O BOM DE CONVERSA - Sérgio Dalla Vecchia



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O BOM DE CONVERSA
Sérgio Dalla Vecchia

Porto de Santos era o local mais apropriado para interceptar turistas e imigrantes aportados da Europa em busca da felicidade tropical.

Fininho, conhecido corretor de imóveis na região, bom de conversa, simpático e demonstrando confiança, abordava os recém-chegados.

Era um gentleman, indicava hotéis, pensões e o que mais lhe solicitassem.

O público alvo era o dos mais abastados com dinheiro disponível para investir em novos negócios.

Por não conhecerem o Brasil, acabavam caindo na lábia do Fininho, enquanto o conhecido artigo do código penal 171 era transgredido sem o mínimo pudor.

A tática era aplicar golpes no dia do desembarque aproveitando o encantamento das pessoas. Assim que embolsasse o dinheiro sumia por uns tempos até a chegada do próximo vapor.

Tudo ia bem até que certo dia aportou uma família de italianos composta do casal e uma filha moça.

Fininho com seu infalível faro se aproximou. Entrou com a conversa de sempre e logo todos já estavam relaxados encantados com a conversa empolgante. Os sorrisos mortos na viajem ressuscitaram.

Wanda, moça dos olhos grandes, ressabiados de esguelho enquanto firmes e esperançosos pela frente.

Pela primeira vez Fininho sentiu uma emoção incontrolável quando seu olhar encontrou o de Wanda. Ele penetrava de tal forma que no transcorrer do golpe o fez gaguejar por várias vezes. As palavras divididas em sílabas ficaram congestionadas nas cordas vocais e eram liberadas uma a uma apenas nos instantes de lucidez.

As mentiras lutavam desesperadamente para fluírem nos lábios de Fininho, até que dado instante ele se viu totalmente travado e acabou desistindo de aplicar o golpe.

Wanda percebendo o dilema logo perguntou o que havia sucedido. Ele encantado que estava, não resistiu a aquele rosto lindo e acabou confessando que era um farsante e que assim que a viu houve uma reviravolta na sua alma que o fez parar.

Wanda atônita, feliz por ter convertido um malandro e ao mesmo tempo preocupada com a família, pois o dia estava findando e não haviam conseguido um lugar para se instalarem. Fininho tomando as dores da moça, fez questão que a família se alojasse na sua própria casa até que conseguissem um outro local.

Assim se instalaram na casa e os dias foram passando.

Cada um se incumbiu de determinadas tarefas, a mãe cozinhava, o pai saia em busca de trabalho e fazia alguns bicos, enquanto Wanda começou a ajudar na imobiliária. Com o tempo já entendia bem a língua portuguesa e assim acompanhava Fininho ao porto servindo como intérprete para os italianos.

A paixão de Fininho era cega, fazia qualquer coisa que Wanda pedisse. Os negócios iam bem, já estava fazendo também negócios lícitos e o sucesso era grande.

A mãe mandava e desmandava na casa, o pai também fazia bicos para imobiliária e Wanda já conhecia tudo sobre os negócios.

Ela esperta que era, logo ficou sócia da imobiliária, tomou posse da casa aproveitando que não havia escritura e como já conhecia bem os trâmites da malandragem, passou a escritura em seu nome.

Foi um caos quando Fininho descobriu a trapaça.

Inconformado pela traição da mulher de sua vida questionou Wanda:

— Por que fez isso comigo, justo eu que lhe dei tudo o que quis?

— Agora você sente na pele o que você fez a vida inteira com meus compatriotas. Pois a vida é assim, aqui se faz e aqui se paga.

— Aviso também para sair da minha casa, pois meu marido e nossos dois filhos chegarão na semana que vem.

— Os golpistas brasileiros começaram a existir no ano 1500 DC e nós italianos já existimos há centenas de anos AC. Você é apenas um aprendiz de golpista. Arriverderci!

Infortúnio - Maria Verônica Azevedo

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Infortúnio
Maria Verônica Azevedo

         Um facho de luz correu da direita para a esquerda, num zás ofuscando os olhos de Sandra. O medo lhe deixava as pernas bambas.

         Ela estava numa enrascada com o irmão Ricardo.

         Eles se viravam como dava, para garantir algum dinheiro: vendiam, no farol, doces que compravam no bar da esquina, perto da entrada da favela.

         Ficavam sentados na mureta perto do poste, esperando o trânsito parar. Àquela hora, já quase dez horas da noite, o movimento já estava fraco, mas eles não desistiam porque ainda não tinham conseguido o suficiente para garantir a janta. A barriga roncava.

         Ricardo, sentado no chão, contava o dinheiro, quando um ciclista passou correndo arrancando as notas da mão dele.

