Curto relato sobre meu avô - Fernando Braga




Curto relato sobre meu avô
Fernando Braga

Bravo, sisudo, enérgico, de poucas palavras, mas carinhoso. Assim guardo a imagem de Manoel Pedro de Menezes, meu avô materno.

Nascera em Santana, na Ilha da Madeira, em 1885, onde permanecera até 1903, quando embarcara para o Brasil à procura de novos horizontes. 

Aqui chegando, dirigiu-se para Taquaritinga, no estado de São Paulo, onde encontrou um tio, cuja filha Ana, da qual se enamorou.

Trabalhou por três ou quatro anos como charreteiro, com ponto na estação, transportando os passageiros que lá desembarcavam.

Como bom português, muito pão duro, conseguiu neste período poupar uma boa quantia em dinheiro, que fez com se arrojasse, fugindo com Ana, então com dezesseis anos, e indo para Rio Preto, cidade pequena, boca de sertão, além da qual, os mapas da época mostravam “terra habitada pelos índios”.

Ambos foram trabalhar na lavoura de café, como colonos, com a vantagem de terem uma pequena casa como moradia, na colônia. Os sacrifícios eram enormes, mas não passavam fome. As roupas eram surradas, as botas judiadas, mas era um casal feliz, do qual começaram a nascer um filho atrás do outro.

O dinheiro das economias era colocado debaixo do colchão, como todo bom português fazia. O fato é que, após alguns anos conseguiu comprar uma terrinha próxima a uma vila conhecida como Borboleta, dentro do município de Rio Preto. Plantou café, a grande cultura da época, o chamado ouro verde e aos poucos foi aumentando o seu patrimônio em terras e também propriedades na cidade grande, com 10 mil habitantes na época.

Meu avô e minha avó eram alma única. Ele era feito de pedras soltas e ela, a argamassa para juntá-las e uni-las fortemente. Relatam que ela dizia que não ter filhos, é a orfandade ao avesso!  Do total de nove filhos, três homens e seis mulheres, a Ilidia era a quinta pela ordem, que se casou com meu pai em 1934.

Meu pai, de família que era abastada, mas que tudo perdera no inesquecível cracking do café em 1929.Dizem que meu avô paterno morreu aos 54, de desgosto, ao ver a família à mingua. Meu pai, teve que ir trabalhar como funcionário na prefeitura, com incumbência de sustentar sua família, também numerosa. Tentavam manter a aparência, mas só. Era uma pobreza elegante!

Seu Manoel, meu avô, como nunca havia endossado uma letra, tinha muito dinheiro guardado em cofres, teve grandes oportunidades de negócios, comprar  propriedades rurais, inclusive na barranca do Tietê e dentro da cidade. Meu pai, bonito e boa pessoa, conheceu Ilidia e casaram-se. Amarrou o burro na sombra. Nascia seu primeiro filho em 1935.

Com 10 anos perdi este avô, com 60 anos, um velho, em meu conceito infantil. O que pode uma criança de 10 anos guardar na lembrança, de seu avô?

Da casa, enorme, que mandara construir em um terreno de 10000 metros quadrados, que pegava todo o quarteirão, na rua principal, mas na saída da cidade. A rua era de terra batida, inclinada, que na estação chuvosa trazia enorme dificuldade ao trânsito. A casa tinha uma bela entrada, com um grande hall, do qual saiam duas escadas arredondadas, uma de cada lado, indo a uma sacada que contornava a parte superior, de onde saiam os numerosos quartos. Também, uma enorme sala de jantar, com uma grande mesa oval, onde ficavam 16 cadeiras,   7 de cada lado e duas nas cabeceiras. O almoço de domingo e os jantares eram sempre realizados neste local. A maioria dos móveis, vitrais, azulejos, foram trazidos de Portugal, como era comum na época. É nesta sala que mais me lembro de meu avô. Seu olho direito era de vidro e tinha a cara de mau, falava áspero, com português arrastado e grande sotaque da Ilha, compreendido muito bem por minha avó, que ficou conhecida como Donana. A vó Donana, era uma portuguesa grande, que não cortava os pelos das axilas e tinha buço pronunciado. Era não era bonita, tinha os pés grandes, mas era de uma doçura reconhecida e tudo fazia para alegrar os filhos, os netos e todas as pessoas. Assim foi quando jovem, assim quando madura. Dizia:- A vida na velhice é um oficio muito cansativo. Morreu com mais de oitenta.

