O ÚLTIMO NATAL DE SEVERINO - Carlos Cedano


O ÚLTIMO NATAL DE SEVERINO
Carlos Cedano

Bruno sempre voltava à sua pequena cidade, tinha muitas saudades e as lembranças impregnadas no seu coração eram motivos para sempre retornar.

Estava agora sentado no tradicional bar que fica na Praça principal. Quando pequeno, ali mesmo, escutara as fofocas que ele disseminava e, quando não tinha nada a “divulgar”, inventava alguma história, mas sempre com um fundo de verdade. Esse “treino” o ajudou arrumar emprego como jornalista numa revista de fofocas e escândalos na capital.

A cidade tinha crescido bastante nos últimos anos e os habitantes e os negócios também; a praça principal continuava muito bonita, bem iluminada,  plena de árvores de tamarindo bem cuidados, e os antigos bancos sempre bem conservados. Adorava essa bela praça, mas ela também lhe trazia dolorosos sentimentos pelos acontecimentos ocorridos vinte anos antes.

Bebia sua cerveja perdido nas lembranças de sua juventude quando aos poucos foram chegando os amigos que ficaram felizes de vê-lo.  Formou-se uma roda em volta dele e foram “botando as conversas em dia”.

Num repente, um dos amigos pediu lhe pra contar a velha história que ainda continuava assombrar a cidade e disse para os outros amigos: vocês saberão das coisas ocorridas “em primeira mão e de uma fonte autorizada”.

— Tá bom! - disse Bruno. E iniciou sua narrativa:

Eu estava com onze anos e confesso, sempre fui fofoqueiro, mas quem não o era nesta cidade? As maledicências corriam soltas e ninguém escapava das línguas ferinas, particularmente as dos moralistas e das “beatas” apaixonadas pelo pároco Raul. É como diz a sabedoria popular “cidade pequena, inferno grande”.

A figura mais popular e querida da cidade era seu Severino, homem de sessenta e cinco anos, trabalhador incansável desde adolescente e que viajava por toda a região levando produtos de nossa cidade,  e trazendo mercadorias da capital. Também era generoso, ajudava às instituições sociais e escolas. Era rico, muito rico. Possuía duas fazendas e  prédios na capital. Porém sentia medo de seu futuro, era solteirão e sem filhos e comentava com os amigos que não queria ficar sozinho, precisava achar uma moça direita e carinhosa pra que  cuidasse dele na velhice.

A novidade se espalhou rapidamente.  Severino conheceu algumas “candidatas”, mas quem o impressionou verdadeiramente foi Maíra uma bela quarentona apelidada de “Generosa” pelas línguas afiadas e maldosas. O charme e a exuberância de suas belas formas, além de seu sorriso permanentemente estampado em seu belo rosto, foram elementos irresistíveis para Severino, que  “ficou de quatro por ela”. Era daquelas mulheres que fazem um homem acreditar que ele é o único e o melhor de todos!

Casaram-se logo e as fofocas correram em todos os tons e sons, não vou detalhá-las, vocês com certeza as imaginam! O casamento transformou Severino, virou um títere nas mãos da Maíra, atendia sempre seus insistentes pedidos de presentes e dinheiro. Ele continuou a trabalhar com afinco, “agora tenho responsabilidades” dizia sempre e continuava viajando pela região.

Essas atividades que sempre foram habituais na sua vida de solteiro, agora eram motivo de comentários maliciosos e insistentes que chegavam a seus ouvidos sempre insinuando a infidelidade da Maíra durante suas ausências. O velho homem decidiu “passar as coisas a limpo”! Simulou uma viagem de dez dias, voltaria perto do Natal – foi o disse para a esposa.

Mas só se passaram dois dias e Severino voltou pra cidade, na surdina. Já era muito tarde da noite e fazia muito frio. Com passos lentos, porém decididos, chegou à  sua casa em frente à praça principal: Lá na frente - disse Bruno - apontando com seu indicador. Severino viu logo que todas as luzes da casa estavam apagadas, abriu a porta sem fazer barulho,  e sempre em silencio caminhou sorrateiro até o quarto. Quando bem próximo da porta, pode ouvir a voz inconfundível da Maíra.  

“É ela! Mas, com quem ela está falando?” - Esperou ainda um pouco para ter certeza de que deveria tomar uma atitude.

