O show continua - Jeremias Moreira



O SHOW CONTINUA
Jeremias Moreira
Recebi a ligação do Dunga com a notícia de que precisavam de um sax-tenor na banda onde era o baterista, com urgência. Se estivesse afim eu deveria fazer um teste ainda nesta tarde. Desliguei o telefone, botei algumas roupas numa mochila, peguei o meu sax e fui para a rodoviária. Às cinco da tarde estava no Studio Avenida abrindo o estojo do instrumento. Passamos algumas músicas e o Jerry, o chefe da banda, me aprovou. Eu deveria me apresentar já no show daquela noite. A estrela do espetáculo era a Elena Grimaldi e havia uma música em que faríamos um dueto - sax e voz – por isso eu deveria esperá-la para um ensaio. Enquanto isso fui a uma padaria próxima, comer alguma coisa, e me pus a pensar nos irmãos Marchiori, com quem eu tinha uma dívida de jogo. Minha dúvida era se os avisava sobre a minha repentina saída de Ribeirão. Sabia da crueldade como agiam com quem tentasse enganá-los. Esperava que eles não interpretassem dessa forma. Minha vida andava tão confusa e de repente aparecera essa oportunidade e queria muito aproveitá-la. Nada deveria atrapalhar. Optei por contata-los na semana seguinte e explicar tudo. Eles haveriam de compreender e eu, certamente, teria algum dinheiro para abater parte da dívida. Estava absorto com esses pensamentos quando avistei uma loira espetacular tomando um café, apressada, no outro lado do balcão. Ela estava acompanhada por um brutamonte que poderia, muito bem, ser o doublê do Hulk. O Hulk foi até o caixa enquanto a loira remexia em sua bolsa. Eu a olhava tão magnetizado que acredito que foi o que lhe chamou a atenção. Ela ergueu o olhar e virou-se para mim. Ficamos alguns segundos nos encarando até que o Hulk voltou. Ela sorriu discreta, como quem diz “lamento”. Colocou a alça da bolsa no ombro esquerdo e o seguiu para fora da padaria. Terminei meu lanche e voltei para a casa noturna. Logo na entrada dei de cara com o Hulk, que falava no celular. Fiquei intrigado com sua presença e quando cheguei ao palco lá estava a loura da padaria. Ela era Elena Grimaldi. Quando fomos apresentados havia magnetismo de verdade em nossos olhares e demoramos a perceber que Jerry iniciara sua orientação de como queria o solo. Iniciamos o ensaio e o solo foi fantástico. Foi um verdadeiro jogo de sedução. Com seu jeito de cantar e um olhar sensual, ela enviava sinais manifestos de que a paquera era de mão dupla. O Jerry se deu por satisfeito, encerrou o ensaio e quando Elena passou por mim sussurrou que me aguardava no camarim. Nossa discrição não impediu que Dunga sacasse, o tempo todo, o que rolava. Aliás, me conhecendo, já esperava por isso. Puxou-me de lado e me contou os detalhes. O Studio Avenida pertencia a Galeno Rocha, o maior banqueiro do jogo da cidade. Elena era sua protegida e outras “cositas más”. O dublê de Hulk era o Pichinga, um dos seguranças de Galeno e encarregado da marcação cerrada sobre Elena. Um cara mau. Eu que me cuidasse. Se há uma coisa que não sei fazer é me cuidar. Hesitante, guardei o sax no estojo e lentamente caminhei em direção à padaria, onde o Dunga me esperava. De longe avistei o Pichinga na stage door, ainda ao celular. Nesse instante ele não vigiava Elena. Lembrei-me, quando ainda adolescente, do ensinamento de meu irmão: “com mulher a gente só tem uma única chance”. O descuido do Pichinga soou como um presságio e fui apossado de um forte sentimento, que, como um imã, me arrastou até o camarim dela. O corredor estava vazio. Parei diante da porta e dali conseguia sentir o perfume de Elena.  Dei três batidas. Minha pulsação foi a mil nos segundos que se seguiram. A porta se abriu e dei de cara com um homem mais velho, bem vestido, olhar altivo, que me recebeu surpreso.  Desceu o olhar para o instrumento que eu segurava na mão e voltou a me encarar:

-- Deseja algo? – perguntou com ar superior.

Deduzi rápido que estava diante do próprio Galeno Rocha. Certamente, ele surgira no clube de surpresa.

-- Oh! Não... nada... só queria me desculpar com a Elena do meu vacilo no ensaio. No show vou entrar no tempo certo. Queria dizer apenas isso. Desculpe. – improvisei.

-- Ok! Recado dado. – ele disse.

Despedi-me e sai rumo à padaria. Nem quis imaginar o que aconteceria se Galeno chegasse meia hora depois.


