SANGUE NA IGREJA - Ledice Pereira



SANGUE NA IGREJA
Ledice Pereira

Fazia doze anos que eu trabalhava ali, ao lado de Padre Bernardo. Cheguei à cidade aos dezessete anos. Nem sabia o que faria naquele lugar tão distante de tudo, aonde cheguei após a morte de minha mãe, com quem eu vivia em Presidente Prudente. Ela morreu de maus tratos, sem que eu pudesse fazer algo por ela.

Ele, também recém-chegado, com apenas trinta e cinco anos, fora designado para substituir o pároco de idade avançada.

Ficara sensibilizado com minha história, me ofereceu emprego e moradia, depois eu tivera que fugir de meu padrasto que, com a morte de minha mãe, vivia me assediando.

Aos poucos  foi conquistando o povo daquela cidade carente. Organizava festas para arrecadar fundos que revertessem em prol da comunidade. Reunia a garotada, a quem pregava ensinamentos da igreja, e os envolvia em jogos e brincadeiras que os mantinham longe das ruas e das tentações.

Era um homem inteiramente voltado para a comunidade.

E, agora, ele estava ali, caído em uma poça de sangue, no meio da sacristia e justamente eu o havia encontrado.

Meu coração batia descompassadamente e eu nem sabia o que fazer, por onde começar. Estava paralisada. Nos meus vinte e nove anos,  jamais tinha vivido uma situação como aquela.

Chegou o sacristão, os devotos, que vinham para a Missa das oito e, todos pasmos, se perguntavam o que teria acontecido.

Os mais controlados resolveram ligar para o Departamento de Polícia da região.

Depois de quarenta e cinco minutos, chegaram o Delegado, dois policiais e os paramédicos que vinham numa ambulância do Samu.
Isolaram a área, impedindo que a população, que ia chegando, avisada do acontecido, adentrasse à igreja.

Algumas mulheres choravam. Os homens, em rodas, faziam suposições do que poderia ter havido no interior da sacristia, que não apresentava sinais de arrombamento.

O que vai ser de mim sem a proteção e estímulo de Padre Bernardo.”- pensava eu. “Foi ele quem me fez terminar meus estudos e me incentivou a prestar concurso público para professora na Escola Municipal. Graças a ele, consegui alugar uma casinha pequena, perto da escola, e ali me instalar. Eu e meu cachorro Lord, um vira-latas que me adotou.”

Estava tão absorta com meus pensamentos que nem percebi a chegada dos peritos acompanhados da investigadora Lenita Fragoso.
Eu já a vira na TV, em entrevista, mas nunca ao vivo, tão de perto.

Era jovem, teria uns trinta e sete anos talvez, era alta e tinha um ar determinado. Vestia um conjunto de calça e blazer azulão, calçava uma sapatilha e tinha os cabelos loiros presos num coque  despojado.
Tinha em mãos uma caderneta onde fazia anotações.

Mesmo atônita, eu prestava atenção em tudo que ocorria e observava que a investigadora examinava cada milímetro do local, questionando o sacristão, os policiais e alguns curiosos.

O corpo de Padre Bernardo foi retirado pelos paramédicos e levado para o Instituto Médico Legal da cidade mais próxima.

Nesse momento, comecei a chorar copiosamente o que fez com que as pessoas me vissem e viessem me amparar. Eu não podia me conformar com a morte de um homem tão bom.

A diretora da escola, que também foi atraída ao local, me conduziu até minha casa aconselhando-me a tentar descansar.

Somente no final da tarde do outro dia a autópsia foi concluída. A causa da morte foi insuficiência respiratória e hemorragia interna, devido a várias facadas que ele levara nas costas e que atingiram seriamente o pulmão.

Lenita Fragoso me procurou nos dias que se seguiram. Fez várias perguntas se desculpando por perceber que eu estava muito abalada.
Contei-lhe como havia chegado ali, fugida de casa e como fora acolhida pelo Padre. Como tinham sido aqueles doze anos para mim, para o padre e para a comunidade, principalmente para garotada pobre que ele orientava, cuidando para que não caíssem no mau caminho das drogas e de outros vícios. Ele os ensinava música e os iniciava nos esportes, contando para isso com voluntários, alguns aposentados, velhos treinadores de futebol e voleibol.

Ele não possuía inimigos, ao menos que eu soubesse.”

A partir do que lhe contei, e do que apurou com o sacristão e com a comunidade, a investigadora arregaçou as mangas e passou a estudar os fatos que culminaram com o assassinato.

Depois da Missa de sétimo dia, rezada por um padre da cidade vizinha, as coisas começaram a voltar lentamente ao normal, embora a falta do padre se fizesse sentir em todos os lugares.

Na escola, percebia-se que os alunos estavam desatentos e sem vontade de aprender. Alguns cabulavam aula e ficavam em rodinhas conversando. Disfarçavam quando eu ou outra professora nos aproximávamos. Parecia que sabiam de alguma coisa que nós desconhecíamos.

Passados seis meses de intensa investigação, fomos surpreendidos uma tarde pela chegada da Dra. Lenita acompanhada de duas viaturas.
Vários alunos de dezesseis e dezessete anos, convocados a depor, confirmaram as suspeitas da investigadora.

