O Saci e a Mula- Fernando Braga



O saci e a mula
Fernando Braga

Nas folhas tantas dos livros do folclore brasileiro, um Saci Pererê, apaixonou-se um dia, perdidamente por uma Mula sem cabeça. O saci olhou-a por trás, com aquele olhar muito maroto, não viu sua cabeça, mas nunca, jamais, havia visto tão belo par de ancas, dentre as quais, saia um rabo volumoso, majestoso, comprido, elegante, de cor castanho claro. Quando a mula virou-se, viu tratar-se de uma figura impar, sem cabeça, apenas mostrando uma parte do pescoço do meio do qual, saiam faíscas de fogo. Ao virar-se novamente, a mula rebolou, mostrando novamente suas qualidades equinas, pernas fortes, bem torneadas e levantando o rabo, suas ancas perfeitas. O Saci, deste então, fez de sua vida uma vida paralela à dela, até que um dia se encontraram no meio da mata.  Em ânsia perguntou a ela seu nome

— Sou conhecida como a mulher do padre, mas pode me chamar apenas de mula acéfala.

Ao conversarem, logo perceberam que um fazia parte do outro e passaram a se amar ao sabor do momento e da paixão. Resolveram constituir um lar e para tanto, se casarem!

Programaram uma grande festa em uma clareira no meio da mata, onde passava um rio de aguas limpas, que formava uma lagoa bem azul. Convidaram para padrinhos o Curupira, anãozinho de cabelos avermelhados, pesinhos virados para trás e a caipora, com corpo pequeno, cabeleira colorida, sempre atrelada a seu porco selvagem. Com estes padrinhos, ficariam tranquilos no meio da noite, pois eram os maiores protetores da mata frente aos caçadores. Convidaram todos os bichos da floresta, com exceção das antas, uma vez que uma delas havia pisado na cabeça de uma oncinha enquanto dormia e todas as onças haviam prometido acabar com as antas, também conhecidas como tapir.

Um edital foi colocado em vários pontos da mata, convidando toda a bicharada. Os macacos não queriam comparecer, pois aventavam a possibilidade de serem confundidos com as antas e até provarem, que eram apenas macacos, as onças já podiam tê-los devorado. Aí, interveio o chefe deles, um enorme bugio, que falou para irem tranquilos, pois já havia conversado com o Boi Tatá, a cobra de fogo, gigante, que garantiria a segurança, a ordem e a disciplina. O Saci apresentou-se muito elegante em um fraque de uma perna só, cachimbo e gorro vermelho, e a Mula acéfala, nua e muito cheirosa. A cerimônia foi presidida pelo Tamanduá Bandeira. A festa foi muito animada, com muita comida, bebida, música e dança de todos os tipos. Compareceram dezenas de sacis, de mulas sem cabeça, dezenas de bois tatás, curupiras, caiporas, fadas, bruxas e até iaras e botos rosa que vieram pelos rios até a lagoa azul. As Iaras cantaram maravilhosamente bem e dois Lobisomens, que estavam presentes, foram enfeitiçados, pularam de cabeça no lago para abraça-las e, desapareceram...

Com o amanhecer, todos se dispersaram, restando apenas o Saci e a Mula, que se retiraram para uma gruta deserta, para terminarem sua lua de mel. Em lá chegando, a Mula deitou-se e o   Saci começou a fazer trancinhas em se majestoso rabo. O fato é que após nove meses nasceram um sacizinho e duas mulinhas, também sem cabeça, todos muito engraçadinhos.

Eis que um belo dia surge ele, Silver, o máximo, o cavalo branco, majestoso, garanhão fogoso, frequentador de estábulos famosos, que ao observar as ancas perfeitas da Mula acéfala, ofereceu a ela uma grandeza diferente. O Saci que era muito perspicaz, logo percebeu que algo estranho acontecia, pois não sentia a mesma paixão de sua amada e que ficara reduzido à insignificância. Agora passava o dia, fazendo trancinhas na cauda e na crina de Silver, e este a acariciar as ancas da Mula.


Um dia de muita ventania, o Saci não aguentou mais e ao ver um redemoinho, pulou dentro dele, sumiu de vez daquele ambiente, para aparecer em outro local, bem longe dali.


Ó PAI - Mario Augusto Machado Pinto



Ó PAI
Mario Augusto Machado Pinto

Após o telefonema fiquei aturdido você havia sido atropelado, teve o fêmur partido e o quadril quebrado. Fui direto ao hospital. Registrei e fomos para o quarto.

O médico, seu genro, disse que devido à sua idade não poderia operá-lo de imediato. Imobilizou seu quadril e a perna. Você ficou engessado.

Eu ia todos os dias ao hospital, conversávamos bastante e você me dizia que sentia saudades dos nossos abraços, minha turrice, das minhas perguntas. Eu segurava sua mão e você apertava meus dedos. Eu sorria. Aquele foi tempo bom...

Sim, pai eu também sentia saudades daqueles poucos abraços apertados, da sua mão passando pelo meu rosto, da sua fingida recusa aos meus beijos, homens não se beijam, mas você não era um homem pai, você era Meu Pai, e eu insistia. Você escondia o sorriso.

