GuSiNi - Fernando Braga

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GuSiNi
Fernando Braga


— Meninos, quem tem um tio? Eu tive um e o perdi!

        Assim começou Zé Osvaldo, relatando outro de seus casos. Contou ele que um tio de nome Haroldo, desde jovem sempre fora um “durango”. Era um pouco obeso, tinha um olho de vidro e chamava atenção a sua gargalhada, quando além de balançar muito os ombros e a cabeça, emitia um som, xi...xi...xi, parecendo estar ele com da boca cheia de pedacinhos de drops.

        Ainda jovem, este tio, morando no Rio de Janeiro, começou a frequentar um curso vago de uma faculdade de Odontologia, que não havia sido ainda aprovada pelo governo. Quando ia começar o último ano, ouviu dizer que sua faculdade não seria reconhecida, mas uma outra, sim. Astuciosamente, conseguiu transferência para a outra faculdade. Deu azar, deu-se o contrário. O governo reconheceu a faculdade da qual havia se afastado e assim, não conseguiu o diploma.

       Veio então para o interior do Estado de São Paulo onde conheceu minha tia e casou-se. Era um dentista frustrado, sem diploma, mas com prática. Seu primeiro emprego foi na Dental Orion, como vendedor de produtos odontológicos. Para ganhar um pouco mais, tornou-se viajante, indo de cidade em cidade, com um Jeep 51, fornecido pela firma, para vender os mesmos produtos.

        Mudaram-se para São Paulo e ele resolveu abrir, irregularmente, um consultório de Odontologia em Pirituba. Conseguiu ter muitos pacientes, mas foi descoberta a sua irregularidade e teve que afastar-se imediata e definitivamente. Continuou a viver de bicos, até que um dia ele, com dois amigos, conseguiram um invento. O protótipo da peça, nada mais era do que um dispositivo que seria colocado junto ao burrinho do breque de caminhões, ônibus e mesmo automóveis. Naquela época, era frequente carros perderem o breque e então...esta peça teria a função de imediatamente vedar o local de vazamento do óleo.

       Abriram uma firma para poderem produzir a peça e deram a ela o nome GuSiNi ou seja, Gu de Guerra, Si de Silveira e Ni de Nicanor. O meu tio era o Silveira. Conseguiu com um cunhado, financiar a compra de uma caminhonete, onde instalaram o dispositivo e após contatos, se ofereciam para fazer demonstrações em grandes firmas como a Mercedes, Volkswagen, Ford e outras. Não conheço bem os detalhes, mas o fato é que em uma das demonstrações, o aparelho não funcionou, bateram a caminhonete, a grande invenção naufragou e a firma foi para “as cucuias”.

       Uns 20 anos depois, meu tio continuava um duro e vivendo de bicos. Foi quando eu, resolvi fazer uma brincadeira e telefonei a ele. Quando ele atendeu, coloquei um lenço próximo ao telefone, fiz uma voz anasalada e disse:

       —Quem fala?

       —Aqui é Haroldo. Quem é você?

       —Oh! Haroldo, quanto tempo não nos vemos.

       —Estava com muita saudade de ti e resolvi telefonar. Quem fala é o Nicanor.

       —Quem?  Nicanor?

       —Ué, você se esqueceu de mim? Fomos sócios na GuSiNi. Você era o Si de Silveira e eu o Ni de Nicanor. —Você sabe que o Guerra morreu, né?

       —Não sabia não. Mas, a que devo o prazer de você se lembrar de mim e telefonar?

       —Pois é Silveira, preciso muito de sua ajuda. A situação levou à breca, perdi tudo o que tinha, moro em um apartamentinho de apenas três cômodos, onde Judas perdeu as botas, minha mulher só fica acamada, meu filho mora em outro estado e no momento estou muito necessitado. Há três meses não pago o condomínio, como pão e mortadela, não tenho dinheiro nem pra condução.

       —Você Haroldo sempre foi mais abastado do que nós. Te peço encarecidamente que me empreste uns Cr$ 5.000,00. Juro que um dia vou te pagar, meu amigo. Não me negue, pelo amor de Deus! Me dê seu endereço e irei pessoalmente buscar a sua ajuda. Tudo bem?

      —Bem nada Nicanor, eu também moro longe, em Santo Amaro, vivo de bicos e não tenho condições de te ajudar, no momento.

       —Qual o seu endereço Haroldo?

       Meu tio deu o endereço, após enorme insistência.

       —Olha Silveira, não vá me decepcionar. Afinal fomos muito próximos e podíamos ter ficado ricos não fosse a peça inventada, falhar na hora H.