Meu padrasto, tendo descoberto meu paradeiro e inconformado com a proteção que o Padre dedicava a mim e aos garotos menores, impedindo-os de entrar no mundo do crime, encomendou a um grupo de traficantes, que agia na redondeza, a morte de Padre Bernardo.


Felizmente e graças à atuação da Dra. Lenita Fragoso, a Polícia Federal  conseguiu prender o mandante e toda a quadrilha, enviando-os para o presídio de segurança máxima de Presidente Prudente.

CERVANTES - Jeremias Moreira



CERVANTES
Jeremias Moreira

Concentrado na troca das tábuas apodrecidas do mangueiro, Otaviano demorou a perceber a investida de Cervantes. Quando tentou escapar já era tarde. Foi atingido em cheio na lateral esquerda do dorso e arremessado a mais de doze metros. Teve o pulmão, perfurado e diversas costelas quebradas. De longe, Zé Antônio assistiu a cena. Aguardou um tempo, tratou de atrair o touro para outra remanga, fechou a porteira e foi olhar Otaviano. Estava morto! Em seguida ligou para o Dr. Adilson Nunes.

 —  Serviço feito!

O Dr. Adilson comunicou à polícia, aguardou o médico legista chegar de São José do Rio Preto e os levou até a fazenda. Não havia muito o quê fazer. Otaviano se descuidara! Cometera o erro fatal de não verificar se a porteira, que ligava a remanga à seringa, onde o touro se encontrava, estava trancada.

A polícia concluiu a investigação e classificou o caso como um acidente.

Se o assunto não ficava de todo resolvido, o principal obstáculo, sim!

Essa história começou dois anos antes com o suicídio de Armando Barreto, o Barretinho. Atolado em dívidas, com a fazenda hipotecada, Barretinho entrou na sede do Grêmio Esportivo Rui Barbosa disposto a se livrar em definitivo da agonia do endividamento. De um jeito ou de outro! Atravessou o salão e caminhou obcecado para os fundos, onde as apostas eram mais altas. A mesa era de pôquer, e Armando foi o oitavo jogador a sentar-se.

Se tivesse noção de estatística, ou se naquele momento conseguisse ponderar, perceberia que a probabilidade de ser bem sucedido era igual à zero. 

Ou será que Barretinho sabia, e sua intenção era mesmo deixar o caos instalado atrás de si? Ao final de onze partidas, perdeu tudo o que já não possuía inclusive a fazenda, que tecnicamente já pertencia ao banco.  Assinou as promissórias e a declaração de dívida, levantou-se com uma tranquilidade inacreditável e saiu do clube.

Eram duas horas e quarenta da madrugada de uma sexta-feira. A noite estava bonita, a temperatura agradável e a rua sossegada. Barretinho caminhou até o carro, entrou, acendeu um cigarro, ficou um tempo em silêncio e em seguida ligou o rádio. Juliano e Jardel cantavam Fim de Noite. Depois de algumas tragadas, apagou o cigarro no cinzeiro do carro e pegou o revólver no porta-luvas.  Alguns minutos depois, o pessoal do clube ouviu o estampido de um tiro. Na mesa de pôquer, todos se olharam tensos. Deduziram o que acabara de acontecer. 

Membro de uma família tradicional da região, o suicídio de Barretinho chocou a pequena cidade. Deixou a mulher viúva, cinco filhos órfãos e uma lista enorme de confusões jurídicas para serem resolvidas. Seu advogado era o Dr. Adilson Nunes.

Os credores também se abalaram, porém por outros motivos. Temiam uma longa batalha judicial e a eventualidade de não receberem nada. Por isso, quando o Dr. Adilson iniciou seu malabarismo de acertos e negociações, não encontrou muita resistência. Por um valor bem abaixo, ele mesmo conseguiu quitar as dívidas de Barretinho. Ao final de tudo, como um bom e astuto lobo em pele de cordeiro, deu algum dinheiro para a viúva e manipulou para que a fazenda Tapuia, que há tempos cobiçava, fosse vendida, muito abaixo do preço que valia, a um testa de ferro seu.

A ética do Dr. Adilson Nunes não ultrapassava o nível do lodo. Utilizava-se de qualquer meio para atingir seus objetivos. E sabia agir. Bom advogado, vencia a maioria dos casos em que se envolvia e por isso era bastante solicitado. Enriqueceu aproveitando-se de clientes incautos. Estava com cinquenta e seis anos, tinha três filhos e vivia às turras com a mulher, Dulcinda. Casou-se apenas interessado na fortuna do sogro. Em nenhum momento abandonou seu hábito de solteiro mulherengo. Continuou a frequentar bordéis, onde alternava mulheres como amantes exclusivas. Se fora um marido ausente, como pai não foi diferente. Sobretudo nos últimos três anos, quando conheceu Marlize, numa boate de luxo em São José do Rio Preto.

Marlize Spoletto tinha vinte e sete anos e fazia programas para sustentar os estudos. Ela pretendia ser advogada e cursava o quinto ano na faculdade de direito na cidade. Adilson se encantou pela garota como nunca acontecera por outra mulher. Instalou-a num apartamento e passou a mantê-la.

