A CARTOMANTE - YARA MOURÃO

 



A Cartomante

Yara Mourão

 

Rita era uma mulher bem urbana, que não se atinha a crenças de nenhuma espécie. Era prática e resoluta, resolvia qualquer questão com presteza e calcada em razões, por mais subjetivas que fossem.

Tinha, porém, um certo desvio de personalidade: era muito ciumenta. De quase tudo: de seus pertences, seu gato, seu carro, mas principalmente de Vilela, seu jovem marido. Com certo motivo, talvez.

Vilela era um pouco mais novo do que ela, homem extrovertido e amável, com um séquito de admiradoras. Ele queria ter sido um artista, e a inclinação para o belo o levou aos caminhos da arte concreta, onde trilhou uma bem-sucedida carreira de arquiteto.

Rita e Vilela se deixavam levar pelo cotidiano, mas algo pairava obre o andamento da vida a dois. Para Rita nada podia estar entre eles.

Esse afeto adquirido e cultivado a qualquer preço era a razão de sua vida. E um amigo mulherengo, como Camilo, chegado às veleidades sociais, agitador de encontros e festas em que Vilela era sempre o convidado mais esperado, deixava Rita no limite da tolerância.

Ela já não estava mais com paciência para apenas suspeitar. Já tinha certeza de que Camilo era a figura por trás das escapadas de Vilela. Não ia esperar mais.

Pensou em outras alternativas para pôr fim a isso; e resolveu no calor do desespero. Ia a uma cartomante se certificar de que Camilo estava arrastando Vilela para aventuras à margem de seu casamento.

Buscou na internet o endereço de uma vidente. Qualquer uma serviria. Afinal, cartas, bola de cristal, búzios, tudo converge para o mesmo quando já se tem uma posição definida sobre qual vai ser o resultado.

Chegando no endereço, logo estava frente a frente com a cartomante. Esta nem titubeou: ¨esse tal de Camilo é a raiz de todo o mal e deve ser extirpado sem demora¨.

Era tudo o que Rita queria ouvir. Sentiu-se justificada. Era isso mesmo, então!

Saiu de lá apressada, decidida. Ligou para o marido e certificou-se de que ele chegaria mais tarde em casa nessa noite. Perguntou por Camilo e soube que ele estava no clube, jogando tênis. ¨ Melhor assim¨ pensou. Só esperaria o entardecer para ter a cumplicidade das sombras.

Entretanto, nas ruas, o trânsito estava lento e não acompanhava sua ansiedade.

Sentia um aperto na garganta.

Um nó no estômago.

Era o seu casamento que estava em jogo, por um fio. Mas ela ia salvá-lo, nem que fosse a última coisa que fizesse.

Finalmente chegou ao clube.

Esgueirou-se para a parte detrás das quadras de tênis.

Camilo estava lá. Ele sorria. Ela tremia. Lembrou-se do que dissera a cartomante, que tinha de ser sem demora. Então, a hora era esta.

Foi aí que aconteceu...o som sibilante cortou o ar da noite. Tiro certeiro. Camilo, o mal presumido e comprovado, jazia inerte.

Rita olhou para o céu, para um ponto no infinito, os lábios secos, os olhos cegos.

E, no silêncio imenso da desilusão, ela se perguntou baixinho: ¨salvei meu casamento?¨

A CARTOMANTE - MACHADO DE ASSIS - E O DESAFIO DE CRIAR 2 CONTOS





A CARTOMANTE - MACHADO DE ASSIS

Um enredo rico que vai prender sua atenção do começo ao final.  Em apenas 8 páginas o autor coloca os personagens em uma intrigante história de traição amorosa. Os textos de Machado já caíram em DOMÍNIO PÚBLICO, então todos poderão ser lidos gratuitamente. Leia na íntegra este conto, aqui mesmo no Blog do EscreViver. O link está logo abaixo:


Rita e Vilela são casados.  Vilela reencontra Camilo, amigo de infância, cuja mãe morre, e Vilela sendo advogado, trata dos papéis da mãe do melhor amigo. Enquanto  isso Rita envolve  com Camilo criando assim um triângulo amoroso.

Depois de receber bilhetes anônimos que chamavam-no de adúltero, Camilo diminui as visitas à casa do amigo, o que faz com que Rita visite uma cartomante para saber se Camilo ainda a amava. Camilo ri dos temores de Rita pois,  ele mesmo era descrente de tudo. Certo dia, Camilo recebe um bilhete de Vilela " Vem já, já à minha casa, preciso falar-te sem demora."  Apreensivo, Camilo visita a cartomante,  e o que ela lhe revela, mudará completamente sua vida...
Baseado nesse fabuloso conto de Machado, desafiamos nossos colegas do EscreViver a criar dois contos:

TAREFA 1: Escreva uma história que caiba nesse enredo e crie um desfecho diferente desse que Machado criou.

 TAREFA 2: Criar uma história onde ESSA CARTOMANTE domina o destino de uma mulher adúltera.





O Homem que desafiava o vento. - Yara Brandão



O Homem que desafiava o vento.

Yara Brandão

 

Ele era um homem pequeno. Quase franzino. Mas tão autoconfiante que até mesmo se achava forte.