       —Mas eu não tenho dinheiro. Você acha que eu iria te negar se tivesse?

      —Silveira, então pelo menos Cr$ 3.000,00.

      —Nem Cr$ 3.000,00, e nem Cr$ 2.000,00. Nada. Não posso te ajudar.

      —Silveira, amanhã vou passar na sua casa e de preferência na hora do almoço. Peça à sua mulher fazer um almocinho para nós. Tenho saudade do arroz e feijão dela! Quando você me vir e eu explicar melhor a minha deplorável situação, vai entender.

       —Não venha não, vou ter que sair! Nicanor...Nicanor...diabo a linha caiu.
       Silveira explicou tudo à sua mulher e disse:

       —Este desgraçado é capaz de vir mesmo. Se vier, vai almoçar e vou arranjar apenas Cr$ 150,00 para ele. É tudo o que tenho no momento.

       Eu desliguei o telefone e morri de rir!

       No dia seguinte, eu fui até a casa de meu tio, chegando por volta das 11 horas.

       Ao chegar, notei que o tio estava muito tenso, nervoso e acabou me contando toda a história do telefonema do Nicanor. Minha tia tinha preparado um almoço para esperar o indesejável, pois para eles, ele certamente viria. A conversa foi longe, uma vez que fazia tempo que não nos víamos. Quando bateu 1 hora e Nicanor não chegava, eu disse para minha tia:

       —Tia, ele não vem. Posso substitui-lo?

       Durante o almoço, contei para eles, o trote que lhes havia passado. Meu tio começou a gargalhar, movendo muito os ombros, a cabeça e como sempre, emitindo aquele som característico.

      Matei a saudade do feijão com arroz de minha tia, que tudo aprendera com minha vó.


      Esse Zé Osvaldo é terrível! Esperem por outras, deste safado!

PODER E MORTE - SÉRGIO DALLA VECCHIA

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PODER E MORTE
SÉRGIO DALLA VECCHIA

Leonardo lia intensamente Sherlock Holmes na varanda de um badalado café, na cidade de São Paulo. O texto estava tão interessante que nem percebeu que na mesa ao lado havia uma esbelta loira, vestindo saia curta que deixava as torneadas pernas se exibirem sem pudores.

Ele só sentiu a presença dela, porque uma buzina na rua lhe tirou a concentração. Virou-se e encontrou dois lindos olhos verdes mirando em sua direção. Foi um olhar fulminante! Atingiu-o em cheio.

Nesse mesmo instante, Sofia lia um livro de psicologia, quando também se voltou em direção ao estridente som. Despretensiosamente cruzou o olhar com o dele, enquanto seu corpo respondia de imediato a presença do sexo oposto.

Passado o susto, rapidamente os dois voltaram às respectivas leituras.

Após um tempo, Leonardo chamou o garçom, pagou as duas contas e pediu a ele que entregasse o seu cartão de visitas para a moça, e em seguida retirou-se.

Leo, era um jornalista investigativo destemido, astuto e sagaz. Já respondia no meio policial e jornalístico pela fama de expert, tal o sucesso nos desvendamentos de crimes. Quando se envolvia em uma investigação não havia nada que o detivesse. Sempre ia até o fim e com sucesso.

Ele já havia iniciado um novo caso sobre o modus operandi da família do Dr. Frederico, um empresário praticante de malfeitos fiscais, formação de cartel, lavagem de dinheiro e outros.

Era muito bem-sucedido no ramo de laboratórios químicos. Grande parte da sua fortuna foi conseguida através de negócios escusos em diferentes áreas de atuação. Como pai de família também era mau caráter. Sua índole violenta era conhecida. Havia suspeitas de que ele teria assassinado a esposa num passado recente.

A Polícia já o monitorava há alguns anos e Leo como era bem relacionado com os policiais, constantemente trocava informações sobre esse caso. Podia-se dizer que trabalhavam em conjunto.

Dr. Frederico era o pai de Sofia, sua única filha. Era cauteloso com as suas propriedades e passava toda a documentação em nome dela.  
 
A expectativa de um bom casamento era paranoica. Esta por sua vez era muito culta e desinteressada, não conseguia se envolver com ninguém embora tivesse bons relacionamentos.

Certo dia Sofia resolveu ir a um Sebo em busca de um livro antigo. Em procura de algum atendente entrou em meio às prateleiras apinhadas. Não surgiu ninguém! Retirou ao acaso um livro e começou a folheá-lo. Já estava entretida quando surgiu um rapaz vestindo um macacão despretensioso, meio empoeirado, cabelos despenteados e com um largo sorriso no rosto.

