Adeus terra querida - Fernando Braga


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Adeus terra querida
Fernando Braga

       Há alguns anos, encontrei-me, por acaso, com um antigo colega do curso científico, que fizemos juntos no Instituto Mackenzie. Tínhamos então, 18 anos. Imagine que 30 anos haviam se passado e nós nos reconhecemos de pronto. Ele era o André, esperto, alegre, brincalhão,  jogávamos futebol no colégio. Resolvemos ir à um bar para conversar, tomarmos uma cervejinha, matar a saudade,. Interessante que logo dispôs-se a contar sua vida, tudo o que havia passado nestes anos todos:

       — Sabe que agora estou casado pela terceira vez. Com as duas primeiras tive quatro filhos e agora acabou nascendo, com esta última, uma menina. Imagina a luta que empreendi para poder sustentar estas famílias, sem lhes faltar nada. O pior é que escolhi mal as damas, porque além de neuróticas, eram por demais ciumentas e gastavam como uma amante argentina. Consegui me separar, mas me levaram mais da metade do que consegui armazenar. Você sabe né,  eu herdei o restaurante de meu pai, lá no Bexiga onde tenho boa  clientela, um ganho razoável, mas muito, muito trabalho. Esta terceira mulher, a Carminha é muito boazinha, boa mãe, boa esposa, mas também quer saber muito de minha vida. Eu sempre procurei não dar muita satisfação, porque em primeiro lugar vem minha soberania, liberdade, independência.

— Imagine só, Luiz Carlos, o que aconteceu recentemente. Cheguei em casa e fiquei conhecendo a nova empregada, Marluci ou Mariuska, que minha mulher havia contratado. Uma baiana, mulata cativante e pele lisa, mamas bem proporcionadas, rosto perfeito, dentes alvos e sem qualquer falha. Alta, corpo proporcionado, e como sou podófilo,  notei logo que tem os pés muito, muito bonitos, principalmente quando pinta-os de vermelho claro.

Chamou a atenção quando disse ter documentos com dois nomes diferentes. O primeiro de Marluci Oliveira e o outro de Mariuska Volstock. O que é isto? perguntamos.

       — Depois eu explico. Continuou:

       — Eu morava com minha família em Esplanada, uma pequena cidade no interior da Bahia, próxima a  Aporá. Era meu pai, mãe e dois irmãos, todos vivendo em uma casinha de barro, explorando uma gleba de quatro hectares, onde se criava porco, galinhas, cabritos, alguns boizinhos, plantação de milho, feijão, pés de caju. Foi lá que eu cresci.

       Quando fiz 18 anos pedi a meus pais para ir para Salvador, onde uma coleguinha havia me arranjado um emprego em um supermercado. Poderia morar com ela temporariamente. Meus pais aceitaram porque não havia muita alternativa naquele lugar.

       Cheguei a Salvador, para mim uma cidade enorme, deslumbrante, onde ela me esperava. Iniciei o meu trabalho e logo percebi que os rapazes olhavam muito para mim. Comprei umas roupinhas melhores em um brechó, mudei o meu cabelo alisando-o. Minha amiga disse que ficou ótimo. Nos fins de tarde eu e ela éramos convidadas para uma bebidinha com alguns rapazes do próprio supermercado. Um deles, logo se interessou por mim e eu caí. Passamos a ter relações íntimas, o que já havia acontecido com minha amiga.

       Um fim de semana, eu e minha colega fomos passear na praia do Forte e quando andávamos pela praia, aproximou-se um rapaz, de falava muito mal a nossa língua, mas no final dava para nos entendermos. Sentamos na praia e ele disse que era russo, que viera para ficar uma temporada para trabalhar em uma firma polonesa.

       Marluci disse que o rapaz era alto, bonitão, muito simpático. Convidou-as para jantar  e elas foram. No local havia dança e ao tirar Marluci, fez uma declaração a ela dizendo que era doido por uma mulata bonita. O caso continuou e pouco tempo após estavam em um motel. O russo era um tarado disse ela, mas gostou dele. O tempo passou e ela saia apenas com Leon Volstock, o russo. Ele caiu de amores por mim. E quando estava na ocasião de voltar ao seu país, me fez uma declaração dizendo que gostaria de me levar junto e que poderíamos nos casar em sua terra. Eu sempre fui muito desconfiada, mas acreditei em Leon. Ele tinha boas intenções.