Queria ser um herói.

Não temia os animais, as pessoas, nem o frio ou o sol forte. Mas tinha um estranho fascínio pelo vento. O vento que era, assim, quase um adversário na luta dos homens contra os elementos. Pra ele, era uma questão de ser o mais ousado, o invencível nos espaços de seus domínios.

Tudo se deu no início de setembro, quando começava a temporada de tufões e furacões, desde o Caribe até quase o Canadá. Sim, porque era no fim de uma estação e início de outra, quando o clima se mostrava belo e agressivo e as águas, terra e céus combinavam para surpreender os homens.

E poderia ter sido em qualquer lugar daquele imenso campo de batalha. Entretanto, foi naquele vasto gramado, muito verde, que se estendia a perder de vista, cheio de palmeiras, casas de madeira rodeadas de flores, parques, rios e lagos. Ali era o coração da Flórida, lugar de grandes emoções.

Às primeiras rajadas ele mirou o horizonte: não havia dúvida. Esse era o momento esperado. Sentiu, através de todos os poros, o fascínio pelo desconhecido, pelo desafiador, o impulso do herói no campo de batalha.

Foi rápido. Correu muito. Abriu os braços e foi de encontro ao som, às folhas voando, à nuvem densa. O vento era ora o inimigo a ser vencido ora o companheiro de maratona.

Correu tanto, tanto. Por fim, se viu debaixo de uma pedra enorme, quase sem forças, mas radiante pela disputa.

Conseguiu perceber que tudo havia caído, mudado de lugar, tudo estava espalhado.

Mas ali, franzino, ofegante, ele sabia que vencera o vento.

E, sob a pedra, ele era, enfim, um herói adormecido.


O ARADO-VOADOR - Suzana da Cunha Lima

 



O ARADO-VOADOR

Suzana da Cunha Lima

 

Moravam numa terra desolada, de campos estéreis, onde o vento corria livremente, levando tudo que estivesse à sua passagem. A mulher e filhos já tinham partido para a cidade mais próxima, totalmente descrentes de que algum resultado pudesse ser extraído daquele chão tão seco. Quantas vezes o vento implacável levara o telhado da casa e muito do que plantavam com tanto sacrifício?

Seu Pedro, no entanto, teimoso, persistia na vontade férrea de fazer algum dinheirinho naquele seu pequeno terreno.

Sabia que não podia nada contra aquela força da natureza, então pensou: vou fazer esse danado trabalhar para mim. Como o solo era muito árido, não havia enxada que durasse e ele não tinha mais força para mover o arado e o velho boi que tanto o ajudara já morrera de exaustão.

Arrumou uma lona enorme e transformou-a numa espécie de balão, não exatamente para voar.  Na verdade, transformou-o num arado voador, controlando a direção numa ponta da lona.  No início foi levado pelo vento, e sendo presenteado com muitos arranhões e esfolados nos braços e pernas. Teve que reconstruir seu artefato muitas vezes, mas de a cada vez ele melhorava a invenção e como dizem que a prática faz o mestre, ele finalmente conseguiu dominar seu balão.

Lamentou não poder dividir a alegria com a família, mas tinha que demonstrar a utilidade daquilo primeiro.  Delimitou uma área para o plantio e se posicionou numa ponta, com vento de popa.  Foi um sucesso! O arado ia fundo e dali surgiu uma terra muito boa.  O que levaria meses para ser feito, Seu Pedro fez numa tarde ventosa com seu balão.  Tão feliz ficou que resolveu patentear sua invenção.  Foi à cidade, fez demonstrações e logo arrumou um sujeito endinheirado que se interessou muito pelo seu arado voador.   Vendeu na mesma hora e foi buscar a mulher e os filhos.  Mas não voltaram mais. Mudaram-se para um lugar melhor onde os filhos pudessem estudar.

Mas a verdade verdadeira é que o arado-voador era muito bom para sulcar a terra, mas ele não sabia se o vento ia permitir que brotasse e crescesse alguma coisa dali. Vento é vento.

 

 

O HOMEM QUE DESAFIOU O VENTO - Oswaldo U. Lopes

 




O HOMEM QUE DESAFIOU O VENTO

Oswaldo U. Lopes

 

Pompeu o Grande:

Navegar necesse, vivere non est necesse

Navegar tem precisão, viver não.

 

        Pompeu o cônsul romano desafiou o vento e o mar para encorajar seus soldados. Tinha que navegar, navegar era seguro e possível. Viver? Quem sabe se estará vivo amanhã, daqui a um minuto? Agora?

        Pompeu é muitas vezes esquecido, ignorado até, ante a presença solene do outro cônsul: Cesar, mas sua história (Plutarco) não só é interessante como incrível!

        Era preciso sufocar uma revolta no sul da Itália e trazer alimentos para Roma. O único meio possível era por mar, com navios.

        O vento para usar uma velha imagem, uivava! As ondas se elevavam. Pompeu subiu a bordo e corajosamente comandou a frota e o fez com sucesso.

        Sua frase entrou para a história, para a lenda, para a poesia (Fernando Pessoa) e até para a música popular (Caetano Veloso).