—Posso ajudar?

Sofia após um pequeno susto, respondeu com um sorriso tão sincero quanto ao do rapaz:

 — Pode sim, preciso do livro de Freud, intitulado Além do Princípio do Prazer, editado em 1920.

— Legal, já vi que você é papo cabeça e vamos nos dar bem. Tenho um lote de livros a serem catalogados e acredito que nele encontraremos o seu livro.

— Quer vir comigo ao mezanino procurá-lo?

Sofia ficou empolgada, mas por timidez não aceitou o convite. Desculpou-se e pediu para que ele o procurasse e que ela voltaria no dia seguinte.

Na manhã seguinte lá estava ela e novamente não encontrou ninguém, mas foi entrando. A curiosidade feminina a empurrava para adiante até que olhou para o mezanino e viu uma porta aberta.

— Ei loira, suba aqui estou procurando seu livro.  

Sofia com o coração acelerado subiu a pequena escada e entrou no quartinho.

A cena era idêntica às alcovas dos grandes gênios da Renascença. Uma cama, uma mesinha, uma garrafa de vinho aberta, livros e mais livros! Moradia do intelecto e da carne!

Logo os dois focaram no lote de livros. Rafa pegava um e passava-o para Sofia e com esses movimentos por vezes as mãos se tocavam e a sensação agradável era recíproca. Os rostos também se esbarravam vez em quando até que, como faísca em pólvora surgiu um caloroso beijo. Depois mais carícias, o vinho, a cama e o prazer total.

Foi uma paixão à primeira vista! Eles exalavam satisfação!

E os encontros continuaram com frequência em busca do tal livro.

Certo dia, Sofia sob efeito da paixão e convicta de suas palavras disse ao Pai:

—Pai agora encontrei um amor e quero me casar.

Dr. Frederico, quando soube que se tratava de um rapaz que não possuía nada além da simpatia, ficou possesso.

—Filha, esse casamento é impossível. Você sabe muito bem o que penso sobre esse assunto. Não, não e não! Prefiro vê-la morta a casar-se com esse Zé Ninguém.

Deu as costas à filha e saiu blasfemando inconformado!

Desiludida e com a mente confusa tomou uma atitude radical,  fugiu de casa.  Deixou um bilhete dizendo que iria morar com o namorado. Não deixou endereço algum, apenas sumiu.

Após uma semana do desaparecimento, surgiram rumores de seu possível assassinato.

O caso foi tomando corpo tanto na polícia como na imprensa.

O repórter Leo já tinha como suspeito número um o Dr. Frederico. Estava convicto, e também a polícia,  de que o pai era capaz de fazer qualquer coisa quando contrariado.

Entretanto a polícia descobriu o endereço do Sebo onde Sofia teria ido morar. Fizeram uma diligencia e lá encontram o Rafael, o rapaz do sorriso largo em meio aos livros. Levaram-no para depor na delegacia.

A surpresa foi grande, ele disse que ela ficou apenas um dia e o deixou. Ainda confusa e com o pensamento distante lhe disse que iria mudar de vida e foi embora sem dizer o destino.

A polícia ainda insistiu. Fez uma varredura no quartinho do Sebo e nada de evidencias e logo o rapaz foi liberado.

Agora o foco da investigação era o pai.

O Dr. Frederico foi levado a depor na delegacia. Acabou se complicando com as respostas e pelo seu histórico criminal e acabou sendo indiciado.

Foi mantido preso por medida cautelar, enquanto a Polícia continuava na busca de novas provas.

Abatido e desmoralizado ele não conseguiu suportar a perda do poder e a vida na prisão. Sofreu um mal súbito que o levou a óbito.

Enquanto isso em uma praia distante na Nova Zelândia, Sofia recebe uma mensagem eletrônica que dizia:


Seu pai está morto! Pode voltar para o Brasil, estamos ricos e até que enfim juntos, minha querida Freudiana dos olhos verdes.  - terminou o texto Leo!

Um crime nunca é perfeito - Carlos Cedano


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Um crime nunca é perfeito
(SEGUINDO PISTAS)
Carlos Cedano

Marcelo Fontana, jornalista investigativo, atende ligação de seu amigo, o Delegado Fernando:

— Marcelo, preciso falar urgente com você. Sonia Marques está desaparecida há uma semana. Fomos ao apartamento dela e tudo estava em ordem, banheiro limpo, cozinha imaculada e parecia não faltar nada, acreditamos por experiência que ausência de Sonia corresponde ao tempo de seu desparecimento, mas estamos sem mais pistas.

