AUDIOLIVRO: "A Cartomante", de Machado de Assis e Texto



A Cartomante
Machado de Assis

HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...

— Errou! - interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

— Onde é a casa?

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. 

Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.

Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.

Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis.

Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di feminina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas.

Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.

Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.

Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento:
— a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela.

"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?

Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.

Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.

Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua.

Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia.

A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar. Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ?

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada.

Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante.
Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos.

Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...

— A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.

— As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada.
Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

FIM

O CIRCO - Jeremias Moreira

O CIRCO
Jeremias Moreira

A garotada do bairro ocupou as abandonadas quadras do antigo clube de tênis e transformou num campinho de futebol. Estavam numa pelada animada quando o Telê chegou esbaforido:

- O circo chegou! O circo chegou!

A cinco quarteirões mais abaixo, num descampado, onde o rio Canoinhas forma uma pequena cachoeira, se instalam os circos e os parques de diversão que passam pela cidade. É costume a garotada ajudar na instalação e assim ganhar ingressos para os espetáculos. Alguns até conseguem uma boquinha como vendedor de pipoca ou maçã do amor durante as apresentações. Por isso, o anúncio do Telê pôs fim ao jogo de bola. Todos correram para lá. Viram surpresos que o Circo do Palpitoso estava de volta. O Palpitoso é um palhaço muito engraçado e esteve na cidade, com seu circo, há cerca de um ano. O Pança lembrou que foi num espetáculo com sua avó Zulmira e que ela quase morreu de rir das palhaçadas do Palpitoso.  Num dos skets ele entrou no picadeiro vestido de bebê. Usava uma fralda de bolinhas, presa por um enorme alfinete vermelho, uma chupetona na boca e arrastava um pinico gigante. No meio do picadeiro, sentou-se no pinico, que quase o engoliu, depois se levantou, correu em direção ã sua avó e jogou o conteúdo bem em cima dela. Ela levou um tremendo susto, mas recebeu com alegria uma chuva de confetes.  Dona Zulmira riu tanto que até saíram lagrimas dos seus olhos.

Quem também apareceu à procura de um trabalho extra na banda, foi seu Xexéu. Ele toca sax e já é figurinha fácil na casa. Sempre integra as bandas dos circos que passam por Ribeirãozinho.

De quem os meninos gostam mesmo é da Sarita, filha do Palpitoso. Ela é ambivalente. Exibe-se no trapézio, faz acrobacias sobre um cavalo e canta. Quando ela aparece montando Castelo, seu cavalo alazão,  faz misérias pelo picadeiro. É tão perfeita a sincronia entre ela e o cavalo que é como se fossem um só corpo. Com exceção de quando canta, ela usa um biquíni franjado que deixa aparecer seu corpo bem delineado e leva a molecada à loucura. Uma coisa que intriga os meninos é que em cada numero ela aparece com o cabelo de uma cor. Uma hora é vermelho, na outra é azul, depois amarelo. Quando na verdade ela é morena e de cabelo bem preto.

No meio do corre-corre da montagem do circo, os meninos avistaram Sarita entrar no seu trailer. Apostaram quem teria coragem de ir falar com ela. Desinibido, Cadu se ofereceu e foi. À distância, os outros viram Cadu bater na porta, Sarita aparecer, ele falar alguma coisa e ela aceder. Em seguida, Cadu virou-se para a turma, deu uma piscadela sacana e entrou atrás atrás dela. Dentro do trailer, enquanto Sarita autografava sua foto, ele viu diversas cabeças de plástico, cada uma com o cabelo de uma cor. Eram as perucas coloridas que Sarita usava e que eles, meninos do interior, ignoravam existir.


Cadu voltou com a foto de Sarita autografada e azucrinou os amigos. Com ar malicioso, fez mistério do que aconteceu dentro do trailer.

VIDA DE RAINHA - Oswaldo Romano


VIDA DE RAINHA
Oswaldo Romano           
                                                                  
        Piva era o fotógrafo da rainha. Lógico que não ficava clicando o dia todo. Tinha muitos momentos de folga, e em alguns deles sob uma frondosa árvore junto à piscina, dedilhava seu sax. Tinha que dar um tempo, por que exagerando, suas notas aborreciam a rainha de ouvir horas seguidas suas músicas.

