Oficina de textos, do Clube Alto dos Pinheiros - Vera Lambiasi




Oficina de textos, do Clube Alto dos Pinheiros                                     
Vera Lambiasi

O encontro começa às duas, no hall da biblioteca. Conversa solta sobre os assuntos da semana. Copa, política, violência, ali pode tudo. Novidades em livros, tecnologia para a escrita.

Professora e alunos a postos?

Entramos na classe, de tudo esquecer.

Porta fechada, celulares desligados, o mundo, lá fora.

Incomunicáveis, começamos a ler nossas lições de casa, ALTO, para os colegas.

Todos criticam.

Aplaudem, se for o caso.

Professora faz correções pontuais. Alunos viajam na maionese.

E o orador aceita, bem humorado.

Somos treze. Pessoas maduras, cultas, de diferentes profissões, que se expõem como crianças.

Depois dessa rodada de textos incríveis, feitos com calma, no aconchego do lar, vem a lição de sala.

A professora distribui uma folha, propondo um tema, ensina a construção desta escrita – poesia, conto, crônica, discurso, qual queira – sugere figuras de linguagem, e escapes de lugar comum.

Enquanto lemos o enunciado, nossa mente já começa a ter ideias, e equívocos, rs.
E no fim da explanação, quando é pedido o texto, começa a brotar a história completa.

Pausa para o bolo e champagne, sempre é aniversário de alguém, ou foi.

Completamente alimentados, jorra no papel, a fábula do dia.

Rápida, curta, só uma lauda. Para expressar aquelas três horas passadas com os amigos.

As desavenças, picuinhas, choque de gerações, vingancinhas, manobras maquiavélicas, oportunismos, vão todos para os textos.

Devíamos até agradecer quem nos causa tanta dor.

Das experiências, faz-se um escritor.

Muito agradecida!

Esta lição de sala saiu levinha, colorida e adocicada.

Deve ser a sensação de perdão.


A MISSÃO DE AZAKA - Carlos Cedano



A MISSÃO DE AZAKA
Carlos Cedano

Encontrei pela primeira vez Azaka numa praia próxima à cidade de Chitré. Mulato alto e muito bonito, filho de engenheiro francês e mãe haitiana que era líder, com o nome de Manbo Nubia, de um terreiro em Port au Prince. A mãe enviuvou e messes depois se-casou novamente com outro francês. O padrasto gostou muito de seu enteado e logo percebeu que tinha inteligência acima da media embora só falasse o Creole. Com paciência e carinho seu novo pai lhe ensinou francês e ele o aprendeu rapidamente.

Quando a mãe faleceu já tinha 21 anos e pouco depois, seu pai recebeu convite para trabalhar como encarregado da manutenção numa fábrica de motores no Panamá, que aceitou rapidamente. Partiram em duas semanas e se instalaram na cidade de Chitré situada na costa do Golfo de Panamá. O rapaz se Integrou rapidamente ao convívio social e ficou bem conhecido e estimado pelos habitantes além da admiração das mulheres.

Foi nessa época que nosso personagem começou a catar pedras no leito das praias que visitava e fabricar amuletos. Apaixonou-se por essas duas atividades.

Um dia seu pai o chamou e lhe disse:

        — Meu filho, teu pai já não tem muito tempo de vida, estou velho e doente, meu maior desejo é morrer na minha terra natal que não vejo há mais de quarenta anos.

Azaka o consolou e abraçando-o com ternura dize-lhe:

        — Meu pai querido, somente imaginar nossa separação me deixa muito triste, ficar longe de você que me amou e me educou com tanto carinho será uma perda muito dura, a pesar de minha dor vou realizar teu desejo plenamente que agora é o que verdadeiramente importa. Amo você muito meu pai.    

Algumas semanas depois o pai partiu, seu filho o levou até a Cidade de Panamá onde numa tarde escura e chuvosa podiam-se ver duas pessoas que na beira do cais se abraçavam, chorando intensamente.

Passaram-se outros cinco anos após a partida do pai e foi no final desse período que conheci Azaka na praia de modo casual, foi um encontro espontâneo daqueles que auguram uma sólida e duradoura amizade.  Ele tinha acabado de chegar duma longa viagem de quase três anos pela América Andina e tinha muitas coisas pra contar.

Após de semanas de muitas conversas e relato recíproco de nossas historias de vida e aventuras, meu anfitrião disse:

        — João Francisco: Posso mostrar- lhe minhas coleções de pedras e amuletos que venho montando já há quase vinte anos? Acho que você gostará. Está bem amanhã após o café da manhã?