Dulcinda sempre soubera das escapadas do marido. A relação fria que mantinham não a incomodava. Pelo contrário, não gostava muito de sexo e sentia-se aliviada com o distanciamento entre eles. Mas, a mudança no comportamento de Adilson chamou sua atenção. Sua preocupação era mais com o patrimônio da família do que em perder o marido. Os filhos já estavam crescidos e desfazer o casamento, nesse momento, não causaria muitos danos. Começou a cobrar explicações e a ameaçá-lo com o divórcio. A eventualidade de uma separação foi um motivo a mais para Adilson fazer de Marlize a compradora da Fazenda Tapuia.

Há um ano ela havia concluído a faculdade e embora vivesse no bem bom que Adilson lhe proporcionava, tencionava trabalhar em algum escritório de advocacia. Ele era contra. Preferia tê-la à sua disposição. Por isso, mesmo sabendo da sua condição de laranja, ela se entusiasmou com a propriedade em seu nome. Levou a ideia a sério e manifestou seu desejo de se envolver nos assuntos agropecuários e, quem sabe, até mudar-se para a fazenda.

Quem não gostou nadinha dessa ideia foi Antônio José da Cunha, ou Zé Antônio, um mulato alto e forte, ex-peão de rodeio, de trinta e oito anos, e uma espécie de faz tudo para o Dr. Adilson Nunes.

Nascido e criado no campo, Zé Antônio estudou na Escola Técnica de Agricultura de Jaboticabal até o penúltimo ano, quando largou tudo para ser peão de rodeio profissional.  Impulsivo e imaturo, não soube conviver com o prestígio e a fama. Perdeu-se nas drogas e     envolvimento em brigas. Esteve implicado num caso nebuloso de espancamento e morte de um tropeiro, dono de uma companhia de rodeio. Foi o Dr. Adilson quem o defendeu e conseguiu sua absolvição. Mas as portas do mundo do rodeio se fecharam para ele. Seu pai era administrador de uma grande fazenda, evangélico e com valores morais extremamente rígidos.  Pai e filho trabalharam juntos quando Zé Antonio era adolescente, ocasião que foram bastante próximos. Entretanto, depois de abandonar os estudos e dar o rumo que deu à sua vida, o pai também o rejeitou.  Ressentido com o mundo, Zé Antônio se apegou ao trabalho oferecido pelo Dr. Adilson.  A grana era boa e, como já estava no atoleiro, um pouco mais de lama não faria diferença.

Adilson legalizou a transferência da Tapuia em nome de Marlize. Esperava que Zé Antônio a tornasse produtiva. Nos últimos anos, a decadência pessoal de Barretinho se estendeu à fazenda e andava tudo no mais completo abandono. Zé Antônio viu nessa empreitada a oportunidade de sua redenção. Entusiasmado, contratou um agrônomo e traçaram um plano de trabalho. O maior problema era a carência de água, o que, ao contrário, abundava nas terras de Otaviano Farias, o vizinho.  Um riacho cruzava suas terras e Otaviano permitira que Barretinho utilizasse uma passagem para seu gado chegar até a água.  Porém, quando ele se desfez do rebanho para pagar dívidas, Otaviano bloqueou o acesso.

Nessa ocasião, o único animal preservado por Barretinho foi Cervantes, um touro de mil e duzentos quilos, da raça marchigiana, que fora famoso por sua atuação em rodeios e que era pretendido por muitos criadores. Ele o comprara para ser reprodutor quando planejou criar touros de rodeio. Com sua vida em rota descendente, tudo foi por água abaixo.

Depois da fatalidade a Fazenda de Barretinho deveria ir a leilão. Muitos interessados queriam arrematá-la. Otaviano era um deles e não ficou nada contente quando viu a manipulação de Adilson a favor de tal Marlize Spoletto. Em nome dela, ele pagara todas as dívidas de Barretinho e a tornara a única credora, além do Banco do Brasil. Reivindicando preferência na aquisição da fazenda, Adilson conseguiu impedir o leilão. Fez um acerto com o banco, pagou uma importância para a viúva e apresentou Marlize Spoletto como a cliente em nome da qual agira.
Foi assim que Adilson fez da amante a nova proprietária da Fazenda Tapuia.

Otaviano conhecia as falcatruas do Dr. Adilson Nunes e logo entendeu sua jogada. Percebeu que Marlize não passava de uma testa de ferro. Contrariado, decidiu não dar passagem à água para a nova proprietária. Foi o que comunicou a Zé Antônio ao ser procurado por ele.

Além da fazenda, Otaviano Faria tinha uma empresa de construção, de reforma e de manutenção de cercas, estábulos e mangueiros. Esse era seu principal ganha pão.

Para abrandar os ânimos do vizinho, Adilson engendrou um plano de contratá-lo para reformar as cercas e o mangueiro da Tapuia. Talvez essa aproximação o fizesse mudar de ideia.  

