O presente - Luisa Helena R. Alves


O presente
Luisa Helena R. Alves

Marilia estava muito feliz! Afinal no seu aniversário de 50 anos estava bem magra,  com sua pele morena escondendo pequenas rugas, um sorriso claro e com sinais de bem cuidado. Arrumava a casa para receber os amigos á noite. Cada coisa em seu devido lugar: os copos de cristal para o vinho, os pratos belgas que só usava em ocasiões especiais. Flores lindas e devidamente mergulhadas em vasos  adequados perfumavam a sala. Os talheres de prata luzindo.

Olhou com orgulho para suas mãos esmaltadas de um vermelho intenso, como seu marido adorava. Em seu dedo anular brilhava  uma pedra branca num lindo anel recebido de seu parceiro de há 25 anos. Seu olhar amoroso pousou num porta retrato que mostrava o casal no dia de seu casamento. Nisso viu no sofá da sala a maleta que Antônio levava todos os dias para seu escritório. Advogado bem sucedido trabalhava em um grande escritório. Será que vai precisar de alguma coisa da valise? – pensou de súbito. Abriu-a para verificar, e no meio dos papéis uma pequena bolsa de feltro igual a que embalara seu anel maravilhoso. Sem parar para pensar, abriu e viu outro anel igual ao seu. Poderia ser outro presente para abrir à noite em meio ao brinde? Mas, súbita desconfiança assomou sua mente, já incendiada pelo fogo do ciúme: Quem poderia receber um anel igual ao dela? Mentalmente passava por todas as figuras femininas que conhecia de outras festas. Havia várias moças, inclusive recém-formadas, lindas e mais jovens que ela.

Passeava com o pacotinho que lhe queimava os dedos como uma bomba, prestes a estourar! Uma ira violenta estava assumindo o seu peito, e assustada ela pensou em atirar o pacote no rosto de Antônio, mal entrasse pela porta com seu sorriso sedutor.

Jamais sentira ciúmes, pois era eternamente elogiada por ele, mantendo sua autoestima bem elevada. Andava para cá e para lá, tentando se acalmar. Rememorava todos os anos de convivência e vê Antônio  subindo na carreira,  e cada vez mais comprometido com reuniões e jantares .

Será que vale à pena estragar tudo?

Ligou para a loja e pede para trocar o anel por outra joia. Mandou a maleta sem o pacote para o escritório. E foi trocar o anel por um valioso colar.

Na hora da festa estava linda. O marido não ousava perguntar do anel. Para bom entendedor, o silêncio só já basta...

Marilia conversou com todo mundo e sorriu exibindo as joias que ganhou do marido.
Ele de sorriso amarelo, concordava com todos e acrescentava:

Marilia, além de bonita é muito inteligente!
Daí em diante tornou-se mais cuidadoso, chegava mais cedo em casa.


Vai que ela queira lhe dar o troco!

A MISSÃO - Suzana da Cunha Lima



A MISSÃO
Suzana da Cunha Lima

Amor querido...

Nunca pensei que isso fosse  acontecer conosco, um dia.  Era tanto carinho, tanta alegria quando estávamos juntos... Lembro-me do contentamento que sentíamos nas menores coisas que fazíamos: no espaguete que cozinhou demais, no quarto que pintamos de amarelo, nos banhos de rio onde brincávamos pelados, às gargalhadas, como crianças.  Daquela praia deserta onde rolávamos nus, fazendo amor,  cobertos pelo banho de prata de uma esplêndida lua alcoviteira.

Eu vivia suspensa na vida, como se não tivesse mais peso e nada me afetava, nada me irritava nem me afligia. Você ocupava meus espaços com pura felicidade.

Até que um dia você me deixou.  Assim, do nada, sem motivo, briga ou desavença. Simplesmente foi-se embora, sem explicações, queixas ou remorsos.

