Vizinha bipolar - José Vicente J. de Camargo



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Vizinha bipolar 
                         Encontros e Desencontros                                 
José Vicente J. Camargo

Têm vezes que me arrependo e xingo o momento que tomei determinada decisão. Foi assim que me senti ao aceitar o convite e ir poderia ter dado uma desculpa à festa de apresentação da nova família que se mudou para o quarteirão de casa. Eu, que aprecio música clássica, quase estouro os tímpanos quando chego e ouço aquela aberração de música metálica muito além dos decibéis suportáveis para qualquer mortal civilizado. Fora isso, me deparo com uma galera totalmente estranha ao meu convívio social. Num passar de olhos atino que a família deve ter filhos adolescentes, já que o cenário é mais para uma discoteca funk do que para uma festa familiar.

Isso não é para mim!”, penso e já me preparo para sair de fininho, quando sinto um aperto no ombro, viro e dou de cara com a dona da casa que dias antes me entregou o convite, me fazendo prometer não faltar. Sua imagem, bem diferente da daquele dia:  séria, bem vestida, pouca maquiagem, me deixa surpreso e com um ponto de interrogação: “será a mesma ou alguma alma gêmea ninfomaníaca?”, pois sua imagem me faz instantaneamente recordar a da Marilyn Monroe de vestido longo brilhante colado ao corpo expondo suas formas imbatíveis de Vênus sussurrando o “parabéns a você” ao presidente  Kennedy com uma taça de champagne borbulhante na mão, e muitas outras mais na cabeça,  contorcendo-se sensualmente com os lábios comprimidos na forma de  beijinho. Me encara e diz enrolando a língua:

Não creio que você seja fã de funk! Como gosto de estar rodeada de gente jovem, que me eleva o espírito, convidei a turma da academia de ginástica que adora se alongar e brincar de bambolê para dar uma atmosfera mais sadia ao ambiente. Vamos à outra sala nos juntar ao pessoal mais maduro, experiente, que sabe degustar uma boa bebida e apreciar os canapés que preparei. E seguiu trocando, com um garçom perfilado, seu copo de Whisky por outro cheio e me servindo um duplo.

Entro no segundo salão e ouço aliviado um jazz pausado combinando com os convivas presentes, que conversam e riem em tom ameno que me aguça a vontade de compartilhar. Não vendo nem sendo apresentado a nenhuma alma gêmea e ouvindo dela que não é casada, nem tem filhos, concluo em seguida:

Minha vizinha é bipolar! Primeiro, seu modo de vestir, e agora, na sua festa, dois mundos completamente diferentes sob um mesmo teto. Só falta agora, ela sugerir para o polo jovem, que inicie o baile do cabide e, para o polo maduro, um jogo de bingo! E nessa, onde fico? Vou dizer a ela que estou curioso para conhecer a casa. Quem sabe ela não tem um polo neutro e me leva para algum cômodo onde possamos estar sozinhos? De qualquer maneira, retiro minha opinião sobre a festa não ser para mim, pois, após cada novidade, gosto mais...


Quando a juventude contagia. - Fernando Braga





Quando a juventude contagia.
Viagem de Aniversário.
Fernando Braga


Gustavo, meu neto mais velho, ia fazer 19 anos. Aproximou-se um tanto ressabiado e disse:

      — Queridos avós, eu gostaria de comemorar meu aniversário em nosso sítio em Rio Preto, levando 10 amigos do clube e do Insper, onde estudo.

— Querido, o sítio é seu, faça o que bem entender, respondemos.  Leve-os!

        Continuou: -Mas, eu gostaria que fossem juntos!

        Sempre fomos muito ligados e ele sabia que com sua avó, não haveria problema com a alimentação.  

         Iriam na semana próxima e lá permaneceriam de domingo a domingo.

        Para esta viagem, achamos que o melhor seria alugar uma Van, que lá permanecesse, para levá-los de um lado para outro. Tudo foi acertado.