        — Sim, respondi, até amanhã então.

No dia seguinte cedo meu amigo estava no meu pequeno motel, me cumprimentou e logo fomos andando para conhecer suas coleções.

A sensação mais forte que tive ao adentrar na sala, foi a de estar penetrando num mundo desconhecido e excitante. De um lado pedras exóticas em diferentes formatos, algumas delas já trabalhadas o ressaltavam sua beleza natural.

Do outro lado viam-se mais de duas centenas de amuletos, em parte fabricadas pelo próprio Azaka e na grande maioria trazidas dos diferentes países da América Latina que tinha visitado. Os amuletos eram representações de deuses e símbolos que povoam o mundo mágico dos xamas andinos e do Vodu haitiano e que se confundiam numa estranha simbiose de formas e significados estranhos e misteriosos.

Vendo minha surpresa e excitação meu amigo me disse:

        — Senta João Francisco, quero contar-lhe algo sobre mim que muito poucas pessoas sabem. Minha mãe foi sacerdotisa num terreiro de Vodu em Haiti, com ela aprendi os ritos e invocações aos deuses, aprendi também a distinguir quando um terreiro de fato deseja ajudar ou simplesmente deseja aproveitar-se de seus fieis.

Percebendo o avanço das seitas que usurpava e deturpava o autêntico Vodu, ela me preparou com a missão de, onde quer que eu estive-se, lutar pela pureza e preservação do verdadeiro Vodu. Ela me ordenou Manbo Sana com poderes para abrir terreiros e iniciar futuros fieis. A loja que estou montando faz parte dessa missão.

— Então, para quando o terreiro?  Perguntou João Francisco com o pragmatismo que o caracterizava.

        — Vai demorar um pouco, primeiro preciso ampliar minhas coleções para obter recursos e ampliar e decorar a loja, isso permitirá aproveitar melhor o fluxo de turistas. Disse Azaka.

Os meses seguintes foram de um frenesi de trabalho para aumentar as coleções de pedras e de amuletos. Por sorte Manbo Sana possuía algumas peças de sua coleção particular que eventualmente poderia vender por bom preço caso falta-se o dinheiro.

Possuía um conjunto de pedras antigas gravadas com símbolos da Cultura Nazca, também tinha um conjunto de sete conchas iguais, porém cada uma de cor diferente e de brilhos muito intensos, ele as apelidou de “Reflexos do Arco Iris no Fundo do Mar”. Também fabricou, seguindo a simbologia do Vodu, uma grande quantidade de amuletos e imagens.

        — Preciso agradecer tua grande ajuda João Francisco, sem ela provavelmente não conseguiria “dar conta do recado” Falou Azaka.

        — Para mim foi um período de grandes descobertas pessoais; no meio da intensidade do trabalho, me vinham repostas para minhas velhas indagações. Foi uma rica experiência de crescimento interno. Falou João Francisco.

Chegaram as férias, os turistas também e em bom número que permitiu ofertar trabalho para os moradores da cidade. Venderam quase tudo e no fim das férias, Azaka tinha recursos para selecionar pelo menos, três rapazes e inicia-los na doutrina, ritos e cantos do Vodu. Em quanto isso, João Francisco preparava sua volta ao Brasil, primeiro iria a São Paulo e depois pegaria outro avião para Curitiba onde acabaria sua viagem.

Chegando ao aeroporto se acentuava em João Francisco a sensação de que ainda voltaria para Chitré, não sabia quando, mais sabia que voltaria. Chegando ao portão de embarque na companhia de Azaka, se abraçaram e este lhe disse: Eu também tenho certeza de que você voltará. Adeus meu grande amigo.

        — Adeus meu amigo respondeu João Francisco com surpresa e depois com um leve sorriso. 


Para bons entendedores poucas palavras!

O colecionador de moedas - Fernando Braga



 


O colecionador de moedas.
Fernando Braga


Conheci há alguns anos JM, sócio de meu filho mais jovem em empresa de paisagismo. Fazia ele 40 anos, quando fomos convidados para a comemoração, em seu apartamento nos jardins.

