TRANE. - Mario Augusto Machado Pinto


TRANE.
Mario Augusto Machado Pinto

A paisagem não é tão deslumbrante, não tem aquele verde forte, escuro, agressivo. A terra recebe meus passos com alegria e me incentiva a andar. Não há poeira. O calorzinho faz a folhagem transpirar perfume. O Sol lhe dá luz suficiente. É área civilizada com mais de um milhar de anos de vivência, de saber. Isso comanda a diferença. Eu diria que apresenta o que você vai ver no futuro. Faço uso dela para alcançar o máximo do gozo visual, fechar arquivo e escaninhos dando descanso aos miolos.

Por que estou aqui? O doutoramento em Direito Internacional Público me exige dedicação total. Sabe quando você sente que está no limite de suas forças? Há uns tempos eu estava prestes a cruzá-lo, cansado, até me esquecia da existência da Clara. Dizia a mim mesmo: Preciso mudar de ambiente, paisagens, pessoas, comidas, vinhos, não quero ouvir falar em ler tal livro, preparar um paper, ir àquela conferência, acompanhar e anotar fatos ligados à cimeira sobre a Arábia Saudita e o Iêmen. Ufa! Estava pra lá de Bagdad!

Na ocasião pensando em um local para descanso, não me lembro de qual colega ouvi falar em turismo fluvial. Deve ser interessante, pensei.

Após a ceia, dispensei Manuela, servi-me de conhaque e busquei no guia turístico, onde passar. Encontrei o que queria e parti para experimentar.

Estando mais ao sul, busquei mais ao norte e, norte por norte, tem que ser pelas serras. Encontrei longe daqui, pelos lados da Serra da Estrela e do Açor, o Rio Alva com margens apresentando diferença total na paisagem. Deve ser bom, muito bom, e foi. Aprendi como pilotar pequenos barcos, cozinhar minha comida, beber pouco, dormir sem receber os chutes de alguém, a ter cochambranças em terra firme nas praias ribeirinhas de São Gião, Côja, Secarias e outras. Vivi a vida como ela se apresentava na zona de lazer das Fronhas, na barragem do mesmo nome. Aprendi a navegar com pequenos barcos e gostei tanto que desde então tenho feito turismo fluvial ao fim de cada semestre.

Neste semestre escolhi navegar pelos rios franceses. Aluguei uma “pénichette” para dois e navego pela Provence, região que vai da Côte d´Azur até os Alpes. Apresenta o máximo de paisagens e luz,  e em Arles inspiraram novas técnicas a Van Gogh e Paul Cézanne. Admiro muito a ambos. Também é a região do domaine Chateauneuf du Pape, vinho que ocupa lugar muito especial na minha despensa gustativa.

Navego há alguns dias tendo à minha frente o “Péniche Napoleon”, grande, para umas doze pessoas. Fico assim porque não tendo experiência com eclusas aproveito as manobras do barco maior. Eles falam com o éclusier. É experiência toda nova: a agua quando entra lembra o barulho de uma pequena cachoeira. Também aproveito as paradas nas guingrettes e compro o que preciso para fazer minha comida, me abastecer de água, etc. É um pessoal alegre, ouvindo o tempo todo músicas dos anos 40 a 60 tocadas pelas grandes orquestras de Glenn Miller, Tommy Dorsey, Benny Goodman; algumas que desconheço me parecem de jazz. Cantores, pra eles, são o Frank Sinatra, o Bing Crosby, o Samy Davies Jr. e a Lena Horne. No fim da tarde sempre tomam drinks e dançam no pequeno convés. Após a ceia sempre há um solo de sax com músicas lamentosas, cadenciadas algumas, mais alegres outras, dando a impressão de improviso.

Está calor agora à noite. Aproveito para ficar no meu pequeníssimo deck e consigo ver quem toca o sax: é uma jovem, talvez filha do casal. Contorcendo seu corpo ao compasso da música propicia espetáculo que excita minha imaginação. Aplaudi quando terminou de tocar e ela veio até o lado do barco, sorriu e agradeceu. Fiz o gesto de convidar a passar ao meu barco, gesticulou agradecendo e... nigthy, nada mais.

Com o passar dos dias conheci melhor essa família de um casal e duas filhas. Fomos apresentados uns aos outros, biografias, coisa e tal. Beth é a moça do sax. Aceitei seu convite para percorrer a região entre Carcassonne, Arles, Avignon, Montpellier. Preferi Arles. Usamos ônibus e bicicleta na visita à cidade e ao arruinado castelo. Vimos a ponte “Van Gogh”, antiga Langlois, objeto do artista que dela pintou quatro óleos, uma aquarela e fez quatro desenhos. Gosto muito desse trabalho. Descobrimos que não somos chegados a esse tipo de passeio. 

Debaixo do caramanchão de um barzinho iniciamos namoro de verão. Ela é simplesmente deliciosa. Isso, simplesmente. Voltamos prometendo encontro após a ceia quando tocaria solos da obra prima de John Coltrane, A Love Supreme.