Mais uma vez, Otaviano enxergou a jogada concebida por Adilson. Embora sua vontade fosse recusar, tinha como princípio não jogar dinheiro fora. Afinal, trabalho é trabalho. Apenas não cairia na lábia do advogado. Aceitaria a empreitada, ganharia seu dinheiro e não cederia na questão da água.

Após três semanas de trabalho, Otaviano concluiu o reparo das cercas e foi trabalhar no mangueiro. Lá, Adilson o abordou com o assunto do acesso ao riacho. O vizinho explicou que adquirira mais gado e precisava ocupar o máximo de área para pastagem. O corredor utilizado por Barretinho também virara pasto.

Enquanto conversavam, Cervantes estava no piquete ao lado. Ao vê-los, o touro se abestou todo. Investiu contra eles com ímpeto de derrubar a cerca. Otaviano, que conhecia histórias da ferocidade de Cervantes, comentou:

 Ainda bem que estamos separados por uma cerca alta de madeira. Se fosse de arame, o bicho levava tudo no peito!

Naquela noite, Aluízio encontrou a solução para o assunto da água. Acordou Zé Antônio ainda de madrugada, lhe passou o plano que arquitetara e foi para a cidade.

Quando Otaviano chegou pela manhã, encontrou Cervantes trancado na seringa. Ouviu do peão que o touro aguardava o veterinário. Ele tinha uma contusão na pata e o tratamento precisava ser feito no tronco.

Cervantes estava bastante irritado no espaço exíguo da seringa. Lugares apertados o deixavam estressado. Talvez o fizessem recordar os claustrofóbicos bretes dos rodeios.

Otaviano e o ajudante foram para a remanga do fundo onde trabalharam toda a manhã. Zé Antônio se manteve atento. Pouco antes do almoço, finalizaram aquela divisão e seguiram para a central, que se comunicava com a seringa e viram o touro bufar. Subiram na plataforma de trabalho e Otaviano contou algumas das façanhas de Cervantes, quando era considerado o terror das arenas de rodeio. Enquanto narrava tiveram amostras ao vivo, pois o monstro se arremeteu diversas vezes na direção deles. Parecia querer escalar a cerca.  

De onde se encontrava, Zé Antônio assistiu a cena e gostou que atiçassem a fúria do bicho!

Pouco depois, o ajudante saiu com a camionete e Otaviano retomou o trabalho. Era a oportunidade que Zé Antônio esperava. Aproximou-se sorrateiro da seringa e destravou a porteira.  Afastou-se e torceu para Cervantes fazer a sua parte.

Ele fez!

Aparentando consternação, Adilson prestou toda assistência à família de Otaviano. Sugeriu que a viúva mantivesse a equipe de cerqueiros para terminar o serviço iniciado pelo marido. Nos meses seguintes mostrou-se prestativo e ganhou a confiança da família. Quando sentiu que era o momento, sugeriu que vendessem as terras. Ele tinha um comprador e prometeu conseguir um preço vantajoso.

O comprador era a compradora Marlize Spoletto que anexou as terras de Otaviano Farias à Fazenda Tapuia.

Com livre acesso à água, agora podiam criar gado!

Adilson e Marlize estavam juntos há quatro anos. Ele se derretia de paixão. Ela nunca! Sempre encarou o amante como um provedor a quem prestava um serviço exclusivo. Um dia aquilo acabaria e ela tinha que se garantir. Sabia que ter a Fazenda em seu nome não significava nada. Precisava de alguma coisa concreta para o seu futuro. Pelo menos algo que garantisse uma boa aposentadoria. Voltou a acalentar a ideia de administrar a Fazenda. Nas suas idas para lá, demonstrava interesse no que Zé Antônio vinha fazendo e percebeu que ele era bom em assuntos técnicos, mas deixava a desejar nos administrativos. Então, passou a pesquisar sobre administração de fazendas e a frequentar seminários de agronegócio. Aos poucos, foi dando algumas sugestões que Zé Antônio recebia de má vontade. “Até pouco tempo essa garota não passava de uma puta de luxo e agora vem com mandamentos!”

Inconformado, decidiu que teria uma conversa franca com Adilson. Queria que ele colocasse limites na namorada. Matreiro, Adilson percebeu a irritação do peão e tomou a iniciativa. Disse o quanto apreciava seu trabalho e pediu paciência com Marlize:

-- No fundo acho bom o interesse dela. Mas ambos sabemos que é fogo de palha. Logo acaba. Não leva a sério, só ouça as sugestões e depois faça do seu jeito. Sabe Zé, às vezes, é preciso levar certas coisas em banho-maria.

Esperta, Marlize percebeu rápido o novo comportamento de capataz. Mas, ele não tinha a sutileza e a perfídia que ela e Adilson tinham. Zé Antonio era transparente e não conseguia dissimular seu descontentamento. Fez a leitura da situação e compreendeu que para obter o controle da fazenda deveria mudar a tática e talvez seduzir o peão. Ganhar a sua simpatia a qualquer custo. Material para isso ela tinha de sobra.  Bonita, sedutora e um corpo que enlouquecia os homens. Testaria a fidelidade de Zé Antônio ao chefe.

