OS QUATRO AMIGOS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

                       


OS QUATRO AMIGOS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

Quem via aqueles quatro amigos em torno da mesa do bar na Vila Madalena, não tinha ideia da dimensão da amizade que havia entre eles.

João, Antonio, Vera e Mauricio cresceram no mesmo bairro e na mesma rua. Pequenos, no tempo em que brincar na rua era seguro e saudável, eram eles que mais aproveitavam e divertiam-se. A afinidade entre eles era total.

Através deles as mães se conheceram e se tornaram amigas. Comentavam entre elas que se fossem irmãos, possivelmente, não seriam tão amigos.

Tinha sempre uma delas que controlava o grupo para não se machucarem ou para apartar as brigas, que também ocorriam.

Com o passar dos anos, o bairro já não era o mesmo, e os moradores foram se mudando, as ruas e habitações já não acolhiam as mesmas pessoas. No entanto,  aquelas quatro famílias optaram por continuar no mesmo bairro, nos mesmos lugares, e com isso os quatro continuaram a se encontrar pelo menos uma vez por semana. Na adolescência foram os bailinhos que frequentavam juntos, depois a primeiras paixões, as primeiras confidências, afinal tinham sempre um ombro amigo de um para outro.

João se tornou advogado, Antonio engenheiro, Vera psicóloga e Mauricio médico. Vera como psicóloga mantinha o equilíbrio do grupo, sempre dizia: “Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem” citando Clarice Lispector. Antonio engenheiro era mais pragmático rebatia dizendo “Todos temos a guerra dentro de nós. Às vezes ela nos mantém vivos. Outras vezes ela ameaça nos destruir”,  frase do Insurgentes.

                Na discussão, entre uma cerveja e outra, iam filosofando, mostrando as diferenças de opiniões e todos queriam demonstrar sabedoria,  quando João disse “O fato de o mar está calmo na superfície não significa que algo não esteja acontecendo”, frase do livro O mundo de Sofia. Os amigos tinham o amor pela leitura e nesses encontros faziam questão de fazer citações, com esses encontros demonstravam que havia entre eles o mesmo amor desde a infância. Maurício sempre foi o mais reservado, isso não o impedia de participar da discussão e como médico dizia que assistia a muitas surpresas sobre o ser humano e citou “As pessoas são capazes de ir muito mais longe por causa daquilo que temem do que por causa daquilo que desejam “do livro Código da Vinci.

                E assim continuavam horas a fio, rindo, saboreando a amizade, e abraçados iam embora já marcando o encontro da próxima semana.

            

A torre submersa. - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



A torre submersa.

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Gioacchino leu a notícia no jornal local. O lago seria esvaziado de novo para reparos no reservatório da usina. Já havia acontecido antes em 2009. Porém em 2009 ele não estava em Resia e não pôde ver a pequena cidade de Curon ressurgida das águas. Agora, aposentado, Gioacchino podia rever a cidade onde passou parte da infância. Tinha 10 anos em 1950 quando tiveram de abandonar a cidade que seria inundada para formar o lago da hidrelétrica.

Agora poderia percorrer de novo os lugares que permaneciam gravados na memória. Pouco a pouco viu aparecer a torre da igreja e finalmente os escombros que restaram das casas submersas por setenta anos. Gioacchino armou-se de sua bengala, uma surrada mochila às costas e junto com o neto Giulio partiu para explorar as ruínas. Ao chegar à base da torre do sino confirmou o que tinha de longe observado. O arco românico da entrada estava intacto. Entulho obstruía a parte inferior do vão deixando livre a parte superior.

Gioacchino agitado, com os olhos brilhando, virou-se para o neto: Vamos entrar, Giulio. Que sorte, a arcada está intacta. Basta tirar algumas pedras e conseguimos passar.

É perigoso, nono. Lá dentro tijolos e restos da escada podem despencar.

Porém, o ancião insistiu. É muito importante, Giulio, você vai ver.

A contragosto o jovem ajudou o avô a transpor a abertura e o seguiu para o interior da torre. A escuridão era aliviada pelas pequenas aberturas ao longo da parede circular na escada original. A lanterna iluminava restavam apenas alguns caibros de madeira podres incrustrados nas paredes esverdeadas pelo limo. O cheiro de lama e podridão eram opressivos. Giulio queria logo dar o fora dali. Mas o avô avançou até a parede oposta à entrada. Agachado, contava os tijolos desde a base.

É aqui, disse. Está vendo, Giulio, marquei aqui dentro, na minha cabeça, todos esses anos. Nunca esqueci. Trinta tijolos na vertical a contar do chão, na direção exata do meio da entrada.

Com um pé de cabra deslocou um tijolo da parede. Enfiou o braço na cavidade e trouxe na mão um saquinho de couro apodrecido.

Achei! Vamos sair agora.

Giulio aliviado por se encontrarem de novo ao sol exclamou:

Pois bem, então o que você tem aí, nono?

O avô removeu os restos de couro esfarelado para fazer aparecer dois colares de ouro e um medalhão incrustado de rubis e brilhantes.