Apenas me agradeceu pelos bons tempos que havíamos desfrutado, afirmando que eu havia sido um raio de luz em sua vida conturbada.  Mas que, daquele momento em diante, tinha que voltar para sua missão.

Que missão seria esta? Que vida conturbada? Quão poderoso era este apelo que o afastava de mim, talvez para sempre? Eu perguntava quase histérica ao lhe ver pegar a mochila e se dirigir para a porta.  

Mas você nada respondeu, apenas sorriu meio triste e me mandou um beijo com as pontas dos dedos. E eu fiquei ali, como um trapo, uma coisa qualquer que não tem mais serventia, olhando para aquela porta que se fechava à minha frente.


Dias depois,  ainda totalmente desorientada por tamanha dor, vi espantada, num jornal, sua foto, na primeira página. Coberto de sangue e ainda segurando o fuzil, morto no chão poeirento da Palestina.

Pertencia a uma família quatrocentona - Fernando Braga


Pertencia a uma família quatrocentona
Fernando Braga

É preciso, inicialmente, definir o que se considera como uma família quatrocentona. Mesmo com toda a globalização, crescimento das cidades, cosmopolismo, o termo quatrocentão conserva o significado de cidadão pertencente a uma família antiga, tradicional e rica ou poderosa, membros de uma elite econômica. Teoricamente, eram descendentes de portugueses que vieram para o Brasil no século XVI, muitos fugindo da Santa Inquisição, alguns fidalgos. Alguns se casaram com índias, como João Ramalho, que se casou com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, e seus descendentes mestiços se entrelaçaram com as famílias luso brasileiras de São Paulo. Têm uma história de quatrocentos anos. O termo se presta também para referir-se a numerosas famílias paulistas, que em 25 de janeiro de 1954, comemoram a data do quarto centenário da cidade de São Paulo, sentindo-se como fundadores e responsáveis pelo desenvolvimento da capital paulista. Muitos eram donos de imensas áreas no estado e literalmente de cidades inteiras. Essas famílias traziam títulos honoríficos da época do império (barões, marqueses, condes, viscondes) e mesmo títulos conferidos pelo Vaticano, por obras de benemerência. Barões do café, grandes proprietários de fazendas, com o apogeu na república velha, até 1930, dominavam o sistema bancário, moravam em mansões com arquitetura tipo parisiense na Avenida Paulista, Angélica e depois no Jardim América, com tradição de enterrar seus mortos em mausoléus familiares no Cemitério da Consolação, com arte sacra. Contudo, muitos deles perderam toda ou parte de suas fortunas em 1929, com o chamado “cracking” do café, mas mantiveram o status. Consideravam-se diferentes dos chamados “nouveau riches”, imigrantes europeus que vieram pobres e tornaram-se também muito ricos.

Bem, agora quero contar a história de José Roberto Q.B, mais conhecido como JR,  assim chamado por seus colegas de uma faculdade médica, na década de 60. Sentia-se especial, pois havia passado brilhantemente no exame vestibular, considerava-se bonito, era rico, nascido no seio de uma família quatrocentona, onde era o primogênito, vestia-se bem e seu carro era o Chevrolet 63, último ano. 

Morava em uma mansão no Jardim América, com chofer particular, mordomo e seus fins de semana passava, frequentemente, em Santos, onde tinha, naquela época um iate. Frequentava as aulas, mas não era de estudar com assiduidade, algumas tardes ia para a Rua Barão de Itapetininga apreciar o “footing” onde encontrava sempre com o  amigo  Mauro Ramos, jogador do São Paulo e da seleção brasileira. 

Na Escola, tinha apenas dois ou três amigos, também abonados, que tinham carro. Não praticava esportes e sempre preferia estar sozinho “a mal acompanhado”. Sentia-se e se comportava como um quatrocentão, um “dandy”. Falava sempre de sua família, de seu relacionamento com pessoas e famílias importantes, e quando podia, não perdia a chance de menosprezar alguns colegas menos favorecidos. 

