FEMINISMO ENREDADO - Oswaldo U. Lopes






FEMINISMO ENREDADO
Oswaldo U. Lopes


         A história é simples, as reações é que são elas. Captei apenas algumas, deve haver muito mais.

 Um homem perguntou a Deus:

— Senhor! Porque fizeste a Mulher tão bonita?

— Para que você gostasse muito dela!

— Sim, mas então porque a fizeste tão burra?

         E Deus deu a explicação final:

— Para que ela pudesse gostar de ti...

         Nossa história termina aqui. A seguir algumas reações encontradas:
— Eu sabia, só sendo muito idiota eu podia gostar de você. Reação de feminista lenta que gosta de passar recibo.

— Agora entendi, Ele achou que só sendo burra ia poder gostar de nós. Machista lento.

— Mas, não fui eu o responsável pela criação. Fala de machista com olho roxo e sem dois dentes da frente que contou a história para uma feminista rápida.

— Maravilha, agora vou reunir os amigos no boteco para comemorar o criacionismo. Sempre suspeitei do QI delas.  Machista lendo a história na poltrona com o controle da TV enfiado nas calças.

Faça da sua vida a melhor vida para se viver. - Maria Amelia Favale





Faça da sua vida a melhor vida para se viver.
Minha História

Maria Amelia Favale



Outro dia ao ouvir certa história fiquei curiosa e interessada em ver como ficaria se eu a reescrevesse do meu jeito pois na minha versão eu salvaria a criança, e tentei uns trechos.

O pai era um homem rude que batia muito no filho. O garoto morava com o pai, forçadamente. O pai tinha uma mulher, mas não moravam na mesma casa. Para as surras não havia limite de força nem risco, ele simplesmente batia como se fosse uma luta corporal com outro homem forte. A coisa foi ficando pesada demais, até que ele foi levado para a casa da madrasta. Pensou que assim se livrasse das surras. Mas, qual o que, as surras continuaram, e agora apanhava dela, e dele.

Apesar de pequeno ainda, o menino resolveu fugir. Traçou um plano e naquela mesma noite se escafedeu. Não tinha rumo, nem paradeiro. Foi morar na rua.

O mais intrigante é que ninguém foi procurá-lo, ninguém foi ajudá-lo.

E assim, passou toda sua adolescência na rua dormindo nos fundos da igreja, mendigando.

O padre, via no garoto uma boa alma que nunca teve oportunidade na vida. O jovem passou então a ajudar nas tarefas da igreja, e agora tinha comida, roupas limpas, e um quarto só para ele. O padre descobriu tanto bem naquele jovem, que acabou por adotá-lo.  

Depois de adulto o menino foi procurar a mãe. Não quisesse morar com ela, mas queria salvá-la onde estivesse.

Quando a encontrou ele já era um rapaz cheio de responsabilidades, tinha 23 anos. Ela não quis acompanhá-lo, disse que ficaria onde estava, ali ela trabalhava e ganhava o suficiente para viver.

Ele contou-lhe os dramas na casa do pai, mas  que nunca perdeu tempo, fez vários cursos gratuitos e se tornou um destacado funcionário público.

No trabalho conheceu Marita, filha única de casal de empresários, com quem firmou namoro.

Alugou uma casa, casou. Se tornaria um ótimo pai, apesar de ter tido um péssimo pai. Teria então seu verdadeiro lar, sua verdadeira família.

O SOCORRO PRECISA SER SOCORRIDO - Maria Verônica Azevedo




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O SOCORRO PRECISA SER SOCORRIDO
 Maria Verônica Azevedo  

     
         Um dia ao atravessar a Avenida Nove de Julho, tremendamente movimentada naquele horário, vi, no sentido contrário, uma mulher toda bem vestida que vinha se equilibrando nos saltos dos sapatos altíssimos. Ela não se incomodou em nenhum instante com o risco de atravessar, naquele ponto da via, sem a devida sinalização para motoristas e pedestres. Com feições de alegria plena, ela flutuava pelo trajeto atraindo olhares de todos os lados.

         De repente a anunciada chuva forte despencou, provocando susto e alvoroço. Eu corri e tratei de me abrigar, embaixo do toldo da loja de óculos. E, de lá olhei para a tal mulher que, para minha surpresa, ainda não tinha completado a travessia. Nem a chuva a apressou.