        Infelizmente o significado de sua frase é frequentemente interpretado erroneamente:

Navegar é preciso, viver não é preciso.

        Usa-se como necessário, não foi essa a intenção e o uso dado por Pompeu. Para ele a navegação era clara e definida, viver não era. Navegar pode ser mais exato do que se imagina, a vida quem sabe.

 

O ET de Rita - Ises A. Abrahamsohn

 


O ET de Rita 

Ises A. Abrahamsohn

 

Certa noite Rita foi dormir cedo, cansada que estava. Trabalhava desde os onze anos de idade. “Somos pobres e você tem que ajudar em casa” Foi o que a mãe lhe disse ao enviar a menina para a casa de dona Justiniana em Cabrobó. Trabalho pesado para a menina mal saída da escola rural. Lavar roupa no tanque, coarar os lençóis, limpar a casa e ajudar na cozinha. Tinha aprendido a ler e a escrever e contar na escolinha rural. E a rezar... Rezavam muito em casa e aos domingos na Congregação Pastoral do Senhor fundamentalista. Quando menstruou a mãe só lhe informou como usar os trapinhos presos com alfinete na calcinha e a lavá-los para o próximo mês.

Alguma amiga lhe soprou ao ouvido que se ficasse com homem - o que seria ficar? – ficava prenhe com criança. Como as cabras...  segredou a amiga nas conversas e cochichos proibidos e sujos. Mas Rita nem sabia, nem lhe explicaram, como as cabras da criação ficavam prenhes.

Na casa da patroa, Rita foi botando corpo. Os seios cresceram como duas laranjas que ela apertava com uma faixa de morim para não avolumar a blusa de pano fino. As ancas se arredondaram sob a saia de chita estampada. Quem percebeu bem as mudanças foram os filhos da patroa. De todas as maneiras aproveitavam para encostar, agarrar, passar a mão, ou beijar a garota agora com 13 anos. E davam-lhe algum presentinho. Uma fita ou escova para cabelo, uma barrinha de chocolate diamante negro, e ela adorava chocolate... Moedas de troca para a menina ceder e deixar a mão do rapaz avançar entre as coxas. E Rita aceitava os agrados apesar do asco que sentia do cheiro de homem e dos apertões que prenunciavam um ataque mais intenso. O escambo continuou até que a garota, após investidas cada vez mais violentas, rechaçou o rapaz e aos gritos derrubou-o sobre os degraus da cozinha. Com o alarido e o filho sangrando na testa, Dona Justiniana se deu conta do que ocorria longe de suas vistas. Rita foi devolvida imediatamente para casa. A mãe e os irmãos a olharam com suspeitas. Aquela moça alta espigada não era a mesma garota de antes. Alguma coisa devia ter aprontado lá na casa da comadre.

Em menos de um mês Rita já era destinada a outra casa. Dessa vez para dona Lucinda, prima distante chamada de tia, que precisava de ajuda doméstica. Foi a grande sorte de Rita. A tia Lucinda era professora na cidadezinha. Percebendo que Rita era inteligente tomou a si completar a educação da garota. O serviço da casa era mais leve, só o casal e uma filha de dez anos. Aos quinze anos Rita foi matriculada no sexto ano da escola. Frequentava de manhã, e fazia o serviço de casa à tarde. À noite fazia as lições. Na escola aprendia mas ficava isolada. Era bem mais velha que as colegas, ainda adolescente, porém com mente adulta. Ao terminar o ensino médio, fez um curso rápido de auxiliar de enfermagem. Tinha afeição pela tia, porém nunca falava sobre a própria família ou sobre o período na casa de dona Justiniana. Sabia que tinha sido enviada quase como escrava, alugada era o que dizia, em troca de minguado dinheiro pago diretamente à mãe. Esta ainda agradecia o grande favor da comadre por ter uma boca a menos a alimentar em casa. Tia Lucinda tentou, mas não conseguiu, chegar ao coração da menina, porém intuía-lhe o sofrimento passado.

Aos dezenove anos, Rita despediu-se da tia para morar num pensionato e trabalhar em um  hospital  de Caruaru. Cidade muito maior e com muito mais recursos. Rita era atraente, mas seu jeito sisudo não angariava amigas ou potenciais namorados. Tinha como única amiga a Neusa, também enfermeira e também vinda do interior. Foi por insistência de Neusa que Rita começou a sair com José Antônio. Cinema , alguns passeios até que o rapaz tentou um beijo. Repelido violentamente, revidou com insultos. Rita, chorando, contou para Neusa. Foi para essa amiga que revelou aos soluços o que tinha passado na adolescência. Neusa se espantou com o sofrimento da amiga e com a ignorância sobre seu próprio corpo e sobre sexualidade. Com muito tato e ajuda de um livro instruiu a amiga. Mas Rita sempre lhe dizia que a ideia de contato mais íntimo lhe causava muita angústia e por isso afastava a ideia de qualquer namoro. Achava Márcio, um colega do hospital, simpático e atraente, mas sempre recusava os convites para sair. Porém vinham à sua memória as experiências passadas e ela não cedia.

