Síndrome de Abstinência - Ises de Almeida Abrahamsohn


 

Síndrome de Abstinência

Ises de Almeida Abrahamsohn


Era domingo, Marina  completava 14 anos. A mãe preparava um café da manhã especial e o pai saíra para comprar  os croissants. De repente, chegaram até a cozinha  sons sincopados alternados com  palavras de  desespero.  

Marina soluçava  e  exibiu  o  i-fone :

_ Parou, sem mais nem menos!  Morreu !  Logo hoje no meu aniversário!
    
A mãe  ainda arriscou: 

_ Será que não é a pilha que acabou ? 

Marina  lançou-lhe um olhar  de desprezo acompanhado de  algumas fungadas : 

_ Mãe,  os i-Mac não usam mais pilhas  há  anos !  Precisamos ir urgente à loja do Shopping. Uma amiga  minha disse que nesses casos eles trocam na hora por um novo.

O restante da manhã  transcorreu em clima de  tragédia.  Emprestou o celular do pai e ficou passando mensagens contando a tragédia.  Os avôs telefonaram  e  ouviram a voz  lacrimosa  contar a desventura  atual e as futuras a  acontecer  se  ficasse sem o  i-fone.

         Finalmente   às duas da tarde mãe e filha  entraram na  Mac-loja.  Lotada....  Meia hora depois Marina explicava  o ocorrido ao funcionário.

_  Sinto muito, mas só podemos examinar  o seu i-fone em horário agendado  . Talvez na livraria onde também há um setor de consertos, eles  possam dar uma olhada.

Na livraria não tiveram mais sorte. Nesses casos  realmente  era necessário  agendar , demoraria  um dia.  Mas era possível agendar num computador  dali mesmo.  Um dia a mais sem  comunicação  era  algo terrível e  Marina desatou a chorar.  Não conseguiu  fazer o agendamento,  era preciso o numero de série do aparelho.   A  custo a mãe convenceu-a a voltar para casa.  O primo estudante  da Poli viria à noite para o bolo de aniversario e ele poderia ajuda-la.

        À noite Marina não queria saber nem do bolo nem de nada.  Assim que o primo chegou  foi direcionado  para o velho computador da mãe para fazer o tal agendamento. Só depois, por boa educação,  Marina apareceu  na sala para  soprar as velinhas  e  cortar o bolo.  Nem queria que tirassem fotos: as pálpebras estavam inchadas e não tinha nenhuma vontade de sorrir.  Desdenhou quaisquer palavras de  conforto ou solidariedade  dos  parentes. Que sabiam eles  das agruras  de  ter que viver desconectada!

        Ao rezar antes de dormir teve a ideia.  Deveria existir algum santo a quem pedir socorro, um  que fosse protetor dos  internautas  e  dos tecno-dependentes. Quem seria?  Havia santos para todos  os misteres, algum  seria o mais indicado  !  Lembrou-se de Santo Expedito, padroeiro das causas urgentes ... A dela era realmente  urgente!  Mas este  Santo era muito genérico ...  

 _O  Google  deve saber !....  Lembrou  do  jurássico  computador  da mãe.  De fato, lá  encontrou:

“ Santo Isidoro de Sevilha,  protetor dos usuários de Internet e programadores de computador. Acredita-se que Isidoro, que viveu no século sétimo, escreveu a primeira enciclopédia do mundo, a Etymologies, a qual inclui registros da medicina, matemática, história e teologia. “

         Marina  explicou  tudo ao Santo,   e fez  o  pedido... Também  achou por bem acrescentar uma promessa : ajudar o  irmão mais novo  a usar  o  novo Photoshop.

        No dia seguinte, após a escola, lá foram de novo Marina e a mãe ao Shopping.

_  Não, garota , não tem nada agendado em seu nome.  - Marina começou a chorar e o rapaz  desconcertado falou - Vou chamar minha colega Lucia,  talvez ela  possa resolver. 

Marina  apelou mentalmente  a São Isidoro:  

_Talvez  tenha esquecido , devem ser muitas mensagens, mas lembre-se de mim !