No almoço dos domingos, eu mais me lembro da figura de meu avô, sentado à cabeceira, com o corpo e cabeça eretos, colocando ordem nas coisas. Todos, com apenas uma exceção (meu pai) tinham medo, medo mesmo! E quando alguém queria falar, precisava dirigir-se a ele e pedir licença. Criança, nem pensar em abrir a boca. Para ausentar-se, mesmo que por uns momentos, apenas após a concordância dele. As pessoas só falavam quando ele se dirigia a elas. As conversas laterais, paralelas, tinham que ser bem baixas, com palavreado bem cuidadoso. Uma palavra mais picante era imediatamente censurada.

Os filhos do seu Manoel, estudaram em Jaboticabal até completarem o ginásio e uma vez em Rio Preto tiveram que trabalhar muito cedo, ajudando na fazenda, com poucas regalias e sem férias. Apenas um deles fez o científico e entrou na Faculdade de direito do Largo São Francisco. Uma vez recebendo o seu diploma, pendurou-o e foi ser fazendeiro. As mulheres tinham apenas o diploma de grupo escolar e uma parte do ginásio e logo se casavam, por volta dos 18 anos.

Ele às vezes me pegava no colo, me dava uma balinha, alisava minha cabeça, o que interpretava como carinho do velho.

Fato interessante que, como poucos o entendiam quando falava mais ligeiro, dirigia-se para muitas pessoas e dizia: Escumidades lá hoje? a pessoa não entendia e ele repetia:  Escumidades lá hoje? O hoje ele falava forte, mas nenhuma pessoa conseguia entender o que queria. Saia dando risada e dizendo:- Vocês não entendem nada! Mais tarde minha vó esclareceu que aquilo era gozação e que nada significava. Aí meu avô, vendo que não pegava mais ninguém, prometeu uma moeda de trinta centavos para aquele que, após a pergunta respondesse rapidamente:"Sanho!" Aí todos ficavam esperando que ele fizesse aquela pergunta para responder “sanho”, e ganhar a moeda, valiosa na época. Após algum tempo não conseguia mais pegar ninguém, mas nunca deixou de pagar frente à resposta, que também nada significava. Às vezes uma pessoa perguntava a ele:- Seu Manoel como era mesmo aquela palavra gozada que o sr. falava? Ele então: Escumidades lá hoje? E obtinha a resposta: Sanho!

- Você agora me pegou! Achei que você não sabia. Supus errado! -  Pagava sempre.


Aos 59 anos teve um câncer de estomago. Muito magro e com muita tosse arrumou uma cama em um porão da casa, onde permanecia a maior parte do dia. À noite ficava em um quarto separado para não perturbar. Ia visitá-lo com minha mãe, no porão, e ao me ver erguia um pouco a cabeça e me abençoava. Perdera toda sua vitalidade, sua aparente energia. Dizia a todos:  Vou mais uma vez embarcar, desta vez para nunca mais voltar!

CABEÇA DE ADOLESCENTE - Jeremias Moreira



CABEÇA DE ADOLESCENTE
Jeremias Moreira

“Há muito não a via! Já tinha esquecido como eram convidativos seus olhos! Nem mais me lembrava de como era cativante sua voz! Esqueci quase completamente de sua boca e dos beijos que ela sabia dar.” - concluiu saudoso Militão.  Ele e Osmar encontraram-se casualmente, depois de cinco anos, na estação Sé do metrô, em São Paulo. O assunto que inevitavelmente veio à tona foram os eventos ocorridos, naquela época, em Taquaritinga, e que tiveram efeitos significativos nas suas vidas.