Ai um dia à tarde você mandou me chamar, queria conversar.

Quando, preocupado, entrei no seu quarto você disse:

Vem cá, ó menino meu. Vem cá.

Você me abraçou como nunca antes fez e me disse:

Dá cá um abraço e um beijo. Somos pai e filho. Podemos nos beijar.

Beijou-me e disse:

Chegou a hora, filhote. Até mais ver.

E você se foi.

Ai, ó Pai meu, até hoje espero a hora de poder encontrá-lo, abraçar, beijar e dizer:


Dá cá um beijo, ó pai, nós podemos!

ERA SETEMBRO - Oswaldo Romano


ERA SETEMBRO
Oswaldo Romano 
                                                                     
         O tempo urgia, mas os rostos aparentavam cansaço e desânimo. Muitos partiriam, desistindo do sonho dourado. As mãos calejadas pelo insistente ofício de escavar eram as mesmas que diriam adeus naquela primavera.

        Tudo começou quando larguei em São Paulo o emprego após cinco anos. Era considerado pelo excelente patrão e muito bem enturmado com os colegas. Na saída percebi que era mais querido do que imaginava.

        Intrigados com a minha decisão de ir para Serra Dourada a cata da riqueza, do ouro que ali aflorava, só puderam desejar sucesso, felicidade. Agitei e convenci toda família.

        Lá caí num desconhecido mundo, só via aventureiros, trapaceiros e muitas prostitutas.

        Levados por mirabolantes descobertas, ricos da noite pro dia, alguns nadavam em ouro, enchiam-se de colares, decoravam os dentes, mas não dispensava um trinta e oito na guaiaca.

        Eu corria o risco de nessa profusão de orgias, ver desviado algum ente querido da família.

        Nas profundezas daqueles barrancos cavava a terra, enchia sacos e sacos e carregando-os no lombo, iniciava a longa subida. Talvez levasse ai algumas pepitas. Só Deus sabia. Rezava baixinho, pedia ajuda. Outros, disfarçando mau agouro, cantavam,  achavam melhor do que gemerem.

        Alguns pequenos achados davam a esperança de continuar. Mas o perigo falava mais alto. Disfarçando o fracasso, reuni a família e abanando as mãos calejadas, demos adeuses à promessa que nunca veio. Nada restou de lembrança, só um sacrifício dourado.


Calor dos trópicos versus frio alemão - José Vicente Jardim de Camargo


Calor dos trópicos versus frio alemão            
José Vicente Jardim de Camargo          



A história a seguir é verídica e se passou comigo quando fiz um doutoramento na Alemanha entre as décadas de 1970 e 80.

Naquele tempo não existia internet nem celulares, o que tornava os acontecimentos mais interessantes, mais pessoais com a troca de informações entre pessoas e países quase que exclusivamente por via postal.

Era uma tarde de domingo, final de outono, friozinho gostoso, enrolado numa manta de lã, jazia eu sonolento no sofá a mirar televisão, quando toca a campainha de meu apartamento de quarto e cozinha situado em pleno centro universitário, repleto de repúblicas de estudantes e barzinhos típicos aonde as noitadas iam  até altas horas regadas a cerveja e tira-gostos.

Solteiro, em pena forma, torci para que não fosse nenhuma amiga ou amigo querendo me arrastar para mais uma ronda noturna.

Qual minha surpresa quando deparo na soleira da porta um senhor beirando os sessenta anos me cumprimentando e perguntando se eu era o “Herr Camargo”.

Mediante minha resposta afirmativa, pede desculpas pelo  incomodo mas, como fora informado da minha nacionalidade brasileira, pede minha ajuda para a tradução de uma carta muito importante para ele, que recebera há poucos dias do Brasil.

O fiz entrar, apresentou-se como Hans, e me explica que morou  por sete meses no Recife trabalhando como técnico de uma empresa alemã na instalação de uma fábrica de cimento. Lá passara, como definiu, os melhores dias de sua vida. Conhecera uma mulata muito bonita e dengosa moradora em uma favela e quanto mais a descrevia, mais eu visualizava a mulata  cheia de trejeitos e sensualidade que ascende o mais morto dos corações, confirmando o que já havia escutado de outros alemães que estiveram no Brasil como turistas ou a trabalho.

Ao iniciar a tradução da carta, paro surpreso, engulo em seco:
No cabeçalho, em grafia retorcida do primeiro grau, a frase inicial:

              “Meu Docinho de Coco!”

Essa expressão me causa grande impacto – tão simples, mas ao mesmo tempo tão cheia de sentimento, de calor humano como se de repente todo o Brasil, na saudade acumulada dos anos distantes, me abraçasse com carinho e senti que realmente esse tropicalismo amoroso faz falta à frieza alemã.

