DE PARAQUEDAS NÃO TEM ERRO - Oswaldo U. Lopes


DE PARAQUEDAS NÃO TEM ERRO
Oswaldo U. Lopes

        Pois é D. Maria Amélia, é hoje. Vamos dar um lindo passeio a Boituva e... Saltar de paraquedas. Não arregale os olhos, gente mais velha do que nós já saltou. De fato a gente não salta,  é empurrado. Não, “Deus me livre” desta vez não vai salvá-la.

A sensação é incrível. Coragem, a gente só precisa para entrar no avião. De fato quem faz o salto é o instrutor, o estreante vai na frente dele numa espécie de traje duplo que está umbilicalmente preso no dele. É ele quem abre o paraquedas e controla a descida.

Essa história de saltar de fralda é pura intriga dos covardes de plantão. Como eu expliquei precisa de coragem só para entrar no avião porque como a gente está na frente, se não entrarmos primeiro o instrutor não entra. É verdade, como o avião espera de motor ligado tem um ventinho vindo lá da frente que é brabo, mas os cabelos não esvoaçam porque estão presos no capacete que também impede de ouvir o ruído muito alto. Tem óculos especiais,  então o ventinho não pega ai também.

Na hora de saltar o instrutor coloca a gente na porta e quando o piloto acende a luz verde avisando que atingimos a altura ideal, ele dá um leve empurrãozinho e, per la Madona... Queda livre. É o momento do êxtase. Cruz Credo... Como eu faço para escapar desta. Saída só para baixo, o avião refúgio tão seguro (dá para acreditar) já vai longe, em atitude e altitude e,  é melhor não olhar muito para baixo, pelo menos é o que recomendam. Olhai os lírios do campo, o horizonte tão distante e parecendo pequeno, as pequenas nuvens que parecem criancinhas brincando neste céu de brigadeiro. Os covardes dizem que se olhar muito para baixo além de ter uma aula rápida e prática de campo gravitacional (9,8m/s2 ou 35,28km/h há cada sec.), vai sentir falta da fralda que deixou no vestiário. Em quatro segundos a velocidade pode passar de 100 km/hora e lá não tem acostamento. Se a gente olha ao derredor a sensação de paz é fantástica, enorme, indescritível!

Ai, quando a gente menos espera sente aquele puxão para cima do paraquedas se abrindo. De fato não é para cima, mas cai-se numa velocidade tão espantosa que a abertura do paraquedas se assemelha a um freio de mão subitamente acionado. A partir dai o pouso é sereno e a gente pode olhar para onde quiser que não mais sente vertigens ou algo parecido. Com os modernos equipamentos o pouso é incrivelmente suave e espantoso, no lugar desejado, sem tirar nem por sequer um metro.


O bom dessa conversa é que já estamos praticamente dentro do aeroclube de Boituva. Cuidado D. Maria Amélia! Não salte do carro em movimento, vai acabar se machucando mais do que saltando de paraquedas. Guarde sua coragem para usar na hora certa e não a gaste para saltar do carro em marcha. Se tem destemor e loucura  para isso, é certo que vai poder saltar bonito e sem fraldas.

O assovio.- Fernando Braga


O assovio.
Fernando Braga

Assovio ou assobio? As duas palavras estão corretas, para significar aquela emissão de sons que obtemos quando fazemos o ar passar pelos nossos lábios, colocados em uma posição especial. A grande maioria consegue emitir este som, mesmo crianças.

Ainda em uma idade precoce aprendi a assoviar, não me lembro com quem, mas é interessante que os primeiros sons que consegui saíram fracos, sem clareza, disformes como se eu estivesse aprendendo a andar, caminhar. Aos poucos fui aperfeiçoando, soprando com eumetria, e principalmente aprendendo a franzir os lábios, fazendo aquele biquinho, deixando apenas um pequeno buraco para a passagem do ar, saindo o som da maneira que queria. Consegui em pouco tempo assoviar bem, as músicas que gostava.

Me lembro de meu pai, quando dirigia o seu Fordinho 29, pegava as estradas de terra, muitas vezes enlameadas, firme na direção e assoviando. Parecia que o assovio lhe dava mais confiança frente ao perigo. Eu olhava para ele e me sentia feliz, principalmente quando o Fordinho rabeava na lama de um lado para outro, podendo cair nas grandes valetas laterais, e ele firme na direção assoviando forte, completava:

O bicho é bravo, mas tá na mão de homem!

