Seria cômico se não fosse trágico - Ledice Pereira

 







 Protagonista, recebe a notícia da morte de alguém muito querido. Atordoado, acidentalmente, comparece ao funeral ou velório errado. 

 

Seria cômico se não fosse trágico

Ledice Pereira

 


Silvia abriu a porta afobada. O telefone tocava insistentemente. Ao atendê-lo, a ligação caiu. Não reconheceu o número. Julgou não ser nada importante. Dirigiu-se para o quarto de vestir. Precisava desfazer a mala, que tinha roupas do fim de semana na praia, pois viajaria, após o almoço, a trabalho. Seria uma longa semana de reuniões. Testa franzida, procurava escolher roupas práticas, mas executivas que combinassem entre si. Não pretendia levar tanta coisa assim.

Conseguira o estágio no escritório de advocacia, exigência da Universidade de Direito, para que pudesse formar-se no ano seguinte. Ali, aprendera muita coisa que a Universidade não ensinava e ela procurava ser bastante eficiente. Talvez depois, conseguisse ser contratada.

O telefone tocou novamente. Correu a atendê-lo. Imaginou que seria sua mãe.

— Oi - falou, displicentemente, já constatando tratar-se de seu chefe.

— Desculpe, Dr. Mário, pensei que fosse minha mãe.

O chefe não costumava ligar, muito menos num domingo à noite. A voz grave indicava que algo sério acontecera.

— Algum problema, doutor?

É, Silvia, mudança de planos. Teremos que adiar sua viagem. Faleceu a mãe do Dr. Renato e você terá que nos representar no velório.

Dr. Renato Marconi de Toledo era o chefão. Homem empertigado que mal olhava para os funcionários. Parecia ter o rei na barriga.

— O cara sempre me ignorou. Por que logo eu, terei que representar o escritório todo? — Falou com seus botões.

Torceu o nariz, dirigindo-se para a cozinha. Quando era contrariada, sentia necessidade de comer alguma coisa. A mala ficou lá, entreaberta sem que ela desse continuidade às arrumações.

Andou de um lado ao outro do pequeno apartamento, bufando. Fumou uns três cigarros seguidos. Os olhos pareciam querer saltar da cavidade ocular.

O velório de dona Celine seria das oito da manhã até às treze horas e trinta minutos. O chefe havia pedido que ela ficasse até o fim.

No dia seguinte, mesmo contrariada, vestiu-se discretamente e dirigiu-se ao cemitério no Morumbi em São Paulo. Não conhecia muito bem aquela região. Procurou o nome Celine na listagem que constava na entrada, havia Celina Toledo, não teve dúvidas, o chefe devia ter se enganado com a vogal.

Não havia quase ninguém. Além da filha, bastante desolada, que procurou acalmar e confortar, apenas uma senhora, que vestia um jaleco, e lhe foi apresentada como enfermeira. Deu graças a Deus, de não encontrar o chefão. Ficou a um canto apenas observando. Tudo muito simples.

 Estranhou que a coroa de flores que o chefe providenciara ainda não houvesse chegado. Tentou ligar para ele. Deduziu que, àquela hora, ele devia estar viajando de avião.

Em dado momento, a jovem, um pouco mais tranquila, convidou-a para tomar um café.

Resolveu aceitar.

Ficou sabendo que a jovem não tinha mais ninguém. Deixara a cidadezinha onde moravam no Ceará, para que a mãe se submetesse a um tratamento em São Paulo.

Aos poucos, a ficha caiu. Estava no velório errado. O pior é que passava das onze horas e tinha pouco tempo. Despediu-se, alegando ter horário para voltar ao trabalho.

O chefe havia falado claro: Cemitério Getsêmani no Morumbi. Ela ficara tão indignada de ser escalada para a função, que só guardou que era no Morumbi.

— Quando ele souber, vai ficar furioso comigo e é capaz de me mandar embora.