Ela veio, tocou sax, “dançou” com a música, tirou a saída de praia, ficou de micro biquíni. Dançamos e terminamos no meu beliche. Não nos demos descanso. Ela se dizia a Elizabeth Taylor do filme Gata em teto de zinco quente. Que era, era. Prova? Os arranhões nas minhas costas.

Ao se vestir para voltar ao seu barco notou a falta do cordão de um dos lados que prendia as partes da calcinha do biquíni. Mea culpa, apressado que fui. Após várias tentativas lembrei-me que sempre carrego alfinetes de segurança. Isso resolveu esse problema, havia outro: a grossa trança de seus cabelos se desmanchou quando deitamos. Transformado em cabeleireiro, fiz uma trança que mais parecia um amarrado. Disse-me que estava tudo bem. Beijos, abração e nighty.

Acordei tarde. O Napoleon havia partido. Só fui encontrá-lo fundeado depois da segunda eclusa. Amarrei o barco no poste ao seu lado. Os bordos se tocavam com o balanço causado pelo rio. A música corria solta. Eu aguardava ansioso o som do sax. Beth apareceu e me ofereceu um guisado de cordeiro. Buscando seus olhos semicerrados, olhou-me e vi uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Recusou quando quis abraça-la e voltou ao seu barco.

Quando a noite já nos envolvia com seu silencio, Beth em pé na proa começou a tocar. Parou durante uns minutos e recomeçou tocando When the night has come e  Stand by me,  de Ben E. King. Improvisando muito, seu som dava a nítida impressão de choro lamentoso. Depois, silêncio. Nessa noite acordei com a impressão de alguém no barco. Chamei: Beth! Sem resposta e sonolento, voltei a dormir.

No dia seguinte pela manhã vi um envelope com meu nome na mesinha de comer.  Corri para fora da cabine. Napoleon já havia partido. Entendi: era da Beth, claro! Não abri no momento. Demorei para ler o que dizia o bilhete: Baby I been thinking of you all the time.

Desta vez a lágrima foi minha. Reiniciei viagem de volta dois dias depois.



METÁFORAS ORA DIREIS OUVIR METÁFORAS - Oswaldo Lopes

                                   

                                   METÁFORAS ORA DIREIS OUVIR METÁFORAS
Oswaldo Lopes
                                                                                                                                                                                                                                     
Metáfora é como Plebiscito, só se resolve na tranqüilidade do quarto, com chá de camomila e dicionários. De regência, de estruturas, de figuras de linguagem ou de palavras mesmo. Isso já nos   ensinava Machado de Assis.

Era forte como uma porta, não vale, é comparação. Maldição!
José é uma porta. Agora é metáfora só que ele pode ser surdo, forte, estreito etc.

Boa metáfora era a do jogador de futebol americano que jogava na defesa dos 49º de Chicago e era chamado simplesmente de refrigerator. Se chamássemos José de armário a coisa se estreitaria e ficaria mais clara e ainda assim metáfora. O famoso refrigerator dos 49º com o enchimento usado para a prática do tal esporte, sobretudo o de ombros ficava igualzinho uma geladeira.

Acredite-me, as metáforas não caem do céu é preciso procurá-las. Como são muito usadas pelos poetas convém procurá-las entre os poetas. Bem, aí não tem jeito o melhor lugar é a Bahia. Se fossemos procurar entre humoristas aí o lugar era Rio de Janeiro. Cronistas, vá para Minas Gerais.

O que tem na Bahia, além de grandes poetas, de especial: o ritmo.
É costume reconhecer na Bahia quatro ritmos:

- Lento
- Mais lento
- Muito Lento e
- Dorival Caymmi
Não tem metáfora, mas se você diz, de um sujeito que perto dele Dorival Caymmi  era um foguete, apareceu a metáfora e a pessoa deve ser lenta que dói.

Dizem as más línguas que o melhor exemplo de um ritmo Dorival Caymmi é aquele do sujeito deitado na rede que fala (na Bahia não se grita, gritar é coisa de apressado):

- Minha deusa!
- Sim, meu Rei!
- Tem soro antiofídico na geladeira?
- Sim meu Rei, por quê?
- A cobra tá chegando perto da rede.

Antes que um tsunami seja desencadeado pelo texto e os defensores da Bahia comecem a procurar um poste para me erguer, gostaria de esclarecer que Dorival Caymmi era um poeta genial e músico extraordinário que nos deixou inúmeras canções, com versos que nos enchem o espírito de amor, espanto e... metáforas

- João Valentão.... faz coisas que até Deus dúvida
- A jangada saiu com Chico, Ferreira e Bento e.... a jangada voltou só
- 365 igrejas na Bahia têm
- é doce morrer no mar.....fez sua cama de noivo no colo de Iemanjá

Por tudo que nos deu e legou Sr. Dorival Caymmi, descanse na paz, no amor e no doce remanso do mar.