Mas penso comigo: -“Como traduzir essa expressão para um alemão de meia idade, formal e introvertido? Além do mais, os alemães não estão acostumados a docinhos açucarados e poucos já viram um coco na vida.
Mas, mediante a expectativa crescente do Hans pelo conteúdo da carta, traduzo a expressão ao pé da letra.
Ele sorri e dá um suspiro profundo como se tirasse da alma a saudade retida.
Em seguida a remetente, que ele disse chamar-se Dorinha, lhe escreve da falta que dele tem, dos cafunés na rede ao cair da tarde, dos banhos de mar nas praias quentes, das comidas preparadas com carinho a seu gosto, da malvada pinga que ele tanto apreciou, das noitadas abraçadas...

Hans, a esta altura já está totalmente entregue, despido de toda disciplina e pragmatismo germânicos, levado pelas ondas da paixão às longínquas paisagens nordestinas.
Me mira, pede mais, eu continuo:

— “Quero lhe preparar um cantinho mais acolhedor, assim não precisa ficar em hotel da próxima vez que vier. Para tanto preciso comprar uma geladeira, um fogão, uma televisão, pintar o quartinho, consertar o telhado...Creio que uns dez mil cruzeiros sejam suficientes...
— Que doçura, não me esqueceu! Diz-me ele e, com afoito juvenil, me pede no termino da tradução, de responder, de retribuir os beijos, os abraços e as saudades e que mande os dados da conta bancaria para que ele lhe envie o dinheiro.

E, como procurasse uma desculpa pelos seus deslizes cometidos nos melhores dias de sua vida, continua sua narrativa:
— Não vivi minha juventude, não conheci os prazeres da mesma. Ainda adolescente entrei para o partido nazista, onde a disciplina era muito rígida, o contato entre os sexos era raro, assim como as festas e horas de lazer.

Com dezenove anos fui como soldado enviado para o norte da África sob o comando do general von Rommel. Ao voltar a Alemanha no final da guerra, tudo estava destruído. Por falta de opções, casei-me com a primeira moça que conheci, com a qual sou casado até hoje com dois filhos adultos.

Mirando-me, como já me conhecesse de longa data, talvez por ver em mim vestígios pátrios de sua querida Dorinha, me indaga em tom de confissão:
— Estou com uma grande dúvida! Não sei se a trago para a Alemanha ou se largo tudo aqui e vou viver com ela no Brasil. Mas, será que ela se adaptaria por aqui, com os costumes, o frio, o idioma? Continuaria a sentir o mesmo afago, o mesmo carinho por mim?
Se eu voltar, perderei meu emprego e minha aposentadoria que terei direito daqui a cinco anos. Se esperar esse tempo para voltar, ela com certeza já estará com outro, pois é muito dada, tem muitos amigos.

-O que você acha, já que conhece ambos países?

Neste momento senti o peso do opinar, de dar um palpite que poderia influenciar o destino de dois seres humanos, principalmente o de Hans, que visivelmente titubeava com a mais importante decisão de sua vida. Conhecia casos parecidos, de brasileiras de origem humilde, de cor, casadas com alemães que não se ambientaram, e após algum tempo se separaram e retornaram. Em algumas era evidente o interesse financeiro, em outras as dificuldades e principalmente a saudades foram decisivas.

Mas preferi não mencionar esses fatos para não lhe influenciar e depois cada caso é um caso. Disse-lhe que a decisão era muito pessoal, um duelo entre o amor e a razão e, neste caso, só ele tinha condições de decidir já que se tratava do seu próprio destino.

Ele compreendeu meu posicionamento, me convidou para almoçar em sua casa, o que fiz, quando tive então a oportunidade de conhecer sua família, muito simpática e de sentir ainda mais, o drama de Hans na sua escolha decisiva.

Ao nos despedirmos confidenciou-me que enviara o dinheiro a Dorinha e que me procuraria em caso de uma resposta.

Concordei e desejei-lhe boa sorte.

Dois meses depois terminei meu doutorado e mudei de cidade, sem receber mais noticias de Hans. Também, por uma questão de conforto e talvez medo de ser confrontado uma vez mais com a vital  decisão, não o procurei.

Mas, desde então, toda vez que me lambuzo com um docinho de coco, me vem à lembrança o dilema de Hans:

— Será que estará saboreando seu docinho todo dia, embalado numa rede de cafunés ou guarda no paladar o sabor doce e distante de uma paixão inesquecível?
Seja qual for o destino que escolheu, o importante é que ele não passou pela vida em brancas nuvens, sentiu a fundo o fogo da paixão...



NA VILA - Mario Augusto Machado Pinto


 

NA VILA
Mario Augusto Machado Pinto

A mudança para a casa 117 da nossa vila foi despercebida contrastando com a saída do pessoal da família Molina que teve almoço de despedida, abraços, beijos – aproveitei pra tirar umas casquinhas com a Neide – e até presentes.

Não vimos ninguém dos novos vizinhos chegar, só tranqueira doméstica, móveis esquisitos, todos escuros com tecido preto nos estofados. A Dona Zuleica diz que pelo que viu das coisas caseiras deve ser pessoal de posses, não milionários, mas família muito bem posta e, pela quantidade de vasos e plantas, deve gostar de flores; então deve ser gente boa.