         Foi quando uma ambulância apontou numa das extremidades da via. Vinha em desvairada corrida, fazendo zigue-zague, com sirene ligada e tudo mais.

         Como a mulher não saía da via e continuava seus passos lentos, o motorista não teve alternativa a não ser desviar abruptamente numa tentativa louca de evitar um acidente fatal. Acabou subindo na calçada e batendo a ambulância no portão de uma bela mansão.

         A curiosidade tomou conta de mim. Deixei meu posto de observação e me aproximei da casa atingida.

         A sequência dos fatos eu descobri numa conversa com a copeira da casa. Foi mais ou menos assim:

         A chuva continuava forte. O estrondo assustou a família que estava à mesa do almoço.

         — Maria! Vá lá fora ver o que foi este barulho!  Alarmada, ordenou Consuelo, para a copeira.

         A família, pai Honório, mãe Consuelo e dois adolescentes, Henrique e Patrícia, continuaram placidamente na mesa do almoço.
         Num instante, Maria voltou aos gritos:

         - Patroa! Derrubaram o portão e parte do muro da frente. Foi a ambulância. Está o maior furdunço. Já juntou muita gente.

         — Ambulância? Como pode ser isso? Honório, eu acho melhor você chamar logo a companhia de seguro. Isso vai dar dor de cabeça com certeza.

         — Calma, Consuelo. Primeiro vou sair para ver o que houve.

         Os filhos com seus fones de ouvido, de olho no celular, nem estavam percebendo o que estava por vir. Continuaram comendo calmamente.

         Quando o pai se levantou e saiu apressado da sala, deixando seu prato de comida sem terminar, Patrícia tirou o fone de ouvido e perguntou:

          O que houve? Porque o papai não acabou de almoçar e já saiu?
         Henrique nem se abalava. Estava noutra dimensão.
          Seu pai foi ver o que aconteceu lá fora. Vamos continuar nosso almoço com calma. Tudo vai se resolver.

         Lá fora, na calçada, Honório analisava o estrago. O portão estava todo retorcido. Uma das folhas totalmente no chão, ao lado do muro destroçado.

         A ambulância, parcialmente em cima da calçada, tinha a frente destruída. Em pé na calçada, estava o motorista com a testa machucada, o rosto ensanguentado, o uniforme todo sujo, sem saber o que fazer. Um enfermeiro, com uma caixa de socorro aberta na calçada, tentava estancar o sangue da cabeça do rapaz.  O médico, que vinha na ambulância para atender um chamado de urgência, estava sentado, no que restou do muro, tentando um contato pelo celular.

         — Alô! Aqui é o Dr. Ovídio. A ambulância se envolveu num acidente com vítimas. Não tínhamos atendido ao chamado ainda. Mandem com urgência socorro. Estamos na Avenida Nove de Julho próximo ao cruzamento com a Rua Espéria.

         Com o acidente, o trânsito adquiriu mais lentidão. Os curiosos passavam bem devagar querendo ver o que tinha acontecido. O congestionamento inevitável não demorou. Logo o buzinaço. À medida que os curiosos se aglomeravam em torno daquela cena, tudo piorava.

         Afinal não é sempre que se vê uma ambulância acidentada.

Mulheres que incomodam - Ises de Almeida Abrahamsohn



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Mulheres que incomodam
Ises de Almeida Abrahamsohn



O grito do paramédico:

Emergência! Três facadas no abdômen!

 e o estrondo da maca sendo empurrada pelo corredor fizeram Ângela jogar na pia o copo de café e sair correndo.

Examinou o jovem paciente na maca. Pressão lá embaixo, mas aguentando. O pessoal do SAMU já correra quase um litro de soro. Devia ter sangrado muito para a barriga e agora, por sorte do camarada, estava bloqueado.

A jovem cirurgiã Ângela estava acostumada às emergências desse tipo ali e nos outros pronto-socorros onde dava plantão.

Distribuiu as tarefas em voz alta e clara, sem nervosismo. Era residente de terceiro ano e responsável pela área cirúrgica.

Avisou para a enfermeira que verificava a pressão do paciente:

Vamos usar a sala 3 do centro cirúrgico! Alguém ligue para lá. Material completo abdominal. Uma caixa extra de hemostasia. Confira que chamaram o anestesista. Hoje deve ser o Carlino. Avise que é facada grave.