        Marina  voltou a relatar   o problema, agora à Lucia.   A moça parecia legal. Iria levar o i-fone para examinarem.    Enquanto esperavam, Lucia contou-lhe  que estudava informática  e que tinha participado  da última Campus Party.   Ganhara uma medalha  por ter criado   um novo programa de análise  de imagens.  Neste momento, apareceu alguém do fundo da loja dizendo que o i-fone não tinha mesmo conserto, mas que iriam substituí-lo.

Marina respirou aliviada. Mas havia um problema,  não tinham aquele modelo em estoque e iria demorar  3 semanas para chegar.  Lucia viu  as lágrimas  que  começavam a toldar os olhos da garota.

 _ Calma, calma, foi só brincadeira. Aqui está o seu novo i-fone  com uma  capa cor de rosa  de  brinde.  Venha vou lhe mostrar a minha medalha. 


Ao examinar  a  medalha ,  Marina viu no verso  a imagem de Santo Isidoro , que parecia  piscar-lhe um olho. 

AO SOM DO MAR. - Mario Augusto Machado Pinto



AO SOM DO MAR.
Mario Augusto Machado Pinto

Chegar até este ponto em minha vida não foi fácil.  Trabalhoso, desde a infância. Só pra dar ideia: vivi com os coleguinhas me aporrinhando o tempo todo e, na gozação, me dizerem que,

sortudo, nasci e fui deitado em berço esplendido
ao som do mar e à luz do céu profundo.

Vê se pode.
É, foi muito sacrifício, muito estudo, muito trabalho, muita dedicação a tudo que fazia; engoli muito sapo objetivando o ponto máximo de uma atividade dedicada ao bem comum. Bem comum? Sim, posso dizer que sim: era dirigida à salvaguarda de todos.

Por que estou pensando isso? Porque noutro dia ouvi meus filhos conversando sobre as possibilidades de trabalho no futuro e o que seria necessário saber sobre a possível tendência de cada um com referência a uma profissão, dela viver e nela fazer carreira. Todos falavam ao mesmo tempo e, de repente, silêncio quebrado pela afirmação da caçula:

- Cada um sonha fazer alguma coisa na vida. Pai Você sonhou ser o quê?

Pego de surpresa – não gosto delas – fiquei titubeando procurando palavras pra resposta:

- Bem, devo ter sonhado várias vezes em ser bombeiro, soldado, mocinho, polícia, essas coisas, mas sobre o que Vocês estão falando só me lembro de uma vez ter sonhado que era comandante de uma caravela que tinha a cabeça de um Martim Pescador esculpida na proa e canhões de ambos os lados da amurada e no alto do mastro central uma bandeira negra com o símbolo de pirata, caveira e ossos...

- Ó Pai e Você lá sabia o que era esse Martin? Pai, não chuta, vai!...

- Soube depois, respondi humildemente e sem graça.

- ...e canhões, bandeira de pirata...Você era? Duvido deodó...

- ...menina! Gozação não gosto, não. Para já com isso!

Afastei-me. Fui ao meu lugar favorito: o terraço de onde via o mar, a entrada e a saída dos navios. Ali rememoro fatos da vida, alguns são repetidos, outros que esquecidos aparecem assim como alguém que não quer nada.




Vida agitada a minha.
Desde a infância sou apaixonado pelo mar, ou melhor, por navegar, competir usando veleiro. Sempre. Como é gostoso sentir o sibilar do vento entre as velas, receber as gotículas de agua salgada acariciar o rosto, gelar as mãos, desafiar a força ao enfrenta-lo curvando as costas. O sol, ah! o sol nascendo, brincando de esconde -  esconde com as nuvens, fugindo da lua, caçando estrelas. São momentos raros, fugidios, mas que me dão prazer de viver mesmo sabendo Afinal, são sonhos.

Confusão de pensamentos, imagens: o lobby do veleiro onde eu rezei tantas vezes junto à imagem de N.S.da Boa Esperança, réplica daquela que veio com Cabral; meu camarote de Comandante, Capitão – de – Mar – e- Guerra, minha fala aos tripulantes citando o poeta Augusto Branco, de Rondonia:

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe,
vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve,
e a vida é MUITO para ser insignificante.

Ouvir a canção gloriosa:

Qual cisne branco que em noite de lua
Eu sou o pirata da perna de páu
Vai deslizando num lago azul
Do olho de vidro, da cara de máu...
O meu navio também flutua
Minha galera, dos verdes mares
Nos verdes mares de Norte a Sul
Não teme o tufão...