Mais tarde os amigos se encontram na delegacia e Nando contou:

— Ontem de manhã apareceu aqui na delegacia o João Marques pai da Sonia, pisando forte, queria dar queixa do desaparecimento da filha ocorrido há seis dias e ainda exigiu que o caso fosse investigado com urgência. Disse que a filha costumava telefonar-lhe pelo menos uma vez por dia, o que não tem acontecido. Elaboramos o Boletim de Ocorrência que João Marques assinou, mas antes de partir rosnou com sua conhecida arrogância que esperava resultados rápidos. Por coincidência, ontem mesmo ligou uma pessoa e disse que tinha visto o corpo de uma mulher na beira de uma estrada. Partimos para o local indicado,  isolamos o lugar, tiramos fotos, encontramos documentos na bolsa junto com as chaves de um carro, cartões, um bom dinheiro e anéis nos dedos, não foi encontrado celular, agora podemos afirmar que Sonia foi assassinada! Evidentemente o motivo não foi roubo. Em três dias vamos ter os resultados da autopsia, continuou Nando e lhe entregou uma pasta com cópia dos documentos e fotos da cena do crime.

No dia seguinte cedo Nando liga para seu João comunicando a morte da filha e lhe pede que vá fazer o reconhecimento do cadáver no IML, caso positivo poderia retirar o corpo e o atestado de óbito. Logo depois recebe outra ligação, é de Marcelo, que lhe diz: Analisei os documentos que você me deu e são suficientes para iniciar nossa investigação,  proponho trabalhar o caso da Sonia da seguinte forma: você fecha logo o informe dos laudos forenses e começa já os interrogatórios que é uma fase chata e demorada, eu vou seguir as pistas do dinheiro e levantar os negócios de Sonia, ok?

Foram dois meses de trabalho intenso de Nando e da equipe. Foram interrogadas mais de vinte pessoas entre membros da família Marques, amigos, ex-namorados da Sonia e também o atual namorado, Beto Dias um surfista profissional. Os investigadores se defrontaram com negativas e resistências dos suspeitos, não respondiam às perguntas, mas aos poucos alguns falaram. Um dos caras se enrolou todo nas respostas e decidiram ampliar as investigações sobre ele.

Marcello lembrou que um ano atrás, quando namorava Sonia, ela lhe dissera que tinha recebido uma bela fortuna de seu pai, não era generosidade disse ela, era um modo de seu pai lavar fortes quantias de dinheiro vindas de seus duvidosos negócios e também uma forma de ganhar espaço junto a ela para influencia-la nas escolhas afetivas. Ele achava o Beto um fracassado e frouxo que só queria aproveitar-se de seu dinheiro. Mas, do que mais lembrava Marcelo era o entusiasmo dela pela Fundação que tinha criado, Sonia era formada como urbanista e queria desenvolver projetos habitacionais urbanos para populações de baixa renda, era seu maior sonho!

Marcelo chama sua assistente, também jornalista e muito hábil para levantar informações de pessoas envolvidas em casos policiais. Marcelo explica o caso de Sonia e lhe pede para levantar dados da situação financeira dela junto ao Banco Central. — Trata-se, disse Marcelo com ênfase, de ir fundo nos levantamentos, tenho muita confiança em seu trabalho.  

Enquanto isso Marcelo iniciou as investigações sobre as propriedades imobiliárias de Sonia para ter uma ideia mais exata de seu patrimônio. A preocupação dele era a mesma do Nando: com a morte de Sonia o patrimônio dela reverteria para o único herdeiro legal, seu pai! O acordo nupcial de seu João com sua mulher Rosana dizia que no caso de sua morte a herdeira continuaria a ser sua filha Sonia e dona Rosana receberia apenas uma pensão adequada além de ficar com a casa onde moravam. O acordo não apresentava brechas! Mas Sonia está morta e se João Marques também morresse, com quem ficaria o patrimônio total? Foi indagação de Nando, temo que seja com dona Rosana respondeu Marcelo.

Marcelo consultou os cartórios de imóveis e foi informado, mais de uma vez, que o advogado de dona Rosana já tinha solicitado três meses antes da morte de Sonia informações sobre seu patrimônio. Marcelo pediu copia dos mesmos documentos entregues ao advogado da madrasta Rosana,  e ficou boquiaberto com a quantidade de propriedades que Sonia possuía.  Respirou fundo porque ainda estava por conhecer o patrimônio financeiro.