Nunca expusera sua vida ostentosa ao risco e sempre se manteve fiel a Adilson. Resistira com determinação à inúmeros assédios tentadores. No entanto talvez chegara a hora de dar uma virada nos acontecimentos.

Taxativa, impôs para o amante sua decisão de morar na fazenda. Vivendo o dia a dia poderia entender melhor as necessidades e ajudar nas soluções. Adilson tentou argumentar, falou do melindre de Zé Antônio. Não teve jeito, ela estava determinada a assumir a direção da Tapuia. Disse que ouviria o peão e faria tudo para trabalhar em conjunto com ele.

— Com o tempo ele vai perceber que minhas ideias são boas e acatá-las. Se não aceitar, pior para ele.

Hesitante, Adilson comunicou a Zé Antônio que Marlize passaria a morar na fazenda. Ele teria que se mudar para uma das casas de colono. A pronta aceitação do peão o surpreendeu e o fez supor que tudo ficaria bem. Porém, Zé Antônio só aceitou porque sabia que não adiantava nadar contra a corrente. Melhor se unir ao inimigo e dar corda para ele se enforcar.

Marlize instalou-se na casa na semana seguinte. Também ficou intrigada com a postura cordata do rapaz. Desconfiou, mas acreditava na sua perspicácia e que dobraria o peão.

Nos primeiros dias, ela verificou que Zé Antonio fizera mudanças notáveis. Elogiou. Ele recebeu com frieza.

À medida que os dias corriam, Marlize se deu conta de que gostava da proximidade do rapaz. Ele acatava ordens, mas não era subserviente. Pelo contrário, colocava seu ponto de vista sem vacilar. Tinham discussões frequentes que a perturbavam. Ela não conseguia identificar o porquê. Percebeu que, ao contrário de conquistá-lo, ela que estava se atraindo. Ele era um tipo de homem que, de certa forma, agrada as mulheres. Era alto, forte e, em certo sentido, bonito. Modos rudes, quase um selvagem. Sem se dar conta, o rapaz passou a povoar suas fantasias. Ele, ao contrário, parecia não notá-la. Não era isso que ela planejara.

A relação de Adilson com Dulcinda se deteriorara de vez e ele saíra de casa. Estavam se divorciando e ele mudou-se para um hotel em São José do Rio Preto.

Certa noite voltava de uma fazenda, onde fora visitar um cliente, por uma estrada de terra. Chovia muito e seu Honda Civic era inadequado para a situação. Derrapava a todo instante no barro escorregadiço. Terminou caindo numa valeta. Teve que caminhar alguns quilômetros para pedir ajuda. Permaneceu o tempo todo com a roupa encharcada e já era tarde quando chegou ao hotel. Sentia-se exausto, não desceu para jantar, tirou a roupa, enfiou-se na cama.

Dormiu um sono atribulado. O ar abafado, o calor insuportável, a umidade elevada, o sufocavam. Sentia sobre si um enorme peso que o imobilizava. De repente, centenas de cobras rastejavam pelo seu corpo. Sentia a textura gélida dos repteis roçarem sua pele. Ficou estarrecido. Queria gritar, mas a voz não saía. Desesperado, perscrutou o lugar e se fixou em duas cobras que se acasalavam. O macho era enorme e infligia à fêmea. Embora demonstrasse prazer, ela lhe suplicava ajuda. Adilson sentia-se impotente. Por mais esforço que fizesse, não conseguia se mover. Súbito, as demais cobras desapareceram e restaram apenas as duas que copulavam. A fêmea se extasiava com a violência do macho, porém continuava implorando sua intervenção. E, ele, incapaz de qualquer movimento. De repente as cobras se transformaram em Zé Antônio e Marlize. Num esforço supremo Adilson deu um grito lancinante. Acordou encharcado de suor, muita sede e febril!

A chuva violenta, os estrondos dos raios e a ansiedade não deixavam Marlize dormir. Não se acomodava na cama. Sentia calor e deu graças por Adilson estar na cidade. Levantou-se, vestiu um penhoar leve, pegou um copo d’água e saiu para a varanda.  Avistou a casa de Zé Antônio. Havia luz. Num impulso, caminhou sob a chuva até a casa e bateu na porta. Quando Zé Antônio abriu, a roupa molhada de Marlize deixava transparecer sua nudez. Ela entrou, postou-se na frente dele e deixou cair o penhoar. Quando ele a possuiu foi como ela imaginara. Tratou-a com a mesma brutalidade com que lidava com os animais.

Noite ainda, saciada com tanto sexo, voltou para casa. Estava exaurida, mas satisfeita. Pegou no sono assim que deitou.

Foi acordada por Adilson. Primeiro, assustou-se com a sua presença, depois pelo seu péssimo estado. Ele estava febril e delirava. Dizia coisas confusas sobre ela e Zé Antônio. Intrigou-se: “Como ele soube”?

Colocou-o na cama e deu-lhe um comprimido. Ele dormiu. Sono agitado. Transpirava muito e delirava. Ela mandou buscar Zé Antônio, que já estava no campo. Ela expôs o que conseguiu entender do que ouviu de Adilson. Não atinava como ele poderia saber. A explicação seria Adilson ter passado a noite vigiando. Nesse caso, porque não os pegou em flagrante?

