UM AUDI A5 PRETO - Jeremias Moreira


UM AUDI A5 PRETO
Jeremias Moreira


No intervalo entre duas corridas de Formula 1, que cobria para a revista Sports & Velocidade  - o Gran Premio de España, ocorrido no domingo, no Circuito da Catalunha, e o Grand Prix de Mônaco, daqui a duas semanas - Vera Lúcia aproveitou para visitar a Espanha, país de intensa luminosidade. Pretendia conhecer a cultura, a culinária e, porque não os espanhóis, já que vivia num mar de calmaria há mais de seis meses.

Uma foto do Palácio Alcázer de Segóvia, que vira num folheto turístico, a encantara. O local ficava a noventa quilômetros a noroeste de Madri. Começaria por aí! 

Alugou um Seat Cordoba e ao sair do Hotel notou um Audi A5 preto, com vidros escuros que ocultava quem estava dentro. Sem motivo especial achou o carro tétrico.

Sob um sol pulcro e cheia de expectativas saiu de Madri pela Auto Pista 6, colocou um cd de Marisa Monte e tratou de apreciar a paisagem.

Numa passada de olhos pelo retrovisor notou atrás de si, mantendo alguma distância, um Audi A5 igual ao que vira no Hotel. Intrigada diminuiu a marcha e deixou que o carro a ultrapassasse.

Sossegou, devia ser coincidência!

Chegou ao pequeno e agradável Hotel Don Felipe, na Calle Daiz, por volta do almoço. Deixou a bagagem e foi almoçar no pitoresco Meson San Pedro Abanto, que ficava em local aprazível. Escolheu sentar-se na varanda. Por alguma razão não estava tranquila.

Depois do almoço visitaria a Casa Museo Antonio Machado, que ficava próximo, e em seguida o Palácio.

Quando saiu do restaurante em direção ao estacionamento viu algo que a perturbou: Um Audi A5, preto, com os vidros escuros, estacionado na outra extremidade. Agora era coincidência demais, e a apreensão aumentou.

Avaliou os motivos que alguém teria para segui-la. O fato de ser mulher e viajar só? Pouco provável no mundo de hoje!

Lembrou-se da série de artigos críticos que andava escrevendo contra a FIA. Os pilotos reivindicavam medidas de segurança e a FIA se recusava a atendê-los. Seria isso motivo para assustá-la? Também implausível. Concluiu ser exagero tal ideia. Devia estar lendo muito livro policial. Certamente não passava de coincidência. Enquanto dirigia quis muito acreditar nisso, mas sentia-se incomodada.

Cancelou a visita ao Museo, resolveu ir direto ao Palácio.
Percorreu um labirinto de ruelas estreitas, subiu a encosta da Calle Del Socorro, entrou na Ronda de Don Juan II e finalmente chegou à Plaza de La Reina Victoria Eugênia, em frente ao Palácio, onde estacionou. Durante todo percurso esteve inquieta. Acompanhada de uma sensação estranha.

Toda disposição e expectativa com que deixou Madri haviam desaparecido.

Desceu do carro, olhou para ambos os lados e, sem muita convicção, deliberou que estava tudo bem.

Retesou a musculatura, deu uma sacudidela no corpo, espantou os maus presságios e decidiu não deixar pensamentos bobos atrapalharem sua turnê.

Olhou para o Palácio e logo sentiu o efeito da imponência secular da fortificação. Pegou o tablet e pôs-se a fotografar.  Atravessou a ponte levadiça sobre o fosso e entrou no Palácio. Foi informada na recepção de que era proibido fotografar. Teve que guardar o equipamento na bolsa.
Havia um grupo de turistas japoneses que fariam uma visita guiada. Ela aderiu ao grupo. Começaram pela Sala Del Trono, depois Sala de La Galera, Sala de Las Piñas e Cámera Regia, onde demoraram mais.

Durante todo o trajeto ela não conseguiu se livrar da sensação de estar sendo observada.

Com exceção do grupo havia poucos visitantes. Em dado momento deixou de ouvir o que o guia dizia e se pôs vigilante. Examinou um a um, não achou ninguém suspeito ou que demonstrasse se importar com ela.

Notou câmeras de segurança em todos os ambientes. Isso a tranquilizou.

Não conseguia atinar quem a pudesse seguir, nem por quê. Porém, por mais que tentasse não conseguia se concentrar.
O grupo saiu para outra sala e ela permaneceu.

Dominada por uma angustia que a sufocava, pensou ouvir passos. Imobilizou-se, ouvidos apurados, coração querendo explodir. Súbito os passos cessaram. Sufocada, carecendo de ar, precipitou-se em direção à Torre de Don Juan II. Chegou esbaforida.