       No domingo pela manhã, lá estavam em frente ao nosso prédio para seguirmos viagem. A maioria dos pais fizeram questão de trazê-los, também com o intuito de nos conhecer. Sanduíches, água e refrigerantes foram preparados e colocados na perua. Eu e minha mulher fomos em nosso próprio carro.

       A viagem de 450 quilômetros foi tranquila, com uma parada no meio do caminho, e às seis horas da tarde chegamos, ainda em plena luz do dia. Ao chegarem, resolveram, por unanimidade, dormirem os 10 juntos, em dois chalés, cem metros próximos, dividindo as camas e dois colchões colocados no chão. Queriam ficar à vontade, com privacidade!

        À noite convidei-os, incluindo o chofer, para irmos comer pizza na cidade, comemorando o aniversário do Gu. O consumo foi de 10 pizzas, com muitos sucos e poucas cervejas, com bolo e velinhas no final. Deu para perceber que comiam bem, mas bebiam pouca bebida alcoólica.

       No dia seguinte, logo pela manhã, sai para comprar uma boa quantidade de pão francês, biscoitos, pão de queijo. O resto, minha esposa havia levado, como manteiga, presunto, queijo, requeijão, bolo, etc. Levantaram por volta das 10 horas e vieram todos à grande mesa preparada, em um anexo da casa. Após o desjejum saíram para conhecer o sítio, que na realidade é uma beleza, um primor, com cinco lagos grandes, cheios com água de mina, piscina, campo de futebol, quadra de tênis, ping-pong, uma mata fechada, árvores frondosas por toda parte e a passarada. Sempre procuramos, naquele lugar, preservar ao máximo a natureza.

       Como esperávamos e estávamos preparados, aqueles rapazes fortes, sadios, tinham as mesmas características de nosso neto, eram bons garfos. Comíamos com o chofer, na copa.  Eram comportados, tomavam uma ou outra cerveja, mas a gozação entre eles era grande e palavrões ocasionais, também.

       Quando, ainda em São Paulo preparávamos a viagem, pensei que eu seria   protagonista. Lembrei-me de meus filhos quando pequenos e depois, de meus netos, quando íamos para a o sítio, eu procurava distraí-los, ensinando a fazer e empinar papagaio, fazer e usar estilingue, rodar pião, jogar bolinha de gude etc. coisas próprias de minha infância. Pensei em repetir estas coisas com estes rapazes, que para mim eram matutos da capital, que só sabiam usar celular.  Cheguei a comprar carreteis de linha 24, papeis de seda. Só faltaria ir cortar varetas no bambuzal, para saírem quadrados (papagaios). Mas...ninguém se interessou. Pensando bem, eram duas gerações depois da minha e adultos.

        Só queriam conversar entre eles. Mas eu me sentia deslocado, dentro de meu próprio sitio. Pareciam impermeáveis! Ainda bem que não sou complexado. Compreendi.

       Enquanto um grupo deles jogava ping-pong, outro jogava futebol, ficavam dentro da piscina conversando, ou mesmo nadando no lago. Divertiam-se à beça. Iam dormir tarde e vinham buscar, às 23 horas, nossa TV, para seus joguinhos. Todos os dias, no almoço e no jantar, comiam muito bem, comida não faltou. Resolveram fazer churrasco e os acompanhei ao açougue comprando as carnes que escolheram.

       No quarto dia decidiram ir a Olímpia, cidade próxima, nas Termas dos Laranjais, local hoje muito conhecido e muito frequentado, com águas termais, piscinas, brinquedos na água e até a imitação de um oceano com praia. Divertiram-se muito e ao chegarem, no fim da tarde, segundo meu neto, estavam verdes de fome.
                     Na sexta-feira tive uma ideia que era de minha época, que usei com filhos, sobrinhos e netos, para animá-los mais.  Pela manhã, durante o desjejum disse a todos, que havia enterrado três tesouros. Daria as dicas, um enigma, para que tentassem descobrir o primeiro. Se este não fosse descoberto, acabou. Houve interesse de imediato e falei que aquele que o descobrisse, poderia passar um belo dia com a namorada, almoçar ou jantar em bom restaurante, acompanhado por um belo vinho. Com o segundo tesouro, poderia passar uma semana nas mesmas condições e com o terceiro, um mês. Ficaram todos “ouvido” atentos e ansiosos para conhecer logo o enigma.

