A SEU MODO. - Mario Augusto Machado Pinto




A SEU MODO.
Mario Augusto Machado Pinto

Há muitos anos, vejam só. Estava assim: estudante, num miserê que dava gosto! Se não era a bolsa mensal da Faculdade, ficaria sem um puto. Navegava na pindaíba. Meu pai não me dava mesada e mandava Entrega o corpo ao manifesto! Trabalhar? Onde, como, no quê? Não consiguia péga! Nem sabia datilografia! Falava bem, boas palavras, boas maneiras, bom orador, boa conversa, boa pinta e bom pé de valsa. No mais, zero à esquerda. Às vezes ficava tão grilado que entrava em parafuso.  Achava que as coisas iam melhorar: ia dar um taime.

Estou contente, alegre. Sorrio gostoso lembrando o que aconteceu há tempos sem a ajuda do se Deus quiser, falei com Malú e, no meu entender, foi ali que começou um namorico que prometia. Saíamos bastante, quer dizer, não muito. A minha grana era curta.

Ela é muito bacana, da minha altura – o que me fazia pensar em delicias para meus abraços de polvo – imaginava corpo bem feito debaixo do uniforme, via olhos vivos, ouvia fala mansa e não sei mais o quê. Sei que deu química.

Lembro quando fomos ao chá do Mappin. Pra mim foi ótimo. Tinha preço fixo, comia meu dinheiro, mas achei que valia a pena.

Ela já chegou bacana, abafando à beça. Estava tão, tão, tão que forcei meus pés nos sapatos pra não sair correndo e dar um abraço. Fiquei paradão olhando meu broto chegar, vendo as pernas dela: até hoje são magníficas, magníficas mesmo! Mais: o vestido de seda salientava – ai - o corpo! Que geografia Madona santa! Que coisa! Tenho muita sorte...ainda é um pitéu.

Olá, beijinho no rosto, mãos dadas, tá calor. Entramos e fomos para o elevador. Vazio. 2º andar: lotou e foi ótimo. Ela ficou colada ao meu corpo. Situação difícil pra controlar o documento. Ao sairmos ela disse baixinho Tá ficando acostumado, hein?

Namorados? Nada dissemos. O maitre entendeu e nos levou a uma mesa de canto, perto de um janelão. Bem, conversamos amenidades, colégio, faculdade, comemos biscoitos e tomamos chá, acompanhamos o pianista e cantarolamos algumas músicas, falamos longamente, riamos por qualquer coisa. Eu, como sempre, estava no auge, agitado, ligadão. Nem percebi quando falou algo. Repetiu: está na minha hora. Entendi.  Paguei ao garçom. Descemos, me deu um beijinho e entrou no carro que já estava à sua espera. Acenou tchau e sumiu na Barão.

Segui a pé pra pegar o ônibus, chegar em casa, jantar, telefonar e sonhar com ela.

Estamos casados, temos filhos e continuamos gamados.


Ah, esqueci-me de dizer que ela me chama de Meu pãozinho quente. Toda vez eu penso: Também, com esse forninho...


PASSOU DA CONTA - Oswaldo Romano


PASSOU DA CONTA
Oswaldo Romano       
                                                              
        Eu já estou aguentando, no limite.

        O quadrado tomou conta até do vigário. Fica entre a Bíblia e seu sermão do dia. Só falta descer do Altar Mor,  seguir com ele pelo corredor da Igreja, e pedir que os demais o acompanhem, ligando os seus. Exagero? — Espere pra ver. Qual o mal? — Nenhum.

        Nas ruas, nas praças, nas escolas, nos ônibus, nos shoppings, enfim em qualquer espaço, lá está ele.

        A cozinheira trabalha com o pescoço torto, modo de segurá-lo. Entrei na sala de um restaurante, duas mesas eram tomadas por crianças, pouco acima dos 12 anos. Detestava aquele barulho desordenado que antes faziam, logo procurava outra mesa.  Mas ali foi diferente. Para minha surpresa imperava um silêncio de velório.

        Eram sete. Todos cabeças baixas, nos colos, os quadrados. Antes, esses meninos, na total algazarra combinavam qual seria a próxima maldade. Um barulho lindo dos crescidinhos, mas irritante.

