APAGANDO LEMBRANÇAS - Ledice Pereira

Resultado de imagem para mulher lendo carta


APAGANDO LEMBRANÇAS
Ledice Pereira

O dia chuvoso me fez buscar algo para fazer já que meus planos de sair foram abortados.

Resolvi colocar em ordem algumas caixas onde juntara papéis antigos, cartas, fotos e bilhetinhos da minha juventude.

Chamou-me a atenção um pacote amarrado com fita vermelha, contendo vários envelopes amarelados pelo tempo.

Sentei-me no chão puxando uma almofada para ficar mais confortável e comecei a examinar o conteúdo.

Meu pensamento me levou para a época entre a adolescência e a juventude, palco dos acontecimentos ligados àquelas cartas.

A primeira carta veio naquele dia em que cheguei das compras com meu pai. O zelador a colocou embaixo da porta. A letra era quase infantil. Trazia o endereço certo, mas não continha nem destinatário nem remetente...

Lembro-me que achei estranho aquele carimbo de urgente.
E ao abrir, deparei-me com um lindo papel de carta florido sem, entretanto, conter algo escrito.

Ainda brinquei com meu pai, dizendo que devia ser de uma alma do outro mundo.

Depois dessa vieram outras. Na segunda, onde constava meu nome, havia um desenho: duas meninas, uma árvore e um sol. E não constava remetente.

A curiosidade tomou conta de mim. Passei a aguardar a chegada do carteiro querendo decifrar aquelas mensagens e de quem seriam.

Os desenhos se intensificaram. Foram tomando conta de toda a folha de papel: corações, flores, estrelas, pássaros... Até que um dia recebi uma longa carta, na qual uma ex-colega de escola declarava o seu amor por mim.

Não era uma colega tão chegada. Não fazia parte da minha turminha. Ficava mais isolada, não tinha muitas amigas nem participava de nossas atividades extraclasses.

Nunca havia passado por uma situação dessas e custei a digeri-la.

Contei para meu pai, que me aconselhou como sair daquela situação.

Com educação e firmeza, respondi, explicando que não estava absolutamente interessada naquele afeto.

Nunca mais ela me escreveu. 

Não sei o que me levou a guardar aquelas lembranças, talvez pelo inusitado.


Hoje, em minha arrumação, rasguei-as e  coloquei os pedaços no cesto de lixo.  

O circo que não existia - Ana Maria Pinto

 Resultado de imagem para desenho de homem falando no megafone

O circo que não existia
Ana Maria Pinto

Palhaço em principio, é uma pessoa triste. Apesar disso gosto muito de palhaços e de circos. Certa vez, sonhei toda a noite com um palhaço que, apesar da sua tristeza, conseguia passar para a plateia alegria e solidariedade. O sonho foi tão real que, ao acordar, fui ao jornaleiro procurar saber onde estava aquele circo. Ele não sabia do circo. Como não encontrei nada, comecei a perguntar às pessoas e, em pouco tempo, a " noticia" já estava se espalhando.

Como quem conta um conto acrescenta um ponto, o circo começou a crescer e a ter sucesso embora ninguém tivesse visto nada. O circo virou o assunto do dia. Mas, claro que as pessoas ao entrarem na realidade deveriam pensar, e até com certa razão, que eu não estava bem da cabeça.

O tempo foi passando e eu esqueci esta historia. Muito tempo depois um dos meus netos contou-me uma historia relatada por um coleguinha de escola. Era a historia e uma avó maluca que tinha inventado um circo para distrair os netos e para valorizar o papel do palhaço como figura inesquecível da infância, desde os velhos tempos.


E nesse circo da avó maluca, alguém acredita?

UMA CARTEIRA SURRADA - Ledice Pereira


Resultado de imagem para carteira antiga

UMA CARTEIRA SURRADA
Ledice Pereira

A tarde de verão levava as pessoas às ruas e às praças, umas acompanhando crianças em suas brincadeiras, outras colocando o papo em dia enquanto caminhavam.

Ivete costumava sair todas as tardes e, após a caminhada, sentava-se no banco da praça onde gostava de apreciar o revoar dos pássaros, que procuravam nas árvores lugar para se recolherem.

Ficava ali alguns minutos deixando que o pensamento a conduzisse a lugares distantes. Algumas vezes, só percebia que o tempo passara quando as luzes se acendiam anunciando a chegada da noite e aí ela avistava a lua que já reinava lá no alto.

Naquela tarde, tinha terminado os afazeres mais cedo e se dirigira para a praça quando o sol ainda ia alto. Sentou-se debaixo de uma arvore para proteger-se e ali ficou encantando-se com a criançada.

Avistou, então, um objeto escuro meio encoberto pelas folhas que formavam um tapete amarelado. Abaixou-se para examinar de perto, deparando-se com uma carteira masculina, um tanto descascada indicando que teria sido até valiosa no passado.

