INSUPORTÁVEL - Silvia Helena De Ávila


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INSUPORTÁVEL
Silvia Helena De Ávila

Verinha e Telma moram juntas há seis meses, dividem uma gracinha de apartamento em Higienópolis. Verinha estuda moda na Santa Marcelina e Telma faz direito na Puc.

As duas vieram do interior, têm um parentesco em comum. Foram morar juntas para tranquilidade das famílias.

Verinha coleciona perfumes. Já encheu o armário do quarto e aos poucos está invadindo a sala do pequeno apartamento. Além de perfumar-se muito, perfuma o ambiente também, até os armários da cozinha!

Está ficando insuportável o excesso de cheiros pela casa. E Verinha não desconfia, melhor dizendo, não se incomoda se os outros gostam ou não.

Nas férias de julho foi para a Índia com um grupo  exotérico,   pesquisar a  importância dos aromas na espiritualidade. Voltou  da viagem com uma infinidade de incensos que espalhou por todos os cantos.

Depois que mobiliaram totalmente o apartamento e as máquinas chegaram, sua nova paixão tornou-se os amaciantes, sempre excede os limites da lavadora.

Telma está num beco sem saída. Com pouco tempo em São Paulo, não tem outro lugar para morar e não quer desagradar as famílias.

Por último Verinha adotou velas perfumadas.

Meu Deus!!! Velas, perfumes, incensos, onde tudo isso vai parar?



MARIDO SAFADO - Carlos Cedano


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MARIDO SAFADO
Carlos Cedano

Quem a mandou bisbilhotar nas roupas do marido? Quem procura acha! Foi num bolso do paletó de seu marido Paulo que Rita achou a carta comprometedora, não estava assinada, ma  estava impregnada a marca vermelha de lábios que insinuavam um beijo ardente; deve ser duma aventureira sem dúvida - pensou Rita- está tarde vou ter uma conversa com esse safado,  e continuou esbravejando já à beira de um colapso nervoso.

Ainda revirava as roupas quando achou outra carta, agora já não era mais uma suspeita, era uma certeza. Derramou-se em lágrimas. Depois de um bom tempo acalmou-se e pensou no que lhe diria, não poderia negar as evidencias!

Já quase noite escutou o carro entrando na garagem, a esposa respirou fundo e disse para si mesma: Agora ele vai saber com quantos paus se faz uma canoa. Entra o marido e encontra a esposa na sua frente segurando a carta na mão e mostrando-a  começou seu sermão, mas naquele instante as palavras se embaralharam na sua boca que nem ela própria entendia o que dizia. Rita desmaiou, Paulo retirou a carta de sua mão e a guardou, foi procurar um copo d’agua na cozinha onde achou a outra carta. Depois levou a esposa para o pronto socorro onde a médica de plantão receitou-lhe um forte tranquilizante.  Rita dormiu durante dois dias. Quando acordou estava numa clínica e dizia não se lembrar de nada, a seu lado o marido com um belo buquê de rosas vermelhas sorria na maior cara de pau, estava acompanhado pelos seus sogros e cunhados, todos sorridentes e felizes com a sorte da Rita ter um marido como Paulo num momento tão difícil de sua vida!


Rita limitou-se a agradecer friamente a Paulo pelas rosas; logo os parentes se despediram e o casal foi para casa no dia seguinte. A esposa não achou os bilhetes e nem perguntaria por eles, mas a infidelidade do marido estava gravada no coração e ela não deixaria barato essa traição. Prepararia uma vingança, sua infidelidade merecia um castigo, mas teria que ser preparada com cuidado.

Quebrando a Corrente - Ledice Pereira

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Quebrando a Corrente
Ledice Pereira

Quando cheguei já era muito tarde, o barco já ia muito longe, pude vê-lo se distanciando cada vez mais.

E nele partia Renato, que eu julgava ser meu grande amor.

No dia anterior tivemos um encontro conflitante. Lançávamos farpas, um no outro. Agredimo-nos verbalmente.

