom passava sempre com gostosuras: sanduíches, chocolates, sucos e café com leite. Doces lembranças que lá se vão...

Nas plataformas, entre um vagão e outro, o vento do campo e os ramos das arvores, de tão perto, eram quase um carinho na palma da mão. Mas ver, nas curvas do caminho o entrelaçamento dos trilhos, era um jogo de adivinhar: será que vai seguir pela linha da esquerda? Ou para a da direita? Vai passar no túnel? Vai passar na ponte?

Ah! O trem! O trem sempre parava em cima da ponte! Acontecia haver geralmente algum acidente na linha lá adiante. Que medo eu tinha! Porque a ponte era sobre o Paraíba do Sul, que é um rio muito caudaloso e das janelas podíamos ver a correnteza lá embaixo.

Não me esqueço das horas e horas passadas sobre a ponte, as notícias desencontradas, meu coração no ritmo descompassado, antevendo um desastre.

Mas não, nunca o inesperado aconteceu e, após um tempo entre longo e muito longo, o trem, dando um apito preguiçoso e cansado, seguia pelo caminho cortando pastos, vilas, ao pé da serra, senhor dos campos, pra dentro das Minas Gerais...

Não era uma Maria Fumaça.

Não era um Trem Bala.

Era uma máquina mágica carregando todo o encantamento que a vida da gente gosta de carregar.

 

A cartomante - Adriana Silva Frosoni

 


A cartomante 

Adriana Silva Frosoni

(Reescrita do final do conto de Machado de Assis)

 

“Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo;  que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. “

Entrando, Camilo não pôde notar nada de diferente. Rita não estava lá. Apenas o comportamento frio e tenso de Vilela dava sinais de que algo tinha acontecido.

— Fale logo, amigo, está me assustando com todo esse suspense!

— Pois bem: estou à beira da morte. — Anunciou Vilela, com a mão no meio do peito. — Pulmões.

Sem saber como agir e o que pensar, Camilo caiu sentado sobre o canapé que ficava ao fundo da saleta. Era por isso que Vilela andava sombrio e não por desconfiança dele com Rita. Sentia-se o pior homem do mundo, não dera apoio ao amigo nos últimos meses e agora tentava disfarçar um misto de surpresa, culpa e alívio. Ficou sentado tentando se recompor e declarou:

— Estarei aqui para apoiá-lo até o fim amigo, é só dizer o que precisa. Mas antes precisamos buscar uma segunda opinião, na Europa talvez! Partiremos o quanto antes, lá estão os melhores médicos e tratamentos… — Mas foi interrompido bruscamente.

—Não! Não tente me dar esperança onde não há chance de cura! — Proferiu Vilela com a gravidade de um advogado. — Fazer o que propõe seria apenas prorrogar meu sofrimento, minhas dores são terríveis. — E confessou ainda. — Rita não sabe de nada, não quero que ela me olhe com pena. Não demorará muito e tudo estará terminado! Tenho apenas um pedido a fazer, mas só a você posso confiar tal responsabilidade!

O tom trágico fez com que aquele misto de sensações do início da conversa se resumisse em remorso para Camilo. Sentiu o peso da traição nos ombros e perdeu a pose ao fitar os olhos sem brilho do amigo moribundo.

— Rita tem apenas a mim neste mundo, cuide para que nada lhe falte quando eu partir! — Dizendo isso Vilela tirou um revólver do bolso e com um tiro na têmpora acabou com o sofrimento dos três.

A CARTOMANTE - YARA MOURÃO

 



A Cartomante

Yara Mourão

 

Rita era uma mulher bem urbana, que não se atinha a crenças de nenhuma espécie. Era prática e resoluta, resolvia qualquer questão com presteza e calcada em razões, por mais subjetivas que fossem.

Tinha, porém, um certo desvio de personalidade: era muito ciumenta. De quase tudo: de seus pertences, seu gato, seu carro, mas principalmente de Vilela, seu jovem marido. Com certo motivo, talvez.

