ROMANCE AZUL - Sérgio Dalla Vecchia



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ROMANCE AZUL
Sérgio Dalla Vecchia



Dentro de um oco, no alto de um Manduvi, sobre uma cama confortável de cascas de árvores moles, preparada por um casal de araras azuis, repousavam dois pequenos ovos. A alta temperatura no Pantanal Mato-grossense auxiliava à dedicada fêmea chocar os  únicos ovos.

Assim, após vinte e oito dias, conseguindo milagrosamente escapar dos bicos famintos e pontiagudos das gralhas e dos tucanos, finalmente eclodiram. Foram recebidos por uma barulhenta algazarra dos pais, participando efusivamente o feito, para os quatro cantos do pantanal.

Foram mais quarenta e cinco dias de cuidados, alimentados e defendidos  pelo dedicado pai contra predadores oportunistas. O cardápio era variado, suco regurgitado de castanhas de acuri, hora de bocaiuva.

Bem tratados, após noventa dias, com a plumagem completa estavam aptos para alçar voo.

Para tristeza, ocorreu num piscar de olhos, que a gulosa natureza devorou a tenra carne do seu irmão, logo no seu primeiro voo, através do bico cortante de um carcará.  

Céu foi o sobrevivente, nome escolhido por uma coruja. Com fraca visão, não conseguia distinguir o azul do céu e o azul das plumas viçosas da jovem arara. Apenas sentia pelo ar, com orelhas de rapina, vibrações azuis, enquanto Céu gozava o seu primeiro voo.

Daí em diante, absorvia com atenção as aulas diárias repetindo todos os movimentos dos pais, na luta pela sobrevivência. Sons, decolagens, aterrissagens, lutas, manobras radicais para pouso de emergência e tantas outras façanhas.

Aprendeu a segurar com um pé o coco da Bocaiuva e lá no alto do coqueiro, lascava o alimento e o ingeria ali mesmo, tendo a natureza como convidada.

O mesmo não acontecia com os coquinhos do Acuri, era só esperar os animais ruminarem a polpa e depois soltarem os coquinhos descascados. Tinha apenas que catá-los do chão, abri-los com o possante bico e saborear a rica amêndoa.
Aos sete anos, Céu já era um adulto e o instinto de procriar insinuou-se pelo seu jovem corpo. Independente já se tornara, então partiu destemidamente na busca de sua alma gêmea emitindo vez  em quando seu grito de guerra: Arara, Arara !

Batendo asas passou por inúmeros alagados, observou jacarés, onças, capivaras, antas e tantos outros animais da fauna Brasileira.

Desviava de bandos dos enormes tuiuiús, fugia do homem, conhecia  a maldade dos caçadores. Observava lá de cima a toada de uma grande comitiva de bois, tangenciada por vários peões na cadência puxada pelo som gutural do berrante.
Quando passava sobre a sede de uma fazenda, sentiu algo inusitado. O coração acelerou, diminuiu o bater de asas e plainou quando ouviu um som familiar, vindo de uma mangueira no pomar da fazenda. Arara,  arara! Intrigado, com receio, mas muito interessado, deu meia volta e fez um rasante rápido próximo à mangueira, foi quando ouviu mais uma vez o som da sua espécie. Aconteceu que esse som era mais suave que o dele, porem sem deixar se ser estridente. Entendeu que era um grito de socorro.

Subiu mais um pouco e com os olhos aguçados, conseguiu identificar a mangueira. Num impulso, mais um rasante e dessa vez viu claramente ela! Só, correndo num galho desesperada de um lado para outro! Pegou mais altitude  para entender melhor porque ela não saia voando, já que estava em desespero.

Mais outro rasante, agora convicto para observar melhor. Foi quando constatou que ela estava presa em uma perna por uma corrente.

Indignado, lembrou dos ensinamento dos pais para ter cuidado com os homens, não eram confiáveis.

—E agora, como poderei ajudá-la? - Pensou Céu.

Do alto de uma palmeira próxima, traçou um plano de abordagem  durante a noite, sem ser notado pelo guarda da sede.

Assim fez. Logo que o sol se recolheu, aproveitou a barulheira das galinhas empoleirando na mangueira e voou suavemente até que pousou ao lado dela.
Arara ! Arara ! Destrambelhou a gritar a prisioneira com todos os pulmões. O suficiente para Céu abortar na hora, fugindo como um raio.

Passou a noite no mesmo coqueiro observando todos os movimentos da gritona. No dia seguinte percebeu que lá da mangueira ela o havia notado, e com um olhar meigo, não gritou. Esperou chegar a noite e repetiu o plano. Pousou delicadamente ao lado dela. Desta vez foi bem recebido, olhares se cruzaram e ela sem graça mostrou o pesinho com o arame que a prendia. Com olhar de súplica, aguardou a ação do seu salvador.