Como ficamos até mais tarde ele me convidou para dar uma olhada que em sua coleção de moedas antigas. Interessei-me, e fomos até seu escritório, onde havia um grande arquivo, com várias gavetas. Disse ele:

— Hoje tenho cerca de 150 moedas antigas. Oitenta por cento delas brasileiras! Todas estão aqui, bem guardadas sob sete chaves, em envelopes especiais e catalogadas. Desde a adolescência, tenho este prazer, e muito dinheiro gastei para chegar ao ponto atual.

Perguntei a ele:
— Quer dizer que você é um numismata?

— Sim -  respondeu - o termo vem de ¨numisma¨, uma palavra grega que significa moeda, mas também se aplica a colecionadores de cédulas e de medalhas.
Vendo o meu interesse, começou a dar muitas explicações sobre o tema. — Existe - disse ele - a Associação Brasileira de Numismática, antiga, onde todos os sócios se conhecem pessoalmente ou se correspondem em reuniões a cada dois ou três anos para trocar conhecimentos. Numismática é um símbolo de cultura! Quando você adquire uma moeda antiga você vai estuda-la, ver sua origem e conhecer tudo relacionado a ela. As primeiras moedas datam de 2000 anos AC, mas foi no século VI AC, na Grécia, que se deu o início à cunhagem das mesmas (o dracma), antes da época de Hipócrates. Foi apenas na Renascença, graças aos humanistas, que queriam recuperar a cultura grego-romana,  que  começou a  coleção de moedas, dando origem à numismática, para consolida-la como uma ciência, nos séculos seguintes. As coleções de Luiz XIV e de Maximiliano, do sacro império, estruturaram esta consolidação. No Brasil, ela se desenvolveu apenas no século XIX, em moldes europeus e a aristocracia teve um papel fundamental! Dom Pedro II, como amante das artes e da história, que, frequentemente, viajava para o exterior e trazia lembranças, incluindo moedas, estimulou a criação da Sociedade de Numismática. O dia primeiro de dezembro é o dia do numismata, porque foi o dia da coroação de D.Pedro I, onde foi feita a primeira moeda do Brasil império, conhecida como ¨peça da coroação¨ a mais rara do país, que eu não tenho, mas tenho coisas boas e vou te mostrar. Os colecionadores - disse ele - dividem-se entre aqueles que preferem  moedas da época colonial, da imperial ou da república, e também quanto ao metal usado, se ouro, prata, cobre, níquel, ou mistura. Veja, aqui está o Patacão  de prata 900,de 1808 a 1828, que valia 980 reis. Tenho aqui, 500 reis de prata 500, de 1854, outra de 2000 reis de 1865, da época da guerra do Paraguai. Você chegou a ver esta moeda comemorativa do sesquicentenário da independência, de prata 900, de 20 cruzeiros, de 1972?  Esta eu tenho certeza de que você se lembra, o quatrocentão de 1944.

— É claro que me lembro!

Mostrou-me ainda uma libra esterlina de ouro, o meio crown, uma moeda francesa de 20 francos, uma portuguesa de 20 escudos, todas raras e o catálogo, bem feito, das moedas do Brasil. Ficaríamos conversando a noite toda, se não fosse minha esposa se aproximar e afirmar que todas as pessoas restantes, estavam com muito sono e precisávamos ir embora. Terminamos o último Cointraux e nos despedimos. Ficamos de voltar, proximamente. Mas, a história ainda não terminou.
Há 15 dias, meu filho veio nos informar que a casa de JM havia sido assaltada. Tudo planejado!

Eles haviam trocado um modem da TVA pelo sistema da NET. Assim sendo, eles deviam devolver o antigo da TVA. Foi combinado para eles virem buscar o aparelho antigo, sem marcar data específica. Uma tarde, telefonaram no escritório de JM dizendo serem da TVA, e que iriam naquela tarde retirar o aparelho. Ele, por telefone, informou a portaria, que tem extrema segurança, de que poderiam deixar entrar o funcionário. Vieram dois, se identificaram, subiram, tocaram a campainha e a porta foi aberta pela esposa de JM. Receberam o aparelho e pediram para ver a TV, mas foi negado por ela. Tiraram então uma pistola, entraram e começou a limpeza. O filho maior chegou e também foi arrestado. Após ameaça violenta, a esposa entregou a eles 15000 Euros e sua caixa de joias verdadeiras e bijuterias finas. Mãe e filho foram amarrados e presos no banheiro. Tudo durou meia hora, os bandidos escaparam tranquilamente pela portaria, carregando o aparelho velho. Agradeceram e tomaram seu veículo, a uns 50 metros. Tudo foi filmado pelas câmaras.