Colocou no waze e arrancou o carro. Não podia ser muito longe dali. O waze indicava 3,9 km. Uns quinze minutos. Acelerou.

O cemitério estava lotado. Custou a encontrar uma vaga. Dirigiu-se à sala indicada na entrada. Havia gente saindo pelo ladrão. Ninguém conhecido, a não ser ele, o chefão. Mesmo naquela situação, empertigado. Atravessou a multidão, pedindo desculpas, até conseguir chegar até ele.

O homem não lhe deu a menor atenção. Parecia nem saber quem ela era. Acho que jamais a havia notado.

Achou melhor explicar que havia ido ao cemitério errado. Ele sequer a ouviu. Estava muito preocupado em atender a todos.

Observou que a coroa estava ali, imponente, que não havia emoção entre as pessoas presentes, nem mesmo no dito cujo. Afinal era a mãe dele.

— Meu Deus, que frieza!

Em rodinhas, as pessoas conversavam e sorriam, parecendo estar se confraternizando. Ficou num canto, pensando que talvez tivesse sido melhor ficar no outro velório, tão vazio, mas tão cheio de sentimento.

O celular tocou. Seu chefe perguntava se deu tudo certo.

— Sim senhor. Aqui está tudo certo. As flores chegaram e estão lindas.

Fique tranquilo. Tudo nos conformes.

Ainda bem que, por telefone, o chefe nem percebeu sua ironia.

 

 

  

 

 

 

 

                                                                      

 

Os Gêmeos - Yara Mourão

 



Os Gêmeos

Yara Mourão


Pedro e Paulo se entreolharam. Cenhos franzidos, sorriso amarelo.

A voz precisa e clara do pai desestimulava qualquer intenção de contrapartida.

Os rapazes silenciaram, se despediram do pai e consideraram que, sendo gêmeos, teriam provavelmente a mesma intenção: mostrar ao pai que desempenhariam à altura a tarefa que ele lhes destinara.

Pedro se dirigiu ao seu consultório. Serenamente, consultou seu computador; teria tempo disponível para seus projetos em medicina virtual. Reagendou cuidadosamente seus compromissos e, a passos lentos, seguiu para casa a preparar a interessante e inusitada tarefa.

Já Paulo agitou-se na direção do carro; tentou não acelerar, mas foi em vão. Chegou a 120 km por hora na avenida até seu laboratório. Lá, remexeu várias vezes em seus stands, nas gavetas abarrotadas que deixavam material caindo para fora. Procurava as peças que construíra, as fibras óticas que guardara já nem lembrava onde. Suas mãos escorregavam ligeiras entre ferramentas, fios. Suava e murmurava, entre dentes, palavras emboladas, nem sabia o que queria, na verdade. Franzia a testa e passava os dedos pelos cabelos, os olhos semicerrados.

Dias depois, Pedro e Paulo se despediam no saguão do aeroporto; dois rumos, dois sonhos, e uma incerteza: a de conseguirem mostrar ao pai o quão engajados estavam em poder implantar, ainda que em terras distantes, algum progresso e bem-estar.

II

Gasadalur – Dinamarca

Pedro nem acreditou em seus olhos. Mirou longamente a rua vazia, que parecia saída de um conto de fadas. Abriu e fechou os olhos, sentindo o coração acelerar um pouco. Deixou-se levar pelas primeiras impressões. O ar úmido e sombrio e o caminho estreito o faziam avançar hesitante, como que saindo do útero para uma vida nova.  Foi se aprofundando entre as casinhas tão iguais até chegar a uma porta alta com a placa de uma cruz vermelha. Decerto era o hospital. Tocou a sineta e lá de dentro alguém correu uma cortina, espiou e, hesitante, abriu a porta. Uma senhora de meia-idade resmungou um bom dia. Era uma mulher grisalha, com a testa franzida e lábios constritos, olhar baixo.

