DESTINO DE UM ESCRAVAGISTA - Oswaldo Romano

(Moenda do Brasil  - Obra de Debret)


DESTINO DE UM ESCRAVAGISTA

Oswaldo Romano 

             Capítulo I                       

      Benedito, nunca assim chamado,  atendia de pronto o Coronel Botelho, quando ouvia: Ditoooooo...

      Quase um grito rebelde eclodia pelo campo, pondo os demais escravos de orelha em pé. O pensamento era um só: seria eu o próximo?

      Sabiam que Dito seria colocado no pelourinho, e apanharia até contar tudo que teria aprontado. Negro valente, era conhecido como quem apanhava, engolindo suas dores. 

      Ninguém nunca o viu demonstrando medo.

      Mas desta vez a coisa foi diferente. O Coronel Botelho, depois de acoitá-lo com demoradas e violentas chibatadas, descarregando seu barril de ódio, só parou quando o viu banhado pelo sangue, e virando os olhos. Mostrava o branco do globo ocular, um contraste com sua luzente pele negro.

      Mandou dar-lhe um banho de Sabão de Alepo, usando escova de cavalo, e raspadeira de alisar boi nos seus cascudos pés. Iria se desfazer daquele que, como um cachorro selvagem o desafiava.

      Com um laço que o próprio Dito trançou, amarrou o coitado numa ponta, folgou algumas braçadas, prendendo firmemente no arreio do seu alazão a outra. Seria puxado como um animal, até a praça do leilão.

      Carrancudo, tomado de ira que o fazia desfigurado, o Coronel montou, e cavalgando tomou o rumo do mercado, onde venderia seu escravo.

      Coronel Botelho, além do Rabo de Tatu, carregava o pequeno berrante. Ao toque, trotava o cavalo, obrigando o escravo acompanhá-lo.

      A valentia do Dito tinha limites. Mal alimentado, sua pele escondia a palidez que carregava. Tantos foram os toques daquele berrante, que o negro não resistiu.

      Desabou!

      Arrastado no caminho de pedras e poeira, o alazão sentindo o peso, empacou. O Coronel levantando o chicote, ao mesmo tempo em que batia, cravava-lhe as esporas.

      Suando, descontrolado, deu com o chicote no focinho do cavalo. O alazão sentiu, tentava expulsar o freio que o machucava.

      Foi o derradeiro. O animal levantando a ancora arremeteu com as duas patas, violento coice no ar. Empinou rinchando em fúria, momento em que o coronel se deu conta do Dito, vendo-o caído. Estava inerte, envolto por um lençol de sangue.

      Desorientado, pulando do alto alazão, enroscou o pé no estribo. Seu corpo sofrendo o impacto, como um pêndulo, foi jogado violentamente de cabeça, batendo no chão pedregoso.

      Ferido, escorrendo sangue pelo rosto, tentou levantar-se.  Apenas conseguiu, com a vista muito embaçada, ver seu escravo. Apavorado com o que viu, na certa teria revolta na senzala.  Estava mal, faltou-lhe ar, sentiu uma pedrada no peito, encolhendo-se, quedou-se ali balbuciando:  Meu Deus! O que foi que eu fiz! Eu queria… nesse momento soltou-se o enrosco do estribo.

      O alazão olhando-o impávido assistiu seu   último suspiro.

      No chão Dito permanecia banhado em sangue… O alazão levantando a cabeça, esticando o pescoço, chacoalhando os enormes beiços deu um rincho profundo, alongado.

      Dito abriu lentamente os olhos

      Fez o que veio a mente. Livrou-se, montou no animal, e sem olhar para trás iniciou sua desejada fuga, num trote acelerado.

*****
 
Capítulo II    

     
      Abriu-se a grande oportunidade da fuga. Agora, ou jamais, teria tamanha chance.

      Voltar?

       Não! Não acreditariam na sua inocência.  Fugindo poderia livrar-se, e com sorte não ser pego. Estava consciente, se encontrado seria enforcado.

Fez o que tinha em mente. Como foi dito, livrou-se, montou no animal e sem olhar para trás iniciou sua fuga num trote forçado.