Tal pai, tal filho - Fernando Braga


Tal pai, tal filho
Fernando Braga

Rui, com 11 anos perdera seus pais, ficando órfão, sendo criado por sua tia em São Paulo. Seu pai era um saxofonista conhecido pelo apelido de ¨Cachoeira¨, por ser barriga verde, natural de Cachoeiro do Itapemirim, terra também de Roberto Carlos, o Rei.

Desde a adolescência, Rui que adorava seus pais, guardava lembranças e não se cansava de limpar e alisar o saxofone, que seu pai deixara, e a pequena medalha, presa por um alfinete dourado, que havia ganho em um concurso de vários instrumentos musicais, patrocinado pela secretaria de cultura.

 Aos 18 anos, conseguira entrar na faculdade quando decidiu de vez, ter como hobbies, além dos estudos, o jiu-jitsu e aprender a tocar sax. O instrumento ele já tinha, e dos bons. Foi difícil arrumar um professor para este instrumento e, só o conseguiu em Tatuí, no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, fundado em 1950, obra do estado, quando Garcez era o governador. Sabia que Tatuí era a cidade interiorana, que com mais carinho se cultivava a arte entre seus filhos e que, a 130 quilômetros de São Paulo, era considerada a capital da música no Estado e certamente no Brasil.

Assim, além da faculdade e do esporte, duas vezes por semana tomava a via Castelo Branco e das 15 às 18 horas tinha aulas de início musical e depois de sax. 

Ficou conhecendo o nome e a obra dos grandes saxofonistas brasileiros como Abel Ferreira, Vitor Assis Brasil e outros, e dentre os americanos o grande, o maior, Dizzy Gillespie.

Após ter tido seis meses de aula, seu professor fez tomar conhecimento de que tinha grande potencial, aptidão e facilidade para dominar o sax, devia continuar em frente, e em pouco tempo tocaria como seu querido pai, a quem ele conhecera.

Na Faculdade além dos estudos, conseguiu junto ao centro acadêmico reunir um grupo de colegas, que como ele, gostava muito de música. Organizaram um sexteto, com pianista, violinista, violonista, baterista, uma cantora, e ele próprio.

Com o tempo, ficaram conhecidos por todos os estudantes, pelos professores e quase sempre nos fins de semana, animavam festas e também saiam para tocar em alguns clubes do interior, o que lhes proporcionava muito prazer e ainda, uma boa quantia para ajudar a pagar os estudos. Deixou crescer seu cabelo para ficar mais parecido com seu pai e também com Carlos Gomes, de quem era grande entusiasta, desde que a primeira vez ouvira O Guarani.

Após 5 anos, em sua formatura, o grupo   musical, agora em número de doze, fizeram o encerramento da solenidade, tocando para o enorme público presente, cinco músicas populares brasileiras, e dentre elas o Carinhoso que escolheram para encerrar o repertório. Durante a execução desta última música, Rui adiantou-se ao grupo e solou em seu sax, com tanto sentimento e interpretação a música de   Pixinguinha e Braguinha, que no final podiam-se observar lagrimas correndo de muitos olhos e também dos seus próprios.


Esta era a música preferida de seu pai, que agora ali, naquele momento, também estava presente!

DUREZA! - Dulce Azevedo


DUREZA!
Dulce Azevedo

                Divina é uma mulher muito organizada. Nada foge ao seu comando. Sua agenda sempre está no limite do horizonte, os deveres são estabelecidos germanicamente. A prioridade sempre foi para os deveres financeiros porque o mercado necessita de uma mente pura e veloz para que nada saia errado, pois dinheiro é ouro e vira pó rapidamente. Ela tinha essa consciência.


Depois dos pepinos financeiros resolvidos, viriam os domésticos, estes sim, só Jó poderia ajudá-la começando pela organização das refeições. Seus filhos eram touros. Resolvidos os trâmites domésticos teria seu dia de CLEÓPATRA aliviando toda a sua tensão. Quando termina volta flutuante ao lar tomada de uma grande satisfação.

A VÃ FILOSOFIA - Oswaldo Lopes


A VÃ FILOSOFIA
Oswaldo Lopes


            É um fato quase constante, você pergunta a uma pessoa sobre a frase ou mesmo do início  da famosa frase da peça Hamlet de Shakespeare que faz menção a filosofia  (que se encontra quase que ao fim do primeiro ato),  e se não for uma pessoa muito ligada ou próxima a obra do poeta inglês, acabará por ouvir ... Vã filosofia.

“There are more things in heaven and hearth, Horatio, then are dreamt of in your (Quartos 1 e 2 our no 1º folio) philosophy “
           
                        Recentemente foi publicada uma tradução do famoso quarto de 1603 que vem a ser a primeira publicação conhecida da peça. Aos não familiarizados com a criação dos tipos móveis para impressão, textos impressos passaram a ser comuns e muito desejados pelos consumidores dos séculos XVI e XVII, tal como os iphones do século XXI.

