O segredo de Nicholas - Jeremias Moreira



 O segredo de Nicholas
Jeremias Moreira

Sentia-se o silêncio típico de arrabaldes naquela parte do vilarejo. Havia algumas casas isoladas, feitas de alvenaria, seguidas por fileiras de outras, de madeira, geminadas. Mais adiante a rua se tornava estrada e percorria quilômetros de lavouras e pomares abandonados, campos abertos e ressequidos que se estendiam até o horizonte, num evidente sinal de decadência. Logo depois surgia o abismo.

Diziam que a região era rica em bauxita.

O geólogo Nicholas, da mineradora Brasfer, chegara há poucos dias para realizar um estudo do solo. Numa noite, no bar do Neco, ouviu a história de uma arca com valioso tesouro, enterrada entre os escombros de uma igreja incendiada.  Na tentativa de debelar o fogo, o padre, acabara engolido pelas chamas. Não sem antes amaldiçoar o lugar. No mesmo instante, uma fenda se abriu transversal à estrada. Com o passar dos anos tornou-se um profundo despenhadeiro que interrompeu, para sempre, o acesso aos destroços do santuário.

Nicholas interessou-se pelo assunto e quis saber como, até hoje, ninguém fora buscar a arca.

− É impossível atravessar o precipício. Quem ousou enfrentar a maldição foi sugado pela força magnética da cratera.

Ele saiu decidido a ver isso de perto. Subiu no jeep e rumou em direção ao local. O desfiladeiro era mesmo assustador. Alem de largo e profundo, exalava forte cheiro de enxofre. Ele desceu do carro e foi examinar.

Sem que percebesse, um vulto se aproximou. Quando se deu conta, assustou-se. Mas logo foi encantado pela figura de uma linda mulher. Ela era alta, com longas pernas e um corpo escultural. Cabelos negros como a noite escorridos pelos ombros. Olhos sedutores e lábios cereja.

Falou com uma voz melodiosa:

− O que procura meu senhor?

Meio embriagado com tanta beleza, Nicholas desceu o olhar pelo seu corpo. Quando chegou aos pés sentiu-se confuso. Não eram pés, eram patas mal disfarçadas. 

Respondeu ainda embaraçado:

− Quero ir aos escombros do mosteiro incendiado.

− Posso construir uma ponte sobre o desfiladeiro. Porém, com a condição de que, quem primeiro atravessa-la, entregará sua alma a mim.

O timbre sedutor da voz da mulher não produziu mais efeito. Nicholas deduzira que se tratava do Demônio travestido de mulher.

Pensou um pouco, pediu um tempo e foi até o vilarejo. Voltou depois de uma hora. Trazia uma mochila e um cachorro. Encontrou a mulher a sua espera e disse que aceitava sua oferta.

Imediatamente o Diabo fez com que surgisse uma ponte.

Nicholas tirou um pedaço de carne da mochila, esfregou no focinho do cachorro e atirou do outro lado da ponte.

Imediatamente, o cachorro correu para pegar a carne e atravessou a ponte. Foi o primeiro ser a atravessar.

O Diabo percebeu que formulara mal sua proposta. Irado, abandonou seu disfarce e, por ter sido ludibriado, atirou-se no precipício.

Livre do Diabo, Nicholas foi até os destroços da igreja e localizou a arca. Junto dela havia uma carta. Ele leu! Em seguida, colocou a arca no jeep e a levou para a vila.

Entregou-a ao pároco da igreja com a recomendação de coloca-la no altar e de nunca ser aberta.

Recuperado do golpe e enfurecido, o Diabo jurou vingança.

No dia seguinte, bem cedo, Nicholas foi embora do vilarejo. Não revelou a ninguém o conteúdo da carta!

Na estrada um mochileiro pedia carona. Nicholas parou o jeep e o examinou. Era um jovem e calçava botas de campanha. Nicholas abriu a porta lateral, mandou-o entrar e partiu. Logo depois sentiu um forte cheiro de enxofre.

GOLLUM E FORREST. - Mario Augusto Machado Pinto



GOLLUM E FORREST.
Mario Augusto Machado Pinto

A descoberta que tinha um irmão fez de Gollum andarilho. Andou pelo mundo buscando esse suposto irmão. Em todos os locais anunciava sua presença e o que pretendia: encontrar seu irmão. Procedia sem descanso utilizando todos os meios que encontrava; também escrevia histórias e as publicava nos jornais locais e as contava na TV.

Já noitinha, sentado em um banco descansava no pequeno jardim silencioso da hospedaria rememorando o que já havia feito em todos os anos passados. Certamente muita coisa, mas faltava uma, a mais importante: encontrar seu irmão. Já meio sonolento ficou alerta ao ouvir barulho vindo da sebe que contornava o jardim. Bem que me avisaram pra tomar cuidado com malfeitores desta região. Sorrateiramente foi naquela direção e percebeu um vulto que se afastava rapidamente. Correu, pegou, derrubou. Sou eu, seu irmão, Gotlieb. A emoção foi enorme para ambos.