- Ah...!

- A-ten-ção! Leme 3 graus Noroeste!


- Leme 3 graus Noroeste, se-nhor!

TANTA BELEZA, TANTA ANGUSTIA - Oswaldo U. Lopes




 TANTA BELEZA, TANTA ANGUSTIA
Oswaldo U. Lopes

Ligia era alta, esguia, uma figura heráldica. Sobrava entre as outras não só pelo porte, mas pelo todo. Exalava perfume até em fotografia. Tinha 35 anos, a idade perfeita da balzaquiana. Tinha curvas, ou seja, não era magra anoréxica. Como era alta não era de comparar ao violão como é de praxe, estava mais para violoncelo, instrumento que se segura em pé. Tinha cabelos longos e encaracolados desses que você vê e já quer desmanchar, tocar, desfazer.

            Se fosse égua seria tordilha ferrugem, pois o cabelo tinha laivos de castanho em fundo cinza. O efeito que essa cor dava ao todo era surpreendente. O conjunto era exuberante e sóbrio, atraia o olhar e junto o respeito, não tinha nada de vulgar. Ela passava você olhava e não tinha coragem sequer de assobiar ou de dizer gracinhas.

            Ligia era professora de arte, desenhista de jóias, especialista em renascimento. Parecia saída de Florença, direto da pena de Boticelli. Não fazia jóias, desenhava-as para que outros a executassem. Tinha um traço fino e largo. Como era possível? Só vendo. Por vezes lembrava Picasso, com quatro traços largos e rasos lá estava a rosa mais linda de se olhar. Convertida em prata ou mesmo aço era estonteante.

            Suas aulas eram surpreendentes e curiosas. Começava sempre por uma cena fotografada na rua. Um canto torto, uma luminária encurvada, um azulejo colorido, uma vitrine que ninguém percebera, um canto que se tornava maior do que um monumento. Dali começava a falar sobre o plano, a curva, a interface, o espaço, o átomo e o universo. Quando chegava ao Renascimento e a sua amada Florença seus ouvintes já não mais estavam presentes em corpos reais, mas viajavam no espaço-tempo que ela criara procurando as cúpulas e as colunas interceptas.

            A procura de seus ângulos inesperados, recônditos e escondidos gostava de caminhar na chamada Manhattan paulista. O entroncamento das ruas Haddock Lobo, Oscar Freire, Bela Cintra, Lorena etc. Achava que ali tinha mais elementos que nos shopings que acusava de mesmice eterna.

Encontrava encanto e fato até nos nomes das ruas. Não podia esquecer a cara dos seus alunos no dia em que a aula começara com a placa da Rua Haddock Lobo e a explicação de quem fora Haddock Lobo. Como partindo de um português que estudara medicina no Brasil e fora político conservador chegava-se a cúpula de Brunelleschi só assistindo para ver.

Claro que chamava atenção. Alias chamava atenção desde quando saia de casa. O porteiro do prédio esperava ela passar para depois segui-la com o olhar. A bem da verdade não era um olhar vulgar, era o olhar de quem contempla uma obra-prima. Parecia a história do pastor americano que achava Kim Novak a maior prova de que Deus existe. Hoje estava de tailleur cinza escuro com toques de preto, blusa cor de rosa claro, um discreto colar de prata e uma bolsa preta além, é claro, da sua imprescindível Pentax com que ia fotografando os cantos, recantos e contornos.

Deixou-se levar pela curiosidade e instinto, ai deu-se conta de que se afastara um pouco e já estava próxima da Avenida Rebouças, fora da Manhattan que tanto a inspirava. Resolveu voltar e foi quando sentiu a ponta de uma faca ou algo semelhante nas costas. Sentiu também a presença de alguém atrás de si.

            Como dizia o delegado da televisão “não reaja” imagine qual seja o alvo do assalto: a sua Pentax pensou. A faca lhe indicou o caminho, passando pela Matias Aires. Um muro de terreno baldio, numa área valorizada destas, quem diria. Nunca teria imaginado uma abertura nesse muro encardido, mas foi empurrada violentamente para dentro dele. Percebeu, tarde demais, que não era a Pentax que o seu seguidor queria, mas ela mesma.