Júlio, pegue uma amostra para o banco de sangue. Tente a jugular ou a femoral, ordenou ao residente de segundo ano. Você vai entrar comigo. Avise que vamos precisar de sangue e plasma na sala três. Já estou subindo para checar a sala e começar o preparo. Você sobe com o paciente e a maca. Vamos estabilizar a pressão na sala junto com o Carlino.

Meia hora depois, na sala cirúrgica Ângela começava a operar auxiliada por Júlio, mais Ana, a residente de primeiro ano, e o interno que instrumentava, além da enfermeira de sala e, do Carlino. Gostava da equipe e principalmente do Carlino. Era muito competente e tranqüilo, tinha cerca de 50 anos e sempre apoiara a cirurgiã nos primeiros anos. Tinha um leve sotaque italiano, embora já tivesse nascido no Brasil. Angelina, era como a chamava carinhosamente.

Era um caso complicado, mas ela já tinha operado piores. O sujeito tivera razoável sorte. As grandes artérias estavam intactas. Um ramo da mesentérica fora atingido, mas o próprio sangue coagulado e uma alça intestinal tinham bloqueado maior sangramento. As perfurações intestinais podiam ser corrigidas e fariam uma colostomia. Era um jovem e, se não pegasse alguma infecção, escaparia dessa.

Ângela estava suturando alças do intestino delgado quando, aos berros, irrompeu na sala o Mauro, Chefe dos residentes de cirurgia. Começou por acusar Ângela por não o terem chamado para um caso como aquele e em seguida partiu para o ataque pessoal. Que ela não tinha competência para operar tais casos, que a técnica escolhida não era a correta, que ela era relapsa e mais algumas ofensas genéricas contra mulheres na cirurgia e por aí foi.

A médica tentava manter a calma e se concentrar na cirurgia auxiliada pelos residentes mais jovens que bem conheciam os rompantes do Dr. Mauro e sabiam da sua antiga implicância com a competente jovem cirurgiã. O anestesista, porém não se intimidou com o colega insolente e bem mais jovem. Insistiu que o gritão se retirasse porque estava atrapalhando, que a cirurgia estava sendo bem conduzida e calma era necessária para concluir com êxito. Vendo que não tinha apoio de ninguém, Mauro se retirou lançando com voz alterada:

Quando terminar, Dra. Ângela, precisamos ter uma conversinha. Vou esperá-la num dos consultórios.

Falar com o Mauro era o que ela não queria mesmo. Exausta depois das quatro horas de cirurgia, daria apenas uma rápida passada no pronto socorro antes de ir dormir no quarto das médicas. Júlio e Ana dariam conta da rotina de atendimento.

Foi até a copa comer alguma coisa. Enquanto tomava o lanche, lembrou-se de outros desaforos do Mauro. O cara se achava o rei do pedaço. Além de pensar e anunciar, sempre que possível, que era o melhor cirurgião da equipe, também se achava conquistador irresistível. Vivia amolando as enfermeiras e estudantes e anunciando que mulheres não são feitas para cirurgia.

Não sou a única que ele chateia, mas parece que ele mais encarna é comigo. Por que será?

No primeiro ano Mauro já deu sinais de intolerância quando se dirigiu para Ângela de modo inconveniente.

Como foi mesmo, sim, que com a minha pele morena e o meu cabelo eu nunca teria chance na profissão.

Ela não se deixou abater. Sou mulata mesmo.

Ela manteve-se altiva e rebateu que foi com muito orgulho com muito esforço que tinha conseguido se formar. O que fez ele parar foi ela dizer que nenhum chefe cheio de preconceito iria lhe barrar. Quando ouviu a palavra preconceito ficou com medo e foi embora. Eu devia tê-lo denunciado.

Na verdade, ela ainda estava no primeiro ano e não queria criar caso. Das outras vezes ele nunca mais falou da sua cor, mas sempre pegava na alegada falta de capacidade. Eu sei que sou boa, as pessoas reconhecem...chega estou morta são quatro e vinte vou subir. Quatro e vinte, que loucura, vou dormir.

Ângela estava esperando o elevador quando Mauro apareceu.

Estava esperando nos consultórios. Por que não foi? Temos que ter uma conversinha.