Ligou para Nando para saber do andamento dos interrogatórios, que lhe disse estarem praticamente concluídos e que o principal suspeito, era aquele do primeiro depoimento enrolado, era mesmo o tal de Beto. Ainda vou interroga-lo outra vez, disse Nando, vou aperta-lo, ele sabe de mais coisas.

 — Ok, disse Marcelo, espero mais noticias.

Foi nesse momento que Nando lhe comunica que seu João tinha falecido repentinamente e a causa provável era infarto do miocárdio.

Seria outro homicídio? - pensou o jornalista.

Marcelo não ficou espantado com a descoberta de muita grana em conta corrente e nos fundos de ações de Sonia, mas a maior surpresa foi saber que todos os recursos passariam para a Fundação Sonia Marques, foi nesse momento que Marcelo se tocou que era urgente falar com o pessoal da Fundação, e para lá seguiu com sua assistente.

Tiveram boa conversa com o advogado da Fundação, que disse que Sonia decidiu doar sua fortuna dois meses antes de seu assassinato e que logo começou a tomar as medidas necessárias para transferi-la.

 — O processo financeiro está praticamente concluído e hoje deverá completar-se a operação com o acordo do Banco Central. Quanto às propriedades, disse o outro Diretor, foi um processo mais demorado e exaustivo, mas está no fim, esperamos conclui-lo numa semana...

— E quanto a possíveis interferências ou contestações judiciais? Perguntou ansioso Marcelo.

— Dona Sonia deixou testamento específico a favor da Fundação e a transferência foi iniciada por ela mesma e, além disso, os bens que recebeu de seu pai eram de caráter irrevogável e irretratável. -  foi a resposta do Diretor.

O jornalista pensou: gostaria de ter visto na hora a cara de dona Rosana e de seu advogado, quebraram a cara!

Na reunião no escritório de Nando. Nando contou que a porta de entrada para desvendar a trama foi Beto, ele entregou tudo direitinho e com detalhes que já confirmamos.  ele e o comparsa abordaram Sonia quando saia da casa de amigos tarde da noite. Usaram luvas, enforcaram-na e a levaram-na para o lugar onde foi encontrada, isso explica por que o carro da Sonia foi encontrado onde ela o estacionou. Com o material que temos podemos pedir a prisão temporária dos dois. O comparsa é liso e ainda não veio prestar depoimento.

— Me conta mais sobre esse comparsa Jamil. - pediu Marcelo.

— Quando ele era lutador de UFC, seu João o contratou como personal training, mas em realidade isso era fachada para ele vigiar seus negócios e espionar sua esposa. Virou homem de confiança de patrão e ganhou muito dinheiro, mas adorava cassinos e gastava muito além de seus ganhos, com o tempo se aproveitou da decadência física de seu patrão e virou amante de Rosana. Foi o casal que arquitetou a morte de Sonia com ajuda do Beto. Interrogada Rosana começou negando tudo dizendo que não sabia de nada, mas vencida pelas provas ela desabou e reconheceu sua culpa confirmando que foi Jamil quem matou Sonia. Ela estava no carro dele e testemunhou o enforcamento.

O telefone tocou na delegacia e Nando atendeu. Em seguido olhou para o amigo e disse:

— Marcelo, localizaram o ninho de amor de Jamil e dona Rosana, pelo que me disseram parecia a caverna de ali-baba, acharam joias da Rosana e muito dinheiro entre dólares e euros, Jamil já está preso e o caso está tecnicamente encerrado, disse Nando. Agora vamos preparar a peça de acusação dos três.

Saindo da delegacia Marcelo perguntou sobre a morte de seu João, que coincidência né?

— Você sabe melhor do que eu, disse Nando, que na nossa profissão não acreditamos em coincidências, mas isso já é outra historia.


Ambos riram e se despediram com a esperança de resolver outro caso juntos!

VÍTIMA DE UM COMPLÔ - Ledice Pereira


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VÍTIMA DE UM COMPLÔ
Ledice Pereira

Jorge acabou de engolir, apressadamente, um sanduíche de mortadela e voltou toda sua atenção ao trabalho de investigação que andava tirando seu sono.

De certa forma, era o trabalho mais difícil realizado naqueles cinco anos de profissão. Envolvia alguém que ele conhecia. Pior que isso, envolvia alguém por quem ele era totalmente apaixonado.