        Já estou com dúvidas. Não sei o que mais prefiro. Quando não estão tutoriando, parecem estátuas com seus fones pendurados nos ouvidos. Alguns se arriscam gingar o corpo. Aos olhos de quem os vê parecerem malucos ou perobos.

        Tenho feito muitas viagens de carro. Antes recomendava muito o silêncio e ordem das crianças no banco traseiro. Não precisa mais, ficam pregados, assim como as jovens mães, mudos.

        Numa das viagens, atendo uma chamada do blootooth no carro. Veja o que aconteceu:

Atendi:  – Alôooooo

        — Wado - era minha nora — o Fábio falou para você não esquecer de... brrr brrr rbrrr burrirrr, piauuuuu, toque, toque, toque. Sempre acontece! Faltou o resto do que ela dizia. Caiu a ligação.

        Fiquei preocupado. Falava não esquecer. O que será que meu filho Fábio não quer que eu esqueça? Esquecer o quê? - Pensando, continuei dirigindo.
  
        Eis senão quando, sinto do banco de traz bater no meu ombro. Eu atento na direção pergunto: — Oi, o que é?


        — Sou eu, a Cris, disse alto, Caiu a ligação né!! Vou ligar de novo!

LEVAR UM PAPO - Mario Augusto Machado Pinto



LEVAR UM PAPO.
Mario Augusto Machado Pinto

Nem sempre é possível determinar de antemão se o exercício de uma profissão exige muita ou pouca dedicação, qualidade, constância ou esforço pra conseguir o chamado objetivo profissional.  A minha não é fácil, mas eu gosto. Trabalho leve no horário que me é mais conveniente e não me deixo pressionar por ter feito, fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Não tenho maiores preocupações, ganho muito bem, o circulo da minha atividade é pequeno, atinge alvos específicos. Não me esforço muito. Por quê? Ora...

Justamente agora estou situado a observar a chegada do meu alvo atual, o Finin, cara bem colocado: não é nenhum pé de chinelo, é maneiroso, boa praça; na verdade, mais ou menos. Pelos canais competentes mandou “entregar seu pedido”: queria falar comigo numa noite qualquer. Esperava marcação do local e hora. Eu também queria, mas tive paciência pra esperar a oportunidade e ela veio. Marquei. Por isso estou aqui as duas de la matina..  Três mesas ao lado está o Birí com sua companheira dondoca, Anjinho, por quem é gamadão. Gosto de gente amiga por perto. 

De beca elegante, lá vem ele com ares de bacana, ginga de passista que é entre outras coisas. De frente parece que não leva nem ferro nem aço. É melhor assim; a conversa fica mais leve.

- Salve gente fina.
- Salve. Se acomode. Tava aguardando.  Como veio?
- Aqui tô só.
- E a patota?
- Cerca. Nunca se sabe, né? Num quero bode.
- Comigo ocê tá seguro. A barra tá limpa. Não tem precisão.
- Brigadinho, brigadinho, mais lá fora tão me apertando...tá de lascar.

Foi quando começou a contar que estava nervoso com a campana que tavam fazendo.
Continuou:
- Tu sabe, fiz nome. Não sou careta. Nunca fui galinha morta nem laranja. Ganho uma bufunfa legal com as mina dos açougue, as balzaquiana  e os bambi na boca do lixo e os broto nas do luxo e  já fiz a mala pra vida. Sempre encontrei babacas, xaropes e anastácios. Nunca mandei ninguém pro andar de cima, pra cidade do pé junto ou pro colégio. Tô abonado e os meu e minha patota tem seguro.   

- Então que acontece?

- Acontece que outro dia um calgueta falou pra um dos meu soldado que alguém ia abrir uma avenida com a cesariana que iam fazer na cara da Irene, a madame chefe. Ela tá antenada, anda com um berrante e quer uma costureira só pra ela. A barra tá pesada, suja, e a gente faiz boca de siri, mais só isso num dianta. Na campana, um meu soldado ouviu de um dedo duro que o Brinco quer me mandar pro dormitório junto com algum dos meu. Me avisou que não é cascata. Mandei a turma pros mocó e tamo na escuita. Tem otras coisa pra fazê e...
- Mas espera aí: calma ó meu, pega leve com essa turma, não fica grilado, faz de conta que tá tudo joia...

