O amigo diferente - Ledice Pereira




O amigo diferente

Ledice Pereira

 

As férias prometiam. As crianças estavam felizes porque ninguém estaria fora da cidade e poderiam brincar à vontade todos os dias.

A vila tinha um portão na entrada que permanecia fechado. Havia uma sequência de casas inabitadas que haviam acabado de ser construídas e aguardavam apenas liberação da prefeitura para moradia.

Combinaram que se encontrariam todos os dias depois do café e brincariam o dia todo com intervalo para o almoço.

Os pais ficavam sossegados. Ali não havia nenhum perigo.

Das casas, as mães podiam ouvir a gritaria feliz da criançada. Não sabiam, entretanto, que os pequenos resolveram examinar as novas casas e usá-las para a brincadeira de esconde-esconde.

Havia entre eles um garoto que se mudara para ali há pouco tempo e que era um pouco diferente da turma. Era quieto, ficava observando as brincadeiras, nem sempre fazendo parte de algumas delas. Chamava-se Wesley e tinha acabado de completar onze anos. Tinha uma estatura um pouco maior do que os demais e parecia não conseguir se enturmar, apesar dos esforços daquela turminha alegre.

De tanto insistirem resolveu participar da brincadeira. Escondeu-se numa das casas, aproveitando para exercer alguns estranhos poderes que havia descoberto, há pouco tempo, ser portador: conseguia abrir e fechar portas e janelas só com o movimento dos olhos e já tinha experimentado elevar-se até quase o teto só com a força do pensamento.

Ao mesmo tempo que ficava assustado com esses poderes, achava-se o máximo.

Ficara com medo de comentar com a família que o acharia louco e o levaria para uma consulta. Detestava médicos.

Guardava esse segredo consigo mesmo, a sete chaves, o que o tornava mais calado e agoniado.

Numa das vezes que usou uma das casas para se esconder, conseguiu permanecer quase grudado ao teto e ninguém o achou. Procuraram por toda a casa que ele procurou deixar com a porta aberta e nada.

De repente, o viram sair da casa, belo e faceiro.

As crianças, quando ele foi embora, resolveram se reunir e discutir o jeito esquisito de Wesley. Ninguém entendia onde ele se enfiara que não havia sido descoberto. A casa não tinha armários nem nada. E eles tinham vasculhado tudo. Começaram a prestar mais atenção no garoto. Principalmente, as meninas queriam descobrir o que havia de diferente no novo morador da vila.

Na semana seguinte, elas procuraram segui-lo sem que ele pudesse perceber. Pela janela, viram quando Wesley elevou o corpo até o teto com muita facilidade. Não conseguiram abrir a porta de entrada, rodearam a casa e entraram pela cozinha, pé ante pé, até chegar à sala onde o menino se encontrava.

Ao vê-las, ele caiu estatelado no chão e começou a chorar copiosamente. As meninas tentaram consolá-lo e o ajudaram a ter coragem de contar para a família.

Não só o convenceram de que a família faria tudo para ajudá-lo, como se propuseram a ir junto com ele para encorajá-lo a contar.

O garoto foi objeto de estudo da equipe de psicólogos e psiquiatras do Hospital das Clínicas de São Paulo, que não conseguiu descobrir a causa desses poderes, mas o ajudaram a conviver com eles.

Esse segredo uniu mais ainda a criançada da vila que passou a admirar e ficar cada vez mais amigo de Wesley.

Isso foi fundamental para que o menino e sua família aceitassem melhor seus superpoderes, aprendendo a conviver com eles sem trazer aquele mal-estar que antes o afastava de todos.

 

 

 

 


DIA DOS PAIS – MEMÓRIA - Oswaldo U. Lopes

 



DIA DOS PAIS – MEMÓRIA

Oswaldo U. Lopes

 


       João Pedro chegou cedo ao cemitério. Era domingo e dia dos pais, talvez por isso já tivesse gente por lá. Ainda não era muita gente, como seria mais tarde. Cada um ou cada uma tinha seus motivos para essa visita quase ao raiar do dia.

       João Pedro, que, pelo nome, se via ser nascido na segunda quinzena de junho de um ano que ainda começava com um e nove, tentava não misturar as coisas. Em sua própria casa, mais tarde, haveria almoço especial e gente, muita gente iria aparecer, afinal, ele era o pai vivo mais antigo do conjunto.

       Começou a procurar pelo túmulo, vinha pouco, mas se viesse todo dia continuaria a procurar sem achar o local em que estavam enterrados, seu pai, sua mãe e irmãos mais velhos. Sempre achava que as referências eram vastas e delas ele lembrava bem. Aquela sepultura com o Cristo glorioso em cima, aquela com a mulher chorando, a do anjo a tocar trombeta e assim ia.

A motivação era própria dele. As pessoas que ali estavam não iriam a lugar algum, lá estavam e lá ficariam à disposição dos visitantes, dia (no horário de funcionamento do cemitério) e noite (se você tivesse coragem e o muro fosse baixo).

João Pedro queria homenagear e orar em memória de seu pai, mas queria evitar que isso contaminasse a festa do dia para os que estavam vivos. Afinal, ia ter crianças, adolescentes e até recém-nascidos. Se você envelhece, é certo de que terá muitos parentes, e ele começou a sorrir com perspectiva. Gostava muito de conversar, sobretudo com os de meia-idade que estavam lutando para abrir caminho, fortuna e posição.

Naquele conjunto, tinha mais advogados do que médicos como ele. Cirurgião nenhum. Mas, o que esperar, a cirurgia que ele praticara nem mais existia. Ana Luiza, a mais velha na profissão, era consideradíssima no manejo do robô Da Vinci e fazia milagres sem sequer tocar nos pacientes. Num mundo em que a ética ganhara outros tons, até operara a distância através de robôs mais simples e médicos mais jovens.

Podia-se falar da medicina, como no samba do Chico Buarque:

Quem te viu, quem te vê.

Quem não a conhece não pode mais ver para crer.

Quem jamais esquece não pode reconhecer.

Com os advogados, a conversa era mais rebuscada. Afinal, o direito era uma das pedras fundamentais das civilizações. Vinha um pouco antes do “pega para capar’. Embora acumulando erros e decisões mal fundamentadas, era não só necessário como imperativo. Que o diga o filho que já era desembargador.

       E assim vagavam seus pensamentos enquanto depositava o ramo de flores, que trazia nas mãos, no túmulo de seu pai, onde se lia.

Antônio Correia Pires de Almeida.

Curou alguns.

Aliviou outros.

Consolou a todos que o procuraram.

Os bons pais - Ises de Almeida Abrahamsohn

 


Os bons pais

Ises de Almeida Abrahamsohn 


Quais os atributos de um bom pai?