       Muitos outros conseguiram chegar ao Quilombo dos Palmares.  Contavam com a proteção de Ganga Zumba, o mandatário daquela República.

       Por que não eu? Perguntava-se. Sou melhor, sou destemido.
     
      O que ele menosprezou, foi a fidelidade do alazão. Este depois de minutos parou, estancou. Mesmo chicoteado, queria voltar. Dito tomado de espanto, humilhado, apeou e segurando-o pelas rédeas, sentou-se na beira do caminho, pensando na melhor solução. Indignado, conversava com o cavalo. Chicote na mão, levantou o braço, ameaçou chicoteá-lo.

      O alazão olhava, desafiando-o.

      Ele irritado com o cavalo. Olhar lançando chamas perguntava: O que foi? Tá maluco? Veja como estou?

Claro! Estava, era errado. Encontrado seria fuzilado. Era um escravo que fugia. Ninguém acreditaria na sua inocência.

      Redimindo, acariciou o animal, deu duas tapas no seu pescoço dizendo:
Vamos, vamos alazão, você tem razão. Vamos para casa.

      Regressou no local do acidente, carregou e amarrou o sinhozinho atravessado na garupa. Passou pela sua cabeça o quadro de quando o Coronel trazia sua caça.

      Chegou, passou a porteira da fazenda, contornava o mata burros. Dois capangas, caçadores de escravos, montados e assustados já encostaram, ajeitando suas armas.

— Quem é? Quem é?

— É o coronel, moço.

Ficaram mudos. Rodearam o alazão. Dito, uma fera ferida, impávido, calmamente seguiu rumo à fazenda.

      Um dos capatazes avançou, anunciando aos gritos para a Casa Grande, aquela chegada. Começou um desordenado rebuliço. A Condessa ficou incrédula, desesperada. Mal sabia o que fazer, andava de um lado para outro.

 Chorava, gritava. As mucamas estarrecidas, chorando seguiam a patroa.

      Dito chega com o falecido. Deu duas tapinhas no pescoço do alazão, debruça-se sobre ele, abraça-o e chora. Chora muito. Capangas, falando baixo e sussurrando, retiravam o Coronel. Outros dois munidos de armas cercavam o escravo. Estava entregue. Dopado com o acontecido, sentia-se um trapo.

      Passado momentos, foi colocado no banco do varandão. Cabisbaixo, sua cabeça girava, sendo observado pelos guardas, passaram-se longos e indecisos momentos.

      Aproxima-se a baronesa. Chora. Carrega uma toalha que usa para enxugar as lágrimas. As mucamas de companhia, estirando as mãos pro céu, entoam lamentos.

      Os capatazes se manifestam, queriam imediata autorização para enforcá-lo. Quanto antes, melhor seria o exemplo. Benedito tomado de angústia, previa esse acontecimento, tantas vezes presenciado. Mas de bem consigo mesmo, crente  que fez o que devia ser feito, caindo em prantos, entregou-se à Deus, suplicando à Condessa que acreditasse nele.

      — Esperem, disse ela. Quero saber. Saber tudo, tudo. Olhe prá mim. Fale, estou mandando, olhe prá mim?

— Sim baronesa, com meu respeito baronesa. Fui amarrado, surrado, fui arrastado, estou todo muito machucado. Mar súbito dona. Ele morreu de mar súbito.  Fosse mardade minha, eu não ia traze de vorta. Ele ia me vende dona. Eu tinha o alazão dona, só ele e Deus. Podia fugir. Sabia que chegando aqui, tem a forca. Sô inocente dona. Não pode matar um inocente… Espere dona.

Hora depois, Dito foi levado para a solitária.

O barão teve um imponente funeral. Teve polícia, teve cantos na senzala, teve revolta abafada pelos capatazes.

      Era inquirido, dia e noite. Delegados, capatazes. Até que um dia, chegou o padre. Houve um levante em toda fazenda. Chegou sua hora, falavam!