         Apesar do susto gritou:

         ¾ Ladrão! Eu conheço você.

         Sandra aflita correu até o irmão:

         ¾ Quem é ele?

         ¾ Vamos atrás dele lá no cais. É lá que ele faz ponto.

         Assim, ela foi parar atrás das caixas de madeira empilhadas no porto.

         Procurava por ali até ser ofuscada por aquela luz. Quase foi descoberta. Ágil, ela ainda teve tempo de se lançar para trás de um caixote sem ser vista.

         Por instantes sua mente estava repleta de medos e sombras. Respirou fundo em busca de alívio. Quando se sentiu segura, pôs-se a correr.

         Acabou dando um encontrão no irmão. Os dois foram para o chão.

         Quando se refizeram do susto ainda tentaram procurar o ciclista ladrão. Mas nada dele! De mãos vazias, cansados, desistiram da busca e rumaram para o morro. Lá sua mãe esperançosa os esperava. Ao vê-los notou que algo saíra errado. Estava estampado em seus rostos.

         Num gesto espontâneo, abriu seus braços para recebê-los. Aconchego de mãe era o único remédio. Amanhã seria outro dia...

CEGUEIRA HUMANA - Maria Luiza Malina



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CEGUEIRA HUMANA
Maria Luiza Malina

Se esta história fosse minha...

A cor intensa do amarelo perdura noites e dias sem fim. Um Outono que jamais se perdia. Pairava e descansava no ar. Nas asas das borboletas depositava o doce da polinização que se enroscava entre a vegetação sem ser a Primavera. Na gota da chuva ou no floco de neve, sem ser o Inverno, coloria a vida. No suor dos corpos, sem ser o Verão, deslizava provocando frenesi.

Poucos a percebiam. Deleitavam-se no dia e na noite sem a perceberam. Resolveu retirar-se.

Assim se fez. Calada. Olhos na espreita, semicerrados para não se contaminar. O caos. Em pouco tempo a contaminação foi geral. Esquecera-se da caixa de Pandora. Como pudera deixar-se ludibriar. Não poderia deixar que o ingrediente que enfeitava a vida de todos, embora não a vissem, lhes faltasse. Os dias que se seguiram, de áspero sabor assombreado, denotava e insatisfação. A decisão não fora a melhor. A contaminação havia sido geral e momentânea, como uma anestesia. De um a um, de casa em casa, de flor em flor, de matas em matas, de rios em rios, de ventos, nuvens, trovoadas, tremores e temores – nas asas do Amor das poucas e tênues borboletas, despertou o amarelo no interior de cada ser, persistindo que a esperança e o mundo melhor existem dentro de cada um e, assim a Felicidade e o Amor soterraram os efeitos da caixa de Pandora.

“Começou sua jornada num campo louro...”(A lenda do amor eterno) Suzana da Cunha Lima.

O livro do Nada - Maria Verônica Azevedo



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O livro do Nada
Maria Verônica Azevedo

         Todas as tardes eram iguais. Antonieta aquecia o seu almoço no micro-ondas, sentada sozinha à mesa da copa em frente ao prato. Não tinha nenhum apetite. Aquela comida, preparada às pressas pela faxineira, não tinha nada de apetitoso... Pudera. As restrições alimentares eram tantas que não davam espaço para a imaginação da gentil Joana. Na sua boa vontade acabava fazendo sempre aquele arroz com feijão e frango.

         Terminado o almoço, Antonieta saía para caminhar. Indicação médica. Não tinha uma direção intencional. Tarefa maçante. Todo dia aquela mesmice.

         Mas naquele dia, ao virar a primeira esquina tropeçou. Só não caiu porque se apoiou na árvore. Ao se equilibrar de novo, percebeu o banco de pedra entre as árvores. Pensou em descansar um pouco. Foi naquela direção. Já ia se sentar quando viu o livro caído no chão.

         Pegou-o. Era pequeno, capa vermelha, uma imagem na frente: o desenho de um círculo colorido com figuras estranhas que pareciam girar. Era uma mandala.
         Ela conhecia as mandalas. Em sânscrito simbolizam o universo ou completude.  O entrelaçado de formas auxilia a meditação e a procura da paz interior.

         Curiosa, Antonieta começou a movimentar o livro. Com o movimento, ela percebia novas formas. Uma magia.

         As páginas a princípio estavam todas em branco. Não contavam nada. Nenhuma história.

         Ela ficou decepcionada. Quantas coisas interessantes poderiam estar naquelas páginas.  À medida que folheava o livro suas memórias se tornavam presentes.

         Ela revivia momentos tristes e felizes com a sua imaginação.

         Ali ficou até o final da tarde. Acabou levando o livro para casa.

