JOANA DOS ARCOS. - Mario Augusto Machado Pinto



JOANA DOS ARCOS.
Mario Augusto Machado Pinto

Há muito não a vejo. Anos. Dela tenho notícias escassas e ocasionais pelo Zeca, seu irmão que hoje me contou que ela voltou e há um tempinho mora na casa dele. Meu corpo reagiu como as cordas de uma imensa harpa. Queria cantar. Alegria! Alegria! Controlei-me para não demonstrar o que me tomou conta. Eu mesmo me surpreendi. Não esperava reação tão intensa.

— E você me conta isso só agora? Ô Zeca, você sabe. Por que demorou?

Companheiros de infância, ela e eu passeamos, corremos, descobrimos que gostávamos de estar juntos, que nossos corpos eram diferentes e que às vezes não sabíamos o que fazer com eles quando aconteciam coisas diferentes e riamos um riso nervoso por ficar sem jeito, mas gostamos quando soubemos. E foi aí que descobrimos como nos queríamos.

Com perene bom humor e de risadeira solta como ela só, Jô marcou sua presença em nossa juventude. Ela e eu tínhamos um chameguinho que nos atraia fazendo de nossas vidas uma mala cheia de alegrias misturadas com algumas poucas tristezas como aquela quando eu soube que iria se mudar pra longe, pra Bahia.

Zeca completou a notícia tendo o cuidado de me alertar:
—Vocês dois sempre foram muito ligados.

Hum, ele escutou o som da harpa.

Comecei a dizer que era coisa de jovens, sabe como é?

— Não, não, não precisa explicar. Eram, não eram? Quero que saiba que nem tudo está bem com ela.

— Não me diga.

— Já disse.

— Por que não me contou antes? O que ela tem? Zeca, eu gostaria de ver a Jô, falar com ela.

— Você entenderá. Olha, é bom ouvir isso, mas veja, será difícil ela falar. Pra você ter ideia, vive deitada, calada a maior parte do tempo. Acordada, sonha sonhos os mais esquisitos. É quando fala descrevendo tudo que fez com seres imaginários. Então exige silêncio. Se interrompida, fica irritadíssima, grita e tenta agredir as pessoas. É perturbador. Não é espetáculo muito agradável pra se ver. Conto isso porque quando chegou ela falou em você e, em minha opinião e para o bem dela, você deveria ir vê-la. Que lhe parece?

Respondi que me parecia ótimo. Queria ter tempo livre para pensar, por isso avisaria quando.

O que eu queria mesmo era me acostumar à ideia do seu estado de saúde, imaginar como conter minha reação ao ver a Jô de agora. Não estava metido em uma camisa de onze varas, era de dez, tamanho P. Caramba! Que coisa!

Sabendo que iria sofrer, mesmo assim em três dias mergulhei de cabeça no assunto, revi todos os álbuns com as fotos da Jô, reconheci as roupas que vestia, reli as cartas, examinei as lembrancinhas. Retornei a um passado envolto em nuvem perfumada que sem conseguir clamou por ser ouvido, visto e acarinhado.

Vou lá.

Sábado, dez da manhã.

Toco o botão da campainha da casa do Zeca e ele mesmo vem me receber.

— Oi, tudo bem?

— Oi. Tudo. Como ela está?

— Esperando por você. Rapaz! Melhorou cem por cento desde quando contei pra ela que você vinha. Não teve mais nenhuma crise. Tá alegre, até canta! Verdadeiro milagre.

— E...

— Não se preocupe, tudo nos trinques, e me levou pra dentro.

Meu projeto. Conheço bem a casa. Entro na sala intima e lá está ela, de costas, alta, mais cheinha de corpo, cabelos ondulados, longos como sempre. Eu dizia “pretos como a asa da graúna”. Ela gostava, mas pedia pra não dizer em público. Fiquei olhando, admirando.

— Jô...