Os escravos juntaram-se próximo a entrada da Casa Grande.  Cantavam sentidos lamentos, as negras choravam emitindo gritos que calavam e se perdiam. Os capatazes silenciaram. Aqueles cantos lembravam sentimentos encobertos. Lembravam de quando deixaram a África, enganados, vendidos.

Sabia-se que a Baronesa, acreditava na inocência do escravo Dito, pois conhecia muito bem o barão. Fazendo vistas grossa, deixa a mucama levar pão ou fruta para a cela do infeliz.

Numa noite, mandou o Tenório, seu melhor capataz, buscar o Benedito.  Vinham os dois pela trilha, um candeeiro mostrava onde pisar. Dito achou que seria seu último dia.

Tão logo os escravos souberam, deram muito trabalho aos capatazes.  

A baronesa, cujo nome era o da Santa Edwiges, assistida pelas mucamas, conversou longamente com ele. Seus olhos vertendo lágrimas brilhavam a luz tênue.

      No outro dia Benedito recebeu a ordem de que estava livre, e foi posto a sua disposição um animal. Não aceitando disse que seria o mesmo que fugir.

      Ganhou então uma nova missão. Foi apresentado aos escravos moedores da cana, como encarregado, um novo feitor.

      No primeiro contato, alegres com a notícia, iniciaram cantos e agradecimentos aos Deuses, a Olorum, a Orixá.

      Dito, comovido, abanando as mãos agradecia.

      Reiniciando os trabalhos, começaram o giro da moenda continuando o canto acompanhado pelo gemido das rodas. Quando passou por ele um varal, dos quatro da moenda, ele o segurou. Os escravos surpresos com sua atitude, admirados, esperavam saber o porquê.

      Benedito elevando a voz, mostrando autoridade e rindo disse:

      — Aprendam negada. Vocês estão girando o moedor ao contrário!

Mostrando enormes dentes brancos, os escravos confirmando o erro, caíram numa longa e envergonhada gargalhada.

      — Por Deus feitor! O feitor está certo!



Fim do II capítulo.

O MANUAL DA VINGANÇA - Carlos Cedano


 

O MANUAL DA VINGANÇA
Carlos Cedano


O texto de Armando é um roteiro fantástico de como lidar com minha situação com a Denise, um verdadeiro manual da vingança, vou aplicá-lo desde agora. Sim, primeiro vou cancelar seus cartões, são três né Denise? Depois vou deixar de abastecer sua conta corrente que aliás quase sempre está no vermelho, você vai me ligar com sua cara de pau e me perguntar cadê minha grana? Você não depositou o combinado! Sempre com esse seu tom de mandona e mal educada. Quando você ligar minha querida gostarei muito de escutá-la histérica e descontrolada e vou lhe dizer que a mamata acabou e que estou entrando com pedido de divórcio por abandono do lar, estou pegando gosto pela vingança! E se você não me responder ou ficar calada vou achar que teve um infarto, seria muita sorte a minha! Você insistirá e ligará outra vez com outro tom de voz, voltando a sua velha tática de sedutora, prevista no manual, o que? Quer ter uma conversa comigo, como nos velhos tempos? Lembra como eu implorava pra você jantar comigo, pra fazer sexo mesmo que seja uma rapidinha e você sempre regulando? Não mil vezes não, fale com meu advogado sua safada sem vergonha! Vou desligar na sua cara. Sim, ela ainda vai ligar e agora vestindo a fantasia de mártir dizendo que está passando fome, chorando e pedindo meu perdão e reconhecendo que errou, ficarei com dúvidas, está sendo sincera? Presta atenção Gustavo, o manual diz que está fase é decisiva, ela jogará sua última e definitiva cartada. Ah! Ela vai me dizer que não aguenta mais e prometerá que tudo voltara a ser como no início, não acredite Gustavo! E seu namoro com o carcamano esse que você conheceu no cruzeiro no Caribe, peça ajuda pra ele pô! Não, por quê? Ah... ele fugiu com todas suas joias e o pouco dinheiro que você ainda tinha! Que azarada Denise! Não, não posso te ajudar, não posso trair o manual! Por favor, não me liga nunca mais Denise, adeus e boa sorte! Será que ela ainda vai insistir, vai ligar outra vez?  Acabaram as dicas do manual...


