O MISTÉRIO DA ALIANÇA MALDITA - Oswaldo Romano


O MISTÉRIO DA ALIANÇA MALDITA
Oswaldo Romano
                                                                                    
         O desejo de conhecer Nova York, era sua maior vontade. Desde jovem, colegas de classe, filhos de pais abonados, contavam as grandezas dessa cidade. Celso não gostava de ouvi-los, mas para manter-se no meio aceitava,  engolindo a seco.

         No mínimo achavam, sei lá, um modo de esnobar, atirando-lhe frases carregados de conhecimentos. Ele merecia, era insuportavelmente maçante. Prometia junto aos colegas, um dia dar a volta por cima e mostrar quem era o melhor.

         Os mais cordatos apenas respondiam às suas perguntas.   Eram tolerantes com o moço, não vangloriavam seus conhecimentos, conheciam sua têmpera.

         Celso queria, mas não conseguia igualar-se. Pensou numa bolsa de estudos. Entrou com tudo para ganhá-la.  Não mediu consequências, burlou normas, conquistou analistas, trambicou. 

         E lá foi ele com um balaio cheio de enganosas virtudes. Queria ao retornar trazer conhecimentos para mostrar quem era ele diante daqueles que considerava pulhas. Faltava-lhe a mínima modéstia. Sua conversa era a chamada conversa-mole. Mas, conseguiu a viagem.   
  
         A cidade realmente lhe impressionou. Percorrendo Nova York viu-se no famoso Central Park, tanto falado. Acomodou-se num banco, refletia como seria sua vida agora.

         Cabisbaixo, a posição do sol fez brilhar no rés da grama algo que brilhava. Cuidadosamente com o pé abriu espaço e viu ser uma aliança.

         Antes de tocá-la correu os olhos em volta, aquele olhar investigativo, próprio do momento. Aguardou aqueles demorados segundos, curvou-se para pegá-la, mas parou apertando o cadarço do sapato. Ficou indeciso, pois ao seu lado sentava um senhor, pernas cruzadas olhar perdido.

         Virando-se para o Celso, sorriu, levantou-se e se foi. Celso achou que  ele não percebeu seu intento. Teve mais um momento de vacilação. Mas, foi só um instante. Mergulhou de novo na robusta aliança.  Embolsou-a e deixou para examiná-la depois.

           Legível no seu interior estava gravado: Fred e Helen. Em um país que não era o seu, desconhecendo os costumes e leis, levou-o a procurar o verdadeiro dono na esperança de negociar uma boa gratificação.

           Usando uma lupa, vasculhando cuidadosamente seu interior, encontrou o logotipo V. Poderia ser do Vuitton, a famosa grife Louis Vuitton ou Vivara, uma filial brasileira. Procurou esta, a mais fácil. Atendido pelo Nelson, um brasileiro empenhado no sucesso da nova casa, conseguiu identificar os compradores e seus endereços.

           O caminho clareava.

           Foi procurar o cidadão disfarçando  a grande vontade de ganhar verdinhas,  superior ao ouro.

           Localizando a casa, foi atendido em inglês por uma senhora. No diálogo, estranhando sua fala, ela chamou pelo marido. Este falava castelhano. Ao tomar conhecimento pelas primeiras palavras do visitante, disse à mulher que o rapaz procurava emprego e a descartou encostando a porta. Levou um susto com a notícia e chamou-o de lado.

           Celso quando percebeu o pavor do homem, entendeu que ali havia muito mistério. Ao pedir-lhe que mostrasse, Celso alegou que por  segurança deixou a aliança em casa.

           Marcaram um encontro para acertos na mesma praça, o Central Park. Fred recomendou que não faltasse, insistiu muito nisso, e que compraria a aliança, desde que fosse a legítima. Como era benzida pelo Papa e testemunha do primeiro casamento, pagaria até cinco mil dólares. Valor alto para que não faltasse.

           A euforia de Celso encheu seu pensamento. Porém foi arrefecendo a medida que, voltando do contato, estranhava a importância que Fred deu  à  joia.

           À noite não dormia, rolava, não se desligava do fato. Em dado momento acendeu-lhe uma nova luz: Tinha ela, a Helen! Possuía seu endereço.  Por que não procurá-la?  Por que Fred deu tamanha importância de possui-la? Moitou-se quando lembrou o nome da Helen. Não via perigo em perder o que já havia combinado. Ao contrário, a coisa prometia ainda mais.