Com meus amiguinhos logo aprendi que, usando os dedos indicador e polegar da mão direita colocados junto aos lábios, língua um tanto enrolada e soprando fortemente, saia um assovio potente, audível no outro quarteirão. Melhorei e consegui emitir um som agudo bem forte, sem usar os dedos, colocando a língua no meio dos lábios e soprando forte. Este tipo de assovio, não permitia acompanhar canções como o outro, mas era ouvido a mais de 100 metros.

Conseguimos criar uma modulação em nosso forte assovio, com a qual podíamos nos identificar. Assim, se estávamos entrando no cinema, já escuro e quiséssemos   saber se um de nós estava lá presente, bastava usar o assovio característico e a resposta vinha de imediato.

Casei-me, tive meus filhos e ainda pequenos ensinei-os a assoviar e esmerar naquele, que era   o da família. Logo minha mulher entrosou-se, reconhecendo facilmente aquele som característico, mas nunca conseguindo assoviar. Hoje, se vamos juntos a um supermercado ou mesmo a um shopping, ela para um lado e eu para o outro, quando nos perdemos e fica difícil saber onde estamos, apelo para o nosso assovio forte, o que frequentemente assusta as pessoas próximas, mas após alguns minutos estamos juntos novamente. Ela segue a direção daquele som emitido e não tem erro!

Há muito anos, decidimos passar o mês de dezembro em um balneário muito conhecido, Punta del Este. Primeiro fui eu, minha mulher e um dos filhos. Os outros dois, devido a seus compromissos foram apenas na semana seguinte, com passagem até Montevideo e depois por ônibus até Punta. Um deles levava junto sua namorada. Quando cheguei a Punta, aluguei um carro, para podermos apreciar melhor esta cidade e suas redondezas.

Meus filhos confirmaram que chegariam por volta das 10,30 horas na capital e depois tomariam o ônibus. Sem combinar nada, decidi na última hora, ir busca-los no aeroporto em Montevideo. Saí sozinho, cedo e às 10 horas lá estava eu, esperando-os. O avião chegou, pegaram suas bagagens e os vi quando entraram na Free Shop. Estava eu, escondido da parte superior e vi toda a movimentação.

Foram tentar comprar as passagens de ônibus para Punta. Eu já havia me informado e sabia que teriam que ir até a rodoviária em Montevideo, que não era longe. Foram caminhando pela área de estacionamento em frente ao aeroporto, até um ponto de ônibus que os levaria até a estação. Quando estavam a uns 100 metros, soltei o meu famoso assovio e imediatamente escondi-me atrás de um pilar de onde podia observá-los. Ambos pararam, olharam para trás,    dos lados, comentando entre eles, sobre o som ouvido. Não apareci. Continuaram caminhando e soltei novo assovio. Pararam novamente, ficaram intrigados, observando, procurando-me com os olhos, mas nada. Então peguei meu carro e fui lentamente até o local onde estavam, no ponto de ônibus. Não me reconheceram, estava de óculos escuros.  Abri janela do lado direito e perguntei:

—  Querem uma carona? A alegria foi indescritível e depois comentaram que pensaram na possibilidade de ser o meu assovio e que eu poderia estar lá, mas não tinham certeza plena, por estarem em um país diferente. Se fosse no Brasil era certeza absoluta. Não sei porque pensaram assim, sendo o mesmo assovio! É como uma digital!