        O mesmo não acontecia com o Piva. Quando não fotografava, quando não dedilhava seu sax para os sensíveis ouvidos da rainha, estava junto à cachoeira com sua música disputando sons com o desenrolar das águas.

        O rio formado segue suplantando qualquer que seja o caminho, e vai chegar ao destino de todos. Não desiste. Vai deixando gravetos nas suas curvas, que nelas pousam, movimentando-se como o bicho preguiça, mas movimentando-se.  Com ou sem pressa corre para alcançar o mar.  

        Mesmo com o grosso volume das águas, sua chegada é repudiada pelas ondas teimosas, intermitentes. Nos seus encontros, brigas de mutuas alfinetadas fazem com que os guias turísticos vibrem, envolvendo  seus convidados que enlouquecem com o barulho das pororocas.

        Entre as palmas, um delicado aplauso vinha  da comportada rainha, que deixando seu castelo, acompanhada dos seus súditos paramentados a protegia. Ali chegou trazida acomodada na liteira, pois o mirante era muito alto. Descortinava uma invejável vista. A esquerda mostrava os últimos traços do caudaloso rio que sofria ao ter sua liberdade tolhida pelo mar a sua espera. Com suas forças o rio investia certo de que venceria, assim como venceu até então, bailando morros, curvas e as aguas mortas das lagoas adormecidas.

        O espetáculo trouxe a torcida unânime a favor do rio que parecia frágil diante da imensidão daquele mar. No mirante, desprotegidos dos ventos que sibilavam e eriçavam os cabelos, dando-se por satisfeitos, os turistas levantaram  ancoras.

        As lágrimas que escorriam de alguns, nada mais eram do que as  chamadas de crocodilos. Todas  eram provocadas pelas rajadas dos irritadiços ventos.


        Satisfeita, a rainha retornou para seu castelo e acomodada no seu divã quis ouvir o seu momento de sax tocado pelo excelente Piva.

A CORAGEM DA DONZELA - Mario Tibiriçá


A CORAGEM DA DONZELA
Mario Tibiriçá

No reinado do rei Don Carlos  Fuentes  y  Morris, como tradicionalmente, aos  favoritos sempre eram concedidas benesses, títulos, terras e castelos.

Don Sebastian Tejada y Lorenzo, Duque de Albuquerque que gozava de amizade próxima de El Rei, pois fora seu ministro competente, solidário, leal e honesto , foi aquinhoado com vastas terras no vale  Verde, lugar de  florestas e abundantes campinas, além do maravilhoso castelo. Pradarias  com linda relva, levavam  passeios às cachoeiras, e  á pequenina aldeia  de súditos  fiéis.

O castelo monumental, com  muralhas seculares, ponte levadiça, seteiras, torres e  portões fortificados, cercado pelo tradicional  fosso,  oferecia segurança  total contra malfeitores e eventuais vândalos e sobretudo contra inimigos do rei e do regime.

Dotado de todo o conforto da época, o castelo tinha suas louças e cristais  vindos diretamente do  condado francês  de Sax.

Após a posse, Don Sebastian, promoveu um grande banquete, oferecido  à corte,  quando estariam presentes duques, príncipes, princesas, o arquiduque  da Áustria,  a monarquia  inglesa  e a família  real holandesa.

A homenagem ao rei, levou à família do Duque de Albuquerque,  intensos preparativos e ficou célebre em todo o reino, motivo de risos, vergonha,  e desculpas  à coragem  da filha  primogênita do Duque, que no beija mão ao rei, teve um alfinete de ouro, aberto, que provocou cabelos desgrenhados, lagrimas doloridas, e  soltou  presilhas do corpete, deixando seios a mostra.


Embora chorando, a jovem manteve a dignidade que só membros  de famílias da realeza possuem.


A Cigarra e a Formiga Mario Tibiriçá.


A  CIGARRA  E   A   FORMIGA
Mario Tibiriçá

Num  dia de  verão estava a  Cigarra em seu  Jaguar conversível, “verde inglês”, flanando na rua Augusta, quando observa a  Formiga, sua recatada amiga desde a mais tenra idade, próxima  ao meio fio.
Aproximando-se pergunta:

— Como vai formiguinha, há quanto tempo? Saudade, tudo bem com
você?