A espera não demorou muito. Logo os gemidos do casal tornaram-se bem perceptíveis. Severino sentiu-se tomado de ódio nesse instante, segurou firme o revolver,  abriu a porta e imediatamente ligou a luz. O que viu o deixou estarrecido e sem controle gritou: Sua cadela, vagabunda! Como pode fazer isso comigo? Como? E, você, seu cretino? -  dirigindo-se ao homem - Quem diria,  logo você? Vamos saiam da cama seus sem-vergonhas! Saiam logo daí! Ela trêmula, sem jeito tentava se afastar mais e mais de Severino temendo o pior. Levantaram-se desajeitados empurrados pelos berros do marido traído, e quando os dois pombos iam pegar as roupas,  Severino gritou com voz que denotava toda sua  dor e rancor:

Não! Nada de roupas! Vocês vão sair como estão. Assim,  pelados! Sem nada para cobrir-se!

Ofegante,  empunhando a arma, continuou a berrar:

Vamos pra rua, tudo mundo precisa ver a cachorrada que fizeram aqui! Vamos já! -  advertiu Severino -  Andem rápido senão mato vocês dois aqui mesmo!

Mas, aonde vamos?  - Perguntou o amante.

Vamos pra delegacia,  declarar o flagrante de adultério. E, chega de conversa, andem rápido! – gritou Severino.

Havia bem poucas pessoas na praça naquele horário da madrugada. Severino estava endemoniado. Levantou a mão direita para o ar, e atirou três vezes. “BANG BANG BANG!”

Foi o suficiente para acordar a toda vizinhança. Luzes das casas se acendiam, pessoas saiam dos bares e também vizinhos dos quarteirões próximos.

De repente a praça iluminada já estava fervilhando de gente.

— Mas, vejam só,  é o Padre Raul! Que veado, fazer isso com seu Severino!

— O quê que você queria cara? Replicou outra pessoa – O Severino foi casar com vagabunda. Deu nisso!

O casal estava envergonhado, temiam uma linchação. Além disso,  a temperatura beirava os dez graus. Nesse instante que Maíra abraçou ao Padre. Foi demais pra seu Severino! Os olhos marejaram. Ele se posicionou e esvaziou toda a munição de seu revólver nos corpos dos adúlteros.

Foi uma loucura só! Gente chorando ou xingando os mortos, reações histéricas e lamentações.

Seu Severino jogou o revolver fora e sentou num dos bancos da praça. Quando o delegado chegou e viu os corpos inertes perguntou, cadê o assassino? Várias pessoas assinalaram o banco onde estava seu Severino, o delegado se aproximou e mostrou-se ainda mais surpreso quando percebeu que ele era o terceiro cadáver.

— Foi demais pra seu Severino amigos, o velho coração não aguentou!


Foi assim meus amigos ― disse Bruno ― sem tirar nem pôr!  

CRIME E TRAIÇÃO - Carlos Cedano


CRIME E TRAIÇÃO
Carlos Cedano

Leopoldo Barreto esta se aposentando. Com setenta e cinco anos e quarenta e cinco de serviços na única empresa,  já é o bastante! Sua mulher, Márcia concorda. No cargo de Diretor Geral,  permitiu-se formar uma boa poupança para uma velhice tranquila. Sim, diz Leopoldo e agora podemos realizar o cruzeiro de três messes visitando países da Europa e da Ásia como planejado há tempo. Era a última semana na empresa e em quinze dias embarcariam.

Na segunda feira chegou cedo à sede, separou documentos pessoais dos técnicos, por correio eletrônico comunicou às empresas, colegas e amigos sua aposentadoria. Estava nestas atividades quando sua secretária, e lhe disse: Senhor Leopoldo, o senhor esta sendo convocado para uma reunião na sala do Conselho de Administração às quinze horas, é uma reunião importante! Que será? Pensou Leopoldo, trabalho não pode ser não tenho nada pendente, talvez seja  uma reunião de consulta. Eneida, confirme minha presença!

Na sala de reuniões o Presidente do Conselho, Doutor Martins,  foi direto pra o assunto: “Leopoldo, estamos aqui reunidos para decidir quem será o próximo Diretor Geral. Porém,  não chegamos a nenhum acordo, temos um “jogo equilibrado” entre os três candidatos, e mais qualificado para indica-lo é você Leopoldo. Você os conhece muito bem, e por isso lhe pedimos que decida qual deles é a melhor opção para substituí-lo. Qualquer que seja sua opinião, ela será acatada”.