Vilela era um pouco mais novo do que ela, homem extrovertido e amável, com um séquito de admiradoras. Ele queria ter sido um artista, e a inclinação para o belo o levou aos caminhos da arte concreta, onde trilhou uma bem-sucedida carreira de arquiteto.

Rita e Vilela se deixavam levar pelo cotidiano, mas algo pairava obre o andamento da vida a dois. Para Rita nada podia estar entre eles.

Esse afeto adquirido e cultivado a qualquer preço era a razão de sua vida. E um amigo mulherengo, como Camilo, chegado às veleidades sociais, agitador de encontros e festas em que Vilela era sempre o convidado mais esperado, deixava Rita no limite da tolerância.

Ela já não estava mais com paciência para apenas suspeitar. Já tinha certeza de que Camilo era a figura por trás das escapadas de Vilela. Não ia esperar mais.

Pensou em outras alternativas para pôr fim a isso; e resolveu no calor do desespero. Ia a uma cartomante se certificar de que Camilo estava arrastando Vilela para aventuras à margem de seu casamento.

Buscou na internet o endereço de uma vidente. Qualquer uma serviria. Afinal, cartas, bola de cristal, búzios, tudo converge para o mesmo quando já se tem uma posição definida sobre qual vai ser o resultado.

Chegando no endereço, logo estava frente a frente com a cartomante. Esta nem titubeou: ¨esse tal de Camilo é a raiz de todo o mal e deve ser extirpado sem demora¨.

Era tudo o que Rita queria ouvir. Sentiu-se justificada. Era isso mesmo, então!

Saiu de lá apressada, decidida. Ligou para o marido e certificou-se de que ele chegaria mais tarde em casa nessa noite. Perguntou por Camilo e soube que ele estava no clube, jogando tênis. ¨ Melhor assim¨ pensou. Só esperaria o entardecer para ter a cumplicidade das sombras.

Entretanto, nas ruas, o trânsito estava lento e não acompanhava sua ansiedade.

Sentia um aperto na garganta.

Um nó no estômago.

Era o seu casamento que estava em jogo, por um fio. Mas ela ia salvá-lo, nem que fosse a última coisa que fizesse.

Finalmente chegou ao clube.

Esgueirou-se para a parte detrás das quadras de tênis.

Camilo estava lá. Ele sorria. Ela tremia. Lembrou-se do que dissera a cartomante, que tinha de ser sem demora. Então, a hora era esta.

Foi aí que aconteceu...o som sibilante cortou o ar da noite. Tiro certeiro. Camilo, o mal presumido e comprovado, jazia inerte.

Rita olhou para o céu, para um ponto no infinito, os lábios secos, os olhos cegos.

E, no silêncio imenso da desilusão, ela se perguntou baixinho: ¨salvei meu casamento?¨

A CARTOMANTE - MACHADO DE ASSIS - E O DESAFIO DE CRIAR 2 CONTOS





A CARTOMANTE - MACHADO DE ASSIS

Um enredo rico que vai prender sua atenção do começo ao final.  Em apenas 8 páginas o autor coloca os personagens em uma intrigante história de traição amorosa. Os textos de Machado já caíram em DOMÍNIO PÚBLICO, então todos poderão ser lidos gratuitamente. Leia na íntegra este conto, aqui mesmo no Blog do EscreViver. O link está logo abaixo:


Rita e Vilela são casados.  Vilela reencontra Camilo, amigo de infância, cuja mãe morre, e Vilela sendo advogado, trata dos papéis da mãe do melhor amigo. Enquanto  isso Rita envolve  com Camilo criando assim um triângulo amoroso.

Depois de receber bilhetes anônimos que chamavam-no de adúltero, Camilo diminui as visitas à casa do amigo, o que faz com que Rita visite uma cartomante para saber se Camilo ainda a amava. Camilo ri dos temores de Rita pois,  ele mesmo era descrente de tudo. Certo dia, Camilo recebe um bilhete de Vilela " Vem já, já à minha casa, preciso falar-te sem demora."  Apreensivo, Camilo visita a cartomante,  e o que ela lhe revela, mudará completamente sua vida...
Baseado nesse fabuloso conto de Machado, desafiamos nossos colegas do EscreViver a criar dois contos:

TAREFA 1: Escreva uma história que caiba nesse enredo e crie um desfecho diferente desse que Machado criou.

