Sangue e areia - Oswaldo Romano


SANGUE E AREIA
QUASE UMA FICÇÃO
OSWALDO ROMANO 
                                                                           
            Montando bonecos de neve, Manuel Vidrie, menino de onze anos, com eles brincava. Homem é homem, falava seu pai na língua da Catalunha, a Catalã, hoje moradores de Palma de Maiorca.

            Da neve fazia também uns pássaros, queria que voassem, apreciava suas obras, mas logo as destruía.  Sempre terminava fazendo bonecos de touros. Sua escultura destacava-se entre as dos companheiros. Aprimoradas e estilo agressivo, um desafio a sua vontade de toureá-las. Era o que aprontava enfiando a calça nas meias que iam até o joelho, um chapéu ajeitado e uma espada, nada mais que uma vareta.

            Acompanhando seu pai, era constante suas idas à arena, onde vibrava mesmo antes de começar o espetáculo. Sabia o nome e a destreza dos toureiros do dia. Qual fazenda havia preparado e fornecido os touros. Citava como os bons, os de Salamanca.

            Mencionava orgulhoso o criador Eduardo. Eduardo selecionava os animais e fornecia os bois considerados prontos para um melhor espetáculo. Homens à cavalo, treinados, irritavam o rebanho marcando os mais agressivos, as próximas vítimas.

            Menosprezando o toureiro infeliz, o povo o alcunha de frouxo, domador de vaca velha. Injustiça porque, controlado pelas autoridades, nenhum boi poderia ter mais que cinco anos.

            Manuel com 17 anos tinha frequência permanente no Curro, tanto sua esperança e fazia treinamentos as escondidas. Chamado pelos amigos que previam seu futuro de Don Manuel, enaltecia seus conhecimentos. Conseguiu aproximar-se de Don Leopoldo que o levou ao Eduardo, o consagrado Eduardo Miura. Miura o  treinou, levando-o a Praça dos Touros.

            O poderoso e agressivo touro Miura, consagrou seu nome forte tornando-se ícone da fabrica de carros Lamborghine. Em homenagem a esses animais, foi criado seu invejável  brasão. Achando uma descoberta, a Lamborghine deu aos seus carros o nome dos famosos touros: Urraco, Miura, Diablo, o Revertón, este o touro bravíssimo que matou o valente Felix Gusman. Revertón está entre os cinco carros, mais caros do mundo.

            Manuel, toureiro experiente, sabia quando o touro procedia de oportunas fazendas. Lá treinavam indevidamente os animais com o uso das capas. Prática não recomendável. Touro aprende, tem memória e de fato na arena, avança perigosamente sobre o toureiro, e não sobre a capa que já o enganou durante todo treinamento. São vermelhas, com oposto amarelo, não porque atacam essa cor, e sim para esconder o sangue. Os empregados das fazendas usam qualquer cor de roupa. Sabem que ataque a cor vermelha é lenda, há muito, é sabido que os touros são daltônicos.

            Aos acordes das trombetas, por muitos anos Don Manuel acompanhou a ovação do povo, que aguardava sua entrada na arena. Antes de entrar, ajoelha-se no altar, pede a proteção da  Santa Macarena, e com profundo sentimento implora que Nossa Senhora do Pilar lhe acompanhe. Nunca deixou de sentir o frio que antecipava o perigo. Entrava orando, recebia nova ovação, puxava o folego mostrava a espada descarregando o medo também sentido por heróis.

             Liderando o cortejo de apresentação davam a volta no grande picadeiro. Don Manuel perdia o olhar no além, imaginando lances para  os próximos momentos do espetáculo, arrancar olés.

            Regressa na arena quando a fera já sangrando por picadas de lanças, espetadas por coloridas banderillas, e com o clamor da plateia estava mais furiosa. Depois de deixar o animal zonzo, sangrando e cansado, Don Manuel dando as costas à fera, só ouve o urro da plateia, e sente o sopro ofegante da vítima riscando o chão. A fera esta exausta, mas não acabada.

            Seus Hermanos de jornada, Paco Bautista, Carlos Escobar - o Franscuelo, Don Leopoldo,  abrigados no curro, espécie de coxia, vibravam e já certos do sucesso, saíram, sacaram seus lenços brancos e antecipando pediam a orelha. Pois só faltava ele se virar e na nuca cravar a espada, acabando com o sofrimento do Néo, um touro valente.

            Mas como tudo que é perigoso tem um risco, nessa corrida Don Manuel Vidrie, no último momento é atingido pelos chifres do sofrido Néo. Néo filho do velho Miura, levanta o toureiro,  que é jogado pelos ares e despenca na areia dura da arena, sangrava pela boca. Seu desejo era ver a reação do seu povo, queria ver a multidão. Ela estava assombrada e de pé. Tentou, mas não conseguiu, sua cabeça caiu.

            Os médicos fizeram de tudo para reanima-lo. Esgotadas todas as tentativas, puseram-se de pé. Fizeram o sinal da cruz, deram-se as mãos. O povo entendeu, seu ídolo morreu.

            Surge no alto das arquibancadas dois pistões distantes entre eles, revezavam-se mandando profundas mensagens fúnebres de Chopin. O povo calado sentia entrar nas profundezas da alma, aquele arrepio conhecido e misterioso.

Os turistas que normalmente torcem pelo touro, iam saindo, pouco acreditando  no que viam. Olhos vermelhos, aturdidos, lágrimas, indecisos. Tarde, muito tarde para arrependimentos. Levariam para casa uma imagem inesperada, um marco inopinado que os fariam repensar. Repensar por ter assistido e participado da morte de um ser humano, quando procuravam as delicias do lazer. Viram por um instante o outro lado da vida, a morte imprevista para testar o nosso comportamento. Junto a alegria, ao canto, um triste desencanto.