Céu no mesmo instante bicou o arame e foi distorcendo como  um alicate. Ela tremia de medo e virava o pescoço para não ver a operação.

Estava quase terminando, quando do nada surgiu um galo que estava empoleirado num galho próximo e atirou-se sobre Céu com bicadas e esporadas. O galo tentava defender seu território com bravura. Os dois foram ao chão engalfinhados até que Céu aplicou uma violenta bicada na asa do seu agressor que o deixou sem condições de lutar. Voou desesperado de volta ao galho e rapidamente conseguiu desatar a prisioneira.

Com o movimento, o vigia surgiu e disparou tiros no que entendia ser uma ameaça na arvore. Poderia ser uma onça, uma raposa ou outro bicho qualquer.
Mas como uma flecha, o herói Céu levou consigo para o alto do coqueiro, a sua primeira e única namorada.

Assim, lá do alto a paz reinava entre o casal. Juntinhos com as penas estufadas, um acariciava a cabeça do outro entre as penas azuis. A Lua cheia os iluminou.
Naquele momento uma coruja numa árvore próxima sentiu a energia positiva e feliz batizou a noiva com o nome de Lua.

O casal Céu e Lua nunca se separou e tiveram inúmeros filhotes espalhados pelo pantanal afora.


Dito o Caçador - José Vicente Camargo



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Dito o Caçador            

Dito já passava dos trinta anos, corpo avantajado demonstrando ótima saúde, feição mulata de pele curtida de sol contrastando com o sorriso aberto e carismático. Era filho único, morava sozinho desde que perdera os pais e nunca se aventurou em um casamento, pois acostumado ao seu ritmo de vida, acreditava que uma esposa o atrapalharia na manutenção do seu sossego. Vivia num sítio na cidade de Pocinhos Minas Gerais, herdado dos pais, em uma casa simples, porém, bem construída de alvenaria, toda avarandada, no alto de um morro com frondosas árvores e vista para o pasto de capim gordura com poucas, mas bem tratadas vacas leiteiras, bois de corte, cabritos e cavalos que eram separados, por uma vistosa cerca viva, do pomar e da horta onde cresciam vários tipos de frutas, hortaliças e legumes.

Vivia financeiramente bem, sustentado pela pequena produção agropecuária comercializada na cooperativa da cidade. Era um caçador audacioso e quando se propunha à caçada, levava pelo menos dois dias embrenhado na mata.

Naquele dia, Dito pulou da cama com os primeiros pios das perdizes e codornas que atravessavam seu quintal em correria para beber água no riacho que corta seu sitio vindo da nascente na Serra das Capivaras e desaguando, seis quilômetros depois, no rio Pocinhos que dá nome à cidade. Vez ou outra esse piar das aves é cortado pelos gritos agudos dos bugios, pelo cacarejar dos galos e galinhas, pelos latidos dos cachorros e principalmente pelo relinchar angustiante do velho burrinho “Brinquinho” presente do avô no seu décimo aniversário.

Olhou ansioso pela janela e entusiasmou com o sol insistindo em dar, pelas frestas, seu ar da graça. Apanhou a mochila, preparada de véspera, e passou pela cozinha pra preparar o café que nessa manhã seria reforçado, pois teria pela frente uma caminhada bem íngreme até atingir o pico da Serra, local onde ele e seu pai, também exímio caçador, abriram a facão e enxada uma clareira para montar acampamento que serve de base para os dias de caça. No meio do desmate, ergue-se a torre de vigília que resiste ao tempo orgulhosa das presas que ajudou a abater. Todo ano, quando a saudade do pai lhe aperta o peito e o corpo pede emoções fora da rotina, ele prepara a mochila com duas mudas de roupa, cobertas pra chuva e frio, utensílios básicos: lanterna, velas, canivete, a corrente com a medalha sagrada da Virgem que pendura no pescoço presente da mãe que fazia questão que a portasse dado aos  boatos que nos altos da Serra se escondem maus espíritos; remédios contra picadas de mosquitos malária, cobra, aranha e  outros bichos peçonhentos e também pra dores de cabeça e barriga. Num bornal guarda os alimentos, muitos preparado por ele mesmo, orgânicos do seu sitio e de maior durabilidade. Presta atenção para não esquecer o pó de café forte, açúcar mascavo, queijo de cura, pão de batata e, para os dias chuvosos e friorentos, aquela pinga clarinha do alambique do vizinho Teodoro. A tiracolo a espingarda calibre 22 para aves (perdiz, codorna, macuco, jacu), e a calibre 12 para animais de médio a grande porte (bugio, javali, cateto, jaguatirica, anta), o facão de lâmina cumprida pra limpeza do mato e para defesa. Leva consigo também a esperança de dar de cara com uma onça pintada, porém não para matar, mas sim para sentir a glória de vencer a tremedeira nas pernas, e no gatilho e de ter papo pra contar na roda de carteado do boteco do Zé. Todos os preparativos são planejados minuciosamente e com a devida antecedência como manda a bom estilo mineiro.

