SINCRONICIDADE - Luisa Helena R. Alves


SINCRONICIDADE
Luisa Helena R. Alves


      Rosa era professora de dança para crianças. Querida pelas alunas e pelos pais. Atenciosa, mas firme. Juntava doçura com limites, exigência com paciência.

        Era véspera de sua apresentação anual. As fantasias estavam quase todas prontas, faltavam os retoques finais: flores, decoração, maquiagem. Mas, o pianista que acompanhava as classes o ano todo, estava doente!

        Rosa estava perdendo o controle habitual, estava desesperada!

        Uma das mães teve uma ideia: Por que não convidar a banda de uma amiga, que fazia apresentações para crianças?

        Não tendo outro recurso, chamaram a moça, que só poderia fazer com uma parte da banda, já que outros integrantes estavam viajando. E a grande surpresa! Era uma banda de rock!

        Não tiveram tempo para ensaiar. Eis que na hora que a banda abriu sua apresentação no palco, as crianças da escola começaram a cantar junto, pois sabiam todas as letras das músicas!


        E não me perguntem como, mas conseguiram dançar e cantar juntos, com muita alegria e ritmo. Sem contar que seus pais, que viveram nos anos 80, também dançaram e bateram palmas com essa música harmoniosa para seus ouvidos. Que sorte!

O CACHORRO FROID - Oswaldo Romano



O CACHORRO FROID
Oswaldo Romano       
                                                              
        A vida é cheia de surpresas!

Cauã depois de muito tempo sem ir ao cinema, onde costumava aprontar, foi motivado pelo anúncio de que num cinema da Rua Augusta  iria projetar um filme do esperto Rim Tim Tim. Esse cão ensinou muita coisa sobre como combater os crimes.

Quis  recordar seus cães Bob e Bobo,  dois pastores mestiços  que havia  possuído e lhe davam proteção, com seus avisos de pessoas se aproximando.
Cauã assistindo o filme achou que recordaria, e mataria as saudades.

Gostou, e saiu satisfeito e com comparações difusas, avaliando as diferenças entre eles.

Na rua, seguia pela calçada da Augusta em direção ao ponto do ônibus quando topou no chão com uma carteira e num movimento rápido,  pegou-a. Esperava encontrar alguma coisa boa. Dinheiro, cartões, ou endereço para descobrir seu dono.

Só encontrou um bilhete de estacionamento veicular, nota de que esteve num veterinário, e uma folha de revista rasgada mostrando um menino nissei tendo em seu colo um pequeno cachorro.  Acho que da raça Lhasa Apso chamado, segundo o retalho da revista, de Froid.

Pesquisando o estacionamento e o petshop descobriu o dono da carteira e seu telefone. Era desprezível seu conteúdo, todavia importante para ajudá-lo nos seus intentos.

Ligou, e como esperava, foi atendido por um oriental.

— Arô, arô.

— Boa tarde, senhor. Eu achei uma carteira que deve lhe pertencer. Tem a foto de um menino com um cachorro e escrito: Este é meu amigo Froid.

— Sim senhôro, né. É minha, né. Tem dinheiro da xepa, né?

— Dinheiro não tem, mas tem anotações, com nomes e senhas. Acho que de banco, de computador, sei lá. Eu tenho tempo de dia, posso te entregar.

— Tirou o dinheiro e agora quer mais, né?

— Não senhor. Não tinha nada de dinheiro. Quem roubou,  jogou a carteira. Tirou o que lhe interessava.

Eu só quero o dinheiro da condução, ou um agrado se merecer.
— Pode jogar a carteira fora, né.

— Senhor as senhas comprometem o senhor e estão em japonês. O senhor precisa delas. Dê o endereço da sua casa, eu vou ai.

— É. Elas são importantes. Vou dar o endereço. Escreva ai: Rua Comendador Joaquim, 2001, chácara Tômico, né. Marcou?

— Sim, marquei, vou te levar.

Passaram-se dois dias, Cauã com disposição foi para a casa do japonês. Chegando foi recebido com agradecimentos e convidado para um chá. Era tudo que ele queria.