Noutra ocasião, meu filho mais moço, um engenheiro agrônomo formado há uns três anos tinha umas seis estufas, onde plantava pimentões grandes, verdes, vermelhos e amarelos, a venda dos quais lhe dava um sustento. Certo dia ao abrir um desses pimentões, bonito por fora, estava estragado por dentro. Haviam sido atingidos por uma virose, que não teve jeito. Vendeu as estufas e antes de arranjar outra ocupação, decidiu passar uma temporada na Europa. Comprou a passagem, desceu em Lisboa, ficou uns 10 dias em Portugal e daí resolveu ir para outros países. Queria conhecer tudo, da sua maneira, com uma mochila nas costas, viajando de trem, sem um destino certo, dormindo em hotéis baratos e em abrigos, comuns no continente, gastando pouco dinheiro, fazendo amizades, comendo sanduíches, enfim, tudo com o seu espirito aventureiro.  Nesta ocasião tinha eu um congresso,  e decidimos, eu e minha mulher irmos de TAM até Frankfurt, alugar um carro e viajarmos para Hannover, local do encontro científico. Contatamos nosso filho, que na ocasião vagava pela  Suíça e o convidamos   para nos acompanhar em nosso roteiro. Para tal, combinamos um encontro no aeroporto de Frankfurt, com dia e hora marcada, junto ao guichê da TAM. Desembarcamos, pegamos nossa bagagem, saímos naquele aeroporto enorme, densamente povoado e fomos em direção ao   local combinado. Ficamos sentados próximo, esperando a sua chegada, mas passou-se meia hora, uma hora e nada. O que teria acontecido? Ficamos preocupados. Levantei-me e soltei aquele famoso assovio, o mais forte que já havia emitido. Todos me olharam, minha mulher me puxou para sentar-me. Soltei outro e mais outro, e... Após 5 minutos lá estava ele em nossa frente, muito feliz. Se não fosse o assovio! Disse ele, estar nos esperando mais de uma hora, em outro local, distante uns 200 metros, mas com aquele aglomerado de gente...

 — Adorei o seu assovio, pai!

Após 10 dias juntos, ele disse:

Durante nossa estadia, eu estava na classe A e agora vou voltar novamente para a C, voltar para o SUS.

Aconselho a todos que saibam assoviar musiquinhas, que aprendam também o assovio forte e alto e combinem   com seus familiares, como eu fiz. Muitas vezes, pode ajudar!         



A Velha Figueira. - Sergio Dalla Vecchia


A Velha Figueira.
Sergio Dalla Vecchia

Acorde, o engenheiro chegou! Bateu na porta do carro o funcionário da Prefeitura.

Pedro, meio assustado foi acordando de seu cochilo e respondeu:

Já?

Ele trabalhava com pavimentação de ruas de uma  cidade da grande São Paulo em um  Município muito pobre e carente de infra estrutura.

 Ele precisava fechar as medições dos serviços executados no mês e para tanto necessitava da conferencia e aprovação do engenheiro fiscal da Prefeitura naquele dia.

Chegou cedo ao local, mas o engenheiro não estava e iria demorar, pois tinha ido cuidar de uma ocorrência logo de manhã, informou um funcionário.

Como não havia alternativa e Pedro resolveu ficar esperando por ali mesmo.

No pátio da Prefeitura havia uma enorme figueira que presenteava a área com uma grande sombra. Com sorte ele encontrou uma vaga para o seu fusca, bem debaixo da sua copa. Estacionou e começou rever alguns documentos em sua pasta.

Fazia muito calor, pois era quase meio dia e o vento também era pouco.

Pedro que sempre tinha crédito de sono parou de ler, reclinou o apertado banco do automóvel e acomodou-se até encontrar uma posição confortável.

Estava com o vidro aberto na esperança de que entrasse uma brisa refrescante, que fora filtrada pelas inúmeras folhas frescas da majestosa copa da figueira.

A sensação era de paz! O relaxamento do seu corpo foi acontecendo aos poucos, e Pedro cochilou!

Ora, o senhor não me pediu para avisá-lo quando o homem chegasse? Pois então, entre logo  ele esta à sua espera .

Assim Pedro entrou no Departamento de Engenharia da Prefeitura, resolveu todos os seus assuntos pendentes e saiu satisfeito pela missão cumprida.

O tempo passou e ele teve que retornar ao local para resolver outros assuntos.

Pelo caminho veio lembrando-se da sombra mágica da figueira, que tanto o confortou na sua longa espera.

Enfim ele chegou ao local e se surpreendeu com o que viu.

 Haviam construído um imponente prédio para a nova sede do Paço Municipal, justamente na área na qual a arvore existia.

O que aconteceu com a velha figueira daqui? Perguntou a um funcionário.

Infelizmente ela sofreu uma grande poda e foi transplantada em outro lugar. -  respondeu o homem.

 — É o progresso! A Prefeitura precisava aumentar suas instalações e acabamos perdendo a pobre arvore!