  São seus, meu neto. Antes dos alemães chegarem até aqui vindo do Tirol em 43, meu pai escondeu as joias da mãe dele e da minha tia Amália que moravam conosco. Eu logo fui embora para o sul para me juntar aos aliados. Depois veio a confusão do pós-guerra, as retaliações e distúrbios até a proclamação da república. Desde 46 eu estava trabalhando na Fiat em Torino. Eu vim vê-lo já doente em 47 e ele me contou do esconderijo das joias. Eu perguntei por que escolhera a torre da velha igreja. Explicou-me que na época era sacristão da igreja e queria um lugar longe da própria moradia caso os alemães invadissem a vil, seu avô faleceu nesse mesmo ano. Mas ele morreu feliz por ver a Itália uma república livre de Mussolini e dos Savoia. Em 50, como você sabe, sua nona, minha querida Anna e a tia Amália já muito idosa, e todos os habitantes de Curon tiveram de abandonar as casas. Elas não sabiam nada sobre as joias, a igreja ao lado da torre já estava em ruínas e os escombros tapavam a entrada da torre. Na época, eu não podia me afastar de Torino e decidi não falar nada e esquecer o assunto, só traria angústia. Depois em 2009, até pensei em voltar para tentar recuperar as joias, mas de novo, estava longe, trabalhando na França. Sua avó Anna e tia Amália já tinham partido desta vida. Da família só restava seu primo Luigi morando em Brescia, é filho do meu irmão Fillipo que morreu na guerra. Você o viu umas duas vezes apenas. Então, tive que esperar até hoje.

Giulio, estava pasmo. Abraçou o avô. Não podia acreditar na sua sorte. O dinheiro da venda das joias poderia custear o tão desejado MBA nos Estados Unidos. Mas não poderia esquecer do avô.

Nono, você pode ir comigo para os Estados Unidos. Você sabe que eu quero estudar lá. Você sempre quis conhecer o país.

Gioacchino sorriu. Você é meu neto querido, mas por enquanto eu vou ficar aqui na minha casa. Já morei muito tempo fora do meu país. Agora com a internet você não ficará tão longe.

CURON VENOSTA - Oswaldo U. Lopes

 







CURON VENOSTA

Oswaldo U. Lopes

 

        Io ricordo bene o nono Tonio. Vivera toda sua vida no pequeno paese de Curon. Por incrível que pareça, apesar da idade tinha ótima memória, as lembranças é que não eram boas.

        Como muitos na região e no paese, falava o italiano e também o alemão. Falava, mas detestava os tedeschi, maledetto siano. Naquela região alpina a mistura era frequente. As fronteiras entre Áustria, Alemanha, Suíça e Itália pareciam móveis tantas vezes mudaram, sem que os residentes fossem consultados. O resultado era visível: italianos que só falavam alemão, suíços que falavam italiano, mas não gostavam dos próprios e por ai vai.  

        O nono lutara na Grande Guerra (para ele só a que chamamos primeira contava,  e tinha sido grande e maledetta). As tristes lembranças o levavam a Gorizia anque maledetta e cantarolava:

“La mattina del cinque d’agosto

Si muoveran le truppe italiane

Per Gorizia, le terre lontane

E dolente ognun si parti

 

O Gorizia tu sei maledetta

Per ogni cuore che sente coscienza

Dolorosa ci fu la partenza

E il retorno per molti non fu

        Suspeito e quase tenho certeza de que o vovô era anarquista. Essa canção é totalmente anárquica, e pungentemente dolorosa, fala certas verdades sobre os oficiais e generais que comandavam da retaguarda. Ele lutara na maldita Gorizia e perdera muitos, muitos amigos e conterrâneos, fora dos poucos para os quais houvera retorno.

        Como bom anarquista era também contra Mussolini e lutara na resistência. O maldito fascista havia planejado um lago enorme que produziria energia elétrica, mas para tanto Curon deveria desaparecer alagada. O ditador não tivera tempo de concretizar a tal hidroelétrica, mas depois da guerra, em 1950, il demo-cristiani voltaram com a ideia. Ofereceram dinheiro para a mudança do povoado e foram em frente. É estranho como os governantes acham que podem comprar tudo em nome do progresso.

        Da antiga Curon, só se via agora o alto do campanile que era uma preciosidade do século XIV e do qual haviam retirado os sinos e o relógio.

        Muitos amigos se mudaram, alguns de fala alemã se foram para a Áustria, o nono ficou por ali. Meus pais resolveram imigrar para o Brasile onde já tinham parentes. Eu era menino, vim junto.

        Nunca mais tivemos noticias do nono, a não ser de sua morte. Será que ele ouviu o campanário soando como diziam que acontecia com quem ia morrer?

        “ A noite ouve-se, por vezes os sons do sino inexistente que soa mais alto para aqueles que vão partir desta vida.”

        Como ele se sentiria, se vivo estivesse, agora que fizeram uma ampla drenagem do lago, para reparos, e o restos de Curon apareceram. Paredes, casas em pedaços, cercas etc. Ciao Nono, não viveste em vão, enquanto houver restos do paese de Curon alguém se lembrará do vovô Tonio.

 

O golfista disfarçado - Ises de Almeida Abrahamsohn.

 




O golfista disfarçado

Ises de Almeida Abrahamsohn.

 

Eu costumava frequentar o clube inglês durante os primeiros anos após minha chegada em São Paulo. Na década de 1950, não existiam muitos sócios e meu amigo Douglas MacMurphy conseguiu uma carteira de sócio temporário. O clube tinha além de um excelente bar, uma razoável piscina e um campo de bowls. Eu conheci o jogo lá. É semelhante ao boccia italiano e parecido com a nossa malha, mas jogado com bolas que os jogadores ficam polindo antes de lançar. Em Pirituba o clube tinha também um campo de golfe muito procurado aos sábados e domingos.

