Brincando para lembrar

Lembra quando brincávamos?

Dia desses fizemos uma aula ao ar livre com brinquedos da infância: corda,pião, bonecos, resta 1, fantoches, e outros brinquedos que fizeram parte da infância dos que têm mais que 60.

A ideia era recordar momentos que vivemos, era reaprender a sorrir por estar brincando. E assim foi!

E desta experiência nasceram textos. 











ANIVERSÁRIO DE FERNANDO BRAGA - Homenagem do amigo Mario Augusto Pinto Machado



OS VOTOS(DESEJO).                  



“Desejo, primeiro, que Você ame
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo, também, que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
É porque a vida é assim.

Desejo, ainda, que Você tenha inimigos,
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que algumas vezes
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo, depois, que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo, ainda, que você seja tolerante,
 Não com os que erram pouco porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que Você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
E que sendo velho, não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
E é preciso deixar que eles escorram entre nós.




Desejo, por sinal, que Você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia,
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante
É insano.

Desejo que Você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que Você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o João-de-barro
Erguer triunfante seu canto matinal
Porque, assim, Você se sentirá bem por nada.

Desejo, também, que Você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja
E acompanhe seu crescimento
Para que Você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, otrossim, que Você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.     
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga, “Isso é meu”,
Só para que fique claro quem é dono de quem.

Desejo, também, que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por Você,
Mas que se morrer, Você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo, por fim, que Você sendo homem,
Tenha uma boa mulher
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.


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Esse poema é tido como tradução de original francês de autoria de Victor Hugo.

contestação (*):

A mais consistente é feita pelo verdadeiro autor
SERGIO JOCKYMANN
que sob o título
OS VOTOS
a publicou em
30-12-1.978
no jornal
FOLHA  DA TARDE
de
PORTO ALEGRE (RS).


(*) Das obras de Victor Hugo registradas na Academia Francesa não consta qualquer escrito que possa, mesmo remotamente, lembrar OS VOTOS.

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E da comemoração temos alguns registros:











Parabéns Fernando Braga! Muitas felicidades!


Janela de Copacabana (tragédia) - Ises de Almeida Abrahamsohn



Janela de Copacabana -  trágica
Ises de Almeida Abrahamsohn

Ele tinha se mudado há pouco para aquele apartamento em Copacabana. Era apenas um quarto e sala acanhado e escuro cuja janela dava para  a área interna abafada do prédio.  Era o que conseguia pagar com seu minguado ordenado. Instalou o seu velho sofá na sala, de frente para a janela  e era lá que se estirava ao chegar do trabalho.  Apagava a luz e tirava um  cochilo antes  de seu frugal jantar.  Ao acordar, já era noite. Pela janela conseguia ver as janelas dos quartos dos apartamentos fronteiriços. A maioria às escuras, algumas  com luz  acesa rala filtrada  através dos vidros borrados de sujeira antiga.

Naquela sexta-feira, exausto, adormeceu no sofá mesmo  e  acordou lá pelas onze  da noite. Do sofá notou uma das janelas em frente, habitualmente escura, iluminada. Desligou o abajur. Surpreso, percebeu que  podia enxergar quase tudo dentro daquele quarto. A janela límpida permitia-lhe ver indiscretamente as duas ocupantes. E que ocupantes!  Uma morena curvilínea sentada à beira da cama escovava o cabelame revolto; a bunda  generosa e empinada e as pernas musculosas  remetiam a horas a fio na academia. Não conseguia ver-lhe os peitos, nem  o  rosto. A outra moça era loira, do tipo mignon e tinha uma toalha inoportuna enrolada no corpo. Ficou torcendo para a toalha cair. Mas a loirinha saiu, seguida pela morena e a escuridão invadiu o quarto. 
Desapontado, foi para cozinha comer alguma coisa e voltou ao sofá. Tinha perdido o sono.  Folheava uma revista sem muita convicção quando, lá pela meia noite, a janela das vizinhas de novo se iluminou. Imediatamente apagou a luz e entreabriu a janela da sala para melhor espiar.  A morena vestia um pijama comprido e a loira, shorts  e blusa apertada. Via-lhes agora o perfil. Discutiam em voz alta.  De repente, a loira se adiantou e puxou com um repelão a  cabeleira da outra.  Sem a peruca, surgiu nítida a calva masculina. O dono da calva, enlouquecido, agarrou a mulher  loira que se debatia e o socava em vão; o homem era um tanque   e imobilizou-a sobre a cama. Pegou o que parecia ser uma calça de pijama  e amordaçou-a.  Depois começou a apertar-lhe o pescoço  com  mãos que pareciam tenazes.