Curiosa, abriu, procurando algo que pudesse levar ao proprietário. Não havia dinheiro. Apenas uma foto amarelecida de uma jovem com cabelos presos, trajando vestido rodado, de cintura marcada, levando-a  a calcular que tivesse sido tirada lá pelos anos sessenta.

Havia também um papel dobrado inúmeras vezes, também amarelado, que custou a abrir, tantas eram as dobraduras. Uma carta!

A remetente assinava: Rosemarie.

Com dificuldade Ivete leu seu conteúdo. Algumas letras estavam apagadas, inclusive a data. Ivete pensou que parecia ter sido escrita com caneta tinteiro.

Outras letras borradas como se tivessem sido molhadas – Lágrimas?

Ivete tentava decifrar o que teria levado a jovem àquela despedida.

“Não me procure mais – dizia a carta. Você me decepcionou. Nunca mais quero vê-lo. Fique com ‘ela’.”

Essa carta guardada tanto tempo trazia uma triste história de amor e teria significado muito ao portador. Por onde andaria ele?

Ela tentou descobrir perguntando ao jornaleiro, ao pessoal da lanchonete da esquina, mas ninguém soube informar.

Colocou novamente a carteira encostada a uma árvore daquela praça, um pouco mais visível para que, talvez, aquele homem ainda apaixonado pudesse reencontrar-se com sua história.

O MURO - Silvia Helena De Ávila Ballarati


Imagem relacionada

O MURO
Silvia Helena De Ávila Ballarati

"Estranho, esta carta não parece ser para mim. Está na minha caixa de correio, apesar de não ter meu nome. Tenho direito de abri-la, afinal de contas moro só". Pensava enquanto manuseava o envelope.

Pensou em queimar a correspondência, mas a queimaria depois de ler para que ninguém soubesse de sua infração.

Dirigiu-se para o canto da cozinha, para perto do gás.
“Queimariam também seus medos?” 

O aviso “Urgente” em vermelho acelerou sua intenção.  Foi quando percebeu que apesar de estar em 1998,  o carimbo do correio no envelope mostrava 1989. Certo tremor o balançou.

Veio à memória a fatídica partida de sua amada. O mochilão pela Europa seria "a" despedida! Depois voltaria ao Brasil e enfim se casariam.  Era o que João também esperava.  Concordara com a viagem da namorada a contragosto, nunca fora muito seguro de si, era temeroso em relação a tudo.

A viagem não seria uma despedida de solteiro convencional, com bebidas, brincadeiras picantes entre amigas em bares joviais.  Para ela seria o encerramento de uma etapa da vida, por isso o mochilão pelo centro europeu. Ousado demais para um namoro sério.  Ele temia que ela não voltasse, que não o amasse mais, que conhecesse outros rapazes. Como sofria, João! Consumia-se em pensamentos negativos "os espanhóis galanteadores, os alemães que amam as brasileiras". Ainda lhe causa hesitação essa lembrança.

Do envelope sai, enfim, a revelação do mistério. 

Agora a carta explica em detalhes, pois, foi justo na Alemanha, ao pegar um pedacinho do tijolo do muro de Berlim, caído há questão de horas, que a fez mudar de ideia.  O país que se apresentava, o vislumbre de novos tempos, o cair por terra de anos de separação em que os próprios alemães se estranhavam, um momento tão importante para o mundo e ela ali, parte integrante da história.  Tinha que ficar, ainda que custasse outras infindáveis brigas por telefone com o namorado.

Do quarto do albergue onde se hospedara com duas amigas brasileiras, naquela noite decidiu não sair.  Pensamentos, ideias em ebulição, sentimentos humanitários, queria a paz mundial!  As amigas voltaram às ruas, Berlim estava em festa, mas ela resolvera ficar para explicar a João e, na verdade, explicar a si mesma, através da carta, a sua existência, sua nova essência depois da queda do muro de Berlim.

A longa carta afirmava seu amor, o desejo real de se casarem, mas não mais naquele momento.  Algo muito forte se passava dentro dela.  Queria conhecer os tais muros cinzas de Dresden, os antigos carros Lada, as construções uniformes, o atraso que assolara o lado oriental alemão.

E ainda diz que ele receberia a carta através de um amigo, porém não cita o nome dele. Embora fosse pragmática, estivesse certa de sua decisão, e conhecendo bem o namorado, mandaria a carta dentro de outra endereçada ao tal amigo. 

No entanto, parece, que as coisas não aconteceram como programadas.

Têm vidas que parecem ter saído de novela,  nem ela e nem o amigo dela quiseram ser os portadores da notícia. E, foi assim foi que João nunca soube por que a namorada desaparecera de sua vida.

