Dinheiro fácil - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Dinheiro fácil

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Reinaldo estava atolado em dívidas e à beira da falência. Era gerente de uma locadora de automóveis cujo razoável lucro não era suficiente para seus hábitos. Tudo havia começado quando, há três anos, se tornou amigo de dois clientes ricos e passou a frequentar rodas de pôquer com altas apostas, restaurantes e vinhos caros, prostitutas de luxo e hospedagem em hotéis idem. E, naturalmente, haviam as despesas normais da família que incluía Márcia e os filhos Pedro e Luciano. Márcia trabalhava e contribuía, mas o que tirava no escritório de advocacia não era suficiente. Antes das novas amizades do marido, o casal ganhava o suficiente para ter um bom padrão de vida. Reinaldo sempre se sentiu atraído por luxo. Bem lá no fundo reconhecia que, ao se casar com Márcia, um fator tinha pesado bastante. O sogro, dono de um famoso escritório de advocacia, era muito rico. Riquíssimo e avarento na opinião de Reinaldo. O velho fazia questão de repetir que os filhos, Márcia e o irmão, tinham que trabalhar e fazer o próprio pé de meia. Dinheiro demais empobrece a alma, dizia o velho. Algum dia vocês e meus netos vão herdar minha fortuna, mas ainda tem tempo. Márcia nunca fora acostumada a luxos e não sentia falta do dinheiro do pai.

Reinaldo, desesperado por dinheiro vivo, sabia que não adiantaria pedir ao sogro. O sovina ia querer saber os motivos do empréstimo e investigaria a situação da locadora se ele inventasse uma possível expansão do negócio. Já havia pensado e repensado em vários estratagemas para arrancar o dinheiro do velho. Nenhum daria certo. Estava no escritório tarde da noite verificando apólices de seguro quando tocou o telefone. Era um dos malditos agiotas. O cara já tinha ligado no dia anterior. Queria pelo menos parte do empréstimo, trezentos mil para ser exato. Agora ameaçava executar a dívida tomando a loja. Seria o fim de tudo, pensou. Da loja, do casamento, e ainda ficaria devendo na rua da amargura.

Foi quando lhe veio a ideia de como poderia extrair grana do sogro e resolver todos os problemas. Um falso sequestro. Genial, pensou. O velhote não iria se negar a pagar o resgate de um neto. Ficou pensando, qual dos dois meninos. Acabou optando por Luciano que tinha cinco anos. O outro, de oito, seria mais difícil. Precisava achar alguém disposto a capturar o menino  e mantê-lo escondido até o pagamento do resgate. Era uma chateação inevitável mas tinha que ser. Lembrou do Carlão da oficina de conserto dos automóveis que sempre se queixava da falta de grana e de como a mulher o atazanava para comprar um apartamentinho. Sim, o Carlão era o cara certo. Podiam ficar com o garoto uns dias na casa em que moravam num bairro distante no Embu. Pediria resgate de dois milhões e aí se livraria da maior parte das dívidas. Pensou até em pedir mais, mas quantias muito maiores o sogro teria dificuldade em mobilizar rapidamente. Dois milhas é café pequeno para ele.

Dia seguinte, foi procurar o Carlão. O rapaz estava hesitante. Ofereceu dar cem mil pelo serviço. Era grana suficiente para comprar o sonhado apê da Lindalva, ou pelo menos para a entrada. Não haveria risco, assegurou Reinaldo. Você fala para ela que é o filho de um amigo, a mãe está muito doente e a criança não tem com quem ficar. O menino vai ficar no máximo uns dois , talvez três dias com vocês.

Finalmente acertaram o plano. Carlão pegaria Luciano quando estivesse indo para a aula de natação. Todas as terças feiras por volta das três da tarde o garoto e a babá caminhavam até a escolinha que ficava a alguns quarteirões da casa.

No dia combinado lá estavam os dois, Reinaldo na direção e Carlão ao lado, no Fiat verde do mecânico à espera de Luciano e da babá. A combinação era que Reinaldo, vestido com um macacão escuro e usando uma balaclava apenas guiaria o carro sem abrir a boca. Carlão pegaria o garoto dizendo para a babá que era o novo motorista da avó e que ia levar Luciano para passar a tarde na casa dela. Reinaldo ficaria no carro esperando numa rua lateral. Quando chegassem perto da casa do mecânico, este sairia com o menino e Reinaldo voltaria com o carro para a oficina.

O esquema funcionou com alguns percalços. Antes que a babá conseguisse ligar pelo celular para casa, o rapaz pegou o garoto pela mão com a promessa de que iriam ao zoológico com a avó. Caminharam rápido. O Carlão puxando o garoto pela mão. Ao dobrarem a esquina levantou o garoto e carregou-o no colo até o carro. Rápido, cara, que a babá tá vindo atrás. O carro arrancou e na rua seguinte misturou-se ao tráfego. No banco de trás, Carlão repetia ao garoto que logo chegariam à casa da avó. Mas o garoto estava desconfiado, perguntou por que o motorista tinha aquela máscara preta e disse que queria ir para casa. Carlão deu-lhe um copo com coca cola e um saquinho de batata frita. Luciano adormeceu ao comer as primeiras chips. Ao avistar a casa, Reinaldo parou o carro e Carlão carregou o garoto adormecido até a entrada.

A mulher estranhou. Quem é esse garoto ? Por que está dormindo assim?

Carlão repetiu a mentira combinada para Lindalva, que não pareceu convencida. Ajeitaram o menino no pequeno sofá em frente à televisão. A mulher insistiu:

Carlão, essa história está mal contada. Que amigo é esse? As roupas dele são de marca. Que eu saiba você não tem amigos ricos. O que acontece ?

Depois de outras perguntas que Carlão não conseguia responder, finalmente cedeu e desembuchou.

Lindalva, aguenta aí . Você não quer o apartamento? É a nossa chance. Só temos que ficar com o garoto por alguns dias. O cara vai pagar cem mil.

A mulher retrucou nervosa:   Isso é crime , Carlão. Não vai dar certo vamos sair dessa. Esquece o apê. Liga para a casa do cara e fala que você vai levar o garoto lá e que o trato tá desfeito. Mas Carlão não queria saber e ameaçou. O menino vai ficar por bem ou por mal. Vou pegar essa grana fácil.

Lindalva perdeu a paciência e avançou sobre o marido para arrancar-lhe  o celular e descobrir a última chamada . O homem, possesso, revidou um safanão que a atirou ao chão. Curvou-se sobre ela: E vai ter mais, Lindalva. Cala a boca senão vai levar mais porrada. Não vou desistir agora.

A mulher levantou a custo e, com a boca sangrando, cambaleou até o banheiro. Trancou, lavou o rosto e ficou sentada até Carlão parar de esmurrar a porta e ela se acalmar. Vai ver ele tem mesmo razão . Pode dar certo. Vou cuidar bem do menino. É a nossa chance de sair desse buraco aqui longe de tudo. Sempre sonhei com um apartamento meu perto de condução e comércio. Não aguento mais pegar dois ônibus e trem para trabalhar. Qualquer coisa eu aviso a polícia e tiro o corpo fora. Que se dane o Carlão.