No centro da cidade o bar do clube era muito frequentado. Decorado pomposamente como clube londrino atraía a maioria dos sócios nos finais de tarde. Tal qual os seletos clubes do país natal, o bar servia para conversas sobre negócios, política, ouvir fofocas, e para combinar as partidas de golfe do fim de semana. Foi lá que conheci Mr. Todd. Era um personagem curioso. Muito falante, ao contrário dos seus compatriotas, sempre tinha algum episódio a encaixar na conversa sobre o tempo que tinha vivido na Índia, alegadamente como funcionário graduado do governo. Tinha uma habilidade especial de imitar o sotaque hindu o que provocava gargalhadas entre os ouvintes. Pessoalmente creio que ele tinha sido um funcionário burocrático de médio escalão que tentava se passar por mais importante. Seu comportamento e maneiras eram suspeitosamente bons demais. Vestia-se como seus conterrâneos londrinos da época pré-guerra. Mas o seu assunto preferido era golfe. Conhecia os jogadores da época, analisava os torneios e discorria sobre os melhores campos para o esporte. Aliás, elogiava os campos disponíveis em Bombaim doa quais tinha sido assíduo frequentador. Não deixava de mencionar as próprias pontuações obtidas nos torneios da colônia. Porém, e este era um fato importante, nenhum dos golfistas do clube havia visto Mr. Todd jogando ou em campo. Alguns dos frequentadores já o haviam convidado para partidas, mas ele oferecia alguma desculpa pouco convincente. Isso não impedia Mr. Todd de continuar relatando seus feitos e excelentes handicaps.

Com o tempo meu amigo Douglas e os colegas golfistas começaram a se irritar com as constantes exibições verbais do expert golfista. Combinaram um jogo no sábado seguinte ao qual Mr.Todd não poderia se esquivar. Eu não sei exatamente os detalhes, ou com que os rapazes o ameaçaram, porém ele foi obrigado a comparecer ao campo de Pirituba.

E ele compareceu. Uma figura. Veio vestido como um golfista inglês se vestiria no início do século XX. Calças jodphur xadrez, meia três quartos , paletó e gravata tudo encimado por uma cartola alta preta reluzente. Os golfistas rindo disfarçadamente o conduziram ao campo e ao tee. Coitado... Tive pena do sujeito. Apesar de todo o discurso de conhecedor, nem segurar o taco corretamente ele conseguia. Vexame total. Balbuciou alguma desculpa e saiu correndo passando pela portaria para nunca mais aparecer no clube. Nunca mais se viu ou ouviu dele. Simplesmente sumiu.

Tempos depois eu voltei a encontrar meu amigo Douglas em Londres e entre uma cerveja e outra ele se lembrou do folclórico Mr. Todd. Contou-me que por acaso tinha encontrado o mentiroso em Londres. Inicialmente este fingiu não o reconhecer, mas ao ser convidado para o pub mais próximo contou-lhe uma mirabolante história sobre ter sido um agente do MI5 infiltrado lá no clube de  São Paulo para identificar agentes comunistas. Que grande mentiroso!

A CIDADE SUBMERSA - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


A CIDADE SUBMERSA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Giovanna meu nome, como podem perceber sou neta de italianos, eles por parte de pai são originários do norte da Itália, na cidade de Curon no Tirol do Sul, que antigamente pertencia ao Império Austro-Húngaro e com o fim da primeira guerra foi anexada á Itália, o que contarei em seguida, todos falavam alemão e agora falam as duas línguas. Numa das viagens que voltei à Itália resolvi visitar a antiga vila onde nasceram, cresceram e tiveram filhos.

                Nas viagens anteriores não pude vê-la, pois ela estava submersa em um lago artificial, que foi projetado para a construção de uma usina hidroelétrica. No tempo da segunda guerra, só se via a famosa torre da igreja, alta, majestosa. E, sendo de pedra, milagrosamente, resistiu e acabou sendo motivo de reportagens.

Contava minha avó à tristeza de todos os 1.000 habitantes em abandonarem as suas raízes. Ela dizia que ao saberem da notícia houve revoltas e discussões, mas não tiveram como resistir. Chorei muito me dizia, ali tinha toda a sua vida, seus pais, marido e filhos. A casa foi construída por meu avô, aquelas paredes assistiram muitos dias felizes e muito trabalho. A cozinha que ela cozinhara os pães e bolos no forno de lenha, o quarto onde foram gerados com amor seus filhos, o quintal com sua pequena horta que aromatizava os quitutes e o jardim com lindas tulipas e hortênsias, que eram a alegria na chegada da primavera.

                Ao ver o local todo destruído após o lago ser drenado, imagino o sentimento de perda do povo da vila, grande maioria com a indenização conseguiram comprar outra casinha nas cidades vizinhas. Sendo que, o nono e a nona vieram para o Brasil, resolveram mudar radical, eram jovens e corajosos e com os três filhos aqui chegaram. Trabalharam muito, educaram os filhos e tinha paixão pelo país. Nunca quiseram voltar, diziam que seria triste ver as ruínas de sua cidade. Vim visitar o local e através desses escombros sentir o sentimento de perda. Ao andar em cima de pilares, tijolos e fico imaginando as pessoas saindo para irem à igreja de domingo ao lado da torre com o sino avisando à hora da missa, em seguida se encontrarem na praça para por a conversa em dia, para depois irem para suas casas para o almoço de família, normalmente degustar o produto da cassa dos homens, patos, marrecos e coelhos, invadindo as ruas com aromas complementados com um vinho local, assim eles contavam.

