O RETRATO - Mario Augusto Machado Pinto - CONTO DE FÉRIAS 3




O RETRATO
Mario Augusto Machado Pinto



— ...É como lhe disse: recebi pelo correio ontem à tarde. Estava em meu nome e sem remetente. Veio bem protegida num tubo de papelão. Mas o conteúdo não parece ser para mim. Trata-se de uma pintura estilo renascentista contendo a figura de um jovem usando chapéu e um sobretudo com pelagem na gola, o modelo olhando diretamente para quem está diante da tela.

 Pera aí. Em primeiro lugar: como não consta o nome do remetente? Não passaria pelo funcionário atendente do correio. Em segundo lugar: sei que é sua seara, mas tem certeza que é renascentista? Como reconhece?

— Pelas pinceladas; parecem mistas, com toques da arte flamenga.

 Detalhe o tema. Talvez conheça o motivo e daí poderia chegar ao autor.

— Ele está segurando uma flauta e os dedos posicionados para tocá-la. Há um livro aberto diante dele, e um papel fixado na parede. O homem não sorri, é profundamente sério, mas parece querer dizer algo. Não encontrei a assinatura do autor.

— Procurou bem? Na roupa do retratado? Como é de pessoa vestida poderia estar numa dobra da manga, por exemplo. Por falar nisso: você falou chapéu; não seria um tipo de boina?

— Não está. Sim parece tipo boina. Há uma coisa que me intriga: são sinais desenhados e palavras manuscritas no verso da tela. Suponho tratar-se de algo em código.  Talvez seja alguma informação sobre a obra, ou sobre quem a enviou... Não sei. Precisaria um especialista para decifrá-los?

 Gudrum: não faça nada. Talvez eu possa. Vou praí e decidiremos o que fazer. Tudo bem?

— Tudo. Venha. Tô lhe esperando. Sirvo um licor de tangerina. Té já.

Que coisa mais esquisita! Mais um probleminha pra resolver. Isso sempre acontece com Gudrum.
Ainda bem que não há muito trânsito devido às férias. Com o calor de hoje, nas filas do trafego em dia comum seria suadouro ou batida no vidro da porta do carro e um “passa o tútú aí, ô dotô”.

Gudrum sempre dá atenção: tá na porta e deixou vaga disponível pra estacionar.

— Oi, que calor, hein? Entra, entra.

Após pegar minha maleta de trabalho, entro. Ar condicionado ligado, ambiente acolhedor, estofados, algumas pequenas esculturas pelos móveis da saleta, fotos antigas, peças de coleção de garrafas de cristal, lindas e sem jaça!

— E a tela, onde está?
— Ali no encosto do sofá. Deixa tirar o pano. Pronto! Tá vendo bem?

Não. Não estava. Levantei-me e fui até o sofá.

Peguei a tela, senti seu peso e textura, a pequeníssima aspereza das tintas nas pinceladas. Admirei o trabalho com olhos críticos. Não me era estranha, desconhecida. Virei a tela e vi os tais sinais manuscritos: uma série de pequenos traços feitos com trinta azul como lados de um quadrado; sempre dois traços formando diferentes ângulos e um ponto entre eles. Nenhum formava um quadrado completo. Abaixo deles algumas palavras.

 Gudrum, me dá aquele seu espelho grande. Vamos ver se deciframos o que está escrito.

Não adiantou muito ter colocado o espelho à frente da tela. Inverti a posição. Pedi o “fio da luz” e a lupa grande. Aí deu para ver melhor ficando mais nítidos os tais traços e pontos; várias palavras esmaecidas com escrita interrompida “sugerindo” nomes, algumas letras isoladas e um rabisco. Seria assinatura?

Estava muito difícil decifrar mesmo aplicando as mais diversas tentativas técnicas visuais; não conseguia resultado. Estava limitado, sem aparelhos importantes. De repente, do nada, lembrei-me de Huang Jiang, chinês de Hong Kong, negociante de arte que conheci quando estivemos em Hong Kong no ano passado. Ele talvez pudesse ajudar.