           Como previa, foi até a dona. Ela soube disfarçar sua surpresa na fala, porém Celso percebeu que amarelou e suas mãos tremiam. Disse ser Mexicana.  Perguntou seu nome.

           Para ele se existia ainda alguma dúvida, dissipou-se. Faltava descobrir  qual era o mistério da aliança, tamanho interesse e  o valor ofertado.

           — Celso - ela começou falando - essa aliança foi roubada de pessoa assassinada, antes da chegada da polícia. O portador dela corre sério risco de vida. Será tido como o personagem que cometeu e alterou a cena do crime. Descoberta em suas mãos, chegarão em mim.  Você e eu seremos vítimas dos justiceiros. Ela é a chave que faltava para esclarecerem um duplo assassinato.  Esses nomes são falsos. Escondem um código, um enigma que decifrados esclarecem os  envolvidos com os assassinatos de um grupo de traficantes. 

           Certamente você  foi na outra casa. Lá você foi filmado, como já aconteceu aqui, quando tocou a campainha. Não adianta jogá-la fora ou ir a polícia. Você já esta comprometido.

           —Mas eu não fiz nada!

           — Não vão acreditar, mesmo porque não chegaria lá. Não falo da polícia, falo dos justiceiros. Só eu posso salvá-lo. Você deve desfazer-se dela logo e muito longe. Eu comando como. Calma, eu tenho o plano, como já aconteceu com a outra peça.

            — Agora farei diferente. Terá uma vida digna e a melhor que merece. Universidade no Japão, carros e mesadas. A aliança será derretida no Havaí, na presença do meu segurança e do diplomata Shozi Nishijima. Ele regressará ao Brasil e será morto em acidente, a chamada queima de arquivo.

E continuou:

           —Você é uma testemunha viva. Se absolutamente calado nada vai lhe acontecer. Você não tem escolha. É aceitar ou aceitar. Vê aqueles dois homens de preto ali na esquina? De agora em diante passam a ser sua sombra e seus seguranças. Não retorne à casa que, tenho certeza já visitou. Esqueça qualquer compromisso. Com o chamado Fred sua sorte esta marcada. Ninguém saberá do seu sumiço.

           A vida de Celso estava sendo conduzida de tal modo que ele, ainda muito jovem, não era capaz de  perceber o que acontecia. Mas, acreditava que apesar de tudo, estava sendo protegido. Participava de uma grande aventura, coisa que sempre sonhou. Afinal, carro de luxo, faculdade…

           Assistiu à tantos filmes americanos, alguns com histórias verídicas e semelhantes ao que estava vivendo. Pensava no menor prejuízo  e muito para contar no Brasil. Sua vida da noite pro dia mudou drasticamente.

Confiava  nessa aventura. Seu medo, já contornado, era  do que poderiam fazer.  Embarcaram rumo a Tóquio. Para sua surpresa a aeronave passou por Tóquio, não desceu, e seguiu, tendo como ponto final depois de muitas aterrissagens, a Indonésia. Celso estranhou, contestou. Chamou pelo seu segurança. Mas, ele tinha desaparecido. Quando quis botar a boca no mundo, foi rodeado por fortes silvícolas que colocaram-no na carroceria de uma caminhonete. Amarrado por corrente em uma das pernas foi levado, uma viagem de muitas horas.

           Balanceando continuadamente a cabeça, caiu em si, muito tarde. Seu pensamento  girava o mundo. Condenava-se. Não acreditava no que estava acontecendo.

           Estrada esburacada de terra. Seu destino era Papua.

           — Você vai conhecer Dani, lhe disseram.

           E conheceu.

Ficou aos cuidados de Dani Vilage, o dono do barro preto, o Rei dos caranguejos.

           Gritou, chorou, não adiantou. Tamparam-lhe a boca.

            Nas mãos de Dani o Cavendish, já é sabido, não tem volta.  Jamais deixará o brejo. Jamais verá a civilização. 

           Celso quando encontrou a aliança e a guardou, guardou também a maldição das lamas de Mastaba.