Pedro estendeu a mão, descuidado de maiores atenções. Foi entrando timidamente até uma salinha com cheiro de éter, onde havia uma mesa e cadeiras. A senhora, ainda na porta, mediu Pedro longamente e arriscou, num inglês tosco, as primeiras conversas.

Pedro até sorria. Estava diante de uma representante do tempo de Hipócrates! Explicou meticulosamente o que viera fazer: implantar um método de atender os pacientes à distância, por uma tela, sem que o doente saísse de casa.

A senhora arregalou os olhos, juntou as mãos no peito, enxugou uma lágrima. Era um enviado de Deus, decerto, esse homem de fala mansa. Isso era tudo que a cidade precisava. Ao final da conversa, Pedro a cumprimentou e beijou-lhe as mãos numa reverência sincera.

Sim, estava tudo caminhando bem. Ele poderia iniciar seus trabalhos, ela garantiu-lhe parceria.

Assim foi. Desde então, Gasadalur nunca mais foi a mesma.

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Bronkhorst – Holanda

Era uma manhã ensolarada quando Paulo chegou à porta do escritório da Companhia Elétrica Holandesa, num recanto turístico daquele país florido.

Ele passou os dedos pelos cabelos e coçou a barba, como sempre fazia diante de novas situações. Tentou se aprumar, ajustou a gravata, tossiu forte, engasgado.

Já tinha os contatos feitos aos gerentes da companhia de energia da cidade para mostrar seu projeto. Era a cara da modernidade, até um avanço no tempo.

Esse foi um encontro de dois mundos. Aqueles senhores altos, ruivos e de gestos largos, se agruparam aos pares, como uma barreira, frente à novidade que chegava. Ele percebeu que eles formavam um quartel-general, mantenedor das informações e dos bons costumes, uma fortaleza a ser conquistada. 

Mas Paulo adiantou-se às conversas, e olhando bem nos rostos dos homens, expôs, com voz firme, os croquis para as instalações das antenas de Internet de alta velocidade; explicou meticulosamente que os gastos seriam baixos, trazendo aos moradores novas visões da atualidade com a implantação dessas novidades.

Os semblantes dos donos da comunicação se alteraram: olhavam para baixo, se mexiam nas poltronas, ora andavam de um lado para outro, ora se postavam imóveis junto às portas.

Nesse meio tempo interminável, Paulo se levantava e se sentava, elogiando a graça da cidade tão atrativa para turistas. Comentava que seria um grande salto para os moradores, um atrativo a mais para o local. Falava compulsivamente e para convencer os funcionários fazia malabarismos com as mãos; ao mostrar fotos se aproximava dos homens e tocava-lhes os braços, amigável.

Entretanto, logo compreendeu que essa possibilidade de novas mensagens, novos conceitos, seria uma mudança radical no entendimento daqueles senhores austeros.

Ele olhou para o relógio, voltou-se para as altas janelas, rodou sobre os calcanhares; não tinha dúvidas: seu projeto não seria realizado em Brokhorst.

Sem dizer palavra, Paulo arrumou seus materiais cuidadosamente na pasta, ajeitou a gravata, empertigou-se e saiu da sala com um leve aceno de cabeça. Já à porta de saída do prédio passou o lenço sobre o rosto suado e, ligeiramente encurvado, dirigiu-se a passos lentos para a estação de trem. Estava concluída sua inglória missão em terras estrangeiras...

 

 

O Desafio - Ledice Pereira

 


O Desafio

Ledice Pereira

 

– Onde meu pai estava com a cabeça quando resolveu me mandar pra este fim de mundo? – pensou Rafael, franzindo a testa, contrariado, ao olhar pela janela do pequeno avião que voava em círculos sobre a pequenina região, aparentemente sem condições de descer.

Consultou o piloto sobre a dificuldade de pousar ali, quando se viu projetado para a frente, tendo que se segurar fortemente no painel a sua frente.

A abertura da porta deixou que o frio o gelasse por fora e por dentro. Estava em Gásadalur.