Aliviou-se com a luz e a brisa fresca que encontrou na Torre.

Respirou fundo e se aproximou da murada. Apreciou a paisagem. Localizou seu carro lá em baixo... Então, viu algo que a congelou. Estacionado atrás do seu Seat, estava um Audi A5, preto, com os vidros escuros. Seu instinto não falha nunca! Desde sempre pressentiu que seu perseguidor se encontrava dentro no Castelo!

Ouviu passos atrás de si. Olhou e viu um homem, ruivo, estatura mediana, vestido de terno, que caminhava apressado em sua direção.

Toda agonia represada, desde que deixara o Hotel em Madri, explodiu num acesso de fúria e, surpreendentemente, Vera Lucia investiu contra o homem como um animal acuado e, usando a bolsa como arma, deu-lhe uma pancada no rosto.  O tablet, dentro da bolsa, atingiu o queixo do homem. Ele fora totalmente pego de surpresa e sentiu o golpe. Cambaleou e caiu.

Com o homem fora de combate Vera Lucia saiu imediatamente da Torre gritando por socorro.

Sua ação fora observada pelo monitor, na sala de segurança. Em minutos ela viu-se cercada por diversos agentes.

Desde que entrara no Palácio, seu comportamento alterado chamou a atenção dos seguranças. Ela foi monitorada o tempo todo. Quando se dirigiu para a Torre de Don Juan II e se aproximou da murada temeram que ela saltasse. O homem que ela nocauteou era um agente que fora prestar-lhe assistência.

Ignoraram seu comentário de que fora, o dia todo, perseguida por um Audi A5, preto e a encaminharam à Jefatura de La Policia.

Concederam-lhe a prerrogativa de uma ligação. Ela ligou para a redação da revista, no Brasil, que providenciou um advogado na Espanha.

Vera Lucia estava detida por agredir um agente da Lei.

O advogado argumentou sobre seu estado de estresse devido à caçada que lhe exerceu o Audi. “O ato de agressão foi um gesto de defesa, pois no momento ela deduziu que o agente fosse seu perseguidor.”

Horas depois chegaram as fitas de segurança de todos os locais onde Vera Lucia estivera e que afirmava ter visto o carro sinistro.

Rodaram as fitas. Em nenhuma delas apareceu o Audi A5, preto!



Uma viagem às Ilhas - Feroé Fernando Braga


      Uma viagem às Ilhas Feroé
Fernando Braga

      Meu filho mais moço, hoje com 44 anos, sempre teve paixão em conhecer o mundo. Viajou muito pela Europa, USA e Sulamérica, com pouco dinheiro e sacola nas costas.   

     Há dois anos, agora já casado, pegou sua mulher e quis conhecer a Escócia, país onde eu havia quando moço, morado um ano e que passei a considerar como minha segunda pátria de tanto que gostei, principalmente pelo povo, gentil, cordial e amigo.

     Após viajar pelas principais cidades e pontos turísticos, a conselho de um amigo inglês decidiu ir às ilhas Feroé, um arquipélago de 18 ilhas no Atlântico Norte, entre o norte da Escócia e a Islândia. Era verão, ocasião propícia.

     A viagem aérea durou uma hora desde Edimburgo até a capital Torshavn, a maior cidade com 12.000 habitantes. Todo o arquipélago tem 49.500.

      A National Geografic falou destas ilhas como as mais interessantes do mundo, um paraíso social meio escondido. Comentou ainda que era o mais alto padrão social do planeta, com um povo cujo bem  estar próprio, depende do bem estar do próximo. Ainda, um território sem criminalidade!

     Dizem que Thomas More, humanista inglês, ministro de Henrique VIII e decapitado por ele, quando escreveu seu livro Utopia, onde falava ficticiosamente de uma sociedade perfeita, cinco séculos atrás, havia pensado em uma sociedade como a dos Feroenses.

     Chegando à capital, os esperava uma guia turística, que falava espanhol, encarregada de, por cinco dias, mostrar os principais pontos daquela ilha e de outras também.

     Tomaram conhecimento que o arquipélago ainda é uma província autônoma, mas dependente da Dinamarca. Apesar das várias tentativas politicas para se separar, ainda continuavam na mesma situação da Escócia em relação à Inglaterra, do País Basco ou Catalunha em relação à Espanha.

     Observaram a vida simples daquele povo, com língua própria, onde também é falado o dinamarquês. Padrão educacional perfeito onde 99,9% é letrado, há igualdade social, um povo simples e amigo, recebendo muito bem os estrangeiros.    