Horas depois JM foi contatado pela esposa, relatando o ocorrido. Saiu na disparada para sua casa e ao chegar, encontrando a esposa e filho muito bem, sem nada perguntar dirigiu-se imediatamente ao seu escritório. Todos o seguiram. Pálido, trêmulo, pernas bambas, logo percebeu que seu arquivo não havia sido aberto. Abriu-o e deparou com sua coleção inteira:

— Graças a Deus, não encontraram minha coleção!

Sua esposa disse:
— Eles ficaram tão satisfeitos com os Euros e minhas joias, que não quiseram mais nada. Deu uns 150.000 de prejuízo! Adeus nossa viagem do mês que vem para a Croácia!!

JM fez um BO do acontecido em uma delegacia próxima, cujo delegado é seu amigo. Dias após, o delegado telefonou dizendo que, analisando as imagens da câmara de seguranças, haviam identificado os dois bandidos, que têm conexão com vários empregados em firmas assistenciais, inclusive na TVA. O dinheiro dificilmente iriam recuperar, mas as joias, possivelmente. Iam apenas aguardar um pouco mais para pegar toda a quadrilha de uma vez!

Viva nosso numismata!!Vamos torcer para ele.


AMIGOS - Oswaldo Romano



 AMIGos                
Oswaldo Romano
        Fui premiado pela sorte para criar novos amigos. Muito mal imaginava que, em pouco tempo viria tê-los como irmãos. O tênis foi o esporte que  abracei, depois da fase do motociclismo, o perigoso esporte individual. Chegando às quadras sempre batia de cara com um novato entre os aficionados, paramentado e acertando as cordas da raquete, esperava um convite para completar duplas. Nunca os ignorei. Tinha em mente a passagem do momento que foi também, o meu primeiro dia.
Pronto. Um novo amigo num piscar de olhos. As quadras do nobre esporte são as que oferecem as melhores oportunidades  de relacionamentos. São grandes amizades compatíveis. Esse esmerado esporte traz um novo modo de vida. Envolvido nesse louvado circulo, você passa a vê-lo como uma escola social, condizente com a aplicação que foi seu aprendizado.
Agrega famílias. Grande parte delas convive junta e acompanha o crescimento dos seus filhos. Não é o que acontece no mais famoso esporte nacional, a disputa nas peladas.
Na vida, é tudo muito lindo, envolvente desde a nossa infância.  Atravessamos a juventude, vibramos com a segunda idade, mas quer o destino, amadurecemos implacavelmente.  Quer sim, quer não, atingimos a terceira idade, envelhecemos.
Envelhecemos, mas trazemos toda uma bagagem produtiva. Alguns se despediram deixando recordações e muitas lembranças. Muitas tristezas também. Tristezas que são veladas pelas passagens alegres, fazendo-nos mitigar as sofridas. Tristezas que tentamos apagar  procurando encontrar novas paragens, novos amigos.
        Entre eles encontrei você,  Mário Augusto Machado Pinto. Fui premiado porque sou aprendiz da sua cultura. Você é uma expressiva figura, que está junto a um aglomerado de estrelas, a plêiade do EscreViver, tendo no centro Ana Maria Maruggi a nossa monitora.

O Colecionador - Vera Lambiasi


O Colecionador
Vera Lambiasi


Julinho morava na curva da Estrada dos Monjolos.

Acentuada, com um despenhadeiro à esquerda, provocava derrapagens. Alguns acidentes graves, outros, só perda de peças.

Aí, divertia-se o menino, a juntar calotas.

De pais agricultores, gente simples, nem carro tinham. Ajeitavam-se com cavalos e carroças. Com tanta lama na roça, um automóvel passaria mais tempo atolado do que andando, desculpava-se Seu Nestor, o pai da família.

Julinho recolhia os círculos brilhantes, perdidos pelo caminho, e pendurava na parede do celeiro. Ali começava seu sonho de rodar o mundo.

Admirava-se nas abauladas de Fuscas, divertia-se com a cara nariguda refletida. As de Galaxie o deixavam mais esbelto. E uma única espelhada, de Porsche, fazia sua mente acelerar, imaginando-se no próprio esportivo.

Garoto trabalhador, ajudava a família, de sol a sol, na lida do campo.

Respeitava os costumes da Vila Aguada, namorava uma vizinha, mas, sozinho, viajava em suas calotas. Mariazinha nem sequer entendia seus devaneios com aqueles discos.