No dia seguinte ao da mudança, as persianas ficaram abaixadas e afastadas dos batentes, as vidraças fechadas, o que impedia de ver qualquer coisa do lado de dentro. Ninguém viu ou ouviu: só a Dona Zuleica. — Já falei que não vi ninguém e vamos parar com essas perguntas bobas. Gofredo, o malandro do meu filho, xereta como ele só, está fuçando. Vamos esperar ele contar.

O Fredão pode descobrir, ele é fuçador, arma poucas e boas e, não sei como, descobre. Acho que é porque não tem vergonha das bobagens que faz. Pra ele tudo vale e pode ser feito.

O tempo foi passando e da 117 a gente só via duas empregadas muito simpáticas e risonhas carregando pacotes e latas. De resto, nada. Um dia Fredão chegou pra mim sugerindo que já tinha um plano pronto pra descobrir. Ele não disse “tentar descobrir”, disse “descobrir”. Dá para entender a figura, não dá? Precisava de um ajudante, e me escolheu.

— Olha Fredão pode contar, vou escutar, mas não vou me meter nas suas maluquices.

— Não julgue antes de saber. Vem comigo. Tá de tênis? Tá bom. Vamos.

Entramos pela casa dele e fomos direto ao sótão subindo por uma escada que ele já havia colocado antes.  Fechou a tampa do sótão e aí eu vi o que lá em cima parecia um calçadão com alguns obstáculos. Não há separação correspondente a cada casa. Explico: a Vila Coentrão aqui da Rua Chile 117 é composta de 14 casas, sete de cada lado da rua de entrada, geminadas parede a parede, numeradas 117, 117 A, 117 B, etc. Cada uma tem na parte de cima dois quartos e uma suíte grande. Fomos até o teto da 117.  A 117 A é onde mora o Fredão. Sentamos na laje e eu disse pra ele falar rápido que eu queria ir embora logo.

— Vou falar, mas quando acabar Você não vai querer ir embora, não.

Lembra que a 117 ficou um tempão sem alugar? Pois é. Um belo dia subi ao teto para prender a boia da caixa de água lá de casa e vi esse avenidão aqui em cima. Vinha fumar um baseado e um dia me lembrei de um filme em que um espião, do teto de uma casa, vigiava a sala de um general usando uma micro câmera. Isso me martelou a cabeça durante um tempão. Sabe, aquele negócio faço, não faço? Resolvi fazer. Eta capeta! E fiz. Instalei bem escondidinha a micro e o gravador enquanto a casa ficou desalugada. Está tudo pronto. É só gravar. OK?

-E eu o que faço?

-Lembra? Eu disse que Você não ia querer ir embora. Grava. Nós nos alternamos: um de cada vez.

— E quando...

— Hoje. Tá bom?

— Tá, mas como Você sabe a hora pra ver?

— Ora seu Zé Migué, pra pescar você não espera o peixe? Temos que esperar. Só olhei durante o dia, mas não gravei. Agora à noite gravamos. Você faz a parceria, tá?

Lá pelas nove subimos e gravamos o que a câmera transmitiu. As imagens eram muito escuras... Não tinha luz acesa! Achamos que a iluminação era só a do luar que passava pelas telhas de vidro. Pô, que méldia!  Filmamos outras vezes e o resultado foi sempre igual. Só uns vultos fazendo sinais para o teto do corredor onde estava a câmera. Aí o Fredão resolveu falar com as duas empregadas quando elas iam fazer compras. Falou várias vezes e sempre dizia que era muito simpática, a família era muito boa, etc. E a gritaria de brigas, barulho de coisas atiradas contra as paredes? Não era nada. As filhas gostavam de atirar coisas, de gritar, imitar choradeiras, etc. Achamos estranho, mas cada um faz o que quer dentro da sua casa. Hoje ele disse que ia fazer perguntas sobre cada um da família. Falou novamente e vi que depois de um tempo de conversa ele gesticulava, gritava com elas e saiu correndo da vila. Voltou á noitinha, me telefonou e fomos ao sótão da casa dele.

— E aí, cara. Conta! O que aconteceu?

— Isso só podia acontecer comigo. Parece que fui escolhido pra ser o bobão. Você não vai acreditar!

— O que aconteceu, cara? Deixa a choradeira pra depois!

— Você não vai acreditar... Não vai acreditar... É demais!

— Se você contar eu acredito.

— É coisa de louco de pedra! O pessoal é cego. Só o pai enxerga!!! Já imaginou?

Não dava mesmo pra acreditar. Eu não sabia o que dizer ou fazer. O Fredão dava murros na caixa d’água. A verdade é que não me arrebentei de rir só por respeito ao Fredão. Ó meu! Que coisa mais surreal!!  Não dava pra pensar em nada.

Ficamos ali, os dois bobocas encostados na caixa d’água olhando as telhas de vidro. A lua agigantava-se no céu azul esmaecido, ressaltada pelo brilho de tantas estrelas. Foi quando um riso alto e contagiante pode ser ouvido vindo da residência do numero 117 da Rua Chile. Parecia que finalmente a fantástica história daqueles simpáticos moradores estava tomando um rumo harmonioso. Pela varanda podiam ser vistas sombras que se formavam com o clarão da lua, sombras que caminhavam disformes. Brincavam, de tão felizes. 