     O povo vive e se alimenta da pesca, principalmente do salmão e da criação de ovelhas, daí o nome Faroé. Criação de bovinos, equinos, aves como galinhas, patos, são raras, assim como árvores de médio e maior porte.

      Dada as baixas temperaturas, no telhado das casas é colocado terra com grama, que cresce como em um jardim e que tem que ser aparada com cortadores de grama.

     O país é bem montanhoso, vulcânico, a paisagem   lindíssima no verão. Tiveram a oportunidade de assistir a tradicional Maratona de Tornhavn, com muitos concorrentes, bebidas, comidas e alegria geral.

      Foram convencidos pela guia a irem à ilha Vagar, a terceira em tamanho do arquipélago, a mais ocidental, com apenas 2890 pessoas. Podiam fazer tudo em uma van, por estrada boa, asfaltada, utilizando um túnel construído sob o mar, interligando a capital às várias ilhas.

     Chegando a Vagar, um dos destinos era ir para oeste até Gasadalur, o menor vilarejo do mundo, com apenas 20 habitantes, o que se tornou possível agora, quando um túnel foi construído através das montanhas, para que aquela vila e outras, não desaparecessem.

      A guia ia explicando tudo, cada detalhe, contando lendas e histórias da região. Falou que o nome desta vila se deveu à presença de Gaesa, uma dama que vivia em Kirkjobour e que de lá foi expulsa com sua família, com todos os seus bens confiscados, por ter comido carne em uma comemoração conhecida como Lend Fast. Foi quando retirou- se   para a região mais alta e oeste da ilha Vagar, dando início à vila Gasadazur.

      A estrada, as paisagens até Gasadazur eram inacreditavelmente belas. Instalados em uma confortável casa que passou a funcionar como um pequeno hotel, por dois dias visitaram os principais pontos turísticos. Viram o rio que passa ao lado da vila e depois despenca pela falésia gigante uns 700 metros, formando a cachoeira mais alta da península.
      Foram então visitar uma casa branca, famosa, completamente isolada no alto da montanha, cujo corpo principal  foi construído  dentro da rocha e apenas o alpendre e a cozinha se encontravam fora da rocha.

      A lenda ou história dizia que há muito tempo, antes mesmo da fundação de Gasadalur esta casa havia sido construída por um artesão de nome Gueshye, que para ali levara sua mulher e onde viviam, com quatro filhos.  Tinha algumas ovelhas, das quais tirava seu alimento e a pele para sobreviver.   Ocasionalmente descia até o mar para pescar e depois montanha acima, por via íngreme, para voltar trazendo o alimento principal deste povo, o salmão.

     Em Miojavur, um vilarejo presente no meio da ilha, descia duas vezes por ano, para vender algumas peles de ovelha e fazer algumas compras de necessidade extrema. Aconselhavam-no a deixar sua casa e vir morar junto aos outros e, que seria auxiliado. Virava a cara e partia montanha acima.

     Ninguém sabia sua origem, como viera parar lá, onde nascera e como conseguia viver tão isolado.

     Certo dia, durante o inverno cruel, nesta vila com umas 120 pessoas, chegou uma mulher toda coberta com pele de ovelha, puxando três crianças pelas mãos, cobertos, mas esfarrapados. Chegaram à primeira casa e pediram ajuda.

     A população pequena logo se reuniu para ajudá-los. Estavam com muito frio, gelados e muito famintos.

     Depois de socorridos, tomarem banho quente, vestirem-se mais adequadamente e comerem esfomeadamente salmão e biscoito, começaram a contar sua história. Dos quatro filhos, o mais velho tinha 11 anos, os outros dois 9 e 8 e um havia morrido.

    A mulher disse que seu marido era um louco, ela o temia muito, assim como seus filhos que estavam cansados de apanhar.    Não podia pedir a ele para se mudarem para uma vila, que ficava possesso e batia nela.

     Logo após a morte de seu filho, ela decidiu que faria tudo para abandonar o local.

    Um dia de verão, pegou os filhos e saiu em direção à vila mais próxima que estava a 30 km. Fugia apressadamente, escondendo-se, mas ele não os encontrando em casa, saiu em disparada e conseguiu localizá-los. Ficou louco, encheu a mulher de porradas.  
  
     Chegando em casa, não lhes deu comida por dois dias e depois, quis fazer sexo.

     Certo dia ele saiu e não voltou.  A mulher e filhos foram procurá-lo na neve nos lugares mais comuns que costumava percorrer. Havia espessa camada de gelo no chão e próximo ao curral das ovelhas, a neve estava toda tingida de sangue. O corpo não foi encontrado. Após três dias, desceram até Miojavur. A polícia veio de Sandavagur, sede do departamento de justiça da ilha, e foram, acompanhados pela mulher, até sua casinha branca incrustada no rochedo.   O corpo não foi encontrado, apenas o sangue vermelho na neve.