...Onze anos mais tarde, quando o assunto já não surtiria o efeito catastrófico do passado, o amigo deixou a antiga carta na caixa de correio de João.


— "Poxa, se eu soubesse! Por que só agora?  Seria tudo diferente anos atrás!

FOI O CARTEIRO QUE DEIXOU POR BAIXO DA PORTA - Oswaldo Lopes


Imagem relacionada

FOI O CARTEIRO QUE DEIXOU POR BAIXO DA PORTA
Oswaldo Lopes

         Só acontece se a sua casa tiver a porta da entrada direto na rua. Se ela tem jardim na frente, terá caixa de cartas. Se for apartamento o zelador é quem recebe a correspondência.

        E lá estava ela esparramada no hall de entrada. O carteiro a enfiara por baixo da porta. Era carta aérea, o envelope era dos antigos que tem a borda colorida, como que refazendo a bandeira do país de origem, no caso vermelho e verde. É com certeza uma carta portuguesa, pensou.

        Abaixou-se e pegou-a, estava endereçada a Célia Gusmão do Amarante, no endereço dele com CEP e tudo. Só que ali, não morava ninguém de nome Célia e ele não conhecia nenhuma Célia, embora os Amarantes não fossem tão estranhos. Conhecia vários.

        O remetente chamava-se Antônio do Amarante e morava ou escrevia da cidade de Óbidos o que confirmava ser a carta portuguesa.

        Silvio ficou ligeiramente perturbado. Ainda por cima o gajo carimbara nos dois lados do envelope a palavra URGENTE e grifara com força. Pensou uma vez e na segunda abriu o envelope, três folhas de papel saltaram em suas mãos, todas em branco!

        Aquilo estava ficando irritante. Era evidente que o autor da carta não era analfabeto, o endereçamento e o remitente estavam muito claros e a letra era firme e sólida. E se alguém escrevera para ele? Bem e dai? Porque colocou três páginas em branco dentro?

        Não conseguia pensar em outra coisa, lembrou-se então entre outros Amarante do Joaquim Amarante, advogado que conhecera no clube há alguns anos atrás e de quem ficara amigo. Resolveu procura-lo.

─ Alo Joaquim? Quem fala é o Silvio lá do clube

─ Alo Silvio o que manda?

        Explicou o mistério e teve a primeira surpresa: Célia Gusmão do Amarante era cunhada do Joaquim, casada com um irmão dele, Antônio que se mandara para Portugal fazia tempo. A história era incrível, por mais que fizessem  nunca conseguiram localiza-lo. No entanto, regularmente ele enviava quantias apreciáveis, às vezes até vultosas de dinheiro, em espécie, por portadores que nada explicavam ou sabiam explicar.

        Célia se acostumara com aquela situação e tinha uma vida até confortável. Morava na Alameda Dino Bruno e ele na Alameda Dino Bueno, mesmo número, mesmo CEP, de acordo com as informações que Joaquim lhe passara.

        De posse do telefone dela, fez a ligação de imediato e explicou o acontecido caprichando nos detalhes. Ao fim perguntou:

─ Você entendeu essa carta?

─ Entendi, foi a resposta ouvida num sussurro baixo.


        A voz era quase inaudível e ele sentiu, mais do que ouviu, as lágrimas que corriam pelo rosto dela.

BOSQUES DE PALERMO - Silvia Helena De Ávila Ballarati

Imagem relacionada

BOSQUES DE PALERMO
Silvia Helena De Ávila Ballarati


Aos domingos,  Federico Gallo gostava de passear em Palermo, mais exatamente  no Parque Tres de Febrero, conhecido como Bosques de Palermo.  Morava em Morón, cidade a cerca de 20 km de  Buenos Aires.  Levava uma vida rotineira, trabalhava no escritório da  Dp Electronica, era muito educado, bem relacionado mas bem reservado também. Tinha algumas eventuais companheiras, algumas do trabalho, outras de paixões ainda mais efêmeras, pois se conheciam nos parques e ali mesmo encerravam o relacionamento.  Tão logo se viu órfão aos vinte e três anos, primeiro do pai, e menos de um ano depois, da mãe, resolveu morar sozinho.  O único irmão que tinha levava uma vida de trabalho na capital argentina semelhante a de Federico , mas a semelhança parava por ai,  ele já era  casado e com um casal de filhos. Poucas vezes ao ano os irmãos se encontravam, só mesmo em ocasiões oficiais, Natal, Batizado, Primeira Comunhão. No mais, pouco se falavam. Federico gostava de família, mas algo o impedia de constituir a sua própria.