                        A engenhosidade humana foi logo melhorando a impressão, de modo que se imprimiam quatro páginas da obra de uma vez em um dos lados da folha de papel, que depois era dobrada. Como as impressões eram feitas nos 2 lados da página (o papel era precioso e caro mesmo sem os ambientalistas) resultava em uma dobradura de fazer inveja aos origamis japoneses que necessitava abertura dos cantos dobrados para dar acesso ao texto. Os de certa idade se lembrarão do uso de espátulas para se abrir livros.

                        Os originais de Hamlet foram publicados em forma de quartos duas vezes (1603, também conhecido como primeiro quarto Q11603 e 1604, também conhecido como segundo quarto Q21604) ainda em vida de Shakespeare,  e sob a forma de folio (impressão mais cara e maior em que cada folha da impressão continha quatro páginas do original, duas de cada lado do papel, sendo que em conjunto três páginas impressas continham doze páginas do original que eram depois justapostas e costuradas),  já após sua morte  (Fólio 11623). As três versões diferem entre si quer no tamanho, quer na escrita sendo no conjunto objeto de muita discussão.  A frase transcrita acima é semelhante nas três impressões (com a exceção já mencionada do your e our).

            Bem, voltando ao assunto da vã filosofia. Recentemente na muito necessária e boa tradução do primeiro quarto para o português Jose Roberto O’Shea culpa sucessivas traduções pelo aparecimento da vã filosofia:

            “A palavra vã, entre nós estabelecida por meio de sucessivas traduções, na realidade, não consta do texto original”.

             Aqui o ponto é controverso! Nenhum dos tradutores que são considerados no cânone das traduções para o português usou jamais a expressão vã filosofia. Se não vejamos:

            1- Oliveira Ribeiro Neto (Livraria Martins Editora, 1954).
     “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que as sonhadas pela vossa filosofia”

2- Carlos Alberto Nunes (Melhoramentos, vol. XIII, 1955).
     “Há muita coisa mais no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa pobre filosofia”.

Já percebo o leitor franzindo o cenho e pensando está aí a vã filosofia.  Permito-me discordar, pobre não é inútil, além de outras considerações que agora não cabem sobre a linguagem do tradutor.

3- Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (Objetiva 2004[1968]).
     “Há mais coisas, Horácio, em céus e terras, do que sonhou nossa filosofia”

4- Péricles Eugênio da Silva Ramos (Abril S.A. Cultural e Industrial, 1976).
    “Há no céu e na terra, Horácio, bem mais coisas do que sonhou jamais nossa filosofia”.

5- Fernando Carlos de Almeida Cunha Medeiros  e Oscar Mendes Guimarães (Abril Editora,1978).
    “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia”.

6- Geraldo de Carvalho Silos (Editora JB, 1984).
    “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que as contempladas como possíveis na ciência pela qual vós vos interessais”.

É sem dúvida uma tradução sui generis, longa e metafórica, mas não é por isto que Carvalho Silos entrou para a história dos tradutores. O trabalho tomou-lhe bastante tempo e ele ousou traduzir, utilizando as palavras próprias de Shakespeare. A linguagem de Shakespeare em algumas peças insere palavras que costumamos chamar de vulgares, mas de muito efeito quando representadas. O povo enchia o teatro para ouvir, inclusive estes trechos, na voz dos grandes atores que compunham o Globo.

Como nossos tradutores provinham, todos, de classe social elevada e ilustrada, fugiam dessas “vulgaridades” como o diabo da cruz. Carvalho Silos tem o mérito de ser o primeiro a não fazê-lo.

7- Millôr Fernandes (L & PM Editores S/A. 1988).
    “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”.

Poderíamos acrescentar muitas outras, para provar a ausência da vã filosofia nas mais diferentes traduções. No francês a tradução de André Gide é seca, sem floreios. Em Portugal as traduções nem cogitam da vã filosofia, igualmente no russo (Vigotski).

       A questão da inútil filosofia nunca se colocou para os ingleses porque o contexto e seu entorno não indicam esse caminho.

1-     A palavra philosophy no século XVI era o estudo da natureza, das ciências naturais, o conhecimento obtido por observação e não por revelação, ou seja, o conhecimento racional.

2-     Horácio e Hamlet são colegas na famosa Universidade de Wittenberg, de onde Hamlet retornou por causa da morte de seu pai e para onde não retornará, conforme prometido a sua mãe, e em face dos acontecimentos vividos. Horácio acaba de chegar para, como pensa, assistir aos funerais do pai de Hamlet.

3-     No texto do Fólio a palavra usada é our philosophy, se a filosofia é também dele (Hamlet), mais se insere que ela não é inútil, mas sim contraponto a tudo que se vê, o fantasma e suas palavras. Hamlet era e é um scholar, não vai chamar a filosofia que também é dele de inútil.