O japona olhando  Cauã se perguntava, agora um pouco desconfiado. Por que deixei esse homem vir aqui. Tomou coragem e perguntou:

— O que afinal você quer.

— O senhor cometeu um grave erro, vim assaltá-lo. O senhor deve colaborar.
Sacou um 32. O japa incrédulo ouviu: Sem escândalo. Fique calado, ou eu te calo. Amarrou, amordaçou, e o prendeu na cama.  Fez com que sua mulher que se via acuada no canto da sala o ajudasse a prendê-lo com abraçadeiras plásticas. Silenciado, obrigou a mulher carregar no Toyota estacionado  na garage, tudo de bom que via. Apanhou dinheiro e joias.
Obrigou a mulher dirigir o veiculo, rodaram por bom tempo, e numa estradinha de terra, encontrou seu comparsa. Depois da transferência do roubo, instruiu a mulher:

—  Agora pegue o carro, vá para sua casa. Não fale com ninguém se quiser encontrar vivo seu marido. Você será seguida até entrar na sua garagem. Nesse momento meu comparsa que está lá, vai deixar sua  casa e seu japonês vivo. Mas se você  desobedecer vai encontrá-lo morto. Nossa quadrilha não deixa rastros. Vá direto, caso contrário sofrerá um acidente. Se denunciar não vão nos pegar, mas nós vamos saber e vamos pegá-los novamente. Atenção, até agora não machucamos ninguém. Vá, desapareça!

Cauã acabara de realizar mais um de seus planos mirabolantes. Nunca repetira o modo de operação o que o tornava um expert. A próxima vítima poderá ser você...


LIBERDADE - Luisa Helena R. Alves


LIBERDADE
Luisa Helena R. Alves

             Liberdade de viver...

             Liberdade de escolher onde morar e quem se quer amar...

             Ronaldo sonhava com isso, enquanto no seu cativeiro colhia cana para seu patrão.

             Ronaldo vinha de uma família de escravos; seu avô veio da África para trabalhar para seus patrões brancos.

             Quantas gerações ainda terão que passar para os homens compreenderem que a cor da pele não justifica toda essa discriminação?

             Deus fez seres humanos para serem humanos, não importando sua raça ou cor.

             Ronaldo era um negro claro, pois sua avó era índia, seus pais mulatos ou pardos, como se diz no recenseamento anual.

             Gerusa, a neta do patrão era clara como a luz do dia, bonita e alegre como só os jovens conseguem ser.

             Ela logo se atraiu por Ronaldo, quando em um dos seus passeios a cavalo, ele a socorreu na disparada do animal,  pondo em risco a vida da moça.
             Conversaram. Ela agradecida, ele feliz. O herói que ficou encabulado com a gentileza da moça.

             Conversaram, e foram muitos os encontros. Até que resolveram fugir juntos.

             Já o amor despertava neles a coragem que todos nós temos guardada.
             Com a ajuda de amigos fugiram uma noite, mas Ronaldo ainda arrastava as correntes que o prendiam.

             Dirigiam-se um paraíso perdido, onde viviam outros escravos libertos.
             No caminho entraram numa embarcação preparada para eles.

             Corria a lenda que embaixo de uma cachoeira, vivia um dragão que soltava fogo e engolia quem se atrevesse a invadir sua caverna.

             Quando o capataz e seu patrão chegaram à beira da cachoeira, encontraram uma canoa vazia, só havia uma fita de cabelo que Gerusa costumava usar, e restos de corrente partida.

             Não ousaram enfrentar o monstro e voltaram dando como mortos os fugitivos.

             Nisso aparece no céu um lindo arco-íris, que sempre indica um momento de paz na natureza, e dizem também que onde ele termina se encontra um tesouro, que pode ser uma terra encantada onde as pessoas vivem longe dos preconceitos e injustiças: um “Eldorado” sonhado por todos.