 “Que belo abacaxi!” – pensou. Mas, logo disse - Qualquer que seja minha decisão, poderá  será uma decisão injusta. Os três praticamente se equiparam. Mas, não vou fugir da minha obrigação. Só peço dois dias para refletir sobre o assunto.

O homem foi direto pra casa.  Márcia o viu entrar e lhe perguntou, você parece muito preocupado meu amor, alguma coisa desagradável? O marido contou o acontecido, e sua mulher lhe disse: você está acostumado a tomar decisões, durma um pouco agora para poder refletir melhor mais tarde.

Mas não foi assim. Deitou-se e começou a repassar mentalmente as condições emocionais e de caráter de cada candidato: Manoel Brito, engenheiro e Diretor de Produção, possui enorme capacidade de relacionamento, cuidadoso com as palavras e é um inovador que aceita bem ideias novas; Francisco Lopes, Diretor Financeiro, excelente economista, um pouco workholic e não é tão sociável como os outros diretores, porem, além de uma excelente formação musical tem um relacionamento familiar admirável e um bom equilíbrio emocional; Marcio Fontes nosso Diretor de Comercialização, agrônomo, é muito bom no relacionamento com os clientes, boa inteligência situacional, não se deixa abater por situações adversas é ambicioso, aceita desafios e possui liderança carismática. Falta lhe um pouco de autocontrole, às vezes fala demais.

Leopoldo acordou de bom humor e disse pra si: “é ele sim! Vou propor seu nome”.

Na reunião o Conselho de Administração já estava a postos. Leopoldo cumprimentou o Presidente no meio de um ambiente carregado de ansiedade e entregou-lhe o envelope. Ele o abriu e anunciou:

“O novo Diretor Geral é Marcio Fontes de Paula nosso Diretor de Comercialização”. Entre rostos de alívio e de caras frustradas, logo o Presidente pediu pra sua secretária que informasse a todos o nome do eleito.

Na semana seguinte houve a cerimônia de posse, as premiações aos melhores funcionários e o jantar de confraternização. Eneida, como prometido, enviou para Leopoldo um correio eletrônico com noticias da Empresa e da eleição do Agrônomo Fontes. Ele e sua mulher continuavam felizes com seu cruzeiro. 

E, assim, aos poucos Fontes foi assumindo o controle da situação da empresa,  e um mês depois seu estilo começou aparecer.

Passados dois messes, num fim de longo semana houve um acidente de carro numa estrada num dia chuvoso, o motorista numa curva fechada não conseguiu evitar a derrapagem e perdeu o controle do veículo indo a parar numa ribanceira, o que causou a morte do casal. Era o Agrônomo Marcio Fontes de Paula e sua esposa. A notícia caiu como uma “bomba” na empresa.

Os peritos reuniram pra determinar a real causa do acidente. O carro de uma marca famosa tinha apenas um mês de comprado e os pneus praticamente novos, pelo que se sabia o senhor Fontes era cuidadoso,  e não tinha bebido como demonstrou a autopsia. Chegaram a desmontar todo o carro para uma avaliação mais detalhada.

O relatório foi unânime em afirmar que a causa foi o travamento do freio direito do carro, mas o mais preocupante eram os sinais de manipulação observados no sistema de frenagem analisado, e quem o tivesse feito precisaria contar com ferramentas de uso especializado.

A Empresa decidiu contratar um renomado investigador particular para uma investigação altamente confidencial.

Durante alguns dias a equipe do investigador obteve  importantes informações: primeiro estudou com cuidado o manual do fabricante.  O perito da fábrica esclareceu muitos pontos e entregou desenhos das ferramentas que teriam sido usadas. Logo a equipe entrou às escondidas nas garagens das residências dos outros dois diretores onde fizeram buscas minuciosas. Também procuraram nas áreas da empresa pra achar ferramentas semelhantes às desenhadas pelo perito da fábrica.

Finalmente, numa reunião bastante restrita com o Presidente e o Conselheiro, o investigador disse que foram encontradas ferramentas similares às descritas pelo fabricante. Na garagem do Engenheiro Mecânico, Manoel Perez Brito encontraram uma similar as descritas e outra na oficina de reparos na área de Produção cujo diretor é também o Engenheiro Brito.  Seria muita coincidência ou era uma armação contra ele.  As marcas encontradas no sistema de frenagem do carro acidentado eram bastante compatíveis com as ferramentas, mas não se poderiam afirmar cem por cento que eram as mesmas.

E, então...? Perguntou o Presidente.

O perito respondeu que como as provas eram inconclusivas não poderia acusar o Engenheiro Brito.