 Gudrum, entra na Internet e vê se consegue o número do fone do Huang Jiang , em Hong Kong.  Lembra-se  dele?  Quando fomos a Dafen, perto de Shenzhen. Liga e me dá o celular que eu falo com ele. Lá, a estas horas, ainda deve estar na galeria de arte.

Conseguido o número, feita e atendida a ligação – maravilhosa Internet - disse meu nome várias vezes, expliquei que era do Brasil e que tinha urgência em falar com Jiang. Alguns segundos e ele atende:

 Hai Jiang, então, como vai? Fazendo muitos negócios?

...

 Lembra-se do nosso encontro quando comprei várias telas para enviar ao Brasil? Pois é. Você nem podia imaginar suas telas por aqui.

...

 Não. Desta vez não é para comprar. Telefono sobre uma tela que representa um jovem tendo nas mãos uma flauta. Numa das paredes tem.....

 ...

 Sim, parece uma partitura.

 ...

— É lembra uma boina.

— ...

— O livro é de poesia? Ahn, letra para cantar com a música. Sei, sei.

- ...

 Deixa ver. É, bem na borda esquerda, no cantinho lá embaixo; tem sim...

 ...

 Então está identificada?  É certeza absoluta?

 ..........

 Não, não duvido, claro. Foi muito fácil, só isso. Manda a conta pro Banco.

 ...

 Assim fica barato. Muito agradecido. Nos vemos. Espero falarmos proximamente. Até logo.

Foi mais fácil do que eu supunha. O cara é o máximo. Sabe tudo. Matou na hora.

 O tema não é da minha preferência, mas tem seu charme. Apesar dos pesares é um belo presente; ninguém sabe quem é o doador. E daí? Tem que ficar. Enfim, na minha avaliação valeu e ficou barato: custou um telefonema internacional.  Além do mais, os chineses pedagogicamente adotam o pensamento de Confúcio, para quem copiar é um exercício de humildade.

 Pois é Gudrum, a tela é a terceira cópia da pintura RETRATO DE HOMEM COM FLAUTA, do artista renascentista italiano Giovanni Girolamo Savoldo, de Brescia, onde nasceu e viveu. Passou alguns anos em Veneza, Milano e casou-se com uma Holandesa  e andou por lá; daí aqueles traços e jogo de luzes que você identificou tão bem. Lamento ser apenas cópia, não um polpudo cheque. Veio e vai ficar de graça. Manda enquadrar.  Na verdade, apesar da incerteza imaginava que a tela seria cópia. Ninguém manda original para alguém via correio e, mais ainda, incógnito. Só se for correio estrangeiro que entrega aqui. Isso mesmo, duvido muito. Mistério! Quer saber? Escolha uma belíssima moldura para enquadrar e coloca na parede acima do parapeito da sua lareira; põe um arranjo de flores bem baixinho. Vai ficar supimpa. Vai dar assunto por muito tempo.

— É. Afobei. Agora, pensando melhor... Se fosse original teria dúvida: ficar com ela ou vender a algum museu. Claro que venderia, mas em leilão. Quer dizer, então, que é copia feita numa daquelas dezenas de oficinas de arte de Dafen? Vou tratar dela com o máximo carinho, como se fosse o original.

— Tudo bem Gudrum, é assim que se fala. E o meu licor?

— De tangerina. Feito em casa.

 Fantástico!
Gudrum sabe o meu gosto e faz muito bem.


Recordando...Vera Lambiasi com seu poema de amor




Há três anos, todas as terças feiras, das 14 às 17 e das 18 às 20 horas, tem encontro de escritores no Departamento Cultural. Somos um grupo que se reúne para escrever sob harmonioso e informal convívio com os colegas.

Embora a Oficina de Textos EscreViver trabalhe a criação de contos, houve momentos de poesia para reflexão sobre a importância do emprego de palavras adequadas no texto.

Numa descontraída aula de iniciação à poesia, os participantes criaram versos divertidos que falavam do amor.
Neste vídeo podemos ver Vera Lambiasi em um ensaio poético, no
mínimo, refinado. 

Poesia de Amor
Vera Lambiasi

Amor rima com flor?
Eu não sei dizer!
O que sinto é uma grande dor
Por não saber o que escrever

Vejo todos criando
Versos encantadores
E eu aqui enrolando
Embaixo dos cobertores

Puta que pariu
Rima com quê?
A classe toda sorriu
Ora bolas, responda você!