       Viajaram para a Europa e após uma mudança de voo em Frankfurt foram a Moscou. La ficaram por uma semana, onde levou-a a conhecer os lugares mais turísticos, dentre eles a chamada Praça Vermelha, o Kremlin, onde ficou encantada.

       — Não pensei que uma baianinha simples como eu, tivesse uma oportunidade de chegar até lá. Seus pais e irmãos iriam saber!

       — Me levou a ver um túmulo, de um tal de Lenine, que francamente não sabia quem era, mas ele me explicou tudo. Era muito gentil

       Após esta semana ele me disse que teríamos que partir para sua terra, local em que iríamos morar. Claro que fiquei entusiasmada. Disse ele que seriam 6 horas de voo até lá. Uma tal de Petropavlovsk, na Sibéria. Sabia eu lá o que era Sibéria?  Ele apenas comentou que era uma cidade grande e com frio intenso no inverno.

       Chegamos lá em junho e disseram que era verão. Mesmo assim estava frio, precisava agasalho, mas dentro de casa era bem suportável. Ele voltou a seu trabalho antigo e estava muito satisfeito. A casa que morávamos era confortável, tinha jardim e bem no meio de um bairro residencial. Após uns três meses, em começo de setembro notei que estava gravida e contei a Leon. Ele ficou muito alegre e disse que iríamos nos casar, em uma igreja ortodoxa. Ele disse que era igual à católica. Topei.

       Naquelas alturas já tinha conhecido toda sua família que não deixavam de exaltar a minha beleza e a felicidade de Leon ter me encontrado.

       Quando íamos nos casar ele perguntou se eu não toparia mudar o meu nome, porque naquelas bandas nunca tinham ouvido falar em uma Marluci e muito menos   Gonçalves. Disse que havia se informado e seria possível concederem um novo documento de identidade para mim e passaporte. Mudariam meu nome para Mariuska Volstock, Volstock de meu marido russo. Para encurtar disse ela:

       — Meus patrões, confesso que o que passei não existe. Vai ser um lugar frio na casa do capecatso. Certo dia de janeiro a temperatura chegou a 25 graus abaixo de zero. Preferia estar no inferno, com 70 graus para cima. Dentro de casa, apesar de calefação e uso de roupas quentes não era o suficiente. Nunca mais saí às ruas. Era gelo e gelo por todos os cantos. Sexo, para mim foi abolido e agora grávida de 4 ou 5 meses era pior. Como poderia criar um filho naquele lugar, no fim do mundo e frio, frio para valer. Vocês nunca poderão imaginar o que é isto. Afinal sou baiana.

       Leon e sua família eram ótimos, mas minha comunicação com eles era assaz difícil. Eles não falavam uma palavra de português e eu nenhuma de russo ou inglês, que alguns falavam na rua. Comecei, juro por Deus a me encher, a ter tédio, que foi virando uma depressão.  Ele, Leon me consolava dizendo que a primavera iria chegar e tudo melhoraria.

       Minha barriga já aparecia. Fui levada ao médico que disse tudo estar bem e que seria uma menina. Comecei seriamente a pensar em voltar para o Brasil. Não poderia dar à luz lá na Sibéria, porque aí não poderia trazer minha filha para o Brasil.

       Falei com Leon para voltarmos ao Brasil e ele disse que eu estava ficando louca. Impossível.

       Ele me tratava bem. Afinal eu era a única mulata daquele lugar! Um local de gente muito feia. Na minha saudade, eu relembrava, o início de uma poesia que dizia: Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá e depois outra que assim começava: Adeus terra querida, Adeus amor da minha vida ...

       Decidi que iria voltar para o Brasil, seja para a Bahia, para São Paulo ou qualquer outro lugar, mas que fosse no Brasil. Iria largar o meu marido, embora muito bom.  Tudo ali era bem superior às minhas forças.

       Neste meio tempo eu conseguira guardar algum dinheiro, reais, dólares, euros e até rubros, que Leon me dava.

       — Não me perguntem como, mas consegui.

       Em fevereiro, Leon disse que precisaria ir a Moscou a negócios e que lá permaneceria um mês. Eu ficaria sozinha aqui. Implorei para acompanha-lo e acabou concordando. Comprou-me uma passagem para 15 dias após ir encontra-lo. Me comunicaria o hotel onde deveria me dirigir. Assim foi feito. Peguei algumas roupas, fiz pequena mala e parti.