       Em caso de dúvida, cada um poderia fazer uma pergunta, e eu, responderia apenas com um sim ou não. No papel que lhes forneci constavam duas frases em português, onde o tesouro estava enterrado, que era a seguinte:
       “Está enterrado, bem no meio dos troncos das duas primeiras jabuticabeiras.  Coloquei as sílabas em ordem inversa, substituindo vogais por números, o A por 5, o U por 1, assim por diante”

       Muito vivos, não deu meia hora para que solucionassem o que estava escrito.   Imediatamente, afobados, dirigiram-se à casinha onde ficavam os enxadões e escavadeiras. Meu neto, sabia onde ficava o conjunto de dez jabuticabeiras.  Cavoucaram, cavoucaram, acabaram cortando três tubos de borrachas, que conduziam água para os pés destas árvores, e ... nada.

        Vieram falar comigo e perguntaram qual eram as duas primeiras jabuticabeiras, as que ficavam mais em cima, perto da entrada do sítio ou as de baixo, próximas à sede. Com a pergunta mal formulada, não respondi.

        Nesta altura, a vovó torcendo por deles, começou a me fazer perguntas com respostas para sim ou não. Neguei responder a ela e me retirei. Cavoucaram de todos os lados e ...ainda nada. Descobriram duas outras árvores, mais lateralmente e próximas à garagem dos carros. Após muito exaustão ... nada encontraram.

       Foi quando meu neto, olhando melhor, notou uma jabuticabeira velha a 10 metros da casa e outra ao lado da garagem, com distância de uns 8 metros entre elas. No meio, havia uma área de passagem para carro, com terra batida, coberta por pedregulhos. Um deles, que nenhuma pergunta havia feito inquiriu:
      — O local entre elas tem pedregulho?

Tive que responder, sim.

       Mediram a distância entre os troncos, cavoucaram e logo deram com a presença de uma garrafa de plástico, contendo R$ 500,00, em notas de cinquenta. Alegria geral, após todo o esforço dispendido. Logo, queriam sair em busca do próximo tesouro, que em seus cálculos devia ter sete vezes mais!  Eu disse que, apenas no dia seguinte, sábado.

       À noite programaram ir a uma balada na cidade, em danceteria conhecida. O chofer os levou, preparado para voltar tarde. Lá chegaram por volta das 21horas e o movimento era pequeno. Com o dinheiro do tesouro, meu neto pagou a entrada de todos e ainda deu para sentarem-se em uma área privilegiada VIP, onde refrigerantes, petiscos e algumas bebidas alcoólicas eram livres.

        Por volta das 23 horas, o local estava superlotado, com dezenas de garotas disputando aquele bando de rapazes bonitos, simpáticos, universitários, vindos de São Paulo e, sentados em setor VIP. Imaginou? Todos conseguiram garota! Foi o máximo!

        Quem não gostou muito foram alguns rapazes da cidade. Por volta das 4 horas da manhã saíram, a casa estava para fechar e em vias de quebrar o pau. Um deles já estava escondido dentro da perua, para não apanhar. Nada de pior aconteceu!

        Ao chegaram, pela madrugada, resolveram nadar na represa. Ainda bem que eu não havia comentado que a Sylvinha, mesmo nome da vovó, nome dado a uma enorme Sucuri, que tinha comido aos poucos meus 17 gansos, habitava aquele lago.

       No final da manhã, estando todos sentados próximos à piscina, me aproximei e mostrei o livro que, recentemente, havia publicado e cuja capa mostrava uma tomada fotográfica do sítio. Pedi para ler um de meus contos, O meu chapéu. Após silêncio comecei a leitura e notei que todos ficaram interessados. Na metade da leitura, o sino para o almoço badalou. Tive que parar.