A Incrível história de Peter do Pará - Vera Lambiasi

A Incrível história de Peter do Pará
Vera Lambiasi

Menino estudioso, astrofísico amador aos 15 anos.
Observava estrelas e sonhava com elas.
Participava de concursos científicos e papava todos.
Ganhava telescópios, livros e computadores.
Desenvolvia programas de construção de planisférios virtuais.
Um aplicativo para celular desenvolvido por Peter foi o grande vencedor do Prêmio Kepler de revelação astronômica.
Uma passagem aos Estados Unidos e boa quantia em dólares o levou ao Observatório de Monte Palomar.
Em apenas um ano já fez a América. Cursava Matemática na Universidade de San Diego e trabalhava como professor assistente.
No final da graduação conheceu Mary, colega que cursava química, e partiram juntos para o mestrado em física nuclear. O mundo acadêmico os encantava. O conhecimento era a meta compartilhada.
Casamento combinado, seus pais foram avisados a comparecer na capela da universidade.
Cerimônia simples seguida por almoço em Coronado, foram suficientes para o casal. Um amor sem fim como as estrelas os embevecia.
Com suas bolsas de estudos somadas, encararam a hipoteca de uma boa casa. Seus trabalhos científicos publicados, garantiam as férias nos lugares mais exóticos.
O mundo era vasto para Peter e Mary. A perseverança os levou ao sucesso profissional.

Até a chegada do primeiro filho ...
A alegria da gravidez transformou-se em desespero no dia do nascimento.
Peter e Mary não haviam estudado para ser pais.
Não sabiam controlar suas emoções e passavam o dia a observar a criança, como um objeto no microscópio, analisavam cada atitude do bebê. Deixaram de trabalhar, de estudar, e dedicavam-se noite e dia a alimentá-lo e limpá-lo. Todos os focos de suas vidas passaram para aquele ser recém-nascido.
Os estudos do casal passaram a ser o desenvolvimento do melhor método de conservação do leite em pó. Crescido o filho, inovaram os potes de sopas prontas, vendendo as patentes para grandes empresas de alimentos, vastamente encontradas nos supermercados. Com as experiências das fraldas sujas, inventaram um gel contido dentro delas que ameniza os odores e enxuga parte do xixi.
A criança cresceu muito bem cuidada e rendeu uma boa fortuna aos pais, que agora, trabalham em casa.
Inteligente ?
Sim ! O menino é bem esperto !
Ufa !


O crime compensa - José Vicente J Camargo


O Crime Compensa             
 José Vicente Jardim de Camargo

A noite já ia madrugada adentro quando um berreiro de palavrões e lamurias rompe o silêncio:

Cabra safado, vai ter o que merece! - diz um.

Vem desgraçado que te mando pro mesmo lugar! - replica o outro.
Parem com isso! Socorro! Ajudem! -  intervém voz feminina.

O tilintar das lâminas que se golpeiam sobrepõem-se aos gritos cada vez mais rancorosos:

Te mando pro inferno!

Vem, que um já foi, tu segues logo!

Parem! Separem!

No terreiro, dois cabras se atracam vibrando suas peixeiras com golpes violentos, que refletem ao luar o brilho das lâminas afiadas.

Com gestos rápidos, desviando-se dos golpes mortais, caminham  em direção ao barranco do rio que delimita o terreiro.

O mais forte avança contra o adversário e, no momento de desferir o golpe mortal, este, esquivando-se se desequilibra, tropeça e de um pulo, cai no rio.

 Afunda... Emerge mais adiante... Submerge novamente para não mais aparecer...

De águas revoltas, mais caudalosas que o normal, dado a estação chuvosa, o rio segue seu curso rumo ao mar distante.

Dos que miram do terreiro a cena, sabedores dos perigos das águas traiçoeiras naquele local de rodamoinhos, ouvem-se opiniões divididas:

Coitado do peão, não merecia! Parecia ser boa gente! Bem que avisei pra ele não se meter com esse cabra do Diabão, bom de faca e vingativo que nem cascavel!

Bem feito, cara de fora não mete o bedelho onde não é chamado! Diabão é cabra macho, não leva desaforo pra casa!

Valdinéia, com o soluço preso na garganta, balbucia:
Morreu por mim, lavando minha honra. Amor assim só o primeiro mesmo. Lhe disse que o capanga de Zé Bento, metido a valentão e grudado no dono que nem sarna de cachorro, não o deixaria sair vivo dessa. Mas não se conformou com meu destino. Nem me reconheceu, com esses ossos salientes que nem bezerra chupada por morcego. Aí seu ódio por Zé Bento aumentou. Disse que tinha de terminar o que viera fazer. Só a peixeira lhe acalmaria a raiva.

Da janela da hospedaria em frente ao terreiro, Jeremias, ainda atordoado pelo sono interrompido, olhos arregalados, tendo calafrios no corpo só em lembrar as cenas de vida e morte presenciadas a pouco, recorda do dia anterior quando estava a caminho da vila.

Vinha com sua tropa de mulas, trazendo mercadorias pro armazém do Zé Bento. Numa ribanceira emparelha com um andarilho de trouxa nas costas e peixeira na cintura que vai logo, como costume pra essas bandas, puxando conversa:

Venho de longe, do acampamento da represa do Rio Madeira, obra grande, trem de muito dinheiro já gasto e muito mais a se gastar, ônibus fretado pros peões em licença, mas só anda no asfalto, chão de terra é no pé dois mesmo.

Sem receber resposta, continua:

Vou indo pra Vila do Jupiá, visitar a Valdinéia com quem tive um caso ainda menina em flor, primeiro amor, mas depois que larguei a roça que só dava desgosto e fui pra obra, ela conheceu um mascate metido a besta. De mercadoria mesmo ele só se interessava pelas meninas virgens, que enganava com agrados que elas mais apreciam: água de cheiro, pó de arroz, esmalte e batom dos bem vermelho, cremes pra deixar cabelo liso e esconder manchas de sarampo e pragas. Quando a mãe tá distraída lavando roupa na beira do rio e o pai no duro da roça ou doidão na pinga, vai ele cobrar os regalos dados e promessas de muitos outros em troca de caricias e agarra-agarra no meio do milharal. Depois do trabalho feito, se perde no estradão pra não mais voltar. Vai a procura de nova clientela em outros rincões.