O ESTRANHO - Mario Augusto Machado Pinto - CONTO DE FÉRIAS Nº 2


CONTO DE FÉRIAS Nº 2


O ESTRANHO
Mario Augusto Machado Pinto



Era um homem estranho, bem estranho. Não gostava de se avizinhar, não conversava nem cumprimentava; era completamente escuso, e a meu ver, escondia alguma coisa.  Tinha que ser!

Depois de muito tempo de observação, resolvi falar com meus vizinhos sobre ele e minha vontade de ”descobrir” quem de fato era esse homem tão arredio a qualquer contato. Eles também queriam. Disse-lhes, então, que seria o único responsável pela procura e pedi seu apoio e reserva no trato do assunto. Concordaram sem qualquer objeção. Até sorriram e, na gozação, designaram a ação como “O mistério do detetive Bolota”. É que eu sou meio “gordinho”.

Morando só, traduzindo artigos e livros, trabalho em casa, o que me dará liberdade no uso do tempo a dedicar a esse novo “trabalho.” Gosto de “farejar” a vida alheia. Sou como um detetive amador.

O objeto da minha nova investigação, por seu aspecto, dava a impressão de um personagem dos filmes de farwest norte-americanos: chapelão, casaco até os tornozelos, roupa preta, sapatões. Era um uniforme; usava o ano inteiro, no frio ou no calor.

Constatei que era preciso nos horários das coisas que fazia e as repetia diariamente; às vezes saia muito cedo, mas apesar disso tinha hora certa para sair e voltar à casa, para fazer as compras no supermercado, etc. Às vezes ia a uma casa geminada a uma escola infantil; entrava e saia pela mesma porta geralmente após quatro ou cinco horas: teria ali uma garçonnière? Alguma coisa extra, como farmácia, por exemplo, era feita quando da volta. Às quintas feiras chegava de táxi carregando duas enormes sacolonas que levava de volta na segunda feira seguinte, também de táxi. Comprava bastante comida tipo delivery, mas nada de pizza. Escutava música aos domingos pela manhã; dava para ouvir na calçada.

Sabendo do seu horário e comportamento repetitivo, considerei ter chegada a hora de descobrir mais coisas, qual seu trabalho, se tinha alguma distração, enfim, saber o que fazia e gostava.

Sai a campo observando, anotando e imaginando como abordar o tipo. Era necessário, mas meio difícil: não usava qualquer espaço público propicio. Não dava chance.

 Aí, sem me aperceber, aconteceu. Distraí-me,  e o perdi de vista. Andei atarantado ao redor. Estava parado aguardando o sinal para atravessar a rua quando senti uma pancada no ombro, mão firme no braço me empurrando e escutei uma voz impositiva a dizer “Fique quieto. Vamos conversar do outro lado.” Assim, simples. Era ele.

Atravessamos a rua. Colocou-me encostado à parede de um prédio sempre segurando meu braço às costas para não ver seu rosto e disse-me: Não quero mais ser seguido. Isso poderá ser perigoso. Não estou para brincadeiras. Agora, vá. Quase caí com o empurrão. Voltei-me e o vi afastar-se a passos apressados.

Não me conformei com a situação. Queria desvendar esse homem enigma, mas aquela ameaça me fazia temer represálias; afinal, sou sozinho. Valeria a pena? Depois de muito matutar conclui que sim, valia a pena, contudo, todo cuidado seria pouco; para conseguir informações e esclarecimentos seguiria seu programa e trajeto diários. Era melhor desse jeito.

Começaria pela Igreja. Perguntava-me: seria ele tão católico a ponto de frequentá-la todos os dias?  Depois, seria a casa geminada: o que havia e o que fazia lá? Em seguida, a escola. Depois, do que vivia.  Por último, a “visita” à sua casa dependeria das respostas que eu obtivesse dessas questões.

Passou por minha casa; saí em direção à Igreja. Lá chegando fui à Sacristia e ao jovem padre que ali estava apresentei-me e perguntei se poderia falar com ele a respeito de um dos seus fiéis. Antes de responder apresentou-se: “Frei Luiz”. Perguntou-me o porquê do meu interesse.

