OSWALDO ROMANO - VÁRIAS HISTÓRIAS



RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS



OSWALDO ROMANO




SAPATOS VERMELHOS


                                         
        Quando moça, Julieta era admirada e vista na sua cidade com muito carinho, era até invejada pelas moças.

        Linda, esbelta e como a vedete do teatro, as senhoras da sociedade  olhavam-na com ressalvas.

        Usava o teatro mais velho. Simples,  porém o mais frequentado, deixando o novo e mais bonito às moscas. Neste, as apresentações seguiam severas normas da prefeitura, espetáculos notórios censurados.

        A graça de Julieta era irresistível.  Arrastava o povo para o velho e escuro casarão, mas onde ela iluminava o palco.

        Os mais idosos que se mostravam reservados, frequentadores do novo teatro não se aguentavam. Estavam ávidos para saber como era o pulo do gato, para tanto sucesso.
        Mas o tempo não perdoa. Julieta a mulher dos mais lindos requebros, envelheceu. As crianças do novo tempo a tinham como a bruxa que morava no acabado sobradão da praça da igreja, e que a noite gritava.

        Jogando pedras que alcançavam a desgastada janela de vidros opacos e trincados pelo tempo, provocavam seu descanso, obrigando-a aparecer. Sabia que receberia uma chuva de pedras, mas precisava acalmá-los:

        — Meninos! Meninas! Por que querem judiar desta pobre e velha mulher que hoje faltam-me forças até para me levantar? Por quê?
        — Por quê? – disse em voz alta uma menina. — Porque falam que é uma bruxa. Tem o olhar verde de gata com unhas afiadas. Agredia os homens. Coisa de bruxa... Bruxa mesmo! -  reforçavam as meninas, gritando como moleques.

        Veio a chuva. Recolhidos, deixaram de aborrecer a bruxa, por dois dias. Mas assim que se reuniram, lá estavam eles, atirando suas pedrinhas.

Ela não deu sinal de vida. Perguntaram ao sapateiro que trabalhava numa garagem ao lado:

        — Moço, a velha se mudou? 

 Ele respondeu sem levantar a cabeça. 

— Não, não, está ai.

        Pedrinho, o mais levado, resolveu comprovar. Subiu as escadas. A porta não tinha fecho.  Entrou. A velha vedete estava de costas, sentada na cadeira de balanço. Olhava fixamente para a janela. Pedrinho bateu com os pés nas taboas soltas do assoalho. Ela não se mexeu. Bateu de novo várias vezes. Nada! Ficou apavorado. Deu no pé. Desceu saltando degraus, apareceu correndo, gritando e correndo levou consigo todos os amigos.

        O velho sapateiro,  que ostentava vasto bigode, com seu avental todo manchado de tintas, levantou-se, foi ver o que acontecia.

        A velha vedete, calçada com seus sapatos vermelhos, estava morta.





PARECIA BOM



Há muito não o via!

        Já tinha esquecido como eram convidativos seus olhos! Nem mais me lembrava como era cativante sua voz! Esqueci quase completamente do carinho que ele sabia dar.

        Estávamos namorando há dois anos.

        Bicicletas nos levavam a deliciosos passeios nos parques, e quando motivados, o que era constante, por trilhas mata adentro. Só de pensar nelas vinha um sentimento de aventura, coberto de muito prazer.

        Nas picadas que desviavam das trilhas, já conhecidas, uma foi  escolhida naquele dia era o desvio que nos levava ao nosso esconderijo.

        Uma toalha estendida no chão, ali deitados, nossos olhares perdidos no espaço, cobriam os pensamentos desencontrados.

        — O que será que tem dentro da sua cabeça? Eu pensava! Como gostaria de poder entrar nos seus segredos, nesta hora. Estaria voltado para outra?

        Com dois anos juntos, já lhe escapava aquele apetite do ataque sexual.