A maioria dos professores o conhecia como o famoso JRQB, que dizia querer ser um famoso cirurgião plástico. Veio a graduação e quando recebeu o “cartucho” das mãos do diretor da faculdade, os membros de sua família lá estavam, para aplaudirem-no, freneticamente. Afinal, um fato importante, pois era o primeiro da família dos QB a receber o diploma de médico. A comemoração se deu no dia seguinte, em sua mansão. A festa saiu na mídia, que chamou a atenção para a riqueza e detalhes do evento , mas apenas três colegas e dois professores participaram dela.

 Passaram-se alguns anos e sabia-se que ele trabalhava com um famoso cirurgião plástico, professor da faculdade, também quatrocentão. Estava noivo, programando seu casamento com uma linda moça, também de ilustre família, quando a vida lhe preparou uma cilada.

 Um dia acordou e ao se olhar no espelhou observou que suas pálpebras estavam muito inchadas, assim como seu rosto. Ao urinar percebeu que saiu pouca quantidade, o que já havia notado antes. Logo apareceram os outros sintomas. Foi procurar um colega que, facilmente, após exames, diagnosticou uremia e insuficiência renal aguda. Teve que fazer diálise, mas uma insuficiência renal crônica, com falência total dos rins, se instalou.

 Já havia começado a fase dos transplantes, mas o difícil era conseguir o doador, pois a fila era enorme e nem o dinheiro resolvia. Tinha dois irmãos que se prontificaram a doar um de seus rins, com a vantagem de ser um doador da família, com menor possibilidade de rejeição.

 Ocorreu então algo inesperado. Os seus pais agora já idosos, proibiram qualquer irmão doasse o seu rim. JR não entendeu. Perguntava aos pais:

— Por que eles não podem me doar um dos rins? Como irmão, é mais difícil a rejeição, nos afirmou o especialista. Os pais continuaram negando, mas não explicavam nada.

 JR tornou-se muito agressivo, descompensado, agitado como nunca estivera antes.

Um dia, vendo a situação psicológica dele se agravar, uma tia idosa, aproximou-se dele e disse:

— Seus pais têm razão em um ponto importante. Eles nunca tiveram coragem de lhe falar, mas você é filho adotivo, pego para criar com alguns meses de idade. Sua mãe era uma empregada da família, que se tornou mãe solteira e não tinha condições para cria-lo. Ela morreu faz alguns anos. Somente alguns membros de nossa família conhecem este fato, mas tive que lhe contar, porque não sendo da mesma família, o risco de rejeição renal é grande. Ouvindo tudo isto, JR ficou imóvel, mais pálido do que já estava e apenas bradou:

— Mas, por que eles não me contaram a verdade? Porque fui enganado toda a minha vida? Isto não se faz. Me fizeram de idiota e até me diziam que eu era quatrocentão! Na realidade, sou um verdadeiro bosta.

 Sua tia saiu, ele trancou a porta do quarto, não quis falar com mais ninguém. No dia seguinte saiu cedo, comprou um mata rato e ao chegar em casa, tomou-o junto com refrigerante.

 Teve um enterro de quatrocentão, no Cemitério da Consolação, no mausoléu da família QB.

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 6/6 - Tema: Narrador - Testemunha

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 5/6 - Tema: Narrador - Protagonista

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 4/6 - Tema: Narrador - Câmera

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 3/6 - Tema: Narrador - Onipresente

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 2/6 - Tema: Ângulo emocional do ob...

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 1/6 - Tema: Foco narrativo na lite...

Vídeo aula com o autor Pedro Bandeira 1/6 - Tema: Foco narrativo na lite...

Escrever É apenas narrar?

AMANTES 2 - Carlos Cedano


 
AMANTES 2
Carlos Cedano

Raul chega da viagem de madrugada e cansado, vai diretamente pra a cama. Sua mulher Salomé levanta cedo, com cuidado abre as malas e retira a roupa pra lavar e passar. Também encontra duas caixas pequenas de presentes. Logo desce e pede para empregada preparar um almoço caprichado.