Suspense na estrada - Fernando Braga


Suspense na estrada
Fernando Braga

Noventa anos! Uma festa à nossa sogra, oferecida por meu cunhado, em seu sítio próximo a Salto. Para tão importante reunião, toda a família fora convidada, vindo parentes de várias cidades do interior, a maioria da capital. Foi um regozijo geral, pessoas que há muito não se viam, uns agora bem velhos, os filhos, os filhos dos filhos, namoradas dos filhos e dos netos, enfim um grande acontecimento. A sogra, parecendo uma galinha angorá, querendo mostrar as suas penas, muito feliz por ver toda a família reunida, mas... sempre comentando sobre a ausência destes ou daqueles que, Deus havia chamado.

Foi lembrada por todos como uma mulher vitoriosa, aberta, de fibra, que apesar de ter ficado uma viúva aos 40 anos, tocou sua vida, criou as duas filhas, ajudou seus semelhantes, sempre dentro de um espírito abnegado e invejável. Estava como um acaçá. O ponto alto foi seu encontro com o irmão mais novo com 84 anos, que não via há 10 anos. Abraçaram-se, se beijaram e um ficou olhando para a cara do outro como se estivessem extasiados. O irmão, era um professor aposentado, que vivia noutro estado, tido como culto e que gostava de mostrar os seus conhecimentos, quando houvesse uma chance. Certo momento aproximei-me da mesa em que estava sentado, rodeado de ouvintes e o ouvi dizendo:

— Sou um bardo, debicador, fecundo, aforista, repetindo em seguida, os dizeres de Pessoa: “valeu a pena, valeu! Sempre vale a pena quando a alma não é pequena!”.

  A sogra bebeu e comeu como se tivesse 30 anos, fez um discurso breve e repetiu duas vezes que, quando ficasse velha não queria nunca andar em uma cadeira de rodas. Nunca se sentiu velha!

 Ao entardecer começaram as despedidas e cada um tomou seu carro para a volta. Estávamos em dois carros, um deles eu guiava, conduzindo minha esposa na frente e atrás a sogra, e um de meus filhos,  e no outro carro, dirigido por meu filho mais velho, sua esposa e o outro filho, com sua namorada. Saímos juntos do sitio, tomamos a Rodovia do Açúcar, passamos ao lado de Itu e logo após, foi feita a curva sobre a rodovia Castelo Branco para entrarmos em sua pista, via São Paulo. Ele, ao entrar na Castelo, o fez com imprudência, pois um carro que vinha em grande velocidade, na pista externa, teve que desviar abruptamente seu curso. Quando entrei na rodovia, ele já estava uns 500 metros na frente. Havíamos combinado pararmos no primeiro posto para abastecimento e um café. Ao pararmos nas bombas, ele saiu do carro e veio falar comigo:

— Pai, você viu que desgraçado, que abutre, que animalaço? Um carro amarelo com um moço japonês guiando, tentando bater em meu carro, tentando me jogar fora da estrada? Ele abriu a janela, gritou como louco dizendo que ia me matar!

— Não, não vi! Eu estava uns 300 metros atrás! E ele onde está?

— Foi embora, felizmente paramos neste posto.

Tomamos nosso café e saímos, ele na frente. Logo que saiu, pegando a estrada, vi que saiu um carro amarelo em grande velocidade, que estava parado próximo à saída do posto. Logo percebi que devia ser o japonês, esperando acertar uma vingança, que colocara em sua cabeça. Acelerei e fui ao encalço dos dois. Percebi tudo e notei que o japonês queria bater na traseira do carro de meu filho para que se acidentasse. Nesta hora eu também fiquei louco e procurei emparelhar com o carro amarelo. Meu filho sentado atrás, abriu a janela, pôs meio corpo para fora, pegou a raquete de tênis e jogou-a contra a janela do outro carro. Nesta altura, criou-se o maior reboliço: eu tocando a buzina fortemente, minha sogra gritando dizendo que não queria morrer no dia de seu aniversário, minha mulher pedindo que desistisse, mas naquele momento eu nada ouvia, estava possesso, procurando defender meu filho e os demais. Quando o japa percebeu que estava sendo espremido e que havia outro carro na jogada, resolveu salvar sua pele, acelerou seu carro, que era potente, ganhou distância e sumiu, quando então diminuímos nossa marcha. Seguimos a viagem juntos, observando se o infeliz não estava parado nos aguardando, novamente. Perdemos uma valiosa raquete de tênis. Todos nós, tivemos um grande momento de suspense e emoção, onde podíamos ter sofrido um acidente grave. Por isso, não devemos andar armados!


Minha sogra contava a todos este acontecimento, com um espírito muito gracioso e divertido, que marcou os seus 90 aninhos.

COMO USAR O SEU WORD - Word 2010 básico para iniciantes 02

EscreViver ajudando você  a utilizar o computador com mais conhecimento.
Abaixo temos um vídeo tutorial que ensina como utilizar o Word.
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Boa sorte!



CONTOS CLÁSSICOS PARA DELEITE DE BONS LEITORES

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CONTOS - APRENDENDO COM OS CLÁSSICOS


Nela você vai encontrar contos famosos, e outros nem tanto. Nomes de autores, quase todos muito conhecidos. Alguns contos com análise literária - aproveite!

Estude com com Cora Coralina, Rubem Braga, Clarice Lispector e outros escritores que têm sua marca na literatura brasileira. 