Motivado por ter um ouvinte atento, continua:

Quando o pai soube do infortúnio, amaldiçoou a filha e, pra não ter o assunto se alastrando de boca em boca e contaminar a filha mais nova, a enxotou de casa com ameaça de morte se retornasse. Quando recebi recado contando o sucedido, roguei praga e jurei que enfiaria a peixeira no bucho desse cabra safado. Mais tarde soube que Valdinéia, depois de passar de mão em mão e não ter mais onde cair, foi atrás do mascate que já tava de armazém e puteiro montado em Jataí e aí ficou. Mas sabe como é, primeiro amor nunca se esquece, arde no peito com a lembrança. Depois da folga volto pro acampamento, pra essas bandas não volto mais não, muita miséria, povo sofrido. Infância passada no cabo da enxada, nada de escola, brincadeiras. Lápis e caderno só conheci mesmo foi no canteiro de obra, curso obrigatório de ler e escrever, pra entender e assinar o contrato e o pagamento da semana. Minha vontade é ir pro sul, ganhar dinheiro, abrir negócio próprio.

Sem se darem conta do tempo passando, se aproximam ao anoitecer do armazém do Zé Bento, único no lugarejo isolado do vale do Jataí.

O tilintar das garrafas de pinga, batendo umas às outras no lombo das mulas, anuncia a chegada da tropa.

Zé Bento aguarda, bronqueado pela demora das mercadorias que trazem o lucro ao negócio: farinha, carne seca, sal, açúcar e lógico a pinga malvada de produção local e qualidade duvidosa.

Nem percebe o peão que, sorrateiro, vai em direção a luzinha vermelha nos fundos do armazém que denuncia a finalidade do ambiente.

Jeremias, depois das promessas de não mais atrasos, se dirige a hospedaria, louco por um prato de farinha com tacos de carne de bode, sua iguaria preferida.

O Peão procura, na tênue iluminação, por Valdinéia, sem êxito. Procurando a porta de saída, sente um aperto no braço. Virando-se encara uma mulher semidesfigurada, quase sem dentes, olheiras profundas que murmura no seu ouvido:

Tião, sou eu! Não me reconhece?

Sem acreditar no que vê, o peão estonteia, sente um tremor frio lhe percorrer o corpo.

Vamos pro quarto - diz Valdinéia arrastando-o.

Ao vê-lo pálido, ela lhe dá um copo de pinga lamentando:

O destino me reservou esta vida, não tenho mais vontade nem coragem de mudar. O que me consola é de ter conhecido o amor contigo.
Tião, sentindo o bem da pinga lhe recuperando as forças, responde:

Não te lastimes, tua vida sofrida será vingada. Com isso quero que te animes e procures reencontrar motivos de viver, talvez com tua irmã, que com certeza não te vai negar abrigo.

Com a mão firme na peixeira, rancor já estampado no rosto, faz menção de sair. Valdinéia o segura:

Não faz isso Tião. Zé Bento tem capanga experiente, de faca afiada que não desgruda de cima.

Mas eu tenho o ódio no peito que me duplica as forças. Depois padinho Cícero é protetor de quem defende as boas causas, cumpre seu dever -  diz Tião saindo rápido para não esfriar a raiva que sente.

Ao chegar ao bar da frente, se infiltra entre os tropeiros que chegaram para o pernoite. O tinir de copos e garrafas se mescla com o vozerio contando os acontecidos do dia: fraqueza dos animais sobrecarregados de peso; picadas de cobra, aranha e escorpiões amoitados na mata rasteira; temporais e ventanias repentinas. O falatório e a fila pro jogo de bilhar aumentam na mesma proporção do consumo de aguardente...
O ápice da noite se dá com o inicio do forró com as mulheres damas vindo da parte de trás do armazém.

E é neste instante que Tião, de corpo e mãos firmes, se encosta em Zé Bento:

Tu não me conheces, cabra da peste, mas ajo em nome de Valdinéia que tu desgraçaste - E lhe atravessa o ventre com a peixeira companheira.

Prontamente lhe pula encima Diabão, já empunhando o temível facão, afiado diariamente com lima fina e óleo de pequi.

É um corre-corre geral em direção ao terreiro em frente, dentre eles Valdinéia, que aos gritos pede auxilio para apartar a peleja mortal.

Dia seguinte, povo todo da vila se aglomera em frente ao armazém pro velório de Zé Bento. Diz que diz geral sobre o ocorrido na madrugada. Uns relatam o triste destino do peão desconhecido e sua valentia em enfrentar Diabão. Outros a macheza deste e o merecido do forasteiro.

Jeremias, já a caminho do próximo destino, devaneia... Surpreso ainda da atitude do andarilho que conhecera na véspera e das poderosas forças que residem no interior das pessoas e que se ocultam em aparências inocentes.

Súbito um barulho na mata lhe chama a atenção. Mão já desliza pro 38 que leva escondido na algibeira da sela. Sucuri ou onça pintada, pensa rápido, lembrando de histórias contadas.

Alto lá companheiro! - Grita o aparecido de braços estendidos e sorriso no rosto.

Você? Como pode? É assombração! - contesta Jeremias se benzendo de olhos assustados.
Que nada companheiro, estou vivinho da silva e feliz! De alma leve e livre de vinganças prometidas - responde Tião. Já se imaginando sentado numa das montarias sem carga e assim poder recuperar os esforços feitos na travessia do rio de correntezas muito mais bravas do que imaginava.