DEDUÇÃO


“Olhe para si e se cumprires honestamente a distância do seu caminho considere-se feliz“

O ÚLTIMO NATAL DE SEVERINO - Carlos Cedano


O ÚLTIMO NATAL DE SEVERINO
Carlos Cedano

Bruno sempre voltava à sua pequena cidade, tinha muitas saudades e as lembranças impregnadas no seu coração eram motivos para sempre retornar.

Estava agora sentado no tradicional bar que fica na Praça principal. Quando pequeno, ali mesmo, escutara as fofocas que ele disseminava e, quando não tinha nada a “divulgar”, inventava alguma história, mas sempre com um fundo de verdade. Esse “treino” o ajudou arrumar emprego como jornalista numa revista de fofocas e escândalos na capital.

A cidade tinha crescido bastante nos últimos anos e os habitantes e os negócios também; a praça principal continuava muito bonita, bem iluminada,  plena de árvores de tamarindo bem cuidados, e os antigos bancos sempre bem conservados. Adorava essa bela praça, mas ela também lhe trazia dolorosos sentimentos pelos acontecimentos ocorridos vinte anos antes.

Bebia sua cerveja perdido nas lembranças de sua juventude quando aos poucos foram chegando os amigos que ficaram felizes de vê-lo.  Formou-se uma roda em volta dele e foram “botando as conversas em dia”.

Num repente, um dos amigos pediu lhe pra contar a velha história que ainda continuava assombrar a cidade e disse para os outros amigos: vocês saberão das coisas ocorridas “em primeira mão e de uma fonte autorizada”.

— Tá bom! - disse Bruno. E iniciou sua narrativa:

Eu estava com onze anos e confesso, sempre fui fofoqueiro, mas quem não o era nesta cidade? As maledicências corriam soltas e ninguém escapava das línguas ferinas, particularmente as dos moralistas e das “beatas” apaixonadas pelo pároco Raul. É como diz a sabedoria popular “cidade pequena, inferno grande”.

A figura mais popular e querida da cidade era seu Severino, homem de sessenta e cinco anos, trabalhador incansável desde adolescente e que viajava por toda a região levando produtos de nossa cidade,  e trazendo mercadorias da capital. Também era generoso, ajudava às instituições sociais e escolas. Era rico, muito rico. Possuía duas fazendas e  prédios na capital. Porém sentia medo de seu futuro, era solteirão e sem filhos e comentava com os amigos que não queria ficar sozinho, precisava achar uma moça direita e carinhosa pra que  cuidasse dele na velhice.

A novidade se espalhou rapidamente.  Severino conheceu algumas “candidatas”, mas quem o impressionou verdadeiramente foi Maíra uma bela quarentona apelidada de “Generosa” pelas línguas afiadas e maldosas. O charme e a exuberância de suas belas formas, além de seu sorriso permanentemente estampado em seu belo rosto, foram elementos irresistíveis para Severino, que  “ficou de quatro por ela”. Era daquelas mulheres que fazem um homem acreditar que ele é o único e o melhor de todos!

Casaram-se logo e as fofocas correram em todos os tons e sons, não vou detalhá-las, vocês com certeza as imaginam! O casamento transformou Severino, virou um títere nas mãos da Maíra, atendia sempre seus insistentes pedidos de presentes e dinheiro. Ele continuou a trabalhar com afinco, “agora tenho responsabilidades” dizia sempre e continuava viajando pela região.

Essas atividades que sempre foram habituais na sua vida de solteiro, agora eram motivo de comentários maliciosos e insistentes que chegavam a seus ouvidos sempre insinuando a infidelidade da Maíra durante suas ausências. O velho homem decidiu “passar as coisas a limpo”! Simulou uma viagem de dez dias, voltaria perto do Natal – foi o disse para a esposa.

Mas só se passaram dois dias e Severino voltou pra cidade, na surdina. Já era muito tarde da noite e fazia muito frio. Com passos lentos, porém decididos, chegou à  sua casa em frente à praça principal: Lá na frente - disse Bruno - apontando com seu indicador. Severino viu logo que todas as luzes da casa estavam apagadas, abriu a porta sem fazer barulho,  e sempre em silencio caminhou sorrateiro até o quarto. Quando bem próximo da porta, pode ouvir a voz inconfundível da Maíra.  