 TAREFA 2: Criar uma história onde ESSA CARTOMANTE domina o destino de uma mulher adúltera.





O Homem que desafiava o vento. - Yara Brandão



O Homem que desafiava o vento.

Yara Brandão

 

Ele era um homem pequeno. Quase franzino. Mas tão autoconfiante que até mesmo se achava forte.

Queria ser um herói.

Não temia os animais, as pessoas, nem o frio ou o sol forte. Mas tinha um estranho fascínio pelo vento. O vento que era, assim, quase um adversário na luta dos homens contra os elementos. Pra ele, era uma questão de ser o mais ousado, o invencível nos espaços de seus domínios.

Tudo se deu no início de setembro, quando começava a temporada de tufões e furacões, desde o Caribe até quase o Canadá. Sim, porque era no fim de uma estação e início de outra, quando o clima se mostrava belo e agressivo e as águas, terra e céus combinavam para surpreender os homens.

E poderia ter sido em qualquer lugar daquele imenso campo de batalha. Entretanto, foi naquele vasto gramado, muito verde, que se estendia a perder de vista, cheio de palmeiras, casas de madeira rodeadas de flores, parques, rios e lagos. Ali era o coração da Flórida, lugar de grandes emoções.

Às primeiras rajadas ele mirou o horizonte: não havia dúvida. Esse era o momento esperado. Sentiu, através de todos os poros, o fascínio pelo desconhecido, pelo desafiador, o impulso do herói no campo de batalha.

Foi rápido. Correu muito. Abriu os braços e foi de encontro ao som, às folhas voando, à nuvem densa. O vento era ora o inimigo a ser vencido ora o companheiro de maratona.

Correu tanto, tanto. Por fim, se viu debaixo de uma pedra enorme, quase sem forças, mas radiante pela disputa.

Conseguiu perceber que tudo havia caído, mudado de lugar, tudo estava espalhado.

Mas ali, franzino, ofegante, ele sabia que vencera o vento.

E, sob a pedra, ele era, enfim, um herói adormecido.


O ARADO-VOADOR - Suzana da Cunha Lima

 



O ARADO-VOADOR

Suzana da Cunha Lima

 

Moravam numa terra desolada, de campos estéreis, onde o vento corria livremente, levando tudo que estivesse à sua passagem. A mulher e filhos já tinham partido para a cidade mais próxima, totalmente descrentes de que algum resultado pudesse ser extraído daquele chão tão seco. Quantas vezes o vento implacável levara o telhado da casa e muito do que plantavam com tanto sacrifício?

Seu Pedro, no entanto, teimoso, persistia na vontade férrea de fazer algum dinheirinho naquele seu pequeno terreno.

Sabia que não podia nada contra aquela força da natureza, então pensou: vou fazer esse danado trabalhar para mim. Como o solo era muito árido, não havia enxada que durasse e ele não tinha mais força para mover o arado e o velho boi que tanto o ajudara já morrera de exaustão.

Arrumou uma lona enorme e transformou-a numa espécie de balão, não exatamente para voar.  Na verdade, transformou-o num arado voador, controlando a direção numa ponta da lona.  No início foi levado pelo vento, e sendo presenteado com muitos arranhões e esfolados nos braços e pernas. Teve que reconstruir seu artefato muitas vezes, mas de a cada vez ele melhorava a invenção e como dizem que a prática faz o mestre, ele finalmente conseguiu dominar seu balão.

Lamentou não poder dividir a alegria com a família, mas tinha que demonstrar a utilidade daquilo primeiro.  Delimitou uma área para o plantio e se posicionou numa ponta, com vento de popa.  Foi um sucesso! O arado ia fundo e dali surgiu uma terra muito boa.  O que levaria meses para ser feito, Seu Pedro fez numa tarde ventosa com seu balão.  Tão feliz ficou que resolveu patentear sua invenção.  Foi à cidade, fez demonstrações e logo arrumou um sujeito endinheirado que se interessou muito pelo seu arado voador.   Vendeu na mesma hora e foi buscar a mulher e os filhos.  Mas não voltaram mais. Mudaram-se para um lugar melhor onde os filhos pudessem estudar.