O velho deve ter pesquisado bastante pra me abandonar no menor lugar do mundo – murmurou consigo mesmo, enquanto pegava a mala e a mochila onde trazia tudo de que precisaria para viver aquele ano num lugar como aquele.

Pensou em Miguel, seu irmão gêmeo que também deveria estar chegando ao destino lá na Holanda.

— Se ao menos estivéssemos mais perto. Que Deus me ajude a resistir a esse desafio!

Rafael não se conformava de ter deixado seu emprego, onde enxergava uma promissora carreira como engenheiro mecânico e robótica, para enfiar-se numa minúscula cidade como aquela, sem a menor perspectiva de encontrar o que fazer.

 

Enquanto isso Miguel, formado há dois anos em medicina, chegava ao pequeno povoado de Bronkhorst, um dos menores do lugar. Durante a viagem tentara desvendar o local, através dos vários sites, para descobrir o que fazer durante o próximo ano num lugarejo tão minúsculo. Tinha projetos de se tornar um médico de família, visitando cada casa de morador, mesmo sabendo tratar-se de uma população restrita. A cidade vivia do turismo, sempre lotada de visitantes que não ficavam mais do que dois dias.

O peito doeu lá no fundo. Sentiu uma enorme vontade de falar com o irmão. Eles costumavam apoiar-se incondicionalmente. Estava faminto, dirigiu-se para a pousada reservada, subindo a rampa de pedras indicada por um morador. Uma sopa fumegava no fogão cujo calor aquecia a pequena sala. Lutou para conter uma lágrima que insistia em querer pular dali. Foi conduzido para o aposento ao lado onde deixou suas coisas enquanto se lavava. Mais uma vez pensou em Rafael.

 

Rafael estava tão cansado que, após a refeição que lhe foi oferecida, dirigiu-se ao quarto, caindo na cama de roupa e tudo. Logo adormeceu.

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Nicolau se perguntava se havia feito o melhor para os filhos. A mulher deixara de falar com ele desde que ele tivera aquela ideia, segundo ela, totalmente maluca.

Ele já não sabia se havia sido justo ou cruel.

De um lado, seu coração o aplaudia pela coragem de tê-los desafiado.

De outro, batia descompassadamente, temendo que sofressem reveses. Sabia o quanto um dependia do outro. Queria vê-los lutando, separadamente, para vencer o desafio e poder merecer sua vantajosa herança que, no final, seria mesmo deles.

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A manhã fria do dia seguinte fez com que Rafael relutasse para sair debaixo das cobertas. O sol atravessava a fresta da janela, parecendo querer avisá-lo de que o dia já ia adiantado. Foi recebido com um belo sorriso, na sala onde havia uma mesa posta com quitutes que lhe encheram os olhos. Impossível não corresponder àquele sorriso. Sentou-se e deliciou-se com aquele café da manhã dos deuses. Estava de melhor humor.

Saiu para fazer o reconhecimento do lugar, procurou conversar com alguns moradores, todos foram muito simpáticos com ele. Afastou-se, chegando à beira do mar. A vista o deixou impactado. Uma queda d’água incrível o transportou dali. Parecia fazer parte de um filme. A natureza comandava o espetáculo. Permaneceu estático, olhos arregalados, hipnotizado. Avistou algumas casinhas, a maioria de madeira. Pareciam de brinquedo. Tinham uma vegetação no telhado?

Foi interrompido pelo barulho das pessoas que desciam de uma van. Eram turistas que fotografavam tudo, fazendo exclamações de admiração.

Resolveu sair devagar. A cidade não corria. Ao contrário da São Paulo onde nascera, ali ele conseguia sentir sua respiração, inspirando e expirando num compasso lento. Há quanto tempo isso não acontecia. Esboçou um sorriso. Talvez o velho não fosse aquele monstro que, a princípio, ele julgara ser.