“É ela! Mas, com quem ela está falando?” - Esperou ainda um pouco para ter certeza de que deveria tomar uma atitude.

A espera não demorou muito. Logo os gemidos do casal tornaram-se bem perceptíveis. Severino sentiu-se tomado de ódio nesse instante, segurou firme o revolver,  abriu a porta e imediatamente ligou a luz. O que viu o deixou estarrecido e sem controle gritou: Sua cadela, vagabunda! Como pode fazer isso comigo? Como? E, você, seu cretino? -  dirigindo-se ao homem - Quem diria,  logo você? Vamos saiam da cama seus sem-vergonhas! Saiam logo daí! Ela trêmula, sem jeito tentava se afastar mais e mais de Severino temendo o pior. Levantaram-se desajeitados empurrados pelos berros do marido traído, e quando os dois pombos iam pegar as roupas,  Severino gritou com voz que denotava toda sua  dor e rancor:

Não! Nada de roupas! Vocês vão sair como estão. Assim,  pelados! Sem nada para cobrir-se!

Ofegante,  empunhando a arma, continuou a berrar:

Vamos pra rua, tudo mundo precisa ver a cachorrada que fizeram aqui! Vamos já! -  advertiu Severino -  Andem rápido senão mato vocês dois aqui mesmo!

Mas, aonde vamos?  - Perguntou o amante.

Vamos pra delegacia,  declarar o flagrante de adultério. E, chega de conversa, andem rápido! – gritou Severino.

Havia bem poucas pessoas na praça naquele horário da madrugada. Severino estava endemoniado. Levantou a mão direita para o ar, e atirou três vezes. “BANG BANG BANG!”

Foi o suficiente para acordar a toda vizinhança. Luzes das casas se acendiam, pessoas saiam dos bares e também vizinhos dos quarteirões próximos.

De repente a praça iluminada já estava fervilhando de gente.

— Mas, vejam só,  é o Padre Raul! Que veado, fazer isso com seu Severino!

— O quê que você queria cara? Replicou outra pessoa – O Severino foi casar com vagabunda. Deu nisso!

O casal estava envergonhado, temiam uma linchação. Além disso,  a temperatura beirava os dez graus. Nesse instante que Maíra abraçou ao Padre. Foi demais pra seu Severino! Os olhos marejaram. Ele se posicionou e esvaziou toda a munição de seu revólver nos corpos dos adúlteros.

Foi uma loucura só! Gente chorando ou xingando os mortos, reações histéricas e lamentações.

Seu Severino jogou o revolver fora e sentou num dos bancos da praça. Quando o delegado chegou e viu os corpos inertes perguntou, cadê o assassino? Várias pessoas assinalaram o banco onde estava seu Severino, o delegado se aproximou e mostrou-se ainda mais surpreso quando percebeu que ele era o terceiro cadáver.

— Foi demais pra seu Severino amigos, o velho coração não aguentou!


Foi assim meus amigos ― disse Bruno ― sem tirar nem pôr!  

CRIME E TRAIÇÃO - Carlos Cedano


CRIME E TRAIÇÃO
Carlos Cedano

Leopoldo Barreto esta se aposentando. Com setenta e cinco anos e quarenta e cinco de serviços na única empresa,  já é o bastante! Sua mulher, Márcia concorda. No cargo de Diretor Geral,  permitiu-se formar uma boa poupança para uma velhice tranquila. Sim, diz Leopoldo e agora podemos realizar o cruzeiro de três messes visitando países da Europa e da Ásia como planejado há tempo. Era a última semana na empresa e em quinze dias embarcariam.

Na segunda feira chegou cedo à sede, separou documentos pessoais dos técnicos, por correio eletrônico comunicou às empresas, colegas e amigos sua aposentadoria. Estava nestas atividades quando sua secretária, e lhe disse: Senhor Leopoldo, o senhor esta sendo convocado para uma reunião na sala do Conselho de Administração às quinze horas, é uma reunião importante! Que será? Pensou Leopoldo, trabalho não pode ser não tenho nada pendente, talvez seja  uma reunião de consulta. Eneida, confirme minha presença!