Abraçados ficaram ali mesmo, no jardim, falando sobre o que fizeram em suas respectivas vidas.

Depois de muito tempo conversando, Gotlieb falou:

- Gollum, Você se lembra de um amigo nosso, que sempre fazia coisas diferentes, aquele que se aventurava a tudo e depois nos contava suas peripécias?
- Sim, claro. Ele era formidável. Nós ficávamos horas ouvindo suas histórias.
- Lembra-se do nome dele?
- Lógico: Forrest. O que tem?  Morreu?
- Não. Pra ele, pior. Está desacreditado, passando amargura. Criticam muito suas histórias e sua maneira orgulhosa, rigorosa e certinha de viver. Dizem que isso não é aceitável nos tempos atuais e vão processa-lo. Todo mundo está na gozação. O clima está de ser condenado e preso por anos.
- E daí?
- Daí que pensei que você, quer dizer, nós poderíamos ir ao julgamento e defende-lo.
- È só isso? Então é pra já. Vamos!

Partiram. Ao chegar, a Praça do Tribunal estava lotada de gente e carrocinhas vendendo de tudo um pouco. A sala do tribunal estava lotada. Só entrava alguém quando outra pessoa saía, mas os dois empurrando daqui e dali, conseguiram chegar à frente impondo sua presença e ocupando os primeiros lugares. Tiveram sorte. Saiu um grupo de pessoas e os dois entraram e se sentaram logo nas cadeiras da primeira fileira.

Depois de um tempão, os argumentos apresentados, o juiz perguntou se alguém desejava depor. Gollum respondeu que sim e aproximou-se da barra do local do réu. Pode ver o estado lamentável a que estava reduzido seu grande amigo. Sorrindo, acenou para ele e fez o sinal de positivo com os dedos.

Depois de se identificar, responder a alguma perguntas, o juiz disse a Gollum para expor suas razões.

Gollum esclareceu que era amigo de longa data de Forrest, com ele tinha passado toda sua infância e juventude, sendo exemplo de virtudes como a correção de um caráter impoluto.

- Sim, sim, obrigado, disse o juiz, mas vamos aos finalmente.

- Bem, Sr. Juiz, ouvi que tratam meu querido amigo como “Forrest Gump, o contador de histórias”. Sim, ele contava muitas histórias e nós sempre gostamos. Se repararem Srs. Jurados, ele é um homem que por trás de um olhar meio perdido e com visível lentidão de raciocínio, esconde a energia e a vontade de lutar dos grandes. A literatura mundial nos indica um livro do autor Winston Green que narra histórias com sabor de fábulas como as de Forrest que do mesmo modo expõe com suas histórias um perfil delicioso do nosso país, a América, apontando o cantor Elvis Presley, o presidente Kennedy, a Guerra do Vietnã, o movimento hippie – vejo alguns de seus representantes nesta sala – e o escândalo de Watergate. Forrest conta coisas que posso afirmar também aconteceram com o meu amigo. Exemplo? O amor de um homem e uma mulher que poderia ser imortalizado por cancioneiros. O meu amigo é um rapaz inocente com consciência de suas limitações mentais, que não faz mal a ninguém. Na praça, Meretíssimo, V. Excia encontrará rapazes maliciosos, malandros que aprontam sem medo de arriscar. Utilizam 75% do seu Q.I. e são considerados retardados. Ele, Forrest, é comovente! Prova? O que aqui foi dito do amor de Jenny: Forrest é seu porto seguro. Ele é ingênuo, mas muito especial que vê o mundo por uma perspectiva diferente.  É o símbolo de uma era – verdade - um inocente à solta num país que está perdendo sua inocência. O seu coração sabe o que seu limitado Q.I. não consegue saber. O seu compasso moral nunca balança. Os seus triunfos tornam-se uma inspiração para todos. Forrest Gump é a história de uma vida. Não é mentiroso. Para ele a vida é como uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar. Obrigado Excia. É o que tinha a dizer.   

Os jurados saíram para deliberar. Voltaram com votação unânime de inocência e de ridícula a ação judicial ajuizada.

Forrest, Gotlieb e Gollum ficaram juntos durante muitos dias ao cabo dos quais cada um foi tratar de seus assuntos pessoais, mas os irmãos pediram a Forrest para sempre enviar suas histórias por e-mail.

Ao se despedir de Gotlieb, Gollum falou:

- Forrest conta histórias. Nós contamos histórias escrevendo-as.
-x-x-x-x-x-x-x-x-

Palavras: 1.132.
Páginas: 02.
Pesquisa: Forrest Gump – o filme.