       — Cheguei a Moscou. Já havia planejado tudo. Tinha um passaporte russo e outro brasileiro. Do aeroporto peguei um ônibus até a estação rodoviária e outro ônibus que fosse para a Cracóvia, a terra do papa João Paulo II. Eu já havia planejado. Tudo!

       Fui depois para Frankfurt e pela TAM voltei ao Brasil. O dinheiro, tudo o que tinha, gastei até o ultimo tostão. Passei um pouco de fome. A minha preocupação era ter um aborto, com tanta confusão.

       — Dei à luz na Bahia, e lá fiquei por um ano. Minha filha ficou com meus pais no interior. Vim para São Paulo para trabalhar novamente e aqui estou com vocês, que foram muito bons em me aceitarem. Daí os dois nomes que tenho:  Marluci e Mariuska. Sabem que estou preferindo o segundo? O que acham?

       Aí André, continuando sua conversa disse:

       —A coisa não parou aí. Em casa ela me perturbava. Eu ficava louco quando a via limpar os vidros das janelas, quando limpava o chão e quando lavava roupa, inclinando-se e fazendo o movimento de vai e vem. Ela era safadinha e atrativa. Não aguentei e um dia esperei-a em meu carro no ponto de ônibus, quando ia embora. Entrou e fomos diretos para uma Motel: Momentos de Amor. E foi! E agora?

      — Estou muito enrolado. Minha mulher percebendo alguma coisa, dispensou-a. Mariuska  me telefonou, tive que alugar um apto para ela, em nome de um amigo. Se minha mulher descobrir estou com casamento desfeito.

       — Bem, e daí? Já cai duas vezes fora! Não dá para largar a Mariuska.
       — E você meu amigo? Como vai a sua vida, Luiz Carlos? Perguntou André

      — Bem, estou casado e muito bem casado.

      —Boa sorte André. Espero revê-lo um dia.

Sai de lá, meditando:

      — Se for tudo verdade, vai ser difícil sair desta. Mas é certeza que consegue!     Só ele mesmo!

       Esta história vai continuar. O russo vai voltar.

       Aguardem!!!



A MALA - Oswaldo Romano


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A MALA

Oswaldo Romano

        No aviso de chegada do avião, Cassio levantou-se, e num gesto usual, massageou as pernas que sentia pesadas.

        Apressado, como soe acontecer nestas horas, cheio de saudades da casa e do cachorro Skipper, correu para a esteira rolante.

        Teve sorte, sua mala foi uma das primeiras que apareceu. Apanhou-a num ímpeto enquanto vibra seu celular, recebe aviso de que o Uber já o espera.

        Em casa, uma desagradável surpresa.  Descobre que pegou uma mala igual, mas não a sua.

        Vencendo certa dificuldade, conseguiu abri-la. Precipitou-se. Antes tivesse ligado à companhia aérea e devolvida assim que notou o erro. Ao abri-la, aquele cheiro que lembrava o da rua das donzelas.

        Fechou-a lentamente enquanto pensava o que fazer. Exalava ácido, talvez pólvora.

        Sua primeira decisão foi trancá-la nos fundos do quintal, na edícula. Poderia explodir, imaginou.

        Resolve ligar para o Aeroporto, colocando-os a par. Fica sabendo que outras pessoas têm feito a mesma reclamação e são informadas dos achados. Pedem que aguarde. Desliga o telefone, sem fazer o B.O.

        Dia depois, recebe um telefonema de ameaça:

— Amigo você corre um sério risco de ser acusado de tráfico de drogas. Cale essa boca, não se comunique com ninguém.

        No outro dia ao atender a campainha:

        — Sou bombeiro, vim buscar a mala.

Cassio agradeceu, ficou livre daquilo, mas questionou com o paramentado bombeiro:

        — E a minha mala, acharam?

        — Não sei informar. Ligue pra lá, se quiser saber.

Foi o que Cassio fez. Ligou para o Aeroporto, setor de segurança, sala dos bombeiros.

        — Pois não, é o capitão Sergio. Pode falar.

        — Capitão, um dos seus homens que veio retirar a mala extraviada pediu que eu ligasse. Minha mala está com os senhores? Eu sou o Cassio, minha mala é...

        — Não. Não precisa descrevê-la. Não, não é nosso dever cuidar de malas extraviadas. E nem temos homem para isso. Ligue para o setor, ou melhor, vou transferi-lo.