Não era só meu interesse. Expliquei o que se passava na nossa vizinhança: a presença de um homem de aspecto meio soturno; comportamento diferente, que despertava curiosidade e temor aos vizinhos. Do meu lado questionei a casa, a escola, do que vivia... Essas coisas.

— Posso esclarecer algumas das perguntas, mas não tratarei de outras por serem de sigilo, entende?

Sim, claro. Não queremos entrar na intimidade...

— Não se trata de intimidade. Trata-se de respeitar um ser humano como é. De acordo?

— Sim. Escutarei com todo respeito.

— Pois bem. Todos os dias esse senhor assiste com devoção à missa. Faz sempre a mesma contribuição e procura saber se há paroquianos com necessidades prementes. Se houver, quer saber onde e vai, de livre e espontânea vontade, auxiliar. Sempre encontra solução para os mais variados problemas. Como diz a juventude: não fica ensebando. Não poupa esforços nem recursos.

— Mas, Frei. Onde encontra os recursos para suprir as necessidades?

Vou lhe dizer. Há alguns anos esse senhor ganhou diferentes loterias. Formaram um grande valor.

Em agradecimento à sorte recebida, passou a dedicar sua vida e recursos  àqueles que necessitavam. Ficou viúvo. Mudou-se e fixou-se nesta cidade por achar que aqui poderia ajudar mais pessoas.

Tem sob sua responsabilidade escolas para crianças com câncer, financia pesquisa sobre essa e outras doenças que atingem os pequenos, está construindo um hospital infantil. A casa que lhe preocupa é o seu escritório. Eu ajudo em tudo que posso.

— Ahn, loterias! É raro e espantoso: em vez de gozar das coisas e das pessoas... E como é o seu relacionamento? Ele nos parece muito rigoroso nas próprias coisas e consigo mesmo. É supermetódico. É assim com o senhor?

Sim. Se quiser resultados, precisa ser assim com o dinheiro e com as pessoas. É uma longa estória que vou resumir. Participei e fui presente em tudo que fez e faz, da maior pobreza à riqueza, tive sempre sua constante orientação ética e moral. Tornei-me sacerdote com sua benção. Dou à gente a esperança da conquista pela FÉ. Ele, pelo lado material, busca complementar. Somos unidos na dor e na alegria. Posso dizer sem medo de errar que somos aqueles que fazem, vivem e dão de si. Somos um só, um só.

— Frei, incrível como isso tudo pode agir junto às pessoas, como distribuem o bem, tudo, tudo. Francamente, isso não se vê nos tempos atuais. Vocês são...

Já lhe digo. Agora que sabe, ajude no que puder.

— Ajudarei sim, sim Frei, e...

Somos pai e filho, meu caro. Pai e filho.

Contei aos vizinhos com satisfação e alegria.
Foi emocionante!

Minha vida mudou.


A dos outros... Está mudando.

FORAM TANTAS COINCIDÊNCIAS! - Oswaldo Romano - CONTO DE FÉRIAS Nº 1



CONTO DE FÉRIAS Nº 1

FORAM TANTAS COINCIDÊNCIAS
Oswaldo Romano  

                                                            
        Foram tantas coincidências! Encontramo-nos inúmeras vezes na bilheteria comprando ingressos para os mesmos filmes, nos mesmos horários. Gosto da pipoca doce, não gosto das salgadas. Ela também. Posso dizer que gostamos das mesmas coisas. Na última vez percebi que trocou o número da cadeira, para ficar intencionalmente ao meu lado.

        Ficou fácil a troca de pequenos comentários do filme, entre nós segredados. Eram dados esporádicos, mas tanto eu quanto ela certamente já tínhamos pensado nos próximos passos.

        Na saída, depois de ameaçar despedidas, convidei-a para o Café Turro, que ficava próximo.

        — Nossa! - ela disse - Sempre tive vontade de ir lá. Sou nova na cidade, conheço poucas pessoas...

        — Agora está me conhecendo e certamente será apresentada as minhas amigas e amigos.

No Café ela perguntou:

        — Então... O que foi que você mais gostou do filme?

        — Primeiro foi nosso encontro. Depois, achei que não foi o bom filme, tão elogiado pela mídia.