Formiga arregala seus estrábicos olhinhos e   suas pupilas  se dilatam por antecipação à sua inveja, respondendo sem rodeios:

— Bem?! Como poderia?  Não é mesmo esta,  uma amaldiçoada  vida, um vale de lágrimas, uma  nau sem  porto?!  Ah! Só trabalho duro de escrava, problemas, sofrimento e labuta diária. Filhos pequenos, faxina da casa, supermercados, lavar, passar, e por  ultimo o que  faltava, grandes enchentes no bairro  face a implacáveis chuvas. Por outro lado, ainda de quebra, nos finais de semana, ajudo meu marido Manoel, a atender  o bar.

A Cigarra emudece  e o  espesso silêncio incomoda, embora Formiga
sustente  o olhar.                            

— Sabe querida,  namoro  um  texano, até  bonito. E vamos  passar uma temporada  em  Nova York. Assistiremos  no Lincoln Center: Puccini, Verdi,  Mozart e Wagner. “A vida é uma musica!”  e cantá-la é viver !!!!  Hospedagem no requintado PIERRE!  Muita alegria! Você  teria alguma encomenda, quer alguma coisa de lá?

— Não, não, não quero nada mesmo! - diz  a Formiga amuada.
                                
Como o relógio não dorme, o tempo passou, tênue para  a alegre Cigarra,  porém pesado e terrível para pobre formiguinha.

Meses  mais tarde  as amigas se reencontraram. Cigarra com um remorso branco, ainda mais branco que seu lindo Bentley novo, abraça  Formiga com afeição.

Visto que a mentira não tem  ninho, fala sem pretensão...

— Estou de namorado novo e partindo para Paris, não  poderemos perder a grande temporada de Balet na Ópera....o Plaza Athenè e os seus lindos gerânios  vaidosos que  pincelam de vermelho a Avenue  Montaigne. Quer alguma coisa de lá meu bem?

— Não quero nada não! - afirma Formiga – Mas, gostaria de um pequeno favor. Se encontrar por lá um tal  La Fontaine, mande-o  À MERDA, por favor.

Monsieur La Fontaine repousa desde 1695 no cemitério “Pére de la Chaise”

A tia Betha - Fernando Braga



A tia Betha
Fernando Braga

         Era 1960, tive o grande, o enorme prazer de conhecê-la. Foi quando pela primeira vez entrei em casa de minha namorada, que sete anos após, seria minha esposa.

Aos poucos, fui conhecendo um a um, todos os familiares. O maior contato foi com minha sogra, viúva, pessoa extremamente boa e simpática. Todos me aceitaram muito bem sem seu meio e dentre elas, estou falando agora da tia Betha, senhora de uns 55 anos, que naquela ocasião já me pareceu bem idosa. Naquela época sendo eu um jovem de 20 e poucos anos, qualquer pessoa com mais de 40 já parecia idosa.

        Ela raramente saia da cozinha,   e era muito, muito querida pelas três irmãs, um irmão, todos solteiros, que moravam naquela casa, além das duas sobrinhas, das quais uma era minha namorada.  

No começo eu era convidado para o almoço aos domingos, mas com o tempo e na minha condição de morar sozinho em São Paulo, comparecia quase infalivelmente, às terças, quintas e sábados para jantar, comida feita por Betha e minha querida sogra. Sempre que frequentava aquela casa me chamava a atenção ver Betha na cozinha, quieta, tranquila, sempre com um sorriso nos lábios, tratando todos muito bem, com carinho e sempre disposta a ajudar.

 Por ocasião das festas natalinas a casa se transformava em um teatro de alegria com a chegada de mais seis irmãs e um irmão, todos casados que moravam alhures. Naquele ambiente de alegria, com pouca bebida, cantoria, discussões futebolísticas e após minha entrada, de jogatina, o que mais eu observava   era a atenção dispensada à tia Betha, considerada como uma verdadeira mãe, além da ser a melhor cozinheira do mundo. Tratava-se de uma mulher simples, sem qualquer pretensão, desarmada, que sempre mantinha o mesmo tom de voz, nunca discutia ou brigava.

        O tempo correu e assim foi durante muitos anos, pois continuamos indo, sempre aos domingos, agora com meus quatro filhos, apreciar a bela macarronada e quitutes feito por ela. Nunca namorou, nunca teve um pretendente, nunca teve um homem em sua cama.