Os domingos em Palermo sim, eram seu grande deleite. Fazia longas caminhadas, passava horas no Jardim Japonês,  observava os visitantes,  sentia-se renovado com o sol penetrando-lhe na pele.  Em julho, chegava a tirar férias do escritório por duas semanas para acompanhar de perto, todos os dias, a Exposição Rural.  Neste ano de 1987, a 105ª (centésima quinta)  exposição tinha uma atração especial de cavalos crioulos.  Federico via as provas de equitação, acompanhava a ordenha das vacas, assistia a todas as premiações de gado, visitava as baias, adorava o cheiro de esterco recolhido e amontoado em cantos.  Tinha paixão especial pela prova de adestramento.  Nem ele mesmo entendia esse gosto pela natureza. Sonhava às vezes, atolado com o carro em estradas de terra era um sonho recorrente, andando a cavalo ele já não sabia se era sonho ou desejo.

Conhecia tão bem o parque que, certa vez,  sentado no banco de uma das praças para comer um sanduíche de miga com presunto e queijo, notou que uma das lixeiras estava transbordando de caixas de papelão de diferentes tamanhos, algumas meio rasgadas, mofadas, outras com selos, tarjas, como se fossem arquivos. Chamou sua atenção, pois o lixo normalmente era composto de copos e pratos plásticos, muito guardanapo e  latinhas.   Profundo conhecedor do parque, frequentador assíduo, sentiu-se na obrigação de  ver do que se tratava lixo tão inusitado.  Eram papéis antigos dentro das caixas e tinham, em sua maioria,    timbres dos  Bosques de Palermo,   do Wellington Polo Club,  da Exposição Rural de Palermo, entre outros, como se tivessem sido descartados em alguma limpeza de departamento. Mas em uma das caixas encontrou uma carteira de couro trabalhado em relevo, parecendo as inicias de alguma marca.  Embora bem surrada,  via-se que tinha sido uma carteira refinada.    Abriu-a e se deparou com a foto de uma moça muito elegante, em trajes de montaria, ao fundo montanhas com picos em neve que Federico pensou reconhecer.  Para sua surpresa uma carta dobrada constava junto dos documentos.  Era uma autorização para que Guillermina Cuesta Alcacer, a primeira mulher argentina  a se aventurar por searas eminentemente masculinas, pudesse frequentar as aulas de adestramento e participar das competições.  Datava de  1932, quando os clubes de equitação, polo e adestramento,  eram de domínio exclusivo de honrosos senhores.

Guillermina Cuesta Alcacer, criada na terra como gostava de dizer, desde menina ia com o pai todas as tardes para a fazenda a 12 km de Buenos Aires.  Quando lá chegavam seu pai pedia que pisasse no freio da camioneta rural enquanto ele abria os colchetes.  Ela se via trabalhando na fazenda, importantíssima.  De vez em quando levava amigas da escola para lá, com o compromisso de voltarem à tardinha.  Mas nessas ocasiões, sentia duas tristezas: ao levá-las teria que ficar nas brincadeiras femininas e o pior, voltar na hora do dia em que mais apreciava ficar.  Tinha fascínio pelo final de um dia de trabalho numa fazenda.  O gado, por ter passado horas preso no curral, se agitava, levantava muita poeira e quando saía para o pasto ia devagarzinho formando um fila naturalmente.  O contraste do gado amarelado da raça Angus com o céu azul meio laranja do finzinho do dia era lindo, imperdível!  Guillermina queria realmente trabalhar na fazenda, os afazeres domésticos tradicionais não a conquistavam.  Fazer bolo, por exemplo, todas as amigas já sabiam, menos ela.

Para surpresa do pai, foi ganhando pequenas batalhas; tornava-se de fato útil. Sabia, como poucos,  levar os bois ao tronco com tranquilidade, apartava as vacas dos bezerrinhos,  uma atividade considerada perigosa, contava o gado de cima da porteira  de madeira,  melhor que os peões, sem confundir o resultado.  Era plena a sua satisfação.  Na adolescência começou a chamar a atenção pela destreza e elegância ao montar.  Segurava a rédea com apenas uma das mãos, abolia o uso do chicote embora tivesse um lindo de couro em tricê apenas para compor o traje de montaria.  Destacava-se também pela beleza e simpatia, sempre sorridente, dizia que o contato com terra e animais tornava as pessoas benevolentes.  Sobressaía em competições amadoras entre vizinhos, ora em sua fazenda, ora na de amigos.  Certa vez, na Exposição Rural de Palermo, participou da prova de adestramento juvenil, desbancando o favorito, um primo de terceiro grau.  Primo e pretendente,  sabia que ela, aos 19 anos, jamais poderia frequentar o clube equestre;  em 1925  mulheres não praticavam as mesmas atividades que os homens.  Mas fez de tudo para que ela obtivesse uma autorização, assim, ficariam todo o tempo juntos.