Ele insistia em querer me dominar e não aceitava que eu brilhasse na atividade que exercia. O fato de ser meu superior não lhe dava o direito de me diminuir, ainda mais na frente dos outros arquitetos.

Quando fui admitida por ele, foi o meu curriculum que o impressionou. No entanto, a partir do momento que passei a me destacar senti uma ponta de ciúme dele sobre mim.

Até que a paixão foi mais forte e começamos a nos relacionar.

Ele colocava defeito em todos os meus projetos ainda que os mesmos encantassem os clientes.

Nossa relação profissional passou a interferir na pessoal.

Passei a sentir-me acorrentada e quando tentei terminar o namoro ele ficou muito violento demonstrando sua verdadeira personalidade.

Ameaçou me desligar do escritório de Arquitetura, se eu não o acompanhasse na viagem de barco que faria no dia seguinte.

Deu-me uma noite para pensar. E eu não preguei o olho, adormecendo quando o dia clareava.

Acordei assustada com o barulho dos carros que invadiam minha rua, descobrindo que teria exatos cinquenta minutos para chegar ao porto de onde os barcos partiam pontualmente.

Corri o que pude para vencer os tantos quilômetros que me separava do ponto de partida, cheguei com segundos de atraso.

Havia rezado tanto pedindo proteção ao meu anjo da guarda que, creio, foi ele quem me fez adormecer pela manhã.

Tive a certeza de que jamais seria feliz ao lado de alguém tão dominador.


DESFECHO INESPERADO - Carlos Cedano


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DESFECHO INESPERADO
Carlos Cedano

Chegando a casa Rita armou-se de paciência para suportar a presença de seu marido que agia como se estivesse por cima da carne seca, além disso, contava com o apoio e gratidão da família dela. Nas próximas semanas Rita deu corda para o marido, confiava que Paulo em algum momento cometeria um erro.

Três meses depois chegou esse dia, o safado deixou seu computador escancarado e Rita, pacientemente, leu  os e-mails, seu Facebook e os arquivos da pasta “Documentos”. Depois selecionou cuidadosamente os documentos que pareciam mais explícitos do adultério e tirou copia deles.

Contatou uma agência de detetives e falou com o dono, um senhor moreno e bem apessoado que a escutou atentamente.  Depois o Detective Ramos, fez perguntas para conhecer o panorama de sua situação com o marido e obter informações sobre suas atividades, endereço de trabalho e uma foto dele.

Ramos trabalhou durante uma semana e sem dificuldade seguiu os passos de Paulo, tirou fotos dele com uma bela mulher quando saia da casa dela e quando entravam ou saiam de restaurantes e motéis. Com os resultados em mãos, Ramos chamou Rita para seu escritório e mostrou-lhe as fotos. Agora não havia dúvida da infidelidade do marido, a mulher da foto era “amiga” dela, Paulo as tinha apresentado numa reunião social com colegas de trabalho.

Rita disse para o Detetive:

— Preciso de provas em caso de um divórcio, mas não vou  facilitar a vida dele, no momento o que quero é dar um bom susto nesse cretino.

O Detetive Ramos pensou e após alguns minutos disse-lhe:

— Se a senhora tem confiança em mim tenho uma ideia que costuma a funcionar.

— Qual é? Retrucou Rita.

Ela escutou com atenção e achou a ideia excelente, e aprovou-a.

Na madrugada de um sábado para domingo, Ramos ligou para Rita e disse-lhe:
— Dona Rita nosso plano não saiu como esperávamos.

— O que foi? Perguntou a esposa ansiosa.

— Esperei seu marido sair da casa da amante e o abordei e lhe disse que estava mexendo com minha irmã apontando-lhe meu revólver, nesse instante ele caiu duro, chamei a policia e o serviço de ambulância, que chegaram praticamente juntos.

— Oh meu Deus! – disse Rita - E agora que faremos?

