ASSIM NASCE UM DETETIVE - Sérgio Dalla Vecchia










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ASSIM NASCE UM DETETIVE
Sérgio Dalla Vecchia



Era uma família composta de pai, mãe e um casal de filhos.

O pai policial, mãe dona de casa, Sibele e Gustavo os filhos estudantes adolescentes.

Gustavo possuía uma peculiaridade, era muito observador e curioso, principalmente em desvendar mistérios.

O pai, por vezes, desabafava com a família as frustrações de uma investigação policial. Tinha certeza do culpado de um crime, mas não conseguia colher provas suficientes para que o promotor o indiciasse.

Gustavo ouvia o desabafo e não se conformava com a inabilidade do pai na busca das evidências do crime.

Chegou a pedir a ele para ajudá-lo na busca das provas.

A resposta do pai era negativa.

Dizia que ele era um adolescente, não sabia nada e ademais, não era assunto para menores de idade.

Acontece que o pai desconhecia a capacidade investigativa do filho e muito menos dos livros que lia escondido na calada da noite, versando sobre grandes investigadores.

Na biblioteca secreta de Gustavo havia:

Sherlock Holmes com seu inseparável (sidekick), Dr. John H. Walters
com quem aprendeu muito com a frase de Holmes; muitos veem, mas poucos observam.

Dick Trace, detetive durão das histórias em quadrinhos, personagem do cartunista Charles Gould.

Jane Marple, protagonista de doze romances de Agatha Christie, uma senhorinha que tricotando em sua casa na Inglaterra, desvendava inúmeros crimes. Seu lema era: assassinatos são fáceis de resolver, basta saber procurar o culpado no lugar certo.

Inspetor Closeau da Pantera Cor de Rosa, com suas divertidas investigações trapalhadas, porem sempre assertivas.

Toda essa leitura ensinou Gustavo a ser perspicaz em todos os detalhes na obtenção das provas de um crime.

Desvendava problemas caseiros, como encontrar uma joia da mãe, que sumiu misteriosamente da penteadeira. Ia à fundo até encontrá-la. A paciência e a calma eram suas armas! O resultado era sempre positivo.

Outra ocasião, o pet da vizinha desapareceu do nada. O desespero da família foi imenso; cartazes, avisos na internet e nada.

Para a alegria da dona, Gustavo a encontrou, com direito a beijos e abraços agradecidos.

Certo dia o pai chegou do trabalho muito aborrecido. Houve um latrocínio na casa de um casal que tinha um filho de nove anos.

Roubaram tudo que puderam e fugiram no carro da família. O casal foi brutalmente assassinado e para piorar, o filho desapareceu. A polícia não tinha certeza se os bandidos o levaram.

A expressão de tristeza do pai, fez com que instintivamente Gustavo fizesse uma colocação.

— Pai, desculpe minha intromissão, só quero ajudar. Você pode me ouvir?

O pai incrédulo como sempre respondeu negativamente.

— Insisto por favor, deixe-me ajudar. - Disse com lágrimas nos olhos.

Sentindo a verdade na voz do filho, o pai condoeu-se e acabou aceitando.

— Pode falar filho, estou amolado demais para não aceitar uma nova opinião, mesmo que seja de um menino.

O filho com a calma de Holmes disse:

— Se fosse eu quem lá estivesse e presenciasse a cena do crime, fugiria no mesmo instante apavorado para meu esconderijo.

— Vocês procuraram por todo o terreno da casa?

— Claro que procuramos, mas não o encontramos.

— Pai, tenho certeza de que o menino está por lá tremendo de medo, escondido no seu lugar secreto, que toda criança possui.

— Me leve até a casa, que eu o encontrarei. - Disse convicto como se encarnasse Dick Trace.

Nessa altura, o pai começou a aceitar a opinião do seu sidekick Gustavo.

— Está bem, filho, iremos amanhã bem cedo.