Sentiu a pedrada na cabeça e sentiu muitas outras coisas, uma angustia sem fim, a roupa rasgada, o estupro, o olhar fugindo, a consciência também, a morte próxima, assim sem mais nem menos, será que iria exalar o perfume de morte que os cientistas andavam falando. Que frio horrível, já não sentia mais nada.

QUAL SONHO? - Jeremias Moreira



QUAL SONHO?
Jeremias Moreira

Uma página do jornal Folha de São Paulo de hoje, domingo, 04 de outubro de 2015, traz um anúncio para vender a Coleção Folha Grandes Pensadores, com a frase, atribuída a Carl Marx: “Ele sonhava com um mundo onde todos fossem iguais”

Assim como Marx, Martin Luther King teve o sonho de uma sociedade livre de preconceitos em que os negros dos Estados Unidos tivessem os mesmos direitos que os brancos.

O verbo “sonhar” usado, nas suas respectivas conjugações, nos exemplos acima, tem a conotação de desejar, almejar. É metáfora de ambicionar.

Essa conotação de “sonhar” não só é humana, como usual. Todo mundo tem um “sonho”. Seja a aspiração de uma ótima carreira profissional, a de encontrar a pessoa amada, ou o simples desejo de assistir a um show de um ídolo ou ver a partida de futebol de seu clube preferido. Enfim, alcançar os objetivos que pretendemos.

Já para a ciência, “sonho” é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono. Para Freud, os sonhos, enquanto dormimos, são gerados na busca pela realização de um desejo reprimido. Também, visto por esse prisma, o sonho não é privilégio de ninguém, pois qualquer um sonha.

A diferença é que, enquanto no primeiro caso temos domínio sobre o que queremos, ou melhor, esse “sonho” é resultado de nosso arbítrio e para que isso se realize temos que ir atrás, seja lá o que isso signifique, no segundo, o nosso consciente não domina. É uma manifestação inconsciente e, aparentemente, arbitrária. Não conseguimos programar o que sonhar. Ou se programamos não temos consciência.

Quando estava no primário havia uma menina na minha classe por quem me apaixonei perdidamente, tanto quanto uma criança de sete anos pode, verdadeiramente, se apaixonar.

Sandra era seu nome. A Sandra era meiga, olhos de amêndoas, pele macia, cabelos pretos escorridos e curtos, que deixavam à mostra seu rosto delicado e tão bem moldado pela natureza.

Eu ia muito ao cinema e assistia aos filmes de cawboy, tão em voga na época. Quando chegava a casa, colocava o pijama e ia pra cama, imediatamente meu pensamento procurava pela Sandra e a transformava na heroína do meu sonho. Ficava um tempão elucubrando um enredo, semelhante ao do filme que acabara de assistir, onde nós dois éramos os protagonistas. No final eu sempre era o herói que a salvava do perigo.

Não sei se isso era sonho ou divagação, mas são as lembranças que tenho do que seriam os meus primeiros sonhos.

Claro que a Sandra nunca soube que foi minha partner em inúmeras aventuras idílicas infantis.


O sonho − como metáfora de expectativa − se desfez quando fomos para o ginasial. Eu continuava a mesma criança − um pouco maior − enquanto Sandra, agora uma garota, com peitinhos e tudo, atraiu a atenção dos garotões mais velhos.

O embornal - Oswaldo Romano



UM ESPAÇO NO TEMPO
INÍCIO DE UMA BIOGRAFIA
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O EMBORNAL
Oswaldo Romano

Nasci em 4 de abril de 1928, mas o que conto é meu primeiro dia de aula, tinha sete anos quando fui matriculado no pré-primário. Minha apreensão foi a mesma que todo menino sente nos dias que antecedem à primeira aula. A cabeça girava. Acompanhava atento o preparativo feito com muito carinho pela minha mãe. Seu nome era Hermínia, mas todos a chamavam de Nena.

— Tenho que costurar o embornal para você, disse ela. Já comprei o brim amarelo-cáqui, cor da fruta. Vai ter o tiracolo, e todas as suas coisas vão caber nele.
— Mãe, o que é tiracolo?
— Pra saber tudo, é que ocê vai indo à escola filho.