        Então, tomando à dianteira, investi sobre ele cobrindo-o de beijos e carinhos.

        Meses depois ele comprou um carro. Foi um chega p’ra lá das nossas pedaladas. Mas tudo mudou. O carro o levou, sei lá p’ra onde...

        Na lembrança que sinto agora, vejo vagamente onde errei. Fui eu quem ensinou os caminhos dos esconderijos.







A ALMOEDA E O LEILOEIRO


                                            
        Anselmo era benquisto na cidade por uma qualidade muito simples.

        Todo ano, ele com suas cinquenta primaveras, era convocado para ser o leiloeiro oficial da grande festa de Santo Antônio. Todavia neste ano esperava ser esquecido, pois vinha sentindo fortes dores no braço direito, sua melhor ferramenta.

        Era com essa ferramenta que envolvia os compradores, levando-os a disputas que emocionavam os presentes. A maioria dos deles não era aficionada a compra na almoeda, mas compareciam porque vibravam nesse circo, aplaudindo cada lanço.

        Não adiantou, era carta marcada. Chegou o esperado dia e Anselmo quando subiu no elevado tablado, destinado a figura principal do leilão, mesmo antes do seu boa noite, foi carinhosamente ovacionado.

        Falando pausadamente, fez uma preleção da importância da ocasião e se intitulou porta voz dos agradecimentos das crianças que seriam beneficiadas com o evento.

        Hoje precisava se afastar. Motivava seu afastamento, sua voz rouca percebida logo cedo. Culpou os inúmeros remédios e o fétido cheiro da emplastação aplicada na noite anterior no ombro, braço, e axilas. Assim chegando, surpreendeu sua claque, contando seu sofrimento, justificou porque não poderia conduzir o leilão. Ouviu o pesaroso lamento dos presentes, liberando a lágrima que continha.

        Passou a palavra ao segundo leiloeiro e puxando uma cadeira sentou-se ao lado. Prontificou-se abrir todos os lances.

        Era o principio do fim do grande homem da almoeda.




MARIA VERÔNICA AZEVEDO - VÁRIAS HISTÓRIAS

RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS


MARIA VERÔNICA AZEVEDO




O SONHO SE TORNA REALIDADE. SERÁ?
                

        Rosália, a princesa, era a caçula de três irmãs. Era dona de uma beleza singela com pele muito clara, olhos escuros, nariz delicado e cabelos ruivos sempre amarrados por uma fita azul, atrás do elegante pescoço. Embora fosse um pouco tímida, tinha uma fisionomia constantemente alegre. Seria a última a se casar. O rei, esperava pelo aniversário de dezoito anos da filha.

        Estava prometida para o monarca do reino vizinho. Ela ainda não o conhecia, mas assim mesmo sonhava com uma imagem criada em sua mente romântica. Em seu sonho o noivo era um rapaz alto e elegante, com um porte altivo, porém bem simpático, com olhos verdes e belos cabelos castanhos. Com certeza seria um bom cavaleiro e a ensinaria a montar para que o acompanhasse em elegantes caçadas.

        Chegou o dia do noivado. O castelo amanheceu em clima de festa para receber ilustre convidado. Finalmente conheceria seu noivo. A governanta ajudou a futura noiva a se preparar com um deslumbrante vestido verde água com detalhes em renda branca e fitas de veludo de um verde mais vivo. A fita azul, que sempre usava nos cabelos, foi trocada por uma fita branca. Nos pés, delicadas sapatilhas de veludo verde escuro. Para finalizar, em seu delicado colo, uma corrente de ouro com um camafeu de marfim, lembrança de sua mãe. A governanta, ao lado de Rosália, que se mirava no majestoso espelho de moldura dourada, admirou-se com a formosura dela:

        — Você está deslumbrante!

        A moça estava distraída, como se estivesse sonhando, mas ao ouvir o tropel dos cavalos correu para a janela e se debruçou para ver a frente do castelo. Já estava lá uma comissão de recepção aguardando o visitante.