Na sala de reuniões o Presidente do Conselho, Doutor Martins,  foi direto pra o assunto: “Leopoldo, estamos aqui reunidos para decidir quem será o próximo Diretor Geral. Porém,  não chegamos a nenhum acordo, temos um “jogo equilibrado” entre os três candidatos, e mais qualificado para indica-lo é você Leopoldo. Você os conhece muito bem, e por isso lhe pedimos que decida qual deles é a melhor opção para substituí-lo. Qualquer que seja sua opinião, ela será acatada”.

 “Que belo abacaxi!” – pensou. Mas, logo disse - Qualquer que seja minha decisão, poderá  será uma decisão injusta. Os três praticamente se equiparam. Mas, não vou fugir da minha obrigação. Só peço dois dias para refletir sobre o assunto.

O homem foi direto pra casa.  Márcia o viu entrar e lhe perguntou, você parece muito preocupado meu amor, alguma coisa desagradável? O marido contou o acontecido, e sua mulher lhe disse: você está acostumado a tomar decisões, durma um pouco agora para poder refletir melhor mais tarde.

Mas não foi assim. Deitou-se e começou a repassar mentalmente as condições emocionais e de caráter de cada candidato: Manoel Brito, engenheiro e Diretor de Produção, possui enorme capacidade de relacionamento, cuidadoso com as palavras e é um inovador que aceita bem ideias novas; Francisco Lopes, Diretor Financeiro, excelente economista, um pouco workholic e não é tão sociável como os outros diretores, porem, além de uma excelente formação musical tem um relacionamento familiar admirável e um bom equilíbrio emocional; Marcio Fontes nosso Diretor de Comercialização, agrônomo, é muito bom no relacionamento com os clientes, boa inteligência situacional, não se deixa abater por situações adversas é ambicioso, aceita desafios e possui liderança carismática. Falta lhe um pouco de autocontrole, às vezes fala demais.

Leopoldo acordou de bom humor e disse pra si: “é ele sim! Vou propor seu nome”.

Na reunião o Conselho de Administração já estava a postos. Leopoldo cumprimentou o Presidente no meio de um ambiente carregado de ansiedade e entregou-lhe o envelope. Ele o abriu e anunciou:

“O novo Diretor Geral é Marcio Fontes de Paula nosso Diretor de Comercialização”. Entre rostos de alívio e de caras frustradas, logo o Presidente pediu pra sua secretária que informasse a todos o nome do eleito.

Na semana seguinte houve a cerimônia de posse, as premiações aos melhores funcionários e o jantar de confraternização. Eneida, como prometido, enviou para Leopoldo um correio eletrônico com noticias da Empresa e da eleição do Agrônomo Fontes. Ele e sua mulher continuavam felizes com seu cruzeiro. 

E, assim, aos poucos Fontes foi assumindo o controle da situação da empresa,  e um mês depois seu estilo começou aparecer.

Passados dois messes, num fim de longo semana houve um acidente de carro numa estrada num dia chuvoso, o motorista numa curva fechada não conseguiu evitar a derrapagem e perdeu o controle do veículo indo a parar numa ribanceira, o que causou a morte do casal. Era o Agrônomo Marcio Fontes de Paula e sua esposa. A notícia caiu como uma “bomba” na empresa.

Os peritos reuniram pra determinar a real causa do acidente. O carro de uma marca famosa tinha apenas um mês de comprado e os pneus praticamente novos, pelo que se sabia o senhor Fontes era cuidadoso,  e não tinha bebido como demonstrou a autopsia. Chegaram a desmontar todo o carro para uma avaliação mais detalhada.

O relatório foi unânime em afirmar que a causa foi o travamento do freio direito do carro, mas o mais preocupante eram os sinais de manipulação observados no sistema de frenagem analisado, e quem o tivesse feito precisaria contar com ferramentas de uso especializado.

A Empresa decidiu contratar um renomado investigador particular para uma investigação altamente confidencial.

Durante alguns dias a equipe do investigador obteve  importantes informações: primeiro estudou com cuidado o manual do fabricante.  O perito da fábrica esclareceu muitos pontos e entregou desenhos das ferramentas que teriam sido usadas. Logo a equipe entrou às escondidas nas garagens das residências dos outros dois diretores onde fizeram buscas minuciosas. Também procuraram nas áreas da empresa pra achar ferramentas semelhantes às desenhadas pelo perito da fábrica.