Era final de novembro de 2009 quando, por volta das duas da madrugada, Osmar levantou-se da mesa do bar com certo esforço, despediu-se dos amigos e, tropeçando nas pernas, tomou o rumo de casa. Deveria ter feito isso bem mais cedo e não devia ter bebido tanto. Logo pela manhã teria prova de física e, certamente, estaria de ressaca. Diante de casa, demorou a acertar a fechadura. Quando encostava a porta atrás de si percebeu o vulto, na outra calçada, que aparecera do nada. Olhou melhor e reconheceu Militão, o mecânico da oficina do meio da quadra. “Que diabos. De onde surgiu esse cara se não havia ninguém na rua? Intrigado, olhou novamente e viu o Militão, já na frente da oficina, levantar a porta de enrolar. Continuou, ainda por um tempo, tentando entender o aparecimento súbito do mecânico, depois fechou a porta e atravessou a loja de ferragens do pai para alcançar a casa, que ficava nos fundos. Tomou um remédio para ressaca. Não parou de pensar no surgimento repentino do Militão. “Caramba, de onde ele surgiu?” Chegou ao quarto, atirou-se na cama de roupa e tudo e logo adormeceu. Ao contrário do que previra, o remédio não evitou totalmente a ressaca, mas ele não foi mal na prova. 

Após a escola, foi para casa almoçar e, em seguida, ficar na loja para o pai, também, almoçar e tirar seu cochilo costumeiro. Levou o livro de matemática, a matéria da prova do dia seguinte. Ainda com o que restava da ressaca, tentava solucionar uma equação quando ouviu a voz de Helena, a mulher da loja de móveis da frente. Ela devia ter uns vinte e oito anos e era casada com o Frederico, com quem tinha dois filhos pequenos. Frederico aparentava ser bem mais velho que ela e era o dono da loja de móveis. Ele era um tipo espertalhão e meio sovina por quem Osmar nutria certa antipatia. Em compensação, com seus dezoito anos e com a testosterona transbordando, sentia muita atração por dona Helena. Achava um desperdício aquela mulher bonita e sensual casada com um cara balofo como o Frederico. Por isso, quando a ouviu perguntar se tinha fita isolante, quase caiu da cadeira. Levantou meio sem jeito e teve dificuldade para localizar o produto. Embaraçado, sentia que ela se divertia com isso. Às vezes, quando Osmar substituía o pai coincidia de Helena estar na loja de móveis em vez do marido. Nessas horas, assim a distância, Osmar a olhava até com certo descaramento. E ele pressentia que seu olhar de desejo era percebido. Porém,  não sabia interpretar se ela retribuía ou reprovava.

Ainda procurando a gaveta onde estava a fita isolante ouviu a voz dela novamente.

— Você chegou tarde essa noite, né?

Ainda zumbeta, demorou a atinar a pergunta:

 — É... é... fiquei com uns amigos no Bar do Leco... quando vi já era tarde.

— Criança não pode ficar até tarde na rua. Tem que dormir cedo! — provocou Helena.
Osmar ficou vermelho como um pimentão. Enquanto embrulhava a fita isolante, balbuciou alguma coisa sem nexo, de volta. Jocosa, ela pegou o pacotinho, pediu para marcar e saiu. Atravessava a rua quando Osmar sacou o ridículo que fizera. Foi para trás da pilha de latas de tintas e xingou com um berro contido:

— Idiota! Babaca!

Exorcizou seu fiasco e voltou para o livro. Porém, não conseguiu mais se concentrar. Estava furioso consigo próprio. Perdera a oportunidade de se mostrar espirituoso e impressionar Helena. De repente, atinou para algo que não havia percebido: “Como ela sabe que eu cheguei tarde?”. Lembrou-se do Militão aparecer do nada, no meio da noite. Seu pensamento tentou associar Militão a Helena, porém achou absurdo. Militão era um sujeito tosco. Uma mulher como dona Helena não teria o mau gosto de se interessar por ele. Mas, vai saber o que se passa na cabeça de uma mulher. O Frederico era dado à jogatina e costumava frequentar um clube de carteado até altas horas. Quem sabe ele não dava conta do recado e dona Helena aceitava de Militão o que não tinha em casa.

Depois do retorno do pai e já em seu quarto, não conseguiu mais estudar. Não parava de pensar na mulher. Enquanto esses pensamentos povoavam-lhe a cabeça, Osmar deu-se conta de que sempre vacilou com ela. Lamentou não ser mais agressivo e tê-la cantado na cara dura. Certamente Helena gostava de homens decididos, atrevidos, brutos. Pôs-se a fantasiar que numa das vezes em que ela entrasse na loja, ele a levaria para o depósito e transariam. Excitado, se masturbou. Relaxado, dormiu.