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Miguel aproveitou a manhã para visitar os lugares, achando a cidadezinha um charme, com aquelas ruas de pedra e flores ornamentando as casas, embora os tijolos escuros dessem uma ideia de seriedade ao lugar. Resolveu alugar uma bicicleta para facilitar a visita, desvendando o que a cidade oferecia. Aos poucos, cruzou com os moradores que, com suas bicicletas, venciam os quilômetros que os separavam de suas casas, fazendo compras, que traziam em sacolas. Todos se cumprimentavam sorridentes, fazendo com que ele também passasse a sorrir e acenar para todos. À hora do almoço, procurou um dos restaurantes no caminho para degustar uma deliciosa panqueca e beber a cerveja que lhe foi oferecida. Estava encantado com Bronckhorst.

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Ao telefone, contaram um ao outro sobre as respectivas cidades e mostraram-se entusiasmados com as ideias de que haviam tido para implementar os conhecimentos relacionados às suas áreas de atuação.

 

Conversando com o dono da pousada, contando a ele porque estava ali este mostrou-lhe uma notícia de 22 de maio de 2024 que saiu no jornal local:

 

 ODENSE, Dinamarca, PRNewswire/ -- A Universal Robots, empresa dinamarquesa de robôs colaborativos (cobots), e a MiR, fabricante dinamarquesa de AMRs (robôs móveis autónomos), celebraram hoje a Grande Inauguração da sua nova sede de 20.000 m2 em Odense, Dinamarca.”

 

Ficou curioso, pesquisou a distância, eram 42 horas de carro. Mas poderia ir de avião. Entrou em contato com a empresa, encaminhou seu curriculum e solicitou um estágio no local. Com o que sabia de Inteligência Artificial, poderia aprimorar seus conhecimentos e criar em Gazadalur uma filial que seria muito importante para o lugar.

Enquanto não recebia uma resposta estudou tudo que pôde sobre a fábrica e o assunto.

Três meses depois recebeu uma resposta positiva, mudando-se temporariamente para Odense.

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Miguel, por sua vez, apresentando-se à Clínica existente em Bronckhorst iniciou seus trabalhos, atendendo pacientes que se dirigiam para ali procurando atendimento médico, a maioria, turistas. Aos poucos, foi se fazendo conhecer pela população local e, com seu jeito simpático, conquistando sua confiança.

Ao final de seis meses, passou a atender em domicílio, que era seu objetivo. As crianças na verdade eram sua prioridade.

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Nicolau, orgulhoso, acompanhava o movimento dos filhos que passaram a lhe telefonar mais amiúde para contar sobre a evolução de seus trabalhos...

A Missão dos Gêmeos - Silvia Maria Villac

 




A Missão dos Gêmeos

Silvia Maria Villac

 

 

Quando o pai lhes deu a notícia sobre o que deveriam fazer para receber a herança, em um primeiro momento, Gil, passou a mão pelos cabelos repetidas vezes e franziu o cenho, enquanto Vicente se levantou e começou a estalar os dedos das mãos, andando de um lado para o outro do recinto.

Em um segundo momento, Vicente voltou a se sentar e ambos mantinham a mão sobre o queixo, com o cotovelo apoiado sobre a perna cruzada, como que se questionando o porquê dessa aventura.

Acostumados com a metrópole, teriam agora que ir para um minúsculo vilarejo, desenvolver um projeto em sua respectiva área de expertise e, o mais desafiador, conviver e conquistar os habitantes do micro lugar escolhido a dedo pelo pai!

Gil, o engenheiro, foi sorteado para ir para a Holanda, país onde turistas não são bem-vindos nem mesmo na capital!

Já o destino de Vicente, o médico, era a Dinamarca, onde o ranking de visitação já é bem menor.

Os irmãos, sempre muito unidos, combinaram de se falar diariamente, porém não se surpreenderam quando descobriram que não havia sinal de celular no povoado de Gil, que teria que percorrer uma meia hora de estrada para chegar em um vilarejo próximo, visto como um local mais adiantado, enquanto Vicente poderia utilizar a senha do wi-fi do correio.