         Dali em diante suas tardes não seriam mais vazias. Ela escreveria suas memórias.

NA TRILHA DAS FORMIGAS - Maria Luiza Malina



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NA TRILHA DAS FORMIGAS
Maria Luiza Malina

Se essa história fosse minha, seria assim...


Ouvia-se morro abaixo e morro acima a gostosa gargalhada de Tio Vicente. Não era para menos. As “gaviotas” da cidade chegaram para as longas férias de verão.

Não era para menos. O sítio, tornava-se pequeno com tantas crianças, produtivo esbanjava aconchego para todo o dia, noites de lua cheia com o pisca pisca dos vaga-lumes e o aroma do jasmim. Era o único da região que tinha luz própria e água encanada nos anos cinquenta. A água chegava à casa pela roda moinho, enooorme de grande, que girava sem parar à beira do rio.

Este era o cenário entre o capim touceira sobreado por altíssimos eucaliptos sombreando o pasto. Águas calmas corriam sobre pedras e, aí mesmo pescávamos lambaris e uma “pinguela” feita de um tronco de árvore, ajudava na travessia.

Um lugar era proibido. De uns trinta metros abaixo, chegava o som estrondoso em ritmo obsedante de tambores indicando perigo, protegido por extensa vegetação. A curiosidade era latente. Mal sabíamos que éramos vigiadas. Não me recordo de quem fora a ideia: - “ Vamos seguir esta pequena trilha, deve dar lá” – assim fomos pulando com medo de cobras e sapos, coisa de gente da cidade. De repente ouvimos –“Ôpa ôpa, onde vão as gaviotas? ”  Um vulto com um cajado nas mãos, era o Tio Vicente – “Ufa que alívio” – alguém com coração pela boca retrucou ofegante – “ Queremos ver onde vai dar a trilha. ” A desculpa fora unânime. Achegou-se. Olhava, olhava e deu uma risada gostosa – “isso é trilha de formiga cortadeira de ferrão muito forte” - e, depois de retrucarmos que não vimos nenhuma, explicou que, só aparecem no fim da tarde e trabalham a noite toda, uma ou outra retardatária é que provoca estragos no pé e, descalças é um doce para elas. Aliás vocês já perceberam que quando uma encontra a outra, dão uma paradinha e seguem adiante, sabem o que é? – Balançamos a cabeça em um não. Via-se na face trincada pelo sol a sabedoria de profundos enigmas – o que seria! Ouvia-se o clic-clic de algum inseto viajador, tamanho silêncio e, o segredo – feronomias. As formigas possuem antenas retráteis, já visualizávamos a televisão com Bombril na antena, e as utilizam para investigar o que aparece pela frente, comunicando –se pela liberação desta substância de nome complicado, mas na picada elas liberam um ácido, por isso é que dói tanto. Mas tem outra coisa enganadora; essa trilha vai direto à entrada do formigueiro, se é lá que vocês querem ir, então sigam, mas, percebam uma coisa, elas são tão sabidas que cada formigueiro tem três bocas e três trilhas, então cuidado para vocês não se afastarem do sítio, isso vai looonge!

Depois disso, cabisbaixas revelamos o intento. Ir atrás do ruído do rio.

— No Poção! – Batia forte o cajado, espanta cobras, no chão - Eu sabia que era isso, mas levo vocês, é mais traiçoeiro do que a trilha das formigas. À propósito, já que vocês têm tanto interesse onde vai dar a trilha, vocês podem me ajudar – estou à procura da boca do formigueiro que está acabando com a horta da Tia Nena, mas como eu disse elas só saem para trabalhar no final da tarde, assim cada uma vai colocar um pouco de fermento em pó na entrada.

— Eca! Fermento de bolo?

— Sim, porque vamos espalhar bem, com cuidado e com botas, em cima delas, na trilha e na volta para casa elas vão levar nas patinhas ou na cabeça o fermento para dentro e... tá aí outro segredo: matamos a rainha. Ninguém consegue chegar até ela. Mas com a umidade das folhas que já estão lá dentro, o fermento vai crescer – como no pão e o bolo vai crescer – e então... mata a rainha.

— Como! Então não podemos mais comer pão e bolo?

Aquela risada gostosa jamais esquecerei:  — Não, não! Isso é só para as formigas. É um controle com produtos naturais como o cravo, louro e outros mais. Não usamos inseticidas. 

Seguimos para nosso destino.