FORETS GUMP – o filme.

O filme FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS nos mostra um homem que por trás de um ar abobalhado e visível lentidão de raciocínio, esconde a energia e a vontade de lutar dos grandes.
Baseado no livro homônimo de WINSTON GREEN (1.966) é uma narrativa com sabor de fábulas. Traça um perfil delicioso da América de Elvis Presley, Kennedy, Guerra do Vietnã, movimento hippie e Watergate (do qual participa por mero acaso).
Conta o amor de um homem e uma mulher como só o cinema costuma imortalizar. Impossível não se apaixonar pelo mundo de F.Gump.
Há grandes diferenças entre o F.G. do livro e do filme. O do filme é um rapaz inocente com consciência de suas limitações mentais. O do livro é malicioso, malandro, sábio, apronta para valer sem medo de arriscar. Utiliza só 75% de seu Q.I. e é considerado retardado. Não é comovente como o F.G. do filme. É só se lembrar do romance com Jenny: F.G. é seu porto seguro. F.G. é um rapaz ingênuo, muito especial que vê o mundo por uma perspectiva diferente.
F.G. é o símbolo de uma era, um inocente à solta numa América que está a perder sua inocência. O seu coração sabe o que seu limitado Q.I. não consegue saber. O seu compasso moral nunca balança. Os seus triunfos tornam-se numa inspiração para todos. F.G. é a história de uma vida. Não é mentiroso.
Para F.G. a vida é como uma caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar.    

ERA UMA VEZ NA ITÁLIA... - Carlos Cedano



ERA UMA VEZ NA ITÁLIA...
Carlos Cedano

O avião pousou, consegui meu sonho de chegar à Itália! A partir de Roma viajei de carona para o norte o que foi facilitado pelo meu conhecimento da língua que enriquecia meu bom contato com as pessoas!
A última carona me deixou numa pequena vila perto de Arezzo, muito bonita e bem arrumada, com pequenas casas, a maioria pintada de branco, e com ruas de paralelepípedo.
Escutei o som forte de algo que se aproximava. Olhei na direção da esquina, primeiro apareceu uma cabeça que logo reconheci como sendo de um burrico. Ah!  Estava puxando uma charrete com um casal de idosos! O barulho que escutava era o contato das rodas de ferro com o chão de pedra.
Com um sorriso cordial fiz sinal pra se deterem. Cumprimentei-os e perguntei que cidade era aquela. O senhor me olhou e sorridente:  
— Você está na vila de Biaggi meu jovem. Está indo pra onde?
Expliquei que queria ir para Florença na região Toscana e gostaria saber que direção tomar para esperar por uma carona. A esposa com delicadeza me disse:
—Meu jovem, você já está na região Toscana e Florença fica a setenta cinco quilômetros ao norte. Estamos indo visitar minha filha que mora no centro de Arezzo e vamos passar o fim de semana na sua casa. Podemos leva-lo até lá onde será mais fácil pegar sua carona.
Aceitei de bom grado, mas quando ia subir na charrete pedi um minuto de licença e tirei fotos da charrete com o burrico e o casal esboçando um enorme sorriso! Era uma cena muito pitoresca e humana!
Enquanto caminhávamos lentamente pela estrada vicinal entre campos de oliveiras e vinhedos, admirava a beleza da região que mais parecia um paraíso. As flores, as casas de campo e os pássaros completavam essa paisagem deslumbrante! Sem dúvida uma dádiva dos deuses!
E eu? Bem, eu não parava de tirar fotos e me sentia frustrado de não poder captar todos os detalhes que sorriam pra meus olhos!
O casal me olhava admirado em ver minha alegria e felicidade! Durante nossa curta viagem aproveitei para contar-lhes que meus pais eram italianos, o que os deixou muito felizes. Apresentei-me:
— Mário Siena. Sou de São Paulo, uma grande cidade do Brasil.
— Siena? Indagaram ao mesmo tempo dona Luciana e o marido, seu Pietro, como querendo ter certeza do meu sobrenome.
— Esse nome é toscano! Disse o marido sendo confirmado pela esposa com vivos movimentos afirmativos de cabeça.
Expliquei que o motivo de querer ir até Florença não era somente turístico, mas que queria conhecer os parentes de minha mãe que ainda moravam numa vila perto de Florença.
Foi demais! O casal se emocionou! Podia jurar que vi correr lagrimas nos olhos dos dois. Subitamente Dona Luciana virou-se para o marido e lhe disse:
— Pietro! Não podemos deixar este jovem ir embora sem conhecer nossa família e a cidade! Seu Pietro respondeu com um largo sorriso dando a entender que estava de acordo e tocamos para a casa da filha.
Catarina e Marcos, recém-casados, era um bonito casal e acolhedor. Enquanto descarregávamos da charrete caixas e pacotes, que exalavam maravilhosos aromas de comida, respondia às perguntas que me faziam. Estavam muito interessados em saber mais de mim e de meu país e à medida que o vinho fazia seu trabalho, ficávamos mais expansivos.
O almoço que tivemos foi uma historia a parte. Dona Luciana tinha levado um bom tempo preparando os quitutes que descarregamos e foram servidos: antepastos, carnes e aves, variedade de queijos e, não podiam faltar, salames de vários tipos! Comemos como se fosse o último dia de nossas vidas, cada iguaria melhor que a anterior!
Ficamos conversando e comendo até tarde e Marcos me pediu para pernoitar na sua casa, no dia seguinte faríamos o tour della città. Acordamos às sete horas. A mesa já estava posta com um baita café da manhã com aquele pão quentinho e cheiroso que era um sonho, não economizei e mandei ver, sempre com bons modos!  
Depois fomos à missa na Basílica de São Francisco onde parecia reunir-se toda a cidade aos domingos, logo visitamos a belíssima Piazza Grande onde fiquei sabendo que o filme a Vida é Bela tinha sido filmada em Arezzo. Depois me fizeram conhecer os prédios medievais no centro urbano, fiquei admirado como conseguiram integrar harmoniosamente o passado com o presente! E mais fotos.
Por volta das dezesseis horas voltamos pra casa e comecei a preparar minha mochila, pegaria um trem comum pra Florença e a família toda me levaria na estação no carro de Marcos.
Ele estacionou seu carro perto de uma passarela. Com profunda tristeza me despedia de todos, chorei e muito e teve um efeito catalisador na família, todos choravam!  Surpreendi-me como em pouco tempo tínhamos criado tão fortes laços afetivos, e pensei siamo tutti italiani. Abraços calorosos.  Volte sempre! Foi o pedido unânime da família!
Comecei subir a passarela para atingir o outro lado da estação. Na parte mais alta escutei os gritos de Marcos que com um pacote nos braços me pedia pra esperar. Detive-me e Marcos ofegante, me disse: minha sogra estava esquecendo este “lanchinho” que preparou pra tua viagem e me o entregou, como era pesado! Estava cuidadosamente envolto num pano-de-prato branco; nos meus braços parecia que estava carregando uma criança e todo mundo me olhava!
No trem, quis ver o conteúdo do “lanchinho” e quando o abri liberei um aroma de salame e pão fresco que atraiu a atenção das pessoas na nossa pequena cabine!  Durante a viagem, de uma hora e meia até Florença, consegui dar conta do enorme salame e do pão!  Cheguei a Florença, mas as aventuras na Itália continuam...