Até que, certa noite, cansada que estava do trabalho no hospital Rita adormeceu profundamente. Durante o sono sentiu a presença estranha no quarto, abriu os olhos e viu algo ou alguém não identificável, um ser não humano, era um extraterrestre. De aparência dócil, com o corpo magro, estatura alta, pele muito branca, olhos grandes, nariz e boca pequenos, sem pelos, vestia túnica azul com botões dourados, levemente parecido com humanos...”

Aquele ser inodoro lentamente despiu a túnica e começou a acariciá-la. Levemente, sem pressa e Rita sentia calma e prazer. Ela acordou com uma sensação de repouso, porém sem lembrar do sonho. E assim, a cada noite aparecia aquele ser quase extraterrestre, e a cada noite suas carícias ficavam mais ousadas. Até que, finalmente, após uma semana o estranho ser deitou-se sobre seu corpo e lhe proporcionou uma volúpia e sensação jamais sentida.

Rita finalmente estava curada!

A segunda bala perdida - Adriana Frosoni

 


A segunda bala perdida

 Adriana Frosoni


Por um período morei no bairro Bela Vista, mais precisamente no Bixiga, região de São Paulo muito movimentada de dia e de noite. Sempre me lembro de uma senhora que ficava na janela do primeiro andar de um predinho antigo observando tudo o que se passava na rua. Todos a conheciam de vista, inclusive eu, que nunca guardei nomes e já nem os perguntava mais, e apenas a apelidei de Dona Florinda, em referência à personagem do programa do Chaves que também usava um lenço na cabeça.

Ela dava palpite em tudo que acontecia lá embaixo e sempre acabava por puxar papo ou, menos frequentemente, briga com alguém. Se bem que era total insensatez de quem se atrevesse a brigar com Dona Florinda, depois disso a única solução seria não passar mais por ali e não dar brecha para continuar a desavença. Ela se recolhia tarde, depois das 22 horas, sempre que o caminhão do lixo entrava na rua, vindo lá da Brigadeiro Luiz Antônio. Dizendo que não gostava do barulho dele fechava a veneziana com força, como se quisesse ofender o caminhão ou avisar a todos que acabara seu expediente.

Num dia qualquer, que eu estava voltando do trabalho, parei para perguntar-lhe sobre a origem de uma perfuração que havia na veneziana de sua janela e ela me pareceu muito feliz em poder contar. Disse que a inquilina anterior havia saído do imóvel por conta do tal incidente: uma bala perdida. Riu-se da medrosa porque considerava que quando era chegada a hora da pessoa não tinha o que a salvasse, se não, não havia bala que a acertasse. Adicionou mais alguns detalhes à história e gargalhou gostosamente ao final, como sempre fazia, e quando me despedi continuou a resmungar a mesma história na esperança de um outro transeunte ouvir e puxar papo.

Bastante tempo depois, estranhei quando vi a janela fechada. Ninguém sabia o motivo e passei a observar mais atentamente: o sumiço de Dona Florinda foi definitivo. Intrigada, parei para observar o lugar que ela ficava e percebi que agora havia duas perfurações na janela. Nunca soube se ela havia se ferido, passado dessa para melhor ou simplesmente se mudado. Nem tive certeza de que foi uma segunda bala perdida que a tirou de lá e lamentei que o predinho não tivesse um porteiro para me informar. Senti falta dos resmungos e principalmente das gargalhadas, mas com o tempo me acostumei. Lembrei do que ela me disse sobre a hora de cada um e, do fundo do coração, desejei que não tivesse chegado a hora dela.

TRAVESSIA - Oswaldo U. Lopes

 


TRAVESSIA       

Oswaldo U. Lopes

 

                         Antônio era de Minas e como bom mineiro gostava de trem: foneticamente, figuradamente e literalmente. Tão literalmente que estava dentro de um com mais uns oito que como ele, adoravam trem.

                         Hoje Antônio vivia em Araraquara, onde tomara o próprio, gostava de lá, havia estação, trens e a fama de entroncamento ferroviário. Só não gostava da brincadeira de chamar mineiro de paulista cansado. Uma alusão aos bandeirantes que ao retornarem de suas investidas pelo Brasil, mudando tudo, até os mapas, tinham se estabelecido pelo sul de Minas Gerais, gerando povoados e cidades.

                         Em matéria de trem, Antônio achava que já tinha visto de tudo, mas não tinha. Naquele dia e naquele cruzamento, haviam desviado o de passageiros rumo a uma lateral para dar prioridade, acreditem, a um trem de carga.

                         O tal, pela pintura, era da Atlântica, a gigante do transporte de minério e grãos. Nos tempos de agora e no Brasil em que viajamos, a tal prioridade fazia todo sentido pensou Antônio. Tempos cruéis, em que a vida humana pouco vale, e o que mais vale é o dinheiro, se possível de cor verde, dólar para os íntimos.

                         Antônio, mestre na mineirice, resolveu ficar quieto no seu lugar, vendo o enorme trem de carga fazer sua manobra para seguir destino. Todos olhavam maravilhados o tamanho do bicho, poucos pensavam na tristeza do viver num mundo assim.

                         Então, em voz baixa começou a cantarolar uma música que também se chamava Travessia e fora composta por outro mineiro, dos bons, grande e enorme musico: Milton Nascimento.