- Que joia, que nada! Não é fichinha. Tem soldado meu querendo dar no pé. Sei patavina, mas tô grilado severo, na onda, me comendo pra não estourar a boca do balão.

- Cara, você não pode fazer isso!

- Claro que não. Tem os número! Esse é que dá a bufunfa grossa. Como é que vai sê?

- Sempre há solução...

- Craro, ocê tá do outro lado do balcão!

- Não se trata disso. Espalha uma cascata legal, que o primeiro que se atrever vai pro fundão e você, pessoalmente, vai tratar...

- Olha: não dianta. Cumpri. Ocê tá avisado e eu gradecido. Certeza que tem cara lá fora me esperando pra me acertá. Trata do meu pessoal e tira as argola das oreia do Brinco. Dá um trato nele. É: põe um arribito nele. Tá tudo previsto pra ninguém ficá na pindaíba. Se cuida. Vô sumi pruns tempo. Guenta pra mim?

Não esperou resposta. Sabia que sim. Ficou de pé, pegou o celular e avisou que estava saindo. Pediu o carango blindado, porta aberta e dois amigos com costureira. Sim, tava c´os berrante. E saiu sem mais nada.

Ouvi buzina insistente, derrapar de pneus, gritos e estouros.
Eram os treis oitão do Finin.
A viúva chegou berrando.
Alguém vestiu o camisolão?

Terças-Feiras - Belle Epoque no EscreViver!

(Calendário informativo)


Aqui se escrevem contos.
Aqui se criam encantadoras histórias.
Aqui se comemoram todos os aniversários.
Aqui se tomam proseccos de boa marca.
E capuccinos inesquecíveis.
Aqui se formaram boas e duradouras amizades.
Quando a aula termina ninguém se levanta para ir embora.
E sinal de que estivemos em boa companhia.

E assim vamos contando histórias...



















ESCREVIVER ÀS QUARTAS FEIRAS - CONTOS BONS JÁ ESTÃO BROTANDO!


A turma EscreViver cresceu!


25 de Julho - Dia do Escritor


Agora temos novos escritores inventando histórias!
Agora temos novos escritores tentando chegar ao extremo de si mesmos.


E, vejam quem está de volta, para nosso prazer!
Oswaldo Lopes, é um prazer tê-lo conosco.

Oswaldo Lopes

Maria Amélia Favale

Dulce Azevedo

Adolfo Le-Westphalen

Maria Elena G. Westphalen

Flávia Smith



O da Jô - Vera Lambiasi



O da Jô
Vera Lambiasi

                                                                      
Menina bonita, desfilava toda praia num biquíni diminuto.
Ia passando, e os rapazes comentando:
    O da Jô é o mais fechadinho.
    É, o da Carol é meio escancarado.
    Olha o da Margot, parece sujo.
    E o da Wilma, nem se vê.
    Aquela loira tem vertical, a morena, horizontal.

    Eu pegava as duas.
Comentou o desavisado, recém-chegado.
    Estão dando notas para aquilo, safados?


    Não! Só o umbiguinho.

DESENCONTROS - Suzana da Cunha Lima

 


DESENCONTROS
Suzana da Cunha Lima

-Vai viajar? Perguntou a esposa, ao entrar no quarto onde o marido arrumava roupas numa maleta de mão.

- Vou sim, para o Rio. Afinal saiu o contrato que eu desejava!  Aquele que virei noite redigindo, lembra?

Ela não lembrava direito, pois ele sempre andava as voltas com contratos, propostas, reuniões. – Mas, hoje é o dia da entrega dos prêmios dos Talentos, Celso, lembra?  Ganhei o primeiro lugar em Prosa e também em Poesia. Fizeram até uma exceção para mim, pois ninguém ganha dois prêmios de uma vez só.

- Prêmio? - Celso ia do quarto para o banheiro reunindo suas coisas, mal se lembrava daquele prêmio, muito menos que a esposa tinha ganhado. - Claro que lembro, mas me deixe direitinho hora e local aí na escrivaninha, minha cabeça anda a mil ultimamente.