Quando Lindalva abriu a porta, o marido já tinha saído. Na sala o garoto ainda dormia pesadamente. Coitado, quando acordar vai ser um Deus nos acuda. Nem o nome dele eu sei. E quando acordar vai ser de noite. É capaz de eu estar sozinha. O Carlão vai ficar na oficina até bem mais tarde. Bem do jeito dele, deixar o problema para eu resolver. Quando o menino acordar vai estar com fome. Preciso fazer alguma coisa para ele. É filho de gente rica... Que será que ele come? Eu tenho arroz e feijão. E também tem ovo. Vai ser isso. Meus sobrinhos adoram arroz com ovo. Acho que toda criança gosta.  E não tenho mais nada. E vai tomar água. Limonada ainda dá pra fazer. Mas suco, esquece. Não posso sair e deixar ele sozinho.

Às seis da tarde Luciano ainda dormia. Lindalva nervosa andava de um aposento para outro da minúscula casa. A cada minuto olhava a sala. Limpou duas vezes o chão já limpo dos dois quartos, e arrumou a cozinha. O arroz e feijão estavam sobre o fogão e na mesa um prato para o menino. Pensou em ligar a TV. Não posso fazer barulho, pensou. E se os pais já tiverem avisado a polícia ? Vai sair no noticiário das seis.

Decidiu-se por ligar o rádio baixinho na cozinha. Estava na hora da benção das seis. Ficou mexendo na sintonia do velho rádio da cozinha. Era um hábito seu mesmo agora que tinha celular. Todas as tardes, ao fazer o jantar, ligava na hora da ave-maria. Ficou mexendo na sintonia procurando notícias. Escutou até as sete, o cardápio habitual de crimes da grande cidade , mas nada de sequestros. A polícia mantinha segredo até resolver os casos. É isso, pensou Lindalva.

Ouviu um gemido vindo da sala. O menino acordava. Mexia a cabeça e resmungava algo que ela não conseguia entender. Até que abriu bem os olhos e gritou pela mãe. E pelo pai e por alguém chamado Célia. Devia ser a irmã ou talvez babá, pensou. Levantou dum pulo e gritou que queria ir para casa e queria ir ao banheiro. Lindalva pegou–o pela mão para mostrar o banheiro, mas o garoto se assustou, deu-lhe  um pontapé e saiu correndo. Logo em frente era o banheiro. O garoto fechou a porta e ela ouviu a descarga. Tentou abrir, mas o menino fazia força contra a porta e gritava que queria sair e ver a mãe e o pai. A mulher não sabia o que fazer. Sorte que a porta não tem chave por dentro, pensou. Decidiu deixar o garoto lá mesmo até ele cansar de gritar. Ela teria mesmo de trancá-lo em algum lugar. Não tinha forças para ficar lutando com o menino. E ele podia  se machucar e, se escapasse para fora da casa, era um breu em volta até uns 500 metros onde tinha o primeiro poste de luz. Ficou ali agarrada ao trinco enquanto o menino gritava e chorava. Finalmente, rouco, parou e pediu para sair. Quero telefonar para minha mãe. Cadê seu celular ? Tô com fome. Quem é você?

Ainda tentou dar uns socos e pontapés em Lindalva, mas ela lhe prometeu que, se parasse, poderia comer e depois ligar para a mãe. Luciano desconfiado resolveu seguir até a cozinha. Comeu arroz com ovo frito e bebeu água.

Ao terminar de comer o menino voltou à carga. Queria telefonar. Lindalva disse que não tinha telefone, o marido tinha levado, mas o esperto garoto logo rebateu que era mentira. Tentava gritar mas, de tão rouco  só saiam uns grunhidos. Corria pela casa tentando achar uma saída. Todas as portas estavam trancadas. Para alcançar os trincos das  venezianas das janelas, empurrou uma cadeira e passou a esmurrar as janelas. Lindalva falava que não tinha ninguém lá fora para ouvir e já tinha desistido de correr e de tentar conter o garoto. Alguma hora há de cansar e parar.

De fato, foi o que ocorreu. Quando seu marido chegar vou pegar o telefone e falar com minha mãe e meu pai, avisou Luciano, ao se atirar no pequeno sofá da sala. Estou com sede. Você não tem Toddy aí? Essa hora eu sempre tomo um copo e vejo desenho na TV antes de dormir. E estou com frio. Lindalva disse que tudo bem. Não tinha Toddy mas tinha chocolate, que era a mesma coisa, e ia preparar o leite para ele. Pegou um cobertor e ligou a televisão. Com o barulho da TV, o menino não a ouviria falar ao telefone. Avisou que iria ao banheiro.

Lá dentro, Lindalva pegou o aparelho na bolsa pendurada atrás da porta e ligou o chuveiro. Carlão demorou para atender. A mulher insistiu que o plano não ia dar certo. Não conseguia controlar o menino e se ele saísse correndo pelos ermos, aí é que a coisa complicava. O marido retrucou que agora tinham que prosseguir. Pense no apê, Lindalva.... Para acalmá-la falou que ia conseguir  algum calmante com o pai do garoto, e então seria mais fácil controlar a fera. Te ligo daqui a pouco. Fica fria aí! Daqui pouco levo o remédio.

Ao sair do banheiro, a moça viu com alívio que  Luciano tinha adormecido. Baixou um pouco o volume da TV e foi sentar na cozinha. Depois de meia hora ligou para o marido. E aí, Carlão , conseguiu o remédio?

Mas o mecânico não tinha o remédio e estava nervoso ao telefone. A mulher sabia que quando ele começava a gaguejar era porque estava realmente fora do controle. Tinha ligado para o pai do menino que ficou histérico com a ligação e desligou o telefone antes que ele pudesse falar. Disse que não podia ter contato, que a polícia podia  verificar as chamadas e chegar ao Carlão e tudo estaria perdido. Tinha enviado um WhatsApp para Reinaldo explicando a urgência do calmante, mas este não respondeu e bloqueou o número. 

Lindalva do outro lado estava cada vez mais nervosa. Chega, Carlão. Vamos devolver o menino. Você vem cá e levamos ele de carro. Deixamos em frente da casa dele e sumimos. Você sabe onde é! Já foi levar algum carro na casa deles.   

Mas Carlão não queria ouvir falar. Chegou em casa passada meia noite e sem o calmante. Lindalva estava fora de si. Colocaram o garoto num colchonete no quartinho ao lado do quarto do casal e bloquearam porta. Ela pegou o celular para ligar para a polícia, mas o marido deu-lhe mais uns safanões e se apossou do aparelho. Disse que se o menino acordasse ia amordaçá-lo e de manhã iria conseguir a p....  do calmante. Lindalva exausta deitou na cama do casal. O marido ficou vigiando. De olhos fechados, com o lábio sangrando e o rosto inchado ela pensava em como sair dessa sem que o garoto sofresse mais. Adormeceu por algumas horas. Quando acordou percebeu que o marido tinha saído com o carro. Entreabriu a porta do quartinho. O menino dormia. Eram cinco da manhã. Começava a clarear.