Julinho gostava tanto de carros, que começou a ajudar na borracharia do posto de gasolina da rodovia, um pouco mais longe do sítio onde moravam. Fazia bicos, favores, atendia aos acidentados da curva. Não havia mais folga nos finais de semana, e foi juntando seu dinheirinho.

Com o tempo, as calotas já eram de plástico, foscas, não refletiam mais o rapazinho inocente. Júlio tornara-se o dono da loja de autopeças da cidade. Tinha seu automóvel 4X4, para as visitas aos pais no embarreado bairro, onde negavam-se a deixar. Lá, conservava as primeiras calotas colecionadas no velho celeiro. E Mariazinha, moradora da chácara ao lado.

Dividido entre os dois mundos, queria o melhor de cada um. Ansiava por Maria, ver seu pai bem de vida, a firma prosperar, montar casa, conhecer o mundo.
E devagar, foi cumprindo suas metas.

Pediu a amada em casamento, arrumou a estrada de chão, reformou a casa do sítio, fez lá a festa.

Comprou a casa do sogro, fez um puxadinho, ficaram naquelas bandas, entre os parentes.

A loja virou sede, de uma porção de filiais, pela redondeza.

E finalmente começaram a turistar por países estrangeiros.

Sua paixão, a Alemanha. E seus Porsches antigos, de calotas reluzentes.


Até conseguir comprar o seu, e colocar a peça que faltava.

Alegria de Viagem - Vera Lambiasi


Alegria de Viagem                                                                                      
Vera Lambiasi

Carlos saiu do Peru jovem, casado, e bem intencionado. Pretendia trabalhar e formar família em outras terras.
De infância feliz, em cidade pequena, seus antecedentes eram personagens de contos de Vargas Llosa. Tios envolvidos em política, mulherengos, contavam a Carlinhos histórias mirabolantes.
O menino sonhava ganhar mundos, ao chegar a Lima para cursar faculdade.
Estudou de maneira esperta, galanteou moças bonitas, e foi fisgado pela mais inteligente. Ela compreendia sua maneira ingênua de garoto de interior, combinada a uma íntima safadeza.
Malas prontas, casaram e vieram ao Brasil.
A viagem mais importante de suas vidas.
Aqui nasceu seu filho, perpetuação de suas alegrias.
Até que o inesperado passou a perna em Carlos.
Desta vez, sua esposa fez a viagem sozinha. Sem perguntar, partiu, e deixou-o sem respostas.
Carlos continua sua peregrinação, entre Peru e Brasil.
De alma infantil, por vezes safada, encanta a todos.
Desses amigos que basta um olhar, para cairmos na risada.
Vai, Carlinhos, enterrar mais um tio peruano, mas volta logo.


A PROCURA DA SABEDORIA - Carlos Cedano


A PROCURA DA SABEDORIA
Carlos Cedano

Após  mais de quarenta anos longe de Taife sua cidade, Abdul Samir voltava pra ela. Sentia-se feliz, mas algo ainda estava faltando. Uma breve retrospectiva de sua vida durante esses quarenta anos de exilio voluntário, tinha-lhe dado certeza de ter encontrado algumas respostas para o que tinha sido a meta principal dessa longa peregrinação. Pensando bem - disse pra sim mesmo - talvez as respostas estivessem mais perto do que imaginava.

Abdul conheceu uma grande parte do Império Islâmico do Século X, também a conturbada Palestina, o Egito, a Mesopotâmia e lugares históricos como a antiga Babilónia e Nínive entre outras. Parte da  caminhada  fez pelos desertos do Saara e da Península Arábica. Atravessou rios e conheceu lugares dos quais nunca tinha escutado falar. Pode observar e comparar  particularidades dos diferentes povos e raças que coexistiam nesse lado do mundo. Sabia que estava acumulando  vasto conhecimento, rico e variado, e sentia que isso preenchia parte de seu desejo principal.

As experiências mais impactantes foram os inúmeros contatos com pessoas de diferentes níveis de educação, de posses, de posição social e política e, principalmente com pessoas religiosas. Entretanto os mais fascinantes de seus encontros foram com os ermitões considerados santos, com os quais conversou muito. Foi através deles que Abdul conseguiu perceber aspectos desconhecidos da natureza humana, isto é, de sua própria natureza.