Um bom pai deve se comunicar com seu filho ou filha. Deve conversar, procurar entender os seus problemas e questionamentos, aconselhar e estabelecer limites. Ser um guia e apoiar o filho ou filha ao longo da vida, não importa a circunstância. Estimulá-los a alcançar objetivos e estar presente para consolá-los nas desilusões ou fracassos. Bons pais entendem que a sociedade e o mundo mudaram entre sua geração e a de seu filho, porém transmitem e reforçam as atitudes morais de respeito e convívio.

E como se criam bons pais? Bons pais e bons maridos são criados pelo exemplo e ações tanto dos pais como das mães. Casais que se respeitam, que têm convivência harmoniosa, que dividem as tarefas e que compartilham a educação dos filhos criarão bons pais e bons maridos.

Foi-se o tempo dos pais inacessíveis, alheios aos cuidados com os filhos. Cuidados que eram considerados tarefas da mãe, cabendo ao pai a tarefa de provedor material e eventual ministrador de reprimendas ou castigos.

A esperança é que as atuais gerações de pais atuem como bons pais para que nas gerações seguintes tenhamos pais mais amorosos e mais próximos dos seus filhos.

MEU PAI ANGELO - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

Errol Flynn


MEU PAI ANGELO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             Quando nasci, fazia seis meses que meu pai tinha perdido a mãe aos quarenta e seis anos. Ele era um homem que aprendeu a respeitar os pais e por isso sofria pela mãe, que era afetada por crises de asma, o que lhe provocava muita tosse e falta de ar, fragilizada. Calado, assistia ao seu pai, um homem do campo grosseiro e frio, enquanto sua mãe refinada e educada, ele totalmente indiferente ao sofrimento da esposa, minha avó Antonia.

             Por respeito ao pai, não se rebelava e nada falava, mas sofria calado. Após a morte dela, e minha mãe grávida e por ter já meu irmão de cinco anos, torcia para ser menina. Assim sendo, eu, ao nascer, já me registrou com o nome da mãe, Antonia. Demonstrou assim a sua homenagem à sua mãe. Nos anos de 1946, quando nasci, foi uma época de pós-Segunda Guerra Mundial. Pouco tempo após o término, resolveu, em 1049, sair da Itália e vir visitar o Brasil como turista. Tinha amigos que já moravam em São Paulo que o incentivaram a se instalar aqui, assim foi.

             Eu, com três aninhos, ao se despedir de nós, com a promessa de logo mandar passagens, não me lembro da despedida, lembro sim do dia em que chegamos dois anos depois, com cinco anos. Ao vê-lo alto, bem penteado com seu bigode, a Errol Flynn, ator americano famoso, com terno, naquela época os homens só andavam de terno. A sua emoção ao rever a família me marcou. Passamos a conviver e aprendi que não era de muito falar, a não ser quando tomava o seu vinho, aí sim a língua ficava solta, principalmente sobre política, totalmente contra o comunismo.

             Nunca batia nas nossas travessuras, quando nossa mãe se queixava era com o olhar que dizia muito, bastava um olhar e nos afundávamos na cadeira, quietinhos. Entre as várias turbulências da vida, foi um pai presente, muito trabalhador e a família era o seu orgulho. Sempre acolhia os amigos italianos que ia fazendo com os anos em nossa casa, principalmente aos domingos, com almoços longos terminando em cantoria.

             Morreu cedo, aos sessenta e quatro anos, feliz com os filhos formados e casados, chegando a conhecer os seis netos, que o adoravam e todos guardam boas lembranças de carinho e amor com seu jeito de pouco falar, todos sabiam que eram muito amados por ele.  Foi feliz também que teve a alegria de voltar várias vezes para Itália e, após aposentado, quando ia, ele e minha mãe ficavam dois meses só curtindo a sua cidade natal, Jesolo província de Venezia.

             Esse era o meu papa Angelo.

 

Assassinato no navio de cruzeiros - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Assassinato no navio de cruzeiros

Ises de Almeida Abrahamsohn

A partir de escrita coletiva dos participantes do “Escreviver” : Suzana Lima, Oswaldo Lopes, Yara Mourão, Ledice Pereira e Ises  A.A.


O navio de cruzeiros Ocean King levantou âncora pela manhã do porto de Santos e agora seus passageiros se debruçavam nas amuradas para contemplar o Pão de Açúcar e o esplêndido pôr do sol na baía de Guanabara. As primeiras tímidas conversas aconteciam entre os viajantes.

Logo mais, à hora do jantar, os viajantes se acomodaram, sorridentes, nos lugares previamente marcados, prontos a apreciar as especialidades do chef francês. Entretanto, em uma das mesas causou alguma estranheza um lugar que permaneceu vago à mesa. Talvez algum passageiro que cancelou à última hora ou indisposto. Logo a conversa à mesa tomou outro rumo e o fato foi esquecido.

O jantar foi acompanhado pela música suave de fundo executada num piano de cauda. Ao término do jantar, o pianista se apresentou no amplo bar contíguo e tocou algumas peças do repertório erudito demonstrando seu talento. Edgar falava português perfeitamente com um leve sotaque, talvez da região dos Balcãs. Era natural da Sérvia, porém se naturalizara brasileiro.

 Edgar Todorovic atendeu a alguns pedidos dos presentes. Após sua performance, parou por uns minutos junto ao balcão do bar e tomou uma dose de vodka, trocando algumas palavras com o barman. Em seguida, visivelmente cansado, o pianista se retirou do salão.

Cerca de uma hora mais tarde os passageiros, que agora tinham se espalhado pelos outros bares e salões do navio, notaram uma agitação inusitada dos garçons e demais empregados com conversas entrecortadas por exclamações de espanto e preocupação.  

Logo fez se ouvir um comunicado do comandante:

 

Nosso pianista Edgard faleceu de causas desconhecidas ao retornar à sua cabine após a apresentação do seu show”.  Solicita-se aos passageiros que se recolham às suas respectivas acomodações. Estão encerradas as atividades previstas para a noite”.

 

O teor da mensagem sugeria que a morte não acontecera por circunstâncias naturais.

De fato, o pianista foi encontrado morto por um colega que estranhou não haver resposta ao bater na porta da cabine que não estava trancada. Ao primeiro exame a profunda marca no pescoço indicava que tinha sido asfixiado por um fino cordão de nylon. O assassino provavelmente o esperara já na cabine atacando de surpresa. Não havia sinais de luta visíveis. Os documentos da vítima indicavam que Edgar era de fato sérvio tendo se naturalizado brasileiro há 15 anos. Tinha atualmente 57 anos.