Lindalva aprontou leite com chocolate para quando ele acordasse. Ela mesma tomou café e um pedaço de pão. Teria que agir rápido. Acordou o garoto que logo começou a chorar. Luciano, vou levar você para casa. Mas você precisa ajudar. O Carlão levou o carro, é muito cedo, então a gente vai ter de ir na bicicleta até a estação de trem. O garoto parou de chorar para dizer que não sabia andar de bicicleta, mas a moça explicou que ele iria sentado no cano e que precisava ficar bem quieto para ela poder guiar. Fazia frio e Lindalva fez o garoto vestir um velho casaco seu. Depois dos primeiros quinze minutos sentado no cano duro da bicicleta e passada a novidade o menino começou a reclamar e a choramingar. Estavam quase chegando na estação quando apareceu um carro da polícia. De dentro saíram dois policiais, um homem e uma mulher ambos  de arma em punho. Largue a criança, gritou um. Senão vou atirar. Lindalva, aterrorizada parou e empurrou Luciano na direção do policial. Só depois, percebeu Carlão algemado no banco de trás. Gaguejando disse que estava levando o garoto para casa. Que não tinha nada a ver com o caso. Que era  mulher do Carlão e que ele apareceu com a criança para ela cuidar e quando quis telefonar tinha apanhado e mostrou o rosto  inchado e marcado. Algemada, Lindalva foi empurrada para o banco de trás do carro.  A policial com o garoto assustado no colo sentou entre os dois. Vamos para a delegacia, avisou ela e não quero conversa aqui no carro. Na delegacia, esperavam a mãe e o tio do menino para levar o garoto para a casa da avó. Ali Lindalva acabou escutando como a polícia tinha chegado ao Carlão. Alguém tinha anotado a placa do carro e ligado para a polícia. Um garçom de um bar próximo desconfiou do fiat parado com motor ligado cujo motorista rapidamente cobriu o rosto quando um homem carregando um menino entrou no carro que partiu a toda velocidade.

Antes de ser empurrada para um quartinho sem janela, Lindalva ainda gritou para  mãe do garoto. Eu cuidei bem  do Luciano. Estava trazendo ele de volta.... Depois ficou lá, isolada, sem saber mais o que acontecia. Cansada, sentou no chão apoiada na parede e começou a rezar. Tinha que provar que não tinha nada a ver com o sequestro. Se não era cadeia na certa.

Fora do quartinho, na delegacia os policiais combinavam com o avô do menino como pegar Reinaldo em flagrante. O avô tinha recebido na noite anterior um bilhete com o pedido de resgate e as instruções onde entregar encontrar o neto e depositar o dinheiro. Como Reinaldo saíra cedo de casa, fingindo-se de desesperado, nem atinava que Luciano àquela hora já estava são e salvo na casa da avó.

Lá pelas cinco da tarde soou o telefone. Era Reinaldo. Queria combinar o lugar da troca. A sacola com dinheiro pelo neto. Marcou encontro na estradinha escura que levava à casa de Carlão, perto de uma construção abandonada. Ficaria num carro sem placa, o velho atirava a sacola e ele, depois de conferir o dinheiro, avisaria o Carlão para deixar o garoto em algum ponto da cidade e ligar para a mãe com a localização.

Tudo perfeito. Não podia dar errado. E sem polícia. O velho não ia arriscar meter a polícia no meio.

       Onze da noite, Reinaldo ansioso esperava no carro, luzes apagadas. Até agora tudo certo. Tinha ligado há duas horas para o Carlão. Sim, ele estava com o menino. Perguntou se dormia. Claro. Tive que arrumar um calmante pro seu filho. Cê acha que ele ia ficar quietinho? Foi sacanagem você não ter arrumado. Tive que sair pedindo por aí. Dei metade do comprimido de dormir da minha irmã e ele dormiu na hora. Escuta aqui! Eu quero a minha parte amanhã mesmo, em dinheiro. Nada de banco.

       Pouco depois Reinaldo viu o carro do sogro se aproximando. Farol baixo como combinado. O sogro saiu do carro e gritou Cadê o menino?

  Joga o dinheiro,  e vai embora. O menino tá bem, gritou Reinaldo disfarçando a voz abafada pela balaclava. Pouco depois o saco de dinheiro aterrissou no meio da estrada.

Ao ver o carro sumir na escuridão, Reinaldo, moveu a lanterna pelas moitas próximas. Nada, silêncio absoluto. Abriu a porta do carro e andou os poucos passos que o separavam do sucesso. Ofegava e sentia o barulho do próprio coração quando se abaixou para agarrar o saco com a grana. Pesado...tinha os dois milhões ali. Sua salvação. O velho nem regateou. Beleza, foi fácil, congratulou-se. Ergueu-se com o saco e virou-se para voltar ao carro.

Não chegou até a porta. Quatro intensos fachos de luz e o grito de “Pare ou leva chumbo” o imobilizaram. Não parou. Apertou o saco contra a barriga e correu. Ainda ouviu um segundo “Pare” antes de cair com a dor da primeira bala na panturrilha. A segunda atingiu o tórax. Caiu de lado. Não conseguia mais respirar, a dor era intensa. Ainda teve força para se virar. Sentiu a chuva fina molhar o rosto antes de morrer.

Epílogo: Carlão foi condenado a cinco anos em regime fechado. Lindalva pegou um ano em regime aberto e se separou do marido. Vive com a irmã e continua a sonhar com um apartamento só para ela.

O lago da antiga infância - Ises de Almeida Abrahamsohn

 

 


O lago da antiga infância

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Felipe insistiu ao telefone. Venha, Marcos. Descansar aqui, longe de tudo, fará bem a você. Lembra? Éramos crianças e, todo o ano, nas férias a gente vinha para o sítio da vó Ida. Ela nos ensinou pescar.... Cê lembra ainda? Todo o dia à tardinha ela chegava à beira do lago. Tinha uma cadeira velha que só ela usava. Trazia o caniço e o cestinho de iscas ou às vezes ficava lá só pra ver o pôr do sol. Era a meditação dela. Venha! Vai fazer bem a você.

Desde quando a avó falecera há vinte anos Marcos nunca voltou lá. Os pais queriam vender a propriedade, mas Felipe insistiu que tomaria conta, ninguém precisaria se preocupar. Até pensava em se mudar para lá com a família. O que, é claro, nunca aconteceu. A cunhada e os filhos se negaram terminantemente a viver naqueles ermos.

Ele mesmo até tinha se esquecido da existência do sítio. Quase não tirava férias. Apenas uma semana de folga aqui e ali. Sempre o trabalho, cada vez mais trabalho, exigências, pressão até que não aguentou mais. O médico disse que se tratava de “síndrome de burnout”. Tinha que se afastar por um tempo. O convite do irmão vinha a calhar. Respondeu que iria sim. Dentro de dois dias. Iria só ele. A mulher detestava mato. Tinha alergia a mosquitos. Ela ficaria feliz em ir para o apartamento da praia.