- O convite  está grudado na geladeira,  muito  fácil de ver. Mas para refrescar sua memória, é no  Clube dos Libaneses, 20 horas.  Pedem para os premiados chegarem antes, acho que para fotos, entrevistas, estas coisas.  Precisamos sair daqui às 17 horas, no máximo.  Sabe como é o trânsito das sextas feiras depois desse horário.  

- Bom, pede a seu irmão para te levar, então. Acho que não chego antes das 18 horas aqui em São Paulo. Minha volta está marcada para as 17 horas.

Sentiu  a raiva da mulher se avolumando como uma onda gigante.

- Estou te avisando desta festa tem mais de seis meses. É um prêmio importante.  Custa uma vez na vida eu ficar em primeiro lugar em sua lista de prioridades? Sua viagem podia ter sido adiada para  amanhã,  mas meu prêmio não. Você viajando agora fica sujeito a horário de avião, e trânsito. Tudo pode acontecer de errado. -  Luiza tremia, contendo a raiva.

- Calma mulher.  Não estou  dizendo que não vou. São 45 minutos daqui para o Rio.  Às 20 horas com certeza estarei lá e como você precisa chegar antes, seu irmão lhe leva e tudo certo. – fechou a valise olhando em volta para ver se não tinha esquecido nada . – Depois deu um beijo rápido no rosto da mulher, petrificada à sua frente, e saiu acelerado para não dar mais explicações.

Luiza nem foi levá-lo à porta. Jogou-se à cama chorando, sem saber o que fazer.  Quantas vezes fora preterida, quando mais precisava de seu apoio e presença! Mas agora era o cúmulo!  Ganhar aquele prêmio a habilitava para o Concurso Nacional de Literatura, era uma grande honra.  Mas para o marido era apenas uma atividadezinha qualquer que ela exercia, para não ficar sem fazer nada em casa. Resolveu se acalmar.  Não era uma má ideia pedir ao irmão para leva-la. Podia ir até mais cedo e, com calma, preencher todas as formalidades e exigências do concurso.

Manteve suas atividades, indo de manhã ao salão de beleza, e pediu ao irmão para almoçar com ela.  Com ele ali, sairiam mais cedo para se esquivarem do trânsito e do mau tempo, que se anunciava em nuvens escuras e carregadas, turvando o céu até então, azul. Saíram às quatro horas e logo começaram a enfrentar trânsito pesado na Marginal do rio Pinheiros e a ameaça de um temporal era muito evidente.  Relâmpagos riscavam o céu, trovejava muito e chuva grossa começou a cair tão logo chegaram ao seu destino.

Ainda bem que a maioria de seus familiares e amigos resolveu chegar mais cedo também e foram todos se encontrando no Clube, bem antes do horário.  Todos alegres com seu prêmio e torcendo pelo seu sucesso, pois conheciam bem seu valor e esforço, e admiravam seu talento e persistência.  

Enquanto isso, no Rio, Celso ultimava seus negócios e como terminara tudo antes do prazo, em vez de ir mais cedo para o aeroporto, resolveu  comemorar com os amigos num bar ali próximo e foi-se descuidando da hora, sem perceber  nuvens ameaçadoras engrossando o céu, pressagiando temporal à frente.

Quando tomou o taxi para o aeroporto, a chuva já caia forte, e levou um tempo enorme para chegar ao Santos Dumont,  atravancado num trânsito infernal.  Correu para o balcão para ser informado que os voos estavam suspensos, sem previsão de retomada.  Se tivesse chegado uma hora antes, ainda poderia ter embarcado para São Paulo no horário.

- Não conseguiu falar com Luiza pelo celular nem pelo fixo, para avisar de que não chegaria a tempo.  Na verdade, o aeroporto se manteve fechado até à noite, e ele foi obrigado a pernoitar no Rio, transferindo seu voo para o outro dia. E já que não tinha dado tempo para a cerimônia da mulher, resolveu pegar uma praia de manhã e retornar a São Paulo pela tarde.

 Logo que desembarcou notou um alvoroço no saguão, a televisão mostrava um acidente ocorrido  naquela tarde com um avião da TAM.  Estava mais preocupado em ligar para ela e resolver tudo da melhor maneira possível. Sabia que viria chumbo grosso pela frente, mas já estava acostumado e sempre dobrava a mulher levando flores ou chocolates.   Nada, ninguém respondia. Resolveu ligar para o irmão dela, provavelmente ele teria informação sobre o paradeiro de Luiza.