(aqui mesmo neste blog - acima)



COMO COMECEI A ESCREVER - Crônica de Carlos Drummond de Andrade


COMO COMECEI A ESCREVER
Carlos Drummond de Andrade

Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma vez por semana aos domingos. As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publicadas no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde. Não dava para ler o papel transformado em mingau.

Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de Domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar.

Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narra um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras.

Daí por diante as experiências foram se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a leitura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar. Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estavam germinando. Meu irmão, estudante na Capital, mandava-me revistas e livros, e me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz, tive sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever.


Então começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café-sentado ( pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado ) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.

O padeiro - Crônica de Rubem Braga


O padeiro
Rubem Braga

 Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

 Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

 - Não é ninguém, é o padeiro!

 Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?

 "Então você não é ninguém?"

 Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...

 Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

 Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"

E assobiava pelas escadas.


Texto extraído do livro:

Para gostar de ler, Vol I -Crônicas . Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. 12ª Edição. Editora Ática . São Paulo.1989. p.63 - 64.

A hora do pó, das cinzas e do nada - Crônica de CARLOS HEITOR CONY




A hora do pó, das cinzas e do nada
CARLOS HEITOR CONY
do Conselho Editorial

No Convento dos Frades Capuchinhos, ali na Via Veneto, quase chegando à Piazza Barberini, há muitos religiosos sepultados, esperando pelo dia da ressurreição da carne -um dos dogmas da Igreja Católica. Como acontece no Congresso brasileiro, há de tudo ali, inclusive o alto e o baixo clero. O mais notável representante dos cartolas é o próprio fundador do convento, o cardeal Antonio Barberini, capuchinho de origem e irmão do papa Urbano 8º.

Havia um ditado em Roma: o que os bárbaros não fizeram, fizeram os Barberini. Bem, não vou perder tempo e espaço falando das desditas de Roma e do neoliberalismo dos Barberini -que acreditavam no mercado com o mesmo entusiasmo dos nossos governantes de hoje.

Dentro da igreja, está o túmulo desse Barberini, coberto por uma lápide de mármore, na qual ele próprio pediu para que escrevessem o seu epitáfio. Nenhuma alusão à sua família, a seu nome e honrarias. Pode-se ler ainda hoje: ``Hic jacet pulvis, cinis et nihil''. Tradução literal: Aqui jaz pó, cinza e nada.

Desculpando-se o erro de concordância (devia ser: ``hic jacent'' e não ``hic jacet''), louve-se não a modéstia, mas o realismo do cardeal. Bem verdade que seu nome ficou na história: além da praça, a estação de metrô mais próxima também é Barberini. Mas dele mesmo ficou (ou ficaram) pó, cinza e nada. E é nele que eu penso nesta quarta-feira de cinzas quando escrevo o artigo que sairá na sexta-feira que também devia ser de cinzas.

Olha que este início de 1997 está sendo uma fogueira a reduzir a cinzas alguns dos talentos mais importantes do nosso tempo. O obituário dos jornais, que antigamente se reduzia a uma coluna apertada lá pelas últimas páginas, de repente virou rubrica nobre, com direito a fotos colossais e cobertura de primeira classe.

Por falar nessa primeira classe, antigamente havia enterros de primeira, segunda e terceira classe. Meu avô Horácio teve enterro de segunda, seu irmão, que era deputado federal, teve enterro de primeira, com direito a coches suntuosos, cavalos negros e ariscos, acompanhamento de 50 carros.

Nosso vizinho na rua Lins de Vasconcelos, que era fiscal de não sei o quê e todas as tardes ficava sentado numa cadeira de vime na calçada, de pijama, esperando o resultado do bicho, esse teve enterro de terceira classe, com um solitário carro de praça que meu pai alugou para que a família dele pudesse levá-lo àquilo que os jornais da época chamavam de última morada.

De qualquer forma, de primeira, segunda ou terceira, um enterro tinha dignidade e dor. A família recebia um salvo-conduto dos vizinhos e podia uivar a noite inteira, descabelar-se, nenhum mortal podia ir satisfeito para o outro mundo se não provocasse desmaios e urros. Apesar disso, todos procuravam portar-se com dignidade.

Como ia dizendo, estamos em temporada mortuária e perdemos nesses últimos dias gente de talento como Edmundo Moniz, Antonio Callado, Paulo Francis, Mário Henrique Simonsen. É um pacote respeitável, mesmo sem a inclusão do Vicente Matheus, do Joaquinzão, do Chico Science.

Costumo romper relações com os amigos que morrem. Mesmo assim, fui ao enterro do Callado -e já comentei aqui o festim em que ele se transformou. Estava em Roma quando morreu o Francis- sua morte repentina foi uma cacetada em todos os seus amigos e é possível que a sua despedida tenha tido maior compostura. Vi as fotos do enterro de Simonsen, a magra figura do vice-presidente da República em exercício espremido pelas tumbas e pelas pessoas que acompanharam o ex-ministro à já referida última morada.