— Não, respondeu firme Gustavo! Terá de ser agora, não se esqueça que existe uma criança apavorada escondida em algum canto chorando de medo.

Não tendo uma alternativa em vista da convicção do filho, partiram imediatamente em direção à casa da tragédia.

Lá chegando, Gustavo com lanterna em punho foi direto para o quintal da bela casa de classe alta.

Não tinha medo, foi avançando pé ante pé acompanhando o facho da lanterna até que, possuído pelo inspetor Closeau, esbarrou numa bacia de alumínio fazendo um barulhão danado, quebrando o silêncio da noite. Quem mais se assustou foi o pai, que vinha logo atrás. Nisso Gustavo ouviu passos adiante e em seguida um barulho que lembrava um caibro de madeira caindo ao chão. O alerta agora estava ao máximo, o frio coração do pequeno detetive pulsava como nunca.

O facho de lanterna foi avançando até que deparou com uma porção de caibros e tábuas dispostos na vertical, encostados no muro de divisa.

Gustavo agora com a atenção da senhora Marple buscou o lugar certo.

— Só pode ser ali! - Pensou Gustavo com seus botões.

Pai e filho foram se aproximando, devagarinho foram removendo alguns caibros até que deparam com um menino deitado na posição fetal, chorava baixinho e tremia sem parar.

— Graças a Deus, ele está vivo! - Exclamou o policial abraçando imediatamente o menino e cobrindo-o com sua jaqueta.

Gustavo, radiante pelo êxito, abraçou o pai comovido, recebeu um afago e o primeiro muito obrigado do pai incrédulo.

O garoto antes de entrar na ambulância, chamou o Gustavo deu-lhe um grande abraço dizendo:

— Você me encontrou amigo, muito obrigado.

Pai e filho abraçados acompanharam a ambulância até a perderem de vista.

Gustavo foi homenageado na delegacia por todos os policiais.

O sucesso da operação, orientada por um garoto apaixonado por investigações, foi considerado um fato inusitado no meio policial.

Depois de algum tempo, o menino da tragédia, se recuperou do trauma, conseguiu descrever a cena do crime e posteriormente reconhecer, entre vários suspeitos já presos, os verdadeiros  assassinos.

A justiça foi feita.

Assim, daquela data em diante, pai e filho criaram um vínculo de cumplicidade.

O pai mudou totalmente a maneira de lidar com Gustavo. Relatava à ele todos os casos policiais que ocorriam e trocavam opiniões sempre proativas.

Dizem que ele entrou para a polícia, tornou-se um excelente investigador, delegado e depois um ilustre magistrado.








APARÊNCIAS ENGANAM - Antonia Marchesin Gonçalves



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APARÊNCIAS ENGANAM
Antonia Marchesin Gonçalves



                Viajando pela estrada do litoral resolvi parar numa encruzilhada que tinha uma vista maravilhosa, estava eu admirando a paisagem, quando parou outro carro e saiu dele um rapaz para fazer o mesmo. Dirigiu-me o olhar e comento “ O verde desta encosta é um verdadeiro jardim que culmina com no final com o mar a perder de vista, lindo você não acha? ”  Eu respondi, “Com certeza, estou encantada”. Começamos a falar e houve certa sintonia à medida que continuamos a conversa, nem percebemos a hora passar.

                Começou a escurecer ele disse, “preciso ir embora, tenho um compromisso importante, aliás, meu nome é Paulo”. Eu, lógico, me apresentei e ele em seguida completou, “vamos nos encontrar amanhã aqui na mesma hora, quero te ver de novo”. Nos despedimos assim, da mesma forma como ele chegou. No dia seguinte, ansiosa não sabia que atitude tomar. Decido arriscar, e fui ao encontro. Durante o caminho a distancia parecia grande, não chegava nunca, mas já à encruzilhada não vi carro nenhum, resolvi esperar, após duas horas de espera fui embora, restou saudade do desconhecido Paulo, que mexeu comigo, foi uma desilusão.