— Bem Rita, agora você já não precisa das provas da infidelidade de seu marido, ele já era!

— Não existe perigo de sermos acusados de assassinato?

— Não Rita, não! A senhora estava na sua casa, seu marido numa rua distante do lar e de repente sem motivo aparente ele caiu duro, a policia e os médicos confirmaram o infarto fulminante.


Deus escreve certo por linhas tortas... Coitado do Paulo disse Rita para o Detetive. Desligou e essa noite dormiu tranquila e feliz com o desfecho inesperado.

PICANTE – O PAPAGAIO - Oswaldo Romano




PICANTE – O PAPAGAIO

Oswaldo Romano



Quem poderia prever os atos do Picante?

Seu dono, Cascalho,  era o único que, às vezes, adivinhava suas atitudes. Vislumbrava as palavras que o Picante iria soltar. Alguém passando, soltava:

— Malandro... outra muié?.

— Está só, coitada!

 Enfim, tinha seu vocabulário recheado.

Em muitas ocasiões Cascalho se antecipava, pedindo desde logo desculpas pelo que iriam ouvir.

— Não liguem para o papagaio - dizia.

O louro tinha imprevistas tiragens. Ficavam engraçadas ditas pelo seu raspado sotaque. Onde, depenado, mostrava uma pele vermelha como pimenta e corpo esquelético.

Seu dono andava preocupado. O louro cada vez mais, mostrava conhecimento e comentava tudo que acontecia em sua volta. Já não era aquela repetição de palavras próprias da raça. Sua pequena memória lembrava coisas passadas, incomodando Cascalho, e quem ele marcava.

Numa ocasião sua mulher passando pelo Picante, ouviu:

— Você ainda vai descobrir...

Ela parou, encarou o louro, insistindo que repetisse.

Picante movendo-se no poleiro de um lado para outro, disse:

—Loro apanha. Loro apanha.

—Você não perde por esperar, retrucou.

As vésperas do dia de Judas, Abadia, a mulher do Cascalho, sequestrou o Picante, levando-o no fundo do quintal, num antigo galinheiro:

— Agora fale palhaço de uma figa. O que você sabe? Fale?

— Loro não sabe de nada.

— Ah ééh... Você também não sabe de nada?

Abadia o pegou pelas pernas e com fúria arrancava o resto das penas que lhe sobravam, cantando: – Bem me quer, mal me quer, bem me quer...

Por fim, Picante foi solto no poleiro, olhou-se todo e disse:


— Louro está triste agora. Pelado. Pelado que nem a faxineira Maria que Cascalho trouxe aqui.

Visita inesperada - Ledice Pereira



Visita inesperada  
Ledice Pereira

Aquele lugar aterrorizava pela escuridão e teias de aranha que povoavam a mata.

O grupo, que largara os carros na entrada, aventurava-se a pé por ali, tentando abrir caminho com os facões e com lanternas.

O destino era uma casa abandonada, que um dos rapazes, Jorge, havia frequentado quando menino.  Pertencera a um tio que desapareceu em circunstâncias nunca explicadas. Na verdade, o corpo do tio nunca apareceu.

Jorge não imaginava que o caminho estivesse tão abandonado. Como sua família ficou com uma chave da casa resolveu convidar os colegas, que com ele se formavam para, juntos, passarem o final de semana prolongado no lugar comemorando o feito.

Lembrava-se bem que era um belo lugar cercado por um lago e cheio de árvores frutíferas.

Ali, na infância, costumava passar férias e a lembrança das braçadas que dava no lago e das frutas que comia ao pé das árvores, junto com seus primos e amigos, estavam gravadas na memória.

Quando a tia faleceu tio Maneco optou por permanecer ali na companhia de um velho empregado, Doca.

Depois do sumiço do tio, nunca mais tinham estado lá.

Finalmente, conseguiram vencer aquele matagal e encontraram a velha casa ali escondida.