                Voltei realizada ao Brasil, de ter visto a minha origem, triste por não entender tamanha estupidez dos dirigentes do mundo em qualquer época, que com os seus egos nunca levar em conta o seu povo.

As aparências enganam Ou O hábito não faz a freira - Ises de Almeida Abrahamsohn

 





As aparências enganam 

Ou

O hábito não faz a freira

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Já na primeira vez que vi Marlene fiquei enfeitiçado. A moça era linda. Os donos do mais famoso bar do Rio de Janeiro dos anos sessenta tinham escolhido a dedo a recepcionista. Morena de corpo escultural saudava os frequentadores com um sorriso de dentes alvíssimos. Em pouco tempo sabia os nomes de todos nós do grupo dos cinco. Nossos olhos gulosos perdiam-se naqueles seios opulentos que transbordavam do vestido tomara-que-caia preto. Nunca a vimos com outra roupa. E nunca a vimos dar bola para ninguém. Nosso ponto de encontro de fim de tarde era aquele bar e, entre um uísque e outro, alguém da roda lançava a pergunta: E a Marlene, hein? Cada um de nós sabia o que escondia a pergunta. Óbvio. Porque cada um de nós pelo menos uma vez por semana tentava cantar a bela Marlene. Sem sucesso, mas não perdíamos as esperanças! Ela levava na esportiva. Sorria aquele sorriso demolidor e se esquivava. Nunca respondia perguntas pessoais. A nós só restava seduzir a esquiva Marlene em nossos sonhos noturnos. Era a nossa Gilda, nossa Rita Hayworth dos anos sessenta.

Porém o Nelson, solteiro e metido a conquistador, tomou a si o desafio de conquistar Marlene. E mais, apostou com o Mário um bom dinheiro de que seria bem sucedido. Após vários insucessos nas abordagens feitas ali mesmo no bar, Nelson adotou outra estratégia. Resolveu seguir a moça quando ela terminasse seu horário de trabalho. Ao sair pela porta dos funcionários a moça estava quase irreconhecível. Vestia roupas discretas escuras e folgadas que ocultavam seu corpo. O cabelo penteado para trás mantido por uma tiara discreta. O rapaz a seguiu até o ponto de ônibus. Entrou com mais duas pessoas num ônibus para Olaria. Nelson, foi atrás e sentou-se ao fundo no carro quase vazio e mal iluminado. Dessa vez essa zinha não me escapa. Conheço o tipo. Se fazem de difíceis, mas estão atrás de alguém que as sustente.

A moça desceu no ponto final, caminhou apressada dois quarteirões antes de enveredar por uma escura ruela de terra. Nelson a seguia escondendo-se nas sombras. Marlene parou em frente a uma casa modesta iluminada por uma lâmpada acima da porta. Enfiou a chave na fechadura e súbito virou-se.

Seu Nelson, quer conhecer minha casa? Pode entrar.

Nelson, muito envergonhado, ensaiou:

Desculpe, Marlene. Você sabe que eu gosto muito de você. Por isso a segui. Não preciso entrar. Queria apenas marcar um encontro.

Faço questão que entre seu Nelson, insistiu a moça.

A contragosto o conquistador entrou na modestíssima sala. Percorreu o aposento com os olhos e ao fundo percebeu um rapaz em cadeira de rodas.

Quero apresentar-lhe meu filho Jonas.

O rapaz sorriu enquanto Marlene deu-lhe um beijo carinhoso. Era o mesmo sorriso da Marlene.

─ Prazer, seu Nelson. Não posso apertar-lhe a mão. Infelizmente, sou tetraplégico. Minha mãe graças a Deus conseguiu esse emprego noturno. Durante o dia cuida de mim e me ajuda nos estudos. Estou me formando em inglês para trabalhar como tradutor e dublador.

Nelson não aceitou o café oferecido. Queria sumir dali. Balbuciou algumas desculpas desconexas sem olhar para Marlene. No dia seguinte, o rapaz não apareceu no bar. Os amigos curiosos se perguntavam o que teria acontecido com Nelson. Mário, em especial queria saber se ganhara a aposta. Marlene, discreta como sempre, continuava a esbanjar charme e beleza aos frequentadores do bar.

A vidinha do grupo voltava ao normal com Nelson praticamente esquecido. Porém, algumas semanas depois, Arlindo apareceu no bar com as notícias. Tinha encontrado o Nelson num restaurante do centro da cidade. Não comentou o ocorrido naquela noite. Apenas disse que cometera um erro terrível e não tinha cara para aparecer novamente no bar. E, sim, iria pagar a aposta ao Mário.

A FLAUTA MÁGICA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



 

A FLAUTA MÁGICA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Guilherme, meu vizinho de onze anos, adora ler histórias. É inteligente e vivaz, mas os colegas da escola, invejosos de sua capacidade, o humilham por sua estatura pequena demais para sua idade. Guilherme sempre que vem à minha casa, pede para ir à biblioteca para pegar emprestado algum livro, como guardei todos os livros infantis dos filhos ele tinha bastante para escolher. Certo dia leu a fábula A flauta mágica, em que um jovem com a sua flauta e seu toque mágico, hipnotizava todos os ratos que o seguiram até caírem no rio, sendo todos exterminados, salvando a aldeia da peste que eles transmitiam.