Confusos, temiam Adilson. Ele era possessivo, egocêntrico, imprevisível e o pior, mau! Se de fato ele soubesse, jamais deixaria passar em branco. A vingança viria, mais cedo ou mais tarde. E a fazenda? O emprego de Zé Antônio? Havia muita coisa em jogo.

Adilson era esperto e poderoso demais. Os dois não eram páreo.  Decidiram negar até o fim. 

A febre de Adilson subiu muito e Marlize foi preparar compressas com água para resfriá-lo. Depois ligou para o médico.

Zé Antônio saiu pensativo. Atravessou a varanda. Sua cabeça fervia e sem perceber chegou ao mangueiro. Pensava em como fora tolo em por tudo a perder. Em, porque sucumbiu ao desejo. Na falta de sorte de acontecer bem no dia em que Adilson os vigiou. “Logo agora, quando a vida caminhava bem.”

Absorto nesses pensamentos avistou Cervantes no piquete ao lado. Como sempre o touro se inquietou com a sua aproximação. Olhou para as  fuças do touro e enxergou Adilson. “Cada um à sua maneira, são feitos da mesma crueldade!”

De repente, uma ideia aflorou em sua mente. Rápido, voltou para casa e explanou para Marlize o porquê Adilson não poderia sair dessa.

− Vai acabar com a gente!

Ela se lembrou do contrato em branco, que assinara. Pensou nos anos que investiu nesse relacionamento. Concordou que Adilson acabaria com eles!

De comum acordo, Zé Antônio tirou Adilson da cama e o levou cambaleante até o mangueiro. Abriu a porteira do piquete e o escorou até o centro da remanga. Quando Cervantes investiu, Zé Antônio saltou para a cerca e deixou Adilson se equilibrando nas próprias pernas.

O médico legista classificou o caso como mais um acidente. O segundo em dois anos. Duas vítimas fatais do touro Cervantes. Otaviano entrara no mangueiro sem tomar os devidos cuidados. Já Adilson, ninguém sabia explicar o que fora fazer lá. Enquanto Marlize fora ligar para o médico, é possível que, delirando, ele tenha se levantado e caminhado a esmo. Deu o azar de topar com Cervantes, concluiu a polícia!

Sanguinário, afastado das arenas, Cervantes continuava satânico como sempre!

O delegado sugeriu sacrificá-lo. Provavelmente o promotor entraria com uma representação exigindo isso. Marlize respondeu que ponderaria a respeito. Talvez fosse a melhor alternativa. Ela não queria mais vítimas do animal.

Finalizada a perícia os policiais se despediram. Marlize os acompanhou até as viaturas.  Passaram por Zé Antonio empoleirado nas tábuas do mangueiro. Ele observou o grupo se distanciar. Achou que ela representava bem o papel da mulher consternada.

Voltou-se para Cervantes que estava na remanga logo atrás. Era um touro malvado e trazia isso estampado nas fuças! Em compensação, era imponente e belo. Uma beleza feroz. “O que acontecera para ele ser tão brutal? Porque detestava tanto os humanos?”

Divagou sobre a sua própria vida. Provavelmente fosse do mesmo temperamento do touro.

Virou-se para o grupo. Os policiais haviam partido e Marlize, em meio a uma nuvem de poeira, acenava para os carros distantes. 

Em seguida, ela deu meia volta e caminhou em sua direção. Zé Antonio acompanhou sua aproximação. Ela usava botas e calça jeans que realçavam seu corpo e seu andar sensual. Era linda! Estonteantemente linda!

Tinha os cabelos esvoaçados pelo vento e levou a mão para acomodá-los. Quando levantou o rosto, ele viu, nos lábios perfeitos, surgiu um sorriso matreiro.

Um arrepio agourento percorreu sua espinha. Concluiu que não sacrificaria Cervantes.

Ele ainda poderia ser útil!

Ascenção e Queda de uma Indústria Centenária - Ledice Pereira




Ascenção e Queda de uma Indústria Centenária
Ledice Pereira

Lenita Fragoso estava se saindo muito bem em suas investigações, tanto que foi indicada para desvendar o porquê das ações da maior empresa industrial da cidade,  estarem despencando a olhos vistos.

Henrique Linhares herdara do pai, que herdara de seu avô, a “Indústria Linhares de Peças para Teclados Musicais”.

Fabricavam pequeninas peças que compunham pedais nas várias marcas de teclados existentes no país.

Iniciaram seus trabalhos no início do século XX, com a manufatura de peças para pedais de piano e, no final do século, evoluíra para os de teclados.

 O avô era um artífice e fazia peças artesanais especialmente encomendadas pelas famílias abastadas de então.

Seu Felipe Linhares, pai de Henrique, engenheiro industrial por formação, modernizara a empresa, ampliando-a e contratando mão de obra especializada, até se tornar a única empresa industrial do ramo no Estado. Henrique tentara seguir os passos do pai.

E eis que em 2011, outra empresa surgiu na cidade vizinha e, em menos de cinco anos, passou a liderar o mercado.