Sem imprevistos na subida da Serra, Dito capina o mato crescido na clareira, monta a barraca, descarrega a bagagem e munido de café, aguardente e pão senta na pedra ajeitada de banco, aspira forte o ar puro e úmido da mata e o expira nas recordações quando ele, pai e avô, sentados no mesmo local, trocavam ideias sobre as estratégias da caçada. Depois do cigarrinho de palha, sentindo-se restabelecido do esforço da subida da Serra, subiu à torre de vigília para sentir a direção do vento afim de se posicionar corretamente quando em ação e para vasculhar o céu a procura de alguma ave de rapina atrás de uma presa.

Ao entrar numa das trilhas que partem do acampamento, seu tino observador deu alerta de pegadas de catetos prensadas no barro fresco. Hum! Pensou, as próximas refeições já estão garantidas... Pelo sentido das pegadas os catetos estariam voltando do riacho em direção à toca, o que significava que na manhã seguinte fariam o caminho inverso. E foi pensando: Preciso pelo menos abater dois, um pra mim e outro para destrinchar e fazer de isca para um bichão dos grandes (quem sabe uma jaguatirica ou uma pintada?). Pro jantar de hoje me contento com churrasco de tatu que já faz tempo que não como. Carne branca e macia temperada com sal grosso e limão, verdadeira iguaria dessas bandas!

Na manhã seguinte repete a rotina do café forte e doce com pão de queijo e pega a trilha com os sentidos atentos pra qualquer ruído ou odor vindos da mata. Depois de um ziguezague de sobe e desce ouve os primeiros grunhidos de catetos juntamente com o farfalhar da vegetação. Se amoita atrás de um arbusto propício para o tiro com olhos fixos na mira da espingarda, respiração silenciosa e dedo tenso no gatilho quando ouve atrás de si um pisar leve em gravetos e folhas secas.  Vira surpreso e dá de cara com um sujeito de aspecto estranho vestindo terno, gravata e sapato social num contraste surreal com o ambiente reinante. Na mão segura uma maleta preta lustrosa. Dito desarma a espingarda com cuidado, saliva a boca seca pela expectativa do tiro e pela surpresa do vulto estranho ao mesmo tempo aperta a medalha da mãe no peito para proteção contra maus espíritos. Porém a aparência asseada e serena do sujeito, irradiando ares de educação e de letras, transmite certa confiança o que faz Dito segurar o temor e indagar:
O amigo está perdido, procurando algo? Talvez possa ajudar...
− Não, obrigado. Reponde o intruso. Acabo de chegar da minha terra “República do Des” e estou me habituando com o ambiente totalmente diferente do meu.
Dito franze o rosto, coça a orelha para certificar que está ouvindo bem e continua:
− Não me leve a mal, tenho pouca escola, mas dessa terra nunca ouvi falar. Deve ser bem longe daqui, lá pras bandas do Sul, pois seu traje,  parecidos com os que vejo nas revistas desfolhadas no boteco do Zé, de gente graúda dos negócios e da política − indicam que dessas bandas de cá e das do Norte é que não é...
− Venho de Brasília, Capital da República, e estou sofrendo de profunda depressão, mal consigo respirar, pela angústia que me dá ver e sentir os poderes da República, ditos guardiões da Constituição, serem responsáveis por tanta desordem, desconsideração, desprezo, desrespeito, desconfiança, desaforo, desculpas descabidas que dariam para reescrever a faixa da Bandeira Nacional para “Desordem e Retrocesso”. Então pedi ajuda ao meu padrinho e protetor que me enviasse a um lugar sossegado, de natureza virgem, com ar puro e águas limpas, na esperança de recuperar minha identidade, meu orgulho brasileiro. Só não esperava que ele fosse exagerar e me largar no meio de uma mata virgem longe de qualquer vestígio de civilização.