Todas as conversas de Abdul tinham como foco seu grande objetivo: Sabedoria: Como atingi-la, e como transmiti-la.   À medida que o tempo ia passando, reparou que suas indagações começavam a configurar um caminho para atingi-la. Mas, algo faltava ainda. Algo não estava claro.

Chegando a Taife constatou que, assim como a Meca e Latibe, ela continuava sendo um centro poderoso, pois as três estavam situadas na rota de passagem das caravanas que se dirigiam para os principais centros de comercio do Mediterrâneo e do Egito.

Na sua cidade, como já imaginava, não foi reconhecido por ninguém. Logo saiu a procura de um lugar afastado da cidade e não muito longe das rotas de comercio que se dirigiam ou passavam por Taife.

Encontrou uma pequena colina com uma caverna de calcário, abandonada,   que atendia suas necessidades. Ali se instalou. Aos poucos curiosos foram se achegando para saber quem era e qual seu ofício, e se não tinha medo de sua vida solitária. Respondia a todos com simplicidade e simpatia. Aproveitava esses encontros pra trocar conhecimentos e opiniões sobre diversos assuntos. Porem, o que verdadeiramente entusiasmava as pessoas era escuta-lo falar sobre os segredos da vida e do destino. Aos poucos foi sendo conhecido por maior número de pessoas e começaram a chama-lo do sábio da colina. Não aceitava dinheiro nem presentes apenas o necessário para uma alimentação frugal.

Passou mais de um ano e os comentários sobre sua pessoa chegaram cada vez mais perto dos ouvidos das autoridades religiosas. Por isso, Abdul não se surpreendeu quando um dia apareceram em sua caverna três Mulás considerados os mais versados na religião islâmica.

Os três religiosos educadamente interrogaram Abdul sobre seu conhecimento do Corão. Ele respondeu todas as perguntas surpreendendo os Mulás pela precisão de detalhes das respostas. Aos poucos o ambiente, que nunca deixou de ser respeitoso, foi se descontraindo e até certa familiaridade se instalou entre eles. Passaram-se algumas horas e quando os religiosos se dispunham a partir Abdul lançou uma pergunta:

 - Os senhores poderiam dizer-me o que caracteriza um homem sábio?

A pergunta além de surpreendê-los, os desorientou. Entreolharam-se e um deles tratou de elaborar uma resposta:

 - Ah! Trata-se de pessoa que por seus estudos possui conhecimentos profundos sobre alguma coisa ou tema.

 - E a experiência e a sensibilidade não contam?  Instigou-os Abdul com um suave sorriso.

 - A experiência como? Perguntou o segundo Mulá.

 - A experiência é conhecimento acumulado e refletido ao longo dos anos de vida. Por isso, a qualidade do conhecimento dos mais velhos é mais nuançada e integrada. Este caminho leva tempo até que a pessoa chegue a conclusões e pontos de vista adequados com base a seu conhecimento adquirido. É um processo continuo de reflexão.

- E quanto à sensibilidade?  Completou o terceiro Mulá.

 - É uma característica intrínseca da sabedoria mais precisa desabrochar. Somente atingimos a sabedoria plena quando usamos nossa experiência para entender e ajudar os outros. A sabedoria permite diminuir o caráter autocentrado das pessoas e lhes permite olhar para o próximo.

Se me permitem concluir, pode-se dizer que a sabedoria tem três aspectos que tendem a convergir ao longo da vida: conhecimento, reflexão e compaixão.

O Mulá mais velho disse:

Na Pérsia é venerada a deusa Kitsa deusa da sabedoria, ela no diz que Sabedoria está dentro de todo ser humano, mais que é necessário faze-la emergir.

- Certo! -  disse Abdul.

Os Mulás agradeceram efusivamente a conversa e manifestaram que desejavam continuar o diálogo. Pareciam sinceros e felizes com a possibilidade de novos encontros. E foram muitos e frutíferos, com o tempo os quatro já estavam no caminho que leva à Sabedoria.  


A paixão desastrada - Luisa Helena Rodrigues Alves



A paixão desastrada     
Luisa Helena Rodrigues Alves

A paixão de Marília por Ernesto era evidente, ele era o homem de sua vida! Ela com 18 ele com 20 anos, estavam no auge do enamoramento. Ernesto era audacioso, sedutor, paquerador, tudo que a amedrontava e ao mesmo tempo encantava. Assim, namoraram uns meses. Ernesto mandava flores a cada aniversário de namoro, acompanhadas de uma poesia.