Já disse que o Cemitério de São João Batista, em Botafogo, não é confiável. Prefiro o do Caju, onde estão os meus maiores. Basta dizer que, no São João Batista, deixaram o vice-presidente em exercício, com sua patibular magreza, entrar e sair do cemitério.

No Caju, onde os coveiros são mais experientes e conhecem melhor a vida e a morte, o vice-presidente não sairia assim sem mais nem menos. No mínimo, ele seria indagado se não queria ficar logo por ali mesmo, para queimar etapas.

Volto ao desfalque na inteligência nacional. Foi dose. Volto também ao cardeal Barberini, que fez muitas e más durante a sua vida, mas, apesar de acreditar, por obrigação profissional, na ressurreição da carne, desconfiou que dele sobrariam pó, cinza e nada.

Não sei por quê, acho que da recente fornada fúnebre, o Francis é o que mais se aproxima do cardeal-capuchinho. Sem ser religioso, ele tinha atração pela liturgia, pelo patrimônio cultural e artístico da Igreja Católica. Ignoro se deixou epitáfio -morreu imprevistamente e não deve ter tido tempo para pensar nisso. Não faz muito tempo, ele se declarou tecnicamente morto. Acredito que, agora, ele deva estar tecnicamente vivo.


CICLOVIAS: QUANTIDADE OU QUALIDADE? - Crônica de Carlos Cedano



CICLOVIAS: QUANTIDADE OU QUALIDADE?
Carlos Cedano
Estilo: Crônica

O Governo Municipal de São Paulo está empenhado em implantar uma extensa rede de quatrocentos quilômetros de ciclovias até o fim de 2015.

Atualmente as experiências melhor sucedidas de ciclovias são aquelas da Avenida Brasil e Faria Lima. O mesmo “sucesso” é esperado na futura ciclovia da Avenida Paulista que deverá fazer jus a seu caráter de “cartão postal” da cidade.

As grandes intervenções que se implantam numa cidade normalmente geram controvérsias entre os que são afetados negativamente e aqueles que delas se beneficiam. São apaixonadas e não poucas vezes radicais! Mudanças de hábitos e costumes precisam de um período de “acomodação” dos interesses e pode ser demorado. A rede de ciclovias não escapara desse processo.

De um lado, o motorista de carro particular se sente cada vez mais prejudicado na prioridade que tinha nas vias públicas. Eles queixam-se da continua perda de espaço de circulação causada, primeiro pela implantação dos corredores de ônibus, depois pela “liberação” indiscriminada dos “motoboys” cuja introdução causou e ainda causa caos e insegurança na circulação; em 2013 a mortalidade entre os motoboys atingiu 400 vítimas fatais sem contar as numerosas que ficaram inválidas.

E agora as ciclovias! É o novo competidor na luta pelo espaço de circulação! Além disso, cada ano é crescente o número de novos carros que se incorporam à frota existente sem a correspondente ampliação do sistema viário.

Por seu lado os ciclistas alegam falta de respeito por parte dos usuários de carro que invadem as ciclovias e falta de segurança que têm facilitado assaltos em muitas delas. Argumentam que o aumento das ciclovias, se bem feitas, estimulará o incremento do número de ciclistas e o transito geral melhorará. Será?

Porem, as críticas mais fortes são feitas ao poder público. Critica-se a implantação de ciclovias em lugares inapropriados com pendentes ou declives excessivos que dificulta ou interrompe a circulação; em outros casos a ciclovia não passa da simples pintura do corredor sem melhorias no asfalto, sem tratamento dos bueiros que desequilibram o ciclista, sem sinalização adequada e sem limpeza do mato que aflora nos cantos da ciclovia. Em muitas situações a largura dela não permite uma circulação com os outros meios de transporte com um mínimo de “folga” entre eles. Nestas situações os ciclistas circulam com preocupação e medo permanente de acidentes.


Porem o poder municipal tem pressa! Implanta muitas ciclovias de modo precário, sem continuidade física ou com frequente suspensão das obras seja por falta de equipamentos de segurança e sinalização ou por falta de verba. Não podemos esquecer que no fim de 2015 já estaremos em plena campanha para eleição do novo prefeito! Teremos uma rede ciclovias com qualidade o uma rede extensa, porém capenga?  

NESTA SECA, O QUE SOBE É A VIOLÊNCIA. - Crônica de Oswaldo Romano


NESTA SECA, O QUE SOBE É A VIOLÊNCIA.
Oswaldo Romano                                              

Eu não sei por que temos enorme contingente de policiais, mas...
Eu não sei por que cresce o número de bandidos, mais armados, mais violentos.
Eu não sei por que sem proteção, somos vencidos pelo medo, perdemos o sossego, perdemos o revide da honra, da humilhação, da dignidade, da reação. Só assim podemos sobreviver.
Eu não sei por que o papel da polícia deixou de ser proteção. Só comparece na hora do             boletim da ocorrência. Confronto com bandidos é pura casualidade.
            Eu não sei por que as autoridades se mostram impecáveis nas suas posturas, mas vazias, desprovidas de massa encefálica útil.
            Eu não sei por que o roubo é considerado ato simples, banal, coisa corriqueira do dia a dia, desprezado por completo. Mas, quando seguido de morte, requisitam o IML, é mais um que vai para a geladeira.
            Eu não sei por que não temos a proteção e respeito pessoal que merecemos. Portas trancadas a sete chaves. Janelas com        grades e alarmes. Câmeras noturnas, cabines blindadas, cercas elétricas ligadas na Web, portões com câmeras. Seguranças             armados carros blindados, sensores e cigarras eletrônicas.
            Eu não sei por que temos que suportar calados. Calados e desarmados. Não estranhe caso aconteça muito em breve, motoristas dirigindo com os cintos de seguranças, capacetes de guerra que cobrem as orelhas e coletes a prova de balas.