A FÚRIA. - Mario Augusto Machado Pinto


A FÚRIA.
Mario Augusto Machado Pinto


Puta la méldia, como é que um restaurante de nome e chiquê como este pode servir “fusilli al pesto”, isso é coisa de marmiteiro, é com molho de “pomodoro”, estúpido, burraldo e ainda por cima cobrar R$56,00 por um prato servido como pra quem está de regime, é o cúmulo, devia fotografar e mandar com a indicação pra “Vejinha”, sim senhor, mas não adianta, está feito e pronto, tchau e benção, até nunca mais seus filhos da, como não conheço vossas mães vai só filhos daquela coisa, olha! o degrau da saída não tem faixa amarela, “quando morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela”, Zenaide, que pernas, a batida está fazendo efeito, mas o que é aquilo ali, gabarito do exame do ENEM, será que o Fábio tira nota? Acho que sim, afinal estudava com a Nancy, puta nome, até de madrugada, pra mim também estudava anatomia, ah, é ali o ponto do bus, tem que esperar, devia ter o aplicativo do UBER, garota bonita, merece uma foto, está cansada a coitadinha, entramos juntos, eu quero pegar nela, opa, opa quase cai com o balanço do arranco, se apoia aqui no degas, vem, apoia, hum, perfume de verbena, safadinho, já estou agarrando, vou resistir até quando? Encosta em mim, encosta, até na Aclimação.  

DÚVIDAS E TEMORES - Carlos Cedano

 

DÚVIDAS E TEMORES
Carlos Cedano

Por que não lhe disse pra pegar um ônibus e ir para sua casa sozinha? Com voz suave e chorosa me convenceu que seria oportunidade para continuar nosso papo. Qual papo, porra, até agora só ela falou e me enrolou!

Sabia que a viagem de volta com esta megera seria um saco, mas já tinha me comprometido e não sou de voltar atrás, sou um babaca mesmo, além disso, ela teria um motivo a mais para justificar para suas amigas, bando de fofoqueiras mal amadas, por que me tinha dado um pé na bunda!

A viagem está difícil, que silencio pesado, minhas respirações estão curtas e ofegantes e ela só olhando pela janela e o tempo todo fumando e evitando olhar-me. Viu Gustavo? Caiu outra vez no papo dela e até agora você não aprendeu, né? Sempre foi manipuladora, não falou sequer uma palavra até agora, até parece uma santa, sua vaca fingida!

Lembro suas mentiras e os motivos vazios para viajar ao Caribe, preciso refletir sobre nosso relacionamento dizia, que besteira e eu engoli essa, tenho quase certeza de que já eram amantes desde antes, não disse simplesmente não! Mas não tive coragem, temia perdê-la definitivamente, não quis arriscar, ainda achava que podia reconquista-la. Que ingenuidade a minha, que trouxa!

Estou ficando nervoso preciso pensar em outra coisa, minha raiva está aumentando e posso perder o controle e esganá-la. É isso aí Gustavo, respira fundo, se acalma já falta pouco pra deixa-la em casa.

Ufa!  Chegamos, nem se despediu, apenas virou as costas sem agradecer, eu já sabia! Não esperava outra coisa dessa vadia! Isso não vai ficar assim! Mas que fazer? Preciso bolar um modo de vingar-me, mas como?

Armando estava certo quando massacrou sua segunda esposa durante o divórcio, gostei sim, deixou-a com uma mão na frente e outra atrás, apenas uma mísera pensão que mal lhe da pra viver e agora está arrependida da besteira que fez, sim, amanhã mesmo ligo pra ele! Pra pedir conselho.
____________________


Estou exausto e tenso, vou deitar, mas não posso esquecer-me de ligar amanhã o mais cedo possível para Armando, sim amanhã! Não esquece Gustavo, não!

NA JANELA. - Mario Augusto Machado Pinto



 NA JANELA.
Mario Augusto Machado Pinto

Acordei. O quarto no lusco-fusco produzido pela luz do abajur na cômoda.   Sentindo calor, levantei-me e com cuidado suspendi a veneziana, abri totalmente a vidraça e aspirei o ar fresco e úmido da madrugada. Vi as poucas janelas iluminadas dos edifícios ao redor. O que estaria acontecendo por detrás delas?