O ESCRITOR QUE NÃO ESCREVIA - Luisa Helena Rodrigues Alves


O ESCRITOR QUE NÃO ESCREVIA
(ESCRITOR, GENEROSO, FALHAR)
Luisa Helena Rodrigues Alves

        Gilberto era um escritor famoso. Famoso de um livro só.

        Tinha escrito sobre a história dos deuses gregos, trazendo sua mensagem para os dias atuais. Exemplo: Dionísio, ligado às orgias de hoje; Apolo como um herói moderno, um ídolo de futebol ou de corrida como o Senna; Afrodite, rainha da beleza, como Miss Universo, e assim por diante.

        Na vida real era generoso com suas palavras, convencia os outros com famosas observações inteligentes e persuasivas. Mas na hora de escrever, na frente de um papel em branco, sua verborragia secava e falhava, frustrando-o mais uma vez.

        O que fazer para soltar sua inspiração? Pôs no Facebook essa pergunta e pediu ajuda aos amigos. As respostas foram variadas:

        - Dê três pulinhos, peça a São Longuinho!

        - Beba bastante vinho, durma e relaxe!

        - Consulte seu sábio interior, mandando-o consultar seus sonhos...

        - Escreva sobre tudo o que você vê durante o dia.

        Desanimado, resolve entrar para uma aula de escrita, onde a professora passava uma série de exercícios para desenvolver sua criatividade.

        Para a surpresa de todos e dele mesmo, começa a escrever interessantíssimos e engraçados textos.

        Até que ele se esqueceu de sua antiga pretensão em ser um escritor famoso, com um enorme número de livros.


        Ficou feliz com o ato de escrever e, na verdade, achou o que tinha perdido: o prazer da escrita.

Metamorfose Urbana - José Vicente Jardim de Camargo



Metamorfose Urbana
 José Vicente Jardim de Camargo



Não dava mais para encarar aquele trânsito caótico; manifestações de toda ordem; falta de consideração ao próximo; sustos atemorizantes causados pelos incessantes ziguezagues das motos desafiando as leis da física; olhos e narinas cada vez mais irritados pelo ar poluído; sinais de depressão e insônia crescentes; atrasos e desculpas esfarrapadas pelos horários não cumpridos; tempo de lazer cada vez mais curto; Enfim um rol de inconvenientes forçando mais e mais aquela ideia de tomar coragem, iniciativa e dar um basta nesta agonia sufocante.
Largar tudo e mudar-se para um lugar com mais qualidade de vida, encontrar motivos que deem um sentido maior a própria existência.

Mas esta ideia, sempre lhe era cortada pelo conformismo do padrão social adquirido; a estabilidade no emprego; os amigos formados; a cultura acessível;
E depois lhe vinham as dúvidas: – “Ir para onde”? Mudança radical ou paulatina? Litoral, montanha ou campo? Abrir comercio, serviços, tentar a agroindústria?
No fundo até que não via nestas questões grandes problemas, pois, até onde se conhecia, sabia poder se adaptar, com certa facilidade, a estas mudanças. Gostava da natureza em geral, do silêncio, se considerava um observador, de pouco falar e não era muito chegado aos falantes, atuantes de espelho, como definia os mais exibicionistas.  

Para ele, valia a frase:

“Quem mais sabe é o mais modesto!” O importante era ganhar coragem e ir-se para longe das urbes, das metrópoles confusas, caóticas. Para algum lugar onde o carro era só para emergências e todos os demais afazeres poder fazer a pé, de bicicleta, até de ônibus era aceitável, sentado, olhando, observando o vai e vem das ruas e casas, das pessoas, dos passageiros tentando descobrir seus problemas, angustias, sonhos, desejos... Usar barco? Porque não? O mar lhe fazia bem, trazia quietude e inspiração.

Num final de dia, necessitando comprar um presente para um amigo aniversariante e sabendo do seu gosto por livros antigos, entra num sebo e começa a vasculhar, remexer nas pilhas de livros empoeirados, enfileirados, a procura de algo inusitado, diferente, pensando na surpresa agradável do amigo ao receber e a satisfação do agradecimento: -“Puxa, acertou em cheio! Era esse que há tempos vinha procurando” E a surpresa dos demais convivas ao constatarem a preferência do presente.