Lembranças de criança - Fernando Braga


Lembranças de criança
Fernando Braga                                                                                                                     
O tempo passa rapidamente, ou melhor, não é o tempo que passa, somos nós que passamos e quando ficamos velhos, nos restam recordações. Muitas são tão marcantes, que nos parecem que se deram ontem e boa parte delas está relacionadas com a presença de nossos pais, que há dezenas de anos, se foram. Algumas delas estão bastante vívidas em meu subconsciente.

Meu pai, para mim era, realmente, um herói. Homem bom, ponderado, justo, admirado por todos. Mas, que não deixava de me castigar fisicamente, quando algum mau procedimento meu o afetava. Cascudos, tapas e principalmente sovas com cinta eram comuns, quando hoje, por lei, você não pode usar nenhum destes métodos educativos, mesmo sendo seus filhos. Mesmo tendo apanhado muito, o que guardo de meu pai é apenas sua ternura.

 Certa ocasião, no início da noite, estava ele sentado no alpendre quando houve um corte da energia, a luz se apagou, ouve um silêncio, minha mãe procurando velas, quando se ouve um grito forte da empregada na cozinha, onde deixou cair um copo cheio d água. No escuro, todos foram socorre-la.

— O que aconteceu, perguntaram?

— Foi o seu filho, que quando a luz se apagou, por trás levantou minha saia e abraçou as minhas pernas!

Eu devia ter uns 9 anos. Meu pai me chamou, pegou pelo braço e me levou para o quarto dizendo:

—Você vai apanhar seu safadinho.

Com força me jogou em cima de sua cama de casal e foi abrir o guarda-roupa procurando a cinta, que ficava pendurada. Com a força que me jogou, fui parar no chão, rolando ainda, debaixo de uma cama de solteiro ao lado. Pegou a cinta, dobrou-a e começou a palpar raivosamente em cima da cama, me procurando.

— Onde você está seu sem vergonha? - E não me achava. Nesta hora, respondi:
— Estou aqui no chão.

— Venha cá, imediatamente.

 Levantei-me e fui ao seu encontro, esperando o pior. Nesta hora, não sei o que se passou pela cabeça de meu pai, mas ele me agarrou e me largou dizendo: desta vez você escapou. Pode ir.


Mais tarde, percebi meu pai e minha mãe conversando baixo e dando risada. Percebi que falavam de mim.

CORAÇÃO DE PAI, NO SEU DIA - Oswaldo Romano



CORAÇÃO DE PAI,  NO SEU DIA
Oswaldo Romano                                                              

        Como numa mágica os preparativos para o dia dos pais vão se aflorando por todos os lares. Surgem os cochichos das meninas o que oferecer ao pai no seu dia.    Nasce uma ideia entre as maiores. Chiara a menor de apenas oito aninhos devia convencer o pai, leva-la para passear na cidade. A missão de Chiara era sentir os interesses do pai pelas coisas das vitrines e depois informar suas irmãs. Foi muito bem instruída.

        Na cidade, depois de visitarem algumas galerias, o pai sempre puxado por Chiara a seguia.

        —Filha, vamos para casa?

        — Tá bom pai, mas quero que o senhor veja só uma coisinha naquela loja. Venha pai... Venha.

Mostra-lhe uma boneca que rí, engatinha, e senta. Entrando na loja, a boneca também chora, repete perguntas, obedece  e faz xixi. Perguntado o preço, era equivalente a um bom terno para o pai.

        — Compra pai. Compra.

        — Filha, é muito cara!

        — Pai. A Nice, a Lu falou que o senhor nunca negou nada. Que é o melhor pai do mundo! Que vai ser o seu dia...

          O pai como tantos outros, ali admirando a filha, ouvira seus pedidos, e vai se desdobrar o quanto puder para realizar aquele sonho e deixar a filha  feliz. Parte daquilo que ele aspirava comprar para si, deixaria para depois. Agora estava comovido diante daquele rostinho radiante e de uma pureza angelical. Não resistiu, levantou-a num carinhoso abraço. Puxando-a junto ao ombro, embaralhou seu rosto naqueles cabelos sedosos, escondendo suas lágrimas de emoção. Criou mais um instante mágico na sua vida. Sentiu, era esse o momento de libertar com a sua simples atitude, seu até então duro, vacilante, e atribulado coração de pai, renovando assim os valores do próprio lar. Compraram a boneca.  E as irmãs vexadas procuravam entender.