        — Por favor, minha mala está aí?

        — Como é sua mala e qual o número do B.O?

        — Minha mala é preta, tamanho grande, na alça tem uma fita roxa.

        — Sim, mas o número do B.O?

        — B.O!... Ah! eu ligo mais tarde.


        — Espere. Fita roxa... Moço, não brinque no telefone. Nossa polícia facilmente te encontra.

Histórias de Ernestina - Maria Verônica Azevedo


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Histórias de Ernestina
                Maria Verônica Azevedo


            Aqui da minha janela observo o que acontece. É pra movimentar a vida.

Nesta cidade é assim mesmo, não tem jeito de entabular muita prosa, porque o povo é sempre atarefado. Ernestina está debruçada na janela do sobrado que vem da família.

            Daqui a gente vê o mundo de cima. Dá pra ver tudinho até o horizonte, onde os morros encontram com o céu. Minha casa é a mais alta do quarteirão. Era o orgulho do meu avô. É verdade que está bem velhinha, mas até que, de vez em quando, eu mando dar uma mão de tinta aqui e ali. E fica bonita de novo.

Ela mantém a mesma cor há anos, não deixa variar a cor, pois o verde clarinho era do gosto da sua avó. Os janelões, eu deixa sempre só na madeira, com um verniz, vez por outra.

            Hoje de manhãzinha, quando ela abriu as janelas, logo percebeu que o dia ia ficar assim ensolarado.

Não dá pra apreciar o sol no rosto, a água do café já está fervendo e a broa no forno já deve estar no ponto.

Entrou pra coar o café e esperar o Honório sair do banho, já com tudo na mesa.

Hoje não entregaram o jornal. Ele vai achar ruim... Não sei o que houve, para falhar a entrega. Mais tarde a gente vai acabar sabendo. Tudo se comenta por aqui. É só esperar aqui na janela.

            ¾ Ernestina! Onde está? Não vai tomar café?
             
O jeito é abandonar o meu posto e sentar à mesa com ele. Hummm... Como ele está garboso. Todo elegante com esse terno listado. Vai ver que está esperando alguma autoridade lá na Botica. Ele é assim. Fica sempre preocupado com a aparência. É coisa da mãe dele. Ela nem está mais aqui pra ver... Mas o hábito ficou.

            ¾ Já estou saindo. Até mais tarde.

            Ufa! Finalmente

Ela se apressa e volta ao seu posto.

É bom ver o movimento. Ali vem o Elpídio. Moço garboso: alto, animado, sempre com um sorriso pronto para sair no rosto tão bonito. Uma simpatia. Toda vez que passa por aqui, olha para a casa do Seu Leopoldo. Com certeza tem esperança de ver a Aracy. O pai dela nem desconfia, mas eu bem que vejo... Quando ela está na janela, o Elpidio diminui o passo. Vem andando devagar. Tira o chapéu em cumprimento. Ela não lhe nega um sorriso.

            Outro dia notei que Aracy faz alguns sinais discretos e ele retribui com outros. Parece até um código. Sei não. Vai entender essa moçada.

            Isso ainda vai dar problema. As famílias dos dois são inimigas políticas. Se o Seu Leopoldo descobre...

            O Elpidio até que é bom partido. Tem conhecimento. Quando menino esteve no seminário. Depois desgostou e resolveu viajar para o Rio de janeiro em busca de trabalho.

            Eu é que não vou me meter nessa história. Vamos ver no que vai dar esse namorico.
            Estou ouvindo um furdunço!

Alguém vinha correndo e gritando socorro.

Parece um menino de saia... Não, é o coroinha da igreja.

O jovem parou em frente da casa de Ernestina.

E eu que detesto confusão.

            ¾ O que foi menino? Aconteceu alguma coisa com o padre.

            ¾ Não senhora. Nhá Tina. O padre está bem, mas teve um assalto na porta da Igreja Matriz. Tinha um homem parado ali com um burro carregado de mercadoria. O bandido queria levar tudo armado com uma garrucha. O dono do burro ficou paralisado, duro que nem santo de andor na procissão. Eu que não sou bobo nem nada, saí logo correndo para pedir ajuda. A delegacia está fechada. Estou procurando o delegado.
            Disse e saiu correndo.

            Acho melhor fechar a janela e entrar. Vou ficar uns tempos dentro de casa. Sempre tem alguma coisa para fazer. Quitandas, costuras e cuidar das plantinhas.
                                               ...