Os ruídos estranhos assustavam-nos a ponto de alguns desejarem desistir. Preferiam procurar alguma pousada para passar a noite, mas Jorge os fez repensar, convencendo-os de que no dia seguinte tudo seria diferente.

Estavam exaustos e famintos, mesmo alimentando-se com os farnéis trazidos.

Quando pensaram que dormiriam o sono dos justos risadas e grunhidos  cada vez mais altos se fizeram ouvir.

 A impressão era de que algum animal rondava a casa. O som que ele emitia, entretanto, não se assemelhava a nenhum animal que já tivessem ouvido.

Munidos das lanternas e cheios de coragem resolveram investigar a origem daquele ruído estranho.

Jorge, o primeiro a sair, logo caiu desmaiado na varanda. Os outros foram saindo e, enquanto alguns tentavam reanimar o amigo, os demais viram o que provocara aquela reação: uma criatura verde, baixa e corcunda, com apenas um olho acima do nariz. Com a pele de cobra tentava tocá-los com mãos esquisitas de apenas três dedos avermelhados.

Os rapazes estavam em total estado de choque. Aquele monstro asqueroso ria exageradamente pulando com seus pés de pato.

Os jovens resolveram juntar seus pertences e convenceram Jorge, que já havia voltado a si e estava perplexo, a deixar aquele lugar maldito.

Não sabem como alcançaram os carros, perseguidos por aquela criatura.

Assim que ligaram os automóveis puderam ouvir gritos alucinantes que cortavam a noite.

Sem querer, tinham acionado o que mais atemorizava o ser monstruoso, o ronco dos motores dos veículos.



Bendix e a Bruxa Malévola - José Vicente J. de Camargo

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Bendix e a Bruxa Malévola
José Vicente J. de Camargo

No reino Sureal do planeta Argento, não distante do planeta Terra, onde também a atmosfera permite vida, forças do Bem e do Mal geram contínuos atritos no alcance de seus objetivos.

A noite é de lua cheia, vento uivante, nuvens espessas tampam o brilho das estrelas, deixando somente um traço pálido de luar. Um gemido de lobo corta a noite adormecida.

Bendix sai da toca, de onde emana um aroma de mata fresca orvalhada, e titubeando na noite escura, empina o nariz. Abre as largas narinas e aspira o ar frio a procura de odores da bruxa malévola. Sim, pensa: a noite está perfeita para ela sair voando da caverna no alto do penhasco da Serra do Diabo assim conhecida pelas fendas profundas espalhadas em sua superfície, quais armadilhas mortais para os incautos escorregarem e desaparecerem para sempre – trepada em sua vassoura de ferro em brasa, levando à tiracolo o gato Lúcifer, de pelos negros e olhos vermelhos, e na companhia de um bando de morcegos chupadores de sangue, e de corvos de bicos cortantes.

Bendix sabe o que ela procura! Desde que foi expulsa do castelo da princesa Magrit pelos soldados do rei Arthur, seu pai, jurou vingança de morte à linda princesa. Sua beleza e bondade lhe fazem mal, lhe dão inveja, assim como todas as coisas boas que acontecem nos limites do seu domínio. Não suporta ver o bem, sentir a alegria e a felicidade alheia. São seus inimigos que precisam ser esmagados. O ar que respira precisa ser malévolo, daí seu nome “bruxa malévola”.

Não há tempo a perder! Precisa avisar rei Arthur.

Bendix abre as asas contra o vento, para limpá-las do orvalho da madrugada. Suas orelhas de jumbo informam a direção do vento mais favorável, enquanto sua mente potente traça a rota mais curta para alcançar o castelo. Assim levanta voo o protetor das coisas boas e belas, o antídoto da bruxa. No seu voo salvador, conta com o auxílio dos condores que auxiliam suas asas a baterem mais forte, enquanto as águias reais atacam o cortejo inimigo, atrasando-o na sua empreitada funesta. Com esse apoio das forças da virtude e graças aos seus poderes de superser, concedidos pelo “Espírito do Bem”, chega a tempo de avisar rei Arthur da ameaça vingativa. Rapidamente se forma uma rede de abelhas com ferrões em alerta, protegendo o palácio. Dado ao atraso da tropa malévola, o sol inicia a mostrar seus raios de luz, fazendo os morcegos sanguinários debandarem a procura da escuridão de satanás. Sem chances de vitória, a bruxa ordena seus comandados a retornarem a Serra dos Diabos.