— Não diga nada. Quero sentir a sua presença. Quanto tempo. Ela ainda está aqui, grudada, no meu corpo, sabe? Nunca me deixou e se abraçava.

Virou-se. Beleza de mulher vivida. Chegou bem perto e tocou meu rosto. Quis fazer o mesmo, ela impediu e olhou-me com aqueles olhos pretos que eu havia esquecido de como eram brilhantes e que sempre me prendiam.

Levou-me pela mão dizendo Vamos sentar aqui no sofá.

Enlaçou meu braço, encostou sua cabeça no meu ombro, achegou-se perguntando se me recordava como fazíamos no sofá de balanço no alpendre.

— Claro que sim. Na sua ausência, passava tudo isso na minha mente.

O Zeca sumiu. Atitude bacana.

Falava muito. Voz trêmula. Só ela. Estranhei. Contou coisas que eu embevecido pela sua voz mal acompanhava e aí, de repente, beijou-me na boca. Deu-me aquele beijo que chamávamos “francês com chocolate” e que só ela sabia como dar. Quis segurar seu rosto. Impediu e falou:

— Está contente? Era isso que esperava encontrar? Gostou? Reavivou sua memória? Tenho certeza de que vai se lembrar disto por todo o resto da sua vida! Passei todos esses anos guardando na memória o que dissemos e fizemos. Escrevi um sem número de cartas. Coitada de mim! Tenho, se tanto, duas dúzias das suas e eu sei que você podia escrever mais, muito mais! Você foi mau, muito mau.

— É que eu lia as suas cartas enviadas pro Zeca e pedia pra ele escrever umas coisas que eu ditava! Jô, eu não via a hora de poder ir lá na sua casa.

- Sim, eu sei! Como? O Zeca escrevia, não? Ué, vocês não dividiam tudo? Namoravam em dobradinha? Não passavam o bico? Eu sabia de tudo, vida e milagres.

Gesticulava e aumentava o tom à medida que falava já quase gritando. Certeza de que iria gritar.

— Não tinha tempo? Claro! Andava buscando mais um broto pro seu ramalhete!  E eu vivendo de lembranças, inventando estórias, falando alto pra ninguém, passando por amalucada! E você vem aqui tremelicando como garoto que vai ter sua primeira transa, com essa cara de quem vai comer o manjar dos deuses, Ambrosia, o Baba de Moça. Vai dar certo! Deu? Cretineria! Sim, a cretina aqui esperava, esperava. Quem espera sempre alcança! Uma ova! Você é a prova. Para alcançar isso? Nem morta!

Já quase sem folego, parou de falar. Arfando, suspirou fundo e com raiva incontida gritou:

— Agora mocinho, “põe a viola no saco e pega a estrada”! Some da minha vista! Zeca!  Leva embora este infeliz.

Sem me olhar passou por mim como verdadeiro furacão, não, como um tremor, tão fortemente bateu a porta da saleta.


— Zeca! Ô, Zeca! Cadê você?

Dúvida Cruel - José Vicente J. de Camargo


Dúvida Cruel
José Vicente J. de Camargo

Há muito não a via!

Já tinha esquecido como eram convidativos seus olhos! Nem mais me lembrava de como era cativante sua voz! Esqueci quase completamente de sua boca e dos beijos que ela sabia dar.

O que até hoje não se apagou do meu corpo, foi o tremor excitante, qual orgasmo, que senti quando, na sua casa de praia em roupa de banho, sentados a sós na escadinha que dava para o jardim, alisou sua mão suave pela minha perna no vigor dos meus dezessete anos. 

Foi meu primeiro amor!

De derramar lágrimas de alegria misturadas com as de medo em não ser mais correspondido. De vê-la em todo lugar, ao dobrar uma esquina ou entrando por uma porta. De escrever seu nome no segredo da palma da mão ou nas entre linhas dos livros e cadernos. De não ser mais dono de minhas vontades nem de meus movimentos. Tudo indo ao encontro dela.