        A princesa saiu do quarto, toda afobada e desceu as escadas de mármore, correndo com a saia suspensa pela mão esquerda enquanto a direita apoiava levemente no rico corrimão de latão reluzente.

        Ainda chegou à entrada do castelo, antes da carruagem que trazia seu tão esperado noivo.

        Poucos segundos depois a carruagem parou e o lacaio abriu a porta.
        Tomada pela emoção, Rosália viu surgir, saindo da carruagem, ricamente trajado, um sisudo senhor de baixa estatura e muito gordo, que seria, com certeza, mais velho que seu pai.

        Rosália desmaiou.





DORA



       
        O telefone tocou no meio do dia.

        Ana atendeu com o pensamento distraído devido ao ritmo estonteante do seu cotidiano lidando com cinco crianças de idades que variavam entre 14 e 7 anos. Estava afobada, pois já era hora de levar os maiores à escola.

        Do outro lado da linha ouviu a voz chorosa da sogra.

        - Ana, por favor, me ajude. Eu não consigo mais lidar com o Octávio.

        - O que houve?

        Como resposta só choro. Ana olhou para Carlos com o telefone nas mãos.

        - É sua mãe e está chorando.

        - O que posso fazer?

        - Diga a ela que você vai lá agora ajudá-la.

        Ele pegou o telefone e falou com a mãe. Quando desligou não sabia o que fazer. Não adiantaria nada ir lá.

        - Você vai lá, faz uma mala de roupas e trás os dois para cá.

        - Mas como? Onde vamos acomodá-los?

        - Pode deixar que a gente ajeita.

        Assim foi. Enquanto ele foi buscar os pais idosos, Ana, depois de levar os filhos para a escola, fez uma revolução no quarto do filho mais velho para ceder o espaço aos avós.

        A partir desse dia, os três meninos dividiriam o mesmo quarto. Aquele arranjo logo se tornou definitivo.

        Com isso, todo o serviço se ampliou na casa: mais lugares na mesa do almoço e do jantar e principalmente mais roupas para lavar e passar.

        Ana saiu em busca de ajuda. Conversando na vizinhança encontrou Dora. Uma senhora bastante simpática, mineira animada e muito ágil no cuidado com as roupas, logo se afeiçoou às crianças. O caçula, ao chegar da escola, entrava correndo e ia direto à lavanderia pular no colo dela.

        Um dia Dora contou que gostava muito de fazer bolos e quitandas. Ana propôs que ela fizesse um bolo de aniversário. Ficou delicioso: chocolate com recheio de coco e cobertura de brigadeiro.

        Ana se entusiasmou e abrindo uma gaveta na cozinha, tirou um caderno de receitas de sua mãe que também era mineira.

        — Este caderno está aqui guardado esperando alguém que o use. Foi de minha mãe. Você quer experimentar?

        — Dora parecia constrangida e não pegou o livro de receitas. Ficou por alguns segundos pensativa e depois disse:

        — Eu não sei ler.

        Ana, pega de surpresa, não sabia o que dizer. Apenas guardou o caderno do novo na gaveta e não falou mais nada.

        Na mesa do jantar, comentou com a família o fato de Dora não saber ler.

        O filho mais velho ponderou:

        — Mãe, A gente pode ensinar a Dora a ler. Eu vou falar com ela.

        Assim fez. Dora se recusou a receber as aulas. Dizia que não tinha mais idade para isso. Já tinha cinquenta anos e nunca tinha ido à escola e isso não lhe fazia falta.

        O rapaz argumentava:

        — Você pode descobrir muitas coisas interessantes nas revistas e nos livros. Eu posso emprestar meus livros para você.
        — Não, menino. Eu agradeço, mas não preciso disso não. O que eu conheço do mundo me basta... e tem muita coisa no mundo que eu não gosto não.