O navio já havia saído da baía da Guanabara, porém o capitão decidiu voltar quando acionada a Interpol devido à identidade sérvia do pianista.  Ele vivera na Sérvia até 1995 durante a cruenta Guerra da Bósnia entre 1992/95. Também foi apurado que era militar nessa época e tinha participado como oficial. Ao final da guerra, teria 27 ou 28 anos e tinha saído da Sérvia. A entrada no Brasil foi há 16 anos e ele declarou-se apátrida, requerendo depois a nacionalidade brasileira. No período entre 1995 e a entrada no Brasil em 2008, seus paradeiros eram um mistério. Parecia ter se evaporado. Porém, não havia mandados de busca contra ele ou acusações por eventuais crimes de guerra.

No porto carioca, na manhã seguinte, o corpo foi retirado para perícia no Instituto Médico-legal e o pessoal da perícia ligado à Interpol subiu a bordo para exame da cabine e interrogar os demais empregados do navio. Pouco conseguiram.

Um dos camareiros, Sven, um sueco morador em Natal, conhecia o pianista Edgar de outras viagens em navios de cruzeiro, mas pouco sabia de sua vida. Aliás, foi a pessoa que o encontrou morto na cabine. Jogavam xadrez para se distrair e tomavam alguns goles juntos, mas o camareiro não sabia nada da vida pregressa do pianista. Apenas que era muito reservado e falava várias línguas.  Aparentemente, não se interessava por mulheres, embora fosse cortês com as colegas. Um dos engenheiros da casa de máquinas também o conhecia e os dois, ao se encontrar, conversavam em alemão ou francês sobre assuntos como música ou escritores preferidos. Ao ser interrogado, o engenheiro Ferencz, húngaro, confirmou não conhecer nada sobre a vida pregressa do pianista, que desviava o assunto quando a conversa chegava próxima à sua vida pessoal. Os outros empregados tinham sido recém-contratados, porém uns três, entre eles o barman Louis, já tinham trabalhado em outros navios onde o pianista se apresentara e o conheciam de trocar algumas palavras.

       O pessoal da perícia não encontrou nenhuma pista na cabine que foi vasculhada em todos os cantos. Nem digitais, nem escritos particulares ou outros documentos, ou fotos do falecido que pudessem ser de maior interesse.  Apenas duas fotos foram encontradas de Edgar quando jovem, orgulhoso ao lado de um piano de concerto e de uma bela mulher que devia ser a mãe. Atrás das fotos estava escrito Conservatorium Novi-Sad Прва награда (pronuncia-se Prva nagrada) significando primeiro prêmio e a data, 1982. Os seguranças esmiuçaram a cabine inteira, atrás de digitais ou quaisquer pistas da identidade do assassino, ou assassina (embora não acreditassem que fosse mulher devido ao método do crime e ao porte de Edgard).

       O navio precisava seguir a viagem. Os policiais ficaram com a lista de passageiros e empregados para outras investigações em Santos e no porto de embarque da vítima.

       O detetive Marcos, da Polícia de Estrangeiros, carioca e ligado à Interpol, foi designado para o caso e depois das entrevistas no navio e pericia foi deslocado para Santos para aprofundar a investigação.

       Em Santos, chegou a uma pensão onde o pianista se hospedava em um quarto amplo com banheiro privativo nos períodos entre viagens. Costumava alugar um piano para ensaiar durante o dia. Era calmo, pontual nos pagamentos e embora cortês com outros moradores não estabeleceu nenhuma amizade. Por alguns períodos saia à noite para tocar, quando contratado por hotéis ou bares em Santos, ou no Guarujá.  Dona Eulália, dona da pensão, lamentou a perda de tão bom hóspede e das músicas que alegravam o seu dia a dia. Era de opinião que devia existir algum segredo na vida pregressa do Seu Edgar.

       Com as informações obtidas o detetive Marcos construiu um perfil da vítima.

       Tocava em bares e restaurantes e em navios de cruzeiro música pop internacional, principalmente. Tinha sido recentemente contratado para trabalhar no enorme navio de cruzeiro o “Ocean King”, que zarparia do porto de Santos. Falava um português correto às vezes mesclado de palavras em espanhol, porém com um leve sotaque. Era sérvio, fluente em inglês e alemão e também se virava no francês. Era um pianista popular dominando o repertório internacional de hits românticos dos compositores da primeira metade do século XX, americanos e franceses e improvisava bem no jazz e na bossa nova. Antes do Ocean King tinha sido contratado em outros navios de linhas importantes como a Norwegian, Costa e algumas que navegavam no Caribe.

       Seu horário de trabalho em navios era das oito da noite até a uma da manhã, com quatro intervalos de quinze minutos. Era metódico. Dona Eulália tinha observado como cuidava das mãos e aplicava um creme hidratante com massagens ao longo dos dedos. Afinal, dizia ele, são os meus instrumentos para ganhar a vida...       Fazia diariamente séries de flexões de joelhos e exercícios com os braços para aliviar as tensões da posição ereta ao tocar o instrumento.

       O barman Louis contou ao inspetor os hábitos do pianista. Voltando dos intervalos ao palco ou restaurante, parava no bar ou encomendava ao garçom um copo de suco e um de água. Bebia o primeiro e o segundo costumava levar a uma pequena mesa ao lado da banqueta do piano. Jamais tomava bebida alcoólica durante o dia, ou antes e nos intervalos das apresentações. Apenas após terminar, de madrugada, bebia uma única dose de vodka gelada, de um só gole, à maneira dos escandinavos. Depois descia para sua cabine localizada nas entranhas do navio, no mesmo corredor das demais cabines destinadas aos empregados. Essa era a rotina que costumava adotar nas viagens de navio, com eventuais pequenos ajustes.

       Edgar era muito reticente sobre seu passado e suas origens. Era magro de estatura média, 1,73 metro de altura segundo os dados do passaporte; o smoking impecável o fazia parecer mais alto. Tinha cabelo liso escuro penteado para trás deixando a testa livre. O rosto tinha algo de oriental ou mongol pelos olhos escuros ligeiramente oblíquos e as maçãs do rosto altas. Esta era sua primeira viagem no Ocean King. Os carimbos no passaporte confirmavam as viagens anteriores nas embarcações de outras linhas.  

       O detetive Marcos verificou que quando Edgar se apresentou a bordo pediu ao imediato para ver a lista dos demais empregados sob o pretexto de verificar se haveria algum conhecido de viagens anteriores. Percorreu atentamente a extensa lista. Desde os maquinistas, comunicadores, até o pessoal da cozinha, os que trabalhavam nos restaurantes e bares, arrumadeiras e animadores, grupos de dança e atores. Enfim, a lista enorme de mais de duas centenas de empregados para atender alguns milhares de passageiros. Ao devolver a lista comentou que havia reconhecido um ou outro nome de companheiros de viagens anteriores. Outra lista que pediu para consultar foi a de passageiros, o que soou estranho ao imediato que recusou.