Mas o tempo, professor de todos, não se cansa de nos ensinar que nada nesta vida é definitivo.

E assim foi que a escolha da carreira universitária nos levou a caminhos diferentes e distantes. Das promessas de que nada mudaria, a distância foi aos poucos apagando. Os contatos diminuíram e as juras de amor rarearam até desaparecerem sem deixar rastros. Vez ou outra, ao conhecer alguém ou ler algo com seu nome, me vinha à lembrança seu sorriso faceiro e a excitação do roçar de suas mãos.

E o rio da vida correu seu curso sem deixar-se modificar!

Outros amores conheci e outros tremores senti, todavia sem as surpresas do primeiro que, como ferro em brasa, nossa alma para sempre marca.

Tornei-me avô! Da vida vou levando o de costume! Alegrias dadas pelos que conheci e com os quais convivo, saudades pelos que se foram e as preocupações de praxe. De resto, a natureza que sempre me atraiu, a característica de ser um assíduo observador de fatos e de pessoas e os entretenimentos usuais, preenchem os vazios restantes.

Então, o destino entra em ação e dá suas pitadas de tempero, doce, amargo ou picante e muda o rumo que pensávamos estar coerente com o desenrolar das coisas...

Não a reconheci no primeiro olhar!

Porém os olhos negros brilhantes e o sorriso faceiro de menina moça me alertaram que era ela. Meu primeiro impulso foi de conter-me, só observá-la, curtir solitário aquele momento de doces recordações.

Mas a tal “atração fatal” de que tanto falam as novelas e os folhetins femininos não deixou por menos. Apesar do aglomerado de pessoas entre nós, no saguão do teatro, seus olhos encontraram os meus e não conseguimos, ou não quisemos desviá-los:

Trocamos sorrisos. Aproximamos-nos. Cumprimentamos-nos.

E foi então, nesse toque gentil, que senti, tal naquele dia sentado na escadinha do terraço, o mesmo tremor excitante do quase orgasmo.

Ah, que alívio!

Até que enfim consegui esclarecer a dúvida que há tantos anos comigo carrego:

A dúvida cruel do “se”!

Se tivesse ido com ela naquele ano, desistido dos meus planos e estudo, estaria mais feliz hoje?

A campainha chamando para o reinicio da peça toca três vezes. Despedimo-nos com o trivial: “Prazer em revê-la”, “Tudo de bom”, “Felicidades”...

No palco, enquanto a peça iniciava seu desfecho, eu, espectador, saboreava feliz o desfecho final do meu drama pessoal. Até que enfim tinha encontrado a resposta da dúvida que há tempos me pesava na consciência.

Refleti, mais uma vez, na certeza da resposta.

Sim, sentia-a plenamente...

Mas, a pitada do destino, dá seu toque:

Você, por acaso, é dono do seu destino? Pode muda-lo a seu bel prazer? E os demais, os laços que criou no decorrer de tanto tempo, onde estariam, como ficam?

No meio dos aplausos da plateia aos atores agradecidos, os meus iam também à minha resposta definitiva que a razão e o bom senso me indicaram ser a melhor:


“Não Sei, Pode Ser,Talvez”...

A FORÇA DO AMOR! - Carlos A. Cedano



A FORÇA DO AMOR!
Carlos A. Cedano

Nós já tínhamos nos visto antes, e foram muitas vezes. Durante um tempo foi uma entendimento sem palavras, só olhares e sorrisos sutis. Aos poucos a gente foi se “conhecendo”: mesma pipoca doce, mesmos horários e filmes, e cada vez mais próximos nas filas das bilheterias. Foi um flerte bonito, sem presa, gostoso!

 E aconteceu o que ambos queríamos: sentar juntos! Antes de começar o filme, ele virou-se para mim e disse:

         — Conheço algumas coisas sobre você, mas gostaria saber teu nome.

         — Silvia. E o seu? Respondi.