Assim, se reconfirma, uma vez mais, a vitória do Bem sobre o Mal, permitindo a continuação da vida em paz e harmonia, desejo mor de todos os seres viventes...

OSWALDO ROMANO - LANÇAMENTO DO LIVRO AUTOBIOGRÁFICO


UM ESPAÇO NO TEMPO - OSWALDO ROMANO


Oswaldo Romano tem uma trajetória de vida rica que rendeu um livro biográfico, já em segunda edição. UM ESPAÇO NO TEMPO. 

Foi no dia 12 de agosto de 2017, no Clube Alto dos Pinheiros.
Alguns alunos do EscreViver estiveram prestigiando o colega de sala e amigo de atividades no Clube. Outros que não aparecem aqui, estiveram no evento. 




Parabéns, Romano!

O feitiço de Pileco - Silvia Helena De Ávila


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O feitiço de Pileco
Silvia Helena De Ávila

Pileco joga futebol toda quarta. Às vezes, sexta também. Se deixar, Pileco joga bola todo dia.  Quando tem jogo na televisão, ele assiste,  em seguida veste o uniforme do time e vai para o parque jogar, com amigos da vizinhança, às vezes sozinho mesmo. Ele adora futebol.

 No bairro onde Pileco mora tem um parque com um gramado enorme. Tem banheiros, uma casinha para festas e três campinhos de futebol. O zelador é seo Durval que deixa a meninada fazer festa de aniversário lá. Ele é muito legal, é o juiz dos jogos também. Só que seo Durval é super  preocupado com as formigas, tem medo que elas piquem os meninos. Já tentou acabar com elas, é difícil.

A casa de Pileco fica em frente à entrada principal do parque, além de jogar bola, ele toma conta do campinho como se fosse dele, até dos formigueiros ele cuida.

— Seo  Durval, as formigas se escondem na hora do jogo , tenho certeza, eu peço pra elas. Diz Pileco toda vez que o zelador  tenta um método novo de extermínio.  E não é que a turma acha Pileco meio feiticeiro mesmo? Nunca ninguém foi picado durante os jogos. No fundo os meninos se sentem seguros de jogar com ele que sempre faz umas rezas para afastar as formigas antes da partida.

Certa vez, chegou  um menino novo para jogar. Foguinho, como era chamado,  não conhecia ninguém,   ((a família dele estava visitando parentes que moravam no bairro.  Passou a manhã toda emburrado, na casa tinham duas meninas.

— Que coisa mais sem graça, elas são muito chatas! Resmungava pra mãe, pedindo pra ir embora. Depois do almoço, foi  obrigado a ir com as primas até o parque para um passeio. Estava detestando tudo, sendo muito malcriado mesmo, até que  viu um  bando de moleques jogando futebol. Deixou as meninas e correu ao encontro do grupo. Logo foi aceito, sempre falta ou sobra gente nessas peladas de bairro.  

 Foguinho tinha este apelido  porque era ruivo, mas também,  ele era fogo mesmo!  Curioso, esperto e como dizem os mais velhos, um menino atentado. Entrou  no jogo e logo cometendo falta,  por isso seo  Durval o tirou da partida. Foi por pouco tempo, mesmo assim ficou  inconformado. Todo mundo estranhou a braveza de Foguinho, pois naquele grupo os jogos eram sempre amistosos.