Mas a verdade verdadeira é que o arado-voador era muito bom para sulcar a terra, mas ele não sabia se o vento ia permitir que brotasse e crescesse alguma coisa dali. Vento é vento.

 

 

O HOMEM QUE DESAFIOU O VENTO - Oswaldo U. Lopes

 




O HOMEM QUE DESAFIOU O VENTO

Oswaldo U. Lopes

 

Pompeu o Grande:

Navegar necesse, vivere non est necesse

Navegar tem precisão, viver não.

 

        Pompeu o cônsul romano desafiou o vento e o mar para encorajar seus soldados. Tinha que navegar, navegar era seguro e possível. Viver? Quem sabe se estará vivo amanhã, daqui a um minuto? Agora?

        Pompeu é muitas vezes esquecido, ignorado até, ante a presença solene do outro cônsul: Cesar, mas sua história (Plutarco) não só é interessante como incrível!

        Era preciso sufocar uma revolta no sul da Itália e trazer alimentos para Roma. O único meio possível era por mar, com navios.

        O vento para usar uma velha imagem, uivava! As ondas se elevavam. Pompeu subiu a bordo e corajosamente comandou a frota e o fez com sucesso.

        Sua frase entrou para a história, para a lenda, para a poesia (Fernando Pessoa) e até para a música popular (Caetano Veloso).

        Infelizmente o significado de sua frase é frequentemente interpretado erroneamente:

Navegar é preciso, viver não é preciso.

        Usa-se como necessário, não foi essa a intenção e o uso dado por Pompeu. Para ele a navegação era clara e definida, viver não era. Navegar pode ser mais exato do que se imagina, a vida quem sabe.

 

O ET de Rita - Ises A. Abrahamsohn

 


O ET de Rita 

Ises A. Abrahamsohn

 

Certa noite Rita foi dormir cedo, cansada que estava. Trabalhava desde os onze anos de idade. “Somos pobres e você tem que ajudar em casa” Foi o que a mãe lhe disse ao enviar a menina para a casa de dona Justiniana em Cabrobó. Trabalho pesado para a menina mal saída da escola rural. Lavar roupa no tanque, coarar os lençóis, limpar a casa e ajudar na cozinha. Tinha aprendido a ler e a escrever e contar na escolinha rural. E a rezar... Rezavam muito em casa e aos domingos na Congregação Pastoral do Senhor fundamentalista. Quando menstruou a mãe só lhe informou como usar os trapinhos presos com alfinete na calcinha e a lavá-los para o próximo mês.

Alguma amiga lhe soprou ao ouvido que se ficasse com homem - o que seria ficar? – ficava prenhe com criança. Como as cabras...  segredou a amiga nas conversas e cochichos proibidos e sujos. Mas Rita nem sabia, nem lhe explicaram, como as cabras da criação ficavam prenhes.

Na casa da patroa, Rita foi botando corpo. Os seios cresceram como duas laranjas que ela apertava com uma faixa de morim para não avolumar a blusa de pano fino. As ancas se arredondaram sob a saia de chita estampada. Quem percebeu bem as mudanças foram os filhos da patroa. De todas as maneiras aproveitavam para encostar, agarrar, passar a mão, ou beijar a garota agora com 13 anos. E davam-lhe algum presentinho. Uma fita ou escova para cabelo, uma barrinha de chocolate diamante negro, e ela adorava chocolate... Moedas de troca para a menina ceder e deixar a mão do rapaz avançar entre as coxas. E Rita aceitava os agrados apesar do asco que sentia do cheiro de homem e dos apertões que prenunciavam um ataque mais intenso. O escambo continuou até que a garota, após investidas cada vez mais violentas, rechaçou o rapaz e aos gritos derrubou-o sobre os degraus da cozinha. Com o alarido e o filho sangrando na testa, Dona Justiniana se deu conta do que ocorria longe de suas vistas. Rita foi devolvida imediatamente para casa. A mãe e os irmãos a olharam com suspeitas. Aquela moça alta espigada não era a mesma garota de antes. Alguma coisa devia ter aprontado lá na casa da comadre.