        Nem a interferência da Ana adiantou.

        Dora continuou por 23 anos cuidando de toda a roupa da casa até o final de sua vida sem leitura e sem mudanças.




COISA DE CRIANÇA





A casa das palmeiras, como era conhecida, foi construída numa região nobre da cidade de Santos em 1889. Ficava numa esquina da Avenida Conselheiro Nébias, no bairro do Paquetá. As plantas arquitetônicas assim como os vitrais coloridos de suas janelas vieram de Paris. Logo que a casa ficou pronta, Georgina e sua mãe Isabel, se mudaram para o palacete construído por seu pai Pedro de Souza Aranha, ela tinha então apenas quatro anos de idade e lá morou até 1929.

            Um ano depois nasceu sua irmã Adélia.

            Georgina e Adélia cresceram ali em meio a muito conforto convivendo com pessoas proeminentes da cultura literária como seu tio o poeta Vicente de Carvalho, que ali morou por alguns anos, acompanhado de sua mãe Augusta, avó de Georgina e Adélia.

            Georgina tinha uma personalidade forte, um porte altivo e um belo rosto. Falava pouco, mas não se furtava a uma conversa sobre literatura ou política.

            Casou-se em 1905 com um rapaz escolhido por seu pai, como era comum na época. Ela gostava de outro em segredo, mas em nenhum momento isso foi considerado. O casamento foi um acontecimento na cidade de Santos devido à grande pompa. Era o que se podia esperar de uma filha de Pedro de Souza Aranha.

            Adélia não tinha beleza, mas era uma criatura doce, dedicada ao piano. Embora fosse muito tímida, era alegre e espirituosa. Adorava crianças e era correspondida. Nunca se casou. Era muito querida pelos sobrinhos e depois pelos filhos desses, que estavam sempre aos seus pés junto à cadeira de balanço para ouvirem as histórias que contava com extrema habilidade. Ela não precisava de livros. As lendas e contos de fadas saiam de seus lábios com muita facilidade.

            Na casa das palmeiras nasceram os sete filhos de Georgina e Leôncio.

            O segundo filho era muito peralta. Estava sempre recebendo reprimendas de seu pai. Um dia, depois de muito pedir, ganhou de presente uma bola de futebol com a instrução de só jogar com ela no gramado do quintal atrás da casa. O espaço era bem grande cabendo um campinho de futebol com redes de gol e tudo mais. Sozinho no meio de cinco irmãs e só um irmão ainda bebê, ele resolveu convidar os garotos da rua para jogar com ele. Assim encheu o quintal de meninos de todos os tipos. Ao perceber a algazarra, Georgina acabou com a festa. Era inconcebível aquela meninada desconhecida dentro de sua casa.

            Num dia de muita chuva, irrequieto, sem poder jogar bola no quintal, ele começou a chutar a bola dentro de casa, próximo ao canto onde a tia tocava seu piano. Foi repreendido por ela, mas não deu ouvido e continuou com a diversão até que a bola atingiu o rosto dela quebrando-lhe os óculos. A bola foi recolhida pela mãe e ele nunca mais a viu. Mas as peraltices continuavam. Quando era surpreendido num malfeito, corria, subia numa árvore alta e ameaçava não descer mais a não ser que o pai prometesse que não seria castigado. Georgina não sabia como lidar com esse menino incorrigível no meio de tantas meninas. Ele definitivamente não era calmo e razoável como seu irmão caçula. A solução encontrada pelo casal foi levá-lo para o internato dos Beneditinos em São Paulo. Assim foi feito.

            Maria José era a terceira. Uma menina linda, sempre risonha com seus cabelos cacheados e olhos espertos. Aos dois anos de idade foi acometida de uma febre diagnosticada como Poliomielite. Não podia mais andar.