Está certo! - disse o Presidente, e deu por encerrada a reunião.

Eneida ligou para Leopoldo, que já tinha voltado do cruzeiro, comunicando os fatos.

Leopoldo sentou-se à mesa da cozinha e tomava café quando entrou sua mulher: O que foi que aconteceu agora Leopoldo? Você esta com uma cara de funeral! Leopoldo com paciência explicou o que tinha acontecido na Empresa. Márcia  teve um sobressalto:

Meu Deus que coisa mais absurda! Como pode ser?

Leopoldo se acomodou na cadeira e disse:

O Francisco Lopes foi brilhante, matou um e conseguiu tirar Brito da empresa,  e agora é o salvador da pátria! Eram tão amigos! Você tem certeza disso? Retrucou Márcia.

Sim! - respondeu Leopoldo. Eu tinha um plano similar e o aplicaria se não tivesse sido escolhido Diretor Geral!

Então se calou ante o olhar estupefato de Márcia!

SITIO PRIMAVERA – Dr. Sherlock Oswaldo U. Lopes


SITIO PRIMAVERA – Dr. Sherlock
Oswaldo U. Lopes

            O alvoroço no Sitio do Pica-Pau Amarelo era visível. Todos corriam de um lado para o outro como que buscando alguma coisa, mas infrutiferamente, baratas tontas seria uma comparação razoável. Corria o mês de fevereiro e estavam todos no sitio. Pedrinho de férias estava a toda. Lucia (Narizinho) sua prima, que morava no sitio, também corria.  Tia Anastácia, D. Benta, Emília, a boneca falante, todos corriam. Epa! Todos?  Cadê o Visconde?
Esse era o mistério e a causa do alvoroço, o Visconde desaparecera. Já haviam procurado por toda parte, e nada. Pensaram até na policia, em dar parte do desaparecimento, mas como? O delegado Gentil, amigo de D. Benta, conhecia todos e entendia bem o sitio, mas estava de férias. Chamar um investigador qualquer e explicar que um sabugo de milho inteligente e cientista amador havia desaparecido,  e que a boneca falante fora a última a vê-lo, era pedir para que ele chamasse o manicômio de imediato, sem mais conversa.
            Foi a que Emília se lembrou do Prof. Resende, ilustre médico, vizinho, dono do sitio Primavera, e que era conhecido como Dr. Sherlock por causa de suas incríveis deduções. Toda redondeza o conhecia e achava-o muito simpático. Ele comprara o sitio e em vez de mudar o nome para Sitio do Sherlock ou algo parecido, mantivera o nome, mas acrescentara na placa “Dr. Sherlock”.
            Amigo de D. Benta e mais ainda do café e dos bolinhos de tia Anastácia, quando estava no seu sitio gostava de aparecer e, às vezes, ficava até tarde contando casos e como os resolvera ou diagnosticara baseado em fatos e evidências surpreendentes.
— Vamos chamar o Prof. Resende, é nosso amigo e tenho certeza de que ele é capaz de resolver esse caso.
Modernidades havidas Narizinho passou a mão no telefone e ligou para o sitio Primavera. O próprio Prof. Resende atendeu e posto a par do caso, disse que iria de imediato. Dito e feito! Não se passou muito tempo e já se ouvia o som inconfundível de uma charrete e lá estava o professor que adorava andar desse modo quando estava no sitio.
Foi saudado por D. Benta que o chamava sempre de Dr. Luís André e por tia Anastácia, de quem era médico particular,  que chegava da cozinha com seus famosos bolinhos e o café, famoso café, do qual se dizia que não havia outro igual, feito por máquina ou barista. O segredo do café? Não contava nem ao médico, muito menos ao padre, o médico até que merecia, mas como é que ficaria a troca de favores, ele adorava aquele café e ela adorava aquele doutor.
Posto a par do caso o Prof. Resende virou-se para D. Benta e perguntou “cui bono”? D. Benta vendo a curiosidade estampada em todos os rostos foi explicando:
Expressão latina que quer dizer quem lucra? Ou seja, diante de um crime ou um mal feito começa-se a investigação perguntando a quem interessa essa ação, quem lucra com ela. Às vezes é usada a forma “cui prodest” que quer dizer a mesma coisa, mas no latim clássico “cui bono” era a locução empregada. Cícero a usou muitas vezes e atribui sua origem a Lucius Cassius conceituado juiz romano.
Emília que era não somente falante, mas muito inteligente, começou a olhar em volta a procura do Marques de Rabicó. Afinal quem lucraria comendo uma espiga de milho? Um porquinho simpático e gordinho seria um culpado muito presumível. O marquês jurou a mais absoluta inocência e a coisa parecia ir para o caminho da Lava Jato quando o Prof. Resende pediu para dar uma olhada no laboratório do Visconde que ficava no porão.
Foram e não encontraram nada. Anotações, cadernos, bloco com escritos a modo de lembretes, mas nada que denotasse interrupção abrupta, saída forçada, sequestro ou algo semelhante. Se dali saíra era evidente que não o fizera de maneira forçada, provavelmente o fizera como quem vai tomar ar, ou refrescar as ideias ao sol.
O professor pôs-se a pensar, aonde você iria se quisesse espairecer, descontrair? Ora iria visitar a parentalha não é mesmo.
Vamos todos ao milharal! - comandou sem pestanejar e lá foram todos.
Chegando lá deram com a plantação de milho já colhida pela metade, de modo que parte das espigas ainda era visível e lá no meio dos pés de milho, um pé de outra espécie, um sapato do visconde e mais a frente sua inconfundível cartola. Pronto! Parte do mistério estava resolvida. O visconde fora colhido pelo Tio Barnabé junto com as outras espigas secas do milharal.
Agora era ir para o paiol e ver se encontravam o Visconde. Se depararem com quase uma centena de sacos. E agora onde andaria ele? O jeito foi ir revirando saco por saco, já tinham verificado uns vinte  quando no vigésimo primeiro, ouviram lá de dentro a voz inconfundível do Visconde. Aberto, eis que surge o próprio com um ar muito ofendido e vendo ali junto sua cartola e seu sapato, foi se recompondo e saindo.
Todos riam muito, Emília em vez de agradecer ao professor queria que agradecessem a ela, pois fora quem tivera a ideia de chamá-lo. Este trocava olhares cúmplices com D. Benta e sorrindo exclamou:
Não é o caso de cobrar a visita, que é sempre um imenso prazer, mas que eu mereço mais um café com bolinhos, mereço sim!