Sendo engenheiro, ele imediatamente descobriu o projeto que iria desenvolver. Sorriu para si quando a ideia lhe veio à mente e relaxou os ombros, balançando a cabeça afirmativamente, decidindo que levaria a internet com fibra ótica para toda a região.

Enquanto isso, na Dinamarca, Dr. Vicente havia sido recebido com total frieza pela comunidade.  Com a sobrancelha esquerda levantada e os lábios fechados, ele foi se apresentando aos locais, tentando, em vão, esboçar um sorriso para disfarçar sua timidez perante aquela recepção gélida.

No meio dessas pessoas, avistou uma moça alta que, no fim das apresentações, veio ao seu encontro e lhe disse que o levaria onde seria sua casa. Era o 1º semblante amigável que via e isso fez suas feições relaxarem e conseguiu sorrir, deixando à mostra aqueles dentes todos alinhados.

A casinha era logo virando a esquina e, mais uma vez, seu semblante se descontraiu quando avistou a varanda florida, como que lhe dando as   boas-vindas. Respirou fundo, tornou a mostrar seu belo sorriso e, ao receber as chaves, abriu a porta e, com passos firmes e decididos, adentrou o recinto, sabendo que seu projeto seria abrir um ambulatório com consultas online para todo o povoado daquela região. E, franzindo o cenho, mas sem deixar de sorrir, se prometeu não mais chamar aquele local de Cafundó do Judas.

 

 

O Desafio - Adriana Frosoni

 


O Desafio

Adriana Frosoni

 

Eduardo e Ernesto dividiam a bola no campo de futebol, driblavam o pai, disputavam o espaço corpo a corpo e se divertiam diariamente nessa disputa desde pequenos. Os pais sempre foram presentes e participavam ativamente das brincadeiras. Os meninos eram gêmeos, nascidos em uma família abastada e educados nas melhores instituições. Embora fisicamente semelhantes, suas personalidades e ambições eram notavelmente distintas. 

 

O tempo passou depressa e o rapazes, agora recém-formados, continuavam muito amigos e competitivos. Eduardo, médico, muito dedicado, via sua profissão como um chamado divino. Ernesto, engenheiro mecânico e especialista em robótica, sonhava em transformar o mundo com suas invenções.

 

O pai era um homem de princípios rígidos e sempre acreditou que grandes sonhos deviam vir acompanhados de propósitos nobres. Desde que enviuvou, ele conversava frequentemente com a foto da falecida esposa na esperança de conseguir um direcionamento. “Sinto tanta falta de ouvir suas teorias e planos! Você saberia o que fazer…”, pensou, sentindo a melancolia tomar conta de si. Foi então que ele teve a ideia de propor aos filhos uma viagem de um ano para algum lugar onde teriam que provar seu valor e capacidade de adaptação. Cada um deveria partir para uma cidade pequena e remota, onde trabalhariam para melhorar a vida dos habitantes. 

 

Eduardo foi para Bronkhorst, na Holanda, uma vila pitoresca com menos de 100 habitantes. Seu objetivo era criar a melhor clínica médica para aquela comunidade simpática. Ernesto, por outro lado, foi enviado para Gásadalur, a menor cidade do mundo na Dinamarca, com apenas 20 habitantes, onde deveria aplicar seus conhecimentos para melhorar as condições de suas vidas.

 

Eduardo chegou a Bronkhorst com grande entusiasmo, determinado a criar uma clínica que faria diferença na vida dos moradores. Porém, rapidamente se deparou com um problema inesperado: uma epidemia de gripe havia se espalhado pela vila, e os poucos recursos médicos existentes eram insuficientes. Eduardo sentiu o peso da responsabilidade em seus ombros. 