Solto a voz nas estradas

Já não quero parar

Aventuras de um rico barão e seu mordomo - Ises A. Abrahamsohn.

 




Aventuras de um rico barão e seu mordomo

Ises A. Abrahamsohn.

 

O barão Lamberto era muito, muito rico... E também muito idoso. Morava em um castelo numa ilha no centro de um belíssimo lago do norte da Itália. A região era encantadora e durante o verão e outono milhares de turistas se dirigiam a esses lagos.

O velho barão morava no castelo com seu mordomo, Anselmo, que lhe servia de companheiro e enfermeiro há três décadas. Anselmo era regiamente recompensado por sua dedicação. Aliás ficava irritadíssimo com os estereótipos das novelas carentes de imaginação que indicavam os mordomos como culpados! Ele vivia em função do patrão e tratava das várias doenças reais ou imaginárias que o afetavam. Para todas havia algum remédio ou alívio que Anselmo, muito cuidadoso, tinha anotado e se apressava  a ministrar. Assim, às dez da manhã havia a queixa de dores nos ossos logo acudida com um xarope do frasco rotulado com o número da doença. Foi o sistema que ele e o barão criaram para que não houvesse dúvidas quanto à medicação. Reumatismo era a doença de número 5, mesmo número do elixir. Soluços e gases intestinais tinham os números 8 e 9 e assim por diante. O que não tinha remédio era o frio e a umidade que desciam sobre a ilha assim que o outono se anunciava, e pior o inverno.  Apesar do aquecimento era época terrível para o Signore Lamberto.

Quando as folhas mudavam de cor, assim também se mudavam o barão e seu fiel mordomo para a mansão no Egito. Todos os anos, a lancha particular os levava para Alexandria onde tomariam o trem na direção de Luxor. O vagão privativo onde viajavam pertencia ao barão e garantia todo o conforto necessário. Era engatado na composição e desengatado em Luxor, onde ficava à disposição para a viagem de volta. Em Luxor, o barão e Anselmo se instalavam em outra esplêndida mansão onde a cada ano passavam seis meses aproveitando o clima quente e seco do país. O Signore Lamberto ficava horas no jardim lendo ou ouvindo música de uma vitrola que o mordomo abastecia com os discos de 78 rotações existentes na época. A coleção era enorme, árias de ópera, concertos de solistas de todos os instrumentos, orquestras, jazz , música folclórica e mais.

 Naquele ano de 1955 o barão tinha completado 93 anos e, como sempre, no outono viajou com Anselmo para o Egito. O Signore estava feliz e antecipava o alívio de seu reumatismo naquele clima ameno. Havia apenas um inevitável desconforto para seu futuro bem estar. O sobrinho e possível futuro herdeiro, Otávio. Era um ser desprezível na opinião do barão e de Anselmo. Jogador inveterado, apostava em tudo e nunca trabalhara. Conseguira arrancar do velho barão um empréstimo sob o pretexto de abrir um negócio, mas torrara os milhões em apostas de todos os tipos. Carteado, cavalos, sinuca, o que houvesse... Só em pensar em Otávio fazia piorar o reumatismo do barão. Aliás, não tolerava nem o nome do sobrinho. Duas vogais idênticas no nome, e pior, no início e fim ladeando o centro como parêntesis de uma quadra sem sentido! Apreciava nomes sem repetição de letras tal como Lamberto. Era um nome perfeito, Humberto seria também, mas neste o H não lhe agradava. Lamberto leu no jornal daquela manhã que o notável herdeiro italiano, Otávio, se encontrava no Cairo para as corridas anuais no hipódromo. “Herdeiro, uma ova, resmungou o barão , se depender de mim não recebe mais um tostão”. Teve que ser acudido imediatamente com o elixir número 5 pelo prestimoso Anselmo que lhe deu ainda uma dose adicional de uma nova poção recomendada para acalmar os nervos. Essa o mordomo sabiamente havia rotulado como número 20 e o paciente a apreciava e elogiava sem se dar conta que se tratava de um excelente vinho do Porto envelhecido por 20 anos. É de fato um excelente remédio para as perturbações da alma. Entretanto os noticiários não deixavam de  mencionar Otávio, alguns até o chamavam de comendador. O que tornava o barão furibundo e piorava a sua artrite. Finalmente leu que o elegante Signore  Otávio acompanhado da senhorita Mirella iriam passar o restante das férias em Mônaco.

  Com que dinheiro? rosnou o tio. Deve ter dado algum golpe. E de novo com crise terrível de dores teve que ser acudido pelo elixir 5.