A filha adotiva - Fernando Braga

 

A filha adotiva
Fernando Braga


Ano 1971, no dia 22 de outubro, sexta-feira ensolarada, radiante. Eu um médico dedicado à carreira universitária na própria faculdade em que me formei, doze anos atrás. Trabalhava no hospital da escola médica, em período integral. Casado há 7anos, já tinha meus quatro filhos, o ultimo nascido no final de outubro de 1970. No início da manhã deste dia, estava passando uma visita rotineira na enfermaria, junto com os residentes, onde vinte doentes estavam internados, quando de mim de aproximou uma atendente e interrompendo-me disse haver uma ligação para mim, por parte da madre Rosalice. Naquela época era comum, madres tomarem conta de hospitais, não somente na direção dos mesmos, como na pratica da enfermagem, na direção de setores como do RX, dos ambulatórios, do pronto-socorro, enfim, os cargos mais importantes, ao lado, evidentemente, de auxiliares leigos. As madres tinham nomes próprios, muitas eram estrangeiras, usavam uma veste toda branca, até os pés, uma touca cobrindo a cabeça, ficando apenas o rosto e as mãos à mostra. Esta vestimenta realçava o rosto, mostrando a beleza de algumas e a feiura de outras. Madre Rosalice estava entre elas, era muito meiga, fala mansa, muito simpática, delicada e principalmente dedicada aos muitos pacientes, que diariamente procuravam os ambulatórios do hospital. Realmente sua função principal era chefiar o ambulatório de nossa especialidade, fazer curativos e facilitar a atividade dos médicos, que junto trabalhavam.

Atendi ao telefonema da madre, que disse:

— Doutor, o senhor está muito ocupado?

— Estou sim madre, por quê?

— Porque tenho um assunto muito importante para tratar com o senhor. Estou aqui no ambulatório e preciso lhe mostrar algo.

— Muito bem madre. Vou terminar rapidamente a visita e desço para falar com você.

O ambulatório ficava no térreo, em outro prédio próximo, e lá cheguei indo diretamente à sala da madre, onde havia apenas uma mesa com duas cadeiras, e uma maca acolchoada coberta com lençol. Assim estavam compostas as quatro salas, onde eram atendidos os pacientes da neuro. Assim que entrei, ela se levantou, veio ao meu encontro e me mostrou sobre a maca, uma menina, com alguns dias de vida, enroladinha em um cobertor bem modesto. Olhei a carinha do bebe e perguntei:

— E daí madre?

— Doutor, esta é uma menininha com uma semana de vida. Sua mãe deu a luz neste hospital, chegou a amamentá-la alguns dias, mas ao tomar conhecimento de sua alta, para levar a criança, escreveu esta carta e fugiu.

Na carta e nela dizia claramente que, era do Paraná, e que não tinha a menor condição de lavar o bebe para casa, pois era solteira e extremamente pobre. Pedia encarecidamente, que tomassem conta da criança, oferecendo-a para alguém que tivesse melhores condições para criá-la. A madre então disse:

— Quando me entregaram a criança para resolver o caso, imediatamente pensei no senhor, a quem muito admiro, que conheço há vários anos, sei que é bem casado, que tem quatro filhos. O senhor não quer ficar com mais um filho? Um a mais, não vai fazer diferença. Veja bem, se o senhor não quiser, não haverá problema, pois acabou de passar por aqui o Dr.Morris, que se interessou pelo bebe. Ele tem apenas um filho e disse que poderia adota-la. Disse a ele que haveria esta possibilidade caso o sr. não se interessasse.

— Veja bem madre, não posso tomar um compromisso destes, sem uma aceitação de minha mulher!

— Como então quer fazer?

—Vou até minha casa e trazer minha esposa até aqui.

— Muito bem doutor, eu e a garotinha, ficaremos esperando aqui.

Saí do Hospital e fui pensativo para minha casa. Naquela época havia trânsito, mas não era muito, muito menos complicado do que hoje. Minha mulher estranhou muito ao me ver ali, naquele horário.

— O que aconteceu?

— Nada meu bem, mas apronte-se que vamos dar uma volta.

— O que é isso? Por que a pressa? E, aonde vamos?

— Vamos até o hospital, quero mostrar-lhe algo muito importante.

Muito curiosa e sem saber do que se tratava, trocou de roupas e saímos. No caminho, curiosa, várias vezes me perguntou o motivo de nossa ida. Eu apenas dizia a ela para aguardar um pouco mais.

Chegando ao hospital, fomos diretamente ao ambulatório e lá estava a madre nos aguardando:

— Esta é a madre Rosalice, e aqui na maca está uma linda criança, que a mãe abandonou. Quero saber se você gostaria de adota-la como nossa filha. Se você quiser, podemos leva-la para nossa casa imediatamente, não é madre?

— Claro doutor, se aceitarem a filha é de vocês!

Minha mulher foi ver melhor a criança, desenrolou-a de seu cobertor e viu-a mexer todo o corpinho. Achou o bebe muito bonitinho e disse:

— Eu aceito!  Quero esta criancinha! Percebemos que lagrimas rolavam dos olhos da madre.

— Então é de vocês, podem leva-la e toda a felicidade para vocês e para esta pobre criança, que agora vai ter pais para cria-la!

Fomos para casa muito emocionados, minha mulher com o bebê no colo.

Minha sogra, que morava conosco, viu minha mulher com a criança e perguntou:
— O que é isto?

— É sua nova netinha, uma nova filha que acabamos de adotar!

 — Meu Deus, eu não acredito!  Seu filho nem começou a andar e vocês adotaram esta criança?

— Sogra, venha ver, que linda ela é!