Após desligar o telefone, Marcos sentou-se na poltrona da sala. Lembrava pouco da velha casa. Apenas que tinha varanda. O piso era de cimento queimado vermelho. A cozinha com a antiga geladeira de porta única, ,o fogãozinho a gás e um filtro de barro queimado. Nada mais.

Porém, vívido, como se fosse ontem, viu o estreito caminho em meio ao mato que levava ao lago. Via a si, menino, caminhando até o envergonhado ancoradouro construído pelo avô sobre troncos de eucalipto, as tábuas sem pintura já ensaiando apodrecer. A cadeira lá à espera,  de braços enferrujados e assento puído. Amarrada a um esteio, descansava a canoa larga, caipira, de madeira alcatroada, sempre fedida a peixe na qual ele e o irmão remavam até o meio do lago. Existiria ainda a canoa? E o silêncio quase absoluto no meio do lago, quebrado apenas por algum pio de pássaro. Pescador quase não fala...

Até o fim da tarde ficavam os dois irmãos. Até quando o sol poente iluminasse a mata do outro lado. A superfície da água espelhando o céu tingido de vermelhos flamejantes. Ao voltarem, os remos revolvendo as águas em infinitas nuances do amarelo ao rubro mais escuro. O ancoradouro já alcançado entre as primeiras sombras da noite. A avó Ida ali sentada, suave como a paisagem, os cabelos brancos iluminando o rosto. Não esqueçam de amarrar a canoa e de trazer o balde com os lambaris.

O TEMPLO – IGREJA BUDISTA - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


O TEMPLO – IGREJA BUDISTA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

                        Após a primeira guerra, mais o menos em 1927, vieram muitos emigrantes europeus e também uma grande comunidade de japoneses para o Brasil, precisamente no interior paulista, para trabalharem nas grandes fazendas. No caso de Cafelândia vieram mais italianos, espanhóis e, principalmente, em número maior de japoneses. Ao contrario dos europeus, os japoneses vieram como donos de terras compradas lá no Japão.

                        Os católicos europeus tinham a sua pequena igreja que já existia na cidade, que mais tarde tornou-se uma Catedral, com a ajuda da comunidade católica, com até uma bela praça pegando toda a quadra.  Surgiu a colônia Hirata budista, havendo um grande numero de japoneses, começou-se a arrecadar fundos para erguer o seu templo budista, conta a lenda que foi o primeiro no Brasil. Hirata era um jovem bem preparado líder deles, que acabou morrendo aos vinte e sete anos de febre amarela

                        Conseguiram comprar um grande terreno na periferia da cidade. Trabalhavam em suas terras e ao mesmo tempo faziam suas cerimônias, primeiro no terreno e todos unidos construíram o seu templo. Começou pequeno, à medida que melhoravam de vida foram aumentando. O altar todo de madeira escura entalhada, que foi importada do Japão, como também a imagem de Buda toda dourada, seus incensos perfumando todo o ambiente. Para a inauguração foi enviado o monge jovem, que ficaria e ali moraria, para celebrar todas as cerimônias.

                        Alguns anos depois, já mais prósperos conseguiram importar um sino de bronze imenso, que fica na lateral à direita da porta principal sendo toda entalhada, usado para as batidas cerimoniais. Por ser um templo, é muito simples, mas o primeiro templo chegou a pegar fogo, sendo salvo só o altar, que é mais adornado e sempre com os incensos acesos para cada pessoa que vai lá meditar. Todo o templo foi refeito e nos festejos dos cem anos da vinda da colônia japonesa ao Brasil, houve muitas comemorações, sendo uma delas, a vinda do príncipe Heroito, para visitar pessoalmente o templo e sua comunidade, motivo de orgulho para todos, até hoje inclusive nas novas gerações. Sendo antigo e tradicional se tornou um ponto turístico da cidade, adornado com um jardim típico com bonsais lindos.

                        Ali são feitas muitas festas com comida típica e seus esportes favoritos, que duram dois dias de confraternização. Quando o visito sinto a paz interna que paira dentro daquele lugar sagrado.

TESTEMUNHA ACIDENTAL - Suzana da Cunha Lima

 




Primeira hipótese:

A fotógrafa está  a trabalho, fotografando uma desfile cívico na avenida e se deparou com uma cena de possível assassinato. Usando o zoom, identificou o provável assassino como professor da Escola Municipal situada numa rua transversal.

 

Segunda Hipótese

A fotógrafa está  a  trabalho, capturando cenas de monumentos históricos vandalizados, como evidências da negligência do poder público e para complementar um pedido de providências à municipalidade. Em dado momento,  percebeu um movimento suspeito num grupinho perto de uma bar e reconheceu um conhecido seu, aliás, seu próprio cunhado,  incitando a multidão ao vandalismo.  Que fazer? Mostrar as imagens à polícia que reforçariam seu pedido?

 

Terceira Hipótese

A fotógrafa estava  em sua hora de lazer, tentando filmar o novo jardim da pracinha em frente ao seu prédio, , resultado de uma coleta entre os moradores do local. Como estava à frente desta arrecadação, queria mostrar a todos que colaboraram, o resultado final.  Subitamente percebeu uns três indivíduos mal encarados  indo em sua direção, com o evidente propósito de lhe roubarem a câmera, seu instrumento de trabalho e que era bem cara. . 


TESTEMUNHA ACIDENTAL

Suzana da Cunha Lima

 

Sempre amei fotografar.  Minha primeira Kodak (eu tinha 12 anos) era uma gracinha e eu tirava fotos de tudo: formigas carregando folhas e até de banana amassada.  Meu pai me ensinou a revelar as fotos e quando casei , meu marido adotou minha paixão e instalamos  um pequeno laboratório em casa. Aos poucos fui aprendendo as manhas, até entrei num cursinho rápido para aprender mais sobre filtros, luz e cores.  Hoje já não existe nada disso,  em termos amadores. Os celulares possuem câmeras muito boas com excelentes recursos.  Mas lá pelos anos 80, as máquinas fotográficas, eram bem maiores, a minha tinha um zoom ótimo (e pesado) e se usavam muitos acessórios que tornavam as fotos muito boas e nítidas.

Uma tarde, fui buscar minhas crianças na escola uma hora mais cedo, porque eles iam desfilar na avenida pelo dia da Bandeira. Como ainda faltavam alguns minutos, fiquei ajeitando minha máquina, vendo os filtros necessários e experimentando o zoom. Queria pegar as carinhas de meus filhos bem de perto. Estava  meio escondida atrás de uma árvore, porque nunca gostei de foto posada, quando, sem querer, capturei a imagem de um casal saindo da lanchonete.