Nem ele tinha a dimensão dessa paixão. Mas, a partir do instante em que soube do desaparecimento de Chloé, não teve um minuto de tranquilidade.

Quem o avisou que Chloé estava sumida há uns quinze dias foi Eric, um ex-colega de ambos na Faculdade Cásper Líbero, que soube do caso no jornal onde trabalhava.

A Polícia trabalhava em sigilo, a pedido do pai da jovem, Eike de Toledo, empresário influente e rico, que fora acusado de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, e até suspeito de ter mandado assassinar sua primeira esposa num acidente automobilístico. Nunca provado.

Tinha passe livre no meio político e grandes amigos na polícia por onde transitava sem pudores, oferecendo-lhes viagens em seu jatinho e passeios de iate, além de estadia na casa de praia, em troca de “pequenos” favores.

Eric soube do desaparecimento da moça por acaso, quando seu chefe recebeu ligação do Eike seu amigo pessoal, tendo deixado escapar nomes e transparecer sua preocupação.

Foi fácil fazer associações e chegar ao fato.

Jorge sabia que sua demissão do jornal Folha, onde se destacava por sua competência e dedicação ao jornalismo investigativo, devia-se à influência de Eike. Este tentava afastar da filha todos que dela se aproximavam,  e eles tinham se afeiçoado na época em que frequentaram a Faculdade. Ele tinha certeza também de que a mudança dela para a Faculdade de Direito se dera por influência do pai.

 Desde então, passou a pesquisar a vida pregressa de seu potencial inimigo. Por outro lado, sentiu-se perseguido algumas vezes, sem, entretanto, poder confirmar essa sensação. Mais de uma vez percebeu a presença de figuras estranhas em frente à sua porta, que procuravam disfarçar quando ele os encarava. Comentou com Eric sobre isso, mas o amigo não deu a devida importância às suas suspeitas.

Ao saber do sumiço de Chloé, no entanto, Eric resolveu ajudá-lo nas investigações já que, por não ser tão visado, teria livre acesso à casa, à faculdade de Direito, ao jornal e à Polícia.

Com os colegas dela, da Faculdade de Direito conseguiu informação de que há uns dois meses e meio, revoltada, ela decidira morar com Sergio, seu namorado, também estudante, após uma briga de foice com o pai, que não aceitou a decisão dela de se casar com o rapaz.

Era voz corrente na escola, que o empresário colocara no nome da filha, bens adquiridos através de caixa dois e outros recebidos ilícitos. Ela mesma contou aos mais chegados. E, talvez, essa fosse a maior razão para ele não querer que ela se casasse.

De posse dessas informações e pesquisando a fundo tudo que se relacionasse a Eike de Toledo, Jorge, que residiu dois anos em Genebra, na Suíça onde deixou grandes amigos, jornalistas investigativos como ele, conseguiu informações sigilosas sobre os montantes investidos pelo empresário no Banco SYZ SA, em nome dele e da filha Chloé.

Preparou um relatório contendo todos os dados que apurou e o enviou ao Ministério Público Federal de São Paulo, que já vinha trabalhando para elucidar desvios de dinheiro público e pagamentos de propina envolvendo o nome de Eike de Toledo entre outros empresários do ramo.

Enquanto isso, Eric passou a investigar o paradeiro de Chloé, seguindo pistas que lhe foram passadas pelos colegas dela e de Sergio.

Foram dias de muito trabalho e apreensão. Eric e Jorge mantiveram-se em contato constante trocando informações.

Nas primeiras horas daquela quarta-feira, Eike e a mulher Magda foram acordados com fortes batidas na porta.

Seriam notícias de Chloé? ─ perguntava-se Eike tonto de sono.

Ao abrir a porta de sua mansão, foi surpreendido por dois agentes federais com um  mandado de prisão aplicado a ele e à mulher, bem como um mandado de busca e apreensão na residência e escritório da empresa da família.

Eric, que pedira antecipação de suas férias para se dedicar àquela investigação, seguiu para Montevidéu, de onde acompanhou todo o desenrolar da prisão de Eike , inicialmente pelo telefonema de Jorge e depois pelos jornais locais.

No mesmo dia, seguindo pistas, encontrou Chloé que, apavorada,  o recebeu após ter a certeza de que ele não representava perigo.

Fugira do namorado ao descobrir, após interceptar um telefonema, que ele era comparsa de sua madrasta.

Foi ela  a responsável pela aproximação dos dois, num momento de fragilidade da jovem.

Obrigada pelo pai a terminar seu namoro com Jorge e a trocar de universidade, Chloé sabia que se  não o obedecesse, a vida de Jorge correria perigo.