Parece-me que este número 5 não faz mais o efeito que fazia. E nem o de número 20, reclamou a Anselmo. Após uns dois dias e esgotados todos os possíveis elixires e remédios, no correio da manhã junto ao jornal havia um curioso envelope endereçado ao morador. Lamberto avaliou o envelope e o papel, ambos de excelente qualidade, impresso com desenhos de hieróglifos que circundavam a mensagem do Dr. Abdel Gammal, médico homeopata especializado em técnicas de medicina tradicional egípcia. O barão, ainda sofrendo com a artrite, ordenou a Anselmo combinar a vinda do médico à mansão. No dia seguinte, por volta das cinco da tarde chegou o doutor Gammal. Vestia uma longa túnica de linho branco e tinha na cabeça um pano listrado preso na testa e caído sobre os ombros à maneira das ilustrações do Egito antigo. Uma máscara de tecido branco com símbolos dourados cobria a parte inferior do rosto deixando ver apenas os olhos desprovidos de sobrancelhas o que lhe conferia um aspecto esotérico. Aliás, também não se viam cabelos ou pelos nos braços e dorso das mãos. Trazido à presença do barão, conversava em francês intercalando palavras que soavam como árabe. Inteirou-se da situação do barão e ouviu suas queixas de dores. Passou logo ao tratamento  com ministrações que incluíam fumigação, palpação das articulações e um ramo de ervas que era passado pela fronde e ao longo dos braços do paciente. Tudo acompanhado de cânticos em língua desconhecida. O velho barão já estava tonto com os vapores de cheiro penetrante. O mordomo Anselmo, porém, não se deixou impressionar pelo ritual. Quando o exótico curandeiro ofereceu um cálice com beberagem a Lamberto, Anselmo pulou de seu esconderijo atrás das cortinas, deu-lhe um safanão no braço e uma rasteira e acordou o patrão do transe. Arrancou a máscara e o pano da cabeça do curandeiro, logo reconhecido como o sobrinho, Otávio... A beberagem continha um potente veneno de arsênico que causaria a morte de Lamberto em dois a três dias. Otávio destituído da herança foi condenado por tentativa de assassinato. Lamberto e Anselmo voltaram à Itália e viveram ainda bons anos em sossego. O velho barão Lamberto deixou a fortuna para a cidade, algumas obras assistenciais e uma boa parte para o fiel mordomo Anselmo.

 

Lamberto, o esperto - Adriana Silva Frosoni

 


Lamberto, o esperto

Adriana Silva Frosoni

 

Já acostumado ao peso das inúmeras doenças que carregava juntamente com sua vultuosa fortuna, Lamberto deparou-se com mais uma patologia: atrofia deformante. Muito vaidoso, ele preocupou-se em resolver mais essa enfermidade e começou pedindo para o mordomo incluí-la na listinha que ele mantinha para não esquecer de nenhuma, sem deixar de lado a ordem alfabética.

Além dos médicos locais, ele sempre recorria ao um curandeiro árabe, então partiu para o Egito com o objetivo de vê-lo e de lá voltou com as seguintes orientações: deveria tomar um chá das pétalas da flor de lótus, mas esta deveria ser selvagem, não cultivada, e apanhada no pico do Himalaia. Para tanto, ele contratou o melhor alpinista do mundo, deu-lhe todos os recursos necessários e aguardou sua volta.

Concomitantemente, surgiu mais um problema ao qual Lamberto também estava acostumado: um bando de trapaceiros dizendo ser seus filhos e querendo parte de sua riqueza para não lhe causar maiores problemas. Além de rico, Lamberto era muito esperto, então disse aos trambiqueiros que estava disposto a pagar pelo próprio sossego e fazer com que eles se afastassem, mas que o faria apenas àqueles que conseguissem trazer-lhe a flor de lótus selvagem do Himalaia. Como ele já imaginava, foi um festival de sabotagem: um puxando o tapete do outro, um corre-corre danado e ainda lhe trariam as flores do lugar mais próximo que encontrassem.

Quando ele recebeu a flor correta, tomou seu chá e, de pronto, percebeu que faria efeito, afinal, ele tinha extensa experiência com enfermidades e remédios. Mas quando os farsantes apareceram com a flor cultivada, ele pediu que o mordomo fizesse chá de todas as partes da flor e lhes servisse. Diante da reação de estranheza do mordomo, que o conhecia de longa data, ele explicou que o curandeiro o advertiu que uma xícara de chá das pétalas da flor correta teria o poder de cura, mas era necessário ser cauteloso, pois o chá das partes erradas ou da flor cultivada geraria uma amnésia temporária, porém bastante forte.

Então, Lamberto imaginou que isso seria o suficiente para afastar os ladinos que sobraram do bando por, pelo menos, uns dois anos, se bem que ele tinha esperança de que o esquecessem para sempre.

 

 

Reescrita baseada no livro Era duas vezes o Barão Lamberto, de Giannni Rodari

BANDEIRA BRANCA - Oswaldo U. Lopes

 


BANDEIRA BRANCA

Oswaldo U. Lopes                                           

                                     

                                      Bandeira Branca amor

                                      Não posso mais

                                      Pela saudade que me invade

                                      Eu peço paz     

 

         Regina continuava a guiar com os pensamentos a voar e, como sempre, voando longe. Divorciada há tempo, não dependia de pensão ou de nenhum tipo de auxílio, ok nem todas tinham essa condição, mas que raios dera na tal líder feminista para dizer que o homem devia sempre ser o provedor.

         A eterna mistura da biologia e da diferença de gêneros. O bebê humano era de fato especial e tomava tempo para se desenvolver e andar com as próprias pernas. Catorze anos é muita coisa , isso era biologia, a mãe precisa de um companheiro para dar conta desse tempo. Isso era diferença de gênero. Mas, dependência, não.