O irmão atendeu friamente e ainda lhe deu uma notícia desagradável. Luiza não estava em casa, tinha ido viajar.

- Para onde? - Viagem internacional? - perguntou meio gozador.

- Nem que eu soubesse não diria. Você é um cafajeste mesmo.   Por que não foi à cerimônia ontem?  A família em peso estava lá, e muitos amigos.

 – O aeroporto fechou, amigo. Um temporal.  Queria que eu viesse nadando ou a pé?

 - Você nem devia ter viajado num dia tão importante, mas seus interesses estão sempre em primeiro lugar, não é? Mas, estou te avisando que tem muita gente boa de olho nela.  Tomara que ela nunca mais volte para você. Não a merece, de jeito nenhum. – e desligou na cara dele.  

Ele ficou ali estatelado, sem saber bem o que fazer. Tentou mais uma vez contatar com Luiza pelo celular ou fixo e nada. Voltou parta casa começando a perceber o despropósito de sua ação.  Ao chegar, não viu ninguém, nem a empregada.  Pegou o telefone para tentar falar com ela e aí  quando percebeu um papel amassado na cesta de lixo.  Pegou e viu algo escrito:

Fortaleza – 13 horas – TAM – Rafael


Quem era este Rafael?  Morava em Fortaleza? Que loucura era aquela?  Ligou para a TAM e soube que o voo para Fortaleza tinha saído normalmente naquele dia, porém tinha havido um acidente na aterrissagem.  Maiores detalhes somente quando fizessem um balanço de mortos e feridos. Ligasse outra vez dentro de meia hora.  Quem sabe teriam mias informações para lhe dar?

Jovens - Vera Lambiasi








                                             Jovens                                              
 Vera Lambiasi


    E aí, fez?

    Não, não deu.

    Mas estava fácil!  

    Nem tanto.

    Levo 5 minutos.

    Só? Não é possível.

    Juro!

    Então não capricha.

    Claro que sim.

    Duvi-de-o-dó.

    Quer ver?

    Quero.

    Olha.

    Ahh ... a lição?!  
   
    Pensava no quê?


    Café ...

O ESTAGIÁRIO - Jeremias Moreira


O ESTAGIÁRIO
Jeremias Moreira

Quando o Cacau terminou a Escola de Propaganda e Marketing, a Dorinha, sua mãe, pleiteou um estágio para ele, na agência de Wellington Olvieto, um ex-colega de faculdade. Embora se destacasse pela inteligência, naquela época, Wellington vivia na pindaíba e era um tanto careta.  Dorinha foi acolhedora e introduziu o amigo numa patota articulada. Wellington Olvieto tornara-se um influente publicitário e sua agência, a WO&K Propaganda, uma das principais do país. Sempre fora grato a Dorinha, e acatou seu pedido. Designou Cacau para estagiar no concorrido departamento de criação. O maior cliente da WO&K era a rede de Supermercados Corcovado, para quem a agência preparava a campanha de verão. No terceiro dia de estágio do Cacau, o presidente da rede Corcovado, Abel Delís, viria à agência para aprovar um comercial.  O filme, dirigido pela badalada diretora Fábia Novais, fora aprovado pela agência, na véspera, com entusiasmo. Tinham certeza de que, no ar, o filme estouraria a boca do balão. Permitiram que Cacau assistisse a apresentação. Wellington Olvieto abriu a reunião tecendo elogios ao cliente e à agência. Os demais continuaram com o mesmo papo furado até que, Fábia Novais explanou sobre sua concepção do filme e em seguida iniciou-se a projeção. Abel Delís assistiu ao filme por cinco vezes e pediu para acender as luzes. Olhou em volta e fitou o rosto de cada um. Apesar do clima de otimismo, o pessoal se fechou em copas e evitou o olhar do Abel. Ele já estava acostumado, sempre esperavam na maciota, por sua aprovação. Ninguém se manifestaria antes dele. E depois apoiariam unânimes o seu julgamento.  Chegou até Cacau, que ao contrário dos demais foi ponta firme e sustentou o olhar.  Era um olhar confiante que chamou sua atenção. Abel Delis apontou para ele e disse:

- Você! Qual é o seu nome?