         — Armando! Gostaria tomar um café com você quando sairmos, você topa? Continuou ele.

         — Sim. - respondi no momento que o filme se iniciava.

Durante uma hora e meia houve olhares furtivos e movimentos frequentes que denunciavam nossas recíprocas emoções a flor da pele. Eu não conseguia concentrar-me no filme, estava muito ansiosa!

 Caminhamos até um café, que já conhecia, e onde o tinha visto pela primeira vez. Falamos de nossos gostos e preferências. O clima da conversa foi sem pressa e sem monopólios da palavra! Pegou minha mão, e gostei muito!

Nas semanas seguintes, tivemos teatro, restaurantes e conversamos sobre projetos de vida, famílias e até de hobbies e esportes praticados.

        —Silvia -  disse-me - gostaria te levar a dançar em um lugar muito legal! O que acha?

        — Acho que você demorou um pouco! - respondi com um sorriso e um olhar malicioso. Começava a descobrir em mim coisas que desconhecia. Ousadia, por exemplo!

Armando escolheu um lugar que parecia feito só pra nos dois. Dançamos o tempo todo e de tudo! Sentia-me feliz e sedutora. Na primeira música romântica que tocaram dançamos “olhos nos olhos”, e depois de rosto colado. Estávamos totalmente apaixonados!

Saímos cedo da danceteria.

        — Vou te levar ao meu apartamento,  você ainda não o conhece. Vai gostar. -  disse ele ao mesmo tempo em que eu debruçava  a cabeça  em seu ombro, e seguimos.

Beijaram-se demorada e intensamente. Sem tons de cinza, foram passando do azul sereno para, pouco a pouco, atingir o vermelho da paixão! Quando o amor atingiu seu ápice o casal foi envolvido por um intenso silêncio e tranquilidade. O mundo lá fora não existia!

Nos dias que se seguiram, Silvia atraia a atenção dos colegas de trabalho,  pelo rosto de felicidade, e  sorriso que iluminava o ambiente. Maria, sua melhor amiga e confidente, já adivinhava.

Um ano depois, eles estavam casados. 

Passaram-se alguns anos, o casal viajava constantemente. Armando para atender seus clientes como advogado especialista em contratos internacionais,  e Silvia para participar de eventos e seminários. Estavam bem de vida, e quando possível, faziam  viagens juntos. Mas, era uma vida tensa, sufocante. 

Na volta de uma viagem longa, Armando chegou a casa, sabendo que não encontraria a esposa, que somente chegaria em três dias. Armando aproveitou para refletir e avaliar a vida que estavam levando. Um dia-a-dia exigente de compromissos profissionais que tinham tomado conta de suas vidas.

Silvia chegou cansada e com pouca energia, beijou Armando, pediu licença e foi tomar um banho demorado. Ao voltar deitou, e em pouco tempo estava dormindo.

No dia seguinte era sábado, ele acordou cedo, porém esperou que ela acordasse. Ela despertou olhando para Armando e sorriu dizendo:


        — Bom dia meu amor, como foi sua viagem?

        — Minha querida,  há meses sinto dificuldade para viajar a trabalho. Não gosto ficar longe de você, e nem sempre tenho certeza de que vou encontrá-la na volta. Nossas viagens têm sido uma sucessão de desencontros e ausências. Até nossas férias têm sido condicionadas por questões de negócios urgentes e imprevistos! Você acha que podemos continuar a viver assim? – sondou ele.

        — Que bom que você me diz isso, sinto o mesmo que você,  e acho que nenhum esforço profissional, mesmo que bem sucedido, pode justificar a destruição de nosso carinho, de nossa relação! E a gente se ama tanto, né meu amor! - Disse Silvia explodindo num choro longo tempo contido.