Finalmente, numa reunião bastante restrita com o Presidente e o Conselheiro, o investigador disse que foram encontradas ferramentas similares às descritas pelo fabricante. Na garagem do Engenheiro Mecânico, Manoel Perez Brito encontraram uma similar as descritas e outra na oficina de reparos na área de Produção cujo diretor é também o Engenheiro Brito.  Seria muita coincidência ou era uma armação contra ele.  As marcas encontradas no sistema de frenagem do carro acidentado eram bastante compatíveis com as ferramentas, mas não se poderiam afirmar cem por cento que eram as mesmas.

E, então...? Perguntou o Presidente.

O perito respondeu que como as provas eram inconclusivas não poderia acusar o Engenheiro Brito.

Está certo! - disse o Presidente, e deu por encerrada a reunião.

Eneida ligou para Leopoldo, que já tinha voltado do cruzeiro, comunicando os fatos.

Leopoldo sentou-se à mesa da cozinha e tomava café quando entrou sua mulher: O que foi que aconteceu agora Leopoldo? Você esta com uma cara de funeral! Leopoldo com paciência explicou o que tinha acontecido na Empresa. Márcia  teve um sobressalto:

Meu Deus que coisa mais absurda! Como pode ser?

Leopoldo se acomodou na cadeira e disse:

O Francisco Lopes foi brilhante, matou um e conseguiu tirar Brito da empresa,  e agora é o salvador da pátria! Eram tão amigos! Você tem certeza disso? Retrucou Márcia.

Sim! - respondeu Leopoldo. Eu tinha um plano similar e o aplicaria se não tivesse sido escolhido Diretor Geral!

Então se calou ante o olhar estupefato de Márcia!