      Com a história contada pela mulher, várias pessoas sugeriram que havia sido o Cramunhão, o Capeta, que executara a tarefa necessária.

      Ficou uma casa tida como mal assombrada, onde ninguém mais foi morar e tinham medo dela se aproximar.

     Meu filho, ao ver a casa, metido, mas corajoso, entrou   portando  uma lanterninha de bolso, que carregava sempre consigo, dirigindo-se até o fundo, dentro da rocha. La dentro, disse que começou a sentiu arrepios, calafrios fortes, mas na hora, associou ao frio reinante.

     Sua mulher não quis entrar e ficou fora da casa, junto com a guia.

     Nesta hora ouviram um barulho, um forte grito vindo do interior da casa, associado a gemidos.

     Minha nora saiu correndo de medo e dizia:

— Será que foi ele que gritou? Eu pedi para que ele não entrasse, mas foi teimoso! E agora?

     Não quiseram entrar, nenhuma das duas!

     A guia também estremeceu, arrepiou-se, pegou seu celular, pediu ajuda, que disseram   chegaria em 30 minutos. Ficaram aguardando a uns 100 metros da casa branca e meu filho não reaparecia. Será que ele esta brincando? Quer nos assustar? Não pode ser! Pensava minha nora.

      A guia, também medrosa, disse: - Bem que eles falam que o demônio ronda por aqui e passou a habitar a casa desde a morte do artesão. Eu nunca acreditei, mas...

     Minha nora contou que foi a meia hora mais comprida de sua vida. Chorava, gemia e era consolada pela guia, que por duas vezes deu alguns passos à frente como se fosse entrar na casinha branca, mas voltava, e correndo. Ambas estavam bem pálidas, bem ansiosas.

     Chegou ao local, uma Van da polícia e dois enfermeiros, que carregando uma maca penetraram na casa. Depois de uns 15 minutos, saíram carregando na maca, um corpo ensanguentado. Elas ficaram mais tranquilas quando perceberam que ele se movia e tentava se comunicar.

     Elas se aproximaram e olharam para ele, meu filho, muito assustado. Disse que quando penetrou em um quarto dentro da rocha, sentiu um empurrão e tombou. Bateu fortemente a cabeça, ficou muito atordoado e não conseguia se levantar.

     Os guardas disseram à guia que ele certamente havia escorregado batendo a cabeça. No interior da rocha, devido à infiltração de agua pelas pareces, forma-se um limo e o chão fica muito, muito escorregadio. Ele continuava afirmando que alguém o havia empurrado. Vai saber!

 
    Voltaram à capital e um dia antes da partida, tiveram o grande desprazer de assistir a uma das comemorações mais diabólicas, perversa, que nunca poderia acontecer nestas ilhas.

    No litoral, reuniram-se dezenas de jovens armados de lanças, facões, foices, anzóis gigantes, cercaram os golfinhos fazendo com que se dirigissem à parte rasa da praia, onde começou uma mortandade violenta dos animais indefesos.

   Os jovens cortavam os golfinhos, expondo suas vísceras, deixando aquele pedaço de mar completamente vermelho de sangue. Pura maldade com aqueles animais inteligentes que vão à praia para brincar e se comunicar com os ¨seres humanos¨.

      Esta ¨festa ¨é uma tradição na ilha onde os jovens assim procedem, para mostrarem que chegaram à idade adulta, que agora são maiores, são homens! Matam os Golfinhos Calderon, lentamente.

      Quando meu filho e nora viram esta cena deplorável, tiveram vontade vomitar, de interceder pelos golfinhos, mas foram retirados pela guia.

      Excetuando o acidente, em que ele feriu seu occiput, ficaram maravilhados com as ilhas Feroé, mas extremamente decepcionados com a aquela matança. Souberam também que os pescadores das ilhas, matam mais de 600 baleias por ano.

  Penso:    “Como pode um povo tão culto, tranquilo, cometer essa barbaridade? Absurdo!
      Merecem o que a natureza lhes deu?
      Talvez mereçam aquele sacana do Diabo que me empurrou!”
   

JOSÉ ANGELO NÃO VOLTOU - Oswaldo U. Lopes


JOSÉ ANGELO NÃO VOLTOU
Oswaldo U. Lopes

         Jose Ângelo era decidido, embora a pergunta seguinte ficasse o mais das vezes sem resposta, decidido a que? Era também quieto e ai a pergunta era outra, quando? Sempre,  era a resposta. Solitário vinha a seguir, com família era preciso acrescentar.