       O cruzeiro do Ocean King seria de 25 dias costeando o Brasil até Natal, de onde rumaria até o Senegal, na África e depois até Cádiz, na Espanha, seu destino final.

       Após zarparem Edgar ficou na cabine até a hora do almoço que foi servido aos empregados às 11:30. Voltou à cabine e por volta das 15 horas foi caminhar no convés superior e se exercitou na academia por uma hora. Depois tomou um café em um dos bares e encontrou seu colega Sven para uma partida de xadrez que durou cerca de hora e meia. Depois, Edgar começou a se aprontar para a função noturna. Tocou no restaurante principal desde as 20 horas até o final do jantar às onze horas e depois no amplo bar contíguo até uma da manhã. Essa tinha sido a determinação do coordenador de entretenimentos do navio e foi confirmada pelo barman quando interrogado ainda no Rio.  Todas as movimentações do pianista até se retirar à uma da manhã foram confirmadas.

       O detetive entrou em contato com os colegas da perícia do Rio para verificar se haviam encontrado algum outro indício que pudesse ser útil para identificação. Havia uma pegada no carpete de sapato masculino tamanho pequeno,40, que poderia ser do criminoso. Os fios de cabelo preto encontrados na cabine aguardavam análise, mas tudo indicava serem da vítima. Nada havia sido roubado da cabine, nem documentos ou passaporte, ou um relógio de pulso de marca valiosa encontrado em uma gaveta. O relógio que a vítima trazia no pulso era do tipo comum sem valor. Também não encontraram telefone celular e ninguém nunca o vira usar um.

Qual seria o motivo do crime? Marcos avaliou que  o crime estaria de alguma maneira ligado à vida anterior do pianista, mas quando?  Apostou que algum indício poderia vir das duas fotografias encontradas na cabine. Tinha entrado em contato com a Interpol na Sérvia e passado as fotos e as anotações do verso. Enquanto aguardava alguma informação, resolveu trabalhar na lista de passageiros embarcados em Santos e na lista dos empregados no navio. Era um trabalho tedioso, mas mais rápido com o uso do computador. Dispunha dos nomes de todos além da nacionalidade e número dos passaportes. O assassino provavelmente era do sexo masculino devido à natureza do crime, que requeria passar o fio estrangulador com muita força e rapidez de modo a bloquear a reação imediata da vítima.

Marcos era metódico. Primeiro, percorreu a lista de empregados que era menor, cerca de trezentos. Considerando que o crime estava possivelmente relacionado a algum acontecimento. Concentrou-se nos empregados de nacionalidade ou naturalidade estrangeira. Havia cerca de trinta homens nesta situação, entre os quais aqueles que já conhecia Sven, Ferencz e o barman argelino Louis. Enviou para as sedes da Interpol em Lyon na França e em Washington, os dados para verificar se havia alguma informação registrada sobre os empregados estrangeiros.

No dia seguinte obteve respostas negativas de ambas as agências.  Marcos estava ansioso pelas respostas do escritório da Interpol da Sérvia. Passou mais uma vez na pensão de Dona Eulália para verificar se conseguia alguma outra informação ou se algum conhecido da vítima tivesse aparecido ou ligado, mas nada havia de novo. Era hora de almoço e o detetive resolveu espairecer, almoçando num dos bons restaurantes de peixe da ponta da praia.

Ao voltar para o hotel encontrou as respostas da Sérvia. Bingo... Acertei. O sujeito tinha mesmo com que se preocupar. O pianista Edgar era, na verdade, Borislav Yesensky. As fotos tinham sido tiradas quando recebera um prêmio no Conservatório aos quinze anos. Aos dezoito anos terminara os estudos de piano e tentara sem sucesso um emprego nas escolas ou conservatórios das cidades próximas. Teve que fazer serviço militar e acabou permanecendo na ativa. Foi promovido a oficial. Nessa altura, a biografia se tornava interessante.

 Como militar participou na Guerra da Bósnia durante os três anos de duração. Comandava grupos que invadiram Srebrenica em 1995 e que participaram do massacre de milhares de pessoas, a maioria muçulmana. Com o final da guerra em 1995 e com muitos dos seus colegas de farda acusados por crimes de guerra, Borislav sumiu de casa e do mapa. Não deu baixa no exército e nem se despediu da mãe e da irmã. Ambas já haviam falecido.

Marcos pensou que talvez   o assassinato do pianista, agora identificado como Borislav, fosse devido à sua ação na guerra, embora quase trinta anos houvessem se passado.  Voltou imediatamente ao computador para esmiuçar a gigantesca lista de passageiros. A estratégia seria procurar por homens que tivessem nomes ou sobrenomes oriundos do Levante, ou da antiga Iugoslávia, possivelmente muçulmanos. A busca identificou cerca de duzentos com sobrenomes oriundos de países do Oriente Médio, Turquia, Síria, Líbano. Ainda era muita gente. A maioria era de brasileiros descendentes de imigrantes que desde o início do século passado vinham se estabelecer no norte e no sudeste. Descartados os brasileiros, sobraram apenas oito nomes. Eram provenientes dos Emirados Árabes, da Arábia Saudita e do Egito e viajavam com esposa ou família. Entretanto, um nome entre os oito chamou a atenção de Marcos. Aleksander M. Zaric -Radíc. Um sobrenome iugoslavo. Quando Marcos olhou o passaporte, tinha quase certeza de que achara o assassino. A inicial do meio M. correspondia a Mohamed, indicando a religião muçulmana do passageiro Alexander. Entrou em contato com o navio que havia deixado o porto de Salvador no dia anterior. Confirmou que o passageiro ocupava uma das cabines interiores e que recusara os serviços de limpeza da camareira desde o dia em que zarparam. Não fora visto andando no convés, mas tinha comparecido às refeições.

Marcos ligou para o barman. Marcos havia estabelecido um bom contato com Louis e acertara com ele que ficasse de olho nos passageiros. Louis lembrou de um passageiro que destoava dos outros. Era um homem de estatura média, atarracado que parecia nervoso e deslocado. Chegou atrasado para o jantar, pedindo desculpas. Ocupou o lugar designado, mas ficou ali, meio à parte, constrangido sem participar da conversa. Jantou rapidamente, não quis vinho, nem sobremesa. Parecia estar com pressa. Pediu licença, e saiu para o convés quase vazio àquela hora. Porém, Louis o viu voltar ao salão de refeições e se instalar numa das mesas ao fundo do bar. Estava ali isolado com um café à sua frente quando o pianista chegou para tocar. O barman observou que o sujeito não pediu nenhuma bebida e permaneceu lá na penumbra. Mas Louis não sabia dizer quanto tempo ou se o tal sujeito encontrara alguém. Apenas notou que, ao avisar o fechamento do bar para os últimos pedidos, a mesa estava vazia.