BAMBEIA Ó PIÃO! - Oswaldo Romano




BAMBEIA Ó PIÃO!
Oswaldo Romano               

Quando ouvi as histórias do pião, pião que entrou em nossos contos, e contada por todos os presentes da nossa mesa,  fiquei sensível e tomado pelo passado.
Sei lá por que, fechei os olhos, fui transportado para o ano de 1.942.
Crianças pulavam, falavam. Gritos de meninas sobressaiam, eram os das gatinhas, os mais agudos.
Num pedaço de chão batido, envolto por terras enlameadas, eu estava ali. Calça curta, descalço, pés, pernas e a roupa suja mostravam sinais da terra vermelha.
O short branco da manhã, quando trocado pelo uniforme escolar, estava um chocolate.
Contente sim em ir para a escola, mas o pensamento permanecia voltado nas sacadas do Toquinho, o nome do meu pião.
Quando ele era jogado na roda, zumbia graças aos furos que eu fazia na sua cintura.
Roda pião roda pião, venha parar aqui, na minha mão! Como comove. Comove fundo a lembrança do tempo feliz quando eu era criança.
Também na vida da gente, não é diferente. É um pião, sempre a rodar. Um pião que também para, quando o tempo faz cansar. Cansar não é bem o termo, seria melhor quando o tempo quer findar.
Não falta muito! Hoje, os grisalhos em volta desta mesa, e não mais rodando o pião, batem no consciente as meninas de pernas finas, finas também suas vozes cantando: O pião entrou na roda pião, bambeia o pião, roda o pião.
Como comove a lembrança, não querendo, mas difícil dela fugir, nos persegue, volta à consciência. Ouvir sons que iguais, iguais, jamais ouviremos.
Restam-nos alguns anos da terceira idade. É a idade da paciência, da tolerância com os menos tolerantes. Estes estão amadurecendo.  É a idade do condor. Condor dos Andes, o andes com dor, mas ande, não desista.
Não faças como o pião que roda, roda, roda e bambeia quando solto da sua fieira. Agarre-se firme nela, e só a solte quando puxado pro céu.
Não esqueça, lá tem duas portas!                         