Não é muito, mas temos ai um homem decidido, quieto e solitário. Proprietário de uma pequena indústria transformadora tinha no galpão, de bom tamanho, oito tornos e três pequenos escritórios. Sua atividade gerava emprego para 27 pessoas para ser exato.

Como tantos outros a crise o alcançara, os pedidos de tubos perfilados e torneados escasseavam. Nunca pensara que isso pudesse acontecer, sua indústria não era grande e estava colocada como que a meio caminho. Produzia material que era parte importante de conjuntos maiores que outros fabricavam. Conhecia muita gente que usava seus tubos, mas que agora não mais os pedia.

Quieto e solitário nem precisava ligar para seus antigos e fieis compradores para saber o que estava acontecendo, porque os jornais e a televisão só falavam disso. A família apenas o olhava de soslaio, filhos já formados procurando se colocar na vida. A mulher, dona de casa irrepreensível, passava o dia cuidando do lar e a noite vendo novela.

Sabia o que tinha que fazer, sob pena do negócio se inviabilizar, despedir uns doze e avisar o resto de que haveria corte de benefícios. Pela primeira vez em trinta anos de atividade chegara a esse ponto.
Decidido, quieto e solitário tomou a decisão que acreditava seria a melhor para o momento.

Arrumou uma pequena maleta, foi para a fábrica, olhou de maneira circunspecta aquela gente toda. Por volta do meio dia saiu como saia todos os dias. Só que desta vez, ele  não voltou.

Não voltou para a fábrica, não voltou para casa, não pegou o carro, simplesmente desapareceu.


A FLOR DE AMANCAES -Carlos Cedano

  

A FLOR DE AMANCAES
Carlos Cedano


A família húngara Czito caminhava de volta pra o hotel. O comércio já tinha fechado, eram dez horas da noite, tarde para esse pequeno povoado de não mais que uma centena de habitantes. Huacachina era um maravilhoso e único oásis em toda a costa do país. Esse oásis também tem sua própria lenda.

A lenda diz que uma princesa foi pega por um caçador, tomando banho na lagoa.  Ela fugiu,  e acabou voltando para a piscina,  e algo raro aconteceu: a piscina se tornou um lago e o véu de suas roupas tornaram-se as dunas. Os rumores dizem que ela vive até hoje no fundo do lago de Huacachina como uma sereia.

Já era o segundo dia da família nesse lindo oásis. O dia anterior tinha sido intenso e também extenuante. Tinham caminhado nas areias. E como cansa!! - Exclamou Gregy, o marido. Também passearam de buggy subindo e descendo as dunas que rodeiam a lagoa.

A pequena Aniko queria saber se poderia ver a princesa do lago. O pai explica que ela é uma lenda, ela não é real, e não pode ser vista. 

Hoje foi dia do sandboard, também nas dunas. Deslizaram nas areias brancas e finas com certa velocidade, foi muito emocionante comentou a pequena Aniko. Com sua mãe Ilka nadaram na lagoa e o frescor de suas águas os revitalizavam.

Como seria o último pernoite no oásis, a família decidiu caminhar pela pequena trilha que contornava a lagoa entre o fim das casas a e o começo das dunas, a noite estava deliciosa e a lua cheia deixava-se ver em todo seu esplendor!

O casal caminhava devagar de mãos dadas e invadidos por um sentimento de amor e amizade que fazia tempo não sentiam. Estavam muito felizes em conhecer o oásis de Huacachina. Foi uma excelente ideia de Ilka! - pensou Gregory.

Enquanto conversavam a pequena Aniko foi adiantando-se sem que os pais percebessem.

— Cadê a Aniko? Perguntou Ilka.

 — Ela deve estar mais na frente - respondeu Gregory, e aceleraram o passo. Não demorou muito, já na próxima curva viram-na parada como se os esperasse, quando o casal chegou mais perto parecia estar “hipnotizada”, os pais chamaram-na pelo nome até que de repente foi como se acordasse.

— Que foi meu amor, aconteceu alguma coisa? - Perguntou Ilka. Lentamente Aniko sorridente disse que se encontrou com uma moça linda, morena, esguia, vestindo uma túnica da cor das areias. Vocês não a viram? - Perguntou a menina, — Não! - responderam os pais.

— Pois ela acabou de passar por aqui, justamente na direção de vocês! - Completou Aniko.

O casal se entreolhou surpreso e insistiu:

— Você tem certeza querida? - Perguntou a mãe.

— Sim! - Disse Aniko - sim mãe! Foi ela que me deu estas flores. Disse, mostrando sua mão direita e entregando-as para Ilka.