Iria começar a aprender o bê-á-bá. Na noite precedente fui pra cama cedo, mas como era de se esperar, não conseguia dormir. Sei lá a que hora, pensando na falada e temida professora dona Isaura, adormeci. Acordei com o chamado de minha mãe:
— Wado... Tá na hora, seu primeiro diiia!

Assustei, tremeliquei, mas logo me encontrei. Estava todo ensopado! Não era suor, não! Sonhei que escondido, nadava na cachoeira, lá perto da estação da minha pequena cidade natal. A água estava quentinha, quentinha. E o colchão também!

Como era meu primeiro dia na escola, a mijada foi perdoada. A expectativa era um assombro. Depois do banho, lá fui eu. Sapato cheirando a graxa, meias brancas, calção e camisa manga curta impecavelmente passados, levava orgulhosamente a tiracolo meu embornal, muito lindo, com aba, botão de fecho, o lanche e muitas recomendações. Eram tantas que nenhuma chegou até a escola. Foram todas, não esquecidas, mas embaralhadas.

Era moleque, não tinha irmão que me ensinasse. Aprendi a ouvir e a me impor. Durante o recreio fiz aproximações com outros garotos, inclusive os do bairro oposto, com quem tínhamos certas rivalidades. Foi quando um deles, mais metido zombou:
— Que embornal feio! Amarelo! Enrugado!

Pra quê!? Lembrei o carinho com que a mãe o havia costurado. Levantei a cabeça pro céu aspirando, ele olhou o que seria, aproveitei e meti-lhe uma botinada na canela. Ele gritou. Logo no primeiro dia! Por sorte o vigilante estava de costas, virou-se assustado indagando...  Eu com cara de dor fui dizendo:
— Moço esse moleque tá me batendo!


QUERO SER DOMADOR! - Carlos Cedano



QUERO SER DOMADOR!
Carlos Cedano

Só se falava disso na pequena cidade. Todos entusiasmados com a chegada do circo, e eu comecei a guardar parte de minhas magras semanadas, o ingresso custava um olho da cara!

O sábado seguinte à tarde e com casa cheia, o espetáculo começou com um toque de trompete. Um senhor barrigudo, calçando botas compridas de couro, bigode grande e com uma enorme cartola, fez a apresentação dos artistas um a um, até chegar aos mais esperados: Miss Donia a equilibrista, e Mister Robert o domador! Entusiasmo geral, palmas à beira do delírio e música estridente da desafinada banda!

A penúltima apresentação foi de Miss Donia, uma misteriosa mulher, de rosto sempre sorridente. Apesar de meus treze anos percebi que sua figura mexia comigo, sentia uns arrepios que não conhecia e umas palpitações inesperadas!

Finalmente, agora sim! Entrou em cena Mister Robert, seu chicote cortava o ar e os estalidos amedrontavam os leões instalados numa pequena plataforma de ferro. Depois, os bichos fizeram uma serie de movimentos saltando, atravessando aros e intercambiando seus lugares.

Ele era demais, que controle! Que presença de espírito! Os leões deviam se sentir a vontade,  e a energia do chicote os dirigia e mansamente faziam o que lhes era mandado! Tornou-se meu herói! Para mim esse dia foi de uma grande descoberta, decidi que seria domador!

Nos dias seguintes meus pais perceberam mudanças no meu comportamento, estava introspectivo, tomava banhos demorados ou ficava muito tempo na privada.

Achei que seria melhor falar com eles. Nessa tarde sentamos os três e lhes comuniquei que tinha estado refletindo muito sobre meu futuro, e que tinha tomado uma decisão: Quero ser domador de leões e gostaria que me apoiassem!

Meu pai, surpreso,  porém aliviado, me respondeu: Tudo bem meu filho! Se for isso o que você quer, tem nosso apoio, ― olhando para minha mãe que sorria satisfeita.

Dois meses depois estava viajando para a escola de circo em Porto Alegre. Eu era um dos três candidatos.

Durante o primeiro mês fizemos a parte teórica do curso e tudo bem!  As aulas práticas seriam ministradas por Mister Robert, cujo nome verdadeiro descobrimos ser João Augusto Ramos, que já no primeiro dia contemplava entrar com ele no picadeiro.