                No dia seguinte estou eu lendo o jornal e vejo em letras garrafais, executivo milionário de uma empresa de construção era suspeito de assassinato de sua namorada e estava foragido, e qual o meu espanto quando vejo a foto, era o próprio, o estranho Paulo que não veio ao encontro marcado. Mas o espanto maior era ele procurado pelo assassinato de uma linda jovem encontrada com os pés e as mãos amarradas, jogada pelo barranco daquela estrada em que eu o havia conhecido. Como trabalho em um grande jornal, resolvi usar a minha influência e pedir ao gerente da seção policial para ajudar-me nessa investigação, pois o meu instinto me dizia que ele não era o assassino, o seu olhar não tinha nada de maligno... Não costumo me enganar com as pessoas.

                Marcos o gerente da área policial conhecia os melhores detetives e bons investigadores, começou então o trabalho em descobrir a verdade. Após duas semanas usando todos os recursos disponíveis, nada conseguimos saber sobre o Paulo ou de sua vida, sumido ninguém sabia o paradeiro dele, sabíamos que tinha uma bela mansão no Jardim Europa, rodeada de um grande e cuidado jardim, muros altos com todo aparato de segurança, inclusive para entrar na mansão, todos passavam por um estreito corredor de ciprestes espessos com câmaras em toda extensão até chegar ao portão principal. Só pode ser da máfia, pensei, mas ele é muito jovem devia ter seus quarenta e cinco anos, um moreno charmoso, não poderia ser o chefão, normalmente são mais velhos, com caras de vovôs bonzinhos, mas verdadeiros assassinos com o sorriso no rosto.

                Nesse meio tempo tive que participar de uma convenção na Suíça, ficaria fora uma semana. Adoro os ares suíços, suas pequenas cidades lindas, principalmente as que ficam em volta dos lagos, são um colírio para os olhos. Instalei-me no hotel e a noite no coquetel de apresentação a grande surpresa, ele o próprio Paulo, elegante e sendo cumprimentado por todos com deferência. Ali era como se fosse uma celebridade.

                Pergunto ao amigo quem era ele, ao que me respondeu, é o Senhor Rogério Gusman, dono e herdeiro de umas das maiores empresas de construção do mundo. Mas, ele é procurado por suspeita de assassinar sua namorada no Brasil, disse eu. Esse caso já está resolvido, não tinham provas contra ele, ele apresentou um álibi gravado em que estava acompanhado de uma jovem na hora do crime admirando a linda vista do litoral.

                 Aprendi que nem sempre se pode confiar nos olhos meigos ou na fala mansa de um homem e nem confiar total no seu instinto. 



DESILUSÃO - Paulo A Abrahamsohn



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DESILUSÃO
Paulo A Abrahamsohn



Tudo começou no dia em que encontrei um envelope cor de rosa na porta de minha casa. O perfume suave e agradável que ele exalava me produziu uma sensação que não consegui identificar. Não tinha sido enviado pelo correio, foi depositado por alguém.

Eu tinha tido uma vida muito atribulada. Passei por muitos momentos, alguns alegres, porém a maioria tristes e amargos. Tive poucas amizades, poucos amores. Eu acabara de mudar para aquela cidade e não conhecia ninguém que morasse lá. Curioso, abri o envelope e dele retirei um cartão em que li seguinte:

José Ricardo
Sei de algo que te interessa muito. Para descobrir, venha amanhã depois de 7 da noite ao local indicado a seguir.
Ande pela estrada que sai da cidade até chegar em uma oficina de serralheiro. Entre à direita seguindo a seta em direção a Bom Descanso. Após cerca de 300 metros verá uma casa abandonada. Continue ao longo do muro da casa. Chegando em uma grade de ferro procure um portão. Atravesse-o e caminhe para frente. Não se esqueça de trazer nas mãos um pequeno ramo de flores.