Uma única iluminada no prédio vizinho. Para ver melhor debrucei-me no peitoril e coloquei os óculos. Nada para bisbilhotar, mas subitamente por detrás da cortina formou-se a sombra de um homem. Assomou a janela iluminada. Ambos nos vimos surpresos com o inesperado. Ele, com as mãos no batente, jogou a cabeça para trás e soltou gritos que mais pareciam urros de um animal pronto para atacar.

Agitando descontroladamente os braços, sua expressão facial demonstrava a ira de que estava possuído: olhos faiscantes, pele contraída formando sulcos,  boca esgarçada mostrando os dentes. Mais parecia o próprio demo do que um ser humano. Deixou e voltou à janela por várias vezes.

Eu ainda impressionado com o acontecido olhava aquela janela sem saber o que fazer quando o vi abrir e fechar com estrondo a porta daquele cômodo.


Desapareceu. 

UM LONGO FIM DE SEMANA EM PARATY. - Oswaldo Romano



UM LONGO FIM DE SEMANA EM PARATY.
Oswaldo Romano   
                                                                  
         Fomos na sexta, a distancia é de trezentos quilômetros. Saímos às dez horas. Esse percurso era vencido em três horas e quarenta minutos. Gosto de sair com o tanque de combustível, que é diesel, cheio. Preocupação de quem já buscou óleo no grito. Na estrada nem todos os postos oferecem o diesel automotivo.

         Não previ, mas na sexta, perdi uma hora só na marginal congestionada. Finalmente alcançando a Rodovia Ayrton Senna, deu aquele alivio. Alivio frustrado! Radares de postes, de piso, laterais e ainda de patrulheiros escondidos com seus canhões, atrás das pilastras.  Numa delas quando eu passava, ele apareceu apontando aquele trabuco. Até me encolhi no volante, pensei: ai vem bala! Bem... Meu carro é blindado, mas se aquele bacamarte tiver cartucho grande... sei lá o que poderia acontecer.

         Descíamos a serra Taubaté/Ubatuba. Agora a coisa vai andar. De novo? Não acredito! Dois Volks pé de boi da mesma família desciam com o maior cuidado. Quando eu tentei a ultrapassagem, minha mulher gritou: Cuidado! Era outro carro que apontava. Já estava emparelhado com o Volks. Olhei o carrinho do lado, na janela um guri, não tinha dez anos, me fazia caretas. Entramos no nevoeiro, lá se foram mais quinze minutos.

         Fim da serra.

         A um quilometro tem um posto da polícia rodoviária. Um militar estava cercando de plantão. Na minha frente estavam, um caminhão bem velho, e os dois Volks, pneus quem sabe lá que estado. Passaram pelo guarda. O caminhão, um Volks depois o outro. Eu não! Mandou que encostasse!

         Com o espirito espinhado não deixei de falar, admirado. Passaram três carros velhos o senhor fez que não viu. Parou justo eu, um velho, com um Ranger Rover novo? Antes que respondesse e eu perguntasse: Qual é a sua, e ouvir a resposta, me aprecei, apresentando os documentos. Em seguida fez hora. Foi ver a chapa, examinou os documentos, rodou, percebi que pensava um rebate, mas mandou que eu seguisse. Ai, extrapolei. Agradeci perguntando: O senhor olhou os pneus? Não perdi tempo, sai rápido, com receio, claro.

         Na casa da praia fiquei três dias esfriando a cabeça, navegando, pedalando, comendo e bebendo. Voltei um dia antes, sozinho, pois tinha importante reunião.