Às quatorze horas Raul desce e deixa os presentes sobre uma estante na sala. Abraça sua esposa, beija-a e logo exclama:

- Que cheiro maravilhoso Salomé! Só você para uma surpresa como essa e com meus pratos preferidos!

Sentam-se,  e Salomé pergunta:

- Como foi sua viagem meu amor, conta pra mim!

- Você sabe querida, viajar com Nicanor é sempre trabalho de doze horas diárias diretas. Ele é um workholic, vive só pra trabalhar, não pensa em outra coisa! A Carol, sua mulher, que também é uma chata, merece esse marido. Foram feitos um para o outro!

- Vejo que você trouxe dois presentes. São pra mim?

- O grande é seu presente de aniversário, é o perfume que você pediu.

- E o outro, é pra quem?

- O outro é um pedido do Nicanor para entrega-lo à pessoa que virá aqui na nossa casa para retira-lo. Caso eu não estiver, você o entrega para a pessoa sem perguntas, tá?

- De acordo meu amor. Posso te perguntar, é para a mulher dele?

- Com certeza não! A mulher dele chegou à Nova Iorque o dia que eu voltava para o Brasil e ele já tinha me entregado o presente bem fechadinho. Ele e sua família vão ficar de férias durante três semanas.

- Então é pra a amante dele!

- Acredito que sim. Porem ele é muito cuidadoso e desconfiado. Fico contente ter-me solicitado esse favor. Parece que confia em mim!

No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, Raul pergunta pra Salomé:

- Amor, depois de amanhã é teu aniversário penso reservar uma mesa naquele restaurante francês que você adorou, concorda?

- Com certeza Raul, será um jantar e tanto.

Apenas a porta da rua se fechou Salomé correu, pegou o pequeno embrulho e o abriu. Era um pingente de ouro que, além de maravilhoso, apresentava características de uma obra de arte. Acompanhava o pingente um cartão com uma breve mensagem:

Salomé meu amor:
Este foi o caminho mais seguro que achei pra te enviar esta pequena lembrança para que possas usa-la no dia de teu aniversário. Estou com saudades de teu carinho, paixão!
Nicanor

No dia do aniversário, Salomé e Raul estavam sentados num canto discreto e romântico do bistrô quando Raul sussurrou para a esposa:

- Você está uma Deusa! Você escolheu direitinho o perfume e esse pingente te deixa radiante. Nunca o tinha visto antes!

- O perfume é o que pedi a você e o pingente é um presente que eu me dei. Queria agradar você!

- Você conseguiu, sem dúvida, meu bem!


O casal levantou seus copos, brindaram e beberam delicadamente a champanhe com sorrisos de felicidade em quanto as luzes foram diminuindo aos poucos até atingir a penumbra total.

Ocorrido, que não foi esquecido - Fernando Braga

        


        Ocorrido, que não foi esquecido
Fernando Braga

Romano era um jovem, estudante de faculdade e tinha uma Bel-air 51, verde. Combinou com um amigo para passar os dias carnavalesco em sua cidade natal, no interior paulista. Era quinta -feira e saíram pela via Anhanguera no início da tarde. Após Campinas, a estrada era de terra, com pista única, e no caminho, o amigo Jorge perguntou:- você não quer dar uma paradinha em São Carlos?

-Tenho uma tia, irmã e minha mãe e meu tio, que aí moram e faz tempo que não os vejo. Podíamos filar uma boia, dormir em um hotel e amanhã cedo prosseguir! O tempo estava chuvoso, ia escurecer, e Romano achou a ideia boa.

Ao ver Jorge, sua tia Alice, demonstrou uma satisfação enorme, dizendo:
-que maravilha vocês aqui, vamos entrar para ver seu tio. A recepção foi realmente muito calorosa e sincera.