PIROPOS – GALANTEIOS Oswaldo U. Lopes



PIROPOS – GALANTEIOS
Oswaldo U. Lopes

            Embora pouco usada a palavra piropo existe na língua portuguesa. Frequentemente, no Brasil, usamos seu sinônimo galanteio. No entanto seu uso é comum na Península Ibérica. Em Portugal e Espanha vamos encontra-la amiúde.

            Em Portugal há até uma lei que tipifíca o piropo como crime, o que deu origem a um banner que já virou o mundo:

“Não precisamos de leis contra piropos, precisamos de leis contra corruptos”.

            Mundo pequeno não é! Tais leis seriam muito bem vindas ao nosso país. Entre nós, o galanteio, era até certo ponto usual, mas caiu no vulgar. Os respeitáveis senhores que ficavam à porta da Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro eram famosos e apareceram até em marchinhas de carnaval:

o velho na porta da Colombo, é um assombro”.

            Galanteios modernos existem, o difícil é achá-los de bom gosto:
Gata, meu nome é Arnaldo, mas pode me chamar de Naldo, pois quando eu te vi perdi o ar”.
Os, dos espanhóis são, sem dúvida de melhor qualidade:
Quando te multen por excesso de belleza, yo pagare tu fianza”.

            Aliás na Espanha, em plena Semana Santa, quando sai as ruas a procissão e lá está a Nossa Senhora da Esperança é comum e frequente que se ouçam gritos de:
“Guapa, reina de my corazon!” “Adelante Guapa”.
           
É claro que as madonas espanholas fogem a classificação e ficamos sem saber muito de sua origem e relação com o nome que lhe dão. Vejamos a mais famosa delas, a Virgem da Macarena, a famosa Senhora que mora em Sevilha e costuma sair às ruas na procissão da Semana Santa quando é o amado alvo de inúmeros galanteios. Não só é muito bonita como suas roupas são suntuosas e muito ricas, bordadas em perolas. Tem um rosto sofrido, lágrimas que escorrem e, detalhe, as mãos abertas à frente, sem o menino. É conhecida como Nossa Senhora da Esperança e ninguém sabe por quê.

            Não é exceção, é quase regra. Na cidade de Granada há outra Virgem que também costuma sair na procissão da Semana Santa, que também tem roupas belíssimas e que também é alvo de piropos. Tem os braços na mesma posição da Virgem da Macarena, só que agora é conhecida como Nossa Senhora da Saúde.