            Em sua infância foi privada da alegria de correr pelos amplos gramados de sua casa. Ela permanecia horas ao lado das janelas de seu quarto observando seus irmãos no jardim e sonhando acordada.  Georgina não se deixava entregar à tristeza de ver sua filha daquele jeito. Buscou ajuda com vários profissionais de saúde e com muito exercício e a ajuda de aparelhos ortopédicos conseguiu colocar Maria José de pé andando. Com o tempo, ela se libertou dos aparelhos, mas conservou o uso da bota de couro que chegava até os joelhos. Tinha um andar claudicante, mas isso não a inibia. Dedicou-se a ler tudo que podia e para isso seu pai providenciou uma boa biblioteca. Era inevitável que se interasse em escrever e assim tornou-se uma poetiza respeitada.

            Sobre sua infância ela escreveu:
A mim numa idade em que
ainda não se sabe se a sorte é boa ou má,
o destino interrompeu meus passos vacilantes.
E uma criança que desconhece a felicidade de correr,
É como um pássaro que não voa.

Mas não fiquei amarga não...
O que me faltou em movimento,
Sobrou em sentimento.
O que perdi em ação,
Ganhei em imaginação.

É dela o poema que descreve a casa das palmeiras.

        
A casa onde nasci       (publicada em livro em 1949)

A casa onde nasci se erguia numa esquina.
Majestosa, a se impor, primeira entre as primeiras!
Tinha em si o esplendor da força que domina,
Cercada de jardins, cercada de palmeiras...

Nela três gerações viveram e sonharam.
E o tempo, ao decorrer, não lhe alterou a graça;
Foi sempre a mesma casa em dias que brilharam
Como nas horas negras da desgraça.

Como um tronco cai na floresta bravia,
Altivo sem gemer, numa queda sombria,
Sem temer um só golpe, a resistir à morte,

Nossa casa ruiu... Sem vergar, altaneira.
Ela foi até o fim, serena e hospitaleira,
Tal como o dono seu nos embates da sorte!


            Em 1929, a família mudou-se para uma moradia menor no bairro do Embaré. A casa das palmeiras passou a abrigar o Centro de Saúde da cidade nos próximos 15 anos.

            Nesta nova casa Georgina, permaneceu até os anos 60. Ali recebia seus 19 netos e 20 bisnetos com muita discrição, mas com carinho e um sorriso alegre quando chegavam.

            Mas mantinha-se sempre serena não importava o que de mal pudesse vir. Nunca a ouviram lamentar a perda de sua bela casa. Nos últimos anos foi morar num apartamento, mas de frente para o mar que tanto amava. Quando já tinha 84 anos de idade, morreu seu segundo filho, ela permaneceu, no velório, muitas horas impassível, rezando ao lado dele. Ao se aproximar uma neta para beijá-la e perguntar como estava, ela falou com uma impressionante serenidade:

             - Eu perdi minha mãe e meu pai. Perdi minha única irmã e meu marido. Mas nada se compara à dor de perder um filho.

            Ali ficou até a hora da missa de corpo presente rezada na capela do hospital onde ele tinha sido um médico sábio e muito respeitado. Não foi ao enterro.

            No cotidiano, ela conversava com todos, sempre acomodada em sua cadeira de balanço austríaca, ainda remanescente da mobília que trouxera da casa das Palmeiras. Ninguém a ouvia falar do passado.  Preferia sempre conversar sobre as últimas notícias culturais ou sobre política.

            Às vezes saia para fazer visitas para amigos e parentes. Ia sempre de bonde elétrico. Nunca se esquecia dos aniversários. Era sempre a primeira a telefonar, logo de manhã. Gostava de se distrair com a televisão e seguia as novelas diárias, muitas vezes mais de uma ao mesmo tempo, trocando os canais nos intervalos. Tinha uma inteligência viva e memória prodigiosa.
            A chegada paulatina dos bisnetos coincidia com o branqueamento de seus cabelos sempre presos em um discreto coque junto à nuca. Não chegaram a ficar totalmente brancos. Ainda tinha alguns fios negros logo abaixo do coque.