Em menos de um mês Rita já era destinada a outra casa. Dessa vez para dona Lucinda, prima distante chamada de tia, que precisava de ajuda doméstica. Foi a grande sorte de Rita. A tia Lucinda era professora na cidadezinha. Percebendo que Rita era inteligente tomou a si completar a educação da garota. O serviço da casa era mais leve, só o casal e uma filha de dez anos. Aos quinze anos Rita foi matriculada no sexto ano da escola. Frequentava de manhã, e fazia o serviço de casa à tarde. À noite fazia as lições. Na escola aprendia mas ficava isolada. Era bem mais velha que as colegas, ainda adolescente, porém com mente adulta. Ao terminar o ensino médio, fez um curso rápido de auxiliar de enfermagem. Tinha afeição pela tia, porém nunca falava sobre a própria família ou sobre o período na casa de dona Justiniana. Sabia que tinha sido enviada quase como escrava, alugada era o que dizia, em troca de minguado dinheiro pago diretamente à mãe. Esta ainda agradecia o grande favor da comadre por ter uma boca a menos a alimentar em casa. Tia Lucinda tentou, mas não conseguiu, chegar ao coração da menina, porém intuía-lhe o sofrimento passado.

Aos dezenove anos, Rita despediu-se da tia para morar num pensionato e trabalhar em um  hospital  de Caruaru. Cidade muito maior e com muito mais recursos. Rita era atraente, mas seu jeito sisudo não angariava amigas ou potenciais namorados. Tinha como única amiga a Neusa, também enfermeira e também vinda do interior. Foi por insistência de Neusa que Rita começou a sair com José Antônio. Cinema , alguns passeios até que o rapaz tentou um beijo. Repelido violentamente, revidou com insultos. Rita, chorando, contou para Neusa. Foi para essa amiga que revelou aos soluços o que tinha passado na adolescência. Neusa se espantou com o sofrimento da amiga e com a ignorância sobre seu próprio corpo e sobre sexualidade. Com muito tato e ajuda de um livro instruiu a amiga. Mas Rita sempre lhe dizia que a ideia de contato mais íntimo lhe causava muita angústia e por isso afastava a ideia de qualquer namoro. Achava Márcio, um colega do hospital, simpático e atraente, mas sempre recusava os convites para sair. Porém vinham à sua memória as experiências passadas e ela não cedia.

Até que, certa noite, cansada que estava do trabalho no hospital Rita adormeceu profundamente. Durante o sono sentiu a presença estranha no quarto, abriu os olhos e viu algo ou alguém não identificável, um ser não humano, era um extraterrestre. De aparência dócil, com o corpo magro, estatura alta, pele muito branca, olhos grandes, nariz e boca pequenos, sem pelos, vestia túnica azul com botões dourados, levemente parecido com humanos...”

Aquele ser inodoro lentamente despiu a túnica e começou a acariciá-la. Levemente, sem pressa e Rita sentia calma e prazer. Ela acordou com uma sensação de repouso, porém sem lembrar do sonho. E assim, a cada noite aparecia aquele ser quase extraterrestre, e a cada noite suas carícias ficavam mais ousadas. Até que, finalmente, após uma semana o estranho ser deitou-se sobre seu corpo e lhe proporcionou uma volúpia e sensação jamais sentida.

Rita finalmente estava curada!

A segunda bala perdida - Adriana Frosoni

 


A segunda bala perdida

 Adriana Frosoni


Por um período morei no bairro Bela Vista, mais precisamente no Bixiga, região de São Paulo muito movimentada de dia e de noite. Sempre me lembro de uma senhora que ficava na janela do primeiro andar de um predinho antigo observando tudo o que se passava na rua. Todos a conheciam de vista, inclusive eu, que nunca guardei nomes e já nem os perguntava mais, e apenas a apelidei de Dona Florinda, em referência à personagem do programa do Chaves que também usava um lenço na cabeça.