        À tarde todos queriam saber do segundo tesouro. Coloquei um cheque de R$ 3.000,00 entre as páginas de meu livro, enrolado em um plástico e coloquei-o junto ao pé de uma arvore, dentro da mata densa. Dei a eles o trajeto que deveria ser usa do:

      — Na árvore de Pau Brasil, contar vier itch steps em direção leste, virar 90 graus em direção sul e contar zieben san steps. Seguir em direção sudoeste e na terceira árvore grande, o tesouro. Meu neto nada sabia de Pau Brasil e eu não falei. Foram ao celular e procuraram pelas características desta árvore. Tiveram êxito!  Um deles que conhecia alemão e outro, que conhecia os números em japonês, decifraram os 47 passos iniciais para leste e depois os 73 passos em direção sul. Conseguiram localizar os 4 pontos cardeais pelo celular, utilizando o local da nascente do sol.

        Saíram todos, menos um deles que havia cortado o pé, animados à procura. Com o prazo até as 20 horas, quando começaria a escurecer, teriam quatro horas pela frente. Ficaram demoradamente procurando à sudoeste, na mata ao lado da represa e... nada.  A dúvida era se o tesouro não  estaria do outro lado do lago, dentro da mata densa. Neste local, uma parte do lago estava assoreada, mantendo uma passagem estreita em U, uma parte dentro da lama.

       Será que teriam que atravessar a lama?  

       A vovó, muito viva, novamente querendo ajudar, foi até a sede à procura de meu tênis velho e lá encontrou-o todo molhado, lavado, mas a sola ainda com barro.  Concluiu que eu havia atravessado para o outro lado do lago. Voltou, e contou sua descoberta.  Um deles, o Vitor, imediatamente decidiu procurar do outro lado e logo viu as pegadas que eu havia deixado. Elas sumiam na entrada da mata. Vitor pensou em entrar, mas onde?  Era muito fechada.

       Ficaram bom tempo zanzando para cá e para lá e resolveram voltar, pedindo uma nova dica.

       Eu, observando, percebi que se o Vitor se entrasse onde, por várias vezes passou, tudo estaria perdido, para mim. Faltavam ainda 20 minutos para as 20,00 horas. Aceitei dar-lhes mais uma chance, com a certeza de que o tempo se esgotaria:

— Há muitos anos assisti a filme que muito gostei, cujo nome é Sansão e Dalila. O Vitor pegou imediatamente o celular e em dois minutos saiu correndo, gritando: Sou eu, sou eu! Viu que o nome do artista era Victor Mature. Concluiu que significava que era ele, o que estava mais próximo do tesouro. Voltou ao lugar onde estava, entrou na mata, em um dos locais onde as pegadas desapareciam e após 5 minutos, estava eufórico, gritando, com livro nas mãos.

        Ao se depararem com o cheque, se animaram, propuseram dividi-lo. Apenas enfatizei que o Vitor, que havia descoberto devia ficar pelo menos com a metade.

       O terceiro tesouro, ficaria para a próxima vez, disse eu.

       No dia seguinte, era o retorno à São Paulo.

       Domingo pela manhã, após o café, com pãozinho torrado, que sai para comprar, estávamos prontos para levantar âncora. Então, meu neto, aproximando-se, me entregou o cheque dizendo:


— Vô eles não aceitaram e quiseram devolver o seu dinheiro. Disseram que o senhor complementou esta viagem, trazendo a maior alegria a todos, que deram nota 10 a este passeio. Enfatizaram peremptoriamente, que “em hipótese alguma queriam ficar com o cheque”

 Já que é assim, me aproximei dizendo:

      — Obrigado a vocês, citando o nome de cada um!

       Um adendo. Na noite, anterior à partida, reunidos, pediram-me que terminasse a leitura daquele conto: O Chapéu. Aceitei aquilo, como uma atenção por parte deles. Entreguei a eles o exemplar do livro Uns e Outros, com uma dedicatória, para cada um.