          Na Dutra parei no Frango Assado para tomar um café. Na saída, abrindo o carro, surpresa! Fui sequestrado. Nesse momento não adianta o carro estar blindado. Colou em mim, mandou que dirigisse, rumo São Paulo. Quis olhar seu rosto, foi dizendo: Acha que sou otário, não vê que a pele é mascara. Já ameaçava. Iria me deixar no cativeiro com seus comparsas. Falava: Sua família colaborando, somos do bem. Mas, não podemos levar a fama de fracassados, sem proveito. Na pior ganhamos notícias na TV  com sua  morte. Você não vai sofrer. Quando distraído, um tiro na nuca, pronto. Ai é só desovar.

         Quando ia falar que eles não escapariam...

         — Cale a boca. Não fale nada.

         O revolver apontado para mim estava em sua mão que descansava em seu colo, à minha esquerda. O medo, sua frieza, alteraram meu pensamento. Fiquei adoidado, fui aumentando com cuidado a velocidade.

         No momento oportuno acelerei, era uma curva, o carro derrapou. Era o que eu queria. Brequei, pneus cantaram, cruzou a pista para a esquerda, bateu no barranco, e capotou.


         Deus estava comigo. Olhei para meu algoz estava machucado, desmaiado ao meu lado. Tratei de livrar-me do cinto e escapar. Finalmente me vi livre daquele inferno. 

ESTRANHAS EMOÇÕES - Oswaldo U. Lopes



ESTRANHAS EMOÇÕES
Oswaldo U. Lopes
e Ana Maria Maruggi

À noitinha no restaurante marcado para jantar com o marido, ela chegou bem antes do horário combinado. Deliciou-se com o couvert enquanto explorava com o olhar as outras mesas... Foi quando seus olhos cruzaram com os olhos do jovem moreno da mesa à sua frente. Ele a olhava insistentemente, parecia que a qualquer momento sairia de lá para sentar com ela. Temerosa de que ele fizesse isso, mudou de cadeira ficando de costas para o moreno. Precisava demonstrar que esperava alguém, e que não aprovava tal atitude.
         Mas esperava há mais de uma hora, e Fábio não chegava. Nem uma mensagem... A bateria do celular ainda resistia, mas por pouco tempo. Chegou a preocupar-se com o marido, mas logo desconsiderou, pois era praxe ele não aparecer, ou chegar com horas de atraso preso sempre as reuniões de emergência no banco. O flerte voltou à memória. Tentou não olhar para trás, mas estava tão curiosa, queria saber se o rapaz ainda estava lá, se ele ainda a olhava como antes, se havia mais alguém à mesa com ele. Não devia estar lá – pensou. Disfarçou. Arriscou uma olhadela de soslaio e lá estavam os olhos dele fixos nela. Voltou-se rapidamente, para a taça vazia. Nesse mesmo instante a mão quente a tocou no ombro direito, ela se voltou sorrindo para Fábio, mas não era ele, ficou assustada, era o rapaz moreno. Ele sorriu com um olhar quase soberbo, mas elegante e viril, e deixou sobre a mesa um guardanapo dobrado.
         Havia algo escrito no papel que ela tratou de ler imediatamente, enquanto ele voltava ao seu lugar num extremo ato de cavalheirismo. As letras eram bem definidas, quase góticas, diziam: “Não precisa olhar para trás se não quiser, mas esteja certa de que estarei sentado no mesmo lugar esperando seu telefonema: 9999 2299 – Artur”. Ela amassou discretamente o papel para que ele visse. Amassou, mas depois reconsiderando certas possibilidades, o dobrou delicadamente guardando discretamente junto da maquiagem. Teve medo de que Fábio chegasse naquele momento. Apesar de saber que o marido não viria mais. As luzes do celular apagaram em definitivo. Pensamentos incendiaram seu corpo, e de repente analisava possibilidades antes proibidas.

        Por fim pediu a conta e saiu discretamente pensando o que teriam feito, na mesma situação, sua mãe, suas tias ou suas primas.

        Sua mãe provavelmente se ofenderia com a abordagem que classificaria de cínica e vulgar, teria decididamente amassado o bilhete, jogado acintosamente no chão e ido embora resmungando.

        A tia Esmeralda que era avançadinha teria convidado Artur para jantar com ela. O problema é que de tão avançadinha Esmeralda nem casara.