            Será que apenas o sexo feminino é alvo de galanteios? Não! As cidades, talvez pela sua condição feminina, ao menos na imaginação, costumam ser galanteadas. Todos nós já ouvimos ou mesmo pronunciamos;

Roma, cidade eterna.
Paris, cidade luz.
Nova Yorque, a que nunca dorme.
Rio de Janeiro, cidade maravilhosa.
São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo.

            Vale dizer que esse galanteio para São Paulo, não mais se usa e os que se lembram dele, gostariam que não tivesse sido. Do Rio de Janeiro tem até marchinha:

“Rio de Janeiro, cidade que nos seduz,
De dia falta água, de noite falta luz.”

            Os espanhóis acham, e aí que lhes dar razão, que o galanteio mais bonito e elegante feito a uma cidade também é deles. A cidade é Granada e o piropo:

“Dale limosna, mujer, que no hay em la vida nada como la pena de ser ciego em Granada”.

            O autor Francisco de Icaza. Mujer, sua esposa, Beatriz de León. Circunstância um passeio que dava por Granada o Senhor Francisco acompanhado de sua mulher Beatriz, quando se depararam com um cego que pedia esmolas.

            Francisco Icaza era mexicano, diplomata e escritor, apaixonou-se pela Espanha e pela Andaluzia em particular, tanto que se casou com Beatriz de León, natural de Granada. Ele escreveu poemas e critica literária. Digamos que ele não era medíocre, escreveu sobre Cervantes e teria um lugar na literatura e na crítica que se não era na primeira fila pelo menos era na plateia. Por conta desse verso, passou à história como quem criou a mais surpreendente homenagem a cidade de Granada. Todos os que conhecem a cidade mouro-espanhola lhe dão razão. A própria cidade lisonjeada pelo galanteio mandou gravá-lo em uma de suas torres.

            Bem, voltemos ao inicio, os galanteios estão totalmente fora de moda e raramente os ouvimos, quando ouvimos são de tipo grosseiro e até selvagem. Como e porque se perderam?

No árduo combate pela sua posição na sociedade, as mulheres passaram a considerá-los como machismo e até como um ato de violência e assédio. A civilização moderna deu-lhes uma posição certamente mais justa, terá, no entanto, tirado certos regalos e privilégios que faziam e fazem  parte inequívoca do gênero? É provável que in  medio virtus como já pensava Aristóteles, mas, num tempo em que é tão difícil alcançar o equilíbrio e onde a violência campeia e por absoluta falta de confiança nos governos e políticos muitos  se dão o direito de proclamar sua individualidade, sem nenhum respeito aos demais, fica difícil o dialogo e a discussão civilizada.

            Que falem as interessadas. As mulheres, vítimas ou eleitas dos galanteios! Que digam o que pensam, já que as cidades, per si, só falam passado muito tempo e em geral com arrependimento, a exceção de Granada que desfruta de tal beleza visual, que ser cego em Granada é ainda das penas mais duras da vida.

            

A PRIMEIRA VEZ QUE O FAVECO VIU A LILI - Jeremias Moreira




A PRIMEIRA VEZ QUE O FAVECO VIU A LILI
Jeremias Moreira

Falante e prestativo, o Silveira era escrevente do Cartório de Notas. O diabo era que possuía a voz em contralto e um repertório de piadas sem graças que subrepujavam seu jeito bonachão fazendo dele um ser enjoativo. Tinha como esposa a Zilu, que com ar entojado formava a parelha ideal para um tipo maçante como ele. Havia ainda a Lisete, ou Lili como era conhecida a filha, resultado perfeito de mistura tão insossa. A Lili tinha lá certa beleza, mas parecia viver encolhida para dentro do corpo de tão insípida e introvertida.

Frontal à casa dos Silveira residia Dona Celina, viúva que cortava um doze para criar os três filhos adolescentes: o Faveco, o Fefeu e a Tatá.

Embora vizinhos, as duas famílias mantinham relações distantes. Dona Celina por seu comportamento discreto e os jovens, por serem descolados e pertencerem a grupos articulados, que Lili apenas sonhava em frequentar. Aliás, a menina nutria uma paixão secreta por Faveco, que sequer a notava.