No aperto do ambiente literato, lhe cai ao chão um livro amarelado, manchado, de bordas encurvadas pelo folhear constante. Um exemplar do Pequeno Príncipe de Saint Exupéry.

 –“Figurinha marcada para quem se considera leitor” pensa.

Mais um movimento brusco e outro livro lhe cai ao chão. Desta vez os poemas de Gibran Kahlil Gibran.

-“Outra figurinha carimbada!”.

Na sequência se depara com os livros de arte, grandes, vistosos e os de cima retratam as Maravilhas do Egito, os Mistérios da Esfinge, a Cultura dos Países Árabe...

Não encontrando nada interessante, sai a procura de outro sebo, na esperança de ainda encontrar o presente desejado.

Mas, ao sair, de repente, um lampejo do passado lhe desperta a mente. Vem-lhe a lembrança da juventude quando se maravilhou ao ler o Pequeno Príncipe, esse clássico da literatura universal. As peripécias do menino piloto que passou a reinar pelos céus, visitando os planetas, as estrelas, fazendo amigos, ora sentado nas dunas de areia do deserto escaldante, ora estendido no frio polar a contemplar as noites de estrelas cadentes, sempre a procura dos verdadeiros valores que o ser humano deve buscar na sua jornada de vida, mergulhando no próprio inconsciente e tudo envolto numa filosofia simples e franca de encarar a realidade do dia a dia. Belíssima trama de cenários e textos repletos de poesia e emoção.

E, do fundo da memória, lhe saltam a tona versos do pequeno grande príncipe com os quais tanto se identificara no passado:

-“Se já construístes castelos de areia no ar, não te envergonhes deles, constrói agora os alicerces”;

- “Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa”;

-“Feliz aquele que descobre que a beleza de um deserto é que ele esconde um poço”;

E, assim, como o prazer de um copo de água matando a sede, sentiu que tudo lhe parecia mais claro, mais preciso. Uma onda de otimismo lhe tomou o espírito, lhe renovou os ânimos, lhe subiu o astral.

Convicto com a rápida decisão decidiu que tudo deixaria e até sorriu, quando o local do destino lhe veio à mente.

Sim, lá! Onde desde as leituras dos clássicos árabes, sonhava em estar, de conhecer:

- As misteriosas cidades marroquinas... Iniciaria por Marakeshi, depois Fez, e aos poucos iria se infiltrando no deserto, na vida dos nômades, a perambular pelas dunas, sorvendo aos poucos a magia dos oásis, o sabor exótico das comidas, o sono revigorante das tendas...

Aprender, sempre aprender! Observar, agregar valores, conhecimentos. Sufocar, quando chegasse, as saudades da origem pátria. Andar, parar é covardia...

E, desta vez lhe baixou Kahlil Gibran, seu poeta favorito de tantas horas despertas:

- “És livre na luz do sol e livre ante a estrela da noite. E és livre quando não há sol, nem lua ou estrelas. Inclusive és livre quando fecha os olhos a tudo que existe”;
-”Só uma vez fiquei mudo”. Foi quando me perguntaram:

-“Quem és tu?”.

Sim! Depois da peregrinação e de saciar-se com a sabedoria dos astros profetas, ele poderá voltar às urbes e reverter a metamorfose do meio oriundo. Só que desta vez estará preparado, imune:


-“A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes...”.

O COLECIONADOR DE SANTOS - Oswaldo Lopes

    

      O COLECIONADOR DE SANTOS
  Oswaldo Lopes

Começara muito cedo, fruto de uma visita a Ouro Preto, por conta de um passeio do Colégio. Gostara muito do que vira e ouvira. Sim porque havia o que ver (Igrejas, Museus, Capelas, Santuários) e ouvir (os famosos sinos de Minas). Aprendera sobre a grande variedade dos santos produzidos no Brasil durante os séculos XVIII e XIX. Variedades de destinação:

1-                                Para igrejas e capelas. De serem vistos no alto ou no nível dos olhos ou mesmo baixo da linha.
2-                                Para os domicílios de gente mais abastada, onde era possível encontrar grandes oratórios e mesmo capelas.
3-                                Para domicílios mais simples, onde ficavam em um aparador ou no criado-mudo a beira da cama.