 

Ele caminhava pelas ruas de paralelepípedos com uma expressão tensa, seus olhos refletiam preocupação e cansaço. As mãos, geralmente firmes e precisas, agora tremiam levemente. Dormia mal. Quando atendia os pacientes, seu rosto mostrava um misto de compaixão e frustração. Ele sabia que precisava agir rápido, mas sentia-se impotente diante da falta de medicamentos e de equipamentos básicos.

 

Após um dia particularmente difícil, ele desabou em uma cadeira de madeira na pequena casa onde estava hospedado. Sua cabeça caiu entre as mãos, e os ombros largos se curvaram sob o peso do desespero. “Como eu queria ter meu irmão por perto! Para ele eu poderia confessar minhas angústias e minha impotência diante de tanta necessidade. ”, murmurou para si, numa voz carregada de angústia.

 

Enquanto isso, Ernesto chegou a Gásadalur com um arsenal de equipamentos tecnológicos e um plano ambicioso para transformar a pequena vila. No entanto, o que encontrou foi uma resistência inesperada. Os habitantes, acostumados a uma vida simples e isolada, viam aquelas máquinas e robôs com desconfiança e até medo.

 

Ernesto, geralmente confiante e assertivo, viu-se em uma posição desconfortável. Suas mãos, que antes manipulavam peças complexas com destreza, agora gesticulavam nervosamente ao tentar explicar suas ideias. Havia um verdadeiro abismo entre suas propostas e a realidade do lugar. Seu sorriso, normalmente fácil e contagiante, desapareceu, dando lugar a uma expressão séria e preocupada.

 

Certo dia, durante uma reunião com os moradores, Ernesto percebeu que não estava tendo nenhuma aceitação. Um idoso da comunidade, com o rosto marcado e os olhos penetrantes, levantou-se e disse: “Nós não precisamos dessas máquinas. Precisamos de alguém que nos entenda e respeite nossa maneira de viver.” As palavras atingiram Ernesto como um golpe, e ele sentiu o rosto corar de vergonha e frustração.

 

De volta ao seu alojamento, Ernesto olhou para suas invenções com um misto de orgulho e desânimo. Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando controlar a ansiedade que apertava seu peito. “Como posso ganhar a confiança deles? ”, perguntou-se, passando a mão pelos cabelos negros e desgrenhados. “Se meu irmão estivesse aqui, ele saberia como me ajudar a entender a necessidade desse povo! Daí eu poderia empregar a tecnologia assertivamente. ”

 

Determinados a superar os desafios, os rapazes perceberam que teriam mais sucesso se deixassem a competitividade de lado e unissem forças para atingir um objetivo maior. Entraram em contato um com o outro e a partir de então conversavam quase todos os dias e compartilhavam as dificuldades, na esperança de encontrar uma solução e de conseguir organizar as próprias ideias. Aos poucos, começaram a ver pequenos progressos. 

 

Soluções tecnológicas simples foram implementadas para solucionar os problemas do médico. Coisas que sempre estão à mão quando se estuda ou trabalha em grandes centros, mas que em locais remotos, durante uma crise de saúde, precisam e podem ser improvisadas. O engenheiro, também decidido a não desistir, passou a despender mais tempo com os habitantes, aprendendo sobre suas necessidades e preocupações. E ao dividir essa realidade com o irmão, foi entendendo como adaptar seu conhecimento de forma útil e não apenas criar coisas mirabolantes que ninguém estava precisando. 

 

Ao final de um ano, os gêmeos retornaram à casa da família. Eduardo estava mais magro, mas seus olhos brilhavam com a satisfação de ter superado a crise em Bronkhorst, além de ter conseguido melhorar o sistema de saúde local. Ernesto, por sua vez, parecia mais maduro, com uma nova compreensão da importância de praticar a escuta ativa e a empatia, mesmo quando o assunto é tecnologia. O pai observou os filhos com orgulho. “Vejo que vocês entenderam o verdadeiro valor da compaixão, da resiliência e a da capacidade de fazer a diferença. ”

 

E os gêmeos também perceberam que, apesar de suas diferenças, sempre poderiam contar um com o outro, desde compartilhar as dificuldades até achar soluções para transformar o mundo. Não deixaram de ser competitivos entre si, mas reservaram isso para os esportes e as brincadeiras.