Ocorre que, em plena maturidade e vigor feminino dos trinta e nove anos, Zilu foi vitima de um tumor maligno, que lhe foi fatal e deixou o Silveira viúvo. Nessas alturas Lili saia, às escondidas, com o Fredão, um tipo meio cafajeste, que era um mestre em fazer explodir a sexualidade feminina. Pelo menos foi o que fez com Lili. Todo recato acumulado durante anos deflagrou num relacionamento tórrido. E não parou por aí. Na sequencia vieram o Fiapo, o Giba, o Dorico e outros, de duração relâmpago de apenas um filme, no escurinho do cinema. E um passava para o outro:
— A Lili, por baixo da carapaça há um furor de mulher. Sabe tudo!
O Silveira vivia enterrado no luto e não tinha a percepção do que acontecia com a filha. Para ele, a dor pela perda de Zilu só atingira a si. E, em casa, a garota continuava com sua existência invisível, como sempre fora.

Meses depois, mais conformado na sua dor, uma manhã, o Silveira saiu de casa no mesmo instante que a vizinha da frente. E, subitamente ele a percebeu com outro olhar. O olhar do macho que fareja a fêmea. E notou nela atributos que nunca vira antes. Celina estava na casa dos quarenta, muito conservada e bem mais bonita, charmosa e sensual que a Zilu.  “Como nunca percebi isso?”

Silveira passou o dia pensando em Dona Celina.

Quase sempre, o chato não tem ciência do ridículo. Assim era o Silveira: um sem noção. À noite bateu na porta da casa da frente e sem rodeios colocou a questão para Celina. Ambos eram viúvos, ela criava os filhos com dificuldade e ele, Silveira, tinha um bom emprego e um bom salário. Um poderia por fim à solidão do outro e se ajudarem mutuamente.

— Que tal se eu atravessar a rua de vez e a gente se casar?
Surpreendida com inesperada ousadia, Celina rechaçou de início, mas depois achou que havia certa objetividade na proposta e prometeu pensar.

Vacilantes, depois indiferentes e por fim de acordo foi como meus irmãos receberam a revelação da minha mãe de que fora pedida em casamento pelo Silveira e que aceitara. Eu me indignei. Protestei, soltei uma montanha de impropérios e avisei que sairia de casa. Mas, ela tinha decidido e não voltaria atrás.

Para deleite das fofoqueiras de plantão, Silveira e Celina casaram-se no mês seguinte! Uma semana antes Faveco partiu para São Paulo. Não assistiu ao casamento da mãe. Terminaria o colegial e faria Administração. Arranjou um emprego numa empresa e foi morar numa pensão.

Quem também não aceitou esse casamento foi a Lili. Sabe-se lá de onde tirou coragem para se colocar contra o pai. O fato é que o enfrentou. Silveira nunca vira essa energia na filha. Tentou de todas as maneiras convencê-la. Ela foi irredutível, exigiu sua parte na herança da mãe e se mandou para Birigui, morar com uma tia.

Incauta, Celina nunca tomara conhecimento do Silveira e ignorava como era inconveniente. Financeiramente a vida melhorara, mas aguentar o novo marido não era tarefa fácil. Nos primeiros meses ela engravidou. Se por um lado foi acidental e indesejado, por outro servia de pretexto para rejeita-lo. Silveira era um touro insaciável. A vida passou a ser quase insuportável. Lamentava não ter ouvido o filho.

Menos de um ano depois de casados, Celina deu a luz ao filho do Silveira. Nem o Faveco, nem a Lili deram o ar da graça.

Mas, a vida é tão surpreendente quanto a ficção! Seis meses depois de ter nascido o filho, Silveira foi vítima de um infarto fulminante e fatal. Celina ficou viúva pela segunda vez. Agora aliviada e herdeira dos bens e da pensão do Silveira. Alguma coisa boa teria que acontecer em sua vida.

A Lili se afastou definitivamente. Sequer foi ao enterro do pai. Agora morava em Bauru onde cursava Direito.
Daquela criatura sorumbática, nada restava. Tornara-se comunicativa, tinha seu grupo de amigos e vivia saindo com rapazes. Dividia um apartamento com outras colegas de faculdade, numa espécie de república.
Uma das garotas a intrigava. Invejava seu jeito liberal. Ela chegava sempre de madrugada e às vezes, um pouco alta. Numa noite Lili a esperou e puxou conversa. Papo vai, papo vem, a garota abriu o jogo: era uma das garotas da Eny. Fazia programa no Bordel da Eny. Assim ganhava a vida e pagava seus estudos.

Fascinada, Lili disse de chofre:
— Amanhã vou com você!