Quando divisei o enorme leão que nos esperava tremi nas bases e ao primeiro rugido dele saí correndo da escola e nunca mais voltei, tinha acabado aí minha vocação de domador!

        

VIVER EM BOSTON - Oswaldo U. Lopes

        

        VIVER EM BOSTON
Oswaldo U. Lopes

Júlio agora vivia em Boston, tinha green card e fazia parte da comunidade brasileira legalizada. Quinze anos haviam se passado e aquilo parecia um sonho. Guiava uma limusine e transportava turistas brasileiros pela Nova Inglaterra, como se estivesse em Vitória da Conquista sua terra natal.

Como é modo de dizer, lá nunca tivera automóvel, sua casa era mesmo um casebre feito de tijolo baiano, tábua e zinco. Inventara um forro com o que conseguira de madeirite e muito trabalho com o martelo. Não tivera carro, mas trabalhar na oficina do seu Antonio desde os 12 anos até que fora muito bom.

O aprendiz aprendera muito e depois daquela história do Collor chamar os carros brasileiros de carroças, a indústria tinha melhorado, virara montadora de fato e muitas peças eram importadas o que levou seu conhecimento a um nível que lhe valera muito aqui em Boston.

Quem achava que grampo era coisa de cabelo de mulher nunca havia rebaixado molas espirais de um carro, sem cortá-las. Ficou surpreso ao ver como os americanos mexiam nos carros, na base do compre as peças e faça você mesmo. O que havia de carro rebaixado ou elevado era coisa de espantar. Nunca imaginou que o tempo passado na oficina do seu Antonio rendesse tanto. Rendeu e muito. De chofer ilegal para mecânico e chefe da oficina fora um passo. Descobrira também que trabalho bem pago, permite guardar dinheiro, sobretudo se você leva vida dura e simples. Com sua qualificação e o guardado virara sócio da empresa. Se você tem green card sua situação muda muito. Da para comprar automóvel tendo cinco anos para pagar.

          Olhando para traz achava que não fora difícil, esquecia até dos invernos e da neve que nunca vira antes. Lembrava-se do clima ameno de Vitória da Conquista por causa da altitude, mas os 10ºC do inverno lá era brincadeira perto do que sentia aqui. Até os malditos Fahrenheit aprendera e com eles se virava.

Tinha família, a querida Anita que deixara em lágrimas na rodoviária agora estava com ele e falava um inglês até melhor que o seu, com leve sotaque bostoniano,  o que não era pouco. Vai ver era porque não era baiana de nascimento, viera menina ainda de Cachoeiro de Itapemirim.

Fora andando com ela que tivera uma pequena aventura típica de estados unidos. No leste americano e canadense os músicos de rua são  bem tolerados. Por causa do frio eles em geral tocam dentro das estações.

Era o ano de 2007 e estavam em Washington a passeio. Entraram pela estação de metro L’Enfant Plaza que é grande e movimentada,  com acesso as várias linhas de metro e trens. No imenso hall um rapaz ainda jovem tocava violino. Ele usava roupas simples e tocava com empenho e gosto.

Julio não era muito chegado à música erudita ao contrário de Anita que tivera até umas aulas em Cachoeiro quando os tempos para sua família eram melhores, mas sentiu-se muito atraído pelo som maravilhoso que o rapaz arrancava de sua rebeca. Gostou tanto que puxou uma nota de cinco dólares e a deixou no chapéu ao mesmo tempo em que uma senhora idosa depositava no mesmo chapéu uma nota de vinte dólares. Achou esse valor exagerado para um músico de rua.

No dia seguinte desfez-se o mistério, o rapaz era Joshua Bell aclamado violinista e o violino que ele tocava um Stradivarius valendo qualquer coisa como quatro milhões de dólares. Fora uma iniciativa do Jornal Washington Post,  e a velhinha dos vinte dólares a única pessoa que o reconhecera.

É – pensou - coisas assim não viveria se tivesse continuado sua pacata e, porque não dizê-lo, miserável vida em Vitória da Conquista.
       