Acordou com sua mãe batendo na porta. O Militão procurava por ele. “O Militão quer falar comigo?”. Ficou apreensivo “O que será que ele quer?”. Passou uma água no rosto e foi encontrar Militão.

— O cara! Tá com o rosto inchado. Eu te acordei? — brincou Militão.

— Não... tudo bem...  eu preciso estudar mesmo.  — respondeu.

— Cara... fiz um negócio num carro lá na oficina e queria sua opinião. Dá pra dar uma chegadinha lá?

— Ok, tudo bem! — respondeu achando aquilo estranho.

Assim que entraram na oficina, Militão virou-se para ele. Osmar estava ressabiado.

— Eu precisava falar com você e tinha que inventar um motivo. Desculpe aí, tá!

— Tudo bem, o que você tem para falar comigo.

— Bem, ontem à noite você chegou em casa bem na hora que eu saí da casa do Frederico.

A revelação foi como uma tapa no rosto. Atordoado, Osmar demorou a encontrar uma resposta.

— Eu não vi você sair da casa do Frederico. Quando percebi, você já estava na rua. Até encafifei de onde você surgiu, assim do nada.

— Que merda! Devia ter ficado quieto. Bom, agora já falei e o negócio é o seguinte: a Helena acha que você vai contar para o Frederico que me viu saindo da casa deles às duas da manhã.

Outro tapa! Osmar reagiu.

— Ela acha isso? Porque eu contaria?

— Foi o que eu falei para ela, que você é ponta firme. Mas ela está receosa.

Indignado, com muita raiva, respondeu exaltado:

— Olha Militão! Ontem bebi um pouco demais! Cheguei em casa tarde e não vi você saindo da casa do Frederico! Se você quiser eu nem te vi na rua! Tá bom?

— Tá bem, cara! Não precisa ficar bravo! Eu apenas queria que você guardasse isso só pra você. Legal?

— Legal! Da minha parte ninguém vai saber, mas acho que você deveria ser mais cuidadoso!

Depois do sábio conselho Osmar voltou para casa bastante irritado. “Então é verdade, a dona Helena transa com o Militão? E ela acha que eu sou um bunda mole que vai espalhar por aí?” – pensou. Por essa, ele não esperava. Sentia uma grande decepção. Decidiu que não comentaria a história com ninguém.

Entrou na loja e encostou-se no balcão enquanto seu pai atendia um freguês. Olhou para o outro lado da rua, para a loja de móveis, e lá estava dona Helena. Ela o encarava. Ficaram um bom tempo se olhando e, dessa vez, finalmente, ele conseguiu ler o que os olhos dela diziam. O olhar frio e enigmático que ele nunca conseguira decifrar, percebeu agora, expressava tristeza. Dona Helena era uma mulher triste. Ele sentia muita tesão por ela, mas apenas tesão, e ela devia ser uma mulher sedenta de amor. Ficou com pena dela e aliviado por ser acanhado. Previu que o caso com o Militão, certamente, acabaria mal.

O cliente despediu-se e saiu. O pai passou por ele e foi para o caixa. Osmar aproximou-se, esperou que anotasse a venda e falou:

— Pai, amanhã será minha última prova do ano. Com isso, termino o colegial! Na semana que vem eu vou embora pra São Paulo! Vou aceitar o emprego que o tio Claudio me ofereceu no escritório dele e prestar vestibular para a faculdade de Direito!

Como previra, um ano depois, o caso entre Helena e Militão estourou e tornou-se, por muito tempo, motivo de fofoca na cidade. Helena jurou inocência e que isso não passava de falatório de pessoas maldosas. Para Frederico foi conveniente acreditar, mas mesmo assim contratou dois brutamontes para dar uma surra no Militão. Avisado, ele se mandou para São Paulo. Aceitou um emprego na oficina de um primo, no Tatuapé, onde está até hoje. Seu caso com Helena terminou assim, melancólico como uma fotografia que vai esvaecendo.

Osmar formou-se advogado. Está se preparando para fazer o exame da OAB. Mas, já advoga no escritório do tio.


Despediu-se de Militão. Não comentou que saiu de Taquaritinga porque previu que, de alguma forma, se envolveria naquela história. Também não contou que fantasias eróticas com Helena povoaram sua cabeça de adolescente.