A médica respondeu-lhe que estava exausta e que poderiam conversar no dia seguinte, mas o médico não se deu por achado.

É urgente. Não pode esperar. Além disso, é uma notícia boa. Você ficará contente.

A médica olhou-o desconfiada. Notícia boa? Dele? Não acreditava. Repetiu que queria subir ao quarto para dormir, mas Mauro insistiu. Venha comigo.

A contragosto, Ângela o seguiu até os consultórios. Ele indicou a última sala do corredor e fechou a porta ao entrarem.

Ângela perguntou:

O que afinal você tem a dizer de boa notícia?

Não pode falar mais nada. Mauro tampou-lhe a boca e agarrou-a enquanto tentava freneticamente tirar-lhe a roupa.

Minha mulatinha. É essa a boa notícia. Sou louco por você! Maior tesão! Não vá dizer que não percebeu! Vamos lá, uma rapidinha aqui! Ninguém vai ver, nem saber!

Ângela aterrorizada conseguiu abrir a porta e escapar pelo corredor. Tremendo pegou o elevador e entrou no quarto das médicas.

Dessa vez o assediador não ficaria impune! Amanhã registraria queixa.

No dia seguinte, Ângela foi procurar o médico chefe da cirurgia levando consigo a denúncia por assédio e racismo e a descrição detalhada do que acontecera desde a sala de cirurgia até o ataque sofrido. O chefe a ouviu com razoável simpatia, mas a fez desistir da denúncia na delegacia e insistiu para que retirasse a acusação de racismo. Não queria o escândalo de o Mauro ser preso. Seria ruim para o hospital e para o serviço de cirurgia, argumentou. Por fim, Ângela aceitou que fosse realizada apenas sindicância interna.

O resultado final da sindicância, ouvidas também outras mulheres assediadas foi claro: a expulsão de Mauro do hospital. O assediador ainda tentou convencer os membros da comissão de que os episódios eram apenas brincadeiras. E de fato foi expulso! Mas mudou de Estado e continuou trabalhando normalmente.

Anos mais tarde, Ângela encontrou num congresso algumas colegas cirurgiãs daquele Estado. Por acaso o assunto numa conversa ao jantar foi assédio por colegas. E uma das médicas contou uma história de um médico que foi expulso do hospital universitário por ter assediado uma residente. Era o mesmo Mauro atacando de novo. Porém dessa vez a queixa chegou à delegacia e ao CRM.

Esses caras não aprendem, pensou Ângela. Só cassando o registro!


DIAMANTE BRUTO - Ledice Pereira






DIAMANTE BRUTO
Ledice Pereira


Personalidade marcante, machista, exigente com todos que o cercavam, Humberto gostava de se gabar, contando aos quatro ventos como conseguira chegar aonde chegou.

Homem forte, alto, musculoso orgulhava-se de sua própria trajetória.

Herdara aquelas terras (improdutivas) do pai e dos tios que, por sua vez, herdaram de seu avô. Os primos preferiram abrir mão da fazenda que, segundo eles, requeria muita mão de obra e dedicação.

A economia da região baseava-se, então, na agropecuária de subsistência.

O avô ali se fixara, vindo da província de Nazareth, em Portugal, nos idos de 1912. Acostumado a temperaturas mais amenas, escolheu o local por ser uma das cidades mais frias em algumas épocas do ano.

Inicialmente, trabalhou pesado como colono até conseguir trazer mulher e filhos.

Tanta dedicação ao velho coronel lhe valeria uns hectares de terra no testamento do patrão.

Ali viveu com a família, onde os filhos construíram suas casas e constituíram as próprias famílias.

Humberto ali nasceu. Amava aquelas terras localizadas a 390 km da capital baiana, no município de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina.

Ao herdar a fazenda, Humberto, que não era homem de fraquejar, jurou para si mesmo que ia torná-las ricas e produtivas.

Num acordo com um fazendeiro rico, casou-se com sua única filha, jovem, sem graça, tímida, submissa, prestativa. Era o que Humberto queria. Mulher tinha que ser mesmo submissa.

Imagine casar com mulher de personalidade...

A diferença de idade era de vinte anos. Clotilde acabara de fazer vinte anos. 

Acostumada a servir e obedecer ao pai ia apenas mudar de casa.

Era boa dona de casa, qualidade exigida por Humberto. O sogro garantira que a comida feita pela filha era dos Deuses.