 

 

O amigo diferente - Ledice Pereira




O amigo diferente

Ledice Pereira

 

As férias prometiam. As crianças estavam felizes porque ninguém estaria fora da cidade e poderiam brincar à vontade todos os dias.

A vila tinha um portão na entrada que permanecia fechado. Havia uma sequência de casas inabitadas que haviam acabado de ser construídas e aguardavam apenas liberação da prefeitura para moradia.

Combinaram que se encontrariam todos os dias depois do café e brincariam o dia todo com intervalo para o almoço.

Os pais ficavam sossegados. Ali não havia nenhum perigo.

Das casas, as mães podiam ouvir a gritaria feliz da criançada. Não sabiam, entretanto, que os pequenos resolveram examinar as novas casas e usá-las para a brincadeira de esconde-esconde.

Havia entre eles um garoto que se mudara para ali há pouco tempo e que era um pouco diferente da turma. Era quieto, ficava observando as brincadeiras, nem sempre fazendo parte de algumas delas. Chamava-se Wesley e tinha acabado de completar onze anos. Tinha uma estatura um pouco maior do que os demais e parecia não conseguir se enturmar, apesar dos esforços daquela turminha alegre.

De tanto insistirem resolveu participar da brincadeira. Escondeu-se numa das casas, aproveitando para exercer alguns estranhos poderes que havia descoberto, há pouco tempo, ser portador: conseguia abrir e fechar portas e janelas só com o movimento dos olhos e já tinha experimentado elevar-se até quase o teto só com a força do pensamento.

Ao mesmo tempo que ficava assustado com esses poderes, achava-se o máximo.

Ficara com medo de comentar com a família que o acharia louco e o levaria para uma consulta. Detestava médicos.

Guardava esse segredo consigo mesmo, a sete chaves, o que o tornava mais calado e agoniado.

Numa das vezes que usou uma das casas para se esconder, conseguiu permanecer quase grudado ao teto e ninguém o achou. Procuraram por toda a casa que ele procurou deixar com a porta aberta e nada.

De repente, o viram sair da casa, belo e faceiro.

As crianças, quando ele foi embora, resolveram se reunir e discutir o jeito esquisito de Wesley. Ninguém entendia onde ele se enfiara que não havia sido descoberto. A casa não tinha armários nem nada. E eles tinham vasculhado tudo. Começaram a prestar mais atenção no garoto. Principalmente, as meninas queriam descobrir o que havia de diferente no novo morador da vila.

Na semana seguinte, elas procuraram segui-lo sem que ele pudesse perceber. Pela janela, viram quando Wesley elevou o corpo até o teto com muita facilidade. Não conseguiram abrir a porta de entrada, rodearam a casa e entraram pela cozinha, pé ante pé, até chegar à sala onde o menino se encontrava.

Ao vê-las, ele caiu estatelado no chão e começou a chorar copiosamente. As meninas tentaram consolá-lo e o ajudaram a ter coragem de contar para a família.

Não só o convenceram de que a família faria tudo para ajudá-lo, como se propuseram a ir junto com ele para encorajá-lo a contar.

O garoto foi objeto de estudo da equipe de psicólogos e psiquiatras do Hospital das Clínicas de São Paulo, que não conseguiu descobrir a causa desses poderes, mas o ajudaram a conviver com eles.

Esse segredo uniu mais ainda a criançada da vila que passou a admirar e ficar cada vez mais amigo de Wesley.

Isso foi fundamental para que o menino e sua família aceitassem melhor seus superpoderes, aprendendo a conviver com eles sem trazer aquele mal-estar que antes o afastava de todos.