O detetive tinha agora quase certeza de que o tal Aleksander era o assassino. Entrou em contato com o imediato. Era necessário verificar se o passageiro de nome Aleksander Zaric-Radíc se encontrava no navio e no dia seguinte, ao aportar em Recife, sem alarde, policiais da polícia federal o levariam para interrogatório na Central da polícia de estrangeiros.

No Recife, os dois policiais em vão bateram à porta da cabine. Ao ser aberta, encontraram apenas a cama desarrumada e uma mala barata vazia. Sobre a cama, um envelope de papel pardo amassado com uma carta de duas páginas endereçada à polícia escrita em inglês básico, mas suficientemente esclarecedora.

Na carta, revelava que havia matado o pianista cujo nome verdadeiro era Borislav Yesensky. Não queria que outra pessoa levasse a culpa pelo ato. O pianista era um criminoso de guerra e comandara e matara centenas de pessoas na sua vila em Srebrenica. Borislav pessoalmente fuzilara todos os membros de sua família, sua mulher, seus dois filhos e seu irmão mais novo. Só ele, Aleksander escapara por não estar em casa. Quando ocorreu o cessar-fogo enterrou seus mortos e abandonou a casa destruída. Conseguiu saber de alguns vizinhos a identidade do militar assassino que também comandara massacres em outras vilas. Sabia que o assassino estava foragido e também que tinha sido pianista quando jovem.   Aleksander jurou que iria matar o assassino de sua família. Relata que trabalhou como pedreiro em vários países da Europa, sempre tentando encontrar pistas do criminoso sérvio e ex-pianista Borislav Yesensky. Dele tinha em mãos uma fotografia antiga com os companheiros d

e caserna. Vasculhou jornais procurando pianistas em casas noturnas e teatros. Até contratou um serviço de procura de desaparecidos.  Conta que em 2017, quando trabalhava na Bélgica, viu num jornal um anúncio de turismo de um navio norueguês que, entre as atrações, mencionava a apresentação de um “famoso” pianista sérvio.  Foi atrás do citado pianista em Oslo e descobriu junto à companhia de navegação que se tratava mesmo do assassino Borislav; usava o nome de Edgar Todorovic, e tinha adquirido a nacionalidade brasileira. Atuava normalmente nas linhas de cruzeiro no Caribe e nas Américas, mas tinha sido chamado para substituir nessa viagem o pianista regular que adoecera. O navio estava em cruzeiro. Aleksander esperou até que aportasse e reconheceu Borislav entre os tripulantes que desciam a escada e caminhavam na direção do prédio de controle da alfândega. Apesar de envelhecido, Aleksander reconheceu-o imediatamente. Gritou: Borislav, Borislav. Este, surpreendido involuntariamente, virou-se ao ouvir o nome, parou e, largando a bagagem, saiu correndo entre os edifícios do porto. Aleksander não conseguiu alcançá-lo nem o encontrar em Oslo. Depois de muito insistir, conseguiu saber que o pianista havia embarcado após uma semana num navio da companhia que rumava de volta ao Brasil. Aleksander trabalhou ainda na Europa para juntar dinheiro para as despesas de viagem. Finalmente, em 2023, conseguiu viajar para o Brasil. Em Santos, localizou o navio onde o pianista iria atuar. Achar o endereço de moradia de Borislav/Edgar na cidade foi impossível. Aleksander conseguiu comprar uma cabine interna no Ocean King. Tinha tudo planejado. Como descreve na carta, usaria um fio de nylon resistente que preparou, prendendo cada ponta a uma empunhadura de madeira. Precisava surpreender e não permitir barulho ou resistência. Ficaria na cabine até o próximo porto em Salvador e escaparia em meio aos passageiros do cruzeiro. Já tinha comprado os bilhetes dos voos que o levariam a Recife e de lá para Amsterdam e depois para algum lugar onde não pudesse ser encontrado. Queria viver os anos que lhe caberiam em paz. Finalizava assim a carta.

O detetive Marcos comunicou o conteúdo da carta aos superiores. Os contatos com o aeroporto internacional de Recife revelaram que Aleksander de fato já embarcara para Amsterdam na noite anterior. A questão era se iriam dar prosseguimento à procura de Aleksander Zaric -Radíc. O grupo da Interpol do Rio decidiu não prosseguir com a investigação. O caso tinha sido elucidado e o Marcos pessoalmente considerou que o melhor era deixar o bósnio viver em paz os anos que lhe restavam.

 

 

 

O caso do duende - Maria Verônica Azevedo

 



O caso do duende

Maria Verônica Azevedo

 

Ao ler a proposta de hoje, eu me lembrei de uma canção de quando eu era criança.

       “Um dia, uma criança me falou, olhando nos meus olhos a sorrir: o que é preciso para ser feliz?”

Desde então, fico me perguntando se as crianças, na sua ingenuidade, não têm uma sabedoria, que as leva a serem otimistas.

Na minha rua, moram crianças de várias idades, que costumam brincar na pracinha, onde podem inventar as brincadeiras livremente.

Rafael, com sua imaginação fértil, lidera o grupo.

Na praça onde costumava brincar, tem uma casa que parece abandonada, com poças de lama e bastante mato.

Rafael incentiva o grupo a pular o muro para investigar aquele quintal.

Vários aderem à ideia de Rafael e se propõem a segui-lo.

Já dentro do quintal, vão caminhando, pé ante pé, observando o espaço com certo receio do desconhecido.

À medida que avançam, vão se deparando com vários gatos.

No grupo, está Patrícia, que tem alergia a gatos. Logo tem uma reação e começa a se coçar, desesperada, chorando.

De repente, surge do meio da vegetação um duende gorducho, bastante agitado, que grita:

— Este bosque me pertence. Não admito invasores.

Com um gesto brusco, ele imobiliza as crianças.

Rafael enfrenta o duende gritando, tentando assustá-lo.

Pego de surpresa, o duende foge dali.

ESCREVENDO UMA HOMENAGEM AOS PAIS

 



Alguns grandes autores trabalharam poesias, contos, romances e filmes homenageando os pais. 


E você, o que escreveria 

para homenagear seu pai?