Intrigado reli o bilhete várias vezes. Matutei bastante e, ao final, decidi seguir as instruções. Confesso que não dormi bem naquela noite. Acordei várias vezes e me revirei muito durante um sono pesado. Mas, na manhã do dia seguinte, mais calmo, retomei meu trabalho na tradução das obras completas de Stefan Transki, tarefa que me ocupou o dia inteiro.

Por volta de seis horas da tarde sai de casa levando o cartão e não esqueci de pegar algumas rosas no jardim com as quais fiz um pequeno buquê. Fui pela estrada até encontrar a oficina, entrei à direita e andei por um estreito caminho que me levou até uma casa abandonada de construção bastante simples. Seu jardim estava tomado por desordenada mistura de plantas, que há muito não haviam sido cuidadas. Andei ao longo do alto muro da casa. O caminho era muito estreito, calçado por pedras irregulares. Meus pés doíam pela dificuldade do trajeto e, enfim, cheguei à grade de ferro. Parecia muito antiga e estava toda enferrujada, corroída pelo tempo. Achei a porta em cujo centro havia uma enorme cruz de ferro. Com muita força consegui empurrá-la o suficiente para me esgueirar e passar para o outro lado. Neste havia uma pequena colina coberta de capim e na qual me esforcei para chegar ao alto. Chegando lá tive a visão de onde eu estava: era um cemitério antigo, bastante maltratado e sujo, com plantas crescendo nos corredores e sobre as lápides e esculturas. Parecia estar deserto, mas, subitamente, percebi ao longe um vulto branco correndo entre os túmulos. Vestia uma longa veste branca que alcançava o chão. A cabeça estava coberta por um capuz branco e o rosto escondido por um véu. Resolvi andar em direção do vulto, mas tive que correr, pois se movia rapidamente mudando várias vezes de direção e escondendo-se entre os túmulos. Não conseguia alcançá-lo. Várias vezes voltou seu rosto em minha direção. Após olhar pela última vez desapareceu da minha vista e eu, cansado e arfando, parei onde estava para descansar e sentei sobre uma lápide. À minha frente um túmulo chamou a minha atenção, pois era o único no qual havia lindas flores recém colhidas. Curioso, aproximei-me do túmulo e na lápide li: Maria Josélia Guimarães, 1984-2013. Fiquei paralisado. Era a minha Maria Josélia. Um amor antigo, mas que não deu certo. Que saudade! Reparei que sob as flores havia um jornal. Abri e vi que era uma edição antiga do jornal da cidade. Na página aberta havia a seguinte notícia: Faleceu Maria Josélia Guimarães, ilustre escritora, filha de nossa terra. Tinha uma carreira promissora, mas nos deixou na flor da idade. Participaram de seu enterro sua irmã Maria Carmen e amigos de infância. Soubemos que ela tirou sua vida depois de um longo período de desgosto após sua separação do escritor José Ricardo Medeiros.

O perfume do envelope. Era o Amour Toujours, o perfume predileto de Maria Josélia. Desiludido e desgostoso comigo mesmo deixei o meu buquê de rosas no túmulo e saí derramando lágrimas por todo o caminho de volta.


PÉ NA COVA - Ledice Pereira




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PÉ NA COVA
Ledice Pereira




Como estava difícil encontrar trabalho!

Alfredo começou por procurar serviço de pedreiro. Era o que sabia fazer. Mas a situação estava preta.

Andou pela cidadezinha toda até que deu com uma placa mal escrita na porta do cemitério.

Não era letrado. Fizera até o terceiro ano primário. Conseguia mal e mal juntar as letras e soletrou:

PRECISA UM COVEIRO

Sentiu um arrepio, mas resolveu entrar e procurar a administração.

O homenzinho que o atendeu devia ter um metro de altura. Com seus bracinhos curtos passou a ele uma ficha pra preencher.

Explicou que o coveiro da cidade havia morrido na própria cova.

Alfredo sentiu mais um arrepio.

A porta do lugar bateu ao mesmo tempo em que o vento assobiou.