            Afinal quem foi o criador e, portanto o primeiro a usar a expressão vã filosofia?

            Almeida Garrett é a resposta. Escritor, poeta e político português, teve marcante atividade nos dois lados do Atlântico. No entanto não é verdade, como apregoado por muitos, que tenha usado a expressão na obra póstuma, o romance “Helena”.

Este romance se passa curiosamente no Brasil, no interior da Bahia, mas não é no texto, póstumo, que se encontra a expressão vã filosofia. Há nele menções a Shakespeare, mas não a frase procurada.

  Fidelino de Figueiredo na sua História da Literatura, tomo IV, assim classificou o romance:

“Em 1853, achando-se já doente de cama, escreveu o fragmento de romance Helena, só publicado em 1872. Obra sem valia considerá-la-emos já documento da decadência prematura, muito verossímil num espírito, que tanto se dispersara, e reconhecida à própria natureza dêsse espírito, apesar de por essa data as Folhas Caídas atestarem plena juventude. Considerado serenamente, esse fragmento é tão pobre de imaginação, tão longe do senso comum, tão pueril por vezes, tão penetrado de velhice ávida de almofadas e de calor, que a crítica tem de considerá-la, ou como obra levianamente composta – o que pode ser um subterfúgio – ou como elemento para seguir e avaliar a trajectória dum espírito e confirmar a lei que as faculdades mais tarde adquiridas são as que mais cedo desaparecem. A coincidência de  data com as Folhas Caídas é só ilusória, porque estas estavam já no prelo em 1851 e tinham sido compostas em anos anteriores, algumas já em princípios de1846. A decadência é evidente”.

Ufa! Pelo menos nossa expressão, tão procurada, não se encontra numa obra decadente e póstuma. Vamos encontrá-la no famoso e cultuado VIAGENS NA MINHA TERRA (1846).  Primeiro no corpo do texto a citação shakespeareana:

“Logo a nação mais feliz, não é a mais rica.
Logo o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.
A sciencia d’este século é uma grandessíssima tola.
“E como tal presumpçosa, e cheia de orgulho dos néscios”

E finalmente na nota F relacionada  ao texto acima
“There are more things, etc...................pag 157
A tradução chegada d’estes memoráveis versos de Shakespeare é:
Há mais coisas no céu, há mais na terra,
Do que sonha a tua van philosophia”.

Pronto ai esta, pela primeira vez na língua portuguesa, a expressão vã filosofia.  A questão que devemos responder agora é outra:

Teria Almeida Garrett cacife suficiente para introduzir  na língua portuguesa falada no Brasil essa expressão? A resposta clara é não. Sua tradução encontrava-se numa nota em que a palavra vã parece ter sido introduzida para acertar a métrica, embora ele discuta a inutilidade da ciência.

Quem será, portanto o padrinho na língua portuguesa, falada no Brasil, dessa expressão. Deveria ser alguém que conhecesse com profundidade a obra de Garrett e também a de Shakespeare. Uma só figura reuniu naquele tempo esses requisitos: MACHADO DE ASSIS.

Machado de Assis nasceu em 1839 e Garret morreu em 1854 quando Machado tinha 15 anos, portanto não se conheceram em vida nem é crível que Machado tivesse qualquer noticia de Garret nessa  época. Depois sim, Machado conheceu a obra inteira de Garret e até escreveu um romance com o mesmo nome HELENA (1870). Autodidata leu no original as obras de Shakespeare e traduziu alguns pedaços, e citou outros em romances. Não efetuou, porém,  nenhuma tradução completa de qualquer das peças. É sabida sua preferência pelo Hamlet que levou consigo na primeira e única vez que se ausentou do Rio de Janeiro, indo para Nova Friburgo.

Em 1884 publicou um de seus melhores contos – “A Cartomante” que se inicia da seguinte maneira:

“Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro d e1869, quando este ria dela, por ter ido, na véspera, consultar uma cartomante. A diferença é que o fazia por outras palavras”

A citação é perfeita e a tradução correta com o que está no original. É, no entanto, a partir do seu primeiro grande romance  MEMÓRIAS POSTUMAS DE BRAZ CUBAS que Machado dará inicio às citações de Shakespeare que se tornarão até, diríamos abundantes na sua obra.  O uso do vã se fez, de  modo geral de forma burlesca,  com tom irônico e crítico.  Daí para frente suas crônicas irão registrar o uso do vã em grande quantidade. Se não vejamos:

“É ocasião de emendar Hamlet: ‘Há entre o palácio de Conde dos Arcos e a rua do ouvidor muitas bocas mais do que cuida vossa inútil estatística’ “(1893)

“Há duas astronomias, a do céu e da terra; a primeira tem astros e algarismos, a segunda dispensa os astros, e fica só com os algarismos. Mas há também entre o céu e a terra, Horácio, muitas coisas mais do que sonha vossa vã filosofia”. (1894)

“Portanto, não admira que a dinamite continue encoberta; Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. É velho este pensamento de Hamlet, mas nem por velho perde.” (1896)

Daí o vã como que se instalou no subconsciente das pessoas.