AMOR VERDADEIRO - Carlos Cedano


AMOR VERDADEIRO
Carlos Cedano

Rodrigo, agora viúvo tinha conseguido, a custa de muito trabalho e sacrifícios seu “lugar ao sol” e podia fazer as coisas que sempre ansiou e postergou: cinemas, teatros, concertos e de tempo em tempo “comer fora” com amigos, também aposentados. Visitava seu único filho, que morava no exterior, cada ano.

Numa visita a um museu viu uma pessoa que achava conhecer, discretamente se aproximou dela e reconheceu sua amiga Heliodora sentada frente a uma bela pintura que absorvia toda sua atenção. Estava certo! Era ela, sim! Tinham se passado quase trinta anos, mas conseguiu reconhecê-la. 

        —Heliodora, é você? - Perguntou  emocionado.

A senhora o olhou por alguns segundos e respondeu:

        — Sim! E você é Rodrigo! Rodrigo Souza, né? Quanto tempo! - disse ela - abrindo um belo sorriso.

Perceberam que o entusiasmo do reencontro poderia perturbar os outros visitantes e foram até a lanchonete do museu pra falar do passado e do presente.

Enquanto iam pra lá, a cabeça de Rodrigo se encheu de lembranças e imagens de outrora: Há muito não a via! Já tinha esquecido como eram convidativos seus olhos! Nem mais me lembrava de como era cativante sua voz! Esqueci quase completamente de sua boca e dos beijos que ela sabia dar.

De repente percebeu que esse passado estava agora na sua frente e que lhe dizia que também tinha um filho e que seu falecido tinha sido uma pessoa maravilhosa.  Ah! Rodrigo, também adoro as coisas que você curte! Disse  ela com um olhar sedutor.

A partir desse momento viram-se com frequência e algo explodiu dentro deles, o passado voltou com toda sua força. Quem os visse não deixava de “sentir” a bela áurea de amor que os envolvia. As amigas dela comentavam como ela estava linda e com cara de felicidade –uma delas comentou - você deve estar apaixonada! E perguntou o nome dele.

— Rodrigo, – disse Heliodora – e me trata como uma rainha!

As amigas riram felizes e a parabenizaram torcendo por um final feliz!
No próximo encontro que teve com Rodrigo, Heliodora contou pra ele suas preocupações com a reação de seu filho Luís e relatou:

        —O pai sempre foi um ídolo e sua morte lhe causou uma dor profunda. Demorou pra recuperar-se, mas agora graças a Deus, encontrou essa moça Martha que lhe “devolveu” a alegria e entusiasmo pela vida! Porem, mesmo assim, ainda temo sua reação!

— Sim Heliodora, a situação é preocupante, não desesperemos. Precisamos de um aliado! Quem poderia ser? Indagou Rodrigo após escuta-la com carinho.

Ela decidiu falar com seu filho. Quando se encontraram em poucas e firmes palavras contou-lhe seu namoro com Rodrigo. Não houve reação intempestiva nem agressiva, não era do feitio dele e menos ainda o seria com sua mãe! Porem Luís nada comentou e disse que precisaria de um tempo para pensar.

A mãe ligou para Martha e explicou-lhe a situação que estava vivendo, ela a escutou com paciência e carinho e respondeu:

        — Heliodora, com certeza Luís vai falar comigo sobre esse assunto e como falta pouco tempo pra nosso noivado, esta na hora de deixar todo o resto de nossos segredos e dúvidas bem claros! Falarei com ele hoje. Eu te ligo depois, um beijo.

No dia do noivado estavam presentes além dos noivos, os pais dela, Fernando e Maria, Heliodora e Rodrigo e muitos amigos dos noivos. O ambiente era de alegria e carinho.

Martha pegou seu pai da mão e foi ao encontro de Rodrigo e lhe disse:

        — Rodrigo você já conhece meu pai, mas quero que os dois saibam que têm uma responsabilidade muito importante na felicidade minha e de Luís. Fernando é o segundo marido de minha mãe e conseguiu fazer-nos felizes sem esquecer a figura de meu falecido pai. Adoro este homem e tenho certeza de você conseguirá o mesmo com Luís.