Minha vitória de estar aqui vivo, é o segredo que não contei pra ninguém. Na obra do Madeira fiz curso de mergulho pra inspeção da barragem submersa e desde então sou mergulhador profissional. Coisa que por aqui ninguém sabe o que é!


Namoro pela internet - Vera Lambiasi

Namoro pela internet
Vera Lambiasi

A conversa rolava solta entre dois avatares na sala de bate-papos.
Intimidade confirmada, partiram ambos para o pequeno quarto cybernético.
Lá, de câmeras abertas às carícias, o ambiente começou a vaporizar.
De longos interlúdios culturais, a relação evoluiu aos sussurros erotizados.
Mostravam seus corpos, antes mesmo dos rostos.
Era grande o excitamento com as visões das partes mais íntimas.
Uma pintinha aqui, outra verruguinha ali, e o mistério ia acabando inexoravelmente.
Quase se reconheciam ...
Quase ?
Mas eu conheço este mamilo !
E eu esta cicatriz !
Tati ?
Zé ?
Quer namorar comigo ?
Aguardo este pedido desde a noite de formatura !


JULIET - Maria Luiza de Camargo Malina

JULIET
Maria Luiza de Camargo Malina

A mão estendida com unhas pintadas em vermelho, não identifica seu rosto por quem à procura. Apenas está junto ao som da voz longínqua, que se mistura a confusão das imagens entrelaçadas com gravata. Os olhos giram sem controle, estonteando o mundo, sem forças para desatar o primeiro nó.

Juliet, acostumada aos tropeços entremeados do calor de sorrisos artificialmente treinados, durante os anos, desta vez tropeça no degrau que mudaria para sempre sua vida.

Na Mansão Aghá cala-se. Absorve a figura de marionete, deixando sua estória, num cabide qualquer no armário do tempo, sem o preocupar dos ponteiros.

Ponteiros parados, sem números. Impossível falar-se do sombrio da alma sem tocar-se no porão, sótão ou no baú. Palavras tão comuns que se transformam em profundo silêncio, onde o melhor seria queimar a bruxa na fogueira. Temos os nossos porões!

Na Mansão Aghá tropeça. Consegue encontrar uma resposta para cada problema. Torna-se parte das respostas. Descobre o prazer pelos simples afazeres.

Juliet, desperta o amor ao próximo, o respeito pela dignidade do viver de cada ser humano.

Da vida de solavancos de idas e vindas das aeronaves, das “necessaires” cheias de encomendas, do solícito sorrir de aeromoça, muda tudo. Torna-se voluntária com imprescindível discrição, característica tão sua, ao recordar-se das palavras de um filósofo Irlandês: “Para que o mal triunfe, basta os bons não fazerem nada”.

Juliet, com sua vida atarefada, enxerga a brecha da doação. Muitas vezes, as lágrimas do despertar da humildade, escorrem silenciosas dentro de si, por solucionar contra tempos que, para si não passariam de uma pequena necessidade, mas para os atendidos torna-se urgente. Com determinação e coragem os impulsiona ao caminho da esperança.

A vaidade fica marcada pelas unhas vermelhas e o mescla de uma gravata.


Uma mentira rentável ! - Oswaldo Romano


UMA RENTÁVEL MENTIRA
Oswaldo Romano                            

         A vida no comércio nos revela fatos que antes de tudo é um aprendizado, e por que não, a comercialização nos diverte.

         Um conhecido pintor da Vila dos Remédios, estatura baixa, bem nutrido, era tido como um eficiente profissional. Apresentava um serviço limpo, bem feito e fazia questão de fornecer o material. Justificava essa exigência alegando comprar o melhor, e não se deixava enganar por vendedor que gosta de empurrar certos produtos. Sabia que nestes casos, o balconista pouco estava ligando pela qualidade, e sim de olho na propina oferecida pelo fabricante.

         Tinha razão e defendia-se da dificuldade de pintar com tintas de segunda linha. Além de dar um preço menor do que outros profissionais, fazia questão de esclarecer a marca do material que iria aplicar. Realmente convencia os proprietários.     Sua especialização era reformas em residências. Cumpria o que prometia recebendo elogios e recomendações.

         Como dono da loja, rapidamente tomei conhecimento das suas virtudes. Vendíamos muita, muita tinta, e ele um bom comprador. Tínhamos enormes pilhas de latas pelo centro dessa loja. Essa grande demonstração de materiais induzia os fregueses a comprar mais, aproveitando ofertas, diariamente anunciadas, que muitos compravam para serem usadas algum dia.

         Maicon, o pintor, com seu trabalho elogiado nos convencia qual o procedimento de um profissional disputado. Não bebia coisa quase impossível nos que trabalhavam com solventes, rás, pigmentos. Também não fumava. Seu trabalho era limpo.

         Suas qualidades e seu serviço elogiado, elogiado e disputado, era sempre o primeiro à ser recomendado quando procuravam. Eu mesmo cheguei a contratá-lo. O admirava,  porém todas as ocorrências que a direção via como “pra lá de Bagdá”, acompanhava, junto aos elogios uma reserva oculta de cuidados. Quando a mosca pica o comerciante, instala primeiro a desconfiança.

         Se todo milagre fosse verdadeiro, todos se instalariam  dentro das igrejas. Resolvemos coloca-lo no rol dos observados, junto com outros já marcados. Disfarçadamente foi distanciado de observações pelos nossos “olheiros” deixando-o mais solto nas suas visitas que eram praticamente diárias. Gozava de muita liberdade, dava orientações sobre pinturas aos atendentes à fregueses, discorria sobre vantagens. O gordinho ganhava até admiração às suas qualidades, levando-o a um caminhar pomposo, o chamado nariz levantado.

         Numa loja, a administração conversa com o freguês sorrindo, mas com os olhos varrendo todo ambiente. O subnutrido sabia disso, mas era experto.