Assisti a uma representação de Hamlet dita com o texto de Millôr Fernandes em que o ator na maior cara de pau introduz o vã, sem cerimônia nenhuma. Se Millôr Fernandes soube disso deve ter procurado os sais ou uma pistola.

Recentemente surgiram algumas traduções, com nomes provavelmente de fantasia, em que uma equipe faz a tradução copiando e plagiando outras traduções. Agora, temos sim, traduções em que o vã de fato aparece numa tradução completa da peça de Shakespeare.
Tomemos por exemplo a tradução publicada Pela Editora ‘Universo dos livros’ no ano de 2007. A tradução é atribuída a Adriana de J. Buarque. Não há no livro nota ou orelha que traga algum dado sobre a tradutora! Na internet não é possível obter nenhuma referência a respeito da pessoa de Adriana J. Buarque Em pleno século XXI em que quase todos demos adeus à privacidade, a autora da tradução não deixou rastros. Estranho, muito estranho... Bem, mais lá esta ao final do quinto ato.

“E, portanto, como estranho deve ser bem-vindo.
Há mais coisas entre o céu e a terra Horácio,
Do que sonha sua vã filosofia.”

E como se o ciclo se fechasse, agora temos o uso do vã em traduções completas, publicadas no Brasil. A qualidade é duvidosa? A origem desconhecida? O destino é o uso em classes de estudantes? O custo é barato? Com esses e outros objetivos menores quem vai se incomodar ou criticar tal procedimento?

Shakespeare por certo não merece esse tratamento, mas como afastar esse tsunami?  Sim, por certo há mais coisas entre o céu e terra do que aquelas que imaginamos.

            

A Decisão da Encruzilhada - José Vicente J. de Camargo



A Decisão da Encruzilhada
José Vicente J. de Camargo

Sabia pelos relatos de meus pais e tios, que minha avó materna Ana gostava de contar histórias que depois escrevia e ia guardando numa caixa de papelão. Nas festas em família  contava algumas quando solicitada. Tinha uma linda letra e um bom tom de voz, que na sua época eram dons importantes de uma pessoa.

Eu mesmo na infância e adolescência presenciei algumas destas leituras. Eram contos alegres e românticos, mas todos com um fundo religioso, pois era católica praticante. Seus pais, meus bisavós, vieram de Portugal e aqui trabalharam duro na lavoura do café. Ficou órfã muito cedo dado que os pais foram vitimas da febre amarela e do tifo. Não tendo outros familiares no Brasil, a entregaram a um convento onde foi criada e educada para receber os votos de freira.

Foi então que iniciou, aos dezessete anos, a guardar seus segredos ao enamorar-se pelo filho do jardineiro. Chamava-se Antônio que, percebendo os olhares disfarçados de Ana, os correspondia furtivamente até um dia lhe entregar uma rosa vermelha sem nada dizer. E assim se comportou nas semanas seguintes, quando vinha com o pai ajudar na manutenção. Ela esperava ansiosa esses dias para ler a bíblia no claustro interno que contornava o jardim, esperando o momento da rosa e a troca de olhares cada vez mais intensos.

Estes gestos, porém não passaram despercebidos das freiras que levaram ao conhecimento da madre superiora. Esta a indagou se estava realmente convencida em se tornar serva de Deus ou se preferia a vida de casada. Deu-lhe um tempo para pensar e, em caso positivo, falaria com o pai de Antônio sobre o casamento.
Ana preferiu o romantismo da rosa vermelha. Fez questão de casar-se aos pés da rústica cruz de madeira fincada em frente ao convento junto a encruzilhada que levaria a sua nova morada. Este local era o seu preferido para as orações. Transmitia-lhe forças, se sentia mais próxima do Senhor principalmente quando sentia qualquer vestígio de fraqueza na sua fé.

Foi aí também que batizou seus filhos e fazia questão, após as missas de domingo, de rezar o terço em família.

Eu, primogênito dos netos, convencia os demais a acatar os desejos da avó, embora meu próprio pensamento estivesse mais na pelada de futebol com os amigos no campinho da rua.

 Outro segredo que guardou foram as dores que lhe vinham chegando e, por não incomodar, não contava a ninguém. Até que, percebendo o fim próximo, resolveu esconder seus escritos,  pois, em alguns relatara confidências que não queria expô-las e assim poupar-se de dar explicações de seus atos. Também o costume de ler suas histórias em família cessou, causada pelo desmembramento com os inúmeros casamentos ocorridos.  Escondeu então a caixa de papelão embaixo do assoalho do quarto de dormir.