Sem vacilar, Cacau respondeu de pronto:

- Carlos Alberto, senhor. Costumam me chamar de Cacau.

- Você participou da realização desse comercial, Carlos Alberto?

- Não senhor!

- E por que não?

- Bem, senhor... sou novo na agência. Ainda estou dando um time como estagiário.

- Ah! Você é novo na Agência... E o que achou do filme, Carlos Alberto?

- Posso dizer o que acho, senhor?

Foi como se uma nevasca caísse dentro da sala. Rosa Freitas e Manolo Zamba, a dupla de criação; Fábia Novais; Lilica, a RTV; o pessoal do atendimento e, claro, Wellington Olvieto, todos congelaram.

- É exatamente a sua opinião o que quero, meu rapaz! - respondeu Abel Delís.

- Bem senhor, creio que o filme comete algumas mancadas. Em primeiro lugar, não vejo uma família de verdade. Fiquei grilado com a interpretação dos atores. Eles não agem como personagens. Falta o calor de uma relação familiar verdadeira. Depois...Acho que o texto força a barra e tenta impor uma atitude ao consumidor quando deveria sugerir algo bacana. Fazer as pessoas curtirem e pensar coisas assim: “Puxa que família joia!” ou “É legal comprar no Corcovado!”. E, isso não acontece com o filme, senhor!

Abel Delis ouviu atentamente, esboçou um sorriso e dirigiu-se a Olvieto:
- O que você acha?

Wellington Olvieto foi rápido:

- Exatamente o que estávamos comentando. O Cacau... O Carlos Alberto expressou muito bem a opinião da agência. Achamos que a escolha do elenco não foi adequada e que, infelizmente, a direção não conseguiu extrair veracidade dos atores. Creio que a má interpretação contribui para a dureza do texto, se bem que, agora, vendo o filme, percebo que está impositivo demais. Mas, vamos dar um jeito nisso. 

Fábia Novais quis bronquear, mas Lilica sinalizou para ela ficar na sua. Abel Delís perguntou quando o filme entraria no ar e foi tranquilizado pelo diretor de marketing. Ainda tinham o prazo de duas semanas. A dupla de criação se fingia de morta. Pareciam duas múmias. Lilica apressou-se em discutir um novo cronograma, mas Abel Delis interrompeu e levantou-se:

- Bem... deixo os detalhes da refilmagem com vocês e espero que da próxima vez eu veja um filme que traduza nosso verdadeiro espírito empresarial.

Aproximou-se de Wellington para despedir-se com um aperto de mão e sussurrou em seu ouvido:

- Wellington, gostaria que o garoto...o Cacau, participasse da criação desse novo comercial.


- Oh! Sim... Como você pode ver a WO&K está sempre garimpando as feras do futuro.  – respondeu Wellington Olvieto, oportunista.

Um fim de semana hospitaleiro - Fernando Braga



Um fim de semana hospitaleiro
Fernando Braga

Há cerca de 15 dias retornei a Tietê para o enterro de um colega e grande amigo, com o qual troquei muita amizade  por muitos anos. Sempre gostei muito desta cidade onde estive algumas vezes, mas nesta circunstância, ela não era a mesma.

Durante a viagem de volta, lembramos, eu e minha esposa de uma ocasião, há cerca de dez anos, quando viemos a esta cidade para o casamento da filha mais nova deste amigo e ficamos hospedados em sua casa, na realidade, uma chácara, dentro da periferia da cidade. Naquela ocasião, fez questão absoluta de nos hospedar por três dias, jurando que não iríamos incomodar, porque tudo já estava preparado, com a festa organizada no clube da cidade, o Tietê Esportiva Clube, frequentado pela elite. Levou-nos a conhecer os principais pontos da cidade, com 33 mil habitantes na época, a praça central bem arborizada conhecida como Dr. Elias Garcia, as mansões belíssimas ao redor da praça, o coreto frequentemente usado pelas bandas em fins de semana, a ponte sobre o rio Tietê, rio este utilizado desde a época dos Bandeirantes. Contou que a cidade, antigamente Pirapora do Curuçá, fora fundada em março de 1842 quando se tornou município e em 1867 adquirira o nome atual.