       Nós, os avós, gostamos muito de toda turma. Confesso que cheguei a sentir saudade de minha mocidade e até daquela criança, que um dia fui.  Meu neto, complementou nossa alegria agradecendo, comentando que, nunca se esqueceria do seu décimo nono aniversário! Valeu!

        Em São Paulo, nos dias seguintes, recebemos telefonemas da maioria dos pais, agradecendo pela grande acolhida que demos a seus filhos.

        Um deles me mandou entregar um livro seu, Pinturas do Antigo e Novo Testamento. Não o conhecia e não sabia que um exemplar como este, considerado uma obra prima, havia sido presenteado pelo governo ao Papa João Paulo II, por ocasião de sua visita ao Brasil. O pintor é simplesmente o famoso Carlos Araújo.


FEMINISMO ENREDADO - Oswaldo U. Lopes






FEMINISMO ENREDADO
Oswaldo U. Lopes


         A história é simples, as reações é que são elas. Captei apenas algumas, deve haver muito mais.

 Um homem perguntou a Deus:

— Senhor! Porque fizeste a Mulher tão bonita?

— Para que você gostasse muito dela!

— Sim, mas então porque a fizeste tão burra?

         E Deus deu a explicação final:

— Para que ela pudesse gostar de ti...

         Nossa história termina aqui. A seguir algumas reações encontradas:
— Eu sabia, só sendo muito idiota eu podia gostar de você. Reação de feminista lenta que gosta de passar recibo.

— Agora entendi, Ele achou que só sendo burra ia poder gostar de nós. Machista lento.

— Mas, não fui eu o responsável pela criação. Fala de machista com olho roxo e sem dois dentes da frente que contou a história para uma feminista rápida.

— Maravilha, agora vou reunir os amigos no boteco para comemorar o criacionismo. Sempre suspeitei do QI delas.  Machista lendo a história na poltrona com o controle da TV enfiado nas calças.

Faça da sua vida a melhor vida para se viver. - Maria Amelia Favale





Faça da sua vida a melhor vida para se viver.
Minha História

Maria Amelia Favale



Outro dia ao ouvir certa história fiquei curiosa e interessada em ver como ficaria se eu a reescrevesse do meu jeito pois na minha versão eu salvaria a criança, e tentei uns trechos.

O pai era um homem rude que batia muito no filho. O garoto morava com o pai, forçadamente. O pai tinha uma mulher, mas não moravam na mesma casa. Para as surras não havia limite de força nem risco, ele simplesmente batia como se fosse uma luta corporal com outro homem forte. A coisa foi ficando pesada demais, até que ele foi levado para a casa da madrasta. Pensou que assim se livrasse das surras. Mas, qual o que, as surras continuaram, e agora apanhava dela, e dele.

Apesar de pequeno ainda, o menino resolveu fugir. Traçou um plano e naquela mesma noite se escafedeu. Não tinha rumo, nem paradeiro. Foi morar na rua.

O mais intrigante é que ninguém foi procurá-lo, ninguém foi ajudá-lo.

E assim, passou toda sua adolescência na rua dormindo nos fundos da igreja, mendigando.

O padre, via no garoto uma boa alma que nunca teve oportunidade na vida. O jovem passou então a ajudar nas tarefas da igreja, e agora tinha comida, roupas limpas, e um quarto só para ele. O padre descobriu tanto bem naquele jovem, que acabou por adotá-lo.  

Depois de adulto o menino foi procurar a mãe. Não quisesse morar com ela, mas queria salvá-la onde estivesse.

Quando a encontrou ele já era um rapaz cheio de responsabilidades, tinha 23 anos. Ela não quis acompanhá-lo, disse que ficaria onde estava, ali ela trabalhava e ganhava o suficiente para viver.

Ele contou-lhe os dramas na casa do pai, mas  que nunca perdeu tempo, fez vários cursos gratuitos e se tornou um destacado funcionário público.

No trabalho conheceu Marita, filha única de casal de empresários, com quem firmou namoro.

Alugou uma casa, casou. Se tornaria um ótimo pai, apesar de ter tido um péssimo pai. Teria então seu verdadeiro lar, sua verdadeira família.