Bastava isso. Humberto não acreditava no amor.

Inicialmente, Clotilde vivia com o coração apertado. Sentia-se só. Tinha medo de tudo, de chuva, de trovão, de ruídos indefinidos.

Sentia-se só, mas não ousava sequer reclamar das frequentes viagens do marido.

Para cuidar dos negócios dizia.

Às vezes passava semanas inteiras fora de casa. Voltava dizendo-se cansado, mal a olhava. Trazia a mala cheia de roupa suja. Não raro, ela encontrava peças íntimas femininas no meio daquela bagunça.

Anos se passaram. Clotilde engravidou três vezes. Os filhos nasceram com a ajuda de parteira. Sempre sem que o pai estivesse presente.

A ele interessavam apenas os negócios e a liberdade de ir e vir.

Resolveu investir na produção de vinho. Soube que a região era propícia. Equipou suas instalações com as máquinas mais modernos, contratou mão de obra, os treinou, tornando-se um dos principais produtores de uvas e vinhos da região.

À Clotilde cabia cuidar dos três filhos e da casa.

Quando os filhos atingiram a adolescência, cansada daquela vidinha medíocre, resolveu colocar em prática a ideia que vinha amadurecendo, voltar aos estudos. Enfrentou o marido.

A princípio, Humberto foi contra. Era homem de pouco estudo. Dizia-se formado na escola da vida.

Pra que agora ela quer ir frequentar escola isso num tá me cheirando bem.

Mas ela estava decidida.  Ele teve que concordar.

Ela vai desistir logo logo melhor eu não ir contra.

A maturidade revelou-a uma mulher determinada. Estudava até a madrugada. Terminou os estudos com ótima avaliação. Foi em frente. Preparou-se para cursar a Universidade de Gastronomia. Entrou.

Ali, se destacou. Era sempre procurada pelos colegas que viam nela uma mãe, tornando-se representante de classe. Foi até escolhida para ser a oradora da turma.

Tristeza e timidez deram lugar a alegria e satisfação.

E não parou por aí. Quis trabalhar num restaurante, a contragosto do marido, que intimamente passou a prestar mais atenção nela, admirando-a em silêncio.

Os filhos sentiam orgulho da mãe.

Clotilde tornou-se mais segura de si. Modernizou-se. Sua autoestima ficou lá em cima.

Promovida a chef de cozinha, sentiu-se prestigiada e com sua competência elevou o nome do restaurante.

Através dela, Humberto tornou-se sócio, levando para lá os vinhos que produzia, que tiveram ótima aceitação.

O mundo do vinho começou a lapidar aquele homem, antes tão rude. Teve que aprender a diferenciar tipos de uvas, a colhê-las com delicadeza, a identificar sabores e aromas, a sugerir a melhor harmonização para os pratos ali servidos. Tornou-se quase um sommellier.

Finalmente, rendia-se às qualidades da mulher, admitindo a si próprio que sentia algo mais por ela. Mas não era homem de demonstrar seus sentimentos.
Clotilde percebeu certa mudança no comportamento do marido. Ele parecia mais humano.

Mas também não quis dar o braço a torcer. Aprendera com ele a não revelar o que ia ali dentro de sua alma.



A tática - Ledice Pereira





A tática
Ledice Pereira

Georgette tinha enorme expectativa com a nova vida. Casada há três meses, procurava viver o sonho das histórias de fada que, até pouco tempo, a embalavam. Estava com dezoito anos e pensava que com o casamento estaria livre das implicâncias do pai.

Apaixonou-se por Felipe no primeiro encontro. Ele era lindo, forte, atlético, divertido.

Nos primeiros meses de casado, ele ainda continuou a ser aquele príncipe, mas passado o tempo começou a voltar tarde, sair com amigos, ir ver jogar o amado time de futebol, enfim, já não era mais o mesmo.

Acho que terei que botar minha imaginação para trabalhar. Tenho que trazer o Felipe mais pra perto de mim.

Quebrou a cabeça procurando ter uma ideia brilhante.

Começou por fingir falar ao telefone, sempre que ele chegava em casa. Mostrava-se efusiva como se estivesse num papo interessantíssimo. Desligava como se nem mesmo tivesse notado a presença do marido.

Como ele não demonstrasse curiosidade com a identidade do interlocutor pensou em outro artifício.