            Mas, eu sei por que... Os bandidos já estão na frente. Agora usam fuzis.

ESCREVIVER COM NOVA TURMA - QUARTAS FEIRAS DAS 14:30HS ÀS 17:30HS




O EscreViver está crescendo!

Nova turma começa na próxima quarta feira -  04 de março de 2015 - das 14:30 horas às 17:30 horas.

A Oficina de escrita criativa instiga a criatividade para os contos literários, e acompanha o progresso no emprego de novas técnicas.

Além disso, estimula a publicação dos textos, e edição de livros.




AS PESSOAS E SEUS CELULARES - Crônica de Jeremias Moreira



AS PESSOAS E SEUS CELULARES
Jeremias Moreira
Estilo: Crônica

Nasci nos anos 1940 e vivi a infância, a adolescência e a juventude nos anos 1950/60. Num mundo muito longe de ser informatizado. Ontem ouvi uma menina, que sequer teria onze anos, mas que portava dois celulares, dizer surpresa para outra, que afirmara não possuir o aparelho: “Credo! Como você viveu até hoje?” A pergunta da menina me remeteu ao passado, quando vivíamos sem os celulares. A vida corria ao som da Jovem Guarda, dos Beatles, da Bossa Nova e por aí afora. Tivemos Garrincha e Pelé. O suicídio de um presidente e deposição de dois. O país mergulhou numa ditadura militar. Veio a abertura política e sobrevivemos a tudo isso sem a existência desse milagre da comunicação. É inegável que o celular tornou a vida mais prática. De qualquer lugar, fala-se com quem precisamos. Mandam-se mensagens. Orientamos-nos pelo GPS. Chamamos um taxi, de onde estivermos. O celular nos mantém conectados com o mundo. Mas, aí que reside um grande perigo. Hoje, um grande contingente humano não consegue se desconectar. Nomofobia é o nome desse distúrbio moderno. Para muitos, somente a ideia de ficar distante do aparelho, mesmo que esteja com ele nas mãos, é assustadora. Presenciei numa lanchonete, um grupo de seis jovens e cada um deles, absorvido pelo seu próprio aparelho, se comunicava sabe-se Deus com quem, enquanto entre eles o diálogo era monossilábico. Diante desse mundo digital e dos smartsfones, no que me diz respeito, prefiro os Beatles e a Bossa Nova e sonho ter Garrincha e Pelé de volta.

Madalena já era! - Crônica de José Vicente J. de Camargo



Setembro 1947: Bonde 'Frad. Coutinho' sobe a rua Xavier de Toledo, dirigindo-se à Pinheiros, onde fazia ponto final na esquina da Rua Theodoro Sampaio com a Rua Fradique Coutinho



Madalena já era!
José Vicente J. de Camargo
Estilo: Crônica

Seu nome tem Vila, mas vila mesmo deixou de ser há muito tempo...

Conheci-a no tempo do bonde aberto nos lados, cobrador uniformizado de pé nos trilhos, tinindo em cada parada a campainha do “avante”. Passageiros humildes, já que andar de bonde era coisa de pobre, classe média andava de ônibus e rico de lotação ou táxi.

Suas casas eram simples, geminadas,  algumas assobradadas, mas quase todas com jardim floridos na frente, e quintais nos fundos onde predominavam as mangueiras e os abacateiros.  A maioria delas habitada por famílias de imigrantes portugueses e italianos.

Aos poucos, os demais bairros da cidade a foram invadindo, atraídos pelo seu ar interiorano, charme bucólico relembrando o “Green Village” ou o “Soho” nova-iorquinos. Bons restaurantes e aconchegantes bares de música ao vivo foram pipocando pelas ruas, casas e sobrados cedendo lugar para edificações sofisticadas e o perfil dos moradores mudando radicalmente para classes de maior poder aquisitivo e de nível profissional e cultural superiores.

Mas a fama de bairro jovem, alegre, tolerante a todos os gostos e tendências virou um feitiço e este, dado aos atos de vandalismo que ocorreram durante o último carnaval, virou-se contra o próprio feiticeiro:

Vila Madalena enquadrada pela policia! Encurralada pela desordem! Estuprada, violentada,  mijada e demais atributos negativos que horrorizou quem a conhece, quem lá mora ou quem lá já passou horas felizes.