SITIO PRIMAVERA – Dr. Sherlock Oswaldo U. Lopes


SITIO PRIMAVERA – Dr. Sherlock
Oswaldo U. Lopes

            O alvoroço no Sitio do Pica-Pau Amarelo era visível. Todos corriam de um lado para o outro como que buscando alguma coisa, mas infrutiferamente, baratas tontas seria uma comparação razoável. Corria o mês de fevereiro e estavam todos no sitio. Pedrinho de férias estava a toda. Lucia (Narizinho) sua prima, que morava no sitio, também corria.  Tia Anastácia, D. Benta, Emília, a boneca falante, todos corriam. Epa! Todos?  Cadê o Visconde?
Esse era o mistério e a causa do alvoroço, o Visconde desaparecera. Já haviam procurado por toda parte, e nada. Pensaram até na policia, em dar parte do desaparecimento, mas como? O delegado Gentil, amigo de D. Benta, conhecia todos e entendia bem o sitio, mas estava de férias. Chamar um investigador qualquer e explicar que um sabugo de milho inteligente e cientista amador havia desaparecido,  e que a boneca falante fora a última a vê-lo, era pedir para que ele chamasse o manicômio de imediato, sem mais conversa.
            Foi a que Emília se lembrou do Prof. Resende, ilustre médico, vizinho, dono do sitio Primavera, e que era conhecido como Dr. Sherlock por causa de suas incríveis deduções. Toda redondeza o conhecia e achava-o muito simpático. Ele comprara o sitio e em vez de mudar o nome para Sitio do Sherlock ou algo parecido, mantivera o nome, mas acrescentara na placa “Dr. Sherlock”.
            Amigo de D. Benta e mais ainda do café e dos bolinhos de tia Anastácia, quando estava no seu sitio gostava de aparecer e, às vezes, ficava até tarde contando casos e como os resolvera ou diagnosticara baseado em fatos e evidências surpreendentes.
— Vamos chamar o Prof. Resende, é nosso amigo e tenho certeza de que ele é capaz de resolver esse caso.
Modernidades havidas Narizinho passou a mão no telefone e ligou para o sitio Primavera. O próprio Prof. Resende atendeu e posto a par do caso, disse que iria de imediato. Dito e feito! Não se passou muito tempo e já se ouvia o som inconfundível de uma charrete e lá estava o professor que adorava andar desse modo quando estava no sitio.
Foi saudado por D. Benta que o chamava sempre de Dr. Luís André e por tia Anastácia, de quem era médico particular,  que chegava da cozinha com seus famosos bolinhos e o café, famoso café, do qual se dizia que não havia outro igual, feito por máquina ou barista. O segredo do café? Não contava nem ao médico, muito menos ao padre, o médico até que merecia, mas como é que ficaria a troca de favores, ele adorava aquele café e ela adorava aquele doutor.
Posto a par do caso o Prof. Resende virou-se para D. Benta e perguntou “cui bono”? D. Benta vendo a curiosidade estampada em todos os rostos foi explicando:
— Expressão latina que quer dizer quem lucra? Ou seja, diante de um crime ou um mal feito começa-se a investigação perguntando a quem interessa essa ação, quem lucra com ela. Às vezes é usada a forma “cui prodest” que quer dizer a mesma coisa, mas no latim clássico “cui bono” era a locução empregada. Cícero a usou muitas vezes e atribui sua origem a Lucius Cassius conceituado juiz romano.
Emília que era não somente falante, mas muito inteligente, começou a olhar em volta a procura do Marques de Rabicó. Afinal quem lucraria comendo uma espiga de milho? Um porquinho simpático e gordinho seria um culpado muito presumível. O marquês jurou a mais absoluta inocência e a coisa parecia ir para o caminho da Lava Jato quando o Prof. Resende pediu para dar uma olhada no laboratório do Visconde que ficava no porão.
Foram e não encontraram nada. Anotações, cadernos, bloco com escritos a modo de lembretes, mas nada que denotasse interrupção abrupta, saída forçada, sequestro ou algo semelhante. Se dali saíra era evidente que não o fizera de maneira forçada, provavelmente o fizera como quem vai tomar ar, ou refrescar as ideias ao sol.
O professor pôs-se a pensar, aonde você iria se quisesse espairecer, descontrair? Ora iria visitar a parentalha não é mesmo.
— Vamos todos ao milharal! - comandou sem pestanejar e lá foram todos.
Chegando lá deram com a plantação de milho já colhida pela metade, de modo que parte das espigas ainda era visível e lá no meio dos pés de milho, um pé de outra espécie, um sapato do visconde e mais a frente sua inconfundível cartola. Pronto! Parte do mistério estava resolvida. O visconde fora colhido pelo Tio Barnabé junto com as outras espigas secas do milharal.
Agora era ir para o paiol e ver se encontravam o Visconde. Se depararem com quase uma centena de sacos. E agora onde andaria ele? O jeito foi ir revirando saco por saco, já tinham verificado uns vinte  quando no vigésimo primeiro, ouviram lá de dentro a voz inconfundível do Visconde. Aberto, eis que surge o próprio com um ar muito ofendido e vendo ali junto sua cartola e seu sapato, foi se recompondo e saindo.
Todos riam muito, Emília em vez de agradecer ao professor queria que agradecessem a ela, pois fora quem tivera a ideia de chamá-lo. Este trocava olhares cúmplices com D. Benta e sorrindo exclamou:
— Não é o caso de cobrar a visita, que é sempre um imenso prazer, mas que eu mereço mais um café com bolinhos, mereço sim!



PIROPOS – GALANTEIOS Oswaldo U. Lopes



PIROPOS – GALANTEIOS
Oswaldo U. Lopes

            Embora pouco usada a palavra piropo existe na língua portuguesa. Frequentemente, no Brasil, usamos seu sinônimo galanteio. No entanto seu uso é comum na Península Ibérica. Em Portugal e Espanha vamos encontra-la amiúde.

            Em Portugal há até uma lei que tipifíca o piropo como crime, o que deu origem a um banner que já virou o mundo:

“Não precisamos de leis contra piropos, precisamos de leis contra corruptos”.

            Mundo pequeno não é! Tais leis seriam muito bem vindas ao nosso país. Entre nós, o galanteio, era até certo ponto usual, mas caiu no vulgar. Os respeitáveis senhores que ficavam à porta da Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro eram famosos e apareceram até em marchinhas de carnaval:

“o velho na porta da Colombo, é um assombro”.

            Galanteios modernos existem, o difícil é achá-los de bom gosto:
“Gata, meu nome é Arnaldo, mas pode me chamar de Naldo, pois quando eu te vi perdi o ar”.
Os, dos espanhóis são, sem dúvida de melhor qualidade:
“Quando te multen por excesso de belleza, yo pagare tu fianza”.