         Corria o ano de 70 época que se ouvia falar da existência lá fora, das maravilhas oferecidas pela nova informática, mas entre nós era um mercado reservado, um crime ao desenvolvimento, proibido pelo governo ditatorial comandado pelos generais, criadores das Cape e Sei. Virávamos com o que tínhamos há séculos para controle de estoque.
         Você sabe o que é Kardex? Pois é, era o que havia de mais moderno para controle do estoque, nada mais que as velhas fichas. Dado ao seu moroso sistema,  só era usado para os produtos relevantes, os chamados caros, de vitrine.

         Mas o rato um dia cai na ratoeira porque desconhece quando está preparada.  Estava difícil desvendar o segredo do gordinho.  Mas que tinha, tinha, e a vigilância para descobrir já estava acionada.

         Ele era um inteligente mentiroso. Veja o que descobrimos da sua expertise. 
         Entrava na loja, caminhava entre as latas de tintas, parava, lia seus rótulos, escolhia dois galões e apresentava no balcão para o faturamento. A nota manual era emitida pelo vendedor, pagava-se no caixa, voltava no balcão, apanhava os dois galões e seguia pro seu serviço.

         Na hora do almoço, ou no dia seguinte, o que melhor lhe interessava, voltava na loja só com a nota fiscal, percorria entre as tintas, apanhava um galão,  dava um passeio entre elas, dirigia-se em um dos balcões e pedia que essa tinta fosse trocada por uma cor mais clara ou mais escura. Apresentando a nota de compra, prontamente era atendido pelo funcionário que autorizava trocar, e carimbava na nota “troca de mercadoria”.

                   E lá saia o gordinho apresentando o documento, com seu sorriso maroto, comum nos de sua dimensão. Fato que originou mudança do sistema. O nome Maicon, ficou sinônimo usado para qualquer um que por aparência ou conduta se diferenciasse.

         Quando o balconista sentia, ou conhecia um freguês figurinha, chamava um outro vendedor, alegando estar ocupado. Exemplo, chamava assim:

         — Cezar, por favor, você atende aqui o senhor Maicon?

         — Caso fosse contestado. — Não, não me chamo Maicon.
         — Confundi, desculpe.

A rede de lojas expandiu-se, chegando a ter mais de 1200 funcionários, arregimentados e transportados, principalmente da Vila e Vilas arredores, instruídos pelos mais experientes. O enigmático Maicon, que poderia ser José, Oswaldo ou Pafúncio,  tornou-se voz das ruas, conhecido e usado nos bares, vendas e praças. Tido ainda como modo singular de uma apresentação. Numa conversa entre amigos, chamando-o de Maicon..., Maicon..., servia também como sugerindo um muito esperto.

        

         

PETER, O JORNALISTA - Maria Luiza de Camargo Malina


PETER, O JORNALISTA    
Maria Luiza de Camargo Malina

Vencido pelo cansaço, da fria espionagem na madrugada afora, Peter recosta a cabeça na umedecida pilastra negra, num cochilar momentâneo. Assusta-se. Quase perde o flagrante. Recompõe-se.

 Com o zoom da poderosa Nikon, desacredita no que vê.   A Sra. Natasha! Sai de um carro e encontra-se com um transeunte casual. Um papel lhe é entregue no momento do cumprimento. Desencontram-se mais rápido do que um relâmpago. Na ampliação da foto, Peter reconhece o famoso espião a serviço, recentemente condecorado pela mesma. Inquieto pelo fato, ele solicita o afastamento temporário a fim de segui-lo noite e dia, num cansaço sem tréguas.

A única testemunha. Um hotel de luxo, uma bela “limousine.” Lá está ele novamente. Conversando com o motorista, rodeando o carro, como a admirá-lo.  O motorista,  aceita um chocolate, desembrulhando-o distraidamente. Afasta-se ao atender o rádio comando.  O Indivíduo abaixa-se e coloca alguma coisa embaixo do carro. Desaparece.

Peter descobre, através de seu celular, que a placa do carro é incomum, deveria estar a serviço de alguma autoridade. Tudo passa muito rápido. As portas do carro estão abertas. O casal sai sorridente pela porta giratória. Peter os reconhece. Fotografa. Entram no carro. Peter não sabe o que fazer. O motorista acelera. Peter recolhe o papel, descuidadamente, jogado ao chão.


A Princesa está morta. Peter fotografa.

Adoráveis crianças do AP - Oswaldo Romano

             

ADORÁVEIS CRIANÇAS DO AP

                    UMA HOMENAGEM AS CRIANÇAS SOB O OLHAR DA  TERCEIRA IDADE

Oswaldo Romano

FILHOS...
         Noite e dia essas crianças são nossa vida o nosso orgulho. Aos domingos, aumenta a nossa alegria, vivemos um novo dia, no nosso clube, a nossa união.

         O sol nasceu para todos,  mas só é visto de verdade quando acordamos e somos cobrados pelas nossas crianças para o prometido passeio. Nesses dias, ele tem mais brilho. Faz renascer todas suas dúvidas, e nós temos mais tempo de respondê-las. São seus eternos porquês.

         Maravilhosa inocência. Vocês são nossos inseparáveis companheiros, voluntários confiados pela mãe natureza.

         A passada semana de trabalho é recompensada.  Acredite, ela sustenta um viver voltado com prioridade para vocês...

Crianças, mas... Estão crescendo, crescem suas asas.

         Faz-nos esquecer de que nós também acompanhamos, seguimos o mesmo caminho, vencendo obstáculos, envelhecemos.

         Vocês vão percorrer seus destinos; casamentos, filhos, novas aventuras. Fica em nosso lar, a dor da separação. Mesmo assim comemoramos muito felizes, dias, meses, anos...

          Lá na frente caímos na realidade, ficamos nostálgicos, percebemos estar sós. Sós como quando começamos a vida a dois. Foram-se os prazeres da nossa mocidade, ficou distante aquele furor que tínhamos para adivinhar o futuro.