Guillermina cedeu aos encantos do primo, passavam horas nas cocheiras cuidando dos cavalos e esse interesse em comum, acabou por aproximá-los ainda mais, culminando em namoro.  Foram tempos muito felizes nos Bosques de Palermo, ela nunca soube bem ao certo se gostava dele ou da vida que compartilhavam.  Ele competindo de fato, ela treinando nos piquetes atrás da arena. Mesmo assim,  atraía a atenção de pessoas que ficavam fascinadas com seu cavalgar. A esta altura,   tendo viajado bastante com o primo e seu pai, era bem conhecida por toda a comunidade rural e já alcançava certa notoriedade. Uma vez, teve a oportunidade de se apresentar para resgatar um bezerro na prova do laço e foi reconhecida por alguns.  Muito charmosa, segurava a rédea com a mão direita e com a esquerda balançava o chapéu para a multidão. Foi ovacionada.  Mas para ela, não bastava. Embora tivesse chegado longe na categoria do adestramento, como mulher, queria o reconhecimento formal da federação.

Certa vez, um  grupo de brasileiros foi a Palermo para a exposição e ela conheceu um rapaz por quem se apaixonou verdadeiramente.  Não demorou muito e estavam casados, morando no Brasil, levando uma vida bem parecida com a que sempre tivera.  Ocupada que estava com uma gravidez seguida da outra, tiveram quatro filhos, soube que a autorização da Federação Equestre da Argentina  finalmente havia saído. Impedida de viajar  pelas circunstâncias em que vivia,  durante muito tempo recebeu  a visita regular dos pais e  irmãos e só depois de onze anos voltou à sua terra natal.  Lá chegando, a primeira coisa que fez foi procurar  pelo documento mas ninguém se lembrava dele, alguns nem sabiam da existência de tal autorização.   Passou então a viajar anualmente a  Buenos Aires em julho, assim, aproveitaria para rever a fazenda,  matar a saudade de seus tempos de amazona e mostrar aos filhos  os Bosques de Palermo onde  montara durante a juventude.  Chegou a ser, mais de uma vez, reconhecida por antigos fãs, que tinham muita curiosidade pela vida daquela que tinha sido a  corajosa moça  a ganhar  dos homens nas competições de cavalo, fosse de adestramento ou outra modalidade qualquer.  Sentia orgulho e ao mesmo tempo uma tristeza profunda  dentro de si, nunca soube se realmente havia sido aprovada.


Pontualmente às 17:30hs Federico Gallo chegou.  Ela pedira que a conversa se desse no período do dia que mais apreciava.  Ao ver a senhora à sua frente, no alpendre fresquinho da fazenda, sentada na cadeira de balanço, vasos de hortênsias azuis ao lado, a bandeja de prata já gasta de tanto ser areada, bules de café e leite, xícaras azuis de porcelana inglesa (Crown Clarence?), quis voltar no tempo.  Mal podia esperar para saber os detalhes daquela história que finalmente começaria a ser desvendada.  Foi recebido com um sorriso suave nos lábios.  Para Federico a cansativa viagem de avião até Campo Grande mais o longo trecho de quase quatro horas dentro de um pequeno carro alugado, no calor sufocante do centro-oeste brasileiro, estradas a sacolejar o tarimbado motorista cuiabano, nada disso representava um problema. Nem a incerteza de como seria recebido, nem onde se hospedaria no pequeno vilarejo de Naviraí, ofuscava a  felicidade de ver que a senhora gozava de boa saúde.  Para Guilhermina o encontro seria o resgate de sua história mas, principalmente, o coroamento dela.  Poderia, enfim, acreditar que um dia fora aprovada para as aulas e competições da Federação Equestre da Argentina.

A carta enigmática - Fernando Braga


Imagem relacionada

A carta enigmática
Fernando Braga


       Ainda relativamente moço, costumava ele aos domingos, levar seus quatro filhos pequenos a um parque junto à Avenida Arruda Botelho, conhecido como “Parque do Quércia”. Este ex-governador morava em um bonito apto, que dava em frente,  daí a denominação popular.

       Certo domingo, em um fim de tarde, foi a este parque com os filhos, que corriam de lá para cá, enquanto sentado em um banco, os observava. Foi amarrar o tênis quando deparou com objeto caído junto a um dos pés do banco. Apanhou-o e viu que se tratava de uma carteira de couro, bem desgastada. Abriu-a e olhando seu conteúdo, na frente estava a fotografia de uma mulher exótica, atrás de um plástico transparente e em outro compartimento, retirou um papel duplo, de seda, dobrados em oito partes. Abriu-os, percebeu que estavam bastante gastos e notou que se tratava de uma carta, dirigida a uma tal de Maria H. No final, o nome Romano.    Olhando em volta, não percebeu ninguém que pudesse tê-la perdido. Ia ler a carta, mas seus filhos chegaram e foram para casa.