O naufrágio - Maria Luiza C. Malina


O Naufrágio
Maria Luiza C. Malina


Um estrondo!  Aquele navio já saíra predestinado em seu carregamento a desgraça, o desespero, como um sinal de fim de linha.
Poucos conseguiram salvar-se. Eu sou uma que, não acreditei que aquilo pudesse estar acontecendo. Reverti todas as minhas forças no sentido do encontro de uma tábua de salvação.
Tornei-me surda e muda, liberando espaço na mente, invertendo todos os sentidos, cujas ideias influenciaram a minha existência vital. Queria viver.
Apoiada a um pedaço do navio, não me recordo se haviam mais passageiros. Cheguei à terra firme. Vomitei. Fui socorrida entre perguntas irrespondíveis e inentendíveis.
Eu estava lá!
De tudo só me recordo da mão aberta em meio às vagas. Ela tinha vida. No entanto era eu, apenas eu.  Foi o momento de escolha. Esta mão impregnou minha mente. Os belos dedos com prolongamentos afilados, as unhas, desmaltadas, em muito devem ter acariciado alguma face, escrito cartas, tirado fotos, seguraram um copo com um bom drinque. Eu a vi. Fui a testemunha ocular de um adeus a ser enviado – para quem? – não o sei.
Baseada no meu sentimento pelo belo, na arte, passei a fotografar mãos, a rabiscá-las  de todas as maneiras possíveis.  Dediquei-me às mãos, na profissão de artista plástica. Isto me rendeu boas exposições.
De passagem pelo Uruguay, mais precisamente em Punta Del Este, para uma das exposições que enfeitam a cidade nas temporadas, acalmei minha alma quando me encontrei cara a cara com a escultura gigantesca – A Mão, feita em concreto na praia, em um ponto estratégico, delicadamente escolhido. O Sol de Punta nasce em meio aos dedos.
Fiquei sem palavras.
Refleti muito sobre a obra, sem quebrar a magia da criatividade, a xeretice em vasculhar o por quê dos porquês. Lá estava. Pronta na magnitude.
 As obras adquiridas antes da abertura mereceram um destaque especial na imprensa, o que causou um acúmulo maior de convidados esperado para o coquetel.
Um olhar, um senhor de porte nobre, elegante, em seus setenta e poucos anos, chamou-me atenção. Brindou o sucesso à distância. Aproximou-se. O sotaque pronunciado o delatou. Não lhe perguntei a origem, pois era um local que atraía pessoas de todas as nacionalidades, classes e posições sociais, devido ao cassino.
O folder, através dele o raio X estava completo. Sutilmente agendou um almoço para o dia seguinte, entregando-me o cartão pessoal. Talvez fosse um colecionador em seu país. Aguardei.
Na hora marcada no próprio cassino, estávamos almoçando.
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que se tratava de um marajá, cuja esposa viajava, no mesmo navio atropelado pelo destino, em que eu me encontrava. Procurava algum sobrevivente entre os passageiros, que lhe trouxesse alguma lembrança da amada, uma vez que ela viajou em companhia de serviçais para uma temporada de férias na África. Iriam se encontrar em três semanas.
Soube, através de registros de fotógrafos macabros que, ela na tentativa de segurar-se, teve o braço amputado por uma corrente, também registrado por lentes impiedosas. A ama que a acompanhava nada pode fazer. Os serviçais foram tragados na escala do desespero.
Desde então, a imagem da mão na foto foi última lembrança que ele tive dela.
Contei-lhe minha parte.
As cartas encaixaram-se na mesa de pôquer. Ele foi o responsável pelo meio sucesso.

A Escapada de Jerê - Vera Lambiasi


                                                                                     


A Escapada de  Jerê 
Vera Lambiasi


Jeremias, “o bom”, era um sujeito sério, casado, com filhos, netos ...
Até que sonhou ser bisneto de Moisés. Dormindo, deu de cara com Tom Hanks, fantasiado com seu boné de Forrest Gump. E, depois da tempestuosa noite, resolveu correr na água.

Ninguém compreendia a mágica.

Sua esposa admirava sua elasticidade na ginástica matutina, ainda na cama. Deve ser a melancia, murmurava, já exausta de tanta disposição do marido. Mas correr na água?

Na piscina do clube, todos paravam boquiabertos, intrigados com o cineasta, agora atleta.

Não havia mais porteiras para a sua ambição. Imaginava atravessar o Ribeirão dos Porcos, que o levaria de volta à sua Taquaritinga.

Treinou bravamente, o cansaço fazia bem a Jerê. A melancolia, nunca mais deu sinal. Seu joelho esquerdo, completamente curado pela água morna.

Aos 72, estava em grande forma.