Em 1985, quando fez 80 anos, oferecemos a ela uma grande festa em nossa casa, com a presença de todos os familiares, que sem exceção, vieram prestigiá -lá, demonstrando todo o carinho e amor, que aquela mulher merecia, por anos e anos de dedicação aos outros. Em 1998, agora com 93 anos veio a falecer, morrendo como um passarinho, quieta e sem incomodar ninguém.

       Logo após sua morte, veio, com muita surpresa, minha mulher comunicar-me que haviam achado dentre os poucos pertences da tia Betha, um diário escrito por ela. Conseguimos ter em mãos este livro que estava em precárias condições, com as folhas bem amareladas e gastas. Nunca ninguém poderia supor a existência deste registro, escrito desde a época em que viveu na Itália. Seu pai era um engenheiro e sua mãe do lar. Como não tiveram o beneplácito das famílias, fugiram para se casar e logo nasceu a Elizabetha. Viveram em uma pequena vila do interior do país, mais precisamente Pescopenataro.                                        
                              
        Em 1910, seus pais vieram para o Brasil, para Jaú, onde ele veio juntar-se a seu irmão e um com o capital e o outro com os planos de construção, formaram uma bela dupla. Todavia, Betha , com apenas cinco aninhos permaneceu na Itália, morando com sua avó, muito querida, que não queria separar-se dela. Aprendeu a ler e escrever, e desde pequena, a cozinhar e mesmo costurar. Amava sua avó.

      A Itália entrou na primeira grande guerra, tornando-se muito difícil sua vinda para o Brasil, para juntar-se à sua família. Conta, ainda pequena, de sua agrura, medo e dificuldades de seus avós durante a guerra. As cartas não chegavam e nada se sabia tanto de um lado como do outro.

       Logo após o término da guerra, com 13 anos conheceu Giovani, de 17 anos, um rapagão, filho de um vizinho, que atingiu seu coração com algo estranho e bom, que só podia ser o amor. Furtivamente, encontrava-se com ele, pegavam na mão e ocasionalmente um beijo. Mas nada, além disto. Nada contava para sua avó, com medo de tudo se estragar.

       Eis que um belo dia, em 1919 recebe uma carta de seu pai, dizendo que sua passagem estava paga, para sua vinda ao Brasil. Sua avó quase morreu de insatisfação! Ela também não gostou, pois estava apaixonada por Giovani e ele por ela, mas tinha apenas 14 anos! Chegaram a planejar uma fuga para ficarem juntos, mas como? Se não tinham nada para sobreviver naquele tempo difícil de pós guerra. Muitos italianos estavam imigrando para o Brasil e assim, foi levada para pegar aquele vapor em Napoli com destino a Santos, em companhia de uns conhecidos. Quase não teve tempo de despedir-se de Giovani, mas durante toda a viajem de uns 30 dias, escreve folhas e folhas sobre sua perda, mais querida.

Escreve que, aproximando-se do porto de Santos, tinha dificuldade em relembrar como era o rosto de sua mãe e o perfil de seu pai. Quando desembarcou em terra firme, logo percebeu a presença de ambos e correu, atravessando por baixo de uma corda, para abraçá-los e beijá-los. Descreve sua ida para à São Paulo em uma estrada, rodeada por imensa mata! Aquilo era o Brasil, país com índios. Em São Paulo, pegaram um trem e depois uma jardineira para chegar em Jaú.

Chegando em sua casa, conheceu suas três irmãs e um irmão, que aproximaram-se acanhadamente. Escreve ela que no dia seguinte, sua mãe pegou em sua mão, levou-a até a cozinha e disse:

— Agora você vai ter que me ajudar na cozinha, e a criar seus irmãos.

Seguidamente, nasceram mais sete, seis outras mulheres e outro homem, onze no total.

 Sua mãe, agora diabética e após ter tido erisipela, já não era a mesma, e foi assim que Betha teve que assumir a cozinha de uma vez e a criação de seus irmãos, além de cuidar carinhosamente de sua mãe. Nunca se queixou. Soube mais tarde que Giovani havia se casado e que mais tarde em 1944 morrera em uma campanha de guerra no norte da África. Lembrava dele como um sonho que passou, mas descreveu que ele havia sido seu único e perfeito amor, mesmo sem sexo.