Lenita começou por consultar as fichas dos empregados,  que ali trabalharam nos últimos dez anos, detendo-se nos que foram despedidos ou se demitiram nos últimos dois. Ao todo, trinta e dois possíveis suspeitos que foram listados num banco de dados. Tinha em mãos um belo quebra-cabeça. Mas não encontrava o fio da meada.

 “Tenho que analisar o motivo do desligamento de cada um, bem como o tempo de permanência na empresa.”

Na semana seguinte, ao saber da abertura de vagas de auxiliar de escritório na indústria concorrente, viajou para a cidade vizinha, que  ficava a trinta  e cinco minutos de onde vivia e lá se apresentou candidatando-se ao cargo. Por possuir um curriculum excelente, foi imediatamente contratada.

O emprego era para meio período o que caía como luva para os seus ideais: investigar funcionários e diretores, bem como os proprietários da Indústria rival.

Logo, fez amizade com os demais funcionários e, por ser rápida e eficiente, realizava suas tarefas e ainda ajudava os colegas a realizar as suas. Isso facilitava o acesso a arquivos e dependências da empresa. A empresa era toda informatizada, portanto, não demorou muito a acessar arquivos de funcionários, que poderiam fazê-la chegar a alguma conclusão. Mas, pelo visto, não havia coincidências de nomes.

Após dois meses, sem que chegasse a qualquer conclusão, pediram-lhe que levasse algumas pastas aos sócios proprietários que realizavam uma reunião a portas fechadas. Ficou surpresa quando se deparou com Henrique Linhares. Ela o havia visto vagamente, quando de sua contratação como investigadora.

“O que esse senhor está fazendo exatamente nessa empresa rival que o está desbancando do mercado?” - pensou ela, tentando se inteirar sobre o que falavam.

“A sorte é que ele não me conhece, pois conversei apenas com o chefe do setor de finanças.”

Teve que sair da sala, mas ficou encafifada com o que vira. Nada do que ouviu serviu para esclarecê-la. Procurou questionar os demais funcionários que não elucidaram sua dúvida. Entretanto, esse fato mudou o rumo da investigação.

Após promover pesquisas constatou que o senhor Henrique, tinha inúmeros processos trabalhistas, estava pendente com a Receita Federal e  pesavam sobre a empresa inúmeros títulos protestados. A Indústria Linhares estava prestes a abrir falência.

Checando as companhias aéreas, ela descobriu que ele pretendia fugir do país.

Conseguiu impedir que isso acontecesse, denunciando-o à Polícia Federal a tempo.

Preso, ele revelou que fora persuadido por seu primo Renato, advogado trabalhista,  a abrir nova empresa, com o dinheiro que havia desviado por anos, na qual seu nome não aparecesse, numa sociedade do tipo dinheiro e trabalho, em que Renato entraria com o trabalho. Paralelamente, teriam assinado um contrato de gaveta onde constava o nome dos dois, além de Renato ficar também encarregado de tentar resolver todas as pendências da empresa falida.

O Chefe do Departamento Financeiro que a contratara, e que possuía uma fração como sócio na Indústria Linhares, elogiou o trabalho de Lenita Fragoso, admirando sua linha de raciocínio.

O PRÉDIO DA BARONESA - Oswaldo U. Lopes



O PRÉDIO DA BARONESA
Oswaldo U. Lopes

                   Era uma das casas antigas ainda remanescentes na Avenida Paulista. Já houvera de tudo naquela avenida. Casas derrubadas em uma noite, como aquela de estilo mourisco. A ameaça de tombamento fazia milagres em termos de desconstrução civil.

                   Situação compreensível, marco da cidade inaugurada em 1891 a Paulista era uma espécie de joia da coroa. Nela abastadas famílias enriquecidos pelo comércio de café e pelos primórdios da industrialização no Brasil, construíram casas nos mais diferentes estilos que refletiam momentos diversos e origem diversificada dos imigrantes. Italianos, libaneses, alemães, sírios. Erguiam suas mansões buscando o talento e a criatividade de arquitetos europeus. Embora fosse conhecida como avenida dos barões do café, só uma das casas tinha essa origem, exatamente o solar da Baronesa de Arary.

                   Quem não se lembra de um membro da família Matarazzo, talvez já não tão rico como no passado, que na calada da noite colocou ele mesmo uma bomba, para destruir a famosa casa da família, ameaçada de desapropriação pela esquerdista prefeita Erundina, para que ali fosse alojado, sublime revanche, o museu do operário?

                   Trama bem urdida, do ponto de vista da propriedade e seus ameaçados donos, foi um sucesso. Inteira só sobrou a antiga sauna e a ideia de desapropriação morreu por ali. Por tortas vias prevaleceu o bom senso sobre a raiva intempestiva. A casa talvez merecesse ser preservada, apesar de seu pouco valor histórico e arquitetônico, mas não para abrigar a luta de classes de um marxismo do século XIX.