O que me chamou a atenção, na hora, foi a rude atitude do homem.  Ele passava o braço em volta dos ombros da moça e parecia murmurar algo em seu ouvido, que, parece, não a havia agradado. Cliquei tudo desde o início, pois me chamou a atenção o fato de parecer que ele a estava estrangulando, tipo “dando uma gravata”  pois logo a seguir, ele a empurrou, fazendo-a andar para  para uma rua  fora da praça e do movimento de pessoas e não os vi mais. Eu gelei. Já estava na hora da parada. Fiquei com medo que o  homem tivesse me visto ali com aquela máquina grande, seguramente com zoom e eu seria uma testemunha da ação dele, que nem sabia direito o que era.

Quando consegui revelar as fotos, era bem nítido o movimento do indivíduo apertando a garganta da moça. Fiquei atônita! De noite, no noticiário, anunciaram o assassinato de uma mulher, encontrada na calçada de um bairro chique da capital. Não havia pista alguma.  Estavam imaginando ser um crime passional. Mas quem seria o assassino?  E eu, lutando com minha consciência, porque nas fotos estava bem nítido o rosto do assassino. E eu o conhecia.  Era de meu cunhado, que lecionava naquela escola há muitos anos. O que fazer?

A CATEDRAL DE COVENTRY - Oswaldo U. Lopes

 




A CATEDRAL DE COVENTRY

Oswaldo U. Lopes

 

        Às vezes, poucas, somos surpreendidos por gestos ou situações que nos fazem pensar que a espécie humana tem salvação e quiçá futuro.

        Durante a Segunda Guerra Mundial, na chamada Batalha da Inglaterra, a Alemanha que tinha lá seus informantes e espiões no Reino Unido, resolveu bombardear Coventry que fica no coração da Inglaterra, no que eles chamam de Midland.



        Não nos cabe discutir o bombardeio de Coventry que era um importante centro industrial e se converteu durante a guerra em produtor de armas e equipamentos militares. Anos mais tarde os aliados também reduziram a pó importantes cidades alemãs que sustentavam o esforço de guerra dos nazistas.

        A destruição da cidade refreou a presença das indústrias que, no entanto, ainda hoje é sede da Jaguar e parte da produção da Land Rover. A cidade é famosa pela lenda da bela Lady Godiva aquela que andou nua montada num cavalo branco pelas ruas da cidade, para que seu marido baixasse os impostos.

        Vou ficar com fama de machista, mas seria bom termos entre nós algumas Ladys Godiva que nos socorressem por causa dos altos impostos. A lenda tem todos os ingredientes necessários. O único cidadão que saiu à janela para vê-la, um alfaiate Thomas (Pepping Tom), acabou cego.

        O gesto que nos surpreende teve como início o dia 14 de novembro de 1940. Nessa data a belíssima catedral dos fins do século XIII foi destruída pelo bombardeio e só permaneceram de pé, as paredes laterais e a agulha de mais de 90 metros de altura.

        Os ingleses resolveram reconstruir sua catedral, mas o fizeram erguendo uma nova, moderna próxima as ruinas da antiga. Resolveram, também, conservar as ruinas e orná-la de várias maneiras. Com os restos das travas de maneira, fizeram uma tosca cruz que resultou belíssima e por traz dela uma frase: Father Forgive. Pai perdoai-os... Que está em Luca 23: 34




        No espirito da reconciliação, cruzes semelhantes foram enviadas e estão em Berlim, Paris, Belfast e Volgogrado (antiga Stalingrado)

        Dentro do que seria o átrio da antiga catedral colocaram uma belíssima escultura denominada Reconciliação de autoria da escultora inglesa Josefina Vasconcelos. Com um nome desses ela parece, mas  não é brasileira, e sim filha de um diplomata brasileiro, casado com uma senhora inglesa.

        Para que não paire dúvidas sobre o espirito da reconciliação, há ainda uma placa datada de 1990, cinquenta anos após o bombardeio em que se lê:

        Uma nação não levantará a espada contra outra nação – Malaquias 4 -3 e abaixo

        Service of Remembrance and Reconciliation

        Pelo menos até agora, na Europa, sede de inúmeras guerras no passado a reconciliação tem funcionado e as disputas resolvidas, sem o apelo as armas. O que nos reserva o futuro só Deus sabe, mas o gesto, pelo menos, foi feito.

Bodas de Ouro muito bem comemoradas - Ledice Pereira

 



Bodas de Ouro muito bem comemoradas

Ledice Pereira

 

 

Mara aproveitou a sesta do marido para sair fotografando como gostava. A viagem, em comemoração às bodas, desenrolava-se tranquilamente. Agora estavam em Austin, cidade dos Estados Unidos que não conheciam. Nelson não tinha muita paciência para as fotos da esposa. Achava-a muito meticulosa.  Ela procurava sempre o melhor ângulo. Ajustava todos as engrenagens da potente câmera que ganhara de presente. Demorava para tirar uma simples foto.

A tarde não estava tão fria e nem chovia. Colocou, sobre a camisa flanelada, a jaqueta acolchoada sem mangas, que lhe protegeria o peito, e lá foi à procura dos pássaros que costumavam fazer uma revoada naquele horário da tarde. Pensou ter ouvido o barulho que faziam e desceu apressada. Queria fotografá-los. Sentiu que chegara meio atrasada.

Assim mesmo, preparou a câmera, deu um zoom e um cano de fuzil interpôs-se entre a imagem das aves que buscava, não a impedindo de disparar instintivamente o botão. Estaria vendo coisas? Tirou o olhar do foco, procurando o intruso. Queria entender o que ocorria. Sim, parecia ser mesmo um fuzil. Ouviu o tiro distante, enquanto imaginava estar ali um caçador de aves, aguardando a revoada. Houve correria. Pôde avistar um corpo caído adiante.

Foi o tempo de dar meia volta e entrar apressada e trêmula no hotel. Atravessou em meio aos curiosos que, atraídos pelo ruído,  aglomeravam-se no saguão e em frente ao prédio, fazendo suposições, procurando adivinhar o que havia acontecido.

Mara dirigiu-se ao elevador que, felizmente, encontrava-se vazio. Estava apavorada. Os oito andares custaram a ser vencidos, parecia uma eternidade. Bateu à porta e, quando Nelson abriu, jogou-se nos braços dele em prantos. Ele, sem saber o que estava acontecendo, procurou acalmá-la, pegou-lhe um copo de água e abraçou-a. Nunca a vira tão descontrolada e tremendo tanto. Pensou até em chamar um médico, pedindo ajuda à recepção.

Ela o fez desligar o telefone. Tentou se controlar e contou o que vira. Tinha medo. Julgava ter fotografado um criminoso. Conectou a câmera ao bluetooth para verificar melhor no celular o que havia capturado. O rosto meio protegido por um capuz mostrava uma silhueta que talvez pudesse ser detectada por um banco de dados do FBI.

Ficou dividida entre o dever de colaborar e o medo de ser perseguida pelo criminoso. À noite, mais calma, durante o jantar no próprio hotel, decidiu com o apoio do marido que cumpriria com o seu dever.

Nelson tinha um grande amigo, respeitado advogado,  que residia há anos em Nova York e para quem resolveu ligar, contar o fato e pedir uma opinião. O amigo ofereceu-se para acompanhá-los ao FBI. Teria mesmo que viajar a trabalho para Austin dali a dois dias.