Certo dia, as flores e as poesias começaram a rarear... Ernesto, às vezes se atrasava para o encontro: estava jogando bola, estava na reunião do clube, estava no escritório. Marília não era ciumenta, pois se sentia a mulher mais importante do mundo! A musa inspiradora! Um dia, por acaso, encontrou uma amiga que tinha visto Ernesto com uma colega de escritório.

Marília até conhecia Amanda, já há algum tempo. E desde o começo isso não lhe cheirava bem. Perdia o sono, às vezes embotada nos pensamentos traiçoeiros. Roía as unhas de ciúmes, mas não se entregava. Até que resolveu investigar. 

Pressionado Ernesto negou. E negou até o último instante. Jurou até! Mas, como se sabe, esposa desconfiada investiga mais que a CIA. E um dia flagrou seu homem num barzinho em um Happy hour, para não dizer "bad hour",  com a tal Amanda. O céu veio abaixo! Ela não era mulher de aceitar desaforos. E sem lutar pediu a separação. Imaginava talvez que ele reconsiderasse e voltasse arrependido. Mas, não. Ernesto concedeu rapidinho o divórcio. Era o fim!

Desolada, Marília foi encontrar refúgio nos calorosos braços do amigo Jurandir. Na verdade não era o melhor refúgio para ela, pois o coitado andava tristonho, decepcionado com a ex- Amanda. Mas, insistiram, e o tempo remediou tudo.

O destino tratou de separar de vez os quatro. Jurandir nunca mais viu Amanda, e Marília nunca mais soube de Ernesto. "Águas passadas não movem moinhos", pensava Marília. Construíra com Jurandir um amor baseado na compreensão e respeito mútuos. Compartilhavam tudo com frequentes diálogos e muitas alegrias. Tiveram um filho, que no momento fazia um curso de inglês em Londres.

Qual não foi a surpresa quando souberam que o filho estava namorando uma brasileira. Daí a 2 anos o filho volta já noivo, o casamento marcado.

E o destino tratou de trazer à tona o passado do casal Jurandir e Marília...

No altar encontraram-se com Ernesto e Amanda, pais da moça.

Seria uma peça do destino?

Ou Deus é tricoteiro, como dizem alguns!

Para bem dos filhos tiveram que aprender a conviver de alguma forma...

Ah! Esqueci-me de contar que Ernesto estava  no seu terceiro casamento e, continuava sedutor e paquerador como sempre.

UM INTRIGANTE SÁBIO - Oswaldo Romano





UM INTRIGANTE SÁBIO
      Oswaldo Romano                    
                                                                     
Minha versão da história do sábio Rajnaleesh. Tinha tudo para ser um alto membro do Califado. Sua personalidade impunha-se pela cultura, porte físico, cabelos longos, uma cara boa. Um personagem impar, vivendo na Arábia onde comercializava tapetes da região do Afeganistão.

 Alcançava sucesso nas vendas, embora não fosse o que mais queria. Pela sua cidade transitavam os mais estranhos viajantes, peregrinos queimados do sol, todos muito confiantes em si. Suas calças morriam dentro de resistentes botas feitas com couro cru, conservadas e lustradas com sebo de camelos.

Rajnaleesh via-se também cada vez mais com o pé na estrada, um desejo antigo. Nasceu para ser um peregrino. Imaginava agarrar um daqueles tapetes e voar pelas planícies. Considerava-se diante daquele povo da feira um intrigante versado.
         
Um dia resolveu sair, peregrinar e de conversa, só ouvir sua própria voz.  Pensava sempre nos fabulosos falcões, as aves inteligentes da região, de quem queria ser amigo, domesticando uma.

Cruzava cidades para se abastecer do imprescindível, tinha pressa e delas logo partir. Desta vez atravessando Medina, na Arábia Saudita presenciou um mercado onde a principal mercadoria eram os camelos. Ao deixa-la viu-se acompanhado de outro forasteiro que logo queria mostrar sua sabedoria, originando uma disputa de conhecimentos. Samir era seu nome. Também amante de camelos, dizia ter deixado uma faculdade de muçulmanos, onde lecionava, para entender melhor esse animal.

Rajnaleesh resolveu contar-lhe como usando sua inteligência, ganhou um camelo. Descrevendo o ocorrido, desafiou a sabedoria do professor para que desse a solução:

Foi assim. — Um dono de uma cáfila tinha 17 camelos, e deixou três filhos quando morreu. Aberto seu testamento, dizia que metade dos camelos ficaria para o filho mais velho. Um terço para o segundo e um nono para o terceiro. Eram 17, dar metade ao mais velho seria oito e meio. Ao segundo também impossível dar um terço, pois seria cinco e pouco mais que meio. Ao terceiro, um nono daria 1,8 de camelo.