          “Deus não nos prometeu dias sem dor, risos sem sofrimento, sol sem chuva, ou as noites só estreladas, cheias dos anjinhos...”. Na casa vazia escondemos a tristeza, nos consolamos, seguramos a emoção.

         Mas um dia, anunciam a chegada de filhos. Vocês o terão, chegam os netos, e novamente  renasce nosso sorriso, nossa alegria.

         É quando notamos nossa pele marcada pelas rugas que revestem as velhas mãos que um dia os carregou. Apalpando o peito, sentimos o bater de um velho coração. Velho, mas palpitando, feliz. Torcemos muito por vocês, contamos grandezas, até excedemos. Torcemos pelo impossível: Parar o tempo e vê-los seguindo pelo círculo da vida.
Somos

        Seus Avós.


Mentira traiçoeira - José Vicente Jardim de Camargo

 
Mentira Traiçoeira   
José Vicente Jardim de Camargo   


Era um domingo de Sol, céu límpido, sem qualquer vestígio de nuvem, ideal para renovar o bronzeado que já estava precisando após dias de frio e chuva.

Bem dormido e disposto, Rogério só pensava em ir logo à praia,    bater uma bola com o pessoal da rua 6 e, nos intervalos, dar umas surfadas se as ondas estivessem boas e a orla não muito cheia, o que duvidava.

Munido dos apetrechos essenciais, o menos possível, para não esconder o visual sarado que lhe custou tantos sacrifícios de dietas e academias, Rogério caminha pelo calçadão mirando disfarçadamente, com o canto dos olhos, o pessoal estendido na areia a procura de Verinha com quem está a fim de iniciar um novo caso, depois do fora que levou na última paquera.

Com Verinha vai ser diferente. Uma relação daquelas do tipo “deixa rolar para ver o que dá”, na sua opinião, a melhor de todas para sua idade e situação financeira.

Súbito vê Mauricio vindo em sua direção, gesticulando como a dizer  – “saco! Por onde você anda!”:

—  Cara, já te liguei varias vezes, sempre caixa postal. Tu precisa me dar uma mão. A Lucia insiste em saber por que eu não apareço mais no bar do Mané às sextas-feiras. Já falei pra ela que estou fazendo o curso de autoajuda promovido pelo Centro Acadêmico, mas ela não acredita, acha que um cara como eu jamais faria tal coisa, não combina! Só tu sabe o motivo de eu estar fazendo esse sacrifício, enfrentando esse besteirol todo, sem pé nem cabeça!

 É, mas você não me disse ainda o nome dela -  completa Rogério curioso.

 Vou te contar só depois que tiver a pombinha na mão, entregar o santo antes dá azar! - continua Mauricio apressado em ter o ok do amigo e continua:

—  A Lucia está com o pessoal na rua 6, digas a ela que nos dois  fazemos o curso, que está muito interessante, levanta o astral, melhora a performance, invente um blablá, qualquer. Você sabe que é da Lucia que eu gosto, assunto sério, planos de morarmos juntos assim que o negocio dela melhorar. A outra é passa tempo, pura vaidade, não podia deixar passar um mulherão desses sem tentar beliscar, coisa fina... Depois a vontade acalma, o orgulho satisfaz e vira passado...

Rogério, a contra gosto concorda, querendo logo terminar a conversa para curtir a praia e talvez um dia pedir uma retribuição pelo favor prestado.

Suado, cansado do jogo de vôlei bem disputado e pensando em pegar umas ondas mais tarde, procura Lucia na turma e senta ao seu lado puxando logo a conversa combinada:

 Outra coisa olhar a vida satisfeito consigo mesmo, até o jogo rola melhor. Ótima ideia teve o Mauricio de fazermos esse curso do Centro Acadêmico. Me deixa muito Zen. Único senão é ser as sextas a noite, termina tarde, com jogo no sábado cedo, não dá para esticar pra balada, vou direto pra cama.

Lucia o mira com um olhar de surpresa:

— Não sabia que você também participa, Mauricio não me disse  nada. Fico aliviada em saber. Você me tira um peso da consciência. Já pensava em ir ao curso para ver se é verdade. Faria papel de boba e Mauricio poderia até terminar comigo, ele detesta cenas de ciúmes.

 — Mas me diga, do que você mais gosta do curso, quero fazer no próximo ano!
Rogério levanta rápido dizendo:

— Desculpe, estão me chamando para o jogo, depois falamos...

No troca de bolas, Rogério toma a decisão de ir ao curso a procura de alguma apostila sobre o conteúdo do mesmo, caso Lucia insista com a mesma pergunta.

 — Sala 4 do pátio! -  diz o funcionário ao ser perguntado do local do curso de auto-ajuda.

No meio de um burburinho de vozes, risadas, empurra-empurra, ambiente típico de recreio, Rogério procura a sala informada para encontrar Mauricio, lhe contar o sucesso do acordo e a necessidade da apostila.

Súbito estanca, pálido vê encostada ao lado do quiosque, cabeça reclinada sobre os ombros do companheiro, entrelaçados, numa troca de caricias:

Verinha!

A garota que ele está a fim, que há tempos vem tentando paquerar, com desejos e paixões crescendo no peito cada vez que a vê ou imagina a cena dos dois juntos, enamorados...

Balbucia um palavrão! Seu pensamento está confuso, não consegue pensar direito e a ficha cai de vez ao reconhecer, ao lado dela Mauricio...


ACAMPAMENTO DE UM POVO NÔMADE QUALQUER - Maria Luiza de Camargo Malina

 

ACAMPAMENTO DE UM POVO NÔMADE QUALQUER                                                                             
Maria Luiza de Camargo Malina


Um pequeno povoado do leste europeu, fazendo fronteira com a Polônia, é o lugar escolhido para uma das paradas de um grupo nômade. A pequena vila que  se perdia, entre distantes fazendas, em imensos campos cobertos pela neve.