Partiu rodeada por todos com o semblante em paz. Ao despedir-me dela segurou firme minha mão e puxou-me para si balbuciando:

− “Não esqueças da cruz na encruzilhada! Agradeça a Ele por mim!”

Só comecei a entender o significado dessas palavras quando, após o falecimento do meu avô, meu pai resolveu reformar a casa para vender e encontrou a caixa de papelão. Ao ler um dos  contos ficou chocado, pois teria mudado a existência de todos.

A notícia espalhou-se rapidamente. O choque que meu pai recebeu, estendeu-se também aos demais familiares, só que com impactos diferentes. Para uns uma grande decepção, para outros, influências da educação religiosa. Para mim, entretanto uma linda lição de amor e sacrifício.

Trecho de seu conto polêmico:    “A Decisão da Encruzilhada”

“Minha família me proporciona alegrias, mas também muitas angústias e tristezas em sentir a penúria que passamos por falta de condições, pelo pouco  comer, pelo frio cortante nas noites de inverno, pela impossibilidade de satisfazer muitos dos seus anseios. Minha maior felicidade seria  poder oferecer mais  conforto, saúde, educação, melhores perspectivas de vida e  mostrar-lhes o verdadeiro amor de Cristo ressuscitado.

Com essa intenção peço, cada vez com mais fé, na cruz de madeira na encruzilhada, que Deus me dê coragem de retornar a vida no convento, na clausura constante das orações. Sinto que só assim posso, através delas, realizar esse desejo de oferecer a eles o que merecem, pois estariam nas mãos protetoras Dele”...

Então todos queriam saber o que impediu a avó de realizar sua vontade, já que era uma mulher decidida e a coragem com fé pediu.

A resposta obtive quando voltei e prostrei-me aos pés da cruz na encruzilhada. Um braço apontava o convento, o outro o caminho da nossa morada. Como se ela ao meu lado estivesse,  compreendi o significado de suas balbuciantes  palavras finais.

Sim! A decisão Ele indicara!:

“Tua missão é terminar o que começastes. Não temeis os maremotos, sejais firme no timão de teu barco. Na oração te darei a força necessária para chegar à calmaria do porto feliz...”


E foi assim, que a partir desse dia me pus a escrever. A transpor ao papel os sentimentos e as histórias corridas nos dias da vida. A extrair da alma um pouquinho de mim...

Nada a declarar - Dulce Azevedo



Nada a declarar
Dulce Azevedo

            ...Chita era muito engraçada com seu porte atlético e dimensões espetaculares. Os músculos saltavam aos olhos com se fossem armaduras medievais reluzentes e douradas.

Gostava muito de sair ao amanhecer de sua caverna para desfrutar dos sabores exóticos da floresta. As cores, os odores e as texturas das frutas despertavam cada vez mais a sua curiosidade, essa sim insaciável. Constantemente andava com Lurdes, sua amiga de infância inseparável que usava sua tromba para alcançar o inalcançável. Certo dia combinaram as duas, uma expedição para a Floresta Negra. Sinistro passeio, pois em nenhum momento contaram com os imprevistos como os diversos répteis que existiam por lá.

O caminho era muito úmido e sinuoso, não dava para enxergar nada. Foi quando depararam com uma enorme cobra de cor acinzentada que se postou em forma de pirâmide para atacá-las de frente. Lurdes que não era nada ágil, devido ao seu tamanho, foi possuída  por uma leveza extraordinária bailando ao lado da cobra deixando-a totalmente atordoada. Parecia que elas estavam valsando lentamente como se o perigo não existisse. O cenário era perfeito, a terra e a poeira subindo criando assim uma atmosfera única para o belo espetáculo. Num desses rodopios Chita se aproveitando da distração da serpente deu-lhe um belo soco, que a coitada foi parar no colo dos meus amigos turistas, que até então não tinham notado a cena, pois estavam entretidos com a beleza do safari Flashes foram disparados em todas as direções, pois o acontecimento pitoresco merecia muitos registros, podia até imaginar como seria a capa do SAFARI NEWS do dia seguinte:


“Guardião da floresta luta pela Paz e Harmonia...“       
                                                                                                                                                 

A FILHA CASAVA, EU QUASE DANCEI. - Oswaldo Romano



A FILHA CASAVA, EU QUASE DANCEI.
Oswaldo Romano

            Conto o que aconteceu neste último sábado.

            Casava a filha do Edmundo, um velho companheiro com quem sempre compartilhamos nas suas construções procurando assim fazer mais um pé de meia para o futuro da família.

            O casamento estava marcado para as 19:30. A cerimônia religiosa seria realizada na sala preparada no próprio  espaço  do evento, na Rua Tabapuã chamado Leopoldo.

            — Pai, telefonou meu filho que reside no Real Parque, também convidado. — Venha até aqui e iremos em um só carro. Mas não se atrase, tenho que levar um pedido do Edmundo pouco antes da cerimônia.