        A tia Judite moderna, mas nem tanto, esperaria Artur ir embora e mostraria o bilhete ao seu marido como forma de vingança pelo costumeiro atraso. Não chegaria a ter pensamentos capazes de incendiar seu corpo, esperaria a saída de Artur apenas para evitar desaforos e brigas entre os machos.

        Enquanto caminhava na noite fria espantou-se com o fato de que em seus devaneios e pensamentos estar falando do estranho, Artur, com tamanha intimidade.

        Pensou na prima Adélia, bonita, espigada, discreta, mas resoluta. A prima certamente telefonaria para Artur no dia seguinte, disposta a ver até onde isso tudo ia dar. Aliás, o Artur esquecera de acrescentar um 9 ao número que entregara. De novo a intimidade alarmante com o Artur.

        Caminhando para o carro, já com a chave na mão Julia se surpreendeu pensando:


- A Adélia teve uma excelente ideia, que diabos, em pleno século XXI, o que são possibilidades proibidas? Elas existem?

Que situação! - Vera Lambiasi



Que situação                                                                                            Vera Lambiasi


Foi tudo muito rápido, obscuro, quando vi já estava sentada no colo do sujeito ... Edu e eu pegávamos tia Clotilde na Sears todas as quartas para o curso de astronomia no Ibirapuera. Avenida Brasil, jogo rápido até chegar esbaforidos na escola de astrofísica. Subimos as escadas, entramos na sala, ninguém, aquela sensação, hoje é quarta mesmo? Procura daqui e dali, professor, alunos, nobody, que catso, cadê todo mundo? Aparece a secretária: hoje a aula é no planetário, nova corrida pelo parque ermo, sombrio, entrada fechada, porra, corre, porta dos fundos, emperrada, empurra, silêncio, por ali, dizia o guarda, quase um fantasma de preto e coturno. Cortinas mofadas, breu, cadê a fila? Só vejo estrelas ... que lindo, a via láctea, senta em qualquer lugar, apalpa, ok, aqui, PIMBA! Desculpe, corre daqui, sentei na cadeira de um cara, vai pro outro lado, bem longe ... Tia Clotilde: — Como sabe que era homem?

EMOÇÕES INCENDIÁRIAS - Oswaldo U. Lopes


EMOÇÕES INCENDIÁRIAS
Oswaldo U. Lopes

         Julia reclinou-se na cadeira do restaurante e ficou pensando em tudo que estava acontecendo. Estava ali esperando pelo marido fazia tempo, muito tempo. O jantar fora como que arrancado num mutuo compromisso para salvar ou pelo menos recuperar o casamento. Fábio era alto executivo do banco, ganhava bem, mas não tinha nem horário, nem família. Quer dizer família tinha, mas não os via com muita frequência.

        Família? Como assim? Um casal de filhos, a moça já terminando o ensino médio e o rapaz entrando no mesmo nível, ela, Julia, arquiteta de prestigio, bem paga e ele Fábio o diretor do banco. Olhando bem era tudo. Andavam cada vez mais distantes imersos nos respectivos trabalhos. A decisão de jantar fora uma vez, ao menos, por semana fora tomada na doce ilusão de requentar não o jantar, mas o casamento. Certamente começara mal, Fábio já estava atrasado hora e meia. “Que merda!” -  pensou.

        Estava ali salvando o casamento, mas o que era isto? Dois filhos já criados e encaminhados, ela e Fábio ambos em situação financeira mais que razoável, avós de ambas as partes vivos e com saúde, não dependiam deles para nada. Salvar o que?

        Maldição o que era casamento no mundo de hoje? Associação de mutuários para perpetuar e manter a espécie? Já tinham chegado ao casamento que se mantem por conveniência ou inércia? Isso não era novidade, a novidade era os tempos em que viviam.

E agora ainda tinha esse tal de Artur para complicar as coisas. Sentado  à mesa detrás, viera discretamente colocar um guardanapo em sua mesa. Nele se lia:

“Não precisa olhar para trás se não quiser, mas esteja certa de que estarei sentado no mesmo lugar esperando seu telefonema: 99999 2299 – Artur”.