                Leu e releu várias vezes e dizia ser o flautista seu herói. Resolveu que iria aprender a tocar flauta, atormentou a mãe até conseguir a flauta e as aulas. Percebeu com as aulas que não seria nada fácil, mas a dedicação era tanta que em seis meses tocava quase com perfeição. No segundo semestre, na aula de artes, ele sugeriu ao professor que fizessem na peça do fim do ano a encenação no teatro da escola com a fábula. Os colegas, apesar das chacotas que faziam com Guilherme, adoraram a ideia, e o professor resolveu acatar o desafio.

                Começaram os ensaios, usaram o livro para montar textos, e o cenário. Mas, o mais difícil eram os figurinos. Foram numa casa de aluguel de fantasias e ali encontraram tudo, os pais ajudaram com a verba para que tudo desse certo. Os ensaios iam transcorrendo até chegar o dia da apresentação. Guilherme veio pessoalmente me entregar o convite e não pude deixar de ir, apesar de já ter cumprido a minha cota de assistir o teatrinho de escola. Fiquei impressionada com ele vestido à caráter no estilo medieval, era a personificação de um herói altivo e determinado, tocando com perfeição. E, na apoteose do sumiço dos ratos, aí sim ele foi magnífico.

                Impressionada, no dia seguinte ao vir à minha casa para devolver o livro, eu elogiei o seu desempenho e perguntei como se sentia. Respondeu com firmeza que estava realizado. E, como não podia se vingar fisicamente dos colegas que o humilhavam perante a classe com gozações ridículas, foi a forma que encontrou e usou para se vingar, se livrando daqueles que faziam o papel de ratos.

A sua flauta mágica encantou a todos, foi a sua vitória. 

Um oportuno reencontro - Ledice Pereira

 



Um oportuno reencontro

Ledice Pereira

 

 

 

Nosso jantar estava marcado para 20:00h. Chegamos pontualmente. Alguns convidados desciam apressados dos carros, sendo recepcionados pelos funcionários da espetacular mansão.

Ali, residia uma família quatrocentona de quem os donos da empresa em que meu marido trabalhava eram descendentes. O fato nos causou surpresa, visto que eles nunca se vangloriaram por isso. Pelo contrário, eram muito simples.

Um deles, sorridente, recebia os convidados, encaminhando-os aos seus devidos lugares, tendo para isso a ajuda de eficientes funcionários. Um, especialmente, chamou-me a atenção, apesar da careca e da barriguinha evidente. Como esquecer Norberto, com quem eu estudara no ginásio, garoto esnobe e antipático que gostava de aparecer e menosprezar os colegas. Era voz corrente que tinha ascendência nobre, por sinal, nunca comprovada. Por essa razão, vivia rodeado de garotos puxa-sacos que admiravam a suas atitudes.

Estranhei o fato dele estar ali como um fiel mordomo, com uma lista na mão, dedicando-se a acompanhar cada um à mesa reservada.

Não costumo tripudiar sobre qualquer que seja a pessoa, mas não me contive. Guardava na lembrança cada vez que fora constrangida por ele, cada vez que me enfiara no banheiro em prantos devido às suas piadas e deboches sobre minhas roupas e sapatos simples, eu que havia sido premiada com uma bolsa de estudos, que me permitiu cursar escola paga.  

 Aproximei-me do emproado serviçal e perguntei na lata:

Você não é o Norberto que estudou no Instituto Mackenzie no ano de 1980?

 Ele virou-se lentamente para mim pálido e visivelmente constrangido.

─ Não sei se você se recorda de mim ─ continuei,  sou Alice, aquela garota de roupas surradas que você gostava de desprezar.  Formei-me em advocacia no Largo São Francisco e você, conseguiu se formar?

A palidez deu lugar a uma vermelhidão que se estendeu pela careca.

Meu marido, que estava cumprimentando alguns conhecidos, veio juntar-se a mim, julgando que eu já fora encaminhada ao nosso lugar.

Norberto aproveitou para esquivar-se, permanecendo distante de nós durante todo o jantar.

Minha vingança deixou-me faminta. Deliciei-me com cada prato que me foi servido.

Fiquei pensando aqui comigo que aquela pose toda estava mesmo perfeita para um mordomo...


O GOLPE DO BAÚ - Antonia Marchesin Gonçalves

 

                  


O GOLPE DO BAÚ

Antonia Marchesin Gonçalves

 

        Marina, filha de um grande industrial foi preparada, como filha única, a se tornar a herdeira de todo o patrimônio familiar. Na faculdade em Harvard, onde o avô e o pai também estudaram, ela conheceu um rapaz, que não vinha de tão nobre estirpe. Com total afinidade, ele muito simpático, educado e demonstrando estar apaixonado, e ela se apaixonou cegamente. Ela sabia que os pais não concordariam nesse namoro.

        O seu amado Claudio altamente capaz e inteligente propôs que juntos arquitetassem o plano dele ser contratado na empresa como executivo Junior até se formar. Ele soube aproveitar totalmente a oportunidade se tornando logo valorizado. Ao se formar ele foi promovido ao cargo de diretor, e assim a família aceitou o casamento. Felizes, depois de casados, Claudio começou a mudar.    Viviam em um belo apartamento em frente ao Central Park, ele cada vez mais conquistando seu lugar na empresa, mas se tornando um marido ausente, grosseiro e desinteressado por ela. A verdade foi caindo,  sofrida percebeu que ele havia se casado por total interesse.