Dito ainda surpreso e agora também confuso, sem entender os relatos para ele sem pé nem cabeça, resolve continuar o diálogo com coisas plausíveis:

− Tudo isso que está procurando, aqui tem até demais, de cansar o espírito, o corpo e a cuca. Por aqui o tempo passa mais devagar que em outros lugares. Algumas vezes tenho vontade de me largar por esse mundão afora, conhecer o que Deus colocou nos outros cantos. Sinto falta da comparação com outros lugares e pessoas pra saber se realmente tenho uma vida boa aqui ou se estou perdendo tempo precioso no lugar errado. Apesar da paisagem bonita com ar, água, sossego de primeira, noto que o viajante se encanta, mas não fica.

 − Neste sentido, interrompe o desconhecido, peço sua licença para lhe propor uma ideia que me veio de momento:

Por que não trocamos de endereço, de cidade? Eu ganho de volta minha paz, meu ego, meu sossego e você tira sua dúvida se está vivendo no lugar certo.

Tião, surpreendido pela proposta, coça a cabeça observando o proponente com cautela, sem deixar de lado a desconfiança mineira, e responde:

− Sua proposta é de fundir a cabeça! Mas, como diz o velho ditado, quem não arrisca não petisca! Por aqui minha caça se assustou e fugiu, tão logo não volta. O tiro fatal vai ter de esperar. Além disso, o dia promete muita chuva e frio de tinir os ossos da cabeça aos pés. Caçar é um sacrifício que só mesmo os amantes do tiro, da aventura de decidir entre a vida e a morte, suportam. E também não posso abandoná-lo nessa situação de perdição, pois corre risco de morrer de frio ou de se perder na mata sem possibilidade de socorro. A trilha de volta tem muitos desvios e só quem a conhece bem consegue atravessá-la. Então, o melhor a fazer é levantar acampamento e convidá-lo a conhecer meu sítio humilde, mas que tem o básico para sobreviver. Dá pra passar uns dias para sentir a vida por aqui e se vai conseguir se adaptar no longo prazo. Enquanto isso matuto um pouco mais sobre sua proposta maluca. Se aceitar, e estou quase lá, ponho uma condição, pois de Brasília só conheço o nome:

“Se a experiência não der certo, ficam as portas das casas abertas para retorno ou visita do outro sem data marcada nem período de permanência definido”.

−Ótimo! Creio que o amigo acaba de aceitar minha proposta com final de ouro mineiro, exclama o “aparecido” com satisfação.

Passados três anos, vamos encontrar Dito de terno e gravata sentado numa cadeira do Congresso Nacional rodeado de colegas do “Partido de Reconstrução Nacional (PRN)” que o acabaram de eleger seu presidente. Ao assinar o termo de posse, com caligrafia trêmula, sua mente, como um raio, traz para si o dia da chegada à Brasília na carroceria de um pau de arara com tontura pela loucura da cidade grande,  o vaivém entrelaçado de pessoas, carros, ônibus, metrô, todos numa pressa tal qual caminho de formigueiro e, por cima, o sentimento despido de qualquer sentido de orientação sem saber que rumo tomar para chegar no endereço que o “estranho” da Serra lhe dera com o recado expresso de: “Cuidado, com cidade grande não se brinca!”, aperta no peito a medalha da mãe e no bolso,  embrulhado num lenço, o dinheiro que recebera pela venda dos animais junto com o canivete que sempre lhe transmite calma e segurança. O motorista do caminhão nota sua indecisão, e experiente com tais situações, dado ao transporte de milhares de candangos recém-chegados, lhe dá orientações sobre quais ônibus e onde tomá-los pra chegar no destino desejado. A casa é ampla, confortável, de bom gosto, indicando que seu proprietário possui posição social de bom nível.