 Você um mestre, mestre dos mestres, dê-me a solução.  Como foi resolvido?

   — Rajnaleesh, - disse Samir, sem matar um camelo vejo que é impossível a divisão.

   — Não é não Samir. Eu resolvi: Pedi aos três que comprassem mais um camelo. Ficaram 18 que: 50% para o primeiro ganhou mais do que o cálculo anterior, ficou com 9 animais; 1/3 de 18 para o segundo, também, aumentou para 6; e 1/9 de 18 para o terceiro, aumentou para 2. Assim receberam mais, sem matar nenhum animal.

     — Espere, espere. Você esta errado! Estou somando aqui: 9+6+2 dá 17 camelos!

— Então, falei para você que ganhei um!

O DISCURSO DO REI - Oswaldo Romano





O DISCURSO DO REI
Oswaldo Romano                                                                           

                   O herege, mor da confiança do Rei, postando-se no balcão do palácio, empunhando com arrogância um ímpio bastão     , espera o final das notas das trombetas. Assim que elas silenciam dá três fortes batidas com seu aparato nas tábuas do assoalho, e pomposamente anuncia:

         — Sua majestade o Rei. Vibram as trombetas. Viva o nosso Rei! Viva o Rei presente e para sempre.

A multidão entusiasmada com o espetáculo aplaude e faz um barulho comovente.
         As trombetas quebram o entusiasmo, e o Rei com seu manto arrastante de cores vivas, camisa bufante e exibindo seu vistoso cetro, impõem-se sob forte ovação. 

Saudando seu povo, é cortado constantemente por gritos de guerra e aplausos.

         — Súditos! Meus Súditos! Ouçam em silêncio. A lei me favorece torná-los obrigados a atender as ordens da minha corte. Mas não farei isso porque, como verdadeiros servos do Império Romano, atenderão voluntariamente minha convocação.

         Numa só voz ouviam-se urros, gritos, braços em riste, punhos fechados: Ao Rei, ao Rei, ao Rei.

         — Tenho certeza, não o fazem por respeito às chibatas.

         Para esta nova guerra, não tenho nada a oferecer, senão meu sangue, árduo empenho, suor e lágrimas pelas perdas. Quero ser seu Rei vencedor. Responsável na paz como tenho sido, e na guerra, um guerreiro sempre ao seu lado.

         Quero que meu discurso seja a primeira e poderosa arma para não aceitar recusas ou derrotas, mas para encher-lhes de orgulho derrotando o nosso inimigo.

         Sei que todos vocês amam nossa pátria, como eu a amo. Mas estou azoinado porque sozinho nada poderei fazer. Sou uma sombra que o destino me projetou e cai aqui. E vocês um mar de heróis predestinados à guerra. Com amor e bravura defendem nosso reinado. Só a união faz a força. Quero que se unam porque, os que se recusarem serão mortos pelo inimigo que certamente cairá na nossa armadilha.

         Todos nós temos um sonho. Nosso sonho é que nossos filhos cresçam orgulhosos de seus pais. Viverão em uma nação cujos homens serão considerados, estejam vivos ou mortos, heróis que darão ou deram suas vidas, defendendo a família, a nossa terra. Meu valente povo. Os verdadeiros donos desta cidade são vocês.

         Pegaremos em nossas armas. Vamos defender o imbatível Império Romano. Mesmo sendo todos meus vassalos, minha corte dispensa os enfraquecidos.

 Retirem-se já. Que desocupem esta praça. Este não é lugar para covardes.

         Reconhecida é a valentia do povo Romano. Glorifico ao ver que muitos idosos não se amedrontam.  Estou convicto de que nossos jovens saberão honrar o sangue que corre em suas veias, porque ele também é o sangue do meu sangue.

         Com ele, neste momento, honrando lhes asseguro cortando minha própria carne. Pinto minha espada com sangue, a prova do meu juramento de lutarmos juntos. Conclamo todos para a mais sagrada glória. A gloria da vitória.


         — Viva o Rei! Viva Roma! - Romanos, peguem suas armas. Com Catão na frente, venceremos esta guerra púnica. CARTAGO DEVE SER DESTRUÍDA.