            Aliás na Espanha, em plena Semana Santa, quando sai as ruas a procissão e lá está a Nossa Senhora da Esperança é comum e frequente que se ouçam gritos de:
“Guapa, reina de my corazon!” “Adelante Guapa”.
           
É claro que as madonas espanholas fogem a classificação e ficamos sem saber muito de sua origem e relação com o nome que lhe dão. Vejamos a mais famosa delas, a Virgem da Macarena, a famosa Senhora que mora em Sevilha e costuma sair às ruas na procissão da Semana Santa quando é o amado alvo de inúmeros galanteios. Não só é muito bonita como suas roupas são suntuosas e muito ricas, bordadas em perolas. Tem um rosto sofrido, lágrimas que escorrem e, detalhe, as mãos abertas à frente, sem o menino. É conhecida como Nossa Senhora da Esperança e ninguém sabe por quê.

            Não é exceção, é quase regra. Na cidade de Granada há outra Virgem que também costuma sair na procissão da Semana Santa, que também tem roupas belíssimas e que também é alvo de piropos. Tem os braços na mesma posição da Virgem da Macarena, só que agora é conhecida como Nossa Senhora da Saúde.

            Será que apenas o sexo feminino é alvo de galanteios? Não! As cidades, talvez pela sua condição feminina, ao menos na imaginação, costumam ser galanteadas. Todos nós já ouvimos ou mesmo pronunciamos;

Roma, cidade eterna.
Paris, cidade luz.
Nova Yorque, a que nunca dorme.
Rio de Janeiro, cidade maravilhosa.
São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo.

            Vale dizer que esse galanteio para São Paulo, não mais se usa e os que se lembram dele, gostariam que não tivesse sido. Do Rio de Janeiro tem até marchinha:

“Rio de Janeiro, cidade que nos seduz,
De dia falta água, de noite falta luz.”

            Os espanhóis acham, e aí que lhes dar razão, que o galanteio mais bonito e elegante feito a uma cidade também é deles. A cidade é Granada e o piropo:

“Dale limosna, mujer, que no hay em la vida nada como la pena de ser ciego em Granada”.

            O autor Francisco de Icaza. Mujer, sua esposa, Beatriz de León. Circunstância um passeio que dava por Granada o Senhor Francisco acompanhado de sua mulher Beatriz, quando se depararam com um cego que pedia esmolas.

            Francisco Icaza era mexicano, diplomata e escritor, apaixonou-se pela Espanha e pela Andaluzia em particular, tanto que se casou com Beatriz de León, natural de Granada. Ele escreveu poemas e critica literária. Digamos que ele não era medíocre, escreveu sobre Cervantes e teria um lugar na literatura e na crítica que se não era na primeira fila pelo menos era na plateia. Por conta desse verso, passou à história como quem criou a mais surpreendente homenagem a cidade de Granada. Todos os que conhecem a cidade mouro-espanhola lhe dão razão. A própria cidade lisonjeada pelo galanteio mandou gravá-lo em uma de suas torres.

            Bem, voltemos ao inicio, os galanteios estão totalmente fora de moda e raramente os ouvimos, quando ouvimos são de tipo grosseiro e até selvagem. Como e porque se perderam?

No árduo combate pela sua posição na sociedade, as mulheres passaram a considerá-los como machismo e até como um ato de violência e assédio. A civilização moderna deu-lhes uma posição certamente mais justa, terá, no entanto, tirado certos regalos e privilégios que faziam e fazem  parte inequívoca do gênero? É provável que in  medio virtus como já pensava Aristóteles, mas, num tempo em que é tão difícil alcançar o equilíbrio e onde a violência campeia e por absoluta falta de confiança nos governos e políticos muitos  se dão o direito de proclamar sua individualidade, sem nenhum respeito aos demais, fica difícil o dialogo e a discussão civilizada.

            Que falem as interessadas. As mulheres, vítimas ou eleitas dos galanteios! Que digam o que pensam, já que as cidades, per si, só falam passado muito tempo e em geral com arrependimento, a exceção de Granada que desfruta de tal beleza visual, que ser cego em Granada é ainda das penas mais duras da vida.