— Solamente una vez, ame en la vida! - cantava ela. Fala de sua tristeza ao perder seus avós da Itália. Em 1950, mudaram-se para São Paulo, após seu pai ter tido problemas com seu irmão, que o estava roubando. Nesta altura, um dos seus irmãos já era advogado, o outro dentista, e das nove restantes, seis haviam se casado, das quais uma ficou logo viúva, a mãe de minha mulher. Tudo escrito em seu diário.

 O último episódio descrito, foi o dia da festa de seus 80 anos, com o prazer de ver todos seus familiares   presentes, os ainda vivos!   Não mais escreveu.


Deus guarde a tia Betha que, cá entre nós, devia ser canonizada, como o foi Sainte Francis of  Rome.


A FUGA - Jeremias Moreira




A FUGA
Jeremias Moreira

O café da manhã era servido após a missa, obrigatória a todos, e que acontecia às seis e meia. As aulas começavam as oito. Dessa forma, sobrava em torno de trinta minutos para uma espécie de primeiro recreio. Assim começava a rotina no Colégio São José, na pequena cidade de Engenheiro Schmidt. A instituição era administrada por padres espanhóis da Congregação de Santo Agostinho.

Havia, entre os alunos, uma hierarquia tácita de que os do quarto ano gozavam de privilégios sobre os demais. Depois era a vez do pessoal do terceiro ano, em seguida, a do segundo e, por último, a do primeiro. E, quem estava abaixo era apelidado, pejorativamente, de “escolinha” do pessoal das hierarquias superiores. Assim os alunos do terceiro ano eram “escolinha” do pessoal do quarto; os do segundo, “escolinha” do pessoal do terceiro e do quarto; e os do primeiro, “escolinha” de todos. Essa hierarquia era exercida em qualquer acontecimento, principalmente nas filas para o refeitório. Quem entrava primeiro escolhia o que havia de melhor, embora não houvesse diferença no que era servido. Mas, havia a sensação de que os demais ficavam com as sobras.  

Por dois anos seguidos Alexandre, o Alê, não conseguiu ser aprovado no exame de admissão ao Ginásio Estadual de Taquaritinga, sua cidade. Ninguém percebeu que ele portava certo grau de dislexia e, por isso, cometia muitos erros de ortografia. O exame de português era eliminatório, então ele ficava reprovado por isso. Alê era o filho temporão de uma prole de cinco. O histórico escolar dos demais era brilhante. Sempre estiveram entre os melhores de suas classes. Mas, esse caçula, em se tratando de estudos, acumulara todas as falhas que os outros não tiveram. Desanimado com o filho, seu Osório achou que a solução seria mandá-lo para um internato. O Colégio São José foi o escolhido. Se o Alexandre fosse um garoto de porte físico normal deveria ter o tamanho dos meninos do segundo ano, que tinham sua idade. Mas, ele era um garoto avantajado. Aos doze anos, aparentava quatorze. Por isso foi designado para o dormitório dos maiores e, no refeitório, a sentar-se a mesa dos alunos do terceiro ano. Como ele era “escolinha” de todas as outras séries, segundo a hierarquia, era sempre o último a chegar.

Acessava-se o refeitório por um extenso corredor. Os alunos formavam duas filas e caminhavam rentes a cada uma das paredes. Baluarte da ordem, sempre um padre postava-se entre as filas. Rebelado por ser sempre o último, às vezes, quando o padre estava de costas, Alê ultrapassava alguns meninos e ganhava posições. Ninguém reagia por medo do padre. 