            Livre de dirigir por mais tempo, em casa comecei a tomar alguns, mesmo antes do banho, já preparando ficar calibrado para a grande festa.
            Na ida, todo feliz, terno e gravata, a mulher de longo, pela primeira vez me dei com a polícia. Na marginal, próximo a Ponte Estaiada fui parado pelo comando da Lei Seca.

            Com um estridente silvo de apito, ordenou que eu encostasse. Sujou, pensei. Mal começava abrir o vidro...

            — Documentos, por favor.

Era jovem, parecia meu neto.

            — Pois não, seu guarda.

Abri o porta-luvas, retirei e entreguei os documentos do carro.

            — A carta, por favor?

            — Sim senhor, um momento.

            — Este é um comando da Lei Seca, senhor.

Nesse momento outro já vinha com o “penico”.

            — O senhor quer descer ou soprar ai mesmo.

Já pensou se algum conhecido me visse soprando aquele treco, quase no meio da rua?

            — Tudo bem amigo, eu desço, é mais cômodo.

Antes da minha vez, o próprio que trouxe o bafômetro o apanhou com alguma pressa,  Eu até gostei, enquanto justificava com o policial.

            Nisso toca meu celular. Era o filho que dando a bronca adiantou estar atrasado e que aguardaria na igreja, ou melhor, no evento. Aproveitei e já com o aparelho desligado, fiquei falando só:

            — Tenha paciência, claro que a noiva não pode esperar. Estou atrasado, por favor vai resolvendo por lá. Aguarde-me, logo estou chegando. Pra que toda essa braveza?

Falei como quem estivesse discutindo se justificando, o guarda ao lado. Minha mulher interveio:

            — Moço, seu guarda...


Ele antes de ouvi-la foi dizendo: — Tudo bem, tudo bem, podem ir. Faço como o juiz, bato o martelo e dou por encerrado.

UM SIMPLES DESCUIDO - Dulce Azevedo


UM SIMPLES DESCUIDO 
Dulce Azevedo

              O feriado se aproxima e a programação para ele já esta feita. Em um consenso geral resolvemos ir em direção à praia, pois a meteorologia previa um fim de semana agradável com bastante sol. Imperdivel!!!

               Como combinamos, acordamos às 7:00 horas da manhã, e partimos para praia. O trânsito favorecia a viagem, pois desde a marginal do Tietê até a Rodovia Ayrton Senna estava tranquilo, só ficando um pouco intenso com a proximidade da Rodovia dos Tamoios, via moderna, mas cheia radares dificultando assim o escoamento dos carros em direção ao litoral norte, nosso destino.

Após 4 horas de viagem chegamos ao paraíso de Itamambuca, praia exuberante encravada entre dois morros preservando ao seu redor a fauna e flora da Mata Atlântica. Não tínhamos mais tempo a perder. Instalamo-nos na casa e tratamos rapidamente de caminhar em direção ao mar.

Quando cheguei me deparei com algo magnífico! Aquele mar de azul profundo brilhava intensamente eu mal podia enxergar os surfistas aproveitando as ondas perfeitas, os atletas de fim de semana correndo pela orla,  porque o reflexo me cegava. Resolvi então caminhar na beirada da praia, pois além de me exercitar também me refrescaria. Muitas vezes no percurso fui surpreendida por jovens andando de Sonrisal (pranchinha de fibra ou madeira que desliza facilmente pela areia) , fazendo mirabolantes manobras que dependiam de muita habilidade a meu ver. Desviava deles e continuava minha jornada. Totalmente livre podia observar as diversas brincadeiras pelo caminho. De um lado uma família fazia um piquenique cheio de guloseimas. Mais para frente um jovem corria com o seu lindo cachorro de cor achocolatada. Uma criança com sua mãe fazia o famoso castelo de areia. Tudo na mais perfeita sintonia com uma sincronização de ações harmoniosas, lindo.


O sol estava se pondo quando vejo uma grande movimentação de salva-vidas indo em direção ao mar, que não estava bravo, mas a maré  era muito forte e os surfistas experientes não tinham dificuldades, mas os novatos desavisados eram tomados de surpresa pelo empuxo não conseguindo se desvencilhar dele, levando-os de uma forma bruta para o fundo. Foi o que aconteceu um jovem se desesperou e ficou durante horas à deriva, abandonado esperando ser resgatado daquela situação angustiante. Ele estava exausto quando a equipe de salvamento equipada com pranchas, coletes e jet-skis se aproximaram o surfista, que se jogou em cima deles causando um grande reboliço com toda a equipe de salva-vidas. A ação durou uma hora e meia, parecia muito mais, mas não teve sucesso. O inexperiente surfista perdeu os sentidos e teve que ser resgatado por um helicóptero vindo de Ubatuba. Acabada toda parafernália voltei para o meu fim de tarde maravilhoso da melhor maneira possível. Caminhando deliciosamente pela beirada da praia de areia macia com diversos acontecimentos inusitados que gerariam conversas para a noite toda...