Minha sogra era a melhor pessoa do mundo. Havia ajudado integralmente na criação dos meus quatro filhos até então. Ela que dava banho nos quatro, preparava suas comidas, cuidava deles quando febris, enfim, nunca precisamos contratar uma babá. Na realidade, aceitou cuidar de mais um neto.

Achei estranho minha mulher ter aceitado a adoção sem titubear e tão rapidamente, mas logo veio uma resposta. Minha esposa disse:

— Meu bem, quando aceitei, pensei muito em minha irmã, casada há cinco anos e que não pode gerar filhos. Ela anda deprimida e não se conforma de termos quatro e ela não poder ter filhos. Você aceita, que ofereçamos esta criança para ela?

 Como não estávamos ainda sentimentalmente envolvidos com o bebe, permiti a ela que telefonasse para sua irmã, após ter conversado com sua mãe. Conversou longamente no telefone, depois me chamou e disse que a irmã, havia ficado extremamente nervosa com a proposta e após muitas explicações, recusou, dizendo não estar preparada para ser mãe, para aceitar tamanha incumbência, para tomar esta decisão e sabia que seu marido, na ocasião em fase econômica difícil, não iria concordar. Assim, em conclusão, ficaríamos com a criança, o que era totalmente de nosso agrado. Neste momento, disse a ela:

— E se falássemos com o Tarcísio e Lurdinha?  Estavam casados também há cinco anos e não tinham filhos. O casal era um dos nossos melhores amigos e os padrinhos de nosso filho mais novo. Ele também era médico, e bem de vida. Cerca de uma semana atrás, havia almoçado com ele, onde me confessou que, apesar dos vários exames, tratamentos médicos, sua mulher não conseguia engravidar. Chegou a lacrimejar ao relatar esta dificuldade e confessou que, não ter filhos se tornara uma enorme frustração para eles. Minha mulher concordou, achou uma boa ideia. À noite por volta das 19 horas fomos até o apartamento deles. Minha sogra havia dado em bom banho no bebe, passado talco bem cheiroso e colocado nela uma linda roupinha, na realidade, um presente que meu filho recebeu deste casal, quando ele nascera. Ao chegar, pedi a minha mulher que ficasse no carro com a criança esperando, pois no caso de não aceitação, nem iriam ver o bebe. Subi ao seu apartamento e a me ver ficaram muito surpresos:

— Realmente eu vim aqui para oferecer a vocês um bebe. Ele está lá embaixo no carro com minha mulher, aguardando uma resposta. Contei a eles tudo o que se passou com a madre Rosalice e afirmei a eles que, quando aceitamos a criança, tínhamos pensado neles. Caso não aceitassem, a criança seria, realmente, nossa filha.

Tarcísio, imediatamente desceu e logo voltou com minha esposa e o bebe no colo. O bebe foi colocado em uma cama, em um dos quartos, e ficou sendo analisado pelo casal. Percebi que eles gostaram da criança, estavam emocionados. Tarcísio olhou para sua mulher, ela fez um gesto afirmativo e ele disse:

— Nós aceitamos, com uma condição, que ela seja agora examinada por um pediatra, um berçarista. Concordei imediatamente. Telefonamos a um colega, muito amigo nosso, meu colega de turma, que se prontificou a vir imediatamente ao apartamento.

Examinou a criança nua, auscultou seu tórax, o coração e concluiu - a criança é perfeita, bem sadia, eu só não posso afirmar se sua cor é branca. Nesta idade, esta verificação é muito difícil, mas pelo que vejo, é branca.

O casal prontamente aceitou ficar com a criança, nos despedimos e voltamos para casa. Soube que naquele dia memorável, mudou a vida da criança e do casal. Eles iam viajar para uma estação de águas no dia seguinte, telefonaram para o hotel aonde iam se hospedar, suspendendo a reserva. Contrataram de imediato uma baba, levaram a criança a um familiar que era pediatra, organizaram a alimentação, e ela passou a ser tratada como uma verdadeira rainha. Foi feito o registro civil e deram o nome de Maria Cecilia, sendo batizada após três meses e nos escolheram como padrinhos. Tínhamos frequentemente, todos os detalhes da evolução da criança, relacionados. Como complementação, quero informar que o casal, após um ano, adotou uma nova criança, também do sexo feminino e um ano mais, Lurdinha engravidou naturalmente, dando à luz outra menina. Este fato é muito interessante e realmente conhecido, de um casal adotar uma criança por não conseguir ter filhos, e após a adoção, a mulher vir a engravidar.

 O tempo passou, seguimos todo o desenvolvimento da Cecilia, criança esperta, bem prendada, inteligente, que frequentou sempre as melhores escolas, clube onde praticava esportes. Na puberdade, com quinze anos, tornou-se uma mocinha linda, voz maviosa, com um sorriso aberto, amplo, exteriorizando grande felicidade.

Não posso me esquecer do dia em que fomos visita-los, que havia alugado uma casa no Guarujá, para passar as férias de julho. La estava Cecilia e suas duas irmãs, que fizeram para nós, uma pequena representação teatral. Parecia que se tornaria uma artista. Senti também que um de meus filhos, que estava conosco sentiu uma ¨quedinha¨ por Cecilia, que estava exuberante.