Martha abraçou fortemente Rodrigo que já chorava copiosamente contagiando a Fernando, as mães e Luís que se aproximaram também foram “contaminados pelas mesmas emoções”. Eis ai o amor verdadeiro!


A Espera de Godot - José Vicente J. de Camargo


A Espera de Godot
José Vicente J. de Camargo



As pedras rolam
Eu vejo
As águas correm
Eu escuto
As dores chegam
Eu calo
E aguardo no escuro embarcar
Na luz ofuscante que não se aproxima
Em vão cansado desisto

Talvez amanhã aconteça...

PARECIA BOM - Oswaldo Romano


PARECIA BOM
Oswaldo Romano

Há muito não o via!

        Já tinha esquecido como eram convidativos seus olhos! Nem mais me lembrava como era cativante sua voz! Esqueci quase completamente do carinho que ele sabia dar.

        Estávamos namorando há dois anos.

        Bicicletas nos levavam a deliciosos passeios nos parques, e quando motivados, o que era constante, por trilhas mata adentro. Só de pensar nelas vinha um sentimento de aventura, coberto de muito prazer.

        Nas picadas que desviavam das trilhas, já conhecidas, uma foi  escolhida naquele dia era o desvio que nos levava ao nosso esconderijo.

        Uma toalha estendida no chão, ali deitados, nossos olhares perdidos no espaço, cobriam os pensamentos desencontrados.

        — O que será que tem dentro da sua cabeça? Eu pensava! Como gostaria de poder entrar nos seus segredos, nesta hora. Estaria voltado para outra?

        Com dois anos juntos, já lhe escapava aquele apetite do ataque sexual.

        Então, tomando à dianteira, investi sobre ele cobrindo-o de beijos e carinhos.

        Meses depois ele comprou um carro. Foi um chega p’ra lá das nossas pedaladas. Mas tudo mudou. O carro o levou, sei lá p’ra onde...


        Na lembrança que sinto agora, vejo vagamente onde errei. Fui eu quem ensinou os caminhos dos esconderijos.

Repouso Futurista - José Vicente Jardim de Camargo


Repouso Futurista
José Vicente Jardim de Camargo



Relaxado qual gigante adormecido
Exala suspiros pensantes
Que ao céu como estrelas ascendem
Em direção à lua dormente

Da terra tal sonhos escondidos
Emergem seres dançantes
Que ao sol bailam dolentes
Transmitindo ao repousante em louros

A paz do sono merecido...

Qual o sentido da vida?

O sentido da vida é o que você quiser que a sua vida seja.



Sessão, seção, ou Cessão?



DICAS DA LÍNGUA PORTUGUESA:

Sessão = Delimitação de uma atividade praticada durante algum tempo. Sessão de Cinema. Sessão de fisioterapia.

Seção (vem de seccionar) =  Significa cortar em partes ou pedaços, tem o sentido de "divisão.


Cessão =  Ato de ceder. Cessão de Direitos Autorais.

DEITADO NUMA SOMBRA OLHANDO O INFINITO - Oswaldo Romano





DEITADO NUMA SOMBRA OLHANDO O INFINITO
Oswaldo Romano                                      

        Deitado no gramado seus olhares eram lanças que se perdiam nas nuvens. Era o soldado que se virava para a Lua, e menosprezava sua farda.

        Enquanto isso seus companheiros no fronte, heróis nos combates, sofriam os arrepios de ver balas que passavam deixando um silvo perdido no espaço.

        Seu pensamento mirava os astros, sol e lua, prestes a se tocarem. Ela, com olhar desafiante ao Rei Sol, contava com sua plenitude e leveza. Ele vestido com sua coroa dourada, apoiado pelas estrelas, poderia queimá-la, como havia feito com tantos outros astros.

        Ao soldado deitado no berço esplendido, lhe parecia acontecer muito em breve um tenebroso encontro.

        Aguardava tranquilo porque contava com os milhares de estrelas, que sempre supôs vigiarem os dois.

        E a real batalha que o soldado ouvia a distância, tal qual a possível entre a  lua e o sol, pouco o incomodava.


        O folgado combatente, um medroso incorrigível, alistou-se para passear, segurava-se nas mãos do incerto, e esperava o mundo mudar.