O pai deu uma risada gostosa. Seguimos para nosso destino. Procurávamos um escondido formigueiro que vinha há várias noites dizimando a horta da Nena. Mato rasteiro, nossos pés se escondiam no meio do capim touceira que com o vento constante nos morros, ventos que uivavam como lobos secando a lua”. (Formigas no morro – Oswaldo Romano)

Vou para qualquer lugar onde você não esteja - Maria Verônica Azevedo




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Vou para qualquer lugar onde você não esteja
         Maria Verônica Azevedo


         Naquele final de tarde, João, cansado do trabalho, chega distraído. Mecanicamente, vira a chave na fechadura e empurra a porta. Percebe que chutou algo. Só então vê o envelope que estava enfiado ali. Tinha só o nome dele e nenhum selo. Reconheceu a caligrafia: era da Rita.

         Atirou a pasta sobre o sofá e sentou na poltrona segurando pensativo o envelope: o que ela queria agora...?
        
          “João,
          Desculpe o desencontro da última sexta. Esperava poder chegar a tempo, mas o trabalho me segurou até tarde. Quando cheguei ao restaurante, você não estava lá. Imagino que cansou de esperar. ”

         Com a folha de papel nas mãos, João olhava para o bilhete com um sorriso enigmático nos lábios. Depois de alguns segundos, levantou-se e foi se acomodar na escrivaninha. Puxou um bloco de cartas e escreveu:

          “Rita,
          Não precisava se dar ao trabalho de escrever. Como da outra vez, você me deu o cano. Só que desta vez foi diferente. Estava eu sentado esperando você, quando uma menina afobada entrou correndo derrubando tudo.  Ao acudi-la, notei como era interessante. Passamos o final de semana nos consolando um ao outro. Ela estava fugindo de um sujeito inconveniente.
          Agora estamos juntos e vamos para qualquer lugar onde você não esteja.”

UM DIA, UM CACO DE VIDRO - MARIA LUIZA MALINA



TEXTO ENVIADO PARA CONCURSO ESCREVIVER 2018



Um dia, um caco de vidro

Maria Luiza Malina

Já passava da meia noite estrelada, que anunciava a entrada de um novo ano, talvez as estrelas ou a noite nem sabiam se estariam fazendo parte de algum acontecimento importante naquele pequeno planeta.

O fato é que Maria Cristina nos seus 23, suspirava pelos quatro cantos do jardim. Um grande amor havia se partido. Um grande vaso de cristal havia se quebrado. Muito magrinha, os longos cabelos cobriam-lhe as costas imitando um negro manto. No jardim, na escassez das pequenas lanternas, a silhueta meiga era agora nada mais do que algo estranho olhando para o infinito, cantarolando a música da época dos anos sessenta, remetendo a um chamado longínquo “Marcianita branca ou negra, gorduchinha, magrinha, gigante serás meu bem...”

As mãos entrelaçadas imploravam a vinda de algum marciano “venha buscar-me, estou pronta” lágrimas e lágrimas escorriam pela meiga face. Acreditava fortemente que, alguma coisa aconteceria. O transe. Na verdade, o que ela queria mesmo era morrer. As ondas cerebrais estreitamente ligadas à matéria e à energia emitiam uma vibração que só ela captava. Um chamado. Tudo parou.

Dos olhos molhados viam-se agora dois faróis enormes a iluminarem a direção em que olhava. Os cabelos esvoaçam causando cócegas. O longo vestido seguia o balançar do corpo em êxtase. Um riso histérico. Um chamado. Tudo parou.

Lá está ela. Sem identidade. Deitada na grama tendo o sol a retirar a coberta do sereno por acordá-la. Bocejou looongo. Não era a mesma Maria Cristina do dia anterior. Alegre sentou-se à mesa para a refeição matinal. Substituiu os pães por frutas e muita água. A mãe estranhou as novas atitudes refinadas e de pouca fala. Já não era mais a mesma. Intrigou-se com as perguntas frequentes “quanto tempo falta para escurecer” ou “a noite vai demorar a chegar”... Cansada das atividades da passagem do ano e visitas, não se dera conta de que a filha passara a noite no jardim. Dormiu boa parte do dia e, pouco se alimentou. “É ressaca” desculpava a mãe, tem cura.

A noite chegou com uma demora de 1 hora de atraso, era horário de verão. Se uma folha ao cair muda o todo ao seu redor, imagine uma hora.... Lá estava ela a postos. Rodeada da família em conversas entrelaçadas dos mais diversos assuntos e sons. Aquilo que seria uma simples confraternização começou a embaralhar a cabeça. Saiu de perto. Os passos eram suaves, desviando de coisas e pessoas com muita graça. Sua mãe a acompanhava com olhos. Besliscava um aperitivo daqui outro dali, nada de grandes comidas “é ressaca” pensava a mãe.