O anão deu-lhe um sorriso estranho. Faltavam-lhe os quatro dentes da frente.

Alfredo começou a tremer. Nem conseguia preencher direito a tal ficha.

Não costumava ser medroso, mas aquele lugar sinistro o amedrontava.

O papel começou a voar pela saleta. Ele não conseguia pegá-lo de volta.

O homenzinho continuava a sorrir. Um riso enigmático.

Uma gargalhada ecoou pelo local, enquanto a ficha rodopiava, tal qual um pião.

Alfredo sentiu-se enlaçado num abraço gelado.

Apavorou-se. Tentou sair do lugar. A porta estava trancada.

O anão havia sumido. Não havia mais ninguém. Gritou o mais que pôde.

Abriram-lhe a porta, estranhando que estivesse preso ali. Aquele lugar não costumava ficar trancado. Disseram-lhe que eram os coveiros contratados pela Prefeitura. Não havia nenhuma outra vaga para a função.

  Tinham que enterrar um anão indigente, encontrado morto perto dali, no dia anterior.

PEQUENINIM - MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO



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PEQUENINIM
MÁRIO AUGUSTO MACHADO PINTO



Lembro-me perfeitamente bem da casa de madeira, velha e abandonada à beira do barranco, verdadeiro precipício, caída para um lado devido ao vento quase constante que por ali rugia; lembro-me da pequena horta, da coelheira sem coelhos, dizimados que foram, do galinheiro invadido na correria medrosa dos garotos para apanhar ovos e do pombal tido como suposto abrigo de pombos correio transportando mensagens secretas, e do guardador do local classificado como fugitivo da justiça. Sem a boina sebosa, curvado, diziam os mais velhos que lembrava o Corcunda de Notre-Dame. O populacho concordava sem saber bem donde era esse fulano.

Quase tudo nele, com ele ou usado por ele, era pequeno: estatura, mãos, pés, rosto, menos o nariz e a testa. Comprido e adunco aquele; esta, ampla, a meu ver mais de calvície e idade do que por sinal de sabedoria, arquivo de fatos, coisas, pessoas ou conhecimento. Engenhoso ele era. Inteligente? Tinha que ser ou não seria engenhoso. Era arredio a contato com as pessoas do vilarejo. Cumprimentos? Só aos que o interessavam: ao dono do armazém, da farmácia, ao dentista, ao médico, ao delegado. Sim, o vilarejo de umas mil e poucas pessoas tinha um que se autoproclamara. Na verdade, era guarda rural. Fazia as maiores desfeitas ao corcunda dirigindo olhares tortos, sinais com dedos e mãos, gritos de xô, xô à sua passagem e alguns sussurros ferinos. Isto e mais algumas suposições ajudavam conhecer a quase realidade do Tom, o apelidado Tom Mix do delegado. A verdade é que ninguém sabia seu nome.

Ermitão, caladão, apesar do falatório e conjecturas alimentadas pelo disse que me disse, a verdade é que não se sabia o porquê ou para  quê alugou ou comprou a casa de madeira caindo aos pedaços. Mais estranho ainda tudo ficou quando começou a reforma, pintura, colocação de pequenos maquinismos apropriados para trabalhar metais. Cercou a casa com verdadeira paliçada protegendo-a dos estranhos e curiosos que já se contavam a grupos numerosos ativos e maliciosos.
 
Sem se importunar, trabalhava de sol a sol. Parava e deixava a casa uma vez por mês para se abastecer. Era pouco. O mais colhia ou arrancava do solo da herdade. Herdade, grande herdade! Os fofoqueiros diziam gozando e rindo.