         Que mulher precisava da força do homem em pleno século XXI?   Depois que a produção de energia, relativamente barata e acessível, apareceu,  quem precisa de força muscular para executar as necessárias tarefas do dia a dia?  Durante séculos a diferença de força e, portanto da capacidade de fazer trabalho, fora um fator de desiquilíbrio entre os gêneros. Agora a realidade era outra. Dois séculos é pouco na história da humanidade? É, mas dai tudo mudara por completo.

         Porque essa maldita música ficava soando na sua cabeça? Pobre Dalva de Oliveira, o Maracanãzinho inteiro cantando com ela e ela pensando no farabutto do Herivelto.  O pior é que eu também não consigo parar de cantar, será que quero paz, não aguento mais?

         O que me faz falta? Não vai dizer que é homem! Em pleno tempo da diversidade, em que são numerosas as possibilidades, os agrupamentos possíveis, LGBTQIAP, tantos, quase quanto às letras do alfabeto, quem precisa de homem? Eu.

         Não no sentido sexual ou por ai, mas o companheiro que está a seu lado e não deixa você se sentir solitária. É, isso ela não tinha, já teve, mas não agora. Pobre Dalva cantando com a multidão, procurando seu par. Bandeira Branca...Tinha lido, em algum lugar, que a música estava concorrendo num festival e mesmo com o estádio inteiro cantando junto, só tirara terceiro lugar. Quem, ainda hoje, sabe ou canta as chamadas vencedoras.

         Pelas sete espadas das dores de Maria, senhora da Piedade, pensou lembrando os tempos no colégio religioso. Cruzando com os sete mil amores da Luiza do Tom Jobim. O profano e o santo misturados na sua cabeça que seguia voando.

         Será que é hora de pedir piedade? Sou humana, o latim de Terencio veio junto com a religião. Com a Pietá de Michelangelo ao fundo, pediu para a jovem mãe sofredora, um pouco da piedade que lhe escorre pelos dedos. Quem trará piedade? Aquele que não é piedoso?

         Com a cabeça a mil e entoando Bandeira Branca, Regina seguiu dirigindo pensando que não ia chegar à parte alguma. Precisava chegar, sem dúvida, mas aonde? Para quem? Isso era outra história que, como nos contos infantis, que lia para os netos, ficava para outra vez.

 

E se essa história fosse minha, como seria? EXERCÍCIOS


Esta semana trabalhamos um olhar diferente para o texto do colega. 

Expusemos alguns trechos de histórias para exercitarmos a escrita partindo do trecho apresentado.

Escolha dois deles, e crie duas histórias:


Abaixo temos alguns trechos de histórias dos colegas do EscreViver. Baseando-se nesse trecho de história, se você fosse escrevê-la, como seria? (A história completa poderá ser lida no blog, faça a busca pelo título ou autor.)

 

“Certa noite dormiu cedo, cansado que estava. Durante o sono sentiu a presença estranha no quarto, abriu os olhos e viu algo ou alguém não identificável, um ser não humano, era um extraterrestre. De aparência dócil, com o corpo magro, estatura alta, pele muito branca, olhos grandes, nariz e boca pequenos, sem pelos, vestia túnica azul com botões dourados, levemente parecido com humanos...” Eu e o universo – Antonia Marchesin Gonçalves.

 

Havia uma trilha muito arborizada, com pequenas aberturas pelas quais o sol iluminava o solo extremamente úmido, de onde foi subindo um cheiro de grama misturado com terra. A umidade do ar facilitava a respiração e os pequenos troncos, colocados cuidadosamente pelo caminho, ajudavam na subida.  Mas tudo isso se esvaía ao final da trilha, pois as árvores se abriam como uma cortina e davam espaço a uma cachoeira, de tamanha exuberância que parecia uma porta para o céu.” – Sonho e realidade – Adriana Frosoni

 

“ Consta que o rapaz conseguiu entrar na pousada pela porta da cozinha e subiu ao quarto da moça. Os proprietários moram na edícula e nada escutaram. A moça loira era a única hóspede.  No escuro, com a lanterna do celular localizou a cama ocupada. Deu dois tiros de pistola com silenciador na direção do travesseiro. Ao sair acendeu o abajur para se certificar de que a vítima estava morta. Foi quando deu um grito alucinado acordando os donos que vieram correndo.” O caso que o detetive não queria investigar – Ises Abrahmsohn

 

“De repente fui retirado do banco pelo tranco violento de uma grande vaga. O mar era outro! Ondas de três metros, com cristas brancas despenteadas pelo vento forte, insistiam em emborcar a nossa pequena embarcação.

As condições meteorológicas eram diferentes, nuvens escuras em forma de hexágono, rolos de nevoeiro passavam velozmente, trombas d´agua despejavam como urina as toxinas do céu raivoso, insuflando ainda mais as turbulentas águas.” – Embarque adverso – Sergio Dalla Vecchia

 

 

Nós estávamos os quatro parados em círculo na entrada do velho casarão. Leila, com as mãos trêmulas, examinava o papel um pouco amassado com fortes marcas das dobras, bem envelhecido pelo tempo. A emoção se espalhava entre nós... deveríamos começar a procura a partir do chafariz do jardim...” – Difícil reparação – Maria Verônica Azevedo.