        Mais tarde, em seu escritório, cuidadosamente passou a ler o conteúdo das duas páginas. À medida que foi lendo, ficou interessado, logo surpreso e, mais no final...pasmo!

       Não pode ser!  Pensou. Será verdade?

        Chamou a esposa, pedindo que lesse a carta. Ao terminar, ela colocou a palma da mão no rosto, ficou parada e disse:

        — Barbaridade! Isto não pode ter acontecido! É um turbilhão de paixão! Um caldo quente derramado nos pés. Você precisa encontrar esta pessoa!

       —Também acho! – replicou

       Passou a ir todos os dias, incluindo fins de semana, ao parque. Sentava-se no mesmo banco, colocava a carteira bem exposta na mão, para que por coincidência, alguém a visse e reconhecesse.

        Frequentemente, parava pessoas e perguntava se conheciam um  tal de Romano ou Maria Helena, que para ele, seria a Maria H. Nada, nada mesmo. Um deles disse que o único Romano que conhecia, era o dono da grande loja de material de construção. Talvez ele morasse em um daqueles aptos, daquele fabuloso condomínio.

       Foi de prédio em prédio, conversando com os porteiros, zeladores e nada.  Nenhum Romano nos prédios, mas dois ou três, citaram o tal Romano, dono das lojas de construção. Esse era famoso!

       Assim que chegava em casa, sua mulher vinha ansiosa perguntava se tinha alguma notícia e ficava desanimada, desapontada, com a resposta negativa.

      Após seis meses já estavam desanimados, perdendo toda a esperança de encontrar os protagonistas daquela carta. Nunca comentaram com alguém a respeito do conteúdo da missiva, pois era algo grave, embora nada sugerisse, que precisassem leva-la à polícia. Dois anos após, sem qualquer resultado, sua mulher pegou a carta, abriu-a e disse:

         — Não tenho coragem de lê-la novamente.

E jogou-a no fogo da lareira.

        — Eu, Zé Osvaldo, fui o único confidente deste casal, que pediram sigilo absoluto de minha parte, se possível!

        — Assim sendo, quero terminar este texto, contando rapidamente o que continha a enigmática carta com conteúdo surpreendente, marcante, doloroso e pessoal.

Mas... Mas...Pensando melhor...

       — É realmente muito grave a matéria, desesperante, perturbadora, incongruente e por que não dizer, demoníaca, satânica, cramunhônica e com a certeza, nenhum de vocês aqui presentes, teria a coragem suficiente para ouvi-la.

      — Esqueçamos ...  Vamos em frente!

      — Boa tarde! Zé Osvaldo.


Acasos - Ises de Almeida Abrahamsohn.



Acasos
Ises de Almeida Abrahamsohn.

Entre panfletos e contas que o carteiro despejava na caixa o envelope marrom amassado passaria despercebido não fosse o berrante URGENTE em vermelho. O endereço era mesmo o seu, mas do destinatário nunca ouvira o nome nem desconfiava quem fosse. 

Olhou o carimbo: Lamego, Viseu. Vinhas a não se acabar recobrindo as suaves encostas ao longo do Douro foi a imagem que lhe veio à mente. Adorava a região onde viveram seus avós. Olhou o verso, nomes também desconhecidos.  Primeiro cogitou de devolver ao correio. Mas, e se contivesse algo que de fato não pudesse esperar? Pensou em localizar o destinatário pelo Face ou pelo Twitter o que poderia lhe custar algum tempo. Não iria se dar ao trabalho se não fosse mesmo urgente.

Finalmente decidiu-se por abrir o envelope. Marília passou rapidamente pelo texto:

̶  Ora, vejam só, que sortudo esse tal de Mário Seixas Schmidt. Pelo jeito vai herdar uma bela propriedade. Queria que fosse eu!  Sempre quis ter uma quintazinha no Douro para lá passar os verões e outonos... Bem, vamos lá atrás do Senhor Mário. Ele tem que se habilitar até o fim desta semana. Talvez ele me convide para passar uma temporada na tal quinta....

Animada pela ideia, Marília atacou o computador. Uma dúzia de Mários Schmidt no Face mas nenhum tinha Seixas ou um S como inicial do meio. Eliminou os que não moravam no Brasil e sobrou a metade. Na linha do tempo nada que ajudasse. Olhou o relógio e deu um pulo. Teria que retomar a pesquisa quando voltasse da Universidade.

À tarde, no metrô, voltou a pensar no desconhecido Mário.

̶  Bem que podia ser um cara legal, estou precisando de um novo amor... Já faz um ano que terminei com o Renato. Tá certo, não precisa ser namorado, um bom amigo pelo menos, tá difícil de achar alguém, caras interessantes são raros, a maioria não consegue nem conversar direito, só querem sexo, tá difícil mesmo... Quando aparece um melhorzinho, vai ver e é casado o canalha, ou divorciado com filhos e mil problemas....