O escuro se fez junto ao silêncio. O tempo estava a seu favor. Na casa, todos dormiam, até mesmo a cuidadosa mãe. Aos pequenos e volitantes passos lá se foi Maria Cristina ao encontro vibracional que recompôs a harmonia e o equilíbrio tão devastado pela quebra do grande amor.

Não pensava em nada. Em um instante lá estava. Impávida, leve com a canção à boca. Translúcida, sim era assim que ela aos poucos se tornava, uma imagem desgastada, sem sombra. Um borrão talvez.

Volitava embalada em sua leveza, amada e segura pelas mãos de alguém que bem conhecia, mas não sabia o nome. Deixava-se levar. Eu mesmo arrisquei um piscar de olhos, aprovando sua decisão. A perdi no espaço, confesso ou, foi-me sugerido um torpor de silêncio. Nada mais vi. Tampouco quanto ao seu retorno. Inacreditável.

Na manhã seguinte a mesma cena com a mãe perplexa. O semblante de Maria Cristina brilhava, brilhava. “Esta noite ela não me escapa”, murmurava a mãe com seus botões.

Maria, a linda Maria Cristina passou o dia entre os lápis e papéis, desenhava cidades vistas por cima, plantas exóticas, animais gigantes, figura de humanos um tanto estranha, mapas, planetas e um escuro imenso. Nesse imenso escuro mergulhava e, a cada mergulho seu conhecimento captava tudo com muita facilidade.

A noite se apressou. Nuvens escuras anunciavam um forte temporal. Portas trancadas. Todos se recolheram após o jantar. Inclusive ela. Exausta na sala, a mãe vigilante adormeceu. Isso não seria problema. E assim foi.

O quarto de Maria Cristina tinha uma porta balcão. Abriu-a. A canção chegou-se em forma de esquecimento. Ao seu lado a mão estendida e o convite para o passeio. O brilho dele era tão intenso que, ofuscou minha visão em cegueira repentina, quando dei-me conta ela voava feliz acenando sem olhar atrás.

Na manhã seguinte... O ritual da mesa posta estava sem a presença dela. “Dorminhoca, vou acordá-la” disse a mãe.

Ao entrar no quarto, o clarão repassou-lhe a mesma sensação que eu tive ao vê-lo, fechou os olhos e tudo sumiu.

— Maria Cristina! Onde você está, acorde, levante-se? – gritava a mãe desesperada, pressentindo alguma desgraça.

— Estou aqui mamãe, ao seu lado me vestindo – cantou afetuosamente.

— Se está aqui então me abrace, quero sentir seu corpo – tremulava a voz da mãe.

— Mamãe querida. Estou aqui. Sempre estarei. Sei que estás preocupada comigo. A experiência que tive em sonho ou mesmo vivida, sei lá, pois pareciam tão reais, tornaram tão mesquinhas às minhas diferenças, frente a grandeza do Universo. E eu, imagine só! Achando que nada mais valia a pena. Vou contar tudo o que “vivi”!

Sentia-me uma Wendy na história do Peter Pan. Esperava por ele todas as noites, sentia que ele viria. Sei e vi claramente que existe sim alguns alguéns a mais ao nosso redor e, estão ao nosso alcance, basta sermos e acreditarmos em nosso potencial. Somos todos pequenos deuses.

A mãe sentou-se à cama observando sua menina a se vestir. Ouvindo, adormeceu no conto das viagens entre os planetas, admirando a inteligência da filha, o quanto havia evoluído naquelas férias graças a um caco de vidro, do tamanho de um meteoro, desviado caminho. Acordou com aquela sensação que bem conhecemos – de vida realizada – mas, onde estaria Maria Cristina! 


NÓS E O UNIVERSO - FERNANDO BRAGA - TEXTO DO CONCURSO ESCREVIVER



Texto enviado para o Concurso EscreViver pelo Nhaguibra




Nós, e o Universo
Fernando Braga

       Tendo atingido a quarta fase, também conhecida como a derradeira, pouco espero, do que vem a seguir em minha vida.

       Quando criança, sempre aceitava, o que os outros diziam sobre a vida. Minha religião era a católica, por comodidade. Católico, ninguém vai te encher, é a religião comum do país. Frequentávamos igreja, em batizados, casamentos e missas de sétimo dia. Conhecíamos Jesus Cristo, filho de Deus, segunda pessoa da Santíssima Trindade. O Pai, aquele velho gigante, de barba longa, pele branca, sentado em sua grande poltrona.

        Deus, havia criado todo o universo, em seus mínimos detalhes, todos os animais existentes e Adão, o primeiro homem. Para lhe fazer companhia, retirou parte de sua costela e dela criou Eva. Foram expulsos, quando ela comeu a maçã, da árvore proibida. É o significado do primeiro ato sexual.