Magda, aproveitando-se da situação, facilitou a matrícula do amante, na mesma universidade da jovem enteada, para que ele dela se aproximasse e a seduzisse ganhando sua confiança.

E foi o que aconteceu. Sergio representou muito bem o papel de sedutor, e não só se tornou confidente de Chloé, como passou a ser seu par constante. Até que, tempos depois, ela julgou amá-lo. E para se livrar da pressão do pai e da madrasta, por quem não nutria nenhum sentimento de afeto, resolveu anunciar que iria casar-se com ele.

Desmascarada, Magda confessou que pretendia fugir com Sergio, assim que ele conseguisse se apoderar de parte da fortuna de Chloé. Não afirmou, entretanto, o que seria feito da enteada.

Ela e Eike necessitariam de bons advogados para diminuir as penas em que incorreriam.

Sergio continuou sendo procurado pela Interpol.

Eric fez questão de acompanhar   Chloé em sua viagem de volta, sendo ambos recebidos por Jorge. 

Depois de inúmeras noites insones, Jorge conseguiu dormir. O toque do telefone acordou-o às dez horas do dia seguinte, com um convite para que voltasse a trabalhar no jornal Folha, como responsável pelo jornalismo investigativo. Não é preciso dizer que Eric foi convidado a fazer parte da equipe.


Se Jorge e Chloé ficarão juntos, só o tempo dirá.



*****

Neste segundo texto foi trabalhada outra versão para o desfecho:

*****


 VÍTIMA DE UM COMPLÔ II

Jorge acabou de engolir apressadamente, um sanduíche de mortadela e voltou toda sua atenção ao trabalho de investigação que andava tirando seu sono.

De certa forma, era o trabalho mais difícil realizado naqueles cinco anos de profissão. Envolvia alguém que ele conhecia. Pior que isso, envolvia alguém por quem ele era totalmente apaixonado.

Nem ele tinha a dimensão dessa paixão. Mas, a partir do instante em que soube do desaparecimento de Chloé, não teve um minuto de tranquilidade.

Quem o avisou que Chloé estava sumida há uns quinze dias, foi Eric, um ex-colega de ambos na Faculdade Cásper Líbero, que soube do caso no jornal onde trabalhava.

A Polícia trabalhava em sigilo, a pedido do pai da jovem, Eike de Toledo, empresário influente e rico, que fora acusado de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, e até suspeito de ter mandado assassinar sua primeira esposa num acidente automobilístico. Nunca provado.

Tinha passe livre no meio político e grandes amigos na Polícia por onde transitava sem pudores, oferecendo-lhes viagens em seu jatinho e passeios de iate, além de estadia na casa de praia, em troca de ‘pequenos’ favores.

Eric soube do desaparecimento da filha do empresário por acaso, quando seu chefe recebeu ligação do mesmo, seu amigo pessoal, tendo deixado escapar nomes e transparecer sua preocupação.

Foi fácil fazer associações e chegar ao fato.

Jorge sabia que sua demissão do jornal Folha de São Paulo, onde se destacava por sua competência e dedicação ao jornalismo investigativo, devia-se à influência de Eike. Este tentava afastar da filha todos que dela se aproximavam  e eles tinham se afeiçoado na época em que frequentaram a Faculdade. Ele tinha certeza também de que a mudança dela para a Faculdade de Direito se dera por influência do pai.

 Desde então, passou a pesquisar a vida pregressa de seu potencial inimigo. Por outro lado, sentiu-se perseguido algumas vezes, sem, entretanto, poder confirmar essa sensação. Mais de uma vez percebeu a presença de figuras estranhas em frente à sua porta, que procuravam disfarçar quando ele os encarava. Comentou com Eric sobre isso, mas o amigo não deu a devida importância às suas suspeitas.

Ao saber do sumiço de Chloé, no entanto, Eric resolveu ajudá-lo em suas investigações já que, por não ser tão visado, teria livre acesso à casa, à faculdade de Direito, ao jornal e à Polícia.

Com os colegas dela, da Faculdade de Direito conseguiu informação de que há uns dois meses e meio, revoltada, ela decidira morar com Sergio, seu namorado, também estudante, após uma briga de foice com o pai, que não aceitou a decisão dela de se casar com o rapaz.

Era voz corrente na escola, que o empresário colocara no nome da filha, bens adquiridos através de caixa dois e outros recebidos de maneira ilícita. Ela mesma contou aos mais chegados. E, talvez, essa fosse a maior razão para ele não querer que ela se casasse.