Concluída a reforma, convenientemente instalado, suportando gracejos, ironias e desfeitas Tom Mix levava a vida qual monge em retiro. Pouco visto, detestando presença de estranhos, ficou cada vez mais recluso, tornou-se quase invisível. Só era visto à noite falando e cantando às estrelas e à lua. Declamava e cantava versos conhecidos, como “Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento” ...e o pessoal dizia que ele tinha dor de cotovelo.  Ao declamar “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”...diziam que era do Nordeste e seu amor estava lá. E outras coisas. O fato é que juntava gente, principalmente namoradinhos, para ouvir e, pasmem, aplaudir. Às vezes tocava música estrangeira e a turma se perguntava donde vinha a eletricidade pra vitrola. Donde? Lá fora não se viam postes nem fio algum! Palpitando, a vitrola é daquelas de dar corda com manivela! Respondiam os mais sabidos.

Parece que ficou aborrecido com a constante presença de pessoas ao redor de sua propriedade. O fato é que aos poucos foi cantando menos vezes, não era mais visto e suas idas à vila foram rareando não mais aparecendo. Todos se perguntavam o que teria acontecido. Teria abandonado a casa, a herdade? Teria morrido?

Alguns curiosos chegaram a verificar, mas fugiam em desabalada corrida quando ouviam o som de portas batendo, gemidos, choros, risadas raivosas, xingamentos, uivos e latidos de animais além de sentir coisas roçando suas pernas, aranhas embaraçando seus cabelos e esguichos de fétida água barrenta, fora os carrapatos hospedados e formigas mordiscando a pele.

Aí o delegado disse que isso não podia continuar assim e no exercício de suas funções formou um grupo de pessoas pra verificar como e o porquê desses acontecimentos e do sumiço do Tom Mix. Examinaram várias hipóteses e nenhuma era plausível. O delegado então sugeriu que fossem verificar no local. Marcou dia e hora. A reação foi imediata “À noite eu não vou” disse um. “Só se for durante o dia”, disse outro e mais outros. Pra acabar com o vozerio e decidir o assunto, o delegado usando sua autoridade disse a plenos pulmões “Bem, vai ser na quarta às duas da tarde. A gente se encontra no portão da Delegacia. Todo mundo trás lanterna, vela, fósforos e corda de náilon. Nada de arma de fogo. Se tiver, eu confisco. Combinado?” Diante dos tantos SIM, encerrou a reunião, cada um foi pra sua casa onde o assunto do jantar foi o trato com e do delegado. A partir daí a vila só viveu na expectativa dos que diziam ser a busca e apreensão do Tom Mix, o Corcunda da Vila Souza.

A Quarta Feira chegou, o pessoal se juntou sob comando do delegado e marchou em direção à herdade. Quase chegando foram notadas algumas pequenas mudanças no caminho de terra: buracos tapados, sarjetas de contenção pra água, algumas flores.

O silêncio era tanto que dava pra ouvir o zumbido das moscas varejeiras voando ao redor. Transpondo pequena elevação deu pra ver a casa, a chamada herdade. Não havia mais a alta cerca. A casa estava conservada, mas havia algo novo: cartazes com figuras coloridas e outros escritos. Ninguém aguentou. Correram para verificar e leram:


INAUGURAÇÃO DO MUSEU DO TOM MIX DIA 5 ÀS 19 HORAS.
ENTRADA GRATIS.
VENHAM E TRAGAM A FAMILIA!





SOB PRESSÃO OU SOBE A PRESSÃO - OSWALDO U. LOPES




SOB PRESSÃO OU SOBE A PRESSÃO
OSWALDO U. LOPES



        Leonardo se reclinou na cadeira, pensativo, sozinho na sala dos médicos do Pronto-Socorro do HC – FMUSP. Tudo estava calmo ou, aparentemente calmo. Era residente de terceiro ano, ou seja, quase capo, os mais jovens estavam ocupados em atender os casos que entravam a todo momento e os Assistentes já tinham se recolhido à seus quartos. Tudo conforme a escrita que pelo que contava seu pai, formado nos anos sessenta, não mudara muito.

        As instalações eram melhores e mais amplas, a UTI tinha uma cara mais dinâmica e cheia de aparelhos de ultima geração, mas o movimento era intenso e contínuo.