Nas semanas que se seguiram passou a sair perto do horário da chegada de Felipe, voltando sempre após se certificar que ele já se encontrava em casa.
Oi amor, já chegou? Desculpe o atraso.

Você estava onde?

Ah, eu não te falei? Fui encontrar uma turma de amigos. Jantei com eles. Você não está com fome, não é mesmo?

Como a cena se repetiu algumas vezes, Felipe começou a ficar com a pulga atrás da orelha.

Com quem será que ela sai tantas vezes e volta tão alegrinha olha como está toda pintada toda arrumada acho que ela está é me traindo.

Ele não queria demonstrar sua insegurança. No entanto, resolveu permanecer mais tempo em casa, deixando de sair com os amigos, para poder controlá-la de perto.

Georgette conseguiu botar um cabresto no maridão sem que para isso tivesse que brigar, fazer cena de ciúme, chorar ou mostrar-se insatisfeita.

Simplesmente usou da inteligência!

O vesgo - Fernando Braga




O vesgo
Fernando Braga

Seu nome era Primígio. Aos 9 anos, aproximou-se da mãe e perguntou o porquê deste nome tão diferente. Ela disse que seu nome seria Aprígio, mas na hora do registro no cartório o pai enganou-se, colocando-lhe um nome parecido.

Desde muito pequeno, os pais e parentes, passaram a chamá-lo de Pri.

Na escola, coleguinhas de grupo escolar, na realidade sempre maldosos, gozadores, procurando defeitos nos coleguinhas, lhe deram o apelido de Migio.

Mas, era Mijo pra cá, Mijo pra lá, o que ele detestava. Chegou a pedir e depois proibir que assim o chamassem, mas quanto mais reagia, mais o apelido grudava.

Talvez seja esta uma das razões para ele, desde pequeno ser bravo, brigão, desaforado, respondão e até segundo alguns, um pouquinho louco. Desenvolveu facilidade para brigas, que topava sempre, não tendo medo, nem de colegas maiores.

Dificilmente perdia briga e quando a iniciava, não sabia parar. Eram chutes, socos, quedas, para todos os lados. Facilmente tirava sangue do nariz de seus adversários. Naquele tempo ninguém usava pau, pedra, canivete ou estilingue para enfrentar o adversário. Pegar pau ou pedra era covardia. Tinha que ser no braço e na perna!

Adquiriu a fama de valente, corajoso, machinho, mas o apelido se mantinha. Depois que sua mãe lhe explicou o erro do pai, a quem tanto amava, passou a “não dar bola”.

Ainda moleque, fez amizade com uma turminha da vila, cujo chefinho deles era um tal de Alaor, moleque ousado, metido, brigão, que tinha um olho torto, o que lhe dava cara de mau. Um dia teve que enfrentar o Alaor e pela primeira vez levou a pior, jorrando sangue de seu nariz. Não esmoreceu, até o dia em que a briga empatou, ambos saíram machucados, mas... amigos.

Com a turminha da vila, gostava de pular muro, entrar no quintal de vizinhos para roubar garrafas, galinhas e as frutas da época. Medo só de cachorro. Fins de semana saiam a vagar pelas estradas vicinais, campos e penetrar nas matas próximas, armados com estilingue e caçarem passarinhos.  Era uma turminha da pesada!

Em um dia trágico, resolveram pegar a rabeira de um caminhão carregado, que vinha desviando dos buracos da estradinha de terra. Quando o caminhão diminuiu a marcha, correram atrás e se dependuraram na carroceria. Após uns 100 metros, o caminhão acelerou e ao passar por uma depressão forte da estrada deu um grande baque, o que fez soltar as mãos de Alaor, que após uma pirueta, caiu em cheio de cabeça, em uma pedra da estrada. Todos se soltaram e foram socorrê-lo. Conseguiram parar um carro que vinha passando, levando-o para um pronto socorro. O colega morreu 10 dias após, por ter quebrado a coluna do pescoço e lesado a medula. Aquilo foi demais!

Primígio nunca havia visto alguém morrer! Ainda mais um amigo!  Nunca mais se esqueceu de Alaor e seu olho torto.

Parou de estudar após o término do ginásio, indo trabalhar com o pai na mercearia da família. O tempo passou, casou-se e teve dois filhos. Manteve o gênio difícil, era bravo, pouco comunicativo, introspectivo.