        Claudio queria ter filhos, dizia que isso iria preencher o seu tempo e o deixaria em paz, mas ela já desconfiada respondia que não estava preparada para ser mãe ainda. Resolveu freqüentar diariamente a empresa. O avô fazia parte do conselho diretor e seu pai presidente,  confiavam plenamente no genro, não se tornando tão presente. Com calma ela contratou dois funcionários que se reportavam diretamente a ela de total confiança, sendo criticada pelo marido. A partir daí o relacionamento foi se deteriorando e começaram as brigas que culminou em separação de quartos. A medida que Marina se aprofundava na contabilidade da empresa foi percebendo que as contas não batiam, ela alertou o pai e esse lhe disse que eram investimentos que Claudio fazia pela empresa.

        Ao mesmo tempo ela começou a sentir problemas e saúde, principalmente digestivos, tudo que comia fazia mal. Foi ao médico de família que diagnosticou como stress, e recomendou férias. Certo dia ao chegar mais cedo na empresa encontrou a secretaria de Claudio na sua sala mexendo em seu bar, principalmente na garrafa térmica do seu café que ao chegar sempre tomava. Perguntada o que fazia, Alice meio embaraçada pelo imprevisto, disse-lhe que havia tomado o café que o da sua sala ainda não chegara e saiu rapidinho. Desde que Claudio tornou-se diretor contratou Alice como sua primeira secretaria, e Marina nunca deu muita importância, apesar de ser uma moça bonita, com olhar astuto.

        Esse episódio, a deixou-a alerta, decidiu contratar uma investigadora, para saber da vida dela, nesse meio tempo avisou o marido que queria o divórcio. Como ela esperava, ele se negou terminantemente, disse que jamais daria. Ela, por total instinto decidiu mandar sua investigadora analisar o café, horas depois o resultado, o café continha resíduos de certa dose pequena de veneno, que administrado durante um período a mataria. Sua investigadora Ana ao trazer a ficha de Alice dias depois, confirmou o que Marina suspeitava, ela era amante de seu marido desde o tempo de estudantes, não só amantes, mas sim casados em outro estado.        Com o exame do café e mais o relatório, ela conseguiu acusar o marido de bigamia, contratou uma auditoria financeira e foi constatado desvio grande soma de dinheiro da empresa para o paraíso fiscal em nome do casal, comprovando assim que tinha sido vítima de um golpe.

        Conseguiu com as provas a condenação deles. O seu pai a nomeou presidente executiva da empresa com a certeza de que estaria à altura.

EU E A DANÇA - Antonia Marchesin Gonçalves

 

        


EU E A DANÇA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Adoro dançar, dancei bastante quando jovem os bailinhos dos 12 anos em nossas casas, os bailes de formatura e finalmente as festas e casamentos dançando com o marido. Mas o que me encantava quando jovem, eram os filmes musicais da época de Fred Astaire e suas parceiras. Imaginava sendo eu a parceira, sentia-me transportada para a tela, vestida com os vestidos godês rodados e com a delicadeza do parceiro me dando a mão, passando o braço na minha cintura me levando ao centro do salão para ser a companheira num mundo mágico.

                O fantástico desse devaneio me fazia sentir como se lá estivesse, ao som de uma valsa, de olhos fechados dentro de um salão em Viena, ou o bolero que me levava ao amor do príncipe encantado. Sentia a segurança de Astaire me embalando nas nuvens, tamanha leveza. Rodopiando e rodopiando a saia rodando mostrando as pernas que se movimentavam com uma leveza e rapidez, num total entrosamento. Não queria abrir os olhos, dançando sem parar ele me levava de uma música a outra, mudando de ritmo e como mágica o vestuário.

                Sentia-me linda, leve e amada, Astaire me desafiava a sapatear, coisa que ele fazia com perfeição, e eu não fazia feio, sapateava com ritmo, dançando com movimento de corpo e braços com sorriso e perfeição. Ele com seu terno impecável e seu cabelo que não movia nem um fio, e eu com os cabelos à altura dos ombros leves e soltos acompanhavam o movimento da cabeça e do corpo. Ao término, satisfeitos e realizados, recebíamos os aplausos de toda a trupe.

                Quisera um dia, podermos entrar na tela e nos transportar para ser a protagonista de um musical junto ao dançarino perfeito como ele.

Arco-Íris - José Vicente J. Camargo

 

 


Arco-Íris   

José Vicente J. Camargo

 

Quer ouvir uma história? Vou contar uma fantástica!

Fantástica? Como assim?

É quando o texto é uma ficção criada na imaginação, não é real!

Vou chama-la de “Arco-Iris”:

 

O dia amanheceu lindão! Sol de maio esparramando sua luz brilhante e amena por entre as poucas nuvens penduradas no céu azul, chamando os habitantes da cidadezinha escondida entre as verdes montanhas, a saírem de suas tocas sonolentas. Tico pulou da cama assim que seus olhos se arregalaram com o bater insistente dos raios solares e, se vê, de repente talvez impulsionado pela energia sideral a caminhar, ainda com gosto de café na boca, pela trilha que leva ao rio. Carregava numa das mãos a vara de pescar e na outra um balde contendo minhocas acabadas de serem extraídas da terra adubada do seu quintal, uma guloseima pra nenhum peixe botar defeito. Nas costas uma mochila com os apetrechos de pesca e o lanche para a hora que o estômago roncar. Apressou o passo torcendo para encontrar “aquele lugar” que mais lhe agrada, bem no meio da ponte que cruza o Rio das Araras.