       Jesus Cristo, filho de Deus, milênios depois, morria na cruz, pelo amor que nos devotava e para nos salvar, daquele pecado original cometido por Eva.

       Com 11 anos fui interno em colégio marista, do qual tenho boas recordações. Estudo muito bom, com latim, francês, inglês, muito esporte e sem dúvida, muita religião. Missas diárias às 6 da manhã, aulas de religião como parte do curriculum, confissão, comunhão, rezas frequentes, leitura das vidas de santos.

       Já tínhamos ouvido que o homem descendia do macaco, mas quem o louco que havia dito tal asneira? Discutir o fato com os padres?

       Este louco, Darwin, era da primeira metade do século XIX e havia escrito o livro: A origem das Espécies, a teoria evolucionista, que contradizia a criacionista, aceita pela igreja. Martin Lutero, Calvino, Zeitlin, John Knox e outros, eram considerados demônios, cujos nomes, não deviam ser pronunciados. Era a igreja!

     Já adultos, começamos a participar da ideia de que as religiões, eram enganações infantis.

       Fizemos todo este preâmbulo, como introito para considerar o universo onde vivemos, habitando um dos menores planetas, a Terra.

        A grande pergunta:  Como nasceu o Universo?

       A teoria mais aceita, é que o Universo se formou através do chamado Big Bang, um mistério. Segundo a teoria, há cerca de 15 bilhões de anos toda a matéria que constitui o Universo concentrava-se num único ponto, que explodiu, dando origem a tudo o que conhecemos… e até, ao que ainda não conhecemos.

       O cientista britânico Stephen Hawking, recentemente falecido, afirma em seu novo livro, inédito, que a física moderna descarta a participação de Deus na origem do Universo e que o Big Bang, foi uma consequência natural das leis da física. Como uma pequena bolinha de gude, contendo enorme energia, que após explodir, lançou pedaços em todas as direções, expandindo-se muito rápido, formando estrelas, planetas, demais elementos da astronomia. O Big Bang, se baseia na teoria geral da relatividade de Einstein( 1915),o mais elevado pensamento humano, do espaço e do tempo, que podem se expandir, encolher, curvar-se ou retorcer. O Universo, se expandiu trilhões de vezes seu tamanho original.

        A força de gravidade é consequência da curvatura do espaço- tempo, produzida por grandes planetas e estrelas.

       Muito contribuiu para o estudo do Cosmos, a presença de telescópios potentes, como o Hubble, que permitiu analisar a presença de milhares de galáxias, entre as quais a Via Láctea, onde nos situamos, e da qual, faz parte o próprio Sol, estrela de quinta grandeza.

       Os estudos de cosmologistas, físicos, mostraram também, a presença das chamadas estrela supernovas (SN). O Hubble captou o momento de explosão de uma estrela, em 1993.
       As Supernovas são objetos celestes pontuais, com luz extremamente intensa, com duração de apenas alguns meses. Não fossem as supernovas, a vida no universo seria impossível, porque a química existente seria excessivamente simples. De fato, no Big Bang só foram produzidos hidrogênio, hélio e uma pitadinha de lítio.

UMA SN


       Os estudiosos, falam também dos chamados buracos negros, bem estudado por Stephen William Hawking.

       Trata-se de certas regiões no espaço, onde a gravidade puxa de uma forma tão absurda, que nem mesmo a luz escapa desses “monstros espaciais”. A formação de um buraco negro acontece quando uma grande estrela morre e simplesmente é implodida, fazendo com que a sua densidade se torne infinita, com o acúmulo da massa.

       Eles podem ser grandes, pequenos e também gigantes. O menor deles pode ser do tamanho de um átomo, extremamente minúsculo, mas com uma força devastadora. Já os chamados de “stellar” podem chegar a ter 20 vezes a massa do Sol. Praticamente, todas as galáxias do universo abrigam um buraco negro supermassivo em seu centro. Para você ter ideia, a nossa Via Láctea abriga um “monstro” desse tipo, chamado de Sagittarius A, cuja massa equivale a quatro milhões de sóis, do nosso.

       A NASA diz que, contabilizando todos eles (não importa o tipo), já são mais de 10 milhões de buracos negros estelares existentes.

               Uma equipe europeia criou, em 1995, os primeiros átomos de antimatéria. Submetendo antiprótons a jatos de xenônio no acelerador de partículas, os cientistas verificaram que, da colisão entre antiprótons e átomos de xenônio, geraram-se nove átomos de anti-hidrogênio, formado de um antipróton e um pósitron. Os átomos existiram por quarenta bilionésimos de segundo, antes de serem aniquilados pela matéria. A produção de anti-átomos em laboratórios impõe aos cientistas uma dificuldade básica: as antipartículas obtidas encontram muito rapidamente, no espaço a sua volta, as partículas que lhe correspondem, e por isso se desintegram quase imediatamente.