        — Você percebeu que eu ainda não sei seu nome?

        — Orlando Nunes. Muito prazer dona... – e sorriu para ela.

        — Flávia, Flávia Siqueira... – respondeu sorrindo para Orlando.

        — Essas perguntas sempre iniciam amizades, porque vieram bem depois de nos conhecermos. Seria influência positiva ou negativa.

        — Espero que positiva!  – adiantou.  Nunes, mudou seu dia a dia. Estava se apaixonando. Várias vezes saíram a passeio por São Paulo. Ela, nova na cidade, ouvia atentamente a historia de cada lugar. Ele procurando a mulher assentada para casamento  estava convicto tê-la encontrado. A respeitava, assim como era respeitado.

        O namoro prometia nova vida, um promissor casal.

        Flavia do Rio de Janeiro recebeu a noticia que seu pai estava muito doente. Fez algumas viagens p’ra lá. Não vendo melhoras no pai, percebeu que a mãe iria ficar só. Provavelmente teria que voltar para o Rio.

        Expôs todo problema ao Nunes, e pediu sua compreensão. Iria deixar São Paulo.

        Nunes logo pensou em antes casarem, mas não estava preparado para assumir e manter uma casa. Deixou que Flavia socorresse sua família.

        Durante algum tempo, era constante a correspondência. Mas a preocupação com o pai arrefeceu o constante contato.

        Através um amigo íntimo de Flávia, Nunes iria tomar conhecimento do fim do relacionamento, pois Flávia havia reatado com seu ex-companheiro.

        Nunes o interrompia, tentava mostrar o quanto gostava de Flávia, e que ela lhe dava esperanças de muitas realizações futuras. Com voz embargada, segurando o choro, não esperava e não aceitava essa desilusão. Foi em vão...

        Roberto foi seguro na despedida, pois sua retirada seria a quebra do elo que ainda restava. Não adiantou.

        Depois de amargar seus sentimentos durante uma semana, no sábado retornou  àquele cinema Sentou-se na última cadeira, e o que ele menos viu, foi o filme. Seu desgosto enchia aquela sala.

HIKITA - Mario Augusto Machado Pinto - CONTO DE FÉRIAS Nº 1




 CONTO DE FÉRIAS Nº 1

HIKITA
Mario Augusto Machado Pinto.

A conversa com meu amigo não fluía. Avançava aos solavancos, como aqueles de um auto com motor falhando. Queria que se acalmasse. Escolhendo as palavras, comentei:

— Pelo que vejo,  Kaoro, seus pais têm razão. Você está muito elétrico, cara. Para quê tanta agitação?

A pergunta é outra. Deve ser: por quê.

— Olha, você está assim desde que voltou do Japão. Não dá para entender que seja por dificuldades, não é sua primeira viagem, fala japonês, ademais, eles me contaram que seus negócios com exportadores de lá estão aumentando, grana boa no Banco.

Pois é. Só que houve...

— Não houve terremoto nem tsunami...

Acabe com a brincadeira! A coisa é mais séria do que você pensa. Quer ouvir?

— Claro! Vou ter que preparar meu coração pras coisas que você vai me contar?

Deixa de brincadeira besta e escute. Vou lhe contar o que aconteceu.

Cheguei  esbodegado  em Tokio,  afinal, daqui, mesmo com uma escala, são 24 horas de voo. Terminada a alfandega, comprei passagem direta a Kyoto pelo Shinkansen, “Trem Bala”. Aluguei cadeira de massagem, descansei um pouco e fui para a estação. Tinha esquecido como era giga. Impressionante em tudo. Só para lhe dar uma ideia, você procura no piso a localização do numero do seu vagão, consta no bilhete, senta-se num banco. Aguarda. O trem chega e para com a porta de entrada do  vagão exatamente à sua frente. Daí em diante você habita um mundo diferente do nosso. Entrei em contato com meus clientes,  e depois fiquei sonhando meu encontro com Hikita, a minha querida  deusa-gueixa, a mais disputada de toda Ásia, mas mesmo assim, minha. Chegando a Kyoto fui diretamente ao Gion que desde 656 d.C. é o bairro das Ochaya – casas de chá – e hospedei-me numa pousada discreta na Ishibe – Koji. Depois de instalado fui em direção a  Manami Koji esquina com a Shijo-dori,  com muitas Ochaya e restaurantes frequentados por políticos e milionários que patrocinam suas próprias gueixas. A que eu procurava tinha paredes pintadas de vermelho e era assobradada. As Ochaya ficam no piso superior, todas decoradas com o máximo do oriental simples, estético e funcional.