Sabia-se que os que lá estavam acampados viviam de trocas de mercadorias, vendas de artesanato, metais. As mulheres, de longas e coloridas saias envoltas em seus xales, previam o futuro pela leitura das calejadas mãos dos habitantes locais, cuja lavoura principal é a batata. Outras preparavam bebidas quentes e deliciosos guisados, como famoso “goulash” em imensos caldeirões pendurados sobre a fogueira. Os violinistas alegravam os curiosos bem atentos que lá chegavam. Eram dias típicos, que animavam os moradores a saírem de suas casas.

Durante a feira, em que tudo se vendia e tudo se comprava, um fazendeiro chega com quatro cavalos fortes que chamam a atenção dos nômades. Já estavam necessitando de cavalos, pois com o frio excessivo alguns já haviam morrido. De imediato, fazem a negociação, pois teriam que desmontar o acampamento no dia seguinte. Venda realizada.

Durante a noite, ouvem-se seguidos gritos de socorro. Todos se entreolham. Ninguém abre a porta. Estanislav e Mili, que dormiam no sótão, espiavam entre as frestas da janela e percebem no contraste da neve, os Nômades encobertos pelos mantos negros, deixando as marcas das pisadas afundadas na neve, de um lado para o outro. Um deles estava próximo à porta. E os gritos continuavam, como que a se distanciar. Todos ficaram em absoluto silêncio.

Foi uma noite de terror. No dia seguinte, Eva pergunta ao seu marido o que ele havia vendido para os Nômades, pois sabia que aproveitava alguma oportunidade para desfazer-se do que não precisava mais.

- Vendi os cavalos para os nômades.

- Como! Os cavalos estavam velhos, desdentado, quase nem paravam em pé. O que você fez? Pergunta Eva, colocando as mãos na cabeça apavorada.

- Bom, eles é que quiseram comprar. Eu estava lá. O que eu fiz?  Ora Eva! Na cocheira antes de sair, enfiei um copo de aguardente na goela deles para ficaram bem espertos, pareciam cavalos novos. Até eu fiquei impressionado! Gostaram e compraram, aliás, já devem estar a caminho de outra fronteira.

 Eva, balançava a cabeça dizendo:

— Não, não, desta vez foi você quem tapeou os Nômades. Precisamos tomar cuidado.


- Quer saber de uma coisa? diz Estalislav -  O guisado cheirava a muito bom, não comi é claro. Mas, fiquei pensando de onde teria vindo a carne!

A Vingança do Feitiço - José Vicente Jardim de Camargo

 

A Vingança do Feitiço
José Vicente Jardim de Camargo


No apartamento aconchegante aquecido pelo fogo da lareira, Joan, estendida sobre o tapete de lã, escutava o vento forte batendo nas janelas da sala. Nas mãos, as folhas manuscritas de sua tese de doutorado sobre a influência da telepatia na mente humana.

Desde criança sentia o dom de prever coisas que aconteceriam logo ou dias depois através da concentração da mente.

Recorda-se da primeira vez que fez este exercício. Foi exatamente como na história infantil que sua professora contou à classe e que a deixou fascinada. Olhando fixamente para seus pais, pedia a eles o que queria receber de presente no Natal e qual não foi sua alegria ao receber tal presente.

Com o decorrer dos anos foi crescendo suas tentativas e sucessos : pensava numa pessoa e esta lhe telefonava ou a encontrava de pronto; as matérias dos exames da escola eram as que tinha sonhado dias antes ou desejado.

Para completar sua tese faltava o material que procuraria obter na visita que faria ao vidente Ghotoz  que vive numa aldeia da Namíbia e famoso no meio acadêmico por sua extraordinária força telepática e por suas visões e adivinhações do futuro.  

Também estava a fim de saber algo mais sobre o desaparecimento da jornalista do Herald Tribune dias após ter feito uma entrevista com ele há 2 anos. Tanto ela, como o material da entrevista, nunca foram encontrados.

Súbito algo a faz desviar seu olhar para a coleção de estatuetas africanas que Fred vinha colecionando desde quando começaram a fazer as viagens à Namíbia. Conhecera Fred quando ele estudava História da Arte Africana e ela psicologia na Universidade de Cambridge. Foi amor a primeira vista. Casaram-se em seguida. Fred especializara-se na nos mitos, crenças e arte dos povos Kua-Kua que habitam há séculos grande parte do território que hoje é a Namíbia. Sua tese de doutorado rendeu-lhe o cargo de professor assistente na universidade.

Desde então visitam a Namíbia anualmente atrás de documentos e fotos que enriqueçam as aulas de Fred.

Da coleção de estatuetas africanas, uma sempre lhe chamou mais a atenção pelos seus traços fortes, marcantes, bem torneados, mas ao mesmo tempo de uma graça e leveza que lembra as estátuas femininas gregas. Fred, após pesquisa nas aldeias da Namíbia, de onde teria originado a figura, concluiu que seria a deusa da justiça dado segurar em uma das mãos um facão e na outra um rolo de pergaminho, simbolizando o castigo e a prova do crime cometido.

Seu pensamento é interrompido com o abrir da porta de entrada e a voz de Fred informando que os preparativos para a viagem estavam confirmados: itinerários, passagens, hotéis...

Joan, ansiosa, pergunta se a estadia em Cape Cross Seal Reserve também estava confirmada. Daí partiriam até a aldeia onde vivia Ghotoz, meio perdida no vale do Rio Ugab.

— Bem, responde Fred, até a pousada em Cape Cross, tudo ok. Daí pra frente entra o trecho desconhecido que nunca fizemos. Será uma aventura no escuro...

Joan, sempre que recebe respostas indefinidas como esta, aperta com força o amuleto de osso de leão ornado com sementes raras que ganhou de um curandeiro de uma das aldeias Kua-Kua e que traz desde então pendurado ao pescoço.