Que ela renasça e continue em seu novo local encantando com o frescor de sua sombra as pessoas que nela se aconchegarem. Disse o funcionário com a voz embargada.

Pedro também ficou aborrecido e nem quis procurar o lugar para onde a figueira fora transplantada.

Pegou a estrada de volta para o escritório e na sua mente veio aquela sensação agradável que ele já havia experimentado e que lhe trouxera o relaxamento dos seus músculos e muita paz, paz, paz, paz.......................zzzzzz.

O carro seguia e de repente  Pedro gritou apavorado:


Êpa, Êpa! Acorde e desferiu dois tapas em sua própria face! Não vá dormir ao volante, pois agora a cena é real, o carro está em movimento e eu quero é viver!

O Braga. - Fernando Braga


O Braga.
Fernando Braga

Há muitos anos, na capital paulista, atravessando o Viaduto do Chá, lá vinha ele vestindo o seu terno de linho branco 120, sapato preto bem engraxado, sobre a cabeça o seu chapéu Ramenzoni, caminhando ligeiro para seguir os passos daquela multidão apressada. Isto por volta do ano 1950

Chegando próximo ao nosso Teatro Municipal, de 1911, na Praça Ramos de Azevedo, próximo à Rua Conselheiro Crispiniano, lá estava uma enorme faixa branca, um banner, pendurado entre dois postes, onde se lia: Para Deputado Estadual, vote em    Rubem Mendonça Braga.

Ele parou, olhou bem a faixa, seus olhos quase saltaram das órbitas, enraiveceu, fechou os punhos, balançou sua cabeça mostrando uma enorme desaprovação e, começou a olhar as pessoas que passavam apressadas como se procurasse apoio, mas ninguém lhe dava a menor atenção. Ardendo em raiva, cogitou consigo mesmo:

— Que desgraçado, que cafajeste, maldito, enganador, falso: Rubem Mendonça Braga. Esse miserável colocou em letras enormes, garrafais o Rubem Braga e o Mendonça bem pequeno. Quem olha para este banner, só vai ler o Rubem Braga e pensar que sou eu e vão confundi-lo comigo. Não sou nenhum Mendonça. Isto mostra sua má intenção em querer se passar por mim, como se eu fosse o candidato.

— Aqueles que bem me conhecem sabem que nunca fui e nunca serei um político, pois não gosto deles, a maioria quer se tornar um deles para roubar, fazer trambiques, negociatas. É uma classe desprezível e que um dia poderá destruir nosso Brasil! Gostaria de poder gritar bem alto no meio desta multidão que este tal de Rubem Braga, não sou eu e não o conheço. Este Mendonça dever ser ele no mínimo um falsário, um grande falsário! Sou apenas um escritor, um cronista brasileiro, mas sou bem conhecido, pelo menos pela classe mais estudiosa, mais letrada!

Eu não vou e não passo admitir tamanha desfaçatez. Tenho que tomar alguma medida e, isto não pode ficar assim! Vou conseguir seu endereço, telefonar a ele ou talvez colocar nos jornais que nada tem ele a ver comigo, este Mendonça.

— Pera aí, talvez o melhor seja dar um pulo no Tribunal Regional Eleitoral, conversar com alguém que possa tomar alguma providência e impugnar o nome deste candidato!

É o que vou fazer e agora! O TRE mais próximo deve ser o da Rua Francisca Miquelina, na Bela Vista.

 Seguiu pela Barão de Itapetininga até a Avenida São João e lá, tomou o primeiro táxi para rumar direto ao seu destino.

Sentou-se no banco de trás e durante o trajeto ia pensando no ultraje, de que tinha sido vítima. Exasperado, continuava delirando:

— Isto não ficar assim seu malandro! Você vai ter que retirar seu nome de todas as praças, ruas, postes, que emporcalham o visual e meu nome é jogado às traças. Por enquanto só vi este banner, mas sei que quando se aproximar mais a eleição, a cidade ficará bem emporcalhada.

À medida que ia se aproximando do local, ficava mais e mais tenso. Movia muito sua boca, gesticulando e às vezes saia um som mais agressivo, uma palavra áspera. Estava falando sozinho. O chofer do táxi olhava para trás e via o desespero de seu passageiro. Perguntou: - O sr. está passando mal? Quer que eu pare para tomar uma água?