Talvez relacionado à morte de Alaor, quando via uma pessoa vesga, sentia dentro do peito uma compaixão inexplicável, ficando com dó, triste e até deprimido.

Certa ocasião ao parar em um sinal de trânsito, viu se aproximando um pedinte, que não tinha as pernas e que se deslocava sobre um pequeno carrinho usando as mãos para deslocar-se protegidas, por um pano enrolado. Ao se aproximar do carro de Migio, abriu um sorriso largo, mostrando dentes perfeitos, estendendo uma de suas mãos, pedindo ajuda. Quando Migio olhou na cara do aleijado, viu que tinha também os olhos tortos, era estrábico.

Aquilo foi demais! Ver o aleijado não o impressionou tanto, quanto sua vesguice. Antes que o sinal abrisse, tirou uma nota de 50, entregando-a ao infeliz!  Quando viu a nota, o pedinte ficou olhando-a e não acreditava, uma vez que todos lhe davam moedinhas pequenas e raramente uma nota de 2 reais.
— Deus te ajude! Deus te ajude! gritava

 Este fato se repetiu algumas vezes e já havia pensado em comprar uma cadeira de rodas para o infeliz, mas não mais o encontrava. Tanto atropelamento nesta avenida, será?

Em outra ocasião, em sua casa, ocorreu um vazamento da caixa d´água localizada no forro, “chovendo” dentro da antessala do quarto. Foi demais!

Fechou o registro geral da água e pela manhã, tendo que ir trabalhar, pediu à esposa que procurasse o telefone de algum encanador próximo.

 Ao voltar para o almoço, viu um carro parado em frente da casa. Entrou e sua mulher disse ter acabado de pagar ao encanador, que acabara de sair pelo portão ao lado. Perguntou à mulher se tudo estava bem, quanto tempo gastara ele para efetuar o serviço e ainda, quanto havia pago. Quando soube que ela pagara R$ 1.300.00, achou exorbitante, muito caro por um serviço de hora e meia. Criticou a esposa de ter bancado boba e ter pago tal quantia sem pestanejar. Saiu rapidamente pela porta da frente e muito bravo, pisando em brasas, deu a volta pela frente do carro do encanador ainda presente. Gritou:

— Espera um pouco aí! Quero falar com você!

 Quando se aproximou da janela, o encanador olhou em sua direção e perguntou:

— O que foi,  patrão?

Quando Migio o encarou, o homem era vesgo, bem vesgo.

 Perdeu suas forças, tornou-se repentinamente calmo e disse com voz melodiosa:

— Não! Não! não queria que o senhor fosse embora, sem me despedir! Quero agradecer sua atenção, presteza e serviço bem executado.

— De- me seu cartão, para chamá-lo outras vezes. Muito obrigado, meu amigo!
Entrando, sua mulher perguntou:

— Conseguiu um desconto, seu bravinho?

— Não! Lhe dei mais 100, né?

— Tinha certeza de que você faria isto, o cara era vesgo! Eu te conheço!

Anos após, Primígio em uma queda, bateu fortemente a parte lateral da cabeça e a órbita. As pálpebras do olho esquerdo incharam, ficaram roxas, tapando toda a visão deste lado.  Quando a pálpebra desinchou, sua mulher lhe disse que o seu olho esquerdo estava torto para dentro. Bem que ele havia percebido que sua visão não estava normal, vendo tudo embaçado e duplo.

Imediatamente foi se olhar no espelho, mas, como via tudo duplo, não deu para ver o olho torto. Ficou desesperado! Ficar vesgo? Tudo menos isto! Não suportaria!

Foi a um oftalmologista que disse ter ele tido uma paralisia do nervo que mexe o olho para fora, podia ser passageiro. Se não voltasse ao lugar, podia fazer uma operação para corrigir. Muito aflito, agarrou o médico pelo avental, perguntando se não podia fazer a cirurgia no dia seguinte. O médico indicou um tratamento ortóptico.

Ficou muito depressivo, angustiado, com o saudoso amigo Alaor não saindo da sua cabeça. Após dois meses seu olho voltava à posição normal. Ainda bem!

Ajoelhada a mulher rezava, preocupada em ir logo à Aparecida, cumprir promessa! Graças à Deus!