 

“Conheci um faroleiro que, por ironia do destino, nasceu num farol:  o pai era faroleiro, a mulher foi visitá-lo e o parto se realizou no local sem nenhumas condições, mas felizmente todos sobreviveram.  O menino cresceu sempre tendo o farol como ícone, um misto de medo admiração e angústia. ” – O mar – Ana Maria Pinto

 

“Alguns, com o intuito de contribuir, traziam pequenas vasilhas cheias d’água que mal davam para esfriar os gravetos que estalavam. Os bombeiros tiveram dificuldade para vencer os obstáculos que se interpunham entre eles e a fornalha. Custaram a chegar. Enquanto isso, o fogo devorava tudo que encontrava. Era um cenário de tristeza e devastação. Impossível conter as lágrimas que insistiam em rolar, encharcando meu triste semblante” - A impotência humana – Ledice Pereira.

 

“Depois de fazer as curvas da estrada de terra, a camionete azul parou em cima do mata-burro. Um fim de tarde embruscado, garoa fria, Ignácio desligou o carro, abriu lentamente a porta, desceu e deu uma longa olhada por todos os lados, parecendo absorver cada pedacinho da paisagem que sua vista pudesse alcançar.” “– Bosques de Palermo - Silvia Helena de Ávila Ballarati

 

“Era um vizinho quase invisível. Eu chegava do trabalho às 20 horas e, às vezes, o encontrava no hall do elevador. Eu entrando, ele saindo.  Ambos com pressa. Ninguém sabia qual o seu ganha-pão e não havia motivo para se especular sobre a vida dele.  Não comparecia às reuniões de condomínio, é verdade, porém não reclamava de nada e pagava pontualmente suas contas, segundo o sindico e os zeladores.” – Strike – Suzana da Cunha Lima

 

EXERCÍCIOS:

1 - Se você fosse contar uma história, como seria ela? Aproveite um desses exemplos, inserindo-o em sua história

 

2 -  Utilize outro exemplo, de outro autor, para criar OUTRA história.

Não use o trecho de história de sua autoria.

Use sempre o trecho completo que um colega criou, pode ser na abertura, no meio da sua história, ou como desfecho de seu conto

ERA DUAS VEZES O BARÃO LAMBERTO - OBRA DE GIANNI RODARI - EXERCÍCIOS




Era duas vezes o Barão Lamberto

 de Giannni Rodari

No meio das montanhas fica o Lago Orta. No meio do lago, mas não bem no centro, fica a Ilha São Júlio, e dentro da Ilha de São Júlio fica mansão do Barão Lamberto, um senhor muito velho (ele tem 93 anos), ele é muito rico (ele tem 24 bancos na Itália, na Suíça e em Hong-kong etc), e que vive doente. Ele tem 24 doenças e só mordomo Anselmo se lembra de todas elas. Elas estão anotadas no caderninho em ordem alfabética: arteriosclerose, asma, atrofia deformante, bronquite, cistite e assim por diante. Até o z de zonzeira.  Ao lado de cada doença, O mordomo anotou os remédios para tratá-la, as horas do dia ou da noite em que devem ser tomados, os alimentos permitidos e os proibidos, as recomendações médicas: "Regular o açúcar que ataca diabetes", "Evitar emoções, as escadas, as correntes de ar, a chuva, o sol, a lua"... De A a Z, Lamberto padece de tudo um pouco.

Quando chega o Inverno, os velhos ossos do Barão têm por hábito ir apanhar o sol do Egito. É lá que se dá o encontro com o curandeiro árabe que lhes fornece a cura para todos os males do velho. “O homem cujo nome é pronunciado permanece vivo”.

Então, um belo dia, chegaram a sua mansão mais seis empregados, contratados por um alto salário para ficar dia e noite repetindo o nome do barão. O trabalho era simples, mas muito, muito estranho! O segredo guarda-se no sótão, onde passam a viver umas quantas criaturas contratadas exclusivamente para invocar, dia e noite, o santo nome: - Lamberto, Lamberto, Lambertooooo...

Pelo meio, há um desfile de personagens: É o caso de Otávio, o sobrinho protótipo do escroque que anseia a morte do tio para herdar a grande fortuna,  ou dos 24 bandidos, todos de nome Lamberto, que exigem 24 milhões da fortuna do velho barão.

Pois bem, este livro conta a história do barão Lamberto que era um homem muito velho, muito rico e muito doente, graças a um remédio egípcio muito antigo, vê a sua saúde melhorar consideravelmente, entre outros efeitos surpreendentes.

 

O jornalista e escritor Gianni Rodari (1920-1980), ganhador do prêmio Hans Christian Andersen, foi considerado um dos melhores escritores de literatura infantil, Neste livro aprendemos que as palavras são, afinal, brinquedos. É com estes brinquedos que podemos exercitar o maravilhoso poder de inventar.

 

No link abaixo, você encontrará parte do livro para leitura:

ERA DUAS VEZESO BARÃO LAMBERTO-pt 


EXERCÍCIO: criar outras doenças estranhas para o Barão. Desenvolver um conto onde o Lamberto descobre estranhas doenças que o fazem mudar a rotina.