Aos poucos Dito vai perdendo o cheiro do mato, recuperando a confiança e perguntando menos as direções a seguir para as visitas aos pontos turísticos da cidade que o amigo “surgido na Serra” recomendou como imperdível e a outros como necessários para sua introdução ao cotidiano da cidade. E foi num desses lugares na periferia – Vila Ceilândia − que Dito se sentiu bem à vontade, perdeu a timidez e, entre um e outro bate-papo no boteco “Pinga Mineira”, regado com torresmo e cachaça da terra, fez os primeiros amigos, entre eles um conterrâneo de Pocinhos, colega de turma do Grupo Escolar Tiradentes − chamado Pedro − com o qual a amizade se entrosou pois relembravam as professoras, as folias na sala de aula, os amigos da turma e as brigas no recreio sem falar das “peladas” no campinho de futebol ao lado. Esta amizade não só lhe cortou a raiz da saudade que lhe estava crescendo na alma, como também lhe abriu a porta da escalada vertiginosa na política. Pedro não só era bem relacionado na Vila Ceilândia, como também nos bairros adjacentes e, por trabalhar na área da construção civil, fazia parte do sindicado da construção civil, o qual, por sua vez, era paparicado por vários partidos políticos. Não precisou de muitos “bate-papos” para que Pedro percebesse que Dito tinha um “que”, um dom de empatia com terceiros pela sua figura simpática, bem asseada, humilde, de modos educados e sobretudo um jeito de se expressar claro num linguajar popular sem pedantismo, que convencia quem o escutasse. Pensando também no seu futuro uma eventual “ajuda” caso Dito fizesse sucesso Pedro arrumou para ele um emprego de terceiro secretário do sindicato, posto com bastante contato com o público o qual saberia valorizar os seus dotes de relações públicas. Esse foi o chute inicial, driblando com maestria no campo adversário, para o gol da sua nomeação como presidente do “Partido de Reconstrução Nacional” com chances, em coalizão com outros partidos da mesma linha ideológica e com crescente apoio nas redes sociais, de vir a ser eleito Presidente do Congresso Nacional, fortalecendo assim suas propostas de campanha de reconstrução e saneamento do cenário político brasileiro.

No lado oposto da medalha, encontramos o amigo “aparecido” deitado sonolento na relva macia à margem do riacho meditando: “Desde que chequei aqui não canso de admirar a beleza do lugar. É realmente para se deitar no chão e se acabar... Pena que meu protetor e padrinho não me dá sossego, sempre me enviando para ajudar alguém com potencial de contribuir para o bem da sociedade, a assumir tal tarefa, mas que, para tanto, precisa de uma “ajudazinha” daquele que os humanos gostam de mencionar em suas narrativas, livros, contos, poesias como o responsável pelo desenrolar das coisas do seu nascer até seu final e o chamam, sem muito refletir, de:
Destino” ...


AMOR E ÓDIO - Antonia Marchesin Gonçalves



                                   Ron Perlim: Crônica


AMOR E ÓDIO
Antonia Marchesin Gonçalves

                Ângela, como o nome diz, era um anjo de pessoa. Pouco trabalho deu à mãe, a criança feliz brincava com as panelinhas com as bonecas fingindo fazer comidinha com açúcar e canela que era uma meleca. Tanto brincou com isso que ao crescer não suportava o cheiro de canela. Na adolescência precisou largar os estudos e trabalhar para ajudar em casa. Tornou-se muito bonita sendo muito assediada até por homens maduros, mas não tinha ela interesse em namorar, era envolvida pelo trabalho, tanto fora como em casa e as poucas horas de folga gostava de ler, a sua paixão.

                Ficava, horas na poltrona lendo quando podia, ouvindo broncas da mãe que achava que perdia seu tempo nessas besteiras que continham os livros. O seu irmão tinha vários amigos que frequentavam a casa, ela os tratava bem, mas sem maiores interesses. Com o tempo um deles, em especial, deu de demonstrar interesse, passou a frequentar a casa com mais frequência tentando acertar os horários em que ela estava. Teve início ali uma amizade Renato era estudante fazendo faculdade de arquitetura, não era bonito, mas charmoso, percebeu que se entendiam bem.  
Numa tarde os dois conversando Renato se declarou, estava apaixonado e a pediu em namoro. Ângela surpresa, nem passava pela sua cabeça namorar, pediu um tempo para pensar, tinha já dezoito anos, as poucas amigas já namoravam e a encorajaram para aceitar, assim foi. Tiveram que esperar Renato se formar já no último ano trabalhava deram entrada no seu primeiro apartamento e ela com seu trabalho com esmero fez todo o enxoval. Renato a conquistava todos os dias mais, quando se casaram ela estava totalmente apaixonada, tendo olhos só para ele.

                Antes de casar ele a convenceu de largar o emprego, dizia que a sua mulher não trabalharia fora. Mais uma vez ela obedeceu, veio o primeiro filho foi ficando cada vez mais mãe e dona de casa, não percebendo que ele não lhe dava a atenção e carinho como antes, apaixonada confiava plenamente em seu companheiro, pensava, está trabalhando muito para nos manter, o mimava, apreendeu a cozinhar, coisa que não sabia fazer, e até curso de banquete fez, tornando-se excelente cozinheira, recebiam amigos para jantar com elogios de todos. Renato tinha tudo sob controle, esposa, casa, filhos, sucesso profissional, invejado. Certo dia Ângela recebe uma carta anônima que dizia quanto conquistador compulsivo seu marido se tornou. Ela se abalou, ao pensar melhor, deu a carta como alguém com inveja de sua felicidade.