Após alguns dias, decidiram sair de férias, a rigor, as primeiras desde o casamento. Salvo Maria, ninguém teve noticias deles durante um mês.    
                                                      
Na volta o casal foi se desfazendo discretamente de propriedades, transferindo seus negócios,  e optaram por uma vida mais simples. Onde? Só Maria sabe e guarda bem o segredo! Porém, de tempo em tempo algumas noticias chegam. Eles já têm um casal de filhos, Silvia trabalha com artesanato,  e Armando é  professor e orientador de adolescentes.

Uma noite quando Silvia saia do banheiro envolta numa enorme toalha, enquanto caminhava pelo quarto  lembrando do passado,  deixou cair a toalha mostrando  a nudez de seu belo corpo, e se aconchegou nos braços do marido. Essa noite eles se amaram como se fosse a primeira vez: sem falsos pudores, sem medos e sem restrições!


Susto pra Valer - José Vicente J. de Camargo


Susto pra Valer
José Vicente J. de Camargo

Eu o definiria como magro, média estatura, nem feio nem bonito, nada que o distinguisse dos demais da turma, a não ser um cacoete ao falar que o fazia engasgar ao pronunciar o “r” como se fosse uma metralhadora: rrrrrr...

Isto o fazia ficar nervoso e nesta situação o melhor era evitar qualquer comentário, pois o mínimo que fosse, o deixava bastante transtornado, podendo chegar aos socos e pontapés.

Apesar de nunca ter brincado com seu defeito vocal, o que hoje chamam de bullyng, sentia que eu não lhe era muito simpático.

O motivo não conseguia entender.

Compadecia-me do seu desespero e da sua angústia em querer disfarçar  o defeito, escondê-lo dos demais como algo que o deixava em uma posição de inferioridade. Por isso, sempre que possível, procurava atendê-lo  em suas solicitações de ser o goleiro nas partidas de futebol, enquanto minha preferência era pelo ataque, de descobrir o telefone das garotas que ele gostava, de transmitir os recados, de trocar a cerveja quente pela gelada, enfim tudo que lhe pudesse minimizar o vexame sonoro.

Por isso, aquela cisma dele para comigo, não tinha explicação.

Um dia, fui a convite de minha namorada, sem chance de recusa, a uma palestra sobre  autoajuda a ser proferida por um dos seus professores. Lá pelas tantas, meio adormecido e chateado, procurando uma desculpa para safar-me, ouço o palestrante esclarecer o que fazer para auxiliar pessoas com gagueira:

Rápido desperto! Ouço com atenção a sugestão e já fico imaginando como aplicá-la.

Dia seguinte esperei o “soluço”, como era apelidado pelos amigos, na saída do emprego e, por trás sem ele perceber, murmurei no ouvido:

− Seu rato!

Ele se vira vermelho, bochechas estufadas, olhos arregalados e diz:

 Ra, Ra, Ra---to é a sua ma...

Não esperei que terminasse e selei-lhe um beijaço na boca.

Ele assustado e ainda trêmulo de raiva desembucha:

− Rato é a sua mãe, seu filho da p...

Então para! Repete outra vez! Mais outra!

− Rato, Rato, Rato...

Nada de som metralha!

Olha-me branco, surpreso, sorridente, e me devolve o beijo selado:

− Obrigado! Rapagão, Rico, Risonho, Robusto, Roqueiro, Romântico, Raridade de se encontrar. Mas, não me diga que você é...

− Não! Interrompo-lhe imaginando o que iria perguntar. Foi um professor de autoajuda que sugeriu que pregando um susto bem fora do comum, impensável, na pessoa com o cacoete, ele a perderia.

− Então você acertou na mosca! Nunca imaginaria um gesto seu desse tipo! Até não ia muito com sua cara pela sua voz forte e firme, que me causava uma tremenda inveja.

− Eh! Mas você não precisava exagerar, dando-me o troco na mesma moeda. Aceito como pagamento uma cerveja bem gelada, que você vai pedir. E aproveitamos para discutir a nova posição no próximo jogo, chega de ser goleiro...