Certa ocasião, visitando o casal, perguntei a Lurdinha, se ela havia contado a Cecilia, que era filha adotiva Ela me respondeu:

— É evidente que eu contei e várias vezes, deste que ela começou a tomar conhecimento das coisas. Parei de falar quando ela, um dia me retrucou:
— Eu já sei mamãe, que vocês não são meus pais de sangue, mas de coração. Isto não me interessa, pois sempre fui e continuo sendo muito feliz. Vocês são meus pais queridos.

Ela nunca quis saber quem eram seus pais verdadeiros e também não sabe da participação que tivemos no caso. Nunca houve uma distinção entre as duas adotivas e a filha natural.

Aos dezoito anos, Cecilia, ainda sem saber o que gostaria de fazer, prestou vestibular em várias faculdades. Entrou em quatro delas, inclusive em direito, o que seu pai gostaria que fizesse, mas acabou gostando e optando por artes plásticas. Dedicou-se bem à sua profissão, fez mestrado, ao qual fui assistir na sua defesa de tese, fez doutorado e finalmente conseguiu, por concurso, um lugar de docente na USP.

Guardo bem na memória, a ocorrência de um fato, de extrema coincidência, bem significativa. Em 1992, ainda no curso de artes plásticas, Cecilia me telefonou dizendo:

— Tio, eu tenho que fazer um trabalho para a faculdade, que verse sobre um dia em um centro cirúrgico, assistindo a uma operação. Conversei com meu pai e ele me sugeriu que telefonasse para o senhor. Você tem alguma cirurgia para esta semana, que eu possa assistir? 

— É claro – respondi - você pode vir amanhã cedo às oito horas e vou deixar uma permissão em seu nome, para você poder entrar no centro cirúrgico.

Agora, um pequeno parêntesis.

Cerca de três dias antes, recebi um telefonema do diretor da faculdade que disse:
— Doutor, você se lembra de uma madre, que trabalhou no ambulatório de neurocirurgia há uns vinte anos? Seu nome era madre Rosalice. Ela largou as vestes de freira, casou-se e foi morar em Itanhaém. Seus familiares trouxeram-na ao hospital e vieram até a diretoria nos procurar, para que intercedêssemos por ela. Trouxe uns exames e pelo relato da tomografia, está com um tumor cerebral! Gostaria que você cuidasse do caso.

— É evidente - disse eu. Claro que me lembro dela, mas deste que as madres deixaram este hospital, nunca mais ouvi falar dela e das outras mais. Peça para trazê-la agora, ao meu escritório no sexto andar e pode deixar tudo por minha conta.

Recebi Rosalice com seu marido, examinei-a, revi os exames e pedi sua internação imediata. Ela estava confusa, com dificuldade na fala e os exames radiológicos mostravam a presença de um grande tumor cerebral, localizado no lobo temporal do lado esquerdo, o que explicava seu distúrbio na fala. , Ela estava, após vinte anos, com o aspecto bem envelhecido. Lembrou-se de mim, mas quando perguntei sobre certa adoção, que ela havia me proporcionado, perdeu-se muito. Dada à urgência, internei a paciente e marquei sua cirurgia para a próxima terça-feira.

Foi, exatamente na segunda feira, um dia antes, que Cecilia me telefonara, pedindo para assistir a uma cirurgia.

Na terça-feira, fomos para o centro cirúrgico e lá estava Rosalice sendo anestesiada e preparada para a cirurgia. Meu auxiliar era meu próprio filho, meu residente, que decidira, dentro da medicina, fazer a mesma especialidade. Logo chegou Cecilia, nervosa, por nunca ter entrado em um centro cirúrgico. Expliquei o caso, mostrando os exames e a presença do tumor, e ela fazia perguntas e anotações de tudo. A cirurgia decorreu normalmente, o crânio foi aberto, o tumor todo retirado e o fechamento foi feito pelo assistente. Após umas três horas, saí com Cecilia do centro cirúrgico, tomamos um café e nos despedimos. No mesmo dia, encontrei seu pai e contei a ele da presença de Cecilia, assistindo uma cirurgia craniana.

— Eu já sabia - disse ele - Ela me telefonou contando tudo.

— Mas, você ainda não sabe do maior detalhe. Nós operamos um tumor da madre Rosalice, que você deve se lembrar de quem é. Veja que enorme coincidência!
Tarcísio fez uma enorme cara de espanto e logo me disse:

— Pelo amor de Deus, guarde todo segredo a respeito disto!

— Pode ficar sossegado.

Dias após recebi um bilhete de Cecilia, agradecendo a manhã maravilhosa e muito proveitosa que havia tido conosco.

Infelizmente, o tumor retirado da madre era o mais maligno do cérebro e ela veio a falecer uns seis meses após, apesar do tratamento adicional. Esta mulher foi uma das maiores responsáveis por Cecilia ser, o que é hoje, uma mulher feliz, bem casada e mãe de duas meninas maravilhosas.


Cecilia nunca poderia imaginar que naquele dia, no centro cirúrgico, esteve tão perto daquela mulher, que realmente mudou sua vida!