À porta de entrada da “minha” Ochaya havia um alvoroço enorme de pessoas e policiais. Perguntando sobre o que acontecia me informaram que a celebre Hikita fora assassinada a tiros durante cerimonia do chá na sua ”morada do vazio.” Isso havia acontecido há umas três boras.

Não podia acreditar!

Emocionado e tremulo, pedi e recebi confirmação de um policial.

Fiquei perplexo!

A emoção e a tristeza me fizeram chorar. Não querendo ser notado pela minha aflição, afastei-me rapidamente e, encostado ao pilar que anunciava um bar, fiquei longo tempo olhando o que acontecia no outro lado da rua.

Em minha direção veio um jovem senhor que se apresentou como o Delegado do bairro dizendo que queria levar-me à sala usada por Hikita.  Perguntei por quê. Respondeu que ao iniciar a remoção do corpo, o celular dela caiu do laço da faixa da cintura. Exame corriqueiro das últimas ligações revelou a que fiz de Tokio e, junto, a minha foto.  Daí o interesse do Delegado que me reconheceu e auxiliado pela Policia Técnica escutou a gravação da nossa conversa em que ela se mostra contente com minha vinda e avisando que me receberia logo que eu chegasse.

O que ele queria mesmo era me levar ao local do crime e estudar minha reação ao ver o cenário.

Confesso: ver aquele local que tanto frequentei e as coisas que usei me traziam lembranças alegres, mas que no momento eram minha tortura e sofrimento.  

Indo ao andar superior da ochaya, fomos à morada do vazio da geiko Hikita passando por seu pequeno jardim indutor da tranquilidade que rege toda cerimonia do chá.

Já haviam removido o corpo dela.

Dentro há flores – chabana – algo escrito – chodo - na grafia local: Adocicando o chá com bondade e recebido com gratidão. É um lembrete para os participantes da cerimônia - o fogareiro para aquecer a água e todos os utensílios usados na chanoyu – a cerimonia do chá.

Ao entrar vimos que o piso de tatames estava manchado de sangue. Cada um tem um significado e deve-se neles pisar com muito cuidado. Isso não aconteceu: estavam fora de seus lugares.

O Delegado examinava atentamente os utensílios e sua disposição sobre eles. Comentou:

— A caligrafia chodo nos diz da finalidade da cerimônia. Parece indicar a vontade de apaziguar uma relação entre os participantes. O senhor sabe de alguma relação tumultuosa da geiko Hikita?  Como era a sua?

Sim. Há um aprendiz de Taikomochi ou Hokan; é um rapaz Gei  que aprende a arte do Sha com ela, e que se apaixonou. Ela me contou que suas cenas de ciúmes eram violentas. Hoje seria praticada a última cerimonia. Vê? A echarpe de seda está no chão.  A minha relação era de amizade e intima.

Entendo. Mas, note que aqui parece ter havido discussão e movimento de corpos. Os tatames estão fora de lugar e tortos. Aquele tem uma ponta dobrada. Interessante: eles são a origem das Gueichas, as Geiko, Gueigi.  Pelo jeito das coisas a cerimonia – chanoyu - já estava terminando.

Não sabia dessa origem, mas senhor Delegado, repare nos utensílios. Todos na posição certa menos a colher de bambu para colher o chá. Eu sei. Hikita tinha gesto peculiar para o ato: o braço sempre estendido em todo seu comprimento.

— Notei e é importante - Aponta à frente - É como estaria um braço levantado para proteção.  Ao ser atingido, o corpo caiu para trás. Isso se explica pelo tiro dado de frente e próximo ao alvo, a cabeça.

O Delegado comentou mais algumas coisas e me liberou pedindo que ficasse mais três dias em Kyoto. Se necessário me chamaria na pousada em que me hospedava. Após três dias nada acontecendo estaria livre para seguir com minha agenda e sair do Japão.