Aguardaram ansiosos a chegada de Walter. Ele os tranquilizou. Ninguém saberia que ela conseguira fotografá-lo daquela distância. Quem imaginaria que um potente zoom colaboraria para possível identificação.

Walter tinha livre acesso aos escritórios do FBI. Ligou para lá, marcando um horário para um encontro com o chefe do departamento de investigação.

De posse da foto apresentada por Mara, o departamento partiu para investigar a nova pista.

Mara e Nelson já tinham passagem reservada para Las Vegas no dia seguinte. Receberam os agradecimentos do FBI, sendo informados de que teriam ciência do desenrolar das investigações.

Pela TV, dias depois, tiveram notícia da prisão do criminoso. O rapaz, pertencente a perigosa gangue era,  há muito tempo, procurado por ser um foragido da prisão, onde pagava pena por outro crime cometido.

Como agradecimento, o casal foi agraciado com toda a despesa do hotel em Las Vegas, além de um jantar reservado em hotel de luxo, com os cumprimentos do Chefe de investigação, pelas bodas de ouro que comemoravam.

Naquela noite, vestidos com suas melhores roupas, compareceram ao hotel indicado. Mara fotografou a linda mesa e solicitou ao gentil garçom que registrasse aquele momento para que ficasse eternizado. Os filhos, certamente, ficariam ao mesmo tempo orgulhosos e surpresos quando eles contassem sobre a incrível aventura vivida.

UM BOM NEGÓCIO - OSWALDO U. LOPES

 




O VELHO GASPAR TROPEIRO

Oswaldo U. Lopes

 

        Três hipóteses para contar uma história com base na figura:

1-   Gaspar chegou de viagem, recolheu a tropa e se dá ao luxo de fumar um charuto.

2-   Gaspar ouve uma proposta de negócio que envolve sua tropa. O charuto é uma forma de ganhar tempo para responder.

3-   Gaspar viu ao longe uma tropa e já não tendo idade para sair com a tropa puxou um charuto para pensar na vida.

Hipótese escolhida, a de número dois.

 

 

UM BOM NEGÓCIO

 

        O homem a sua frente falava com calma, sem pressa. Gaspar já o conhecia como um negociante esperto e responsável por várias novidades na pequena vila.

        — Pois é seu Gaspar, o senhor já não é jovem, a tropa também não é. Estou lhe oferecendo um preço bom pelo conjunto. O pessoal já notou que o senhor já não faz tantas viagens como fazia antigamente.  Neste último semestre foram só duas.

        Gaspar precisa de tempo para responder. Se fosse pelo instinto mandava o homem pra aquele lugar de imediato, mas ainda não era o caso. Para ganhar tempo ascendeu um bom charuto e desviou o olhar para o alto, enquanto pensava.

        Bom negócio é a comadre da sua madrinha. O que você entende de tropa? Eu estou nessa desde que tinha onze anos e tropeava com meu falecido pai. Aquilo é que era vida. Pegava mercadoria nos armazéns de Sorocaba e punha a tropa a andar rumo ao sul.

        Não tinha nem BR nem asfalto. A gente, meu pai o ajudante dele de nome Francisco e eu, distribuía a carga pelas mulas e tocava em frente. Eu ia na ponta da frente, meu pai atrás que é o lugar mais importante para vigiar os muares e o Francisco no meio para evitar que alguma mula desgarrasse de lado.

        Se o tempo ajudasse e não tivesse muita chuva, a viagem levava um mês e meio para chagar a Pelotas destino final da tropa. Se tivesse carga para Sorocaba, o que era muito bom para o bolso, mas ruim para viajar, era mais um mês e meio para chegar em casa. Se não tivesse carga, o que era ruim para o bolso, mas bom para a viagem, em um mês estávamos de volta.

        O que ele tá falando é a mais pura verdade, já não tenho idade e já não tem carga para tropeiro. O que ele vai fazer com a tropa não é problema meu, fico com o burro Jagunço que esse é de estimação e o resto vai-se.   Olhou mais uma vez para o céu e falou:

        — Podemos fechar negócio, você põe mais dez contos na sua proposta e eu aceito, só que tiro o burro Jagunço que esse não tem preço.

        — Negócio fechado seu Gaspar.

OS ENCONTROS SECRETOS DE BRITO - Antonia Marchesin Gonçalves

 




OS ENCONTROS SECRETOS DE BRITO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

             Nunca pensei em passar por essa situação, pensou Brito. Nos meus 35 anos sempre tive varias paixões, mas com o tempo diluía a paixão, acabava se tornando uma boa amizade. Mas agora está totalmente diferente. Conheci Marcela numa festa do escritório em comemoração a uma concorrência super difícil, que ganhamos e o lucro dividido para a empresa e funcionários, bilhões de dólares. Foram meses de articulações que foram gastos e desgastantes.

             Estava eu conversando com amigos quando vi entrar no salão o presidente da empresa com a esposa. Bem mais jovem que ele e linda, me impactou. Após o discurso do presidente revelando o quanto ganharíamos, como responsável pela negociação, sabia que ia me dar bem, com o bônus de direito. Naquela mesma semana me dei ao luxo de conquistar o meu sonho, comprar o chalé nas montanhas que namorava fazia meses, entrei em contato com a corretora e soube que não tinha sido vendido ainda, feliz comprei.

              Ele tinha que ser meu. Nas férias de Natal passei dois meses reformando e explorando mais o entorno, descobri um riacho natural, não muito fundo, mas o suficiente para não atravessar-lo a pé. Aí tive a idéia de fazer uma ponte rústica, com troncos de árvores e madeira que havia sobrado da casa e adornei com vegetação nas beiradas, o que complementou o visual. Na primavera voltamos ao trabalho, todos com saudades uns dos outros, felizes por voltar. Um dia depois fui chamado na presidência e lá estava ela junto ao marido, balancei, senti  meu coração batendo tão forte, que parecia que ia sair pela boca.

             Ele havia me chamado para que o novo ano da empresa, fizéssemos melhores negociações para o bem de todos. Saí da sala vermelho como um pimentão com o coração disparado, ao sair fui para minha sala sentei-me para recuperar o fôlego e em seguida entrou Cilene minha secretária, assustada com um copo de água que bebi como se tivesse vindo do deserto. Curiosa perguntou-me se eu havia sido despedido, com calma e um não, disse que estava tudo bem. Já passados alguns dias e Marcela não saia de minha cabeça. Estava quase chegando ao prédio do escritório quando na calçada dei de encontro com Marcela, tentei fingir não vê-la, mas ela veio ao meu encontro me cumprimentou e perguntou se eu estava indo para o escritório, vamos juntos pegar o elevador.

             Minhas pernas estavam bambas mal conseguia andar, chegando o elevador entramos e o perfume que emanava era divino, tenho certeza que nunca mais ia esquecê-lo. Para o meu desespero, ela passou a vir na empresa quase todos os dias, eu mal conseguia trabalhar. O envolvimento da presença dela não me deixou perceber que o presidente estava emagrecendo, meu colega me alertou.