E começou a ser assediado pelas moças do clube. Além de corredor, escrevia com primor, e seus contos passaram a ser publicados na revista. Tímido, nem se dava conta de tamanho sucesso.

Até que uma ex-atriz, de um de seus antigos filmes, passou a procurá-lo pelo Facebook. A tal senhora não tinha papas na língua, e fazia declarações de amor em seu perfil público.

O manso Jeremias agora estava encrencado.

A sirigaita, tal qual vírus de computador, não desinstalava.

Bloqueada, passou a persegui-lo na rua, de carro preto insufilmado.

Encurralado, marcou de encontrá-la para um café.

Resolveria tudo olho-no-olho. Mataria as esperanças daquela incauta de uma vez por todas.

Na hora marcada, saiu pé-ante-pé de casa, para não dar na vista. Suava como um menino.

E, entrando na padaria, esbarrou em Joca, seu amigo de infância.

    Ahhh ... Você veio, né, seu cachorro?!


    Joca??? Seu Canalha!!!!

Aquele dia - Fernando Braga


Aquele dia
Fernando Braga

Ricardo tinha 13 anos e estudava em São Paulo, em colégio interno. Vinha para sua cidade no interior, apenas nos períodos de férias. Sempre acompanhava seu pai quando ia à fazenda, localizada a 15 quilômetros. Levantavam cedo, tomavam um café com pão e manteiga, pegavam o Fordinho 29 e saiam, pegando uma estrada vicinal estreita e com muitos buracos. Esta era a rotina três vezes por semana. Ricardo gostava muito, primeiro por fazer companhia a seu pai, depois para andar a cavalo, caçar passarinhos com estilingue, mas o que adorava era quando seu pai deixava-o guiar o fordéco na volta. Aprendera a ligar o carro, usar o desembreio e o breque, mudar o câmbio e manusear a direção, que era bastante dura. Quando era permitido que guiasse, sentia-se grande, importante, já um homem!
Um dia, na volta seu pai disse estar com muita pressa, pois tinha compromissos à tarde e que ela não iria guiar. Ricardo ficou bravo com o pai, mas aceitou. Quando tomaram a estrada ele dirigiu-se ao pai e perguntou:
— Porque o senhor não me deixa guiar agora, que a estrada está tão boa?
Seu pai parou o carro, e consentiu:  
— Pode vir!
Ele abriu a porta, deu a volta e tomou a direção. Desembreou, passou à primeira, mas ao sair o carro deu um solavanco e afogou. Ligou-o e novamente ao sair, o carro deu um salto para  frente e morreu. Nesta hora recebeu um sopapo do pai:
— Você é um barbeiro! Pode vir para cá.
Ricardo, na hora, começou a chorar de raiva, abriu a porta e saiu correndo, entrando no meio de um cafezal. Correu uns 300 metros e não atendia ao seu pai, que gritava que voltasse. Quando parou, olhou para ver se seu pai o estava seguindo, e nada. Resolveu voltar, mas quando olhou para o lado, deparou com um corpo caído, embaixo de um pé de café. Ficou apavorado e disparou de volta. Seu pai estava esperando, com a cinta na mão:  
— Eu já ia te buscar e você ia levar uma sova se...
—Espera aí pai! Tem um homem morto debaixo do pé de café!
— O que? Você está brincando!
—Não pai, é verdade, te juro.
Ambos voltaram pelo carreador e lá estava o coitado, um moço caído, agora, respirando forte e já se movimentando. Aproximaram-se dele, viraram seu corpo, ele abriu os olhos avermelhados e tinha sangue na língua, mordida.
— O que houve?
— Eu não sei, mas, às vezes tenho isto.
— Onde você mora?
— Moro aqui, na fazenda do seu Haddad.
Ah, você é colono do Haddad? Vamos tentar levá-lo até a sede.

— Não precisa, daqui a pouco vou estar bom e posso ir caminhando.
— Não senhor, nós vamos levá-lo, venha.
Foram até o carro, ele ainda grogue, pegaram a estrada e logo após entrarem em uma porteira viram a bela sede da fazenda. Lá chegando, logo foram atendidos pelo administrador.
— Viemos trazer este rapaz que diz ser colono, que estava caído debaixo de um pé de café.
— Ah! É o Beto, filho do Joaquim, nosso meeiro. Ele tem epilepsia. Quando se esquece de tomar o remédio, sempre acontece isto. Tudo bem!
— Então já vamos! Missão cumprida.
— Desculpem o incomodo. Obrigado por o terem trazido até aqui. Mas, uma perguntinha, o que vocês estavam fazendo no meio, dentro da fazenda do seu Haddad?
Sem responder, viraram as costas, entraram no fordéco e saíram. Era difícil explicar.
Mais tarde, nem mesmo o Beto conseguiu responder à mesma pergunta. Era longe da estrada!