Como estavam bem perto do pequeno hotel, entraram e quando o dono os viu os cumprimentou e logo comentou:

— Vejo que estão com flores de Amanacaes!  Mas, estou surpreso por que essa flor está extinta nesta região e único lugar onde ainda floresce fica longe de aqui, é uma flor muito frágil e de curtíssima duração. Ou será, como diz a lenda, que quando a princesa da Lagoa sente saudade da Flor de Amancaes ela vai procurá-la onde elas estiverem florescendo - completou o dono com um breve sorriso brincalhão.

O casal não respondeu, pediu licença e subiu pra o quarto. Logo viram Aniko dormindo placidamente com um sorriso nos lábios, a mãe colocou as flores no criado mudo,  e o casal deitou no leito sem falar, mas também sem conseguir dormir!

Os tempos mudam, por que não a minha sorte? - Oswaldo U. Lopes



Os tempos mudam, por que não a minha sorte? 
Oswaldo U. Lopes

            Nossa. É ela! Há muitos anos não a via!

         Não mudou muito, parece um pouco mais velha, mais madura, cortou os cabelos e já não usa mais os saltos tão altos. Lembro-me que um dia ela me disse que me amava e eu nem liguei para isso. Não liguei não é certo, fiquei horrorizado!

         Naqueles tempos, mulher que tomava a iniciativa era mal interpretada, mal vista, enfim era galinha. Que virada, hoje elas atacam e até criaram o termo homem-galinha. Acho curioso. Quando elas começaram a usar e abusar do palavrão, fiquei machistamente preocupado. Há entre os ditos palavrões e gestos que os acompanham, termos que são especialmente masculinos, tais como saco-cheio, dedo médio erguido que muitas vezes procuram ferir a masculinidade de outro homem.

         Transportados para o sexo feminino podem soar esquisitos, e mesmo estranhos, e não vejo como não perceber isto. O que aconteceu é que essas expressões e gestos usados por elas,  adquiriram um aspecto neutro.  Quando as mulheres dizem  que estão com o “saco cheio”,  todo muno entende sem protestar, mesmo sabendo tratar-se da bolsa escrotal apêndice anatômico ausente nas mulheres. Ainda não ouvi, mas muito homem já deve dizer que esta prenhe de razão. É! O Tempora, o Mores

Não acho ruim, foi bom viver um novo tempo só não me perguntem o que faria se uma mulher me cantasse claramente nos dias de hoje. Epa! Clarisse me viu e vem na minha direção, por essa eu não esperava.

Sentou-se sem pedir licença nem com gesto de cabeça e foi falando com aquela voz suave de que me lembro tão bem:

- E então Otávio, ainda me acha muito galinha, éramos muito jovens, quanto tempo faz? Quinze anos não?

- Dezesseis para ser preciso, Clarisse. Os tempos são outros e nós mesmos somos outros, não é verdade?

- Acho que sim. Entrei na USP fiz arquitetura e conheci o amor em suas variações, tive namorados e namoradas. Vou te contar, as mulheres são melhores amantes que os homens, pelo menos para mim foram. E você?

- Também entrei na USP e fiz medicina. Não tive namorados e, namoradas, algumas; não acho que tenha encontrado a alma gêmea ou próxima, quer dizer, não casei.

- Também não, se não tenho dúvida em relação ao sexo entre duas pessoas do mesmo gênero a ideia de casamento gay não se encaixa no meu modo de pensar. Você faz alguma especialidade?
- Psiquiatria. Terapia de casais e famílias. Uso conceitos psicanalíticos e tratamento medicamentoso, a mistura às vezes funciona. E você?

- Urbanismo e paisagismo, a gente tenta chegar na frente, mas parece corrida perdida. Há atribuições que são definitivamente e permanentemente típicas de gênero. Bem, na medicina isso mudou, parece-me pelo que li que de dez por cento do total, anos atrás, hoje as mulheres somam mais da metade das turmas.

- Essa discussão pode ficar amarga. Há gente que sustenta que a presença maior de mulheres na medicina se deve ao fato de que a profissão não é mais tão rendosa como no passado e, portanto, não mais atrai os homens que, teoricamente ainda devem responder pelo sustento das famílias. É um conflito moderno e interessante, a civilização evoluiu num ritmo muito mais veloz que a biologia, mas esta acaba sendo determinante.

- Como assim?

- Apesar de todas as conquistas, da produção de energia substituindo a mão pesada nas máquinas, da mobilidade urbana representada pelo automóvel, dos eletrodomésticos modernos, da mais que bem vida, participação masculina na atividade dita doméstica, a gravidez ainda é um embaraço, sem intenção de trocadilho.