        Nós, seres humanos, não passamos de um pequeno grão de areia, uma gota do oceano. Mas, realmente, não somos nada?

       É claro que somos! Fazemos parte do Universo.

      “Eu penso, logo existo”, disse Descartes, marcando a visão do movimento iluminista, e a razão como única forma de existência.

       Para terminar, gostaria de enfatizar a sensação estranha, de desanimo, de pequenez, que toma conta de todos nós, quando falamos da grandeza do universo.
       Analisando bem, o importante mesmo, é a nossa felicidade!

       -O prazer que sentimos, ao tomarmos um gole d´água fresca, límpida, de um riacho na mata, correndo no meio de pedras, seixos, fazendo aquele barulhinho característico. Apreciar uma borboleta azul, amarela, multicolor voando próximo. Ouvir o canário trinando. O delicado beija flor, parado no ar, sorvendo o mel das flores.

       E mais, o nascer e o pôr do sol, a chuva suave, o arco íris. O aparecimento da lua, as montanhas nevadas. Isto é o que vale a pena!

       Existe algo mais belo do que uma criança sorrindo? O amor que você sente por sua amada, beijando seus lábios calorosos e mais...mais e muito mais! Às vezes, a simplicidade e o silêncio dizem mais que a eloquência planejada.

        Isto tudo é Deus! A vida! A nossa curta vida!

       Epa! Pera aí! Socorro! Socorro! Estou sendo abduzido! Devem ser aqueles malditos ETs, que sempre estão passando por aqui, naquele OVNI colorido. O que será de mim agora, viajando na velocidade da luz!

                      

HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA DO QUE PODE IMAGINAR NOSSA VÃ FILOSOFIA. - PARTICIPANTE DO CONCURSO ESCREVIVER 2018


HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA DO QUE PODE IMAGINAR NOSSA VÃ FILOSOFIA.
William Shakespeare



HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA DO QUE PODE IMAGINAR NOSSA VÃ FILOSOFIA.

William Shakespeare


Ledice Pereira
PSEUDÔNIMO: PIGMALEÃO

Aquela era a décima resposta negativa que Rafael recebia de, no mínimo, uns cinquenta curriculum vitae, que enviara para os mais variados escritórios de advocacia da cidade. A maioria nem lhe dera satisfação.

Recém-formado, recusara de cara a oferta do pai, para trabalhar em sua empresa, como assistente no departamento jurídico, recebendo um salário condizente com um iniciante.

Recusando-se a ganhar aquela mixaria, saiu, batendo a porta, sem nem mesmo se despedir. “O que o velho estava pensando? Que iria se aproveitar dele? Estava muito enganado. Mostraria sua capacidade.”

Desde criança Rafael tinha o rei na barriga.

Nascido em berço esplêndido, acostumara-se, desde sempre, a ter tudo a seus pés. Era pensar em algo, mencionar para a mãe e logo ver seu sonho realizado.

Um atrás do outro: a fantasia mais extravagante, o carrinho mais completo e caro, a bicicleta último tipo. Coleções, as mais diversas, álbuns de figurinhas, todos, porém incompletos. Não tinha paciência, nem persistência, para completá-los. Interrompia, assim que tinha conhecimento da existência de outro.

Ao completar oito anos, ganhou do pai uma viagem para a Disney. Foram dias intensos em que, em companhia da babá, percorreu todas as atrações. Queria abraçar o mundo no mesmo dia, usufruir de todos os brinquedos numa tacada só. No final do quarto dia, a barriga da perna doía e parecia pisar em brasas, tanto lhe ardia o pé.  Além do mais, formiga que era, não resistira às gulodices enormes e coloridas que havia em toda parte, provando de tudo. Não deu outra, o organismo reclamou. E teve que amargar um dia inteiro dentro do quarto de hotel. Ele, que não estava acostumado a ser contrariado, passou o dia comendo frutas e torradas, bebendo água e jogando vídeo game e, lógico, descontando seu mau humor na coitada da babá.

A mãe, ah! a mãe, enquanto isso, dedicava-se às compras. Chegava carregada de sacolas, jogava para o alto os sapatos e atirava-se na cama.

“Era bonito de se ver!!!”

Nem essa babá, nem as tantas outras que lhe sucederam, suportaram o trabalho por muito tempo. O menino chegou a agredir, fisicamente, algumas delas. A mãe atribuía a uma personalidade forte.

Na adolescência, não poderia ser diferente, o garoto tornou-se insuportável tanto em casa, com os empregados, como com os colegas de classe.