        Certamente uma coisa era nova, o calibre das armas de fogo. No tempo do velho Rafael o máximo que se via era .38 ou até mesmo a memorável garrucha que não produzia grandes estragos. Hoje a coisa era puxada a .45  e bala de fuzil. Os estragos tinham outra qualidade e não era raro recolherem restos de um massacre feito com metralhadora. Diferentemente do que ouvia e lia sobre o Rio de Janeiro, não era comum, bandidos armados entrarem no PS para liquidar uma fatura.

        Hoje, noite alta, atendera uma ocorrência no estilo Rio de Janeiro. Luta de facções em que resultara fuzilamento mútuo. A policia intervira para recolher mortos e feridos. Só que ao contrário da piada entre mortos e feridos havia mortos bem mortos e feridos que morreram ali mesmo na sala de entrada do PS.

        Ele atendera o Genivaldo, segundo a policia, facínora dos mais conhecidos, responsável pelo tráfico na zona norte da cidade, para lá do Campo de Marte. No enfrentamento, sua gangue levara a melhor tendo despachado muitos do bando rival. O PM achava que haveria resposta e dois deles ficaram na entrada do cubículo em que Genivaldo passava por curativos e medicação.

        O quadro não era dos mais graves. A sorte gostava dele. A bala atravessara a coxa, sem perfurar vasos importantes nem quebrar ossos.

        Tudo como sempre, calmo e sob pressão. Como era mesmo a piada do Show Medicina?

        — Enfermeira, qual é a pressão?

        — 15 na frente e 32 atrás, doutor.

        Eta mundo veio sem porteira, pensou consigo mesmo. O que pensaria o Dr. Rafael se estivesse exatamente onde estava seu filho.

        Não deu para acabar de pensar, um ruído inconfundível de metralhadora disparando se fez ouvir. Levantou-se totalmente desperto e tornou a ouvir o ruído inconfundível e mais ruído de carros em movimento e gritos. Correu na direção da sala de atendimento do PS e viu o que não queria ver.

        No cubículo onde Genivaldo aguardava para ir embora, um PM jazia morto, o outro se dobrava no chão numa poça de sangue. Genivaldo estava morto, bem morto todo perfurado. Anselmo, o enfermeiro mais antigo do OS, estava num canto com as mãos na barriga. Sérgio o sextanista que estava de plantão se escondia em baixo da pia, mas tinha sangue a lhe escorrer pelas costas. Estava mudo e assustado, muito assustado.

        Bem vindo ao Rio de Janeiro pensou Leonardo enquanto se dirigia para atender os feridos.

        E os mortos? Pensou “Que os mortos enterrem os seus mortos”, como bem explicara Jesus. Mat. 8: 22



DESILUSÃO - Oswaldo U. Lopes



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DESILUSÃO
Oswaldo U. Lopes


        Desilusão, desilusão
        Danço eu, dança você...

        Eta! Freud de novo, não conseguia seguir com a música. Lembrava das primeiras palavras e de Paulinho da Viola.

        Qual fora a desilusão? Ou quais foram, a gente carrega tantas que fica difícil saber qual era a tal que gritava no inconsciente ou seria no hipocampo.

        Voltou a atenção para a estrada, ainda tinha de percorrer uma longa distância e aquela música não era a melhor companheira, mas também não conseguia livrar-se dela.

        Desilusão, desilusão...

        Fora algo que lera no jornal de manhã? Acho que não, se fosse pelo jornal ia ter desilusão todo dia e se juntar o noticiário da TV, também toda à noite.

        Era algo mais antigo, mais penetrante. Saudade... Era isso, saudade, mas de quem? Quando?

        O pensamento voou e foi parar no jardim da Faculdade. Passeando com Lucíola de mãos dadas, felizes pairando no etéreo, volando.

Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão...

        Havia um baile, uma dança de solidão, um rompimento, um fim e mais não conseguia distinguir. A distância no tempo tornava tudo meio obscuro.