Chegou em casa aflita e voltou à telinha acompanhada de um copo de leite. Dos seis candidatos, dois não tinham fotos. Esperançosa, enviou mensagens a todos antes do jantarzinho frugal. Iria checar depois do fim do noticiário. Acionou o celular e sim!  Justo um dos sem foto era o Seixas Schmidt. Combinaram encontrar-se no dia seguinte.

Marília chegou dez minutos antes ao café do Shopping. Inspecionava os homens que entravam. Quase se levantou ao ver o rapaz atraente de terno e cabelos escuros dirigir-se ao balcão.  ̶  Bem que podia ser o tal Mário.... Mas não é! E pronto! Acorda menina, tá ficando idiota, tá  esperando quem? Galã de novela? Devo estar bem carente, estou ligada ainda no tipo do Renato, bonito, mas ordinário, chega, chega! Esquece!

Alguns minutos depois  ouviu seu nome. Virou-se. Lá estava ele.

 
̶  Bem, não é exatamente o homem dos meus sonhos, pensou ao apertar a mão do rapaz loiro, já um pouco calvo, de olhos claros e sorriso amigável.  Meio envergonhada, explicou-lhe porque abrira o envelope.  Mário encomendou os cafés e contou-lhe a história da herança. Ao se despedirem, convidou-a para almoçar no dia seguinte.


Seis meses depois Marília, de mãos dadas com Mário, inspecionava as vinhas carregadas de frutos.

A CARTEIRA DE YOLANDA - Maria Luiza Malina


Resultado de imagem para mulher tendo sonho caminhando de maos dadas pelo campo

A CARTEIRA DE YOLANDA
Maria Luiza Malina

Ganhar em jogos de azar sempre foi o desejo de Laura. Encontrar uma carteira não estava em seus planos. Tornar-se guardadora de coisas alheias, era só o que faltava. Deixou para o dia seguinte resolver o caso da carteira de couro de jacaré, cujo nome Yolanda aparecia numa carta sem data e um tanto manuseada, que envolvia a foto.

Laura não é do tipo que vasculha a vida das pessoas. No trajeto para o trabalho lembrou-se do ocorrido, sentiu-se meio culpada por não ter trazido a mesma consigo e a entregar na Delegacia do bairro. Mais uns passos e, foi tomada de surpresa ao se lembrar de um sonho que tivera: caminhava com um rapaz de mãos dadas por um campo, era um sonho agradável, mas não o conhecia. Ao chegar a escola onde lecionava, contou sobre a carteira e se alguém conhecia uma senhora com o respectivo nome. Assim passou o dia. Em casa guardou a carteira na mochila e no dia seguinte a entregou ao carteiro, conforme indicado.

Naquela noite, como nas demais passou a sonhar com o rapaz estranho. Chegava rápida em casa como se ele a estivesse esperando. Recolhia-se mais cedo e logo dormia e o sonho se repetia. Um tanto intrigada procurou ajuda. Naquele mesmo dia  re encontrou o carteiro que lhe devolveu a tal carteira afirmando que localizara muitas Yolandas mas, não pertencia a nenhuma. Aceitou um tanto inconformada.

Não foi direto para casa. Foi ao supermercado para compras e, algo estranho aconteceu: a imagem do rosto da senhora da foto era projetada em todas as senhoras para as quais olhava. Pensou estar delirando. Apressou-se nas compras e tomou o rumo de casa quando ouviu a buzina de um carro. Tudo ficou escuro. Dois dias depois acordou no hospital. Uma enfermeira a ajudou na higiene tomou o café da manhã e pediu que não se levantasse sem autorização médica.

Cochilou. Sonhou com o rapaz que lhe estendia a mão. Acordou num sobressalto, sentando-se na cama. Um médico a sua frente. O mesmo rapaz de seu sonho lhe estendia a mão para ajudar a fazer os testes de equilíbrio. Atordoada, não sabia o que era real. Rompeu em choro desesperador e contou a repetição dos sonhos, na ingenuidade disse parecer-se com ele e, que tudo acontecera após encontrar uma carteira com uma foto da senhora Yolanda que, tentava devolver e não a encontrava.

O médico suspirou. – Enfim encontrei a carteira que perdi. Era a única foto de minha mãe Yolanda já falecida. Peço que se acalme. Vamos por partes. Primeiro os testes de equilíbrio e os demais. O relatório da enfermeira diz que sua saúde está perfeita, e continuou estendendo a mão: - Agora fale de você.

Neste instante, ao se colocar em pé olhando para o chão, viu no tornozelo do médico o invisível fio vermelho de que tanto diz a lenda chinesa, que “ao nascer, os deuses identificam as almas gêmeas com um fio vermelho no tornozelo e que jamais, haja o que houver, ele será rompido e as almas de encontrarão”.