            

             Alem de emagrecer ele parecia estar passando para ela o funcionamento da empresa. E não deu outra, uma semana depois ele reuniu todos para falar do seu afastamento por motivo de saúde grave, que Marcela tinha toda a capacidade para tomar seu lugar no comando por tempo indeterminado. Todos desejaram para que tudo corresse bem. Meses depois ele acabou falecendo, era um câncer avançado que não puderam operar, nem a quimioterapia rescindiu. Após o funeral Marcela reuniu todos em sua casa para agradecer a presença e pediu uma semana de luto e depois tudo voltaria ao normal. Pediu a colaboração de todos. Assim foi, tentei me recuperar do baque, mas ao mesmo tempo no fundo, comecei a ter esperanças de um dia conquistá-la.

             Fiz algumas sessões de terapia, para tentar dominar o amor que nutria, assim pude trabalhar com mais equilíbrio emocional, trabalhando dando o melhor para não deixar transparecer os meus sentimentos. Passou um ano e nem senti, a minha admiração por Marcela aumentava cada dia, em função dela ser realmente uma ótima profissional. Na festa do fim do ano, fizemos a confraternização e aí tive a chance de conversarmos com mais tranqüilidade, nem percebemos que passamos o tempo todo juntos, pois a conversa fluía, nem sentimos as horas.

             Comentei com ela sobre o meu chalé nas montanhas e da pequena obra da passarela que havia feito, para minha surpresa ela gostaria de conhecer, na mesma hora a convidei para passar o fim de semana. Não acreditei, ela aceitou, mas pediu para não comentar na empresa pelas normas e por sua posição, não era ético. Ansioso, marcamos na sexta em minha casa o ponto de encontro, estava frio, ela maravilhosa, calça, tênis, mantô e touca de lã na cabeça. Chegou com uma simplicidade sublime. Ao chegarmos ao chalé, achou lindo e a instalei no quarto de hospedes, fiz um pequeno almoço, tomamos um vinho para aquecer com a lareira acesa, deixou o ambiente propicio para nos descontrair, eu queria parar o tempo.

             Acabado o almoço perguntou-me sobre a tal passarela. Bem agasalhados fomos ver a minha obra. Ela se encantou por tudo, ainda a vegetação nela não estava queimada pelo frio e fazia contraste com a o tom amarelo da mata por estarem secas. Não preciso dizer que voltamos todos os fins de semana, após finalmente me declarar e ter a felicidade de saber que ela compartilhava o mesmo sentimento. Mantivemos os encontros secretos até o dia em que a pedi em casamento e fui aceito, para a nossa felicidade.                   

NUNCA TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS - Oswaldo U. Lopes

 






NUNCA TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS

NEVER HAVE SO MANY OWED SO MUCH TO SO FEW

Oswaldo U. Lopes

 

        Aprendemos desde cedo que a pena é mais forte do que a espada. Temos e tivemos em alguns casos dúvidas a respeito do fato e de suas consequências. Às vezes é preciso esperar um pouco para ver o fato virar realidade, mas nem sempre nossas convicções aceitam aguardar o tempo necessário para que isso ocorra.

        Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, ficou famoso por dizer e escrever: “Vencereis, mas não convencereis, tendes a força, mas não a razão”. A fala foi endereçada aos franquistas e custou-lhe o exílio em sua própria casa. Como sabemos ele morreu (1936) antes de ver o franquismo acabar, com a morte de Franco em 1975.

“Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vocês estão profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta em meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque possuis a força bruta de sobra. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir precisam de uma coisa que lhes falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-lhes que pensem na Espanha”.

        O nazismo varreu a Europa de 1939 a 1945, como sabemos com a força da espada, aqui representada pelas botas, metralhadoras e blitzkrieg (guerra – relâmpago), a rendição deles, como era de esperar foi assinada com canetas, a pena mais uma vez confrontando a espada.

        Não sei quantos repararam, mas no enterro (1965) de Winston Churchill, o caixão foi colocado sobre uma carreta que era puxada por marinheiros, segundo a tradição, porque ele foi Lorde do Almirantado.

         Na frente do cortejo, porém destacava-se uma fila de doze homens, alguns fardados, outros não, que eram pilotos sobreviventes da RAF (Royal Air Force).

Detachment of Battle of Britain Aircrews – The Royal Air Force – como era possível ler no folheto que detalhava o enterro.

        Eles haviam lutado na famosa Batalha da Inglaterra. Estavam ali homenageando o falecido que, com palavras, havia erguido o maior monumento possível aos jovens aviadores que haviam duramente combatido nos céus da Inglaterra e no canal da Mancha.

Never in the field of human conflit was so much owed, by so many to so few”.

        Estas palavras também foram imortalizadas em bronze e podem ser vistas as margens do Rio Tamisa, em Londres, no monumento erguido em homenagem aos queridos heróis da Batalha da Inglaterra.

        É um caso atípico em que, memoravelmente, a pena se juntou a espada e o resultado foi e ainda é impressionante.

       

Uma história real - Ledice Pereira

 



 

Uma história real

Ledice Pereira

(os nomes foram alterados, por razões óbvias)

 

Eu me lembro muito dela. Terezinha seria uns quinze anos mais velha do que eu. Irmã de Julieta, uma grande amiga de minha mãe. Frequentava muito nossa casa. Era baixinha, gordinha, meio infantil. O cabelo não era ralo e liso como o da irmã e o da mãe. Hoje, eu diria que ela possuía  o cabelo do tipo black power. Mas como o pai era um tipo caboclo, essa diferença entre as irmãs era aceita normalmente. Elas tinham também um irmão, Jorge, mais novo do que Terezinha que, por sinal, era um bon vivant. Não queria nada com o batente. Ao contrário de Terezinha, tinha traços da mãe, do pai e da irmã mais velha. Era bonito, simpático e galanteador e vivia cercado de jovens garotas casadoiras.

A diferença de idade entre as duas irmãs era de uns quinze anos, ou mais. Como a mãe fosse uma senhora bem mais idosa e doente, Julieta, que nunca se casou, fazia o papel maternal, cuidava, vestia, mimava, zangava e educava Terezinha.

Para mim, criança, estava tudo bem. Fui crescendo com a presença constante delas à nossa volta. Viajamos juntas, almoçávamos frequentemente na casa uma da outra. Enfim, éramos muito próximas, tanto que eu chamava Julieta de tia.

Os anos se passaram e um dia, eu adolescente, entrei na sala durante uma conversa que minha mãe tinha com uma prima. Elas comentavam que Terezinha era adotada. Aquilo caiu em mim como uma bomba. Durante vários dias e noites pensei no fato. Ao mesmo tempo, comecei a perceber e entender as diferenças, um certo atraso mental, as dificuldades que tia Julieta tinha para conduzi-la, o jeito infantil, apesar da idade. Por outro lado, notava o amor e a paciência que todos, pais e irmãos, tinham com ela.