Ouço a aldrava. Tem alguém batendo na minha porta!

 A tarde já ia adiantada.

Quem será? Depois de duas semanas, fechada aqui, bem que uma conversa vem a calhar. Deixa-me ver pela janela. É a Clarinha. Louca para contar as novidades. Eu estava mesmo isolada, pois nem à missa de domingo tinha ido por causa da dor nas costas.
            Gostei da novidade. Parece enredo de filme.

            Clarinha contou-lhe  que o Dr. José, irmão da Dona Otília, tinha vindo do Rio de janeiro visitar a família do Seu Leopoldo. Ele é amigo do Elpídio e descobriu o interesse dele pela filha do velho. Aracy estava aflita, porque Elpídio queria pedi-la em casamento, mas estava com receio de ser recusado, por causa da rixa política entre as famílias.

            Clarinha ainda disse que José foi falar com Elpídio para saber a quantas andava o dilema. O rapaz se abriu para o amigo. Estava mesmo apaixonado. Já nem dormia direito pensando na moça. José resolveu ajudar. Foi falar com o cunhado.

            Ponderou com Leopoldo que o moço era sério, trabalhador e de bons princípios. Disse até que o cunhado, já avançado na idade, tinha que assegurar o futuro das filhas que eram seis. Leopoldo chamou Aracy para conversar fechado no escritório. Ela, bem apreensiva, ficou calada enquanto o pai lhe falava sobre a seriedade do casamento. Ele perguntou se ela sabia do interesse de Elpídio. Ao que ela aquiesceu encabulada. E tudo ficou acertado. Podiam avisar Elpidio para vir fazer o pedido.
            E assim, se casaram Elpídio e Aracy.


É melhor eu voltar para minha janela. Que pena que não acompanhei todo aquele movimento na casa da frente...

MINHA MOTO, MEU AMOR - Oswaldo Romano



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MINHA MOTO, MEU AMOR

Oswaldo Romano

        Braguinha estava noivo prestes a se casar. Apaixonado por motos sua vida girava entre elas. No momento curtia uma Harley 1200 CC. Toda manhã sua máquina era lavada e carinhosamente polida.

        A noite dedicava-se a noiva, mas não se separava daquela que ele mais amava. Edir, sua noiva, pressionada pelos pais, descarregava nele a necessidade de se casarem. Já não o amava tanto, sentia exagerado ciúme do seu, dizia, brinquedinho.

        O tempo passava e Braguinha não se decidia. Quem decidiu foi ela, resolveu dar um basta.

        Ele não se deu conta que ela tomaria essa decisão. Agora, tentar reverter ficaria para sempre uma mancha que cobriria o amor volúvel, sujeito ao desmanche a qualquer momento.

Aceitou a separação, e agora como apagar o que o fez em lagrimas? Conta com sua moto  saindo por esse mundo afora.

        Num giro pelas Bermudas conheceu praias belíssimas, mas muito melhor teria sido em companhia da Edir. Ela não saia do seu pensamento.

        Disseram-lhe que a praia mais longa da ilha ficava ali a pouco mais de vinte quilômetros. Correr desesperado por ela seria um modo de esquecer o sofrimento.

        Só não lhe avisaram que avistando seu fim, regressasse, pois, lá viviam na aldeia índios revoltados, doidos por um escalpelo.

        Ciente do perigo, perigo que o enfurecia ainda mais, à tardinha rumou para a longa praia. Queria na velocidade limpar seu ferimento amoroso.

        Quando avistou a aldeia indígena o sol já se despedia, e as ondas molhavam seus pés. Assustou-se. Esqueceu-se da maré que nessa praia sobe quatro metros nesse horário. É a chamada preamar. Impossível o regresso.

Só restava seguir até a aldeia, talvez os índios compreendessem sua situação.
        Ou esperar até ser engolido pelas ondas.  

        Ah, Edir, Edir...


A BAGAGEM - Sergio Dalla Vecchia

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A BAGAGEM
Sergio Dalla Vecchia

Mais um dia de rotina no aeroporto internacional.

Voos chegando e partindo em precisos intervalos de tempo.

Com a evolução da tecnologia aeronáutica, os procedimentos para aterrissagem e decolagem solicitam cada vez menos comprimento de pistas e menos tempo de operação em solo.