Este exemplo ferido nos leva a questionar seriamente não só a problemática da superpopulação que afeta a cidade de São Paulo, com a falta de uma política consistente de planejamento urbano, como também a total falta de coordenação das áreas da policia civil, responsável pela manutenção da ordem e da segurança de tais festividades.

Contribuo com uma sugestão ao Sr. Prefeito, respeitando sua admiração pelas “faixas”. Que adote para o próximo carnaval a “Bloco Faixa” para maior controle dos blocos de foliões, tendo ao lado o xixiduto para o descarte correto do líquido festivo, de utilidade para ambos os sexos, já que, quem está ou é da Vila, não se importa com pequenos detalhes burgueses...



Cabelo Verde - Crônica de Vera Lambiasi



Cabelo Verde                                                    
Vera Lambiasi
Estilo: Crônica

Por conta da falta d’água em São Paulo, resolvemos tratar com afinco o conteúdo da piscininha lá de casa.

Vivíamos no luxo, enchíamos a jacuzinha no sábado pela manhã, assim que o sol sorria, e despejávamos o montante no último suspiro do domingo. Indo pelo ralo o xixi das crianças desavisadas, e adultos incontinentes.

No final de semana seguinte, outra baciada, para garantir o nosso refresco.
Até que o precioso líquido começou a faltar.

Torneiras secas, Alckmin furioso, e alguma consciência social nos fez tratar a água do spa.

Despreparados no quesito cloro, despejamos um bom bocado na noite de domingo passado.

Tirada a capa neste sábado, vimos a limpidez surgir.

Que alegria notar aquela quase Perrier transbordando.

Economizamos, contribuímos, e ainda podíamos desfrutar do raro líquido.

Ao primeiro tchibum veio a surpresa.

Aquela transparência tinha um preço.

O cabelo, ficou próprio arame.

Os olhos, lacrimejantes.

E a pele, craquelada como a Cantareira.

Uma figura impar - Fernando Braga


Uma figura impar
Fernando Braga

Destemido, característica invejável em Sergio, que desde pequeno, não tinha medo de nada. Jogava futebol, bolinha de gude, manipulava muito bem o estilingue que ele próprio fazia, empinava papagaio e sabia brigar. Tudo o que fazia, fazia muito bem, menos estudar, que não era o seu forte.

Fui seu amigo e companheiro e nunca tive problemas com ele, felizmente! Briga de garoto e adolescente, nunca o vi perder uma. Quando percebia que a discussão ia dar em briga, posicionava-se em frente ao adversário, batia boca e de repente fingia que se abaixava e quando o outro olhava para baixo recebia um sopapo, um belo soco de atravessado na orelha esquerda, colocando-o praticamente fora de combate. Sempre que iniciava a briga, o momento inicial, lhe dava grande vantagem. Nunca correu de alguém maior, mais forte, mesmo que fossem dois.

Era honesto, leal e detestava, mesmo por brincadeira, que o chamassem de mentiroso. Sui generis, o Sergio.

O tempo passou, ficou adulto, casou-se, teve dois filhos. E, pelo que se pode deduzir, sempre guardou as mesmas características.

Há uns 5 anos, ele estava na sala vendo televisão quando subitamente se viu frente a dois bandidos armados, que haviam penetrado em sua casa, pulando o muro do vizinho. Após o susto inicial procurou se acalmar, conscientizar, sem qualquer estardalhaço, dizendo que podiam roubar o que quisessem, e que não perturbassem sua mulher que havia subido para dormir com seus filhos. Levou uma coronhada e o aviso para que ficasse quietinho, ou levaria bala. Pediram a chave de seu carro, como abrir o portão e um deles começou a colocar em seu interior computador, televisão, rádio, litros de uísque, enquanto o outro ficava apontando a arma para o corpo de Sergio. Sua esposa acordou e na escada perguntou que barulho era aquele, sendo imediatamente surpreendida pelos ladrões. Pediram então dinheiro e joias.

Sergio disse ter 50 mil dólares guardados em três latas, escondidas que no forro da casa. Para pegar o dinheiro, tinham que pegar uma escada e subir pelo alçapão, situado em um dos banheiros. Fariam isto juntos, mas a condição era que trancassem sua esposa e filhos no outro banheiro, para que ficassem seguros. Com a grande quantia mencionada os ladrões concordaram, prenderam todos, e advertiram que se gritassem, o pai seria alvejado.

Após colocar a escada, um dos bandidos subiu primeiro ao forro, enquanto o outro, ficou apontando a arma para Sergio, que iniciou sua escalada. Subiu, portando uma lanterna, para localizar as latas.  O bandido de cima aguardou, enquanto Sergio procurava as latas que estavam distantes. Teto baixo, sujo, com pedaços de tijolos, telhas, fios elétricos, engatinhando,   localizou a primeira lata e a trouxe, entregando-a ao bandido. Abrindo a lata, a grande quantidade de dólares. Em seguida foi ao encalço da segunda. Localizou-a e novamente trouxe ao bandido, que colocou-a ao lado, muito satisfeito. Foi procurar a terceira, a arma apontada para ele. Exclamou que tinha encontrada a terceira, e o bandido já sentia o sucesso da operação. Debaixo de uma telha, estava um taurus 38, carregado, que Sergio havia, cuidadosamente escondido, para um caso de emergência com este.  Aproximando-se do bandido, para lhe entregar a lata  focou a lanterna nos  olhos dele e disparou dois tiros, o bandido tombou. Logo em seguida, começou a gritar:

— Você me matou, você me matou!