O voyeur   assustado  ligou para o zelador e para a policia. Pôs a cabeça para fora da janela e gritou, mas  o som não chegou ou, talvez,  não perturbou o assassino. Apenas alguns vizinhos  acenderam as luzes mas não se manifestaram. Medo de se envolver, talvez.


Quando o zelador e a policia chegaram ao apartamento era tarde demais. A loira estava morta, esganada.  O moreno sentado à beira da cama balbuciava entre soluços:  _ Joselito, Joselito ,meu amor , você foi me cornear  logo com o Militão ! Eu lhe  avisei ... Eu lhe avisei!

Janela de Copacabana (surpresa) - Ises de Almeida Abrahamsohn


Janela de Copacabana: a  surpresa
Ises de Almeida Abrahamsohn 

Ele tinha se mudado há pouco para aquele apartamento em Copacabana. Era apenas um quarto e sala acanhado e escuro cuja janela dava para  a área interna abafada do prédio.  Era o que conseguia pagar com seu minguado ordenado. Instalou o seu velho sofá na sala, de frente para a janela  e era lá que se estirava ao chegar do trabalho .  Apagava a luz e tirava um  cochilo antes  de seu frugal jantar.  Ao acordar, já era noite. Pela janela conseguia ver as janelas dos quartos dos apartamentos fronteiriços. A maioria às escuras, algumas  com luz  acesa rala filtrada  através dos vidros borrados de sujeira antiga.

Naquela sexta-feira não conseguia dormir. Levantou-se e foi para a sala.  O relógio marcava uma hora. Do sofá notou uma das janelas em frente, habitualmente escura,  iluminada. Desligou o abajur. Surpreso, percebeu que podia enxergar quase tudo dentro daquele quarto. A janela límpida permitia-lhe ver indiscretamente as duas ocupantes. E que ocupantes !  Uma morena curvilínea sentada à beira da cama escovava o cabelame revolto; a bunda  generosa e empinada e as pernas musculosas  remetiam a horas a fio na academia. Não conseguia ver-lhe os peitos, nem  o  rosto. A outra moça era loira, do tipo mignon e tinha uma toalha inoportuna enrolada no corpo. Ficou torcendo para a toalha cair. Mas a loirinha  saiu, seguida pela morena e a escuridão invadiu o quarto.  Desapontado, voltou para a cama e a custo conseguiu dormir. Sonhos lascivos e delirantes com a morena boazuda   preencheram a sua noite. Sempre gostara mais das morenas  jambo do que das loiras. Acordou  com uma enorme ereção que  o fez insuportavelmente feliz.  Afinal,  havia meses  que não  tinha mais  desejado mulher. Stress demais e sono de menos, diagnosticara o médico. Determinado  a descobrir quem eram e o que faziam as suas vizinhas espiou de manhã por algumas vezes a janela.  Nada acontecia no quarto vazio.


 Aproveitou a manhã do sábado para comprar um  binóculo que lhe permitiria desfrutar  em detalhe as paisagens voluptuosas noturnas.  Passou o restante do dia ansioso e meio sonhático. Postou-se no escuro, à espreita,  munido do binóculo. Lá pelas dez da noite finalmente iluminou-se a janela vizinha. Entrou a morenaça, desta vez vestida. Atrás dela entrou um rapaz que logo a agarrou por trás. O voyeur  salivava de expectativa. A blusa removida de um só puxão, mostrou os seios siliconados perfeitos. Mais! Mais! Murmurava o espião, engolindo a saliva.  E mais ele viu... A saia caiu a seguir,  e  ele pôde  ver do umbigo até a calcinha preta  rendada minúscula.  Posicionou  melhor  o binóculo e aí viu,  em detalhe.... A  saliência  inconfundível   que se avolumava  entre as coxas da morena .  Soltou um palavrão e o binóculo!  Injuriado, acendeu a luz da sala, despejou uma boa dose de uísque barato num copo que levou consigo para o quarto.  Ligou a televisão em alguma comédia idiota que já havia visto.  Adormeceu e desta vez sonhou  com a loirinha da toalha. 