Nessa manhã friorenta, esse papel coube ao padre Luciano, que se virou bem no momento em que Alê executava a costumeira manobra.  O padre manteve-se impassível até que Alexandre o alcançasse. Então, o puxou pelo casaco, o tirou da fila, deu-lhe um forte tapa no rosto e o mandou para fora. Surpreso e humilhado com a brutalidade do padre, Alê pôs-se a chorar. Enquanto voltava em sentido contrário e era observado pelos colegas, sua dor transformava-se em revolta. Quando atravessou a porta e encontrou-se sozinho no pátio já não chorava mais. Sentia ódio. Lembrou-se de que as sete e quarenta havia um trem com destino à São Paulo, que passava em Taquaritinga. Determinado, saltou o muro e correu para a estação. No trajeto ouviu o apito que anunciava a partida do trem. Acelerou a corrida e ultrapassou a plataforma da estação com o comboio já em movimento. Emparelhou-se à porta do último vagão e deu um salto para agarrar-se ao corrimão. O forte impulso levou seu corpo para frente e o fez bater com o rosto no corrimão da porta. Machucou um dente, que se pôs a sangrar. Toda sua manobra foi acompanhada pelo pessoal da segunda classe, que olhava pela janela e torcia por ele. Alguns foram até a plataforma do vagão ajudá-lo e dar-lhe as boas vindas.  Foi afetuosamente acolhido por essas pessoas que tinham um jeito estranho de falar.  

O vagão todo era ocupado por nordestinos que migravam para São Paulo. Era gente muito simples. Famílias inteiras, casais, crianças e idosos que deixavam para trás um sistema feudal, opressor e estavam em busca da esperança. Alê contou o acontecido. Estranharam. Os padres que conheciam não agiam assim. Ao contrário lutavam por eles. Às vezes até enfrentando senhores de terras. Perceberam pelas roupas que Alê era de outra classe social, mesmo assim o acolheram. Convidaram-no para o carteado. Jogavam baralho para passar o tempo. Nesse instante Alê lembrou-se de que estava sem um tostão. No estado de revolta não pensou no dinheiro. Preocupou-se com o guarda ferroviário, pois não tinha passagem e nem como pagar. Armaram um estratagema e cada vez que o fiscal passava picotando as passagens, escondiam Alê. Enquanto jogava, ele ouviu muitas histórias de vida. A exploração do trabalho, a seca e a fome era comum a todos elas.

Pouco depois que Alexandre saiu do refeitório o padre Luciano foi busca-lo. Não o encontrou em lugar algum. Deduziu que fugira. Imediatamente acionou dois serventes. Na estação souberam de um garoto que saltara para o trem em movimento e, por pouco, não caíra nos trilhos. Só podia ser o Alexandre, deduziram. A notícia de sua fuga se espalhou pelo Colégio. Os alunos comentavam gabando sua coragem. De uma rodinha para outra seu feito crescia. O assunto chegou ao padre superior, que se preocupou com um eventual litígio. 

Era um assunto grave que precisava ser tratado imediatamente e com habilidade: -- “E, se o garoto não alcançasse a porta e caísse sob o trem? Em que situação ficaria o Colégio?” – preocuparam-se! Ligaram para Osório, o pai, em Taquaritinga! Ele comprou a versão contada pelos padres e foi esperar Alexandre com a decisão de levá-lo de volta no trem que passava, uma hora depois, em sentido contrário.

Alexandre desceu do trem agradecido àquela gente sofrida, que já ouvira chamada, pejorativamente, de cabeça chata, e que, naquele momento, fora tão solidária a ele. Para a compreensão de um menino de doze anos, essa viagem se tornou uma aula sobre o contraste social do país. Quando pisou na estação de Taquaritinga, certamente, estava mais maduro. Viu surpreso o pai, que o esperava. Leu em sua expressão o veredito de culpa.  Tentou falar, mas o pai o impediu. Disse apenas que voltariam. Essa seria sua última chance. Se não tomasse jeito, ele que cuidasse da vida!

Chegaram a Engenheiro Schimdt no meio da tarde. A viagem de volta foi um grande sofrimento para Alexandre. Seu pai não falou com ele durante todo tempo. No entanto, no Colégio o clima foi outro. Foi recebido com cordialidade pelos padres, que minimizaram o ocorrido.
Com Alê, seu pai manteve a frieza. Quando partiu, sua fala foi mais uma reprimenda do que despedida. Com o coração na mão, Alê viu o pai se afastar. Angustiado, voltou para o pátio.


Foi entusiasticamente recebido por todos! Na ovação, não existia “escolinha”! Sentiu em cada um dos colegas, um olhar de respeito!  