Satisfeito por ser o primeiro a chegar, se posicionou no lugar preferido onde a profundidade do rio é maior aumentando assim a chance de fisgar peixes grandes. Não demorou muito e sentiu a vibração da vara indicando “peixe no anzol”! Fisgou com fé tirando d’água uma traíra típica da região e muito saborosa quando frita ou ensopada. Extraiu o anzol com cuidado e a guardou num saco de estopa mantido dentro d’agua para conservar seu frescor.

Hoje é meu dia de sorte! Pensava, enquanto ia fisgando outros peixes de bons tamanhos... Depois do lanche, pensando na peixada que ia preparar quando chegasse em casa, regada a vinho branco, presente da Inês pro dia dos namorados – não posso esquecer de convidá-la, quem sabe se não é hoje que ela vai aceitar aquele meu convite pra passarmos a noite juntos – resolve pescar o último e pegar o caminho de volta: “Chega por hoje! Exagerar na sorte dá azar...”

Qual minha surpresa quando, ao fisgar o último, me vem balançando freneticamente na pontinha do anzol, um peixinho dourado de rabo cor do arco íris me jogando beijinhos, com sua boquinha abrindo e fechando. Minha surpresa se transformou logo em carinho me enchendo de um sentimento de paz e alegria. Minha consciência dizia para devolvê-lo ao rio, mas a sensação de bem-estar que me apoderou foi mais forte e acabei por guardá-lo com cuidado no bolso da camisa, procurando com isso acalmá-lo com o calor do coração cujas batidas aumentaram dado àquela situação atípica, fantástica. Vou chamá-lo de “arco-íris”, a cor de seu rabo...

No caminho de volta, Tico sente um aumento da sensação gostosa de leveza e paz. Chegando em casa guarda os apetrechos da pescaria, liga para Inês convidando-a para o jantar e conta a fantástica surpresa que recebeu do Rio das Araras, recusando a revelar qual é, apesar dos insistentes apelos de Inês: “Só digo com você sentada à mesa, e se aceitar uma proposta que vou lhe fazer”, dando um tom  de conquistador... Desliga e corre pra cozinha a iniciar o preparo da peixada acompanhada de arroz branco, pirão de peixe e molho de quiabo tal qual a receita que a mãe lhe ensinou – que Deus a tenha! O pirão, vou escrever um bilhete para Inês fazer, que é a sua especialidade. Enquanto o peixe cozinha, vou tomar banho me preparando para o aconchego noturno. Quanto ao “arcoíris”, sempre saltitando e mandando beijinhos, vou escondê-lo na gaveta das ferramentas para Inês não o ver até chegar a hora da surpresa.

Ao voltar a cozinha, exalando água de barba e rodopiando no amor por vir, acalma Inês da sua ansiedade em saber a surpresa prometida:

− Só conto na mesa depois de você aceitar minha proposta! Agora me deixa terminar de fazer a peixada, observando o pirão pronto na panela ao lado.

Ok! Responde ela, mas então apressa essa comilança que já estou com água na boca. E, como não sou de guardar segredos, vou avisando que a sua contrapartida, que já presumo qual seja, está aceita.

Esse meu dia está realmente especial! Retrucou Tico. Vou abrir o vinho branco que você me presenteou e que guardei exatamente para essa ocasião, pois sou adepto do lema “o amor se conquista pelo estômago”! Pode sentar que já vou servir...

Na mesa, que Inês decorou com capricho, brindam a felicidade do momento sem se preocuparem com os escorregões que a vida pode, sem aviso prévio, trazer. Elogios de ambas as partes sobre as iguarias preparadas ecoam entre os aromas apetitosos...

No final da ágape, ele diz: Agora vou buscar a surpresa da noite! Ou melhor, da minha vida, pois pretendo trazê-la sempre comigo que me traz muita sorte como o dia de hoje já comprovou. Sai e minutos depois, ouve-se vindo da cozinha um bater de gavetas e portas entremeado por impropérios raivosos. Volta à mesa em lágrimas e, com olhos fixos em Inês, soluça:

Meu “arco-íris”, você não o viu? O guardei dentro da minha gaveta de ferramentas, não está mais...

 Inês sente a punhalada do ato cometido sem má intenção e encabulada responde:

− Um peixinho dourado? Ouvi um barulho na gaveta, abri e me deparei com ele sapateando entre pregos e martelo me atirando beijinhos. Disse-lhe: “Você é muito fofinho, mas aqui não é circo e lugar de peixe é na água. Então joguei-o na água do pirão pra dar aquele gostinho...

Como diz o ditado:

Sorte demais dá azar... 

POESIA NUMA HORA DESSAS - Oswaldo U. Lopes

 



POESIA NUMA HORA DESSAS

Oswaldo U. Lopes

                                        Eu canto porque o instante existe

                                          E a minha vida está completa

                                          Não sou alegre nem sou triste

                                                       Sou poeta

                                       Cecilia Meireles (1939)

 

        A ideia do título não é minha, mas cabe muito bem nesta hora que tem toda cara de hora dessas.