Com jeitinho vai! - José Vicente J. de Camargo



Com jeitinho vai
José Vicente J. de Camargo

Ele, executivo graduado de uma multinacional alemã, vinha, pela primeira vez, a negócios no Brasil mais precisamente na cidade do Rio de Janeiro. Eu, seu colega de trabalho na filial brasileira da empresa, o acompanhava nas reuniões de trabalho com potenciais clientes oferecendo produtos e serviços de alto valor na base do “melhores do mundo”...

O colega alemão não parava de elogiar as belezas naturais da cidade, a variedade e a fartura das carnes servidas nas churrascarias, a delícia da caipirinha, o frescor digestivo da água de coco gelada, a simpatia descontraída do carioca e lógico, a beleza sensual das mulatas.

Tudo corria à mil maravilhas até que no último dia ─ uma sexta feira, às cinco horas da tarde ─ indo para uma reunião para a assinatura de um contrato, eu e o colega descemos do táxi em frente ao edifício do escritório do cliente na Avenida Rio Branco ─ famosa, entre outros atributos, pelo corre-corre de pessoas e, dado estarmos atrasado, o colega me pede para ir “chamando o elevador” enquanto paga o táxi.  Para tal, coloca sua valise executiva preta reluzente de aspecto de recém-adquirida, de puro cromo alemão, na calçada e volta-se ao taxista para o acerto da corrida.

Não deu outra! Ao voltar-se para a valise a mesma já não mais se encontrava. Corre ao meu encontro na esperança de que eu a tivesse pego. Ao ver que não, desespera-se:

─ Tinha tudo dentro! Me diz ─ cartões de crédito, dólares, euros, documento da empresa, i-pad, a passagem para Caracas ─ próxima etapa de negócios ─ e, sobretudo meu passaporte.

─ Calma! - digo. Vamos primeiro ao cliente, quem sabe ele nos dá uma orientação de como agir, já que eu também não sou desta cidade.

O cliente, ao saber do ocorrido, só aumenta o desconsolo do colega ao informar que sexta feira naquele horário só funciona happy-hour com roda de samba. Policia a cata de ladrão só se tiver reportagem filmando por perto. No entanto nos orienta para irmos à delegacia do bairro registrar a ocorrência.  Assinamos o contrato, recusamos por justa causa o champanhe de comemoração e tomamos o rumo da delegacia.

Lá chegando, o colega preencheu os papéis de praxe para o BO e perguntamos se por acaso não prenderam nenhum gatuno de bermudas, sandálias havaianas ou algo semelhante carregando ─ em completa dissonância com o vestiário ─ uma vistosa valise de couro preta.  Em resposta ao “não” do encarregado e ao seu olhar indagatório, entro com a tentativa do “jeitinho” sobre a possibilidade de passar um aviso às viaturas policiais para localizar tal individuo com urgência. Entrego meu cartão de visita com o número do meu telefone celular acompanhado de um “cafezinho de muito obrigado” prometendo outro na entrega da valise. O alemão que com essas tramoias só de pensar se estremece, vai saindo de mansinho para me deixar mais “à vontade” O policial, vendo nossa angustia de resolver o problema o quanto antes e termos ainda de passar pelo consulado alemão para resolver o problema do passaporte antes de irmos ao aeroporto, oferece uma carona na viatura policial para contornar o caótico transito da cidade maravilhosa em horário de pico.

No consulado o colega solicita um passaporte emergencial para saída do Brasil e entrada na Venezuela. Mediante a resposta do funcionário que o expediente já se encerrara e tramites desse tipo só em dias úteis, isto é, na próxima segunda-feira, meu colega, ao contrário do que esperava, não se desespera, me olha e retruca dizendo se não é possível dar um jeitinho ainda para hoje dada a urgência de chegar a Venezuela para fechar bons negócios em favor da Alemanha, etc,etc... Além do mais, quando visitar Munique, que o contate, pois, como membro da diretoria do Bayer de Munique, campeão alemão de futebol, lhe arrumará ingressos para os jogos.

O funcionário esboça um sorriso e diz que dará um documento válido por 24 horas para saída do Brasil e entrada na Venezuela. Em Caracas procure o consulado alemão, que já estará informado do ocorrido, que entregará o passaporte definitivo em três dias úteis.

Continuamos a via sacra ao aeroporto ainda sob a escolta do pisca - pisca da viatura oficial chegando no horário mínimo estipulado para o check – in. Despedimos dos policiais com mais “cafezinhos” e promessas de ingressos para jogos do Bayern com desculpas que vários jogadores participaram do histórico jogo dos “7 a 1” da última copa.

Após o tramites do embarque, o alemão convida para a última caipirinha:

─ Veja se com ”jeitinhos” consegue mais contratos para eu voltar. Gostei desse país e seus costumes. “Nós alemães somos muito engessados”, pouco flexíveis. Agora, com jeitinho, vou pedir uma caipirinha com aquela pinga especial reservada para clientes especiais, com limão galego que está sempre em falta, bem socada e com pouco açúcar. Acompanhada de pão de queijo bem crocante...

─ Que volte logo! Brindo eu, mas sem valise de couro brilhante que chame a atenção. Traga mochila e das bem surrada.


E penso comigo ─ por isso que a Alemanha está na ponta dos países desenvolvidos ─ aprende logo a lição e melhora a receita...

Angustia particular - Ises de Almeida Abrahamsohn


Angústia particular
Ises de Almeida Abrahamsohn  

Já eram quatro da tarde. Mário ainda tinha um cliente a visitar e iria para casa. Talvez, com sorte, ainda conseguisse uma boa encomenda de discos de embreagem.  Estava difícil vender nestes tempos bicudos.  Era representante comercial e tinha rodado o dia inteiro sem muito sucesso.

Não via a hora de chegar em casa e tomar um banho. Estava suado  e com a garganta seca naquele dia  de veranico  paulista.  O sinal fechou, antes de poder virar a esquina da Duque de Caxias. Dali já podia ver o congestionamento que se formava no próximo quarteirão.

Cogitou seguir em frente, mas decidiu enfrentar o trânsito. Era o último cliente daquela região e amanhã estaria em outro bairro. Conseguiu andar mais uns cinco metros e só!  Ficou parado, sem poder escapar, escutando as sirenes, talvez  do SAMU  ou da polícia.  Certamente algum atropelamento ou acidente acontecera.   Não conseguia ver adiante. Ligou o rádio para alguma informação sobre o ocorrido.  A voz dramática do locutor informou: atropelamento de ciclista com ferido grave na esquina da Duque com São João . Pensou consigo mesmo:

— Não adianta ficar aqui sofrendo no carro, vou estacionar,  comprar uma água e ir a pé até a loja.

Foi andando pela calçada. Ao chegar próximo à esquina viu o aglomerado dos curiosos e  as luzes giratórias da ambulância .  Não era do seu feitio espiar acidentes, considerava curiosidade mórbida.

 — O que aconteceu? perguntou a um dos que se afastavam  do local .

 —  Um ciclista foi atropelado por um carro, já estão colocando o rapaz  na ambulância., parece que foi muito grave, respondeu o rapaz . Acho que ele estava treinando para alguma corrida porque usava  roupa e capacete azul com listras amarelas, parecia um uniforme.
 Mário não conseguiu mais respirar, a vista escureceu e as pernas se dobraram para espanto do interlocutor. Quase caiu; ao se recuperar, ficou desesperado.   Seu filho João era ciclista amador e possuía um uniforme com as mesmas cores.  Ele tinha que ver quem era o ciclista. Correu para o local, abriu caminho a cotoveladas e empurrões gritando:

— Preciso ver se é meu filho! 

Policiais tentavam barrar a sua passagem. Conseguiu chegar no momento  quando a maca com o ferido era colocada na ambulância.  Não conseguia distinguir-lhe as feições. O seu olhar  percorreu o corpo embalado em um capa aluminizada.

Sobre o nariz e a boca a máscara do respirador movia-se sob a pressão ritmada do motor. Os olhos estavam protegidos sob uma máscara de gaze branca. Se ao menos  pudesse ver a cor dos cabelos....  

Angustiado, gritou ao enfermeiro puxando-o pelo braço. 

— Deixe-me olhar o rosto, preciso saber se é meu filho.

— Seu filho se chama Renato? 

— Não, o nome dele é João.  Então não é seu filho, este se chama Renato Aguiar, o senhor conhece?

— Não, não, creio que não, balbuciou Mário. Obrigado... Devagar, Mário caminhou  na direção de seu  carro. Parou num bar, pediu água e café. Sentou-se e, reanimado, sentiu que o sangue voltava a circular  pelo corpo. 

Ainda com o cérebro embotado ligou para  a mulher:

— Ana, não foi o João ! Não foi o João!  Repetia. Foi o Renato, lembra do Renato, filho da Tereza, aquele  que chamou o João para o clube de ciclismo ?  

A mulher, que estava voltando do trabalho, sem nada entender, só lhe perguntou meio impaciente:


— Vai chegar na hora pro jantar, Mário? O  João chegou mais cedo e o suflê não pode esperar !  

SUA VACA! - Carlos Cedano


SUA VACA!
Carlos Cedano

Sou um cara informal e gosto das coisas olhos nos olhos! Sou de sorriso franco e atitudes espontâneas e falo sem meias palavras. Além disso, adoro festas e sou bom de copo. Tinha visto Luísa Maria em muitas festas, casamentos e até batizados que foram palcos de encontros casuais, mas nunca nos falamos nem  me aproximei dela.

Foi no aniversário de um grande amigo que a gente se falou pela primeira vez. Extrovertido e desenvolto como sou fui até ela e lhe ofereci champanhe, e me disse secamente:

Eu não bebo álcool!
— E, o que gostaria beber? Perguntei
— Água mineral.

Fui buscar o maldito copo de água,  e começava  achar que tinha me deparado com uma fresca, com uma menina mimada! Mas ela não sabia que adoro as frescas, gosto de derrubar castelos medievais!

Serenei-me, com paciência e muita saliva, aos poucos consegui que falasse,  inicialmente as respostas eram quase todas monossílabos e depois pequenas frases. Fui percebendo que ela era mais bonita quando sorria, além do que, usava um perfume inebriante que parecia derramado por todo seu corpo.

Como seria maravilhoso cheirar cada centímetro dela! - Pensei.

Minha paciência foi recompensada. Meses depois e após muitos jantares, teatros e concertos, já nos conhecíamos bem e tinha ganhado sua confiança. Um dia recebi sua ligação convidando-me para jantar no seu apartamento, sua mãe viúva estaria conosco, aliás seria ela quem cozinharia,  eu iria adorar me disse, mas antes que ela desligasse falei:

― Não se preocupe com a sobremesa e os vinhos, faço questão de levá-los. 
E ela concordou!

No dia do jantar e com a devida antecedência selecionei a roupa que vestiria, seria social chique. Tomei um banho caprichado e demorado. Depois fui para a doceira que  tinham me recomendado, as mulheres gostam muito de chocolate, escolhi o maior bolo e o mais caro! Também comprei duas garrafas de espumante da melhor qualidade. Agora só me faltava comprar um belo buquê de rosas vermelhas.

Quando saía da doceria uma senhora de media idade com seu carrinho de compras me atropelou literalmente, as garrafas e bolo se espatifaram no chão, tudo mundo olhou!

        ― A senhora não poderia ser mais cuidadosa quando anda? Disse furioso!

        ― É você que anda como uma lesma, não podia ir mais rápido? Retrucou a coroa e completou dizendo - Parece um velho!

Isso me machucou! Tive que usar todo meu autocontrole para não gritar um palavrão pra  velha!

Imaginem ter uma mulher assim como sogra! – gritei - Todo mundo escutou e riu. A velha desapareceu e fui me acalmando enquanto ia até o apartamento de Luísa Maria após ter comprado outro bolo e outras garrafas de espumante, decidi não comprar o buquê.

Ainda estava um pouco nervoso quando peguei o elevador até o sexto andar, apertei a campainha do apartamento sessenta e um e abriu uma menina que me disse que esse não era o apartamento da pessoa que procurava, era o cinquenta e um. Tinha me enganado, desci a pé para quinto, e apertei a campainha certa desta vez.

Quem abriu a porta foi Luísa Maria que me recebeu com um belo sorriso, foi nesse momento que enxerguei a velha vaca atarefada lá no fundo, na cozinha. Sem muito pensar e em voz bem disse para minha anfitriã inventando na hora uma tragédia familiar:

Querida, recebi agora enquanto subia uma ligação e fui informado do acidente de meu primo mais querido, ele está grave e chamando por mim no hospital, preciso ir embora com urgência!

 Ao mesmo tempo em que entregava à minha “petrificada” amiga o bolo e as bebidas,  saindo o mais rápido possível, quase voando, usando as escadas, e dizendo alto, muito alto:

        ― Ninguém merece uma sogra como essa! Ninguém merece uma sogra como essa! Sua vaca!


O misterioso desaparecimento de Frederick Valentich

O MISTERIOSO DESAPARECIMENTO DE FREDERICK VALENTICH

O desaparecimento de Frederick Valentich foi um evento ocorrido em 21 de Outubro de 1978, em que o jovem de vinte anos Frederick Valentich desapareceu em circunstâncias inexplicáveis enquanto pilotava o avião leve Cessna 182L por sobre o Estreito Bass à King Island, na Austrália.

Anterior ao seu desaparecimento, Valentich reportou por rádio que havia encontrado uma aeronave não-identificada que estava se movendo na mesma velocidade que o seu avião e que flutuou sobre ele. Nenhum traço de Valentich ou de sua aeronave foram jamais encontrados. Um pouco antes do último contato de Valentich, o encanador Roy Manifold armou com tripé uma câmera em time-lapse (time-lapse é uma técnica fotográfica usada no cinema na qual o objeto em foco é fotografado em determinados períodos de tempo. Para ser mais preciso, é quando se capta cada frame) na margem da praia para fotografar o sol se pondo sobre a água. 

Quando suas fotos foram reveladas, aparentaram mostrar um objeto se movendo muito rápido para fora da água. Manifold disse que as fotos foram tiradas aproximadamente às 18:47h, ou 20 minutos antes de Valentich ter reportado estar com dificuldades. Momentos antes de um estranho ruído terminar a comunicação de Valentich, ele disse: “Minhas intenções são – ah – ir para King Island – ah Melbourne. Aquela aeronave estranha está flutuando sobre mim de novo (microfone aberto por dois segundos). Está flutuando e não é uma aeronave.”







Desencontros - Carlos Cedano


DESENCONTROS
Carlos Cedano

Maria estava atrasada para chegar em casa, antes tinha passado pela padaria onde comprou pão, leite e a mortadela, e agora acordar seu marido. Quando abriu a porta do pequeno apartamento escutou os ronquidos dele. Ufa, sorte!- Pensou - vou ter tempo para preparar o café da manha e bater um papinho com Beto mesmo que seja curto, estamos precisando!

O despertador anunciou quinze para seis da manhã, estava na hora do marido acordar, levou pra ele uma xícara de café para animá-lo, ele o aceitou com um sorriso de agradecimento, observou que o belo vestido de sua mulher a deixava mais desejável, puxou-a decididamente pra si enfiando sua mão entre as coxas, estava excitado e sua mulher correspondia com ardor! Porém o maldito despertador tocou novamente e interrompeu esse momento tão promissor.

Não teve jeito, o marido pulou da cama, vestiu-se rapidamente e correu pra o banheiro onde fez a barba, correu pra beber outra xícara de café, comeu a metade do sanduiche que ela tinha preparado, com a mesma pressa escovou os dentes e penteou o cabelo, beijou sua mulher dizendo estou atrasado, estou atrasado e saiu correndo quase esquecendo a lancheira!

Apesar do cansaço de sua jornada de trabalho noturno Maria, sacudindo a cabeça e com um sorriso, lavou novamente a louça que deixou por conta de seu marido. Sem arrumar a cama, tirou a roupa e se percebeu no espelho como uma mulher ainda muito atraente, deitou pra dormir no canto onde tinha dormido o marido ainda com resquícios de seu calor e do cheiro de seu corpo, dormiu agarrada ao travesseiro dele!

O despertador implacável a acordou às quinze horas. Vestiu uma blusa leve e calças jeans e com o cabelo quase sem pentear saiu para as compras no supermercado perto de casa onde comeu uma salada de verduras. Na volta preparou o jantar, limpou a casa, botou ordem nas coisas e colocou o lixo fora da casa. Também aprontou a marmita que comeria lá pra uma hora da madrugada no serviço.

Perto das dezoito horas Maria Luísa esperava a volta do marido imaginando seu percurso até o lar, era uma forma de realizar seu desejo de estar sempre junto com ele, acordou da fantasia e pegou a roupa que vestiria para ir ao emprego.

Entrou no banheiro, ligou o chuveiro, deixou esquentar a água e começou a passar sabão por todo o corpo. Beto chegou cansado, mas não resistiu à vontade de contemplar a silhueta de sua mulher através do vidro enevoado pelo vapor do chuveiro, ela era sua paixão e seu desejo feito mulher, decidiu tomar banho junto com ela porém subitamente abriu-se a porta do chuveiro, Beto já tinha tirado a roupa, mas se deteve quando Maria sorridente lhe disse: Oi amor você já aqui? Que bom por que o jantar está pronto!

A mesa estava arrumada com cuidado e a comida na mesa, mas ambos sabiam que esse momento era permeado por sensações de ansiedade causada pelo curto tempo para estarem juntos, até o próprio jantar perdia interesse e se transformava num ato mecânico.

O maior desejo deles era prolongar esse momento e olhar-se com a maior ternura e amor, mas o tempo “empurrava” a esposa pra rua, estava encima da hora para pegar o ônibus e logo o metrô e poder chegar a tempo no emprego. Seu marido teve apenas alguns instantes para beijá-la, apertá-la intensamente e sentir o palpitar de seu corpo pegando fogo! Agora seria ele que “acompanharia” Maria na sua viagem para a labuta.

Antes de ver a TV, Beto costumava arrumar as camas e até por as roupas pra lavar após o que, via um jogo de futebol ou um filme de aventuras e as últimas noticias. Quando o sono o invadia, levantava-se preguiçosamente do sofá, desligava a TV, as luzes e verificava se a porta estava trancada e se dirigia ao quarto. Viu as roupas que sua a mulher tinha deixado esparramadas sobre a cama, pegou sua blusa e a calcinha e as aspirou intensamente até “sentir” que Maria Luísa estava com ele, deitou-se no lugar que ela acostumava ocupar e dormiu no meio de sonhos repletos de amor e volúpia!


A VINGAÇA SABE ESPERAR - Jeremias Moreira


A VINGAÇA SABE ESPERAR
Jeremias Moreira

Aquela manhã começou cedo para o Vadão. Enquanto expunha os jornais, na vitrine lateral da banca, uma mulher atravessou a rua e chamou sua atenção por estar vestida da cabeça aos pés com uma roupa preta.

− Isso é uma burca! As mulheres islâmicas são proibidas de mostrar o rosto em público, então usam essa roupa. – explicou o professor Vavá, que fora buscar a Gazeta Esportiva.

Quinze minutos depois a mulher passou de volta.

Foi o que Vadão contou à polícia quando foi interrogado.

Esse caso, ocorrido há um mês, e considerado insolúvel pela polícia, começou há dois anos, quando a Valderene, a Val, entrou com um pedido de divórcio contra o marido, o Fefeu.

Ela contratou como advogada a Dra Marluce dos Santos, que era sua amiga.

A ação correu na vara da família no Forum de Pinheiros e na audiência final a Dra .Marluce forçou-a a aceitar um acordo totalmente desfavorável, com o argumento de que poderia ser muito pior.

Pelo acordo, Fefeu ficava com três das quatro propriedades do casal e pagava uma pensão irrisória.

Ingênua, a Val aceitou. Aceitou mas nunca engoliu.

Suspeitando que nesse mato tivesse coelho, resolveu contratar um detetive particular.

Batata, o detetive descobriu que a Marluce transava com o Fefeu.

Indignada, Val sentiu-se a mais burras das criaturas. Mas, a vingança serve-se fria! E, friamente, planejou sua desforra.

Um ano e meio depois colocou o plano em prática. Ligou para o escritório de Marluce, identificou-se como Kalila Mohammed, uma iraniana que precisava regularizar sua situação no Brasil, e marcou um horário para a manhã seguinte, que era quinta feira. Hora em que aconteceria uma reunião de pais, na escola da filha.

Val compareceu na escola. Fez questão de conversar com diversos pais e assim que começou a reunião, saiu. Vestiu a burca no carro e foi ao encontro agendado com Marluce. Estacionou a duas quadras e caminhou a pé até o escritório. Foi recepcionada pela secretária e assim que foi atendida pela Dra Marluce e ficaram sós, Val tirou o revolver e deu dois tiros à queima roupa.

Certificou-se que ela estivesse morta, prendeu a secretária no banheiro e saiu com a mesma tranquilidade que entrara. 

Caminhou de volta até o carro, se livrou da burca e voltou para a reunião, na escola. 

A polícia estava mais perdida do que voo de barata. Nunca teve qualquer indicio consistente para identificar um suspeito. A mulher – que poderia muito bem ser um homem − chamou a atenção de algumas pessoas, principalmente, do ascensorista, foi filmada pelas câmeras de segurança, mas, encoberta pela burca, não tinham como identificá-la.


Enquanto a poeira abaixa, Val elucubra como fará com o Fefeu!