Como se tivesse sido atingido pelo bandido.

 Aproximando-se da abertura do teto, viu o outro bandido agitado, perguntando:

— O que houve? O que houve? Foi quando levou um tiro na cabeça e tombou. Desceu, liberou sua mulher e filhos, que estavam desesperados, imaginando o pior! 

A polícia foi chamada, todos os vizinhos junto ao seu portão. O caso saiu nos principais jornais e todos comentavam que ele havia se arriscado muito. Este, é o Sergio que conheci. Destemido e muito corajoso. Mudou-se logo para um apartamento.

UMA VIDA DE PERNAS PARA AR - M.Luiza de C.Malina


UMA VIDA DE PERNAS PARA O AR
M.Luiza de C.Malina

Eunice vive na estabilidade que o destino lhe preparou na aurora da sua existência. 

O cantar do galo na primeira raiada, chega acompanhado do tilintar do telefone.
Ela atende espreguiçando-se. Desespera-se com a notícia. O inverno da vida a encontra de surpresa, na antevéspera de seu casamento – seus pais não resistiram ao acidente aéreo, muito próximo a fazenda.

 Em meio ao acinzentado casamento, Eunice é feliz. Passados alguns anos torna-se viúva. A vida cromática, Eunice mulher de vigor, cabelos negros trançados, jogados à esquerda do ombro, é um ícone na capital.

Enche-se de coragem para virar a página da vida. Continua a vida de fazendeira à distância entre as constantes viagens, agora vivendo uma vida de pernas para o ar, reescrevendo suas páginas.

O belo Antônio surge num repente enlouquecedor. Antonio é fascinador em seu imponente perfil grego, perfeito de corpo aparenta uns 10 anos mais jovem.

Investida, mas que investida deste farejador de dotes. Eunice, mulher atraente em meio termo, percebe nela um quê a mais em que poderá tranquilamente viver à larga.

Este Antonio! A toma como única e última ninfa deste mundo. Eunice corresponde. Pouco antes do atracar do navio, com o sol poente, o belo Antonio a pede em casamento.

Eunice aceita. Casam-se em cerimônia íntima. Antonio aprecia a vida na fazenda. Os assobios no chuveiro a encantam. A vida a presenteara com a elegância do homem que sonhara. O perfume de seu corpo impregna os ambientes.

Um dia. Ah! Este Antonio! É encontrado pelo capataz em meio ao feno com uma colona, digna de capa de revista masculina. Ele os observa durante um bom tempo.

Eunice continua em viagens rápidas à capital e aos rodeios. Estranha que Antonio não a acompanha que prefere a fazenda.

O Capataz convida Eunice a constatar o desenvolvimento dos novilhos adquiridos.
Ela não acredita no que seus olhos presenciam. Desvia a atenção para outro lado, parabenizando o capataz pela sua dedicação e comenta em aumentar o rebanho na próxima semana.

O feno, Antonio acoberta-se entre ele. A colona rasteja escapando de ser vista.

Segredo descoberto. Ao chegar a casa, encontra Antonio cantarolando embaixo do chuveiro, como de costume. Eunice nada diz, apenas balança a cabeça consentindo.

Limita-se a informá-lo sobre sua nova viagem. Desta vez terá que se demorar mais devido aos leilões. Antonio deseja-lhe sucesso nas aquisições e que sentira sua falta.

Uma semana após a viagem, Eunice recebe um telefonema:

- Senhora, volte urgente. Seu marido morreu eletrocutado no chuveiro.




PESQUISAS PERIGOSAS - Mario Tibiriçá



PESQUISAS PERIGOSAS
Mario Tibiriçá

 Aos  cinquenta e dois anos, o professor Giuseppe Speranza,  dava aulas aos alunos do ultimo ano da faculdade Federal de medicina. Com  cursos na Europa e EUA, respeitadíssimo  nos círculos acadêmicos  internacionais, desenvolvia projetos de medicina nuclear, especialmente se dedicando aos novos medicamentos  na permanente  busca de soluções  para as moléstias infecciosas.

Estava atravessando um período de alegria e felicidade, pois  em breve,
receberia totalmente equipado  um novo  laboratório, fabricado e   financiado  pela empresa, Laboratorial Equipos.

Já há alguns anos,  lutava contra a falta de recursos para melhor equipar seu laboratório, solteiro e homossexual, tinha vida sedentária, apenas dedicada á medicina.

Enquanto se ocupava nas aulas, um seu secretário, Dr. Figueira competente e invejoso, acompanhava  e cooperava  no  desenvolvimento das pesquisas, contribuía também ,junto a empresa que montava  as novas instalações do novo laboratório, com frequentes e demoradas reuniões com a diretoria  do Laboratorial Equipos Ltda.