:- Temos muito o que conversar, pois faz muito tempo que não nos vemos. Logo foram convidados para ficarem para o jantar e por que não, dormirem lá, quando havia um quarto vago, com duas camas, reservado para estas ocasiões tão especiais. Trocaram olhares e logo, aceitaram a boa ideia. Deram um tapa em duas Antárticas, estupidamente geladas e logo após, sentaram-se à mesa, com uma fome leonina. O apetite e a salivação, vieram à tona pelo cheiro da comida.

 Eis que surge dona Alice, carregando uma travessa de macarronada, seguida por sua empregada Vilma, trazendo a carne de panela. Parece até que tinham adivinhado a chegada deles.

Mas, o que, realmente, mais impressionou não foi o excelente jantar, foi Vilma. Morena faceira, linda, cabelos negros, olhos amendoados e corpo de manequim. Romano não conseguia tirar os olhos dela e todos perceberam. Ela, por sua vez, olhava de esguelha, com um leve sorriso cativante e maroto. Foram para a sala de visita para o cafezinho, e logo Romano aproveitou para ir até o banheiro e para dar uma escapada até a cozinha. Falou gentilmente com Vilma e a convidou-a para irem ao cinema, ou para darem uma voltinha. Ela respondeu:

- eu aceito, mas apenas com a autorização de dona Elisa! Eu moro aqui e só saio com permissão dela.

 Esperou um momento mais propício, se aproximou e pediu:

-a senhora se importa se eu e Vilma dermos uma voltinha? Afinal de contas é carnaval! Ela autorizou.

Enquanto Jorge ficava com seus tios, matando a saudade, saíram de carro, música suave e logo pararam para o primeiro beijo.Com o tempo chuvoso, preferiram permanecer no interior do carro em um local ermo! Naquela época não havia perigo. Muita afeição, muito carinho e retornaram após umas 3 horas. Na manhã seguinte saíram cedo, em direção ao objetivo.

Uns três meses após, Romano recebeu um telefonema de Vilma, que dizia ter vindo para São Paulo passar uns dias, em casa de sua tia. Saíram várias vezes, ela se aproveitando dele e ele dela! Perderam o contato um do outro, não saberem definir o porquê. O tempo passou, Romano se casou, vieram os filhos, viajou estagiar fora e continuou a exercer com afinco minha profissão.

 Decorridos uns vinte anos, estava em seu consultório quando entrou a secretária dizendo:

- doutor, está aí uma moça, que diz lhe conhecer e que gostaria de revê-lo.
-Quem será, perguntou ele, não disse o nome?
-Perguntei a ela, mas disse querer fazer uma surpresa.
-Mande-a entrar, disse ele.
Entrou uma bela senhora, de uns 40 anos, muito bonita, bem cuidada, em um charmoso vestido de seda, discretamente colorido, perfumada e após lhe dar um longo abraço, perguntou:- lembras-te de mim, eu sou a Vilma, que você conheceu há cerca de 20 anos. Ficou olhando-a por alguns instantes e disse:

- Que prazer em revê-la Vilma, como você está e continua bonita, que elegância, que charme. Vamos sentar e me conte de sua vida. Ela começou assim:

-Vim a este prédio consultar o meu ginecologista, o que faço todo ano e por surpresa, vi, por  coincidência, no quadro da entrada, o seu nome, nome que sempre guardei com muita afeição, carinho e amor.

-Minha vida? Vou ser breve. Após alguns anos, decidi vir para São Paulo, onde encontrei meu marido, um advogado com ótima clientela, que penso, por algum motivo, se apaixonou por mim. Hoje moro no Morumbi, tenho três filhos, bem crescidos, carro com chofer e minha vida está, como pedi a Deus. Meu marido é ótimo, sob todos os pontos de vista, mas confesso que você foi o meu primeiro amor e nunca o esqueci. Sempre falava de você, mesmo para meu marido, que tornou-se ciumento. Fiz análise e consegui vencer minha insegurança. Este encontro me fará um bem indescritível, pois estou encerrando agora, neste momento, um ciclo da minha vida, do qual nunca me havia me libertado, completamente.