O SOCORRO PRECISA SER SOCORRIDO - Maria Verônica Azevedo




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O SOCORRO PRECISA SER SOCORRIDO
 Maria Verônica Azevedo  

     
         Um dia ao atravessar a Avenida Nove de Julho, tremendamente movimentada naquele horário, vi, no sentido contrário, uma mulher toda bem vestida que vinha se equilibrando nos saltos dos sapatos altíssimos. Ela não se incomodou em nenhum instante com o risco de atravessar, naquele ponto da via, sem a devida sinalização para motoristas e pedestres. Com feições de alegria plena, ela flutuava pelo trajeto atraindo olhares de todos os lados.

         De repente a anunciada chuva forte despencou, provocando susto e alvoroço. Eu corri e tratei de me abrigar, embaixo do toldo da loja de óculos. E, de lá olhei para a tal mulher que, para minha surpresa, ainda não tinha completado a travessia. Nem a chuva a apressou.

         Foi quando uma ambulância apontou numa das extremidades da via. Vinha em desvairada corrida, fazendo zigue-zague, com sirene ligada e tudo mais.

         Como a mulher não saía da via e continuava seus passos lentos, o motorista não teve alternativa a não ser desviar abruptamente numa tentativa louca de evitar um acidente fatal. Acabou subindo na calçada e batendo a ambulância no portão de uma bela mansão.

         A curiosidade tomou conta de mim. Deixei meu posto de observação e me aproximei da casa atingida.

         A sequência dos fatos eu descobri numa conversa com a copeira da casa. Foi mais ou menos assim:

         A chuva continuava forte. O estrondo assustou a família que estava à mesa do almoço.

         — Maria! Vá lá fora ver o que foi este barulho!  Alarmada, ordenou Consuelo, para a copeira.

         A família, pai Honório, mãe Consuelo e dois adolescentes, Henrique e Patrícia, continuaram placidamente na mesa do almoço.
         Num instante, Maria voltou aos gritos:

         - Patroa! Derrubaram o portão e parte do muro da frente. Foi a ambulância. Está o maior furdunço. Já juntou muita gente.

         — Ambulância? Como pode ser isso? Honório, eu acho melhor você chamar logo a companhia de seguro. Isso vai dar dor de cabeça com certeza.

         — Calma, Consuelo. Primeiro vou sair para ver o que houve.

         Os filhos com seus fones de ouvido, de olho no celular, nem estavam percebendo o que estava por vir. Continuaram comendo calmamente.

         Quando o pai se levantou e saiu apressado da sala, deixando seu prato de comida sem terminar, Patrícia tirou o fone de ouvido e perguntou:

          O que houve? Porque o papai não acabou de almoçar e já saiu?
         Henrique nem se abalava. Estava noutra dimensão.
          Seu pai foi ver o que aconteceu lá fora. Vamos continuar nosso almoço com calma. Tudo vai se resolver.

         Lá fora, na calçada, Honório analisava o estrago. O portão estava todo retorcido. Uma das folhas totalmente no chão, ao lado do muro destroçado.

         A ambulância, parcialmente em cima da calçada, tinha a frente destruída. Em pé na calçada, estava o motorista com a testa machucada, o rosto ensanguentado, o uniforme todo sujo, sem saber o que fazer. Um enfermeiro, com uma caixa de socorro aberta na calçada, tentava estancar o sangue da cabeça do rapaz.  O médico, que vinha na ambulância para atender um chamado de urgência, estava sentado, no que restou do muro, tentando um contato pelo celular.

         — Alô! Aqui é o Dr. Ovídio. A ambulância se envolveu num acidente com vítimas. Não tínhamos atendido ao chamado ainda. Mandem com urgência socorro. Estamos na Avenida Nove de Julho próximo ao cruzamento com a Rua Espéria.

         Com o acidente, o trânsito adquiriu mais lentidão. Os curiosos passavam bem devagar querendo ver o que tinha acontecido. O congestionamento inevitável não demorou. Logo o buzinaço. À medida que os curiosos se aglomeravam em torno daquela cena, tudo piorava.