            Uma das poucas vezes em que a viram dar uma risada, foi quando um de seus netos pequenos, na época com cinco anos de idade, olhando para ela, que estava lendo um livro de histórias, comentou:

            - Vovó! Você está ficando tão velhinha, tão velhinha, que o seu cabelo está começando a ficar preto de novo.


OSWALDO U. LOPES - VÁRIAS HISTÓRIAS


RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS




OSWALDO U. LOPES


CELULAR NA FILA DO BANCO
DIÁLOGOS - HISTÓRIAS CURTAS

Mamãe, você pode pegar o Raulzinho na saída da escola?
Posso sim. Que boa novidade, desde que você se separou daquele crápula e veio morar conosco, só vive para o trabalho e para o Raulzinho.
Obrigada, tá! Às vezes eu penso que a vida tem jeito, né?
Claro que tem! Por falar nisso aquela mancha roxa que você tinha no pescoço, no café da manhã, tem alguma relação com sua chegada tarde da noite na véspera?
Mamãe!
Você saiu com uma echarpe para disfarçar? Não me diga que foi fazer uma visita para o seu ex. Com tanto homem por ai!
Mãeeeeeeeeeeeeeeeee! Que horror! Que vergonha!
Horror nada, vergonha é roubar e não poder carregar. Pergunta pros políticos.
Mãe eu estou na fila do banco, está cheio de gente, e eu não consigo desligar o viva voz. Te manca tá!





A GOTA D’ÁGUA IRRELEVANTE


        Lá vinha ela escorregando pela folha larga e verde, havia outras, mas ela se achava muito especial. Sem mim, o rio seca, ela pensou enquanto com certa soberba olhava outras gotas d’água que escorregavam também.

        Quem foi mesmo que disse   que o rio é imóvel? Parmênides ou Heráclito? 

E olha ela esbanjando sabedoria, como é que uma simples gota d’água sabia que o rio pode ser considerado imóvel, porque o movimento é ilusório ou nunca o mesmo porque suas águas estão em movimento constante como argumentava Heráclito:

        “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”

        Lembrou até daquele menino, aluno de Agronomia que sentado na margem falava meio italianado:

        “A água vai para onde ela quer e não para onde você quer”, refletindo a ideia de que você não pode dirigir o fluxo de água por sua vontade, porque ela não tem vontades e segue mesmo é as leis da física.

        E a nossa gota d’água onde anda? Soberba e altaneira acaba de descobrir que também não vai para onde quer, mas para onde as leis da matéria a levarem. Bem que tentou se segurar na borda da folha, mas só deu tempo de gritar socorro e cair no fundo de uma linda rosa.

        Oba! Um lugar digno de mim exclamou! Só que outras gotas foram chegando e a rosa se encheu d’água e transbordou.

        A gota caiu no rio e enquanto navegava pensou:

        ─ Heráclito tinha razão o rio nunca é o mesmo. Não sou irrelevante! Sem mim o rio não anda! Bem, é verdade que sem mim inclui milhares de outras gotas d’água, mas a minha parte é só minha.






ANTONIO, O CONSERTADOR


        Antonio sonhava consertar o mundo. Parecia que tinha nascido do verso de Geraldo Vandré “Eu vivo pra consertar” ou para querer consertar porque na prática o resultado era pífio. Parecia coisa de escoteiro, sempre alerta e uma boa ação todo dia. Antonio, porém tinha espírito crítico e embora jovem, vivera muito, calejado sabia das coisas e tinha até medo desse negócio de escoteiro lembrando, temeroso os versos italianos, cômicos embora vulgares. Escoteiros:

Sono dai bambini vestiti da cretini,
Comandaditi da cretini vestiti da  bambini”.