Não, não!  Estou apenas um pouco nervoso, mas não se incomode, vamos em frente!

Não estava um pouco nervoso, estava possesso!

Quando o chofer parou a 30 metros do local onde se lia TRE, pagou o taxista e desceu resmungando, mas um pouco mais calmo, mais senhor de si. Antes de entrar no edifício ficou parado, pensativo, sentou-se na beirada de um pequeno muro. Após uns 10 minutos de confabulação, levantou-se:

— Meu Deus! O que estou fazendo? Posso estar cometendo um erro, uma grande injustiça!

Ele se chama Rubem Mendonça Braga e, é claro que não sou eu!

Mas ele é Braga, é Braga e se ele é Braga... Ele é bom!

— Sabe de uma coisa, vou votar nele!


Tomou o caminho de volta e agora, sorrindo.

A PASSARELA ENCARNADA. - Sergio Dalla Vecchia


A PASSARELA  ENCARNADA.
Sergio Dalla Vecchia

O casal se aprontava com seus trajes de gala.

Ele vestiu-se rápido.

Essa vantagem o homem possui sobre as mulheres.

Para ele é fácil, pois não há alternativa ao não ser o velho e tradicional smoking.

Traje de gala privilegiado, pois veste sempre com muita elegância, mostrando a silhueta mais esbelta, graças ao efeito ótico do tecido na cor preta.

Assim é só vesti-lo, procurar uma poltrona e ficar aguardando pela ansiosa esposa aprontar-se.

Tudo isso porque era o mês de dezembro de 1993 e o casal foi convidado para a festa de comemoração dos 120 anos da fundação do Liceu de Artes e Ofício de São Paulo.

A instituição foi criada em 1873 por um grupo de aristocratas da elite cafeeira, visando capacitar mão de obra para a indústria e teve como seu diretor o arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo a partir de 1890.

Enfim era uma grande comemoração!

Para tanto, o local não poderia ser outro a não ser o Teatro Municipal de São Paulo.

O casal acabou saindo de casa em tempo hábil para que não chegassem com atraso ao evento.

Chegando à porta apresentaram-se ao hostess, foram fotografados e pronto. Lá estavam eles diante daquele hall maravilhoso, composto de um conjunto arquitetônico eclético, que era moda na Europa desde o século XIX, combinando os estilos Renascentistas, Barroco e Art Nouveau.

O Teatro também foi projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo e as obras iniciaram-se em 1903 e terminando em 1911, ano da sua inauguração.

Estavam maravilhados com o esplendor do local! Embora residissem na cidade de São Paulo e era a primeira vez que adentravam em tal requintado recinto.

Viam a sua frente uma linda escada de mármore, que se dividia num patamar em dois novos lances; um para ala direita e o outro para a ala esquerda, ambos chegando ao piso superior.

Mas o que mais chamou a atenção dele foi uma linda passarela na cor encarnada, que contrastava harmoniosamente, com o mármore branco da escadaria.

Ele, com seus  olhos ávidos de reconhecimento do local, observava tudo ao redor.

Senhoras bonitas muito bem vestidas, ostentando as suas melhores joias.

Os distintos cavalheiros padronizados pelo mesmo traje, também mostravam muita elegância.

Estavam distribuídos em rodas de conversas, onde o riso era fácil e os goles de uísque também.

Ele conversava sobre a decoração do hall com a esposa que segurava uma taça de vinho em uma das mãos. Repentinamente sentiu uma força estranha, que o induzia a fixar seus os olhos na impecável passarela carmim.

Veio à sua mente a fisionomia de uma ex-namorada. Morena linda, traços delicados, um sorriso encantador e uma boca convidativa à um acalorado beijo.

Ela vestia um vestido longo da mesma cor a da passarela em um baile de formatura no Clube Pinheiros, onde se conheceram  e iniciaram um pequeno romance na juventude.

 As condições do evento eram parecidas. Um grande salão de baile, gente elegante e o mesmo clima de festa.

Lembrou-se da sensação do instante em que segurou em suas mãos, da batida acelerada do seu coração, o braço enlaçando a sua cintura, o inicio da musica romântica, os rostos colados, o arrepio e os céus!