         Afinal não é sempre que se vê uma ambulância acidentada.

Mulheres que incomodam - Ises de Almeida Abrahamsohn



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Mulheres que incomodam
Ises de Almeida Abrahamsohn



O grito do paramédico:

Emergência! Três facadas no abdômen!

 e o estrondo da maca sendo empurrada pelo corredor fizeram Ângela jogar na pia o copo de café e sair correndo.

Examinou o jovem paciente na maca. Pressão lá embaixo, mas aguentando. O pessoal do SAMU já correra quase um litro de soro. Devia ter sangrado muito para a barriga e agora, por sorte do camarada, estava bloqueado.

A jovem cirurgiã Ângela estava acostumada às emergências desse tipo ali e nos outros pronto-socorros onde dava plantão.

Distribuiu as tarefas em voz alta e clara, sem nervosismo. Era residente de terceiro ano e responsável pela área cirúrgica.

Avisou para a enfermeira que verificava a pressão do paciente:

Vamos usar a sala 3 do centro cirúrgico! Alguém ligue para lá. Material completo abdominal. Uma caixa extra de hemostasia. Confira que chamaram o anestesista. Hoje deve ser o Carlino. Avise que é facada grave.

Júlio, pegue uma amostra para o banco de sangue. Tente a jugular ou a femoral, ordenou ao residente de segundo ano. Você vai entrar comigo. Avise que vamos precisar de sangue e plasma na sala três. Já estou subindo para checar a sala e começar o preparo. Você sobe com o paciente e a maca. Vamos estabilizar a pressão na sala junto com o Carlino.

Meia hora depois, na sala cirúrgica Ângela começava a operar auxiliada por Júlio, mais Ana, a residente de primeiro ano, e o interno que instrumentava, além da enfermeira de sala e, do Carlino. Gostava da equipe e principalmente do Carlino. Era muito competente e tranqüilo, tinha cerca de 50 anos e sempre apoiara a cirurgiã nos primeiros anos. Tinha um leve sotaque italiano, embora já tivesse nascido no Brasil. Angelina, era como a chamava carinhosamente.

Era um caso complicado, mas ela já tinha operado piores. O sujeito tivera razoável sorte. As grandes artérias estavam intactas. Um ramo da mesentérica fora atingido, mas o próprio sangue coagulado e uma alça intestinal tinham bloqueado maior sangramento. As perfurações intestinais podiam ser corrigidas e fariam uma colostomia. Era um jovem e, se não pegasse alguma infecção, escaparia dessa.

Ângela estava suturando alças do intestino delgado quando, aos berros, irrompeu na sala o Mauro, Chefe dos residentes de cirurgia. Começou por acusar Ângela por não o terem chamado para um caso como aquele e em seguida partiu para o ataque pessoal. Que ela não tinha competência para operar tais casos, que a técnica escolhida não era a correta, que ela era relapsa e mais algumas ofensas genéricas contra mulheres na cirurgia e por aí foi.

A médica tentava manter a calma e se concentrar na cirurgia auxiliada pelos residentes mais jovens que bem conheciam os rompantes do Dr. Mauro e sabiam da sua antiga implicância com a competente jovem cirurgiã. O anestesista, porém não se intimidou com o colega insolente e bem mais jovem. Insistiu que o gritão se retirasse porque estava atrapalhando, que a cirurgia estava sendo bem conduzida e calma era necessária para concluir com êxito. Vendo que não tinha apoio de ninguém, Mauro se retirou lançando com voz alterada:

Quando terminar, Dra. Ângela, precisamos ter uma conversinha. Vou esperá-la num dos consultórios.

Falar com o Mauro era o que ela não queria mesmo. Exausta depois das quatro horas de cirurgia, daria apenas uma rápida passada no pronto socorro antes de ir dormir no quarto das médicas. Júlio e Ana dariam conta da rotina de atendimento.