Por outro lado, Rafael possuía um QI acima do normal, que o tornava um dos primeiros alunos da escola. Por essa razão, julgava-se superior.
Cursou o ensino fundamental com um pé nas costas, decidindo fazer o último ano do ensino médio fora do país.

Num intercâmbio, promovido pelo Rotary Club, ao qual o pai pertencia, teve que obedecer a algumas normas impostas pelo próprio programa e outras da família que o recebeu em Londres. Como estar ali, era algo que muito desejava, submeteu-se às regras.

Ao retornar, entretanto, tudo que aprendeu foi por água abaixo. Voltou a ser aquele ente irascível.

Aprovado no vestibular da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, tentou subornar os veteranos para que não lhe cortassem os cabelos. Achava que sempre poderia comprar quem quisesse.

Sua alta dose de arrogância, menosprezando os colegas, resultou no afastamento deles. Com senso crítico aguçado, achava o conteúdo das aulas medíocres. Invariavelmente, discutia com os mestres, que julgava incompetentes.

Rafael cavou sua própria cova. Se, de um lado, ia bem em todas as matérias, de outro, vivia só. Não tinha amigos. Todos o evitavam. E, quer saber, ele também achava o ambiente um porre. Tanto que desistiu de participar da festa de formatura, o que pra sua mãe, que já havia idealizado brilhar mais do que as outras, com seu rico figurino, representou a morte.

O pai, ao contrário, não criara grande expectativa. Ele, que nunca concordara com a forma de educar da esposa, mas que, por estar inteiramente voltado para o trabalho, deixou que ela realizasse a difícil tarefa, sabia que o que viria após a formatura, era o que importava.

A vida havia sido desenhada de forma tão colorida para o menino, que lhe dificultara distinguir o preto e branco nela intrínseco.

A realidade chegou, mostrando-lhe a cara nua e crua.

Aquele rapaz, mimado, que sempre obtivera tudo que almejava, para quem a vida se lhe apresentara repleta de facilidades, enfrentava, pela primeira vez, o efeito daquela palavrinha de apenas três letras, tantas vezes pronunciada por ele, o NÃO.

Esse era apenas um dos obstáculos a enfrentar.

O pai, que havia construído seu império com muito trabalho, dedicação, esforço, perseverança e determinação, ficou firme, embora pressionado pela esposa, preocupada com a frustração do pobre filhinho. Ela sofria, vendo-o passar pela humilhação de ser preterido.

Após uns seis meses de intensa busca, Rafael conseguiu lugar como auxiliar no departamento jurídico de uma imobiliária. O salário, bem, o salário era a metade do que o pai lhe oferecera.

Ah, e teria que se destacar se quisesse mesmo continuar ali.

Quem o indicou para a vaga foi Jorge, um ex-colega de classe. Um daqueles a quem ele menosprezou. De família humilde, entrara como estagiário, ainda no terceiro ano da Faculdade. Além de cumprir o estabelecido no currículo, contribuía com as despesas de casa. Por se revelar esforçado, competente e sedento do saber, em poucos meses foi efetivado.

Rafael foi obrigado a aceitar as condições oferecidas, até porque o pai cortara-lhe a mesada.

Ali, no pequeno escritório, descobriu que não era o ‘sabe tudo’ que sempre se julgara ser. Muitas vezes teve dúvidas, sendo obrigado a ter a humildade de perguntar ao colega como agir, aquilo sim, estava sendo um aprendizado: que não se vive só; que cada ser humano tem seu valor; que devemos reconhecer nossas limitações.

Era preciso cair na real, sentir o chão debaixo dos pés, tomar consciência de que o ser humano, ou quem quer que seja, é apenas um minúsculo e insignificante grão de areia, na imensidão do planeta terra em que habita.

Era preciso considerar que esse planeta é infinitamente minúsculo, em proporção aos demais, nessa imensa galáxia em que está inserido, e que essa galáxia é apenas uma dentre as inúmeras existentes num Universo gigantesco.

Rafael era esperto o suficiente para enxergar que sua existência significava, apenas, um milésimo ou milionésimo de uma cabeça de alfinete, nesse imenso Universo em que vivia.

Entretanto, ao vislumbrar oportunidade de promoção, por ocasião das férias de Jorge, sutilmente, aproximou-se do chefe do departamento e, como quem não quer nada, passou a criticar a forma como o colega elaborava e analisava os contratos sociais, segundo ele, em desacordo com as necessidades da empresa.  O chefe, impressionado com o que julgava ser uma visão estratégica do jovem, passou a ele a execução da tarefa. Não demorou muito para o rapaz assumir todas as funções de Jorge, numa premeditada puxada de tapete. “O pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto”.