OUTROS CONCURSOS LITERARIOS



Prêmio Literário Orlando Gonçalves - entrega de trabalhos até 19 junho
Portugal

A Câmara Municipal da Amadora lança a 18.ª Edição do Prêmio Literário Orlando Gonçalves, este ano dedicada à modalidade de Ficção Narrativa. Esta iniciativa visa incentivar a produção literária, contribuindo desta forma para a defesa e enriquecimento da língua portuguesa, bem como homenagear a memória do jornalista e escritor Orlando Gonçalves.

Os trabalhos deverão ser entregues até dia 19 de junho de 2015.

Entre outros requisitos, as obras a concurso devem ser escritas em língua portuguesa, inéditas (trabalhos originais, não editados e que não foram objeto de prémios em concursos literários ou divulgados por qualquer outra forma). A escolha do tema fica a cargo do autor.
O júri que procederá à seleção da obra premiada é composto por três elementos: um representante da Câmara Municipal da Amadora, um representante da Sociedade Portuguesa de Autores e um representante da Associação Portuguesa de Escritores.

Este ano, a sessão pública de entrega do galardão terá lugar no dia 15 de outubro, pelas 19.00h, no auditório da Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, onde será entregue ao autor vencedor um prêmio de cerca de 5 mil euros. A autarquia patrocinará ainda a publicação da obra vencedora.

O Prêmio – breve nota
O Prêmio Literário Orlando Gonçalves, instituído em 1998 pela Câmara Municipal da Amadora, tem por objetivo, por um lado, homenagear a memória do escritor e jornalista Orlando Gonçalves e por outro incentivar a produção literária, contribuindo para a defesa e enriquecimento da língua portuguesa.

Este prêmio destina-se a galardoar, anualmente e de forma alternada, uma obra de ficção narrativa e um trabalho jornalístico de investigação ou grande reportagem.
Orlando Bernardino Gonçalves, um dos precursores do movimento neorrealista português, foi escritor e jornalista de imprensa escrita e de rádio, tendo sido inclusive Diretor do jornal Notícias da Amadora durante mais de trinta anos, atividade que sempre desenvolveu a par das suas intervenções cívicas e políticas na defesa dos direitos e deveres de uma cidadania plena, consciente e esclarecida, sustentada pelo enriquecimento intelectual.

Orlando Gonçalves foi agraciado com a Medalha de Ouro da Cidade da Amadora em 1989, em 1993 o seu romance Enredos da Memória foi galardoado com o Prêmio Literário Cidade da Amadora e em 1997 foi mais uma vez homenageado pela Câmara Municipal da Amadora, por ocasião das comemorações do 25 de Abril.



Serviço
O que? Prêmio Literário Orlando Gonçalves - entrega de trabalhos até 19 junho
O quem? Autores maiores de 18 anos com textos em português
Quando? Até 19 de junho de 2015
Onde? Portugal
Como? envio pelo correio

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Prêmio Literário Cidade de Belo Horizonte
Contos e Poesias - ate 18-05-2015

A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Fundação Municipal de Cultura (FMC), abriu inscrições para a edição 2014 do Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Essa é a mais antiga premiação literária do país. A edição deste ano irá contemplar obras em duas categorias: conto e poesia. As inscrições são gratuitas e ficam abertas até o dia 18 de maio de 2015.

A obra vencedora em cada categoria receberá um prêmio de 50 mil reais. Podem participar do concurso apenas pessoas físicas brasileiras, natas ou naturalizadas. 

As inscrições podem ser realizadas até o dia 18 de maio de 2015, de terça a sexta (exceto feriados), das 9h às 17h, pessoalmente na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, ou enviadas via Correios para a Rua Carangola, 288, térreo, Santo Antônio, Belo Horizonte/MG – CEP: 30330-240.