Onde está Frederico? - José Vicente J. de Camargo



Onde está Frederico?
José Vicente J. de Camargo

Frederico voava a procura de algo que nem ele ao certo sabia...Estava triste, desanimado, não conseguia ordenar seus pensamentos. Ultimamente nada lhe dava certo. Brigara com os pais que não aceitavam seu relacionamento com o amigo, para ele, muito mais que isso...

Não! - lhe disseram. Não o educamos para sair por ai de mãos dadas e abraços com outro homem. Para nós isso tem outro nome que não é amizade e que não queremos ouvir aqui em casa ─ dissera seu pai quando lhe contara sobre o significado de uma amizade colorida. Sua mãe submissa,  tampouco lhe apoiou, nem sua irmã que mais se preocupava com o falatório da turma quando soubesse da preferência do irmão. No trabalho, com a crise à toda, as coisas iam bem. As vendas só caiam e as dividas aumentavam na mesma proporção. Além do mais seu relacionamento com a chefia ia de mal a pior. No esporte, a onda de má sorte também o pegou. Ao tentar barrar o atacante do time oposto, chocaram-se,  que lhe valeu uma tripla ruptura do tornozelo obrigando-o a um descanso forçado de seis meses,  e olhe lá...

Única saída que lhe restara na tentativa de por a casa em ordem, era o silêncio das alturas, a visão do espaço aberto ao infinito, a solidão da cabine do cessna monomotor com o qual tivera as primeiras aulas de pilotagem, tirara o breve, e há dois anos faz voos semanais de lazer pela periferia da cidade. Hoje era a primeira vez que voava numa distância maior. Sempre tivera o desejo de fazer a travessia da cidade à ilha de São Sebastião sobrevoando a serra do mar, o canal de São Sebastião e pousar na ilha paradisíaca de lindas praias de areia branca e fofa, mar esmeralda de águas translúcidas.

Sim, a natureza o recomporia dos problemas que o atormentam.  Trar-lhe-ia a paz e a calma para pensar como prosseguir, que caminho escolher entre a força do desejo e as convenções burguesas. Mas sabia que era fraco para enfrentar o que viria caso optasse pelo impulso do coração. Temia pelo futuro após a passagem da primavera em gozo. As coisas são bem mais fáceis quando adornadas pelo frescor da juventude.

E assim, com o pensamento em reviravoltas, sentiu-se rodopiar entre as nuvens em verdadeiro voo livre, segurando o manche que mais parecia uma pluma a tomar seu próprio rumo...

O aeroporto local da Ilha não acusou o pouso do cessna naquele dia quando indagado pela aeronáutica em operação de busca. Informou  porém, que aviões de pequeno porte algumas vezes pousam sem aviso ou permissão em praias desertas e planas da ilha ou em outras ilhas menores nos arredores. A falta de radar impede saber se isso ocorreu com o cessna. A mata fechada da serra também impossibilita a visualização de pouso forçado. Fica um segredo que só a floresta conhece, já que a caminhada a esmo, sem água e alimento é um quebra cabeça de difícil saída.

Os pais e a irmã de Frederico deram o caso por um lamentável acidente, choraram sua perda e transferiram ao tempo a tarefa de amenizá-la.

O amigo, porém não se conformou. Munido de acessórios básicos e alimentação que nem ideia tinha se correta ou suficiente, se emprenhou na mata seguindo o impulso do amor, para ele mais que possível, forte, que a tudo e a todos haveria de sobreviver. Sua felicidade o aguardava num canto aprazível da mata misteriosa...



O CAFÉ LITERÁRIO FOI CONTAGIANTE!

No último dia 22 nos reunimos na biblioteca do Clube AP para um Café Literário. Uma rodada de leitura e declamações, e outra de violino.

O Carlos Charam abrilhantou o evento com diversas apresentações ao violino.

Nessa oportunidade iniciamos a MESA DE TROCA DE LIVROS USADOS ENTRE ASSOCIADOS. Muitos trouxeram boas leituras para mesa, e levaram outras. Fica o convite para quem tiver livros em bom estado, que os traga para a mesa de troca que está sala de cursos do Departamento Cultural. 

Aproveito para agradecer aos participantes do EscreViver que prestigiaram o encontro e apresentaram seus textos.

Agradecimentos também à Diretoria Cultural e seus funcionários brilhantes.

Algumas fotos registraram nossa alegria.