- Acho que você tem razão, ainda estamos longe do tempo em que providenciáveis chocadeiras serão instalas pelo governo e obtidas às devidas licenças, a mulher ai vai depositar seu óvulo fecundado e continuar sua vida, a família recebendo seu novo membro depois de nove meses de incubadora. Mas você sabe que a mulher, sobretudo nas classes mais pobres é que é a ancora do núcleo familiar, às vezes reunindo filhos de vários pais.

- Pelo que tenho visto no tratamento de famílias a presença da mãe é muito importante na formação do  psique da criança. É a velha história, civilização ou biologia, sociedade de massa ou núcleo familiar, onde fica a virtude?

- No famoso meio Otávio, Isso é tão antigo que Aristóteles já clamava in medio! Bem o que você faz aqui neste bar, esperava alguém?

- Esperava, mas não veio. E você?

- Idem da mesma forma. Você topa ir jantar em algum lugar?

- Acho uma ótima ideia.

Começava a achar Clarisse muito interessante, já não era jovem, mas ainda era bonita, vestia-se com apuro e bom gosto, em suma tornara-se uma mulher atraente!

Da mesma forma ela pensou, que pena que não correspondeu quando eu queria, mas quem sabe foi melhor assim, o tempo passou muita coisa mudou, fora de nós e também dentro de nós, ainda sinto nos lábios certo fogo e uma vontade incrível de beijá-lo.

Foi o que fizeram um pouco depois do jantar que teve lugar num restaurante francês dos mais caretas e tradicionais com cardápio que parecia de bistrô. E, no apartamento dela, muito bem decorado e de bela vista para o bairro do Sumaré.

O fim da história? Nada de pomposo ou estarrecedor.  Casaram, tiveram dois filhos que não foram gerados e criados em incubadora,  e que davam muito trabalho como todas as crianças dão.

O tempo e os costumes! Tem razão aqueles que acham que a vida, a história, a civilização não são círculos viciosos, mas espirais ascendentes em que cada volta passa ligeiramente acima da anterior, antes de continuar um novo passo.



O sortudo - Fernando Braga


O sortudo
Fernando Braga

Um cavalo quando jogava futebol e desde criança, era o melhor nas peladas. Até a adolescência era menor do que os outros, físico  raquítico, desvantajado,  mas tinha uma grande característica, corajoso como um inconsequente.

Em uma briga, levava desvantagem pelo seu tamanho, sangrava pelo nariz, pela boca, não se cansava de apanhar e lutava até o fim, até que separassem a contenda. Era como o aço e o ferro, o primeiro, que entorta   mas não quebra e o outro que quebra e não entorta. Puxando seu pai, cresceu menos que os amigos, não mais do que 1,64 mts e para encorpar fez muita ginástica, usou o método do Charles Atlas, que pediu para vir dos EEUU por correspondência, procurou se defender interessando-se pelo judô e depois, pela luta livre. Estudou em São Paulo e aproveitou parte de seu tempo, para também frequentar a academia dos irmãos Gracie, conhecidíssima. Ainda como estudante, praticava esportes, o futebol, que jogava muito bem, recebendo o cognome de Ziza, nome relacionado ao famoso Zizinho, meia esquerda da seleção brasileira. Aonde jogasse, era sempre um dos melhores. Tinha ainda muita aptidão para o vôlei, como levantador e mesmo no basquete, era o cestinha. Nas férias, ia ao clube praticar esportes e à noite gostava da sinuca, onde tirava o dinheiro dos ingênuos que aceitavam desafia–lo. Em resumo, Cicí, que era seu apelido, era um ás em tudo o que fazia, ao que se dedicava, exceto em duas coisas: nos estudos e no cartaz com as meninas, que o achavam baixo e não bonito, embora muito simpático.

Na Universidade, fez Agronomia, pois dizia: -  O futuro do país está nos campos, na produção de alimentos. O Brasil, como o celeiro do mundo! Dirigia uma   potente moto, com a qual desafiava o tempo e a velocidade, imitando o Steve McQueen.

 Tornou-se conhecidíssimo pelos colegas de toda a faculdade por suas qualidades de grande esportista, faixa preta de judô, qualidades estas, que chegaram aos ouvidos   dos professores, que o estimavam e o aconselhavam a estudar mais. Sua simpatia, delicadeza, espirito alegre, papo fácil, era contagiante e todos sentiam-se felizes quando estavam com o Cicí. Não brigava mais e era respeitado! Reconhecia simplesmente a sua liderança.  Ele era um misto de Leão com macaco, aquele, por ser temido, forte e este, por ser ágil, esperto, grande atleta. Tinha sua filosofia. Sempre dizia:

—  Na vida não podemos ser jactanciosos, e nunca servis!