Ele estava enfeitiçado por aquela cor vermelha, a ponto de se ausentar  em pensamento do local onde se encontrava  para reviver o seu antigo romance.

De repente ecoa o som de uma campainha pelo hall do Teatro, convocando a todos para o inicio do balé “ O CORPO “ interpretando musicas de Ernesto Nazaré.

Assim, ele despertou de seu encantamento, ofereceu o braço para sua esposa e o casal entrou na sala para assistir ao seu primeiro espetáculo no Teatro Municipal de São Paulo.



AMOR - CLARICE LISPECTOR - FLUXO DE CONSCIÊNCIA E EPIFANIA




AMOR
CLARICE LISPECTOR 

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.

Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo… E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

De longe via a aleia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada… Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha… Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles… Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água – havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

Não quero que lhe aconteça nada, nunca! - disse ela.

Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.

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FLUXO DE CONSCIÊNCIA E EPIFANIA

Neste conto a autora trabalha com intensidade o fluxo de consciência da personagem Ana. A epifania aparece em alguns momentos: quando os ovos se quebram, quando ela vê o deficiente visual mascando chiclete, quando entra no Jardim Botânico. Esses acontecimentos provocam certa transformação psicológica na personagem demonstrada através da narrativa de seus pensamentos. 
Na epifania o fluxo de consciência é sempre motivado por um objeto,uma pessoa ou um fato. 

Veja o comentário abaixo:

Em “Amor” não só o cego mascando cliclete causa o momento epifânico, mas também a ida de Ana ao Jardim Botânico. Tais fatos fazem com que ela perceba que sua vida de mera dona-de-casa cumpridora dos afazeres domésticos é restrita, visto que há como vivenciar momentos em que se ignore a rotina (como o cego imóvel e que masca chiclete) e que há lugares onde essa rotina não está presente (como no Jardim Botânico). Deste modo, a protagonista percebe que o cotidiano é feito de vários “cotidianos”, sendo o seu mais um deles, e não o único. A epifania provoca exatamente o desejo de viver outros que não o de uma mulher servil a marido e filhos. Embora se perceba que, após ver o cego e ir a um lugar “sem regras rotineiras” como o Jardim Botânico, ocorrem mudanças psicológicas significativas em Ana, alguns elementos levam-nos a crer que tais transformações restringem-se ao interior da personagem, não alcançando o campo comportamental.
Por meio desse comodismo de Ana, Clarice Lispector demonstra sua capacidade de retratar a complexidade interior dos indivíduos. Além disso, a própria maneira com que constrói seu texto já denota a originalidade da autora. Enquanto em textos de outros escritores a análise psicológica restringe-se à enumeração de sentimentos e ao relato de alguns pensamentos, em Clarice, o texto é predominantemente o próprio pensamento da personagem, numa estrutura caótica, em que narrativa e pensamento (muitas vezes desconexo e incompleto, como na realidade) misturam-se. ( Extraído do site Voz Literária)


 Veja outro comentário sobre o conto Amor:

Ana é uma típica dona de casa, casada e com filhos, bem sucedida na vida familiar, que entra em crise ao voltar para casa e ver numa parada do bonde um cego mascando chicles. A visão que tem do cego coloca-a em crise e seus sentimentos se confluem: o amor, o ódio, o prazer, a bondade e a náusea se mesclam. Sua adesão à rotina do cotidiano que a livrava do sentimento de náusea é interrompida. O súbito movimento do bonde a faz deixar cair as sacolas de compras, os ovos se quebram e ela acaba descendo num ponto errado. Em êxtase, adentra o Jardim Botânico e ali contempla alguns aspectos da matéria bruta da qual a vida é feita: plantas, insetos, formas vegetais e viscosas. O sentimento de náusea se mistura à epifania, à revelação das substâncias da vida, um misto de fascínio e repulsa. O seu delírio, entretanto, é subitamente cortado pela lembrança das obrigações domésticas, do jantar com os irmãos, com o marido e com os filhos. Ana retorna a casa e entrega-se às obrigações do lar. Tudo continua da mesma forma; apenas ela, no seu íntimo, sentiu que existia uma diferença severa entre a mulher presa aos laços de família e a mulher que ela poderia ter sido e que não foi. (Extraído do site interna.coceducacao).