Foi até a copa comer alguma coisa. Enquanto tomava o lanche, lembrou-se de outros desaforos do Mauro. O cara se achava o rei do pedaço. Além de pensar e anunciar, sempre que possível, que era o melhor cirurgião da equipe, também se achava conquistador irresistível. Vivia amolando as enfermeiras e estudantes e anunciando que mulheres não são feitas para cirurgia.

Não sou a única que ele chateia, mas parece que ele mais encarna é comigo. Por que será?

No primeiro ano Mauro já deu sinais de intolerância quando se dirigiu para Ângela de modo inconveniente.

Como foi mesmo, sim, que com a minha pele morena e o meu cabelo eu nunca teria chance na profissão.

Ela não se deixou abater. Sou mulata mesmo.

Ela manteve-se altiva e rebateu que foi com muito orgulho com muito esforço que tinha conseguido se formar. O que fez ele parar foi ela dizer que nenhum chefe cheio de preconceito iria lhe barrar. Quando ouviu a palavra preconceito ficou com medo e foi embora. Eu devia tê-lo denunciado.

Na verdade, ela ainda estava no primeiro ano e não queria criar caso. Das outras vezes ele nunca mais falou da sua cor, mas sempre pegava na alegada falta de capacidade. Eu sei que sou boa, as pessoas reconhecem...chega estou morta são quatro e vinte vou subir. Quatro e vinte, que loucura, vou dormir.

Ângela estava esperando o elevador quando Mauro apareceu.

Estava esperando nos consultórios. Por que não foi? Temos que ter uma conversinha.

A médica respondeu-lhe que estava exausta e que poderiam conversar no dia seguinte, mas o médico não se deu por achado.

É urgente. Não pode esperar. Além disso, é uma notícia boa. Você ficará contente.

A médica olhou-o desconfiada. Notícia boa? Dele? Não acreditava. Repetiu que queria subir ao quarto para dormir, mas Mauro insistiu. Venha comigo.

A contragosto, Ângela o seguiu até os consultórios. Ele indicou a última sala do corredor e fechou a porta ao entrarem.

Ângela perguntou:

O que afinal você tem a dizer de boa notícia?

Não pode falar mais nada. Mauro tampou-lhe a boca e agarrou-a enquanto tentava freneticamente tirar-lhe a roupa.

Minha mulatinha. É essa a boa notícia. Sou louco por você! Maior tesão! Não vá dizer que não percebeu! Vamos lá, uma rapidinha aqui! Ninguém vai ver, nem saber!

Ângela aterrorizada conseguiu abrir a porta e escapar pelo corredor. Tremendo pegou o elevador e entrou no quarto das médicas.

Dessa vez o assediador não ficaria impune! Amanhã registraria queixa.

No dia seguinte, Ângela foi procurar o médico chefe da cirurgia levando consigo a denúncia por assédio e racismo e a descrição detalhada do que acontecera desde a sala de cirurgia até o ataque sofrido. O chefe a ouviu com razoável simpatia, mas a fez desistir da denúncia na delegacia e insistiu para que retirasse a acusação de racismo. Não queria o escândalo de o Mauro ser preso. Seria ruim para o hospital e para o serviço de cirurgia, argumentou. Por fim, Ângela aceitou que fosse realizada apenas sindicância interna.

O resultado final da sindicância, ouvidas também outras mulheres assediadas foi claro: a expulsão de Mauro do hospital. O assediador ainda tentou convencer os membros da comissão de que os episódios eram apenas brincadeiras. E de fato foi expulso! Mas mudou de Estado e continuou trabalhando normalmente.

Anos mais tarde, Ângela encontrou num congresso algumas colegas cirurgiãs daquele Estado. Por acaso o assunto numa conversa ao jantar foi assédio por colegas. E uma das médicas contou uma história de um médico que foi expulso do hospital universitário por ter assediado uma residente. Era o mesmo Mauro atacando de novo. Porém dessa vez a queixa chegou à delegacia e ao CRM.

Esses caras não aprendem, pensou Ângela. Só cassando o registro!