        Só via Lucíola, a desilusão e a música, por quê? Por que Lucíola de repente? Como é Freud, vai explicar ou não?

MAL POR MAL E OUTROS CONTOS DE ARTUR DE AZEVEDO - AUDIOBOOK




Clicar aqui para ouvir o conto:



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E aqui você poderá ouvir outros tantos de Artur Azevedo, é só clicar:

Autor:Artur_de_Azevedo



MAL POR MAL...
Artur de Azevedo


Há bons maridos que se tornam maus porque as mulheres não são boas.

O Sebastião está ou esteve nesse caso: tão apoquentado se viu pela cara-metade, que um belo dia resolveu procurar na rua os carinhos que não encontrava no lar doméstico.

Não foi preciso procurar muito. O acaso fê-lo encontrar na Avenida Central, diante de um cinematógrafo-anúncio, uma bela morena que lhe deu volta ao miolo e lhe tirou noites de sono.

Se D. Flaviana, a mulher d0 Sebastião, fosse meiga e condescendente, e não tivesse tão mau gênio, está visto que ele não se deixaria prender nos braços de outra; mas deixou-se prender - e preso ficou ao ponto de arranjar uma casinha lá para os lados da Cidade Nova, onde esconderam - a morena e ele - o seu delicioso pecado.

E tão bem escondidínho estava que ninguém sabia de nada, exceção feita de Sepúlveda, o melhor amigo de Sebastião.

E o Sepúlveda não podia ser mais obsequioso. Como percebeu que a felicidade do amigo estava naquele derivativo, ele próprio se encarregou de alugar a casinha e mobiliá-la. A sua obsequiosidade foi ao ponto de arranjar para a porta da rua uma fechadura que se abria com a mesma chave da fechadura conjugal. De modo que o Sebastião não tinha necessidade de andar com duas chaves, o que seria perigoso.

D. Flaviana, se fosse mais observadora, teria notado que de certo tempo em diante o Sebastião começou a sofrer resignado todas as suas impertinências. O pobre diabo dizia consigo: - "Lá tenho a Mirandolina para consolar-me." - Mirandolina era o nome da morena.

Entretanto, o Sebastião não ficava nenhuma noite fora de casa. Passava algumas horas com a Mirandolina, mas á hora conveniente lá ia para casa.

Uma noite destas encontrou D. Flaviana acordada e disposta a brigar. Ela andava já com suas desconfianças de que o marido tinha contrabando lá fora, e entendeu que naquela noite deveria pôr tudo em pratos limpos. Recebeu o pobre homem com duas pedras na mão.

- Onde esteve o senhor até estas horas?

- Não tenho que lhe dar satisfações!

Quero saber onde o senhor esteve! Olhe que eu perco a cabeça!

- Pois perca, mas antes disso deixe-me ir embora!

- Que a leve a breca! - disse consigo.

Mas era tarde, muito tarde, e o Sebastião precisava dormir. Lembrou-se de ir para um hotel, mas refletiu:

- Para que, se tenho Mirandolina? Ela não conta comigo! Vai ter um alegrão com a minha volta!.

E lá foi para a casa da Mirandolina.

Meteu a chave no trinco, abriu a porta sem rumor, e entrou devagarinho no quarto dela, que ressonava.

Aproximou-se e viu, surpreso, que um homem dormia ao lado de Mirandolina. Deu toda a força ao bico do gás, e reconheceu que esse homem era o Sepúlveda, o seu melhor amigo.

Este levantou-se extremunhado.

- Fica onde estás! A casa é tua deste momento em diante! disse-lhe o Sebastião.

E o mísero saiu, e voltou para o lado da mulher legítima, que encontrou chorosa e quase submissa.


- No final das contas, pensou ele, mal por mal, antes a obrigação que a devoção.






Um cinturão – Conto de Graciliano Ramos


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As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé do turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.

O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás de caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que gogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.
Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.