Entretanto, essa eficiência logística não acontece com as pobres malas, maltratadas, empilhadas aleatoriamente sem nenhum cuidado.

Por falta de uma identificação precisa, compatível com o nível tecnológico atual, malas são extraviadas e comumente trocadas por outras parecidas.

Os passageiros mais desatentos e estressados, recém-chegados de longa viagem internacional, são as maiores vítimas.

Foi o que aconteceu com a mala de Manolo, passageiro turista espanhol vindo de Madri.

Ele retirou às pressas da esteira rolante uma mala semelhante a dele.

Passou tranquilamente pela imigração e logo entrou num táxi, rumo ao Hotel.

Pelo trajeto fechava os olhos, imaginando as visitas aos pontos turísticos, da cidade do Rio de Janeiro. Transbordavam expectativas!

No fim do dia seguinte, soube-se pela mídia, que um turista espanhol de nome Manolo, não chegou a hospedar-se no Hotel, e que a polícia já o considerava desaparecido.

Aconteceu que durante o trajeto Aeroporto-Hotel, o táxi foi seguido e numa rua transversal fechado abruptamente, pelo carro que o seguia.

Dele saíram dois homens encapuzados, armados de revólveres e violentamente retiraram Manolo com sua bagagem do táxi. Puseram-no no carro e saíram em disparada.

Vendaram-lhe os olhos e viajaram por cerca de uma hora.

O carro parou!

Manolo notou a ausência dos ruídos da cidade. Ouvia apenas o cochicho dos sequestradores e o som de folhas esfregando-se ao vento. Já era noite!

Foi levado ainda com os olhos vendados para dentro de uma casa.

Mesmo no desconforto daquela situação, percebeu um ambiente agradável e perfumado. O aroma de incenso floral era sutil.

Puseram-no sentado na cadeira de madeira, daquelas antigas, reforçadas, disposta no centro da sala.

Ainda vendado, ouviu uma voz típica de um gangster sofisticado:

— Para quem você trabalha? Por que roubou minha mala? Fale homem!

Manolo não entendeu nada, mas respondeu convicto:

— Você é maluco. Essa mala é minha, não sua.

Mal acabou de responder, levou um violento tapa no rosto, estalado como uma faísca no ouvido e produzindo zumbido característico.

— Retirem a venda dos olhos desse infeliz. Quero ver se mente olhando nos meus olhos.

Assim que Manolo começou a enxergar, viu a figura de um homem oriental longilíneo, muito bem vestido e com um gato angorá branco nos braços.

Com olhar forte e raivoso o homem arguiu novamente:

— Por que roubou nossa mala?

— Já disse, ela é minha. - Respondeu Manolo.

 — Se não acredita, abra-a e encontrará apenas roupas necessárias para uma viagem curta de turismo.

— Ah, é! Então vou abri-la já.

A mala foi colocada sobre a mesa e logo aberta.

Havia realmente roupas, mas não as do espanhol.

O oriental com muita convicção enfiou as mãos em meio as roupas chegando a um fundo falso como que já soubesse dele.

— Estas roupas são suas? – Indagou o homem mostrando um punhado de roupas nas mãos.

Manolo logo percebeu que não eram, e abismado bradou:

— Não pode ser! É idêntica a minha. Devo tê-la retirado da esteira por engano.

— Ora vá mentir para outro! Eu não acredito em você. – E mais um tapa ardido foi desferido sem dó no rosto do Manolo.

— Vamos, me dê o código de voz para o fundo falso abrir-se.

— Que código? Eu não sei de código algum, acabei de concordar que essa mala não é minha.

Assim, por ambos desconhecerem o código, o oriental entrou noite adentro torturando o desafortunado espanhol.

Acontece que a polícia estava com a investigação bem adiantada. Conseguiu a descrição dos sequestradores pelo taxista, daí através dos informantes localizou o cativeiro.

Com muita eficiência a polícia cercou e invadiu a casa em minutos.

Estranhamente, encontram dois homens mortos no jardim e um oriental também morto, caído na sala com um gato branco lambendo o sangue que escorria da boca. Manolo ainda estava lá amarrado na mesma cadeira, inconsciente com o rosto todo machucado.

Após reanimarem-no, ele ainda saindo do choque narrou detalhadamente todo o ocorrido.

O delegado o ouviu com toda a atenção e no fim disse:


— Está tudo bem agora sr. Manolo, mas diga-me sem mentir, cadê a mala?