                   Bem, de volta a casa antiga remanescente, localizada na valorizadíssima esquina da Peixoto Gomide com a Av. Paulista, era propriedade da tia Dalmácia que faleceu com mais de cem anos em 1951 e que a pleno juízo, não só não tremia, como fazia tremer quem ousasse falar em vender ou derrubar a casa, sobretudo se fosse parente. Ali se juntavam famílias e histórias dos baronatos paulistas. Dois irmãos, o Barão de Araras e o Barão de Arary, donos de terras imensas na região de São Carlos, Araras e adjacências. Viúvo o Barão de Arary interessou-se pela bonita jovem de treze anos, Dalmácia, filha de seu irmão, para ser esposa de um filho seu.

                   É como dizem, viúvo ou viúva é o que não morreu. Não estando morto, o Barão achou-a tão interessante que em vez de pedi-la para o filho, tomou-a para si mesmo e casou-se com ela. Formou uma nova família e com ela teve mais cinco filhos que se juntavam aos nove do primeiro casamento.

                   Ocorreu o esperado, ela ficou viúva e proprietária de muita terra e muito dinheiro. Comprou o terreno na Av. Paulista e lá construiu uma casa sofisticada e  portentosa. Dizem que sua festa de cem anos foi um assombro, uma espécie de ultimo baile da Ilha Fiscal paulista. Não faltou ninguém da alta sociedade, embora haja registro da presença da baixa também, por causa de pequenas ocorrências, tais como furtos, mãos bobas etc.

                   Em tudo isso o investigador Sergio Hiroito pensava enquanto se aproximava do edifício que levava o nome da Baronesa de Arary.

                   Não bastava ser japonês, introvertido (se era japonês introvertido é redundância), tinha por passatempo estudar e ler sobre a cidade. Sabia de tudo sobre as regiões mais antigas, aquelas que tinham histórias para contar. A piada na policia civil era saber quando iam mandá-lo para a Liberdade, conhecido reduto nipônico.


                   Pois é, o edifico Baronesa de Arary resultou do desmanche rápido e bem feito da antiga casa. A baronesa se foi aos 101 anos e seus herdeiros foram mais ligeiros que os socialistas de plantão, num fechar de olhos a casa estava no chão, e o terreno pertencia a uma incorporadora que fez um lançamento espetacular que marcou época. O projeto era muito charmoso e tinha de tudo em suas quatro torres, apartamentos maiores, menores e até do tipo janela e quitinete, estes compondo a maioria. A construtora colocou o nome da Baronesa no edifício que se tornou a glória do momento. No andar térreo instalou-se uma filial da Casa Vogue o suprassumo da elegância. Gente conhecida e cultuada figurava entre os proprietários. Walmor Chagas e Cacilda Becker na cobertura e por ai a fora.

                   Como aquilo tudo desmoronara, como o nobre edifício se tornara um terrível treme-treme a manchar o nome respeitoso da baronesa?  

A ação pertinaz e seguida de alguns síndicos conseguira estancar a hemorragia, mas não a fama. Era um edifício quase normal, estava longe dos holofotes e de ter como habitantes gente do tipo dos primeiros proprietários, mas estava desfigurado. Unidades maiores haviam sido reformadas e resultaram em apartamentos que mal acomodavam uma família.

                   Fora ali no 705,  sétimo andar, é claro, que o ocorrido requeria a presença de Hiroito. O pequeno apartamento era alugado por duas secretárias, solteiras, com ares balzaquianos, quer dizer com mais de trinta. Já não tinham grandes ambições e ilusões. Trabalhavam perto e eram absolutamente independentes. Pequenas festas, pé na jaca de sexta-feira, rolavam no 705 sem causar maiores problemas. Evitavam drogas e delas fugiam como o diabo da cruz, embora a cruz gostasse de perseguir o diabo e não raro rolavam comprimidos de ecstasy no 705.

                   Aurora, a  mais velha, saíra para comprar pão na manhã de sábado, deixando Elza, a mais nova, dormindo no único quarto. A noite fora agitada e o sábado era sábado que ninguém é de ferro

                   Quando voltou da padaria, com pão fresco, leite e queijo prato dera aquele grito que ecoou forte pelo velho treme-treme. Encontrara Elza no  banheiro com as mãos amarradas  nas costas, uma fita adesiva larga sobre a boca e um saco plástico enfiado na cabeça. Assassinato com requintes.

         Um caso de encomenda para Sergio Hiroito Aquinagawa, opa esquecemos de esclarecer que o nome de família era Aquinagawa, Hiroito era uma homenagem de seus pais ao glorioso imperador do Japão, e Sergio uma concessão necessária ao mundo ocidental em que viviam.

         Sergio Hiroito era conhecido por evitar, fugir até do que chamava de método alemão: para que fazer fácil se difícil também vai. Não inventava, buscava exatamente o caminho das pedras, explorava comportamentos humanos na sua complexidade ou simplicidade como gostava de demonstrar.


         Havia um claro sentido de mensagem na forma cruel como se concretizara o assassinato. Deixar avisado aos circunstantes que sobre aquela matéria não se brincava. Ninguém ouvira nem um grito sequer um gemido. Era obvio que Elza conhecia o assassino e o deixara aproximar-se sem reação. Houvera certamente intimidação, mas ela não se sentira ameaçada num primeiro momento. Vai ser um bom quebra-cabeça, pensou Hiroito enquanto contemplava o banheiro e depois o quarto.