Serviço
O que? Prêmio Literário Cidade de Belo Horizonte
O quem? Pessoas físicas brasileiras, natas ou naturalizadas. 
Quando? Até 18 de maio de 2015
Onde? Belo Horizonte - MG
Como? via Correios para a Rua Carangola, 288, térreo, Santo Antônio, Belo Horizonte/MG – CEP: 30330-240.

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6º Concurso Cidade de Gravatal de Literatura - Conto - Poesia
Ate 30-04-2015


A Biblioteca Pública Marlene Aspis, com o apoio da Secretaria Municipal de Turismo da cidade de Gravatal, em Santa Catarina, visando valorizar a atividade literária, promove o presente concurso, de acordo com o regulamento abaixo:

REGULAMENTO
1. Os candidatos podem concorrer nas modalidades de Conto e Poesia, com até (3) três trabalhos por modalidade.

2. Os textos deverão ser originais, isto é, nunca terem sido anteriormente publicados em jornal, revista ou livro.

3. Os trabalhos deverão ser escritos em português, com tema livre, datilografados, xerocados ou digitados em papel A4, em uma só face do papel, e enviados em (3) três vias. 

4. As poesias não têm limitação mínima ou máxima de extensão. Os contos terão limite máximo de (5) cinco páginas, em letra tamanho 12, fonte Arial, espaço 1.5.

5. Cada trabalho deverá ser identificado apenas pelo titulo e pelo pseudônimo, não podendo constar nada que identifique o nome do autor.

6.Os até (3) três textos de cada categoria deverão estar contidos em um só envelope, e com um mesmo pseudônimo. Este envelope será acompanhado por um envelope menor, lacrado, que terá na parte externa a indicação da modalidade a que concorre -- conto ou poesia -- titulo(s) do(s) trabalho(s) e o pseudônimo do autor. No interior deste envelope uma folha indicará: nome do concorrente, pseudônimo, título(s) do(s) trabalho(s), endereço completo, com telefone e E-mail. Não serão aceitos textos enviados por E-mail.

7. Caso o concorrente desejar participar das duas modalidades -- conto e poesia -- deverá enviar dois envelopes distintos, um para cada categoria.

8. Os três melhores trabalhos de cada categoria, além de receberem diplomas alusivos, farão jus a seguinte premiação:
1º Lugar – R$ 300,00
2º Lugar – R$ 200,00
3º Lugar – R$ 100,00

9. A Comissão Organizadora do concurso poderá, a seu critério, editar ou não uma coletânea com os trabalhos premiados. Para tanto, os concorrentes, ao enviarem seus textos, concordam em ceder seus direitos para a referida edição.

10. Os trabalhos serão enviados, diretamente ou pelo correio, até o dia 30 de abril de 2015 para:
BIBLIOTECA PÚBLICA MARLENE ASPIS
SECRETÁRIA MUNICIPAL DE TURISMO DE GRAVATAL
SC-438, TREVO DAS TERMAS 
CEP 88735-000, GRAVATAL - SANTA CATARINA
11. Informações adicionais serão prestadas pelo telefone (48) 3648 2376 ou pelo E-mail: turismo@gravatal.sc.gov.br e aaspis@terra.com.br.

Serviço
O que: 6º Concurso Cidade de Gravatal de Literatura - Conto - Poesia
Quem? Pessoas interessadas
Onde Gravatal/SC
Quando? 30/04/2015
Como? Envio pelo correio

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9º Concurso Nacional de Contos 

Livro de Graça na Praça-Academia Mineira de Letras

A Academia Mineira de Letras e o projeto Livro de Graça na Praça tornam publico que encontrar-se-ão abertas, no período de 2 de fevereiro de 2015 a 30 de abril de 2015, inscrições para concurso literário, na categoria de contos, que se realiza como parte do evento LIVRO DE GRAÇA NA PRAÇA, a ocorrer, pela 13ª vez, em Belo Horizonte no mês de setembro deste ano. 