As Mãos do Meu Pai – Mário Quintana

“As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…”

 

 

Distinção – Carlos Drummond de Andrade

O Pai se escreve sempre com P grande
em letras de respeito e de tremor
se é Pai da gente. E Mãe, com M grande.
O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.
Com ela, sim, me entendo bem melhor:
Mãe é muito mais fácil de enganar.
(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

 

 

O pai -Pablo Neruda

Terra de semeadura inculta e brava,
terra que não tem estreitos nem sendas,
minha vida sob o sol treme e alarga.
Pai, os teus olhos doces nada podem,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as fontes.
O mal de amor cegou a minha vista
e nesta fonte doce do meu sonho
refletiu-se outra água estremecida.
Depois… Pergunta a Deus por que me deram
o que me deram e por que depois
soube da solidão de terra e céu.
Olha, minha juventude foi broto
puro que ficou sem abrir, perdeu
sua doçura de sangues e de sucos.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de beijá-la… E sendo outono,
Pai, os teus olhos na podem.
Escutarei na noite tuas palavras:
menino, meu menino…
e na noite imensa seguirei
com as minhas e as tuas chagas

 

Soneto ao pai – Edival Lourenço

Oh! Fluida infância! Pátria faz-de-conta!
Pobre de coisas com riqueza d’alma:
palhoça, vento, verde, aves e calma
para fruir a vida em toda monta.

Aquele ano choveu além da conta
e abriu-se um olho d’água em nossa casa
que meu pai ajudou, com fina vaza,
fazer o arroio: do Araguaia ponta.

Encanta-me o sentido que propala.
Maior riqueza, sei, ninguém encontra:
o nascente Araguaia nos escala.

A vida tem o rio a inspirá-la:
mereja, empoça, entorna, enfim desponta
promissora qual jorro de olho d’água!

 

A voz do meu pai – Manoel de Barros

Abro os olhos.
Não vejo mais meu pai.
Não ouço mais a voz de meu pai.
Estou só. Estou simples.
Não como essa poderosa
voz da terra
com que me estás chamando, pai —
porque as cores se misturam
em teu filho ainda
e a nudez e o despojamento
não se fizeram em seu canto;
mas, simples por só acreditar
que com meus passos incertos
eu governo a manhã
feito os bandos de andorinha
nas frondes do ingazeiro.

 

WILLIAM SHAKESPEARE- O BARDO - SONETOS - E CONTROVERSAS - LEITURA RECOMENDADA

 

WILLIAM SHAKESPEARE



William Shakespeare (1564-1516), além de ter sido um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, foi também um poeta lírico estupendo. Os seus sonetos, em especial, são até hoje paradigmas de excelência poética:


Sonnet XVIII

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimmed,

And every fair from fair sometime declines,

By chance, or nature’s changing course untrimmed:

But thy eternal summer shall not fade,

Nor lose possession of that fair thou ow’st,

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow’st,

…….. So long as men can breathe, or eyes can see,

…….. So long lives this, and this gives life to thee.


Soneto 18


Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais belo e mais ameno

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.

 

Às vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na terna mutação da natureza.

 

Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

 

Nestas linhas com o tempo crescerás.

E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.

 

Tradução de Bárbara Heliodora

Em: Poemas de amor, William Shakespeare, Tradução de Barbara Heliodora, Editora Ediouro:2001




Sonnet XXVI

Lord of my love, to whom in vassalage

Thy merit hath my duty strongly knit,

To thee I send this written embassage,

To witness duty, not to show my wit:

Duty so great, which wit so poor as mine

May make seem bare, in wanting words to show it,

But that I hope some good conceit of thine

In thy soul’s thought, all naked, will bestow it:

Till whatsoever star that guides my moving,

Points on me graciously with fair aspect,

And puts apparel on my tottered loving,

To show me worthy of thy sweet respect:

…….. Then may I dare to boast how I do love thee;

…….. Till then, not show my head where thou mayst prove me.


Soneto 26


Meu amado senhor, a quem sirvo submisso,
Cujo mérito, enfim, enlaçou meu intento,
Por escrito te envio este meu compromisso,
Atestando o dever, porém não meu talento.


Grandioso dever! Meu engenho conciso
Não consegue expressá-lo e ei-lo aqui: nu em pelo;
Mas espero que teu refinado juízo
Com alguma clareza consiga envolvê-lo.


Isso até que uma estrela qualquer com seu brilho
Me conduza p’ra perto de teu belo ser,
Adornando com fausto este amor maltrapilho


E mostrando-me digno de teu benquerer.
…….. Só então ousarei divulgar ter-te amado;
…….. Até lá, não me exponho p’ra não ser testado.



Sonnet XL

Take all my loves, my love, yea take them all;

What hast thou then more than thou hadst before?

No love, my love, that thou mayst true love call;

All mine was thine, before thou hadst this more.

Then, if for my love, thou my love receivest,

I cannot blame thee, for my love thou usest;

But yet be blam’d, if thou thy self deceivest

By wilful taste of what thyself refusest.

I do forgive thy robbery, gentle thief,

Although thou steal thee all my poverty:

And yet, love knows it is a greater grief

To bear love’s wrong, than hate’s known injury.

…….. Lascivious grace, in whom all ill well shows,

…….. Kill me with spites yet we must not be foes.



 

Soneto 40

 

Rouba, sim, meus amores, amor, eles todos,

O que acaso tens tu que não tinhas outrora?

Verdadeiros amores, nenhum, só engodos;

O que tenho era teu, e isso não é de agora.

 

Pelo amor que me tens meu amor me tomaste,

E de usar meu amor nunca posso culpar-te,

Entretanto te culpo, se tu te entregaste

Por capricho a quem sempre deixavas à parte.

 

Eu perdoo teu roubo, ladino gentil,

De ti mesmo furtaste esta minha pobreza;

Eis que o amor sempre soube que é muito mais vil

 

Suportar-lhe os enganos que a dor da crueza.

…….. Graça cúpida, fonte de males extremos,

…….. Com desprezo me mata, mas nunca lutemos.


 

A "CONSPIRAÇÃO" POR TRÁS DA AUTORIA DAS OBRAS DE WILLIAM SHAKESPEARE

Há séculos, estudiosos discutem se as obras do bardo foram realmente escritas por ele ou por um grupo de dramaturgos e poetas

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Intrigas, paixões, discórdias e polarizações. O que parece descrição de uma peça de William Shakespeare é, ironicamente, parte dos tons shakespearianos do debate sobre a identidade do autor de sua obra. Duvidar que o filho de um fabricante de luvas de Stratford-Upon-Avon é o mesmo gênio por trás de clássicos como Hamlet e Romeu e Julieta não é novidade.