Aprendeu também que eram feitos de diferentes materiais: de pedra,  de pedra-sabão, porque era um material leve e  fácil de trabalhar com o cinzel, embora sua durabilidade e resistência ao ar livre fossem diminuídas por essas mesmas características; de madeira em aqui ficava mais nítida a inventividade dos artistas que, no geral, esculpiam corpo, face anterior do rosto e braços. O rosto, mãos, olhos e mesmo algum detalhe como animais eram colocados depois e juntados com colas ainda primitivas, do tipo sapateiro; argila, no caso procuravam um barro especial do tipo daquele que usavam para fazer utensílios, tipo louça fina. Este material tinha de ser cozido para dar-lhe resistência, para tanto era bom que fizessem um oco por dentro para facilitar o cozimento.

        Aprendera tanta coisa, mas o curioso que tendo visto apenas meia dúzia delas se encantara com um tipo de santo que era característico do Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo e por isso erma conhecidas como “paulistinhas”. Pequenas, ocas por dentro, feitas de uma argila clara, eram cozidas e depois pintadas. Havia quem advogasse a teoria de que eram feitas com moldes rudimentares e depois acabadas em separados. Isso explicaria certa similitude entre algumas delas. Reproduziam as mais variadas devoções sobressaindo-se: Nossa Senhora da Conceição, Santo Antonio, Santa Gertrudes, São Gonçalo ( com ou sem a viola), São José, São Francisco, São João etc.

Mas, ele era um colecionador, tinha conseguido ao longo do tempo essas paulistinhas e muitas outras imagens. Agora, como para todo bom colecionador, buscava as figurinhas difíceis, Nossa Senhora do O e uma Pietá. 

Embora a devoção por Nossa Senhora do O, ou do Bom Parto fosse muito presente sua miniatura era difícil de encontrar. Um pouco por modéstia outro pouco por pudor, não era comum se produzir Nossa Senhora Grávida. A dificuldade com a Pietá era a da dificuldade na composição que tinha Nossa Senhora tendo ao colo Jesus morto, tudo num bloco único que iria ao forno.

Ouvira falar e localizara uma Pietá com D. Arminda, uma velha professora aposentada e sem filhos que morava em Arujá. Com D. Arminda resolveu ir direto ao ponto, era colecionador e aquela era a peça que lhe faltava. D. Arminda gostava da peça, mas era solteira e sem filhos. Para que iria deixar aquela pequena imagem? Acertado o preço lá foi a Pietá para a coleção.

A do O foi mais complicada. D. Frausina era sacristã, para não dizer dona da velha capela em Taubaté, a sua Nossa Senhora habitava seu criado mudo num quarto de porta com a sacristia da Capela. Não ia sair por dinheiro nem é claro na força. Precisava uma boa  história, vamos lá chamemos pelo nome: uma boa cantada. E lá foi o colecionador com a sua história.

        Sua mulher estava grávida e o médico já o prevenira de que a criança estava atravessada e que o parto ia ser bem complicado com alto risco para mãe e criança. Queria a Nossa Senhora para ajudar no parto. Já tinha até escolhido os nomes: se fosse menina Lourdes e se fosse menino José.  Era emprestado sim, mas se desse tudo certo por interseção da Santa não queria devolver não, era milagre. Deixava uma quantia alta. Se desse errado devolvia a Santa e pegava o dinheiro. Se desse tudo certo, mandava um telegrama e o dinheiro ficava para a capela.

Contada assim, a história não parece ter muita força, mas lábia de colecionador é conhecida. D. Frausina concordou e...