- Eu sou Laura, apenas Laura e você quem é?


- Sou Lauro, apenas Lauro. Posso te acompanhar a sua casa?

UMA CARTA ALHEIA - Maria Luiza Malina


Resultado de imagem para carta embaixo da porta

UMA CARTA ALHEIA
Maria Luiza Malina

O som de arranho na porta cortou o silêncio da monotonia do dia. Os olhos se voltaram para o chão percebendo a insistência em empurrar o envelope que mal passava de sua metade.

Instintivamente Laura se agachou e tentou puxá-lo. Sentia que havia alguém do outro lado, temerosa não abriu a porta. Aguardou o ruído dos passos se afastarem. Arrepiou-se. Há muito não recebia correspondências. O listrado na borda da carta em vermelho e azul denota ser estrangeira. Ela tenta puxar devagar. Enrosca. É muito volumosa. Procura por uma faca para ajudá-la. O envelope fino como papel de seda quase se rompe. Constata pelo visor da porta que não há ninguém. Abre a porta num vai e vem a finalmente o envelope se desprende.

URGENTE. Foi o que desviou a atenção. No urgente, seus pensamentos se embaralharam, podia ser um pedido de ajuda, aviso de morte. Os dedos nervosos de unhas afiadas deram uma picada no canto superior. Neste instante reconhece que o destinatário não lhe é familiar. O endereço é o seu, confere e reconfere o remetente. Os olhos repassam pela palavra urgente. O volume é razoável. Percebe que houve tentativa em abrir a carta a vapor. Está um tanto enrugada de cola, rasurada e ainda com o seu quase picote na borda...



Sentou-se analisando os nomes: Frederico Alcântara. Frederico um nome forte, deve ser um homem especial, daqueles que encantam com um cachecol em volta do pescoço.  Aconchega a carta ao peito repetindo o nome Frederico Alcântara... Imagina ser algum parente de Dom Pedro e, o que seria que o remetente Plinio Vilaça  poderia querer  com tanta urgência... Alguma herança...Ele agora estava em suas mãos, preenchia seus pensamentos, passou a ter ciúmes de um desconhecido. Resolveu abrir o envelope em um movimento só.
Ding... dong. - A campainha soa.
De sobressalto esconde a carta atrás de si sem saber o que fazer...
Ding...dong.
A incerteza crescia com a insistência do dedo na campainha que mostrava saber que a carta fora entregue em lugar errado.

Aflita chegou-se a porta. – Toc...Toc. Alarmou-se. Resolveu perguntar quem era.

- Sou eu sua vizinha, vamos tomar um café?


Uma Carta Perdida - Dóris Albero


Resultado de imagem para carta embaixo da porta

Uma Carta Perdida
Dóris Albero

Chegando em casa depois de uma viagem prolongada, ela é surpreendida com uma quantidade de cartas embaixo da porta.

Naturalmente pensa ela, são contas a pagar. Uma dentre elas, chama sua atenção: um nome que não é o seu, no seu endereço, e um carimbo de urgente em vermelho.

Ela hesita. E, como é urgente, resolve abri-la, afinal é urgente.

O assunto é realmente importante.  Constatou ela ao abrir a carta. Sente-se na obrigação de encontrar o destinatário. E ainda tem que assegurar-lhe, caso o encontre, de que não foi curiosa ao abrir o envelope, e sim solícita.

A primeira pista estava na própria carta. Realmente não foi propriamente na carta, teve uma ideia: e se procurasse o número da casa 1170 em ruas próximas à casa dela?


Depois de muito rodar, conseguiu encontrar a tal pessoa cujo nome era igual ao da carta, que esperava pela correspondência com grande ansiedade. Expliquei o acontecido e depois de tomar uma xícara de chá com bolo, senti que ali seria o começo de uma bela amizade.

A carta que não li - Maria Amelia Favale

Resultado de imagem para carteira velha

A carta que não li
Maria Amelia Favale

Indo para o trabalho sempre passo por uma praça e hoje ao andar por ela avisto uma carteira surrada, pego, abro e vejo uma fotografia velha de mulher e junto havia uma carta.

Abro a carta curiosa em saber quem escreveu e qual era o conteúdo. O papel está com marca forte de dobrado e até ficou vincado de tão antigo. O nome do missivista e o endereço dele estavam bem legíveis. Por coincidência lembro-me do endereço porque é o local que passo ao ir para o trabalho. 

Decidi não ler carta, afinal não era minha.

Mas, de repente me assaltam dúvidas.

Será que a mensagem é animadora ou não?

Não adianta querer adivinhar.


Fui até o endereço meti  a carteia pela fresta do portão e sai correndo.