UMA HISTÓRIA DE AMOR - Oswaldo Lopes


 

                 UMA HISTÓRIA DE AMOR
Oswaldo Lopes

                 Como escrever uma história de amor nova e com metáforas? Difícil, não pelas metáforas, se agente não as tem, inventa-as. O problema é ser original. Se o fim é triste ou trágico é Romeu e Julieta ou o amor de Pedro por Inez, se acaba bem é Cinderela ou Branca de Neve. Se quiserem uma de nosso tempo é a de Charles e Dianne. Na música sertaneja a Cabocla Tereza conta uma linda história de amor que acaba em traição e morte

                 Thomaz era ouvidor e poeta. Poeta interessante diga-se. Marilia era moça solteira e solteira morreu, ele casou do desterro. Encontraram-se no Panteon da Inconfidência mesmo assim em salas separadas. Cláudio Manoel da Costa, bom poeta também, satírico, inteligente. Enforcou-se, ou melhor, foi enforcado na prisão. Sua mulher, Bárbara Heliodora, enlouqueceu e foi enterrada não se sabe aonde. Uma lápide em sua homenagem foi colocada ao lado da de Marilia (Maria Dorotéia) na famosa sala ao lado.

                 De trágicos amores se enche a memória, mas será que todo amor para ser grande precisa ser triste, como queria o poeta? Não foi o caso de Dorival Caymmi e Stela Maria, três filhos encantadores e uma vida juntos muito feliz.

                 Bem o nosso personagem se chamava Antonio. Não, não era aquele que ia casar com a filha de João, mas na hora agá Pedro fugiu com a noiva. Aliás, é melhor corrigir chama-se Antonio, porque não morreu e acabou tendo uma vida feliz com a amada Yolanda. Casal moderno ele analista de sistemas, ela arquiteta. 

Conheceram-se num restaurante de gente jovem, típico das ruas aonde há grandes escritórios. Comida de boa qualidade e não muito cara. Sentaram-se na mesma mesa por falta de espaços solitários o que é freqüente nestes lugares. Daí a conversarem foi um pulo. Quem puxou conversa? Ela. Tempos modernos, mulheres mais independentes e com mais certezas de vida. Longe ainda do que gostaríamos, mas pelo menos já é visível.

                 Antonio era mais tímido como é frequente ver nos dias de hoje. Não chegava a túmulo, mas era calado. Não pensem mal dela. Era conversadeira, mas não era chuchu que dá em qualquer canto. Enfim, casal dos tempos de hoje. Encontraram vários pontos em comum. Ele gostava de música caipira, afinal nascera em Sorocaba, ela também gostava. Música clássica ela até entendia e ele gostava. Foram a consertos da OSESP, como convinha a casais jovens que não têm muito dinheiro para gastar. Livros liam certamente, mais de um por ano. Ele na história e ela no romance. Filmes? Juntou-se a fome com a vontade de comer. Não suportavam os filmes mais atuais de games, de ações e efeitos fantásticos. Cinema mais intimista era com eles, não necessariamente europeu. Ela gostava de Woody Allen, ele detestava. Eram absolutamente normais como se vê.

Fizeram planos e nos planos apareceu um apartamento, como ganhavam relativamente bem conseguiram um bom financiamento e o prédio ficou pronto. Comunicaram aos pais, que hoje não tem mais aquela história de pedido de casamento, apresentar o noivo a família etc.

Após curta viagem foram morar no apartamento,  e a vida seguiu seu rumo. Dois filhos, um casal como convém, um amor sincero e justo e a vida por construir.

Competentes, cada um no seu ramo, não tinham grandes dificuldades financeiras. Tiravam férias e não carregavam pedras à lá Sisifo. Quando os filhos estavam dormindo gostavam de ver a lua cheia na varanda, no meio do silêncio que a hora e a altura permitiam. O que os diferenciava de outros casais para merecerem ter uma história própria. Tinham consciência de sua felicidade e sabiam por que caminhavam para um final feliz.

Um grande amor não precisa necessariamente ser triste nem jogar água para fora como o Rio de Piracicaba.

Antônio e Yolanda pareciam comuns, mas não eram. Uma luz muito forte saia deles e, acreditem, nem o carro de Apolo, brilhava tanto.

  Um final feliz ou como dizem os cínicos:
 Final feliz é apenas uma história que não chegou ao fim.