— Menino, cuidado onde senta, tem muita formiga por ai! Avisou seo  Durval,  homem rude nas palavras, mas  cativante nas maneiras, sempre preocupado com a meninada que já conhecia muito bem o seu jeitão. Tão irritado estava Foguinho, que saiu chutando o formigueiro até que desfez todo o montinho de terra. Ninguém percebeu pois o jogo continuava rolando e em seguida Foguinho foi chamado de volta.

Quando terminou a partida, os meninos se juntaram na grama. Uns sentaram, outros deitaram, todos esgotados mas muito felizes. Tiraram as chuteiras, os meiões e ficaram conversando alegremente até que Foguinho desatou a gritar e espernear apavorado. Todos olharam a situação sem nada entender, surpreendidos com  o choro do menino. Seo  Durval veio correndo assim que ouviu a gritaria. A  perna de Foguinho estava cheia de formigas e com pontos de vermelhidão. O zelador arrancou a própria camisa e com ela batia na perna do menino para tirar e as formigas grudavam na camisa, eram jogadas de volta à perna de Foguinho, ele gritava mais ainda, o maior sufoco,  que deixou  todos os moleques  apavorados  com medo de serem picados também.

No meio de toda aquela confusão, correria, choro, só Pileco parecia em alfa. Ficou paralisado, não demonstrava nenhuma reação. Estarrecido, levou as mãos à cabeça, e triste ao mesmo tempo,  como que falando para si mesmo  -- Eu esqueci de avisar as formigas que tinha um menino novo.

Seo Durval vendo a cara de Pileco, foi conversar com ele, disse que não era sua culpa, tinha avisado o menino das formigas. Foi ai que ele contou que vira o moleque chutando o formigueiro.

— Pronto, está explicado! Pensou Pileco já mais calmo. Agora sabia que elas estavam se defendendo do agressor. Ele e as formigas continuariam na mesma sintonia de comunicação que sempre tiveram.

PÃES E AFINS - Silvia Helena De Ávila


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PÃES E AFINS
Silvia Helena De Ávila
I

Com muita dificuldade Bolivar se locomovia até a padaria todas as madrugadas, tão gordo estava.  Muitos anos atrás, seu avô inaugurara um pequeno comércio de azeites vindos de Portugal. Desde então, setenta anos se passaram e o negócio só prosperou.

De azeites para pães foi um longo caminho. Só se definiu mesmo como padaria quando o pai de Bolivar, seo Manuel, sofrendo de diabetes tipo II,  passou o comando dos negócios para o filho mais velho . Com pesar foi entregando o patrimônio da família, o que gerou  um mal estar entre os irmãos. Bolivar era sabidamente um "bon-vivant", ávido por dinheiro. Queria para si um estilo de vida fora dos padrões austeros da família portuguesa.

Qualquer produto novo que agradasse aos clientes abastados do condomínio vizinho era imediatamente incorporado às vendas. Até que chegou ao balcão do caixa a possibilidade de se vender drogas. Quem começou, na verdade, foi o próprio funcionário do caixa, às escondidas dos proprietários.  Vendia junto com os cigarros. Dentre os clientes da padaria,  destacava-se a garotada, usuária frequente de drogas  e ali no condomínio não havia lei. O tráfico foi se intensificando a ponto de chamar a atenção de Bolivar.
II
Quando descobriu a irregularidade, pensou em despensar o funcionário, mas pesou o que seria mais vantajoso para seus negócios e decidiu continuar, ele mesmo cuidando das tratativas.

As transações aconteciam de madrugada, quando Bolivar chegava.  Nesta época,  seo Manuel já não vinha trabalhar tão cedo.  Rigoroso como era, custou-lhe confiar no suposto empenho do filho.  E assim foi por alguns anos, as entregas crescendo gradativamente.

Por outro lado, a intensidade das transações também chamou a atenção do chefe dos traficantes. Ele resolveu fiscalizar o novo ponto e conhecer o "cabeça" dos intermediários. Bolivar não quis se envolver pessoalmente, mas não houve meios de evitá-lo, seu funcionário não possuía traquejo para lidar com esta situação, com esse tipo de pessoal.