-Hoje mesmo, chegando em casa, quero sentar e conversar com meu marido, contar-lhe este nosso encontro fortuito, dizer quanto  amo a ele e encerrar de vez, esta fase, que agora pertence ao passado! Adeus!
 
 Após um abraço apertado, carinhoso, ela saiu, sem olhar para trás. Romano confessou que ficou muito contente com esta visita e muito feliz por rever aquela linda dama, bem vitoriosa.

Chegando em casa, Romano sentou-se com sua mulher e contou-lhe todo o ocorrido, desde o início da história. Ela comentou:

-Gostei e mais uma vez, você demonstrou que me ama! Ela também tinha feito análise!

 Vai entender as mulheres!


AMANTES 1 - Carlos Cedano

 
  
AMANTES 1
Carlos Cedano

- Marisa! Você sempre me pede alguma coisa justamente no momento que estou saindo para trabalhar. Já estou atrasado e tenho uma reunião urgente com meu diretor!

- Sinto muito meu bem, dormi mal essa noite e não poderei levar nosso filho à escola, você poderia fazer esse favorzinho pra mim?

- Tá bem, o Pedrinho já está pronto?

- Acho que sim, é só preguntar para a empregada.

Sai o marido à procura do filho e volta quase que imediatamente e berra pra a mulher:

- Tá pronto nada!  Não encontrei nem o Pedrinho nem a empregada. Você sabe onde eles estão?

- Não meu bem! – ainda sonolenta e confusa - Procura com calma devem estar em outro cómodo.

- Você está querendo estragar meu dia né mulher?

- Deixa! Eu vou ver! Você é um inútil Vitor! Disse a mulher com raiva e levantando a voz.

A esposa sai, logo volta e fala:

- Desculpa, agora lembrei que hoje é feriado e ontem pedi pra minha mãe vir e pegar o Pedrinho e leva-lo pra casa dela. Também aproveitei para liberar a empregada que tinha pedido o dia de folga.

- Pô, mulher! Só agora que você se lembrou de dizer-me que hoje é feriado escolar? Vou chegar atrasado pelo teu esquecimento!

- Não querido, você esquece que o feriado de hoje é nacional! Acho difícil que tua repartição pública trabalhe! Respondeu a esposa com um sorriso irónico.

- Que está insinuando Marisa?

- Nada meu bem, mas se você, por acaso, encontrar a Beatriz, manda um carinho pra ela de minha parte tá?

O marido sai batendo fortemente a porta.  

Marisa liga pra sua mãe:

- Mãe?

- Sim minha filha, e você com Vitor, tudo bem?

- Tudo bem comigo, quanto a ele, foi se encontrar com sua amante!

- E você vai encontrar-se com o seu?

- Sim, mãe! Vou encontra-lo esta tarde. Você pode ficar com Pedrinho pra mim?

- Certamente minha filha!

- Obrigada minha mãe, passarei às oito da noite pra pega-lo.

- O que você vai dizer pra o Vitor quando se encontrarem em casa?

-O de sempre mãe, que precisei fazer compras com umas amigas!

- Minha filha! Ele pode reagir mal.

 Não minha mãe! Já estamos naquela fase de: “me engana que eu gosto” e é recíproco! Até mais tarde mãe, te amo muito!



Fecham-se as cortinas.

PERSEGUIDAS.- Mario Augusto Machado Pinto.



PERSEGUIDAS.
Mario Augusto Machado Pinto.