        Se você perguntar a qualquer criança ou mesmo adulto no Brasil quais os maiores poetas brasileiros, irá ouvir, sem pestanejar:

Castro Alves, Alvarez de Azevedo, Gonçalves Dias, Vicente de Carvalho, Olavo Bilac, Casemiro de Abreu.

        Se tiver sorte ou se seu interlocutor, for do tipo

“li bastante” poderá ainda ouvir:

José de Alencar, Fagundes Varela, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida (se seu interlocutor for paulista), Cecilia Meireles (morte aos machistas), Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade (haja pedras no caminho)

        Se for uma pessoa mais dedicada à leitura e ao conhecimento da literatura brasileira, dá para ouvir:

Basílio da Gama, Cruz e Sousa, Gregório de Matos, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa (seus primeiros livros eram poemas), Raimundo Correia (haja pombas), Tomás Antônio Gonzaga (sucede Marilia bela), Solano Trindade (não é o único, mas um representante maior da poesia negra) e outros.

        Bem, perguntaram ao Manuel Bandeira qual o verso mais bonito da nossa literatura e ele sem hesitar sapecou:

 

“Tu pisavas os astros distraída”

        Autor, o poeta Orestes Barbosa que não está em lista nenhuma, porque fazia letras que eram depois musicadas. A música chama-se Chão de Estrelas e lá existem outros versos de fundir a alma:

 

“ Nossas roupas comuns dependuradas

Na corda, qual bandeiras agitadas

Pareciam estranho festival!

Festa dos nossos trapos coloridos

A mostrar que nos morros malvestidos

É sempre feriado nacional

 

        Dorival Caymmi também não consta da lista, escreveu muitas poesias, porém todas musicadas, a coleção de suas composições é um relicário de poemas:

 

“Nada como ser rosa na vida”

 

“A jangada saiu com Chico Ferreira e Bento

A Jangada voltou só.”

 

        Algumas de suas composições como a Gabriela, feita para novela, contém uma formação de soneto imperfeito, lá estão as estrofes: duas de quatro versos (quarteto) e as duas finais de três versos (tercetos). Faltaram os versos dodecassílabos (alexandrinos).

        Outro que não vão encontrar na famosa relação de poetas brasileiros é Luís Antônio, nome artístico de Antônio de Pádua Viera da Costa. São dele os memoráveis versos:

 

“Barracão de zinco,

Tradição do meu país,

Barracão de Zinco,

Pobretão infeliz.

 

Vai, Barracão

Pendurado no morro

E pedindo socorro

À cidade a teus pés.


        Quem se lembrou de Elizeth Cardoso e de Jacob do Bandolim, tem a minha idade, minha saudade também.

        Qual uma das características mais marcantes da poesia musicada? A presença da rima. São pouquíssimas as canções em que se encontram versos brancos.

        Isso remonta aos menestréis da Idade Média.  Cavaleiros andantes iam de vila em vila, com seus alaúdes, cantando e juntando o povo para escutá-los, muitas vezes no pátio das Igrejas ou mais frequentemente, no das tavernas. Pode-se dizer que deles e desses aglomerados com o povo, nasceram os teatros populares que pouco faziam das regras aristotélicas de unidade de tempo, lugar e de ação.

        O teatro inglês da época elisabetana, Shakespeare à frente, deriva desses menestréis e de sua atividade.

        A rima era usada porque isso facilitava a memorização para eles e para os assistentes, porque muito do seu soldo dependia do cantar dos populares que os ouviam e os acompanhavam.

        O verso chamado branco, no teatro inglês, era motivo de disputa e de divisor entre os letrados, universitários e os outros. Saber fazer um verso branco, caracterizado pela métrica rigorosa, mas sem rima, era a glória.

        O desafio dos poetas ficava por conta dos sonetos, estrutura famosa de catorze versos e com rimas regulares. Maravilhosa invenção italiana, como a Pizza, a Pasta e o Panetone. Criação cuja consolidação é atribuída e com razão a outro famoso P italiano, Petrarca.

        Todo poeta almeja escrever um ou vários sonetos. Não se considera um poeta completo se não o fizer.       Vinicius de Moraes, o poetinha, que se tornou conhecido pelos versos musicados, escreveu e publicou belos sonetos, na mais clássica forma.

 

“De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto”

 

“Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure

 

        Este seria o quadro estrutural com os poetas músicos fora da pauta, não fosse a Academia Sueca entregar o prêmio Nobel de literatura a Bob Dylan. Músico norte-americano, famoso pelas suas músicas, cheias de rimas e de maravilhosos versos, ganhou o Nobel sem jamais ter escrito um livro (coletânea de cifras e letras, não contam), mas numerosas canções, ricas de versos e rimas:

“And how many years can some people exist

Before they’re allowed to be free

Yes, and how many times can a man turn his head

And pretend that he just doesn’t see

 

The answer, my friend, is blowin’ in the wind

The answer is blowin’ in the Wind”

        Dia virá em que perguntado sobre os poetas brasileiros mais conhecidos, o inquirido, além dos habituais, vai incluir: Noel Rosa, Cartola, Orestes Barbosa, Luís Antônio, Paulinho da Viola, Dorival Caymmi, Milton Nascimento, Chico Buarque, Gilberto Gil entre outros... Dia virá.