NINGUÉM QUERIA VIOLAR AQUELE BAÚ - Oswaldo Romano


NINGUÉM QUERIA VIOLAR AQUELE BAÚ
Oswaldo Romano        
                                                                         
            Meus pais são casados e felizes há quase trinta anos.

            Os filhos cresceram, enquanto eles, que perderam os velhos, o avô com 85 anos, e a mãe aos 74, nos contavam passagens de suas vidas.

            Quando falavam do meu avô, o velho Abreu, um líder de toda família, maestro condutor dos familiares e os excelentes negócios que criara. Conforme o rumo da conversa, tomavam cuidado com as pessoas presentes e com as palavras. Não me pergunte por quê.

            No período em que exerceu a profissão de coletor do Estado, meu avô Abreu, entre 1.928 a 1.939, era personalidade respeitada na pequena cidade de Brotas. Respeitada, mas olhada de viés pela maioria dos Brotenses, que o via com desdém, pois era o cobrador dos impostos.

            Cumprimentado, ele do lado oposto os mirava com aquele sorriso que lançava escárnio. Seu sorriso mandava a mensagem: — Ainda vou te pegar...
            Foi nesse tempo que escreveu seu diário secreto guardado a sete chaves num pequeno baú que ficava no escuro porão da casa.

            Ninguém quis violar aquela caixa desbotada. Sempre foi dito tratar-se da guarda das coisas de somenos importância, próprias do coletor e mania de gente idosa. Questionada minha mãe dizia não precisar do baú para conhecer segredos do seu sogro. Ele sempre foi uma pessoa aberta.

            Meu avô, mesmo depois de morto, suas regras eram respeitadas.

            Flávio um primo, certo dia, mostrando profunda curiosidade, com vontade de aprontar alguma, convenceu-me violar o intocável baú no escuro e medroso porão, a luz de vela.

            Encontramos moedas esparramadas entre muitos  papeis. Elas foram vistas bem no fundo, onde esperávamos encontrar, as de ouro.

            Pousado em um dos cantos estava um livro, mostrando na capa ser seu diário. Sujo e embolorado como pão úmido envelhecido. Ao pegá-lo senti a estranha sensação de estar em vias de se dissolver, mas cuidadosamente o segurei.

            Vasculhando-o, víamos os trambiques que o fez rico. Era um corrupto, compartilhava com os devedores do Estado. Não precisava esconder. Esse fato era notório. Qual seria então o segredo que demandava tanto cuidado com seu baú cheio de papeis?

            Virando suas páginas, parávamos em fatos mais inusitados, a maioria sobre assuntos financeiros, seus resultados, contratos de gaveta, os devedores de suas investidas.

            Raras escritas contavam fatos corriqueiros, brigas de família, entre elas uma muito séria com seu filho Pepe que não queria aceitar tão cedo o casamento, embora gostasse muito da namorada. Essa história, um tanto estranha nos prendeu, esquecemos as horas, já anoitecia.

            Nasce uma explosão de curiosidade e espanto!

O velho descreve um caso secreto com Joana, sua futura nora e o fato de tê-la embaraçada. Linda como era, convivendo amiúde com o filho Pepe, gostavam-se muito e foram impulsionados a logo se casarem. Um fato contribuiu. O avô, eivado, perturbado com os acontecimentos, teve um enfarte. O fato contribuiu para apressar o casamento, pois sua saúde estava periclitante e antes de uma nova surpresa queria apreciar essa união.

            — Meu Deus! Ele é meu pai! Pelas barbas do profeta! Meu avô, é meu pai! Sou um herdeiro direto e rico! Eu e meu pai ele é meu meio irmão e também sua irmã. Sou filho do meu avô!

            — Primo? Você é meu meio sobrinho.

            Ficaram conjeturando, a ficha caía, os dois abobados pensavam: — E a herança? Sim a herança! Que devo fazer? Primo me ajude? Não quero discórdia... Mas, ficar quieto?

            — Boa, primo! ou devo chama-lo de tio?

            — Não é hora para brincar... Sei lá. Primo! Segredo absoluto. Estou atormentado. Amanhã, com a cabeça fria, você vai me ajudar. Já estou montando uma decisão.


            — Por hora querer mais que a felicidade que tenho, quebraria a felicidade de tantos outros, outros que tanto amo.