PERSEGUIDAS 
Mario Augusto Machado Pinto

O transito desta cidade está ficando sem jeito. Que coisa mais chata ficar olhando as pessoas dentro dos carros em volta. É o que pensa e sente Luiz. Neste horário os companheiros são quase sempre os mesmos. Alguns ficam à frente, outros atrás e aos lados. Vidros levantados, ar frio ligado, GPS, musica acompanhada por alguns. Verdadeira sala de espera de corpos encerrados dentro de um ar-quário blindado com rostos mostrando feições preocupadas, alegres, tristes, risonhas. É um verdadeiro mundo aparte propiciando pensar irado, contente, triste ou alegre relembrando o que aconteceu e fez durante o dia. É o que sucede com ele neste instante: lembra-se dos momentos – horas – que passou no apartamento da Chantal. Fica excitado só de pensar no complemento de suas pernas cor de jambo, seus movimentos, olhares, respiração, suas palavras... Buzina, buzina... Ah, é pra mim, oi, desculpe, estava distraído. “Acorda! Pensando na morte da bezerra?” Tá vendo só, amendoinzinho pralinê, não me leve a mal, mas você é... É mesmo muito legal além de muito gostosa. 

Ao chegar à casa, Luiz fica algum tempo dentro do carro pra dispersar os maus eflúvios e descarregar os maus espíritos, diz ele, e subir pra se encontrar com Lali risonho e contente da vida.

Abre e fecha a porta da entrada, chama Lali, avisa “Cheguei”, sobe a escada, entra no seu quarto e a ouve avisar que está no banho, na banheira e com a porta trancada. 

Bom, responde, vou trocar de roupa e passear com a Lu. Tudo Bem?
— Tudo, mas não demora. Tenho surpresinhas.

Desce, sai, faz um passeio rápido com a Lu, encontra uns amigos, joga conversa fora e volta à casa espicaçado pela curiosidade desperta pelo “surpresinhas”.

Luiz abre a porta, entra no quarto, vê Lali – meu Deus do Céu! – esta mulher é o máximo - e pergunta:

— Oi, tudo bem?

Lali responde com voz rouca, meio dolente:

—  Tudo. E você?

— Também.

Senta-se numa poltrona largando o corpo, comentando:

— Passear com a Lu não é brinquedo. Fiquei cansado.

— Ela não vem pra cá?

— Não, não vem. Desmaiou lá embaixo. Sabe, encontrei a turminha que fica na calçada em frente à frutaria, aquele pessoal que o Oswaldo frequenta. Estavam às gargalhadas. “Vem cá, Luiz. Vem ouvir as últimas piadinhas”. Fui meio ressabiado. As piadinhas deles são horrorosas, geralmente sem graça apesar dos duplos sentidos, etc. Eles estavam contando piadas de portuguesa, sim, de loira portuguesa, imagina só!

Escuta esta: Loira portuguesa vai almoçar num restaurante e à saída o manobrista lhe diz:

O CELTA preto? A loira portuguesa responde: Tá sim... E, acho que vai chover!
E esta outra, então:

A loira portuguesa entra na farmácia segurando ao colo um bebê e pergunta ao balconista se pode usar a balança para pesar o bebê.
Responde o atendente: Lamento minha senhora, a balança está a concertar, mas podemos calcular o peso do nenê se pesarmos a mãe e ele juntos na balança de adultos. Ao despois pesamos a mãe sozinha e subtraímos o segundo valor do primeiro.

— Ah! Isso não vai dar certo, a loira responde.

— Por que não?

— Porque eu não sou a mãe. Sou a tia!

— Não achei graça nenhuma, são ridículas! - comenta Lali.

Luiz percebe tom ríspido e ansioso na voz de Lali.

— Lali, o que há? Você  parece ansiosa, preocupada.

— Sim, um pouco ansiosa, mas estou mesmo é invocada com o que você anda fazendo.

— O que, por exemplo?

— Você tá fazendo coisa errada com alguém.

— Ora Lali, não recomeça...

— É verdade. Não negue! Você tá fazendo e sei que continua sempre culpando uma nova perseguida. A galinha do vizinho...

— Não tem nada disso!