Bem Nossa Senhora do O passou a integrar a coleção e pra mor de ter no futuro credibilidade nos arredores, na data aprazada enviou o famoso telegrama.


Papo Nonsense - Vera Lambiasi







Papo Nonsense                                                                                             

Vera Lambiasi

Kazuo atendeu o telefone no meio da noite, e assustou-se com uma louca falando português do outro lado da linha. E do mundo.

Perguntava sobre um cachorro chamado Froid, com consulta marcada para a sexta seguinte, com um certo Dr Rudolph, na Cobasi.

Ele havia embarcado há dois dias de São Paulo, rumo à Sidney, onde começariam suas aulas de inglês. Chegara cansado, e ainda recuperava-se do fuso.

Ana, este era o nome da doida, dizia ter achado uma carteira na rua Augusta, uns dias antes.

Sim, Kazuo havia estado no teatro Procópio Ferreira, assistindo Tim Maia, com seus amigos. Mas, sua carteira, estava ali, no criado-mudo do hotel.

Lembrava-se, vagamente, de um amigo do Ceasa ter comprado um cachorrinho para o filho. Mas não conseguia se desvencilhar do enrosco do telefonema.

Pediu o email da brasileira, e um tempo para desvendar o mistério.

Ana não se conformava com a falta de interesse do japonês pela carteira.

Kazuo voltou a dormir, e, pela manhã, lembrou-se de Kanashiro pedindo seu celular, para fazer uma surpresa ao filho. O aviso da chegada do filhote de shih-tzu seria feito em seu número. O que nunca aconteceu, por ter Kazuo viajado para a Austrália.

Clareadas as ideias, com o nascer do sol, Kazuo concluiu que a carteira só podia ser de Kanashiro, que o acompanhava no teatro.

Assim, colocou Ana, a insistente, e Kanashiro, o cuca-fresca, em contato.

A carteira foi devolvida em um encontro marcado no veterinário. Seguido de jantar em restaurante japonês na Vila Leopoldina.

Sorte dos dois. E de Kazuo, em paz, do outro lado do mundo.


O EMPRESÁRIO DOS GUARDANAPOS - Oswaldo Romano


O EMPRESÁRIO DOS GUARDANAPOS 

Oswaldo Romano            

         A dedicação ao trabalho levava Oswaldo Maluy a perder- se das horas no final do dia, sem alterar seu hábito de se levantar diariamente, às 6 da manhã. Tomava seu banho, fazia a barba, saboreava o café e se apresentava na fábrica bem trajado, em condições de receber um vendedor ou diretor de empresa sem correr o risco de sentir-se impróprio com sua aparência.

         Sua vida de empresário começou com uma pequena fábrica de guardanapos e copos de papel, estes revestidos com uma película de cera, descartáveis, um artesanato. Os primeiros guardanapos não absorviam e eram muito ásperos. Só conseguia vende-los nas periferias. No princípio era ele quem abria novos compradores e fazia as visitas mensais aos seus fregueses. Tirando os clientes da pinga, que reclamavam derreter a cera, os outros davam preferência do seu produto nos bares ao invés dos de vidro mal lavados e embaçados, sempre cheirando a ovo.

         No Brasil, fechado para o mundo desenvolvido, seu papel mal servia para uso nos sanitários. Mas era o que tinha, insistia. Sabia da existência de produto muito melhor na Europa.

         Maluy vivia a segunda geração de emigrantes libaneses. Bem posicionado socialmente, frequentou boas instituições de ensino, insistiu em se tornar na vida um respeitável empresário. Nosso amigo dos fins de semana no Guarujá primava por manter essa aproximação. Corria atrás do sucesso, fazia-se orgulhar de suas iniciativas, como o apoio dado a seu filho para construir a concorrida Pizzaria Cristal, de São Paulo.

         Seu carro, um Mercedes, comprado de embaixada, era a inseparável condução do seu dia a dia. Não se sentia confortável tendo uma vida de luxo, enquanto sua fabrica apresentava um produto de terceira, criticado pelos conhecedores.