                Passado um tempo começou a receber telefonemas também anônimos o acusando de estar traindo-a com colegas de trabalho e as horas extras que fazia não eram para trabalhar e sim sair com outras. Não teve outra opção senão perguntar a respeito, lógico que o marido negou veemente usando até o ataque como sua melhor defesa. Apaziguados os ânimos a vida continuou à sua rotina. Mas agora Ângela andava mais atenta, passou a observar mais o marido, quando estavam nas festas e jantares e até em restaurantes, mesmo na sua frente flertava com outras mulheres, magoando e até humilhando a esposa.  Foi quando começou a sentir-se depressiva e desiludida cada vez mais, a grande paixão foi esvaindo-se. O amor se desconstruiu a ponto de se tornar quase ódio, que lhe corroía a alma. Pelos filhos ela não se separou.

                Certo dia Renato passou mal, teve um derrame com sequelas graves ficando na cama. Ângela se desdobrava vinte quatro horas para cuidar pessoalmente dele, não aceitava ajuda de enfermagem, até os filhos tentaram, mas ela era irredutível. Uma amiga psicóloga tentou para que recebesse ajuda, alegando que podia ela adoecer. Mas não. Até que Renato faleceu, e a transformação de Ângela foi total.

Agora Ângela parecia tranquila, feliz, tinha recuperado a beleza, o brilho no olhar, a amiga não se conteve e perguntou, achei que você fosse afundar no fundo do poço com a morte dele, e ela simplesmente olhou para a amiga e disse:

— Não, querida amiga, eu tive o prazer de vê-lo morrer.


Após um mês da morte de Renato, Ângela já tinha o seu futuro definido, com os seus sessenta e cinco anos tinha a certeza do que queria para o resto de sua vida. Chamou os filhos para um almoço no sábado, com uma maravilhosa feijoada que fazia com perfeição e sabia que seria um belo chamariz para ninguém faltar. Todos compareceram, transcorrendo tranqüilo com caipirinhas sendo consumidas, nem perceberam o quão tranqüilo tinha transcorrido, sem discussões políticas ou qualquer outro assunto, sempre geradas pelo pai que divergia dos filhos e lógico Ângela tentando por água fria para amenizar as divergências.

                Satisfeitos foram todos para o deck da piscina para o café, ela aproveitou para falar. Convidei vocês para esse almoço com um propósito, quero comunicar vocês que já coloquei a venda a casa, que para minha surpresa tem vários interessados. Nessa hora todos começaram a falar ao mesmo tempo, uns a casa que o pai construiu maravilhosa, outros, você vai para onde e o que vai fazer com o dinheiro? Papai sempre cuidou de tudo. Sim ele sempre cuidou de tudo, mas agora quem manda na minha vida sou eu, vou comprar um apartamento que sempre quis, não aguento mais cuidar dessa casa, já tenho um em vista, com conforto que só com uma empregada dará conta, é um bairro que terei qualidade de vida, com parque perto, um pequeno comércio que servirá para as minhas necessidades, mas também como tenho carta e dois carros saberei usufruir a estrutura que preciso.

                Completou, se gostam tanto da casa, façam uma oferta entre vocês e comprem de mim, afinal está no inventario que ela é minha. Ninguém se pronunciou, não tinham cacife para manutenção de uma casa daquela. Tomada a decisão, Angela mudou-se para o apartamento, não levou nada, fez a decoração com um bom gosto surpreendente. Depois de tudo em ordem, passou os dias saindo pelo bairro se familiarizando, vizinhança simpática definiu, tendo perto um pequeno comércio, pequenos restaurantes e até boutique de roupas femininas e sapatos idem. Numa dessas incursões achou uma academia de dança, sempre amei dançar, só parei quando casei, lógico pensou, vou entrar e perguntar quais cursos ele oferecem.

                Ao ver que tinha o curso de dança de salão, não teve dúvida, se matriculou. Feliz, passou a ter aulas três vezes por semana, sempre no final da tarde, onde iria aprender todos os ritmos, adorou o professor e fez novas amizades no grupo, incluindo vários solteiros.
                         
                                  
                       



Uma tomada de decisão - Ledice Pereira



oculos adolescentes de grau feminino preto - Pesquisa Google ...

Uma tomada de decisão
Ledice Pereira



A vida não havia sido generosa com Vilma. Desde pequena teve que enfrentar  as dificuldades que iam aparecendo. A morte do pai, prematura, o novo relacionamento da mãe, a responsabilidade com os irmãos pequenos. A falta de brinquedos, a distância que tinha que percorrer a pé até a escola, o bullying sofrido na classe devido a um estrabismo acentuado que a enfeiava.