Muito a contragosto Bolivar se viu envolvido em uma trama perigosa e talvez sem saída, porque depois  de ter se aproximado do chefão dos traficantes, tinha o passo seguinte, fundamental para o sucesso da operação,   conhecer o pessoal da polícia, os camaradas que  faziam a ronda nos arredores do condomínio.  Todos envolvidos na trama.

Viveu assim mais alguns anos, faturando muito, mas sempre sobressaltado. Começou a pensar em deixar o negócio quando sua esposa descobriu as vendas ilícitas. Ameaçou se separar dele, pois temia pelas filhas. Com os nervos à flor da pele, ameaçou matá-lo, caso não abandonasse os negócios.

Certa vez, ao descer do carro, foi cercado por dois rapazes que o ameaçaram também. Estavam fora de si, notadamente drogados, queriam que ele passasse a vender drogas mais pesadas.  Bolivar sentia-se pressionado. Incorporar novas drogas interessava a todos que faziam parte do círculo vicioso. Traficantes, usuários, policiais e o funcionário da padaria. Só ele pensava em sair da jogada, ele, o financiador da mega transação  em que  tinha se transformado.

 Resolvera de fato  encerrar o tráfico, mas era impossível deixar o esquema ileso, todos estavam contra ele. Sentindo-se inseguro, contratou os serviços de proteção de guardas, mas estes pertenciam  à mesma delegacia regional dos outros, envolvidos com a droga.

III

Nunca em setenta anos de existência, viu-se  a padaria do seo Manuel fechada. Assim os clientes a encontraram naquela manhã chuvosa de novembro. Sem nenhum aviso, sem nada que indicasse o que poderia ter ocorrido. Na madrugada daquele dia frio, úmido,  Bolivar aparecera morto, caído na rua ao lado de seu carro, em frente à padaria. Não se sabe se foi empurrado, se tropeçou, se escorregou no piso molhado ao descer do carro, estava muito gordo, com dificuldade pra andar, o fato é que caiu e bateu a cabeça na sarjeta.
A família ficou em choque. A esposa, com medo de retaliação, pegou as filhas e partiu para a casa dos pais sem dar explicação a ninguém. Os irmãos, habituados a ter Bolivar no comando de tudo, choravam de dor e pavor pelo que lhes aguardava. Desconheciam até mesmo o preço da farinha de trigo. Seo Manuel ficou impassível.

Nos dias que se seguiram o movimento da padaria foi mais intenso que o normal. Clientes curiosos, antigos amigos do cafezinho, moradores do condomínio e muitos policiais, a pretexto de proteger o local e dar continuidade nas investigações. Pouca coisa foi esclarecida sobre o incidente e a família se contentou com o laudo da perícia. Foi quando tomou-se  conhecimento também da venda de drogas, para incredulidade de uns, desprezo de outros e  ainda aqueles  que tinham certeza absoluta tratar-se de pura mentira.

Chegada a missa de Sétimo Dia, as pessoas foram confortar os familiares. Os parentes notaram  a presença de um grupo estranho, souberam tratar-se dos traficantes e seu chefão. Ficaram indignados com a presença deles pois uma das hipóteses levantada pela polícia era de que teria sido crime de facção. O grupo conversava sorrateiramente com os policiais. Na verdade, tratavam de negócios, pensavam em como dar continuidade à operação,  não estavam lá rezando pelo falecido.

Na saída da igreja o grupo se dispersou rapidamente, já os  amigos e conhecidos permaneceram ali  na tentativa de consolar a família amiga. Seo Manuel não quis ficar por mais tempo, foi se dirigindo para o carro quando percebeu um sinal de um homem do outro lado da rua. Caminhou em sua direção, conversaram por um breve instante.

—Tinha que ser assim, disse ao desconhecido. A padaria é sagrada!