O CORONEL ENTROU DE FÉRIAS - Suzana da Cunha Lima



O CORONEL ENTROU DE FÉRIAS
Suzana da Cunha Lima

Purgando uns meses sem emprego fixo,  o engenheiro aceitou um trabalho que lhe ofereceram, muito bem remunerado, para implantação de uma nova fábrica de produtos químicos. Era de uma firma já existente, que desejava otimizar espaços e máquinas ociosas, aproveitando o mesmo amplo local onde já  funcionava há alguns anos, com produtos similares..

Ficou animadíssimo, porque não só era sua especialidade, como se apresentava também, uma oportunidade  de, mais tarde, ser o gestor dos negócios.  Em sua santa ingenuidade, pensou que seria um processo relativamente simples, pois o dono era o mesmo, desconhecendo que ia transitar meses a fio num emaranhado de papéis, exigências e comprovações de toda espécie,  navegando na terrível burocracia brasileira.. Até parecia que iam fabricar uma bomba atômica, pensou.

Afinal, depois de tudo sacramentado, carimbado, selado, juramentado e todas as etapas queimadas, junto com sua paciência, deparou-se com uma exigência do Exército: era necessária autorização para transporte e manuseio de alguns daqueles produtos, no entender dos peritos, perigosos e inflamáveis.

A matriz, no exterior, cansada e surpresa, não queria acreditar naquilo.  Informou ao  novo contratado que, caso não obtivesse a autorização, daria aquilo tudo por encerrado.  Iria procurar um país mais inteligente e moderno, que percebesse a enorme criação de empregos que a fábrica iria gerar, tanto diretos quanto indiretos e quantas divisas o país poderia salvar, fabricando produtos que até então eram importados.

O engenheiro, no auge do desespero e decepção após tantos meses de trabalho insano, agilizou os papéis e documentos necessários, até  que, finalmente, estava com a autorização na mão. Prontinha, preparada segundo o padrão do próprio Exército, com todas as especificações e ressalvas. Tudo dentro da lei. Só faltava a assinatura de um coronel, encarregado deste setor, conforme ele  havia sido informado.  Deu a notícia à matriz e à sua equipe que respiraram aliviados e foram providenciar a champanhe. Era caso de comemoração mesmo!

No dia combinado ele se apresentou na repartição competente, perguntando pelo coronel, com a pasta de documentos na mão.

A assistente olhou aquilo  na mão dele, e informou:

- Ele não está. O senhor marcou horário?

- Sim senhora, há mais de quinze dias, e disseram-me que na quarta, é o melhor dia.

- Realmente, quarta-feira é um dia válido. Mas, não vai dar porque o coronel entrou em férias.

- Férias!!! O engenheiro sentiu o coração disparar – Bom, ele sabia do que se tratava, então deve ter deixado um substituto. A senhora  pode chamá-lo?

- Não tem substituto. Só o Coronel pode assinar este requerimento.

- Como não tem substituto? Minha senhora, estou há meses  tentando regularizar esta papelada. Só falta a assinatura do coronel. Eu avisei que vinha aqui para isso. Deve haver outro oficial que possa assinar, este papel foi redigido pelo próprio Exército, é rotina.

- Eu sei, senhor. Mas, o que posso fazer? O coronel está de férias.

Ele engoliu em seco, contou até dez e aí perguntou:

- E para onde ele foi?

A moça olhou para um cartão postal preso na sua agenda, na mesa e disse:

- Para o Caribe, tem quatro dias já. Até mandou um cartão para nós.

O engenheiro  pegou o cartão  perguntando:

- É assim que ele assina os documentos?

- Assim mesmo.

- É este o carimbo dele?

-É sim senhor, mas o senhor não está pensando em...

- Não estou pensando, estou fazendo. – sentou-se na beirada da mesa e assinou a autorização imitando a assinatura do coronel com maestria. Depois carimbou no lugar certo, como havia notado nos documentos que estavam na mesa.

- Perfeito! E informou à moça estupefata:


- Se der algum galho, eu não estive aqui e você nunca me viu.  Na verdade, eu também estou de férias.

WORKAHOLIC - Jeremias Moreira




WORKAHOLIC
Jeremias Moreira

O telefone tocou. Danilo deixou a régua de cálculo de lado e atendeu.

— Você pegou o Pedro na escola? - ouviu a voz avinagrada de Beth.