Teria sido escolhida pelo destino, perguntava-se, triste.

Apesar de tudo, nascera com um QI acima da média. Era de uma esperteza que colocava a todos no chinelo. Talvez por isso, os maus colegas a perseguissem, tentando desestabilizá-la.

Tinha facilidade para o aprendizado. Os livros eram seus companheiros inseparáveis. Neles encontrava seu consolo. Transportava-se para os cenários descritos, deixando-se levar pela imaginação.

Judite, professora de português a admirava e convenceu os demais professores a encaminhá-la para um oftalmologista amigo, organizando uma vaquinha para que isso fosse possível.

O médico verificou ser um caso a ser resolvido através de cirurgia.

Chamou a mãe da menina, explicando que havia conseguido uma vaga no hospital público e recomendando que quanto antes fosse corrigido o problema, maior seria a chance de um sucesso total. Além disso, o período de férias seria perfeito para o restabelecimento.

A mãe hesitou um pouco, principalmente porque ficaria sem seu braço direito em casa, mas Judite, que a acompanhou, convenceu-a a fazer a coisa certa.

A cirurgia foi realizada com pleno sucesso, mas houve todo aquele tempo pós que requer cuidados.

Vilma enfrentou com galhardia a dor, os tampões que a impediam de executar qualquer tarefa, a solidão a que foi obrigada a se sujeitar, o abandono dos amigos. A única que não a abandonou foi Judite por quem ela se afeiçoou ainda mais.

Embora com seus treze anos, Vilma tinha maturidade suficiente para entender o que o momento lhe impunha.

O que mais sentia era não poder ler seus livros. Judite resolveu o problema com os audiolivros que emprestou à garota.

Assim, a menina atravessou os trinta e tantos dias do pós operatório sem reclamar de nada.

Após esse período, o oftalmologista constatou que tudo estava correndo conforme o previsto e o recomendado agora era o uso de óculos.

Fazia uma semana que o período de férias havia terminado, quando Vilma retornou à escola sem o antigo problema visual e com seus novos óculos que a tornavam mais charmosa.

Foi recebida pelos colegas com admiração e certa reserva.

Havia ali um garoto que sempre a respeitara e que jamais se juntara aos outros que praticavam bullying. Ernesto passara a frequentar a escola no início daquele ano, tendo dificuldade para se enturmar.  Procurava ficar na dele, sem se misturar, observando de longe tudo que acontecia. Tinha quase quinze anos, havia repetido o ano e os pais o transferiram de escola.

Naquele dia, ele procurou aproximar-se da menina, oferecendo-lhe um pedaço de seu lanche. Era uma maneira de estabelecer contato. Intimamente, ele sentia que ela não lhe era de todo indiferente.

Uma amizade forte estabeleceu-se entre eles.

Vilma  tornou-se uma jovem atraente. Cursou o ensino médio sempre com as melhores notas. Ernesto procurava espelhar-se nela e com a ajuda dela nunca mais repetiu o ano. Estudavam muitas vezes juntos. Tornaram-se inseparáveis.

É lógico que essa aproximação se transformou em amor e eles passaram a namorar.

Ernesto, no entanto, revelou-se muito ciumento. Não permitia que Vilma saísse sozinha, controlava seus horários, passou a infernizar a vida da jovem, que havia conseguido uma bolsa de estudos em um cursinho preparatório para psicologia e queria levar seus estudos adiante, nem sempre podendo encontrar-se com o rapaz. Isso deixava-o furioso, dando a entender que o melhor era ela abandonar o cursinho e os estudos.

Aos poucos, ele foi revelando a verdadeira personalidade e ela concluiu, a duras penas, que teria que se afastar se quisesse alcançar seus objetivos.

Quando, um dia,  ele quase a agrediu, segurando-a fortemente para impedir que ela fosse à aula para ficar com ele, ela sentiu que não podia mais continuar a relação. Se agora ele agia dessa forma, como seria se continuassem e até se casassem.

Criou coragem, marcou um encontro em um lugar público e expôs sua decisão.

Ernesto teve uma reação violenta. Só não a esmurrou porque estavam num restaurante movimentado. Cerrou os dentes e disse baixinho que a mataria, caso ela continuasse com aquela ideia.

Vilma não era mulher de ter medo de nada. Já havia enfrentado tantas dificuldades de cabeça erguida. Levantou-se, chamou o garçom e disse em voz alta:

─ Este homem está me ameaçando. Preciso de ajuda para poder ir embora. Alguém pode me acompanhar ou chamar a polícia?

O garçom chamou o segurança que a acompanhou até a saída.