Eis que, em uma dessas reuniões reservadas, alguém sugeriu que  seria
altamente lucrativo  para  o Laboratorial,  manter a posse total do empreendimento já que construía, equipava, financiava e organizava  o novo   laboratório,  que certamente proporcionaria altos lucros.

Dr. Figueira encantou-se com  tal proposta, e desde logo começou   a imaginar-se  com participação em  tal  negociata. Tão eufórico  ficou com o projeto, que se  comprometeu em afastar Dr. Giuseppe do assunto, quando alegaria dificuldades intransponíveis para  terminar, montar e organizar o laboratório.

Dentre seus  planos, tinha conhecimento de  antigo envolvimento  do professor, com um aluno, durante  algum tempo, que terminou  ao final, no rompimento da relação, inclusive com a reprovação do  jovem Apolônio  Ferreira.

Procurado, o jovem que  frequentava classe inferior na  faculdade, até se interessou,  ao saber que o Dr. Figueira abriria as  portas do laboratório, lhe  entregando  chaves que lhe permitiriam entrar a qualquer momento para  trabalhar ou estudar, sem qualquer outro problema.

O planejamento para afastar Dr. Giuseppe estava em andamento...

Alguns dias depois, naquela manhã de quente e modorrento  sábado,
Dr. Figueira solicita ao jovem Apolônio que vá ao laboratório, onde terá oportunidade de  assistir e conhecer novas vitórias do conhecimento científico sobre as enfermidades.

Dr. Giuseppe, trabalhava ativamente nos seus frascos, quando Dr. Figueira informa que está saindo, para algumas compras para o laboratório e que voltaria rapidamente, mesmo porque, o assunto que tratava Dr.  Giuseppe era altamente confidencial.

Este debruçado sobre  a prancheta, sentiu apenas um  forte ardor na
Nuca. E foi tudo o que sofreu, quando a bala explodiu no seu cérebro e
teve morte instantânea.

Quando Dr. Figueira retornou ao laboratório, encontrou  o cientista estirado no chão entre cacos de vidros, garrafas quebradas e anotações molhadas. Imediatamente  chamou a policia, que logo cheou acompanhada da imprensa.

Dr. Figueira estava cansado  de ser “Pau mandado”, um subalterno apenas para pequenos trabalhos.

Falando ao delegado, Dr. Figueira, informa que o jovem Apolônio Ferreira, que  havia tido um “affair” com o professor, e fora reprovado  depois de um  afastamento,  também participava dos trabalhos, e inclusive tinha as chaves do laboratório para  entrar ou sair a qualquer momento.

Chamado às investigações,  o rapaz confirmou seu relacionamento com o professor, todavia consternado pelo  fato, descartou ódio pessoal e logo  comprovou seu álibi, por estar aquela hora  trabalhando em um hospital, onde foi confirmada sua presença.

Agitada pela imprensa,  pois  a vítima tratava-se  de personagem importante, a  opinião pública  dividia-se em acusações ao jovem Apolônio,  suspeitas do subalterno Dr. Figueira.

O suspense  aumentou quando informada de que o Dr. Figueira    havia convidado Apolônio  para naquele  sábado sangrento, ir á tarde ao laboratório, e que felizmente não fora face  compromissos junto ao hospital onde trabalhava.

Apolônio sentia-se  vítima de  circunstâncias, pretendiam colocar a  culpa no “bobo da corte”, enquanto os culpados sairiam livres.

Após dias de tensão, a policia encontrou vestígios  de solado  de calçado  no piso do laboratório, que confrontado com os sapatos dos  suspeitos  levou-a  o conclusão do assassinato cometido pelo Dr. Figueira, que na  ânsia de confirmar a morte do  professor deixara marcas de seus sapatos nos líquidos derramados quando do atentado.


Toda a quadrilha do laboratorial, inclusive Dr. Figueira, foram presos, para cumprir  alguns anos  de “estudos especiais”. 

Amor aos Pedaços - José Vicente José de Camargo


Amor aos Pedaços
José Vicente José de Camargo

− Como!? Você quer terminar o namoro comigo!? Quer deixar meu amor em pedaços!?

Exclama Flavio a sua namorada Clara, na fila do cinema.

− Não querido! Eu disse que quero terminar a noite no Amor aos Pedaços, a doceria de bolos.

− Ah! O vozerio aqui está bravo e também acho que preciso ir ao otorrino fazer uma lavagem nos ouvidos - responde Flavio e prossegue - Mas, falando em pedaços de bolo, que tal juntar seu pedaço ao meu, e marcarmos a data do noivado?

− Acho uma doce ideia! E como gosto muito de bolo, de pedacinho em pedacinho chegamos   ao altar... retruca Clara.

E depois, murmura Flavio no ouvido dela, acariciando seus cabelos de anjo:

− De docinho em docinho chegamos aos filhinhos...

E estala um “biju” nos lábios de mel da amada, provocando sorrisos furtivos dos espectadores empipocados...