— Não! Não! Hoje é seu dia. – respondeu.

— Aqui na escola disseram que o Pedro saiu com você!

— Hoje é quarta feira, Beth. Dia que o Pedro vai para sua casa. Por que eu o pegaria?

— Se não foi você, então quem pegou?

— Como assim, quem pegou? O Pedro não está na escola?

—Aquela servente, que parece um carcereiro, disse que você veio buscá-lo.

— Essa mulher não está batendo bem. Veja isso direito porque não foi comigo que o Pedro saiu.

Desligaram! Preocupada, Beth foi conferir na secretaria. A coordenadora havia saído e ainda não voltara. Danilo também se agitou. De repente lhe veio à mente o sujeito que estava sentado na mureta da escola quando foi levar o Pedro. Ele até o cumprimentou, quando entrou e quando saiu, pensando que fosse o pai de algum aluno. Mas achou algo esquisito nele, que na hora não deu importância.  Ligou para Beth:

— E aí? Você falou com a coordenadora?

— Ela saiu e não voltou. Conversei novamente com o carcereiro. Disse que, por ser véspera de feriado a saída foi muito confusa. E que não tinha certeza se foi você quem pegou o Pedro.

— Ela sabe se foi homem ou mulher que o pegou?

— Não! Ela não sabe. Já aprontei um salseiro aqui. Tá todo mundo empenhado em saber o que aconteceu com o Pedro e em localizar a coordenadora. A tarde foi punk na Agência, eu tive uma reunião pesada que se arrastou além da hora, e cheguei na escola um pouco atrasada e...  O Pedro já tinha saído com alguém.

— Por que você não me ligou? Eu poderia buscá-lo.

— Pronto! Lá vem você com acusação. Sempre sou eu quem paga o pato! Como se você nunca tivesse se atrasado. Você sabe que isso acontece. E, nesses casos a escola fica com a criança na secretaria até que alguém venha apanhá-la.

—Olha Beth, não faça teatro porque não estou te acusando de nada. O que importa agora é achar o Pedro. Saber o que aconteceu com ele. Por acaso tem um homem de camisa xadrez sentado aí na mureta da escola?

— Não! Não tem mais ninguém aqui. Só eu. Ah!... E a secretária e o carcereiro que estão tentando localizar a coordenadora. Mas, o que tem esse homem de camisa xadrez? Por que você falou dele?

— Nada! Nada! Estou indo para aí!

— Danilo! O que tem esse sujeito de xadrez? Danilo? Danilo? – Ele desligou e Beth entrou em parafuso  - Merda, o que tem a ver esse cara de xadrez?

Beth voltou para a secretaria. O coração apertado e a cabeça explodindo. Ainda não haviam localizado a coordenadora. Seu celular só dava caixa postal.

Em instantes Danilo chegou. Emprestara a moto do sócio e viera rápido como um foguete.

— Então? Alguma notícia?

— Porra nenhuma! Porque você falou do homem de camisa xadrez?

— Não sei! Quando deixei o Pedro havia um homem sentado na mureta. Pensei que fosse o pai de alguma criança, mas... Não sei... não se encaixava direito. Havia alguma coisa esquisita.

— Se está se referindo a um homem de camisa xadrez, calça jeans e botina preta, sentado na mureta, na hora da entrada, era o Juvêncio, o pedreiro que estava esperando a dona Dulce. – disse a servente.

Nesse instante Dulce, a coordenadora, chegou.

— Desculpem! A bateria do celular pifou. Mas, o que está acontecendo?

— Tá acontecendo que alguém pegou o Pedro! – Disse Beth angustiada.

— Claro que alguém pegou o Pedro! Foi a Camila, mãe da Priscila. – respondeu a coordenadora.

— Como assim? A Camila pegou o Pedro sem nos avisar? – perguntou irritado, Danilo.

— Beth... Beth! Você está de cabeça oca?  Eu te liguei por volta das quatro da tarde perguntado se o Pedro poderia ir ao aniversário da Priscila e você concordou. Lembra?

A Beth ficou lívida. Depois de um tempo em silêncio:

—Puta merda! Esqueci total! – e começou a chorar, um pouco pelo estresse, um pouco pelo alívio.


Danilo achou melhor não comentar. Também estava aliviado.