        Mas que sonhava consertar o mundo sonhava. Tinha horror das injustiças ou até melhor tinha delas ódio ferrenho. Gente sem teto, sem terra, sem saúde, sem escola, sem educação (não de modos, mas de leitura, de cálculo elementar), sem comida, em suma, à margem da vida. Tinha também pena das vitimas dos fenômenos da natureza: terremotos, tufões, tsunamis, enchentes, avalanches etc. Grandes cidades sem condução pública de razoável qualidade, poluição, congestionamentos enormes, estradas abarrotadas, filas nos cinemas. Tudo dizia respeito a Antonio e ele queria consertar tudo isso.

        Do jeito que ele encarava as coisas, o conserto tinha que começar bem lá atrás, na criação do mundo, assim só poderia ter sucesso se fosse Deus. Bem no intimo era o que pensava: se fosse Deus teria feito tudo diferente.

        Não deu outra, o Todo-Poderoso cansado daquela lengalenga, tão antiga quanto sua própria obra de criação do mundo, se encheu.

        Podia simplesmente ter pensado, mais um a querer participar do comitê celestial, dane-se que vá para o inferno se entender com satanás. Desta vez, porém, Deus estava irritado e bravo, chamou o anjo Rafael que era o encarregado desse tipo de missão e lhe disse:

        “Você vai lá e vai fazendo tudo que ele quer para consertar o mundo, apenas avise-o das conseqüências das modificações e se assegure que mesmo assim ele as quer. Se ele quiser destruir o universo para começar de novo ai é bom você me acordar e avisar para tomarmos alguma providência, para modificações de pouca monta nem precisa me consultar.”

        La foi Rafael encontrar Antonio que olhava melancólico e emburrado na TV o terremoto do Nepal e apresentou-se:

Eu sou Rafael, anjo do Senhor e estou aqui para te ajudar a consertar o mundo.

        Antonio olhou um pouso espantado, mas não muito, como se já esperasse por aquilo, porque alguém tinha que dar um jeito na terra. Se era para valer vamos começar com os terremotos e tsunamis.

        — Se você quer me ajudar a consertar as coisas, vamos começar pelos terremotos. Vamos acabar com as crostas, fendas e o magma terrestre, vamos transformar a terra numa massa sólida e não essa casca de ovo quebrada em pedacinhos que vocês fizeram.

        — Se este é seu desejo assim será feito, mas devo alerta-lo que isso resfriará totalmente a terra, o eletro magnetismo desaparecerá e os mares se tornarão inviáveis, em resumo a vida tal como a conhecemos hoje desaparecerá da face da terra.

        É claro que Antonio desistiu, optou pelo fim das enchentes, mas foi alertado que sem elas a terra se tornaria seca e inviável para cultivo e a fome bateria na porta, alias já estava acontecendo, mas, por hora a coisa ia devagar.  Nova desistência. Pensou na educação e pediu um sistema educacional que garantisse um ensino bom e de qualidade.

        E lá veio Rafael explicando:

        — Boa e generosa ideia, só que para dar certo precisaria ter começado lá atrás. Na parte material até que se podia dar um jeito, a construção de escolas e belos edifícios não é impossível de se obter de imediato. Mas, você sabe Antonio prédio sozinho não ensina ninguém. Precisa de professores e muitos. Você tem que formá-los e paga-los razoavelmente de forma a que se interessem pelo que fazem, caso contrário nada feito. Esse passe de mágica, nem o Todo-Poderoso consegue.

        Nova desistência e novas idéias e assim foi, ao fim Antonio entendeu que não ia conseguir mudar o mundo e, acreditem, desistiu. Desistiu tão alto que Deus acordou e pensou:

        — Bem, menos um para me encher o saco.

        E Antonio? Começou a pensar mais em concertos do que em consertar. Experimentou umas pingas de Salinas e não deu outra, quando vinha vontade de consertar o mundo afogava a vontade numa boa cachaça e num toque de viola.