Em sua formatura, o orador da turma, no discurso agradecendo aos professores, à grande Faculdade, fez várias referências elogiosas a ele, por ter alegrado a vida de todos os colegas, fazendo-os mudarem seu jeito de ser, tornarem-se mais alegres e mesmo mais preparados para enfrentar os percalços da vida. Até aqueles, de anos mais baixos, teciam comentários sobre a falta que faria o Cicí, a sua ausência dali para a frente.

Voltando à sua cidade, conseguiu um emprego inicial, ganhando pouco, junto à Secretaria da Agricultura e uma namorada, bonita, mas pobre, com a mesma altura, quando colocava sapatos com salto médio nos pés. Não gostava de mulheres mais altas do que ele, o que era tradição naquela época, embora sempre dissesse: - na cama, todos têm a mesma altura.

Certo dia, na rua, um vendedor de bilhetes de loteria, insistiu para que comprasse um deles fechado, com o número da cobra, terminado em 33. Era loteria de São João, que correria no dia 24 de junho e que daria uma boa gaita a quem acertasse. Comprou e guardou-o no cofre.

Na segunda feira, havia se esquecido do bilhete. Foi ao barbeiro fazer a barba, como era comum na época. Os barbeiros eram novidadeiros, falavam muito, principalmente de futebol e o rádio pendurado no alto, ficava sempre ligado, dando notícias e tocando musiquinhas da época.

Com o rosto cheio de espuma, o barbeiro começando a escanhoar sua barba espessa, a PRB8 Radio Rio Preto, parou a música, para uma comunicação importante: - Atenção, muita atenção, o bilhete de São João saiu para esta cidade e o número premiado foi 226733. Ficou animado, esperançoso, pois sabia que seu bilhete terminava em 33.Saiu de mansinho, foi direto para sua casa, abriu o cofre e conferiu: 226733.

Havia ganho uma quantia que nunca suporia ter. Foram depositados 4,5 milhões em sua conta no Banco do Brasil. Era uma boa, excelente gaita. Mais do que corresponde à nossa moeda atual?  O que primeiro fez, foi dar 40 mil para o vendedor do bilhete premiado, que ficou felicíssimo, deu também um pouco para alguns familiares necessitados, algumas instituições carentes e com os 4,2 milhões restantes, comprou uma fazenda de 400 hectares e entrou de sócio, em uma firma que vendia implementos agrícolas, ração, produtos e medicamentos para animais de grande porte e pequenos também. Finalmente, resolveu casar-se com aquela que era a luz de sua vida, a razão de sua existência, a quem namorava há 7 anos. Sua situação econômica estabilizou-se em um nível suficiente para encarar a vida ainda melhor e ter seus filhotes.

Continuou muito querido na cidade, jogando futebol, tipo soçaite, até os 68 anos. Quando completou os 70, raso, deu uma grande festa no clube, convidando amigos da cidade que eram muitos, da infância, da escola, faculdade e foi uma farra, inesquecível!

Todavia, como tudo pode acontecer na vida, aos 77 começou a ter falha acentuada em sua memória, que rapidamente decresceu, sendo tomado pelas mãos do hoje conhecidíssimo Dr. Alemão, o Alzheimer. Tornou-se uma coruja, que abre bem os olhos, presta muita atenção, mas não entende mais nada.


 CiCí  ou Ciça,  continua vivo, mas........que pena, para ele e para todos que bem, o conheceram!

Vontade de Ficar - José Vicente J. de Camargo



Vontade de Ficar
José Vicente J. de Camargo

Sol ardente amortece o corpo
Mar translúcido ao banho atrai
Refrescantes ondas atiçam a alma
A rimar do vento palavras soltas.

A alegria da volta aos textos meus
Sucumbir se deixa a natureza forte
Obedeço assim à frase mestre:
"Viva hoje intensamente,  Amanhã a Deus pertence".

Próximos dias serão de momo, pierrôs e arlequins 
E como serpentina volante
Rápidos alegres passarão 
Empurrando o reencontro para a paz quaresmal.
Minha culpa então pagarei 
No prazer duplo do atrasado abraço.

Diz a Mestra que a poesia terá 
No Escreviver maior presença 
Sendo assim início nesta
Minha saudosa lembrança

A aniversariante Suzana
Beijinhos salgados envio
Desejando que a paz e o calor
Que com carinho me envolvem
Lhe sejam fiéis companheiros...

Do amigo Vicente 
Da praia de Itamambuca.
02/02/16