Descemos.  Agradeci e voltei à pousada para chorar minhas mágoas. Na verdade, chorei.

Durante quatro dias tratei dos meus assuntos comerciais. Não fui procurado, fui a Osaka, voltei a Tokio por mais dois, e retornei aqui para casa. Ontem meu correspondente em Kyoto me passou e-mail avisando que o Taikomochi cometeu suicídio no mesmo dia em que matou Hikita,  e deixou um bilhete dizendo que não poderia dividir Hikita com ninguém. Iriam se encontrar para sempre na tranquilidade celestial. Como é que nada soube na ocasião? Até a Policia é discreta.

— Kaoro, meu velho, não há nada contra você nem razão para receios, preocupações e agitação nervosa. Você é jovem, isso passa. Logo, logo você arranja outra geiko. Pode ter certeza.

Verdade, nada contra. Só que nunca mais vou ouvir falar e ver a minha Hikita. Isto não passa logo e não me dá sossego. Entendeu agora? Sei que vai levar tempo.

— Tá certo. Vamos começar a matar as mágoas e ganhar tempo. Que tal irmos a um restaurante na Liberdade comer uns sushi e tomar uns goles de saquê? Vamos? Vai ajudar. O.K.?

O.K.

E lá fomos pelo metro.






Fontes de consulta:
- Guimarâes, Hanny: Um encontro com o chá.  
- O Chá na Chanoyu.
- www.culturajaponesa.com.br          

- Google.

ACORDO ORTOGRÁFICO - MUDANÇAS NA LÍNGUA


Mudanças na língua

As novas regras ortográficas serão obrigatórias em 2016.


1 Acento agudo

- Deixa de existir nos ditongos (encontro de duas vogais em uma só sílaba) abertos "ei" e "oi" das palavras paroxítonas (que têm a penúltima sílaba pronunciada com mais intensidade).

heróico   heroico

assembléia   assembleia


Observação: as oxítonas (com acento na última sílaba) e os monossílabos tônicos terminados em "éi", "éu" e "ói", no singural e plural (anéis, chapéu e herói) continuam com acento.

- Desaparece nas paroxítonas com "i" e "u" tônicos que formam hiato (sequência de duas vogais que pertencem a sílabas diferentes) com a vogal anterior, que, por sua vez, faz parte de um ditongo.

feiúra   feiura

Observação: as vogais "i" e "u" continuam a ser acentuadas se formarem hiato, mas estiverem sozinhas na sílaba ou seguidas de "s" (baú e baús) ou, em oxítonas, se forem precedidas de ditongo e estiverem no fim da palavra (tuiuiú).

2 Trema

- É eliminado, mas a pronúncia continua a mesma.

tranqüilo   tranquilo

freqüente   frequente


Observação: o sinal foi mantido em nomes próprios de origem estrangeira, bem como em seus derivados (como em Müller e mülleriano).

3 Acento circunflexo

- Não é mais usado nas palavras terminadas em "oo".

enjôo   enjoo

- Também desaparece o circunflexo na conjugação da terceira pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos crer, ler, ver e derivados.

lêem   leem

Observação: nada muda na acentuação dos verbos ter e vir e dos seus derivados.

4 Acento diferencial

- Nos casos abaixo, não é mais usado para facilitar a identificação de palavras homófonas, ou seja, que têm a mesma pronúncia.

pára (forma verbal) e para (preposição)

pelo (preposição + "o") e pêlo (substantivo)

Observação: duas palavras continuarão recebendo o acento diferencial:

Pôr (verbo) mantém o circunflexo para que não seja confundido com a preposição por.

Pôde (verbo conjugado no passado) também mantém o acento para que não haja confusão com pode (o mesmo verbo no presente).

5 Hífen

- Deixa de ser empregado quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com as consoantes "s" ou "r". A consoante, então, passa a ser duplicada.

anti-religioso   antirreligioso

- Caiu nos casos em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com outra.

auto-estrada   autoestrada

Observação: ele se mantém quando o prefixo termina com "r" e o segundo elemento começa com a mesma letra, como em super-resistente.