Ela dava palpite em tudo que acontecia lá embaixo e sempre acabava por puxar papo ou, menos frequentemente, briga com alguém. Se bem que era total insensatez de quem se atrevesse a brigar com Dona Florinda, depois disso a única solução seria não passar mais por ali e não dar brecha para continuar a desavença. Ela se recolhia tarde, depois das 22 horas, sempre que o caminhão do lixo entrava na rua, vindo lá da Brigadeiro Luiz Antônio. Dizendo que não gostava do barulho dele fechava a veneziana com força, como se quisesse ofender o caminhão ou avisar a todos que acabara seu expediente.

Num dia qualquer, que eu estava voltando do trabalho, parei para perguntar-lhe sobre a origem de uma perfuração que havia na veneziana de sua janela e ela me pareceu muito feliz em poder contar. Disse que a inquilina anterior havia saído do imóvel por conta do tal incidente: uma bala perdida. Riu-se da medrosa porque considerava que quando era chegada a hora da pessoa não tinha o que a salvasse, se não, não havia bala que a acertasse. Adicionou mais alguns detalhes à história e gargalhou gostosamente ao final, como sempre fazia, e quando me despedi continuou a resmungar a mesma história na esperança de um outro transeunte ouvir e puxar papo.

Bastante tempo depois, estranhei quando vi a janela fechada. Ninguém sabia o motivo e passei a observar mais atentamente: o sumiço de Dona Florinda foi definitivo. Intrigada, parei para observar o lugar que ela ficava e percebi que agora havia duas perfurações na janela. Nunca soube se ela havia se ferido, passado dessa para melhor ou simplesmente se mudado. Nem tive certeza de que foi uma segunda bala perdida que a tirou de lá e lamentei que o predinho não tivesse um porteiro para me informar. Senti falta dos resmungos e principalmente das gargalhadas, mas com o tempo me acostumei. Lembrei do que ela me disse sobre a hora de cada um e, do fundo do coração, desejei que não tivesse chegado a hora dela.

TRAVESSIA - Oswaldo U. Lopes

 


TRAVESSIA       

Oswaldo U. Lopes

 

                         Antônio era de Minas e como bom mineiro gostava de trem: foneticamente, figuradamente e literalmente. Tão literalmente que estava dentro de um com mais uns oito que como ele, adoravam trem.

                         Hoje Antônio vivia em Araraquara, onde tomara o próprio, gostava de lá, havia estação, trens e a fama de entroncamento ferroviário. Só não gostava da brincadeira de chamar mineiro de paulista cansado. Uma alusão aos bandeirantes que ao retornarem de suas investidas pelo Brasil, mudando tudo, até os mapas, tinham se estabelecido pelo sul de Minas Gerais, gerando povoados e cidades.

                         Em matéria de trem, Antônio achava que já tinha visto de tudo, mas não tinha. Naquele dia e naquele cruzamento, haviam desviado o de passageiros rumo a uma lateral para dar prioridade, acreditem, a um trem de carga.

                         O tal, pela pintura, era da Atlântica, a gigante do transporte de minério e grãos. Nos tempos de agora e no Brasil em que viajamos, a tal prioridade fazia todo sentido pensou Antônio. Tempos cruéis, em que a vida humana pouco vale, e o que mais vale é o dinheiro, se possível de cor verde, dólar para os íntimos.

                         Antônio, mestre na mineirice, resolveu ficar quieto no seu lugar, vendo o enorme trem de carga fazer sua manobra para seguir destino. Todos olhavam maravilhados o tamanho do bicho, poucos pensavam na tristeza do viver num mundo assim.

                         Então, em voz baixa começou a cantarolar uma música que também se chamava Travessia e fora composta por outro mineiro, dos bons, grande e enorme musico: Milton Nascimento.

Solto a voz nas estradas

Já não quero parar