No casamento antigo, como o de sua mãe e de sua sogra o ônus da fidelidade recaía na mulher. Um dos motivos era o obvio: gravidez. Havia tolerância até para filhos bastardos dele. Dela nem pensar, correriam sangue e lágrimas. Mas hoje? A mulher ganhara uma inesperada autonomia, métodos e mais métodos, pílulas antes, pílulas depois e já falavam até da pílula durante. A fidelidade de rua de mão única passara a avenida de duas mãos e tráfico intenso.
Como é que falava o padre italianado da Igreja de Fátima:

-Se tutti i cornuti portate lampione qui bella illuminazione!

        Salvar o que mesmo? Fábio tinha seus casos e ela sabia, secretárias, estagiárias. Tinha até a brincadeira, dos colegas de chamá-lo de Clinton. Parecia impossível, mas um colega o entregara tranquilamente ao passar um telefonema que caíra na sua mesa por engano. Pensou em buscar o celular na bolsa e começar telefonando, mas estava cheia, CHEIA!

        E foi assim que de repente, deu-se o espanto, ela olhou para trás e convidou-o  a sentar-se com ela.

         

Fetiche - Ises A. Abrahamsohn




Fetiche
Ises A. Abrahamsohn 

Os policiais do 5º DP da Bela Vista encontraram o cadáver na cozinha do pequeno apartamento. Estavam acostumados a bizarrices  mas esta era inédita.  Faltavam à moça os pés, o assassino os cortara na altura do tornozelo.  Aparentemente usara os instrumentos de cozinha, ali mesmo disponíveis  largados junto às  poças de sangue agora coagulado.

Não havia sinais de roubo ou arrombamento. A vítima era Paula Nogueira, o zelador a conhecia bem, era jovem, funcionária  da prefeitura  e trabalhava a poucas quadras dali. De temperamento alegre, a moça lhe confidenciara há poucos dias que  em breve iria casar-se e mudar  de bairro.

Na repartição de Paula trabalhava  também  Nestor.  Solteirão angustiado era incapaz de se relacionar com as mulheres.  Fazia um trabalho medíocre e passava por esquisitão. As colegas de trabalho não suspeitavam que durante o expediente eram cuidadosamente observadas. Nestor tinha predileção por pés. Amava os pequenos, delgados, de unhas esmaltadas  e calçados em sandálias de tiras que realçassem os músculos firmes e a pele macia. Odiava a moda dos tênis!  Diariamente fotografava os pés de suas favoritas. Metódico, tinha arquivos de cada uma no celular. Em casa, datava  e imprimia as melhores fotos.  As paredes do quarto eram forradas pelos cobiçados pés.

Paulinha, era a  dona do par de  pés favoritos de Nestor. Tamanho 35 e calçados por sandálias pretas ou vermelhas de salto altíssimo.  A garota era mignon, de corpo bem feito e  bonitinha em seus vinte e poucos anos. Era namoradeira e dizia-se ao café  que vários colegas já haviam frequentado sua cama.  A  Nestor, as fofocas não abalavam, seu interesse eram os pés. Nunca teria coragem de abordá-la. À noite, solitário no seu leito de solteiro, bastavam-lhe as fotos dos pés de Paulinha. Mas com o passar do tempo, Nestor tornava-se cada vez mais obcecado.

Naquela tarde,  na sala de café, Nestor ouviu a terrível noticia: Paulinha iria se casar e pedira demissão. Já não viria na segunda feira próxima. Nestor ficou transtornado. Esperou a moça ao fim do expediente e seguiu-a. Subiu atrás dela no elevador e atacou quando Paulinha abria a porta do apartamento. Estrangulou-a com a gravata. Na cozinha  encontrou cutelo, facas  e  um martelo batedor de carne. Removeu  os delicados pés calçados com as sandálias vermelhas, suas preferidas. Ao embarcar no metrô ainda cogitou se o sangue pingaria através da mochila, mas a lógica lhe dizia que o sangue já coagulara.


Em casa ajeitou delicadamente os pezinhos  calçados sobre uma bandeja  na mesa em frente ao sofá. Finalmente os pés de Paulinha seriam só seus.