— Tem. Olha aqui. Prá quem é este presente? Não é pra mim, não me chamo Mina que por sinal é o nome de uma de suas secretárias. Aliás, você só precisa de uma, mas tem três e as troca mais do que troca de camisa.  Cansou da perseguida, troca, troca uma, troca outra e troca... Ficar com uma só até que eu poderia fechar um olho e entender, mas três! É verdadeiro rodizio secretarial. Taí, você inventou mais uma, rodizio...

Intimamente Lali, está satisfeita. Armou as coisas como queria e Luiz acusou o golpe! Pensa: vai fingir de zangado e negar tudo e eu vou ganhar um belo presente, tenho certeza!

Luiz, com a consciência pesada não quer demostrar fraqueza e fala zangado:

— Como é que você mexe nas minhas coisas! Era para ser surpresa! É presente pra você, pelos nossos 15 anos de casados. Encomendei adiantado! Não era pra você saber! Mandei a Neuza buscar na loja e lá se esqueceram de tirar a etiqueta com o nome dela. Leia o Cartão...

— Não vou ler! Não acredito! Você não muda - responde Lali que faz seu conhecido trejeito de suprema irritação e balbucia palavras desconexas, mexendo os braços ameaçando atingir o peito de Luiz.

Luiz sabe que vem tempestade. Ela não está pra brincadeirinhas. A ocasião requer rapidez de ação para desviar a atenção da queixa. Não deixa Lali terminar a frase. Joga-se e abraça as pernas dela deitada que está no divã como a Maja Desnuda, de Goya, fazendo de contas que não quer proximidade. Resiste ao abraço, beijos e carícias de Luiz e fala:

— Que loucura! Sai pra lá! Não quero! Não acredito!

— Mas você gosta, fala Luiz, todo meloso.

— Gosto!

— Vou sempre atrás da sua perseguida. Não há igual.
— Vem, Luiz. Vem. Vamos juntos.

Luiz sobe no divã e cola seu corpo ao de Lali que está pensando:

— Está tudo como eu quero. Ele é um safadão, mas gosto deste homem. Hoje vai pagar: não vou dar sossego. Vai pedir água.



INDIVIDUAÇÃO - Luisa Helena Rodrigues Alves


INDIVIDUAÇÃO
Luisa Helena Rodrigues Alves

        E aí se nasce. Bem ou mal se evolui, cresce. De criança à jovem de jovem a adulto. Fazem-se as escolhas ou as escolhas fazem-nas pela gente. Estudar ou não ou o quê? Casar ou Não. Ter filhos ou não e a profissão é a mais difícil de escolher. Os pais querem uma coisa, a gente outra. Como conciliar tudo? Depois matar um leão por dia. É o lema da nossa cultura...

         Aí se vão os anos, trabalhando para ter progressos, conquistas materiais, com os filhos crescidos aprontando para irem para o mundo, ufa! Agora vou viver mais folgado! Doce ilusão...

        Começa- se a ajudar os filhos a irem para o mundo! Ficamos mais velhos e agora? O homem aposentado no geral se deprime. Foi criado para batalhar a vida, enfrentar os altos e baixos, manter o padrão conquistado a duras penas. A mulher, se não tem um trabalho fora, vive seu tempo livre a cuidar da aparência, suas roupas, seu cabelo, em fazer plástica ou aceitar suas rugas. Os limites físicos começam a aparecer. Aqueles que deixaram para se divertir depois de aposentados se confrontam com doenças ou limites financeiros. Vêm os pais já velhinhos e os netos que trazem muita alegria. Cantar, dançar, fazer teatro, jogar tênis, coral, participar de grupos de leitura ou escrita, ser voluntário onde se recebe mais do que se dá.


        Incrível como seres maduros e com mais sabedoria não conseguem descobrir seus talentos não desenvolvidos, que nos gratificam a vida toda. Nem tudo está perdido, continuemos lutando. Sejamos mais amigos dos filhos, dos amigos, e de si mesmos. Ter tempo para ler, cantar viajar, aprender coisas novas... O SONHO NÃO ACABOU!