Em 2011, Hollywood embarcou de vez na onda cética com Anônimo. Pelo argumento do filme, Shakespeare era apenas o testa de ferro do verdadeiro escritor talentoso, Edward de Vere, o 17° Barão de Oxford. Em 2013, o contra-ataque veio na forma de Shakespeare Sem Sombra de Dúvida, uma coleção de ensaios reunindo alguns dos mais renomados estudiosos da obra do bardo na forma de um detalhado desmanche dos argumentos dos que duvidam da versão oficial dos fatos.


A capa do livro  Hamlet / Wikimedia Commons



Assim como Montéquios e Capuletos, a questão da autoria também se divide em clãs tão passionais como os dos amantes da tragédia. Stratfordianos são os que defendem o status quo. Os oxfordianos advogam a causa de De Vere. O cenário se complica porque existem subdivisões entre os céticos, desde os que acenam com candidatos mais polêmicos a autor das peças e sonetos, como o poeta Francis Bacon, a acadêmicos que apenas levantam dúvidas sobre a história oficial - como é o caso de Bill Leahy, coordenador de um programa de pós-graduação em estudos autorais de Shakespeare da Universidade de Brunel, em Londres.

"Existem razões suficientes para questionarmos se William Shakespeare de Stratford-Upon-Avon foi capaz de produzir esse imenso volume de peças e sonetos. Isso por si só é uma razão para estimularmos o debate e o estudo, cumprir nosso dever como acadêmicos", afirma o expert em literatura do Período Elizabetano (o reinado de Elizabeth I, entre 1558 e 1603).

O problema é que colegas de Leahy não costumam receber com seriedade argumentos questionando a linha oficial. Stanley Wells, presidente do Shakespeare Birthplace Trust, a ONG que cuida do legado do poeta em Stratford-Upon-Avon, classifica o ceticismo como mera teoria conspiratória. 

Mas há razão para dúvidas? O problema é a falta de documentos sobre William Shakespeare. O pouco que se sabe sobre o homem que nasceu em Stratford é que viveu entre 1564 e 1616 e ganhou dinheiro trabalhando como ator, sócio do Globe Theatre em Londres e até como comerciante de grãos. Nenhum de seus manuscritos sobreviveu. O mais importante documento ligado a ele é o Primeiro Folio, uma antologia impressa de 36 peças publicadas em 1623 com a assinatura de Shakespeare e o mais antigo retrato do homem de Stratford.

Poucos registros

Para alguém tão prolífico com a pena, a ausência de uma profusão de documentos ajuda a alimentar o ceticismo. Ainda mais porque um dos poucos registros deixados por William Shakespeare são assinaturas em que seu sobrenome, por sinal, é soletrado de maneiras diferentes, o que faz com que muitos anti-strat-fordianos usem as discrepâncias como evidência de que o filho do fabricante de luvas não teria cacife para produzir tamanho material. "Há estudos mostrando que o autor das peças e sonetos teria um vocabulário composto de 17 mil a 29 mil palavras. Me parece um pouco improvável que alguém com origens mais humildes no Período Elizabetano tivesse capacidade intelectual de produzir tamanha obra", afirma o jornalista Mark Anderson, autor de Shakespeare by Another Name ("Shakespeare com outro nome"), livro de 2006 que defende a causa de De Vere.

Oxfordianos têm boas suas razões para defender o barão. O argumento principal é que só alguém como De Vere, com enorme trânsito na corte, poderia exibir o conhecimento sobre bastidores da nobreza que tanto permeia as peças de Shakespeare envolvendo reis e aristocratas. Mais interessante é o fato de que o barão viveu na mesma Itália que é palco de alguns dos mais populares textos shakespearianos, como a Verona de Romeu e Julieta e a cidade de O Mercador de Veneza, funcionando como uma espécie de embaixador de Elizabeth I.

"Parece-me um nível de conhecimento fora de comum para alguém que, de acordo com o que há de registros oficiais, jamais saiu da Inglaterra, enquanto existe extensa evidência da passagem de De Vere pela Itália. Ele esteve nas dez cidades que Shakespeare cita em sua obra", diz Anderson. O barão também foi um notório mecenas das artes, dono de duas companhias teatrais, além de escrever poemas. Mas De Vere morreu em 1604 e as peças continuaram aparecendo. Uma delas foi A Tempestade, que de acordo com estudiosos se baseou em um famoso naufrágio de 1609, envolvendo uma missão de povoamento enviada aos territórios hoje conhecidos como Estados Unidos.

Céticos também apontam para a mediocridade do testamento de Shakespeare. Escrito em linguagem nada poética, o documento sequer menciona livros, poemas ou as 18 peças que ainda não tinham sido publicadas na época de sua morte. Seu funeral tampouco foi registrado com grandes demonstrações públicas de emoção, e a primeira homenagem escrita só veio justamente na capa do Primeiro Folio.

"É essa falta de conexões do homem com a obra que tem de ser abordada. Todos os autores importantes contemporâneos de Shakespeare deixaram o que se pode chamar de trilha de papel. Cristopher Marlowe é um exemplo, embora sua produção tenha sido bem menor que a do bardo. Também incomoda que um homem tão letrado como Shakespeare não tenha escrito um grande volume de cartas, ainda mais quando foi morar em Londres e deixou a família em Stratford", diz Bill Leahy.

No entanto, o próprio Leahy concorda com uma questão crucial. Diferentemente dos tempos modernos, o papel no século 16 não era um produto barato, apesar de a invenção da imprensa por Gutemberg ter derrubado em mais de 300 vezes os custos de produção de um livro. Documentos e afins eram "reciclados", o que também ajuda a explicar, por exemplo, a ausência de materiais como o histórico escolar de Shakespeare.

Isso porque para alguns acadêmicos também há um conflito de classes na discussão. Paul Edmondson, um dos diretores do Birthplace Trust e que coeditou Shakespeare Sem Sombra de Dúvida, critica o que vê como preconceito na causa oxfordiana. "O que mais me incomoda em tudo isso é termos que combater o argumento de que alguém da classe trabalhadora não poderia ter produzido literatura de alto nível. Isso não é apenas historicamente incorreto, mas preconceituso", diz Edmondson.

Coautoria

Uma das experts recrutadas para o livro foi Carol Chillington, então pesquisadora da Universidade de Warwick especializada na história do sistema educacional do Reino Unido. É dela que vem uma preciosa análise do currículo das escolas secundárias do Período Elizabetano. De acordo com seus estudos, alunos desses estabelecimentos não só tinham uma grade de disciplinas que incluía o latim, mas também uma lista de leitura de obras clássicas que hoje equivaleria a de uma ementa universitária.