O tema deverá estar relacionado com determinado ditado, provérbio ou locução popular, à escolha de cada autor. P.ex.: “cão que ladra não morde”, ou mostrar “com quantos paus se faz uma canoa”, etc.


Serviço
O que? 9º Concurso Nacional de Contos
O quem? Qualquer pessoa, independente de nacionalidade
Quando? Até 30 de abril de 2015
Onde? Belo Horizonte - MG
Como? Via Correio: “LIVRO DE GRAÇA NA PRAÇA – 9º CONCURSO NACIONAL DE CONTOS”, Avenida Augusto de Lima, 407, conj. 703, CEP 30.190-000, Belo Horizonte, MG

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O HOMEM QUE NÃO VOLTOU - Mario Tibiriçá




O HOMEM QUE NÃO  VOLTOU
Mario Tibiriçá

Ela  falecera há tempos.

Ele já havia esquecido de como eram convidativos seus olhos, sua voz cativante, e beijos maravilhosos que só ela sabia dar.
João  Pedro Ferreira,  trinta e dois anos, aos poucos perdia a memória de  Jandira sua mulher...

Moravam há anos naquela casinha, não tinham  filhos,  e João Pedro agora não pensava mais em casamentos. Estava  apenas dedicado ao seu trabalho.

Artesão de  acessórios para encilhar cavalos, mulas de carroças, selas especiais e arreios  em geral, havia montado na cidade, uma loja com pequena oficina, onde comercializava seus produtos.

Não  havia sitiante, fazendeiro e mesmo morador dos arredores,  que não conhecesse João Pedro.

Todas  as manhãs lá estava ele abrindo sua loja para a exposição dos produtos e oficina ao fundo.

Recentemente passou por sua loja, um cidadão do sul do país, turista, que apreciou bastante seus produtos, e até mesmo fez interessantes comentários, sobre seu provável sucesso, naquela região. O assunto  perturbou João Pedro.

À noite em seu catre, pensou muito sobre o assunto. As princesas dos sonhos dos outros, passeavam sem freios no seu pensamento. Ele nunca quis ser amorfo no mundo.

Era  feliz alí, tinha bons amigos , era respeitado e não tinha  inimigos, mas a gloria noturna de ser grande não sendo nada, atiçou sua resolução :  VOU EMBORA PARA O SUL.

No dia seguinte a lojinha não foi aberta, nem depois, nem depois, nem depois....

Os vizinhos amigos, os desconhecidos, e todos se espantavam pelo desaparecimento de João Pedro. Este fora embora.

E o tempo passou...

As crianças cresceram, a cidade cresceu e João  Pedro não viu.

No sul rico, ele procurou uma cidade média, próxima de fazendas, gado, sitiantes e agricultores, montou sua loja e a pequena oficina.

Após algum intervalo doloroso, horas  lentas e vazias, começou o sucesso. Em poucos anos sua técnica na fabricação de freios para  cavalos,  foi integralmente adotada pela população local.

Suas selas, frequentavam  páginas das notícias de  bons negócios.

Seu trabalho fora reconhecido.

A radio da cidade o entrevistou, e o jornal local, fez longa matéria com ele, fotos pessoais, além de  notícias sobre  seus materiais.

Alguns dias depois, numa banca de jornais de Palmeira dos Índios, um cidadão começou a gritar :  NÃO É POSSÍVEL ! NÃO  É POSSÍVEL !!!! A reportagem do jornal é sobre  João Pedro, nosso conterrâneo, tem até  fotografia, ele não mudou!
Acorreram  muitos, amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos!

João Pedro exaltado pela reportagem era cidadão de Palmeiras dos Índios, motivo de orgulho de todos. Ele não  voltou, mas embora o intervalo doloroso,  a alegria do sucesso o colocava como representante da cidade .



- Felicidade Clandestina - Clarice Lispector




Felicidade Clandestina
Clarice Lispector
Rio de Janeiro, Rocco, 1998.

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa.

Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo.

Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.

Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo.

E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar.

Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.