          Como era de se esperar, resolveu fazer uma viagem de pesquisa no velho mundo.

         Lá, encheu uma mala de amostras de todos os tipos de guardanapos que encontrou. Visitou fábricas, consulados, e me contou que, com a maior cara de pau entrava nos finos restaurante, era recebido com aquele largo sorriso de quem esperava faturar, mas o que pedia, deixando o metre surpreso, eram os guardanapos.

Quando alguém se dedica no trabalho com afinco e garra, vence. Os acomodados menosprezam o talento, rotulando o vencedor ter nascido virado pra lua. Inveja.
No retorno assustou o fiscal da alfandega que ao abrir uma de suas malas, voou guardanapos de papel por todo chão da alfandega.

         Uma noite, deixando sua empresa por volta das 20 horas, como fazia normalmente, distanciava-se umas três quadras da fábrica quando passou por ele uma acabada perua, ocupada por suspeitos, ziguezagueando, quase perdendo a direção, o que provocou palavras ásperas entre ambos, mal ouvidas. Felizmente se foram.
Adiante virou à direita, uma rua secundária, sua rota diária, e aconteceu o inesperado. Lá estava a perua fechando a rua. Pego de surpresa foi abordado e recebeu violentas bordoadas, inclusive na cabeça.

Seu mundo apagou. Na sua casa, todos sem noticias, um desespero.

         Distante dali foi desovado pelos bandidos. Quando acordou, tudo muito escuro, um silêncio de morte, viu-se abandonado no meio de um mato que lhe cobria. Desmemoriado, ignorava sua personalidade. Estava nu, não totalmente, sobraram-lhe as meias.

         Chorava por força da retração nervosa. Longe, distante, viu uma luz e nada mais nas imediações.

Ao natural, incomodado pelo mato e picadas, tomou aquela direção. Era uma casa e chegou até a porta. Começo da madrugada, um cachorro muito sujo latindo o encarava.

         Não sabia o que fazia ali.

         Sem passado que pudesse ser lembrado, ignorando o mundo, via-se num espaço vazio. Os latidos acordou a dona da casa, uma italiana que foi ver o que acontecia. Abrindo o visor da porta, deu de cara com o homem muito branco e sem camisa. Levou um susto.  Pareceu-lhe abobado. Deixou-a trêmula. Correu, chamou o marido: Angelo... Angelo! Este acordou assustado, foi à porta, munido de um cacete.

         — Cosa vuole aqui a estas horas? Parle uomo. Parle. (O que quer aqui... fale homem, fale).

         — Não sei, estou aqui, chupei uma manga ali...

Tá bene, tá bene, adesso vadovia...vadovia... (agora vá embora, vá embora)

         Com aquela aparência, mais parecia ser um acidentado, e com o barulho do cachorro estava difícil se entenderem. O homem sem camisa e com uma mancha de sangue na têmpora sentia frio. Angelo tomou coragem, pensando num socorro, resolveu abrir a porta. Ao ver o homem nu, a mulher desatou aos gritos:

         — Mama mia! Diu mio!

         — Má que sucede, que cosa é esta! Lê é o próprio mentecapto! (O que acontece, você é um próprio louco) — exclamou Angelo perplexo.

         Mais assustado estava o Maluy. — Não sei, não sei.

         Realmente estava desmemoriado, patso, como disse o italiano.

         A dona correu, tirou a toalha da mesa, e fez o homem cobrir-se.