Outro trunfo dos stratfordianos é uma análise feita pelo linguista David Kathman, especialista em dialetos arcaicos do inglês. Seu veredito é que os textos estão repletos de regionalismos relacionados a Warwickshire, onde fica Stratford-Upon-Avon. "Também temos análises de padrão métrico dos versos escritos por De Vere e por Shakespeare que revelam a impossibilidade de uma mesma pessoa ter escrito ambos", afirma Edmondson.

A polêmica ajudou a revelar detalhes interessantes não apenas sobre William Shakespeare, mas também sobre seus métodos de trabalho. Duas acadêmicas da Universidade de Oxford, Laurie Maguire e Emma Smith, já publicaram um estudo em que provaram que Shakespeare não escreveu sozinho a peça Tudo Está Bem Quando Termina Bem - a dupla até nomeou o escritor e dramaturgo Thomas Middleton como coautor. Smith garante que não foi um "a-rá" para os céticos, mas uma mostra de como entender a questão da autoria.

"O estudo ajuda a mostrar um quadro em que autores escreviam de modo muito mais colaborativo no Período Elizabetano do que se pode imaginar hoje. Trabalhavam de uma forma bem diferente do que imaginamos e romantizamos", afirma Smith. Mais do que celebridades, escritores do século 16 tinham um perfil mais operário, em que a quantidade ditava o ritmo. Companhias teatrais recorriam a diversos autores para chegar ao texto final de peças. E eles não tinham pudor em pegar emprestado trabalhos alheios. "A noção atual de plágio não se aplica a eras passadas. A apropriação era muito mais tolerada."

Os dois clãs concordam em um ponto: o debate não tem data para acabar. "A não ser que alguém encontre algum documento perdido, não se poderá dizer ao certo, mas nem por isso podemos deixar de questionar pontos duvidosos da versão oficial dos fatos, mesmo que firam interesses financeiros", afirma Bill Leahy.

Em 2018, com o auxílio do WCopyFind, um software anti plágio utilizado por professores para detectar colas na internet, Dennis McCarthy, um estudioso de Shakespeare e a especialista June Schlueter, descobriram que ideias e palavras de um manuscrito de 1576 são bem parecidas com as que seriam usadas por William Shakespeare décadas depois em obras como Ricardo III , Rei Lear, Henrique VMacbeth e outras sete.

O manuscrito que inspirou o artista leva o nome de A Brief Discourse of Rebellion and Rebels ("Uma Breve Dissertação Sobre a Rebelião e os Rebeldes"), e foi escrito por George North, uma figura do século 16 que foi embaixador da Suécia e esteve presente na corte da rainha Elizabeth I. E também primo de Thomas North, que também serviu de inspiração para Shakespeare ao traduzir para o inglês a obra Vidas Paralelas de Plutarco.

Uma das descobertas realizadas pelo software envolve uma sucessão de palavras e frases em comum como "proporção", "vidro", "recurso", "justo", "deformado", "mundo", "sombra" e "natureza" que North usou em uma passagem da obra que fala sobre beleza e feiura.

Shakespeare as usou quase que na mesma sequência na abertura de Richard III. A diferença é que enquanto North destaca que as pessoas devem valorizar a beleza interior, o Bardo explica que uma vez que Ricardo III é feio por fora, agirá como o vilão que aparenta ser.

"É uma fonte para a qual Shakespeare continua voltando", diz McCarthy em entrevista ao New York Times. "Isso afeta a linguagem, ajuda a moldar as cenas e até certo ponto, influencia a filosofia das peças."

Em sua edição do livro de North, os autores demonstram que Shakespeare não usa apenas as mesmas palavras que North, mas que em muitas vezes as usou em cenas sobre temas similares e até mesmo sobre os mesmos personagens históricos. No entanto, eles não chegam a sugerir que Shakespeare tenha plagiado, mas sim que leu e foi inspirado pela obra de North.

Emma Smith, que não participou do projeto stratfordiano comandado por Edmondson, acredita que o questionamento tende muito mais à excentricidade do que a ameaça vista pelo Shakespeare Trust. "A reação exacerbada só serviu de munição para quem fomenta teorias conspiratórias. O meio acadêmico deveria aceitar que uma figura tão poderosa quanto William Shakespeare não teria como deixar de ser alvo de ideias de fantasia."


Obras de William Shakespeare e suas características:


Shakespeare possui uma vasta obra com cerca de 40 peças, divididas entre comédias, tragédias e peças históricas, bem como poemas narrativos e sonetos.

 

Embora sua obra poética seja muito conhecida, o artista adquiriu maior destaque na dramaturgia.

 

Durante 20 anos, abordou temas como o amor, os sentimentos, as questões humanas, sociais, políticas, sendo sua produção dramática dividida em três fases:

 

Primeira fase (1590-1602): escreveu peças históricas, tragédias em estilo renascentista e algumas comédias;

Segunda fase (1602-1610): ocupou-se em escrever tragédias e comédias;

Terceira fase (1610-1616): fase caracterizada por peças menos trágicas, de caráter conciliatório.


Na tragédia merece destaque as peças:

 

Romeu e Julieta

Romeu e Julieta

A Tempestade

Júlio César

Antônio e Cleópatra

Hamlet

Otelo

Rei Lear

Macbeth


Na comédia merecem destaque as peças:

 


A Comédia dos Erros

Os Dois Cavalheiros de Verona

Sonho de Uma Noite de Verão

O Mercador de Veneza

Muito Barulho Por Nada

Cimbelino

Noite de Reis

Como Quiserdes

A Megera Domada


Nas peças históricas destacam-se:

 

Ricardo II

Ricardo II

Ricardo III

Henrique IV - Partes I e II

Henrique V

Henrique VI - Partes I, II e III

Henrique VIII

Rei João

Eduardo III


Na poesia destacam-se os poemas:

 


Vênus e Adônis (1593)

O Rapto de Lucrécia (1594)

Sonetos (1609)

 

Frases de Shakespeare:


“Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos.”

“Herege não é aquele que arde na fogueira e sim aquele que a acende.”

“O destino é o que baralha as cartas, mas nós somos os que jogamos.”

“O amor é a única loucura de um sábio e a única sabedoria de um tolo.”

“Eu aprendi, que ninguém é perfeito, até que você se apaixone por essa pessoa.”

“Aprendi que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos.”

 

Curiosidades sobre William Shakespeare:


William Shakespeare era católico num mundo protestante.

Visto sua influência até os dias atuais, as peças escritas por Shakespeare são as mais encenadas no mundo.

 

A célebre frase filosófica “Ser ou não ser, eis a questão” (em inglês “To be, or not to be, that is the question”) foi escrita por Shakespeare na tragédia Hamlet (1599-1601).