Ricardo, jamais se esqueceu daquele dia, mesmo após passados quase 70 anos.

IMAGENS DO REPENTE DO CONTO



Estes foram os temas dos contos repentinos da aula de 16 de junho 2015, no REPENTE DO CONTO.

Sugiro que os temas abaixo também sejam os temas de férias de vocês para o mês de julho. 



Era uma vez na Itália...




O mistério da Rua do Frade.




O homem que conversava com extraterrestres.



Os passeios de Sarita.





O turista que falava um idioma desconhecido.



O segredo de Nicholas. 




O céu por testemunha




O inesquecível encontro casual




O que restou dele




Descoberta vespertina





A criança dentro de mim.





Até que a morte nos separe




As férias de Jerry.




 Naufrágio





 Saideira


Aula com Forrest Gump - Jeremias Moreira


AULA COM FORREST GUMP
Jeremias Moreira
Aproveitei o feriado de Corpus Christi e fui ao clube. As ruas de São Paulo estavam vazias e fiz o percurso na metade do tempo. Havia vagas à vontade para estacionar no AP. Imaginei que o clube estaria com pouca gente.
Porém, na portaria, antes de mim, estava um sujeito meio desengonçado, tentando convencer o porteiro a deixá-lo entrar. O funcionário explicava que a entrada era exclusiva aos sócios ou convidados e como ele não era, nem um e nem outro, não podia entrar. O camarada parecia não ouvir e argumentava insistentemente. Aquele lenga-lenga se prolongava infinitamente e eu impedido de entrar. Até que ele virou-se e o reconheci. Era o próprio Forrest Gump materializado ali, na minha frente. Ele usava o mesmo boné que usou no filme quando se torna pescador de camarões e na sua interminável corrida. Fiquei animado com sua presença. Contei-lhe que também era corredor de rua, embora estivesse impossibilitado de correr por problemas no menisco e na coluna lombar. De pronto ele apresentou uma alternativa: o deep running. Tratava-se de uma corrida dentro d’água que trabalhava a musculaturas das pernas, tronco e braços e tinha alto consumo de calorias. Esta prática surgira nos USA por volta do ano de 1994.
Expliquei que nunca ouvira falar. Prontamente ele abriu sua bolsa, que parecia conter de tudo, e retirou um colete flutuador, que se usa para praticar o deep running, e se prontificou a me ensinar. Responsabilizei-me pela sua entrada e fomos direto para a piscina. Então, ele ensinou os movimentos que eu deveria executar. Após algumas tentativas estabanadas, finalmente peguei o jeito e consegui fazer doze piscinas completas. Ao final estava exausto e o Farrest, contente por ter me mostrado uma nova possibilidade. Deu-me o colete flutuador de presente. Em seguida despediu-se, dizendo que tinha uma reunião urgente em Nova Iorque, dentro de duas horas.

Pensei em perguntar-lhe como faria para chegar no horário, mas resolvi deixar prá lá. 

DOIS DESTINOS - Carlos Cedano


DOIS DESTINOS
Carlos Cedano


Conheci Osmar na sexta serie do ensino médio. Com apenas treze anos tinha altura bem acima da media, era muito magro, jeito desengonçado de andar e usava óculos tipo “fundo de garrafa”. Nos estudos era de longe o melhor aluno da classe, mas nem por isso perdia sua simplicidade e modéstia. Ficava sempre na dele!

Nos anos seguintes, Osmar continuou a crescer desta vez a “olhos vistos” e chamava a atenção de todos. Com certeza existia alguma coisa de anormal nele.

Na oitava serie nossa sala dividiu-se em duas turmas rivais. De um lado era a turma do agito que “orbitava” em volta de um grupo autodenominado os “Resistentes” que tinha uma banda formada por quatro rapazes, três deles tocavam guitarra elétrica e Marco Antônio bateria, e era líder da turma. Ele era um bonito rapaz e paixão das meninas,  Marco Antônio tinha carisma!

O outro grupo, menos numeroso, era composto por alunos considerados tímidos, sempre evitando atritos ou provocações. Eu era deste grupo que acostumava sofrer agressões verbais e não poucas vezes físicas. Sem liderança nem organização na verdade éramos um grupo de rapazes resignados. 

O próprio Osmar começou a ser vítima de bullyng. Quando a sala estava cheia e barulhenta de pronto se escutava alguém gritar com voz disfarçada: espetão ou, ainda pior, desnutrido, bichado e assim por diante. Bilhetes ofensivos e desenhos no quadro negro também eram frequentes.

E Osmar? Continuava na dele, sem preocupar-se e sem ligar pra essas agressões. Aos poucos,  o pessoal de nosso grupo começou a juntar-se em torno dele. Alguma esperança vislumbrámos!