Com trinta e poucos anos, Terezinha conheceu um rapaz por quem se apaixonou e de quem engravidou. A notícia pegou a todos de surpresa e foi difícil lidar com a situação, mas não havia o que fazer. O tal namorado, nem preciso dizer que sumiu. E Terezinha teve que levar adiante a gravidez, para a qual ela não estava nem um pouco preparada física e psicologicamente.

Tia Julieta, que era muito prática, tratou de fazer o enxoval do bebê e de organizar tudo para recebê-lo. O bebê, que nasceu com a cara da mãe, foi cercado de todos os cuidados e carinho.

Terezinha até se saiu bem na nova função dedicando-se de corpo e alma àquela criaturinha. Mas, esqueci de contar que ela que já sofria de asma, passou a ter frequentes crises que a deixavam sem ar. Quando o pequenino Thomas estava com dois anos, numa dessas crises, Terezinha veio a falecer.

Tia Julieta tinha então cinquenta e poucos anos, a mãe, oitenta e tantos e ficou com elas a tarefa de criar o sobrinho e neto.

Aproximadamente, um ano depois, numa conversa, tia Julieta deu a entender que, face à idade dela, seria bom se alguém adotasse o sobrinho. Eu que, a essa altura, já estava casada e tinha dois meninos, um de seis e outro de quatro, cheguei seriamente a pensar em adotá-lo. Conversamos muito em família, inclusive com os meninos e com nosso pediatra, tendo decidido pela adoção.

Tia Julieta veio passar um fim de semana em casa. O menino gritava por qualquer coisa. Mimado, estava tão mal acostumado que não queria comer nada, custou a dormir, teve acessos de raiva.

Se por um lado, nós ficamos temerosos de assumir aquela criança, a tia propôs de vir junto morar conosco. Não conseguiria separar-se do pequeno. E para nós, não havia a menor condição de tê-la também conosco. Seria difícil educá-lo, com as normas que eu já impunha aos meus, tendo ao lado alguém para deseducá-lo. O assunto morreu ali. Nunca mais falou-se no assunto.

Anos depois, tia Julieta faleceu, deixando a incumbência para os velhos pais. Eu soube que quem acabou cuidando do sobrinho foi Jorge, que depois de um casamento conturbado e o nascimento de um casal de gêmeos, divorciou-se.

Há pouco tempo, nas redes sociais, encontrei Thomas. Ele continua parecidíssimo com a mãe. Está formado e vive no interior. Expliquei quem eu era e contei-lhe que a tia me deu uma pulseira, pertencente a Terezinha, que deveria ficar com ele. Na verdade, eu nunca tive coragem de usar por julgar que não tinha merecimento. Ele disse que quando vier a São Paulo virá pegar essa lembrança. Não quis que eu mandasse por correio pois temia que pudesse extraviar.  

 A vida é uma jornada cheia de surpresas, desafios e provações.


 

UM SEQUESTRO QUE ACABOU DIFERENTE, DE FATO? - Oswaldo U. Lopes

 


 

Como foi o caso:

Pais: África do Sul

História: Uma adolescente de 17 anos de repente descobre que é adotada.

Resumo da ópera:

A menina chamou a atenção de uma colega por certa semelhança com os familiares dela. Levada à presença destes descobriu-se que ela era o bebê que foi sequestrado ainda na maternidade, com três dias de idade e do qual nunca mais se tivera noticias.

        Exames de DNA confirmaram que de fato ela era filha destas pessoas. A mãe que a criou foi presa e julgada por crime de sequestro e condenada a 10 anos de prisão.

         Ela sempre negou o fato e alegava que um casal havia lhe entregue o bebe e desaparecido a seguir. A acusação conseguiu reunir evidências de que ela era frequentemente vista na maternidade, na ala onde ficavam os bebes. Provou-se ainda que se tratava de uma mulher que tivera vários abortos espontâneos e que não conseguira, por isso, concluir uma gestação.  A mesma, porém, nunca revelou à menina o fato dela não ser sua mãe biológica nem sua situação que equivalia a uma adoção.

        É curioso, os psicólogos constataram que a maioria das crianças, numa certa fase da vida tem dúvidas do tipo, fui adotada ou não?

        A dúvida é devidamente esclarecida pelos pais biológicos e desaparece. Os esclarecimentos variam, mas são frequentes respostas tais como:

1 – Não me amole, tá!

2 – Vê se não me enche o saco que eu tenho mais o que fazer.

3 – Você acha que se eu fosse adotar alguém ia escolher uma pessoa que nem você?

4 – Ai meu Deus, você me inventa cada uma.

        Estas respostas carregam uma certeza e uma assertiva gestual que são suficientes para dar a criança total segurança quanto a sua origem, por mais estapafúrdio que isso possa parecer.

        No caso de se tratar de uma criança adotada, mas que não foi previamente informada desse fato, a resposta é evasiva e de gestual impreciso. Por fim acabam revelando a situação gerando desconforto e uma necessidade premente de saber quem são os pais biológicos.

        À vista disso, os mesmos psicólogos recomendam que o fato seja devidamente informado, ao interessado ou interessada, na mais tenra idade, quando estes já são capazes de compreender e entender o que é uma adoção.

        No caso relatado o que chamou a atenção do público e da imprensa foi que a adolescente em questão não se interessou pelos ditos pais biológicos e queria continuar ligada à sua mãe e pai de criação, tanto que a visitava com certa frequência na prisão, enquanto vivia com seu pai de adoção que fora inocentado das acusações de sequestro.

        Consultados os da área psicológica não se espantam e contestam que isto ocorre na maioria dos casos. Apesar dos esforços e das tentativas, a aproximação com os pais ou pai biológico não é frutífera nem duradoura.

        Explica-se, o ser humano é dentre as diferentes espécies animais uma exceção, sendo de longe, o que mais requer assistência e acompanhamento por vários e vários anos. Dependendo da cultura e costumes, isto pode ir até a adolescência ou até mais tarde.

        Durante todo este trajeto é a mãe a fonte mais firme de conhecimento e experiência no que é complementada, mas não substituída pela escola.

        Isto cria laços muito fortes e permanentes entre a figura materna e a criança seja ela adotada ou não.

        Apesar da especificidade da espécie humana, Lorenz, prêmio Nobel de Medicina 1973, por seus estudos de comportamento, conseguiu, substituir a figura da pata mãe e passou a ser seguido pelos patinhos, por ser a primeira figura que eles viam ao nascer.

        No caso em pauta não vale invocar a Síndrome de Estocolmo. Este comportamento é visto quando no caso de um sequestro, a maioria das vezes de um adulto e com longa duração, estabelece-se uma relação afetuosa entre o sequestrado e seu sequestrador ou sequestradores.

        É possível que no futuro possa-se reconhecer algum tipo de conexão entre a Síndrome de Estocolmo e a adoção, mas no momento não temos esse tipo de informação. Longos e tortuosos são os caminhos da ciência. Da psicologia, então, nem se fale.