Ernesto não sabia como agir. Estava envergonhado. A polícia foi chamada. Ele teve que se explicar na delegacia, sendo-lhe proibido sair da cidade.

Ao ser intimada a depor, a jovem detalhou  como estava sendo sua vida com aquele que era seu namorado desde a adolescência.

O rapaz foi proibido de aproximar-se de Vilma num raio de cem metros.

Ela pôde continuar seus estudos, prestando exame na Universidade onde conseguiu cursar a tão sonhada carreira.

Prevaleceu a vontade dela que se se submetesse à vontade do namorado, certamente teria a carreira truncada e a vontade frustrada.

AMOR VOLANTE - Oswaldo U. Lopes




AMOR VOLANTE
Oswaldo U. Lopes


        - Porra! Espero que esse negócio funcione.

        Foi o que Ricardo murmurou antes de saltar da porta do avião. Não conheço raça mais supersticiosa do que paraquedista!

        A fala era uma espécie de mantra, ele a repetia, murmurando toda vez que saltava. E, olha, já fizera mais de 500 saltos. Ah! E não valia pensar, tinha que murmurar, falando mesmo, de modo que pudesse ouvir.

        Não lembrava muito como esse negócio de paraquedismo tinha começado, sabia que adorava. Não passava sábado ou domingo, ou ainda ambos, sem que fosse a Boituva para o salto. Já experimentara asa delta, embora tivesse achado interessante, para ele não tinha a emoção do paraquedas.

        Fazia muito que a modalidade superara o famoso paraquedas branco e enorme que fizera furor na Segunda Guerra Mundial e nos filmes sobre o assunto. O atual era relativamente pequeno, colorido e dirigível. É dirigível! Já participara de inúmeras provas cujo objetivo era aterrissar em um pequeno alvo riscado no chão.

        Se não lembrava como começara no esporte, lembrava muito bem de como conhecera Valéria a sua namorada recente, ela também uma paraquedista de renome. O inicio foi na base da brincadeira. Qual é a seu mantra na hora de saltar. Tempos modernos, recitou a dele:

- Porra! Espero que esse negócio funcione.

        A dela era mais suave, como convém a uma moça, mesmo em tempos de igualdade de gêneros:

- Tomara que não dê besteira.

        Ele explicou que tinha cogitado outra, mas os colegas haviam advertido que não era legal colocar Deus na fala. E qual era essa alternativa? Perguntou ela.

- Foda-se! Seja o que Deus quiser.

        Riram muito e saltaram, por coincidência de aviões separados. Normalmente iam oito em cada  aeronave, e embora decolassem juntos, saltavam com vinte minutos de espera. Os que iam no segundo avião podiam ver os da primeira turma, como que voando, com os paraquedas abertos. Havia recomendações rígidas de modo que eventuais colisões e embaralhamento não aconteciam.

        Formavam um casal simpático e divertido. O paraquedas dele era laranja, o dela azul intenso, tucanos de fina plumagem, brincavam. Ele engenheiro elétrico, especialista em computação, manuseio e construção de computadores, ela médica cardiologista, especializara-se em cardiopatias infantis, sobretudo as congênitas. Perguntavam o que viria dessa linda união: um computador capaz de fazer diagnósticos rápidos e certeiros, como um salto de paraquedas?

        Era um lindo sábado de maio, sol maravilhoso, céu de brigadeiro. Subiram nos aviões e partiram para o salto, ela deveria saltar primeiro, ele no avião de trás, um pouco depois.

        Tudo certo, altura certa, momento certo, os do primeiro avião jogaram-se no espaço e as cores de seus paraquedas foram brotando pelo céu. Verde, amarelo, vermelho e branco, vermelho, cadê o azul,  pensou Ricardo. E nada do azul. Começou então a recitar os mantras, agora em voz alta:

- Porra! Espero que esse negócio funcione. Nem que seja pelo amor de Deus.

- Tomara que não dê besteira.  Besteira é eu ficar sem você, não me apronta essa.

- Foda-se! Seja o que Deus quiser. Repetiu até o mantra proibido. Uma ova, se Ele quer isso então que se foda. A aflição era tanta que até blasfêmia valia.

        De repente, lá no fundo, já perto do solo, pelo menos assim parecia, um  azul intenso se apresentou. Ricardo sentiu as pernas meio bambas, mas seguiu em frente e saltou, pintando o céu de laranja.

        Moral da história. Se Ele existe não liga para blasfêmias de apaixonados; até certo ponto gosta de uns apertos no coração, vale para reforço da fé. O mar não ta pra peixe, pois então não vale a pena perder um casal tão lindo e tão apaixonado.