— Sempre que sentires uma força negativa, aperte-o com força e invoque a proteção de Watan, deus do bem - disse ele.

Joan, que já tinha comprovado a força do amuleto junto com seus dons telepáticos, sentia no seu íntimo que a visita a Ghotoz seria realizada sem empecilhos...

Já fazia 20 dias que haviam partido da Cidade do Cabo, como sempre ponto de partida para a temporada na Namíbia.

Depois de passarem pelos locais turísticos que não deixavam de visitá-los, dado as suas belezas naturais, aventuras de alta adrenalina e da comida bem temperada, farta e barata, Joan e Fred sonolentos, miravam o passar da paisagem típica da região pela janela do Shongololo Express Namíbia em direção a Cape Cross Seal Reserve.

Passaram a fronteira da África do Sul com Namíbia há 2 horas e, se a avaliação do Fred estava correta, em mais 1 hora chegariam a  cidade mais perto de Cape Cross. Daí, seguiriam em jeep alugado até a reserva e nesta ao “Lodge Cape Cross”, única pousada permitida para turistas no parque.

— Isto, se a locomotiva a vapor inglesa remanescente do período colonial, e a reserva que fiz, não derem problemas - completa Fred, demonstrando ares de dúvida.

Joan, apertando seu amuleto com força, replica:

—  Não creio, tudo vai dar certo...

Cape Cross Seal Reserve é uma reserva parque na costa do Atlântico, descoberta em 1486 pelo navegador português Diogo Cão que lá fincou uma cruz demarcando a descoberta. É uma das maiores reservas mundiais de focas e lobos-marinhos, orcas, baleias, aves e peixes de varias espécies. Verdadeiro santuário para naturalistas e biólogos.

Os nativos desta região vivem em varias aldeias espalhadas desde a costa rochosa até o vale do Rio Ugab. Alimentam-se basicamente da pesca e da caça e são adeptos fervorosos de rituais que evocam as magias negras comandadas pelos feiticeiros, entre eles, Ghotoz, reconhecido como o mais poderoso dado a sua força de adivinhar pensamentos e de prever o futuro e do poder de seu feitiço.

Sem problemas, Fred e Joan estavam acomodados em seu apartamento no “Cape Cross Lodge” saboreando um refresco de frutas diante da vista deslumbrante dos rochedos cobertos de focas e aves marinhas e batidos pelas ondas encrespadas do mar revolto. No ar o cheiro da maresia misturado com o odor acentuado de restos mortais desses animais devorados pelos seus predadores e de seus excrementos.

— Amanhã, a estas horas, já estaremos de volta da visita a Ghotoz” - disse Joan enquanto Fred fotografa a paisagem.

—  E espero com o material necessário para completar sua tese e noticias do paradeiro da jornalista do Herald - responde Fred ajustando o zoom da sua Nikon.
Joan olhando o horizonte, vê em sua mente um quadro confuso de imagens e sombras. Não conseguindo interpretar o significado, aperta com força seu amuleto de ossos e invoca Watan para que a acompanhe amanhã na visita a Ghotoz.

Em sua cabana, mais espaçosa que as demais, em posição de ioga, na penumbra, no meio da neblina proveniente de incensos aromáticos, rodeado de cuias e sacos com sementes, pós de diversas cores, crânios e penas de animais e aves, Ghotoz medita.

De repente balbucia:

— Se despertares a ira dos meus espíritos, terás o mesmo fim que a outra! -  e, se estremecendo todo, lembra da tentação ardente que lhe tomou o corpo ao ver e falar com a estrangeira que o visitara tempos atrás e que quanto mais dele perguntava, mais seu desejo crescia. Ao despedir-se dele e contar que iria encontrar o noivo nos rochedos da praia, o espírito da luxuria o penetrou e seguiu-se o ritual do sacrifício entre gritos, chamas, fumaças e raios. Da cabana um clarão eleva-se ao céu.

No mesmo instante, do Rochedo da Cruz, um corpo de homem despenca ao mar...
Do lado de fora, passadas e murmúrios quebram o silêncio.

— Entre a moça loira de mochila, homem alto ruivo com câmara não! -  comanda a voz de dentro.

Joan, com passos vacilantes aproxima-se, já se dando conta do poder de adivinhação do visitado, uma vez que ele, não os conhecendo e de olhos fechados, não poderia saber de detalhes pessoais de ambos nem o que traziam consigo.

— Tudo que queres saber de mim, já o disse a outra! - escuta Joan e, ao tentar argumentar que desconhecia o paradeiro da outra, os olhos de Ghotoz se abrem e miram, com um brilho penetrante como um raio, seu amuleto de ossos que no mesmo instante arde como brasa. Um solavanco a derruba ao solo. Quer gritar por Fred, mas tem sua voz tapada por algo invisível.

Nisto, uma luz brilhante surge no teto da choupana e uma figura de mulher de semblante raivoso envolta em neblina e com um facão nas mãos, desce rapidamente e com violência esfaqueia Ghotoz que, com fisionomia de pânico, gestos de terror e uivos, cai sem vida ao chão. A figura, agora com semblante gracioso, mira Joan e desaparece...

Esta, recuperada das forças, corre para fora a procura de Fred e o encontrando, abraça-o e com um olhar de satisfação murmura:

— Tenho tudo que precisava. Voltemos para casa.

Ao entrarem no hall do prédio, vindos do aeroporto, o porteiro dando-lhes as boas vindas, informa:

— Ontem, uma jovem deixou comigo esta pasta para entregar a miss Joan quando voltasse de viagem. Disse que são documentos importantes.

Joan agradeceu e como já desconfiando do que se tratava, subiu no  elevador ansiosa para confirmar sua suspeita.

No beiral da porta, Fred assustado grita:

— Alguém entrou em casa, pois a minha estatueta da Deusa da Vingança desapareceu!”.