Logo se tornaria a garota numero um da Eny.
No bordel Lili se encontrou. Como mulher e como pessoa. Percebeu que nascera para essa vida. Ali, sentia-se cobiçada e tinha os homens a seus pés. E adorava isso. Dava-lhe prazer dar prazer aos clientes. Nunca dizia não a nada. Satisfazia com maestria aos mais exóticos desejos, por isso era a mais disputada. A Eny adorava, pois a garota lhe gerava uma boa grana.

Faveco se reaproximou da mãe depois da viuvez, mas continuou morando em São Paulo. Formara-se em Administração e fora promovido a diretor.

A filial de Bauru, que atendia as regiões Noroeste e Alta Paulista, era uma das mais rentáveis. Faveco foi visitá-la.
O gerente local se desmanchou em hospitalidade. Se alguém visitasse Bauru, não comesse o famoso sanduiche e não conhecesse o Bordel da Eny equivalia a ir a Roma, não jogar uma moeda na Fontana di Trevi e não ver o Papa. Então, impuseram a Faveco, comer o Bauru de Bauru, no almoço, e visitar o Bordel da Eny, à noite.

O lugar estava animadíssimo e exalava sexualidade. Assim que pisou no salão de festas, apinhado de homens grotescos e mulheres maravilhosas, Faveco entrou no radar de Lili. Ele fora a única grande paixão secreta da sua vida e a última pessoa que ela esperava ver naquele lugar. O garoto que povoara seus sonhos de adolescente entrava onde ela reinava. O que deveria fazer, realizar o sonho ou se vingar?

Impulsiva, deixou a mesa com tanta determinação que surpreendeu as pessoas em volta. Aliás, Lili fazia tanto sucesso que qualquer gesto seu era notado. Caminhou, com o olhar cravado em Faveco, o semblante aguerrido. À medida que avançava as pessoas se afastavam, em silêncio e curiosidade.

O grupo de Faveco notou a aproximação de Lili. Ele achou-a maravilhosa, não a reconheceu. Quando se deu conta de que era o alvo da garota, sentiu palpitação e as pernas bambearem.

Lili o alcançou, percebeu seu embaraço, sorriu e disse irônica:
— E aí Faveco, como tem que ser uma garota pra dançar com você?

Surpreso por ela saber seu nome, deduziu ser pegadinha do pessoal da empresa. Articulado e afiado com as palavras, se recompôs:

— Maravilhosa!
— Eu preencho o requisito?
— Plenamente!
— Então, dança comigo?

Colocou sua mão direita no ombro esquerdo, colou seu corpo ao dele e o deixou sentir toda sua sensualidade. Dançaram! Ele gostou de sentir o corpo da moça colado ao seu, mas alguma coisa o intrigava. Sentia alguma familiaridade na garota, mas não atinava o quê. Súbito ela se afastou:

—  Imagina esta cena: você sai da sua casa, no outro lado da rua há uma menina magrela que te encara ávida de atenção, você fecha o portão e se afasta sem sequer notá-la. Isso te é familiar?

Um filme inteiro passou pela cabeça de Faveco. Ele a olhou melhor:

—  Não é possível! Lili? Você, nesse lugar?
— E você, onde está? Porque você pode estar aqui e eu não?
— Não é isso... é que você era a última pessoa que eu esperava encontrar num lugar assim!
— Qual é o problema com um lugar assim?

Tensa, assim começou nossa conversa. Depois amenizou e tivemos um papo bacana. Falamos de nossos pais, da imponderabilidade daquele casamento. Achei a Lili incrível, mostrou uma capacidade de raciocínio que me surpreendeu e às vezes até me confundiu. A certa altura ela disse: “Aqui, ambos estamos negociando o mesmo produto. A diferença é que você compra e eu vendo!”.

Você acredita que ouvi isso de uma garota que ignorei a vida inteira? Pois é!

No final ficamos bem. Lili teve que voltar para seus clientes e eu, sem clima, fui para o Hotel. Ela ficou de me ligar quando fosse a São Paulo.


Certamente, essa foi a primeira vez que eu vi a Lili!   


Jeremias Moreira

2016 CHEGOU !



FELIZ ANO NOVO!

Que você trace muitas muitas metas.
Que você atinja todas elas.
Que seu corpo seja jovem o suficiente para romper as barreiras do tempo e te levar ao topo do mundo.
Este ano prometa-se muitas jornadas. E vença todas elas.
Estaremos juntos a cada passo. 
Que este ano você conquiste novos sonhos! 
Muitos novos sonhos!


Ana Maria