Ele era o cardiologista da cidade, muito querido e em todos os locais que parávamos, alguém vinha abraça-lo. Dizia ele que poderia até fazer política, mas não era da sua seara. Uma manhã nos levou ao campo de aviação, como era chamado o mínimo aeroporto e nos convidou para dar uma volta em seu avião, um pequeno monomotor, para sobrevoarmos a cidade e levarmos   uma boa ideia da pujança da mesma. Claro que aceitei, com pequeno receio, mas minha mulher preferiu ficar em terra firme. Foi sensacional   levantar voo no avião, antigo. Sentei-me ao lado, onde havia outra direção e ele disse:- agora pilote um pouco!

Comecei a pilotar e logo me acostumei porque era muito fácil. Subia, descia, virava para a esquerda, para a direita, cheguei a dar umas rasantes próximas ao local em que estava minha esposa. Passamos sobre sua casa, sobre a bela catedral, onde em dois dias seria oficializado o casamento. Após uns vinte minutos, disse que poderíamos descer. Pedi para tentar fazer a aterrissagem.

- Tudo bem, se você acha que consegue, siga em frente.

Acho que desci   muito rápido, porque quando percebi já estava bem próximo ao solo. Nesta hora ele gritou:

Largue tudo!

Larguei e ele fez a aterrissagem. Fiquei frustrado, mas gostei tanto, que fiz planos para aprender a pilotar.

O casamento foi muito concorrido, a noiva estava lindíssima, a cerimonia emocionante e, como padrinhos, ficamos bem ao lado de meu anfitrião. Fomos para o clube e sentamos à mesa principal. Nesta ocasião, conversando com um dos convidados, dizia ele:

-  Nesta cidade, todos têm e são conhecido por seus apelidos e há muita jogatina neste clube. Mostrando alguns dos presentes, dizia:

- Aquele é o Juka Pitanga, muito rico, o outro ao lado, o Loro. Logo depois vem o Curupira, o Pinão, o Nego Tão, o Abobrinha - e assim foi nomeando os presentes.

- E o seu apelido, qual é? - perguntei.

- É Galinhão, mas não vou explicar  por que.

- Ok, não precisa, já entendi. Não parava de olhar as minas. Continuou:

- Você vê aquele mais velho, de cabelos brancos? É o famoso Juca Tio, fazendeiro muito seguro, pão duro, que já largou tudo para os filhos e agora vive no clube. Não joga com medo de perder, mas é o mais assíduo sapo. Senta-se atrás de um dos jogadores e fica dando opiniões. Ninguém quer impedi-lo de assistir, mas foi proibido de tecer comentários. Veja o que aconteceu e que maldade:

- Há uns meses, ele estava já há 2 horas sentado atrás do Pinico, que é aquele baixinho naquela mesa. Via os companheiros   jogando Pôquer. Alguém chamou a atenção, que ele estava dormindo. Escaravelho e os demais   decidiram pregar uma peça no Juca Tio. Era noite, a sala pequena. Apagaram todas as luzes, fecharam a porta e fingiram que continuavam jogando, na escuridão completa. Alguém bateu na cadeira de Juca Tio que acordou e ouviu:

-Jogo vinte!

-Seus vinte mais cem!

Paguei. O que você tem?

Quadra de Ás. Eu tenho Flesh, você ganhou!

Faziam barulho com as fichas.

Nesta hora Juca Tio deu um berro:

-Meu Deus, estou cego, cego, cego! Não consigo ver nada! Me ajudem. Me levem ao pronto socorro!

Amparado por dois deles foi levado em direção à porta, que uma vez aberta, ele gritou:´

-Pera aí, voltei a ver. Graças a Deus e Santa Terezinha!

Pelos risos soltos, percebeu a gozação.

-Seus desgraçados, vocês me prepararam esta, e saiu muito zangado, p da vida. Foi embora, mas uma semana após, lá estava ele, novamente sapeando.
Nesta cidade, todos ficaram sabendo e comentavam a boca pequena.

-Juca Tio é rico, mas é um baita ingênuo!


Difícil esquecer um episódio como este, hilariante. Só acontece em Tiete.