De posse dessas informações e pesquisando a fundo tudo que se relacionasse a Eike de Toledo, Jorge, que residiu dois anos em Genebra, na Suíça onde deixou grandes amigos, jornalistas investigativos como ele, conseguiu informações sigilosas sobre os montantes investidos pelo empresário no Banco SYZ SA, em nome dele e da filha Chloé.

Preparou um relatório contendo todos os dados que apurou e o enviou à Ministério Público Federal de São Paulo, que já vinha trabalhando para elucidar desvios de dinheiro público e pagamentos de propina envolvendo o nome de Eike de Toledo entre outros empresários do ramo.

Enquanto isso, Eric passou a investigar o paradeiro de Chloé, seguindo pistas que lhe foram passadas pelos colegas dela e de Sergio.

Foram dias de muito trabalho e apreensão. Eric e Jorge mantiveram-se em contato constante trocando informações.

Nas primeiras horas daquela quarta-feira, Eike e a mulher Magda foram acordados com fortes batidas na porta.

Seriam notícias de Chloé? ─ perguntava-se Eike tonto de sono.

Ao abrir a porta de sua mansão, foi surpreendido por dois agentes federais com um  mandado de prisão aplicado a ele e à mulher, bem como um mandado de busca e apreensão na residência e escritório da empresa da família.

Eric, que pedira antecipação de suas férias para se dedicar àquela investigação, seguiu para Montevidéu, de onde acompanhou todo o desenrolar da prisão de Eike , inicialmente pelo telefonema de Jorge e depois pelos jornais locais.

No mesmo dia, seguindo pistas, encontrou Chloé que, apavorada,  o recebeu após ter a certeza de que ele não representava perigo.

Fugira do namorado ao descobrir, após interceptar um telefonema, que ele era comparsa de sua madrasta.

Foi ela  a responsável pela aproximação dos dois, num momento de fragilidade da jovem,
Obrigada pelo pai a terminar seu namoro com Jorge e a trocar de universidade, Chloé sabia que se  não o obedecesse, a vida de Jorge correria perigo.

Magda, aproveitando-se da situação, facilitou a matrícula do amante, na mesma universidade da jovem enteada, para que ele dela se aproximasse e a seduzisse ganhando sua confiança.

E foi o que aconteceu. Sergio representou muito bem o papel de sedutor, e não só se tornou confidente de Chloé, como passou a ser seu par constante. Até que, tempos depois, ela julgou amá-lo. E para se livrar da pressão do pai e da madrasta, por quem não nutria nenhum sentimento de afeto, resolveu anunciar que iria casar-se com ele.

Desmascarada, Magda confessou que pretendia fugir com Sergio, assim que ele conseguisse se apoderar de parte da fortuna de Chloé. Não afirmou, entretanto, o que seria feito da enteada.

Ela e Eike necessitariam de bons advogados para diminuir as penas em que incorreriam.
O paradeiro de Sergio nunca foi desvendado apesar de sua foto ter sido amplamente divulgada.

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Depois de inúmeras noites insones, Jorge conseguiu dormir. O toque do telefone acordou-o às dez horas do dia seguinte, com um convite para que voltasse a trabalhar no jornal Folha de São Paulo, como responsável pelo jornalismo investigativo.

Eric fez questão de acompanhar  Chloé em sua viagem de volta.

Quando Jorge dirigia-se ao aeroporto para recebê-los foi surpreendido com a notícia de um grave acidente aéreo.

Sentiu um aperto no coração e acelerou o quanto pode para chegar o mais depressa possível.

Conseguiu atravessar a multidão que se formava para acompanhar de perto a tragédia.  
A fumaça escura dificultava a visibilidade. As sirenes ensurdecedoras dos carros de bombeiros e das ambulâncias indicavam  a gravidade da situação.

Jorge aproximou-se o quanto pôde fazendo-se valer de suas credenciais.

As pessoas amontoavam-se nos guichês das companhias aéreas tentando obter informações que os funcionários não tinham como responder.

Depois de duas horas de agonia, veio a confirmação. O voo JH314 vindo de Montevidéu e trazendo a bordo, entre outros, Eric e Chloé, havia se incendiado após forte colisão com um bimotor.

A terra se abriu para Jorge que sentiu as pernas fraquejarem e caiu.

Medicado, no próprio aeroporto, ao voltar a si, quis acreditar que tudo não passasse de um pesadelo.

Infelizmente, aos poucos, teve a certeza de que era um personagem vivo daquela tragédia.