Porém um dia a diretora comunicou uma noticia péssima pra nossa pequena turma. Osmar estaria ausente por um longo período, tinha uma doença considerada grave: sua estrutura óssea era frágil devido a seu crescimento acelerado e não resistiria o peso de seu corpo. Precisava tratamento urgente!

A partir desse momento passamos ser chamados dos “desamparados”. Nos meses seguintes o sofrimento e os abusos se acentuaram fazendo que muitos alunos quase desistissem da escola.

Lentamente passaram-se oito messes e um dia reapareceu Osmar. Puxa que mudança, hein!  Até parece mais bonito! E não está usando óculos! Eram alguns dos comentários. Tinha agora um corpo mais desenvolvido e musculoso. Embora seu andar fosse ainda um pouco desengonçado, algumas meninas da “turma do agito” já o enxergavam com outros olhos e até sorriam pra ele!

Estávamos exultantes! Renasciam as esperanças de tempos melhores. Osmar rapidamente retomou o primeiro lugar na classe e relacionou-se mais afetivamente conosco para desespero da turma rival. Com gestos e olhares, ele mandava mensagens que diziam que agora o jogo era outro! Os professores perceberam as tensões crescentes e informaram à diretora.

Mas aconteceu um incidente que mudaria as relações entre os dois grupos. Um dia de atividades livres na escola, subitamente um menino que estava jogando futebol chegou correndo e gritou desesperado:

            — Rápido minha gente! Marco Antônio caiu no córrego para pegar a bola e não consegue sair!

Todos correram até o córrego que estava muito caudaloso devido às chuvas dos últimos dias nas cabeceiras.

Quando chegamos, Osmar percebeu que a situação era grave. Marco Antônio lutava desesperadamente para não ser arrastado pela correnteza segurando-se fortemente num dos pilares de madeira de uma ponte já cambaleando.  Enquanto corria até onde estava Marco Antônio, Osmar gritou:

            —Gente! Procure uma corda e alguém para ajudar. Rápido!

Deitou-se no tabuleiro da ponte esticando-se tudo quanto seu enorme corpo lhe permitia, procurando agarrar seu colega. Porém não estava fácil, a violência da água atrapalhava seu esforço. Foi só quando uma súbita marola aumentou o nível da agua que Osmar conseguiu agarrá-lo pelo cinto da calça, justo no momento que Marco Antônio parecia ter desistido de lutar pela vida.

Mas, Osmar sabia que ele também não resistiria muito tempo! Pareceu passar “uma eternidade” quando escutou alguém que gritava: Aguenta firme que já estamos chegando! Eram dois professores que conseguiram, também com muito esforço, puxar a vítima e aliviar Osmar notoriamente já esgotado. Ambos tinham estado à beira da morte!

O que aconteceu depois foi de reconciliar qualquer um com a vida! Meus jovens colegas até o momento tensos e paralisados liberaram uma explosão de choros e risos quando perceberam que seus colegas estavam são e salvos. Romperam-se as barreiras, todos se abraçavam e sorriam para todos, não havia mais lugar para rivalidades mesquinhas e sem sentido. Todos nós crescemos nesse dia!

E Osmar e Marco Antônio?  Durante os preparativos para a formatura conversaram e conseguiram entender-se colaborando juntos para seu sucesso.

Anos depois soube do destino de ambos na vida. Osmar formou-se engenheiro sanitarista e percorre países pobres dando- lhes assessoria para evitar epidemias e é muito feliz no que faz. 


Porém a transformação mais notável foi a de Marco Antônio. O reencontrei num seminário onde falava sobre recursos humanos. Era diretor dessa área na sua empresa.  Abraçamo-nos afetuosamente,  e nos poucos minutos em que conversamos, pude perceber que  sentimentos de compaixão e respeito que permearam sua fala faziam parte de seu horizonte afetivo e que vinham do fundo de seu coração!

Aos 70 - José Vicente J. de Camargo


Aos 70
José Vicente J. de Camargo

Assim como pra todos
Meu ano também chegou
O tempo enganar não deixa
O correto é prosseguir

Olhando o atrás passado
Fica difícil entender
Onde os dias se esconderam
Pois tudo ontem parece

Se por fora rugosa casca
Por dentro força vibrante
Que no brilho dos olhos mostra
A vontade de mais querer

Pra registrar meta alcançada
Letrado marco construí
De imaginadas linhas formado
Contos Prosas Poesias


Se em pó eu voltarei
Próprio marco atestará
Para quem ficar saber
Que minha vida frutos deu

O futuro a mim não cabe
Só Ele sabe o porvir
Deixo então aproveitar
O passar bem de cada dia

Aos amigos do Escreviver
Agradecer tenho a dizer 
Que na batuta da maestra

Incentivos sempre encontrei ...