         — Como é su nome?
         — Nome? Não sei. Estou falando...
         — O sinhore tem algum documento?
         — Não sei, tenho as meias.
         — Como andato qüi? (como veio aqui?).
         — Sim, daquele mato.
         — Bizonha fare um esforço, o senhore deve ter um teléfono,... Una família, procure ricordar su nome. (precisa fazer um esforço, deve ter um telefone, procure recordar seu nome).
         — Mercedes... Mercedes...
         — Su muéi se chama Mercedes? — Interveio a dona.
— Estou aqui, né? Dói minha cabeça.
— Varda, miu nome é Anna, miu marido é o Angelo e o seu è...? (veja, meu nome é Ana, meu marido Angelo, e o seu é?).
Estendendo a mão ele disse:
— Muito prazer.
         — Si, piageri, má su nome, como se chama?
Assim foi o resto daquela fria noite. Maluy incomodado se coçava todo.
         — Lê está no Sítio Nápolis, disse Angelo. Acerca de São Lourenço.
È. Sítio Nápolis- reafirmou o Angelo.
         — Itália! Perguntou Maluy admirado.
         — Nó Brasile, perto de São Paulo.
Sentaram-se. Correu muita conversa, até de manhã.
                  — Basta Anna, vamo sortire café e pane, dopo iu vô a cittá, na policía - lê está próprio patsso. (vamos dar o café, depois vou à polícia).
         Anna apoiando uma pesada broa no peito cortou várias fatias colocando num cestinho de bambu.
         — Bom! -disse o Maluy comendo.
         — Tá bene, manja, manja. Éco Anna! Manjare ele si ricorda súbito eh! (De comer ele se lembra logo.).
         — Bom... Bom...  –dizia, e tomava café.
— Vedere Angelo, quanti fame, si lambuza tutti. (Quanta fome se lambuza todo).
— É vero, é vero.
Anna então se levantou, abriu a porta do armário, pegou uns guardanapos e outro copo de papel e lhe deu. Maluy abriu o primeiro, olhou de um lado, olhou do outro e gritou:
— Meu Deus! Diu miu! Levantou as mãos, SALTOU DA CADEIRA.
         — Óh Deus! Sono iu! Sou eu, aqui, aqui, sou eu!
         Angelo e Anna achegando-se debruçaram sobre o que ele tão eufórico mostrava.
         — Má qui vedere? Una estampa... está propio patso. ( O que vê? Um selo…)
         — É verdade! Um milagre! Vejo tutti alora! (Um milagre! Lembro, lembro de tudo.).

Maluy reconheceu no guardanapo o logotipo estampado da sua fábrica!
-GUARDANAPOS INAJÁ-



Oficina de textos, do Clube Alto dos Pinheiros - Vera Lambiasi




Oficina de textos, do Clube Alto dos Pinheiros                                     
Vera Lambiasi

O encontro começa às duas, no hall da biblioteca. Conversa solta sobre os assuntos da semana. Copa, política, violência, ali pode tudo. Novidades em livros, tecnologia para a escrita.

Professora e alunos a postos?

Entramos na classe, de tudo esquecer.

Porta fechada, celulares desligados, o mundo, lá fora.

Incomunicáveis, começamos a ler nossas lições de casa, ALTO, para os colegas.

Todos criticam.

Aplaudem, se for o caso.

Professora faz correções pontuais. Alunos viajam na maionese.

E o orador aceita, bem humorado.

Somos treze. Pessoas maduras, cultas, de diferentes profissões, que se expõem como crianças.

Depois dessa rodada de textos incríveis, feitos com calma, no aconchego do lar, vem a lição de sala.

A professora distribui uma folha, propondo um tema, ensina a construção desta escrita – poesia, conto, crônica, discurso, qual queira – sugere figuras de linguagem, e escapes de lugar comum.

Enquanto lemos o enunciado, nossa mente já começa a ter ideias, e equívocos, rs.
E no fim da explanação, quando é pedido o texto, começa a brotar a história completa.

Pausa para o bolo e champagne, sempre é aniversário de alguém, ou foi.

Completamente alimentados, jorra no papel, a fábula do dia.

Rápida, curta, só uma lauda. Para expressar aquelas três horas passadas com os amigos.

As desavenças, picuinhas, choque de gerações, vingancinhas, manobras maquiavélicas, oportunismos, vão todos para os textos.

Devíamos até agradecer quem nos causa tanta dor.

Das experiências, faz-se um escritor.

Muito agradecida!

Esta